Saudação militar

José Horta Manzano

Doutor Moro foi flagrado outro dia, ao lado do presidente da República, batendo continência durante uma cerimônia militar. Prestar continência é gesto inabitual para um civil. Ficou esquisito. Aliás, muita coisa esquisita anda acontecendo estes últimos tempos.

Voltando ao gesto de saudação, é curioso que nenhuma língua além da nossa use a palavra continência pra designá-lo. Todos usam alguma expressão girando em torno do tema da saudação militar: salut militaire (francês), salute (inglês), militärischer Gruß (alemão), saluto militare (italiano) & cia.

Entendo o motivo de haverem escolhido o termo continência. Ao fazer o sinal de saudação diante de oficial superior, o militar menos graduado dá mostra de submissão, comedimento, sobriedade, resguardo, temperança – qualidades sugeridas pelo termo continência.

Falando em sinal de saudação, ocorreu-me que a palavra sinal faz parte de extensa família. Assinar, assinatura, sinalizar, sinaleira, pelo-sinal, sino, sinete são todos parentes.

Um outro membro da família merece atenção especial. É senha, termo que, embora não guarde parecença, é da mesma tribo sim, senhor. Está aí outra peculiaridade nossa.

Enquanto a palavrinha senha, sozinha, nos basta, outras línguas não conseguem designar o mesmo fato com um termo simples. Vai daí, são obrigados a valer-se de expressões compostas de duas ideias que transmitem a ideia de «palavra a pronunciar pra poder passar». Password, mot de passe, wachtwoord, Passwort são alguns exemplos. E pensar que, apesar de nossa senha estar presente na língua há 400 anos, há muita gente por esse Brasilzão usando password. Pra dizer a mesma coisa.

Bem, gente, vejam como são as coisas. Começamos este escrito falando em doutor Moro e terminamos falando em senha. É que senha lembra privacidade. Privacidade lembra hackeamento. Hackeamento lembra doutor Moro. E o círculo se fecha.

Fiz um gato

José Horta Manzano

Gato escondido 2As coisas, às vezes, acontecem na hora errada. Aliás, para coisas indesejadas, nenhum momento é propício. Pelas 11 da noite de ontem, quando costumo dar uma espiadinha na internet pra saber das novidades, não consegui entrar no primeiro site. Tentei um segundo, e nada. Depois do terceiro site fora do ar, tive de reconhecer que o sinal estava interrompido.

Aqui em casa ‒ como é comum por estas bandas ‒, eletricidade, televisão, telefone e internet são fornecidos pela mesma empresa. Como é a fiação? Não sei. Talvez venha tudo pelo mesmo buraco. Técnica, física, matemática e mecânica celeste nunca foram meu ponto forte. Fato é que ontem, de golpe, perdemos internet e telefone fixo. Por sorte, a eletricidade e a tevê continuaram firmes e fortes.

Na Suíça, depois do horário comercial, assistência técnica é tão difícil de achar como agulha em palheiro. A melhor notícia que o «serviço de emergência» da fornecedora conseguiu me dar é que um técnico entraria em contacto comigo na manhã seguinte. Tá.

Gato 1Que fazer? Nada. Panes aqui são muito raras, o que faz que a gente não esteja preparado para elas. Só pra dar uma pequena ideia, nenhuma casa tem caixa d’água. Nunca se ouviu falar nesse apetrecho. Armazenar água em casa, para um suíço, soa tão fora de esquadro como instalar sistema de calefação em Manaus.

Eis senão quando me vem à memória que, anos atrás, por razão que ora me escapa, chegamos a utilizar, por curto período, o sistema wi-fi do vizinho de parede. Com anuência dele, evidentemente. Na época, ele gentilmente nos forneceu a senha de acesso.

Gato escondido 16Aquela situação excepcional durou pouco porque logo tomamos assinatura internet e nunca mais utilizamos o sem-fio do vizinho. Só ontem, no momento da pane, a coisa me voltou à lembrança. O velho laptop que usávamos na época, embora já aposentado, não foi jogado fora. Aqui em casa, ninguém se lembrava mais da senha do vizinho mas… o velho computador de colo, que bobo não é, não se esqueceu. Como o vizinho é assinante de outra empresa, seu sinal estava perfeito.

Retirada temporariamente da aposentadoria que gozava no porão, a maquineta ressuscitou. Aparentemente orgulhosa de voltar à ativa, mostrou seriedade ao captar sem problema o sinal do vizinho, armazenado em sua inesgotável memória. É verdade que a velha maquininha é de uma lentidão à qual não estamos mais acostumados. Mas é sempre melhor que nada.

Graças a ela, pudemos assistir, ao vivo, à destituição do Lula. Não foi um lapso. Para mim, dona Dilma não passou de comparsa desastrada. Os escorraçados foram Lula & caterva.

Fiz um gato que valeu a pena.

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Observação
O vizinho de parede, a quem deixo aqui meu agradecimento, mantém o apartamento montado embora raramente esteja por aqui. Estes dias, por exemplo, está de viagem.

Só para terminar: depois de 12 horas, internet e telefone voltaram.