Com claque e sem vaia

José Horta Manzano

Vaia 1Na virada do século 19 para o 20, a ópera andava muito na moda. Antes do disco, da tevê, do rádio e do cinema, espetáculo musical ou teatral tinha de ser assistido ao vivo. Dado que conjugava música com teatro, ópera fazia sucesso e atraía plateias populares.

Para aparentar sucesso de arromba e assegurar artigos elogiosos nos jornais do dia seguinte, cantores costumavam contratar uma claque. Era um grupo de mercenários incumbidos de aplaudir estrepitosamente o desempenho do artista por conta do qual trabalhavam. A um sinal discreto do chefe da tropa, choviam aplausos fenomenais.

Ao final do espetáculo, dirigiam-se os componentes da claque a um lugar discreto onde, em fila, se preparavam para receber o pagamento combinado. Antes de embolsar os cobres, passavam pela inspeção. Suas mãos eram palpadas. Só fariam jus ao soldo se as palmas estivessem quentes, vermelhas, sinal evidente de que haviam aplaudido com vigor. Hoje em dia, espetáculos ao vivo dispensam claque. Fazem sucesso sem estímulos forçados.

Aplauso 1Ontem, no entanto, assistimos a uma emocionante viagem ao passado. Para amenizar a saída inglória ‒ por debaixo da rampa do Planalto, diga-se de passagem ‒, dona Dilma recorreu ao antigo truque. Pequena tropa estava ali, constituída em boa parte de mulheres devidamente paramentadas de vermelho. Palavras de ordem foram regularmente escandidas aos brados. Aplausos e gestos enérgicos não faltaram.

Foi uma comovente volta no tempo, o coroamento apoteótico de uma era de regressão. Esperamos todos que, daqui pra frente, o Brasil volte a funcionar. Esperamos todos que a simbólica ressurreição da claque tenha significado o enterro do retrocesso.

A mídia não registrou a fila da palpação das mãos.

La donna è mobile

José Horta Manzano

Mulher é volúvel. Como pluma que esvoaça sem rumo, ela muda de ideia e altera o jeito de falar. Seja quando chora, seja quando ri, mostra sempre um rosto gracioso mas enganador. Pobre de quem confia nela, pobre daquele que, ingênuo, lhe confia o coração.

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Parágrafo terrível, não? Não é de mim, vou-lhes garantindo logo de cara. É a tradução, em prosa, dos versos de uma das árias mais conhecidas da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi (1813-1901).

Acredito que Signor Verdi não tenha muito que ver com as palavras que, na verdade, saíram da pluma do escritor Francesco Maria Piave (1810-1876). Embora tivesse facilidade para exprimir-se em prosa e verso, o veneziano Piave era especialista em construir libretos ‒ textos específicos para ópera.

Libretto 1Suas numerosas obras foram musicadas por compositores do quilate de um Saverio Mercadante ou de um Giovanni Pacini. Mas o maior de seus “clientes” foi, sem dúvida, Giuseppe Verdi. Foram parceiros não só na Traviata, mas também no Rigoletto, Simon Boccanegra, Macbeth, La forza del destino, para citar só as mais conhecidas.

Os tempos eram outros. Imagine o distinto leitor se um autor ousasse, nos dias atuais, publicar um texto como o que encabeça este post. Arriscaria processo pesado. Seguem, logo abaixo, os versos originais. Quem quiser recordar a ultraconhecida melodia pode procurar pela gravação do excelente tenor mexicano Ricardo Villazón.

  La donna è mobile
  Qual piuma al vento,
  muta d’accento
  e di pensiero.

  Sempre un amabile,
  leggiadro viso,
  in pianto o in riso,
  è menzognero.

  La donna è mobil’.
  Qual piuma al vento,
  muta d’accento
  e di pensier’!

  È sempre misero
  chi a lei s’affida,
  chi le confida
  mal cauto il cuore!