Sommerzeit

José Horta Manzano

Você sabia?

Já nos tempos da Primeira Guerra, o governo alemão teve a ideia de avançar os relógios durante o verão com o intuito de economizar energia. À época, o carvão movia a indústria e produzia eletricidade. Prevenir escassez era primordial.

Com altos e baixos, a ideia de instaurar a hora de verão se espalhou pelo planeta. Durante todo o século XX, numerosos países situados em regiões afastadas do Equador conheceram mudança de hora. Esporádica, a mudança valia por um ano, era cancelada no ano seguinte. E assim por diante, sem regularidade.

Nos anos 2000, o Parlamento Europeu decidiu oficializar e harmonizar a passagem anual à hora de verão. Desde então, a entrada em vigor se faz no último domingo de março e vai até o último domingo de outubro. Todos os países fazem a mudança no mesmo momento.

Estudos recentes, no entanto, têm revelado que os malefícios da mudança de hora são tão importantes ‒ se não maiores ‒ que os benefícios. A claridade que avança noite adentro perturba a produção de melatonina, o que retarda o adormecimento. A redução das horas de sono tende a aumentar a frequência de acidentes do trabalho e da circulação. As crianças, muito sensíveis ao fenômeno, apresentam problemas de concentração na escola.

Ao detectar o descontentamento, o Conselho Europeu botou no ar a mais importante consulta popular jamais lançada. Procurava conhecer a opinião dos cidadãos dos diversos países sobre a hora de verão. O resultado surpreendeu. Nada menos que 4,6 milhões de pessoas preencheram o questionário online. Dos participantes, 84% se declararam hostis à hora de verão. É maioria expressiva. Para reforçar o quadro, estudos indicam que a economia de energia assegurada pela hora de verão não chega a 0,5%. É coisa pouca.

Como no resto do mundo, a máquina administrativa da UE é um bocado lenta. Mas o assunto será apresentado ao Parlamento. Se o voto da maioria for parelho ao desejo dos que responderam ao questionário, a ab-rogação será pronunciada em breve. Não é impossível que, já em 2019, essa amolação termine.

Resta um detalhe a acertar: a escolha da hora definitiva. Guarda-se a hora de inverno ou a de verão? Ficou combinado que todos os países da UE terão de acatar a decisão do Parlamento. Se a hora de verão for revogada, todos terão de se conformar. No entanto, cada país será livre de escolher se guarda a hora de verão ou a de inverno.

Sabe-se que, no frigir dos ovos, os países se determinam com relação aos vizinhos mais importantes. Para facilitar as comunicações, os pequenos procuram se adaptar aos grandes. Portanto, tudo vai depender dos dois ou três maiores. França e Alemanha vão dar o tom: os vizinhos acompanharão.

Quem sabe esse movimento não inspira as autoridades brasileiras? Já está na hora de acabar com essa chateação de mudar de hora duas vezes por ano. Os ganhos são irrelevantes e os incômodos, significativos.

Sommerzeit = hora de verão (em alemão).

Ai, que preguiça…

José Horta Manzano

Há de ser birra minha, porque errado não é. Assim mesmo, continuo pasmo com o fato de numerosos escrevinhadores ‒ falo de profissionais ‒ não se preocuparem em fugir da rotina e do ramerrão. Gente de jornal, cujo escrito atingirá milhares de leitores, parece não estar nem aí, como se usa dizer.

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Compreendo que dá menos trabalho copiar ‒ ou, digamos, reproduzir ‒ o que já vem pronto. Pra que fazer se é tão mais prático comprar feito, não é?

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

O Brasil viveu, neste 9 de maio, mais um dia de república bananeira. Confirmamos, a cada dia mais, a veracidade do conceito que imaginávamos definitivamente banido: «O Brasil não é um país sério». Não se sabe direito quem lançou essa desagradável expressão. Seja quem for, havemos de convir que não estava longe da verdade.

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Voltando à preguiça dos que escrevem, reparei na manchete principal da mídia na manhã desta terça-feira. Uma sensaboria. Quase tudo igual.

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

O Estadão (SP), a Folha (SP), O Tempo (BH) usaram os verbos recuar, revogar e anular. A Gazeta do Povo (PR) e Zero Hora (RS) contentaram-se com revogar e anular. Mais econômico, O Globo (RJ) limitou-se a anular.

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

O riquíssimo Dicionário Aulete online ‒ de acesso gratuito, aberto a todos ‒ propõe mais de 800 mil verbetes. A linguagem repetitiva não se deve, portanto, a eventual pobreza vocabular da língua. Continuo acreditando que o problema maior é a preguiça. De quem escreve e de quem supervisiona.

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Vários verbos podem substituir recuar(1): voltar atrás, retratar-se, reconsiderar, abandonar, retrogredir, retroceder, fugir, ceder, desistir, recolher-se, reverter, retroagir, retrogradar, rever, retrosseguir, retrair-se. Há outros, basta procurar.

O mesmo vale para revogar. Conforme o caso, pode ser substituído por: extinguir, cancelar, abolir, eliminar, anular, suprimir, afastar, proscrever, retirar, apagar, subtrair, remover, abandonar, abortar, revocar, cassar.

Interligne 18cCulotte 3Curiosidade etimológica
A gente nem sempre se dá conta, mas algumas palavras de uso corrente derivam de raiz tabuística, daquelas que a gente não pronuncia na frente de senhoras de fino trato.

Falo de recuar, acuar, cueca, cueiro, culote. São todas derivadas de cu. Surpreendente, não?