Quem quer ser prefeito?
José Horta Manzano
Você sabia?
Estes dias, a França está elegendo prefeitos e vereadores (chamados conselheiros municipais). São dois turnos de votação espaçados por uma semana. Os candidatos que obtiverem pelo menos 10% dos votos passam ao segundo turno.
São muitas prefeituras. Em consequência do lento crescimento populacional ao longo dos séculos, o país conta com quase 37 mil municípios, a grande maioria com menos de 1000 habitantes.
Esses pequenos municípios são constituídos por casarios que datam da Idade Média, época em que cada povoado se bastava a si mesmo. Cada um sobrevivia com o que produzia. Eventos importantes eram as feiras, momento em que mercadorias eram trocadas ― cada vilarejo vinha vender seu excedente e buscar aquilo que não tinha condições de produzir.
Só para efeito de comparação, o Brasil, com 200 milhões de habitantes, está composto por menos de 5600 municípios. Isso indica a existência de ilhas densamente povoadas cercadas por desertos populacionais. Na Europa, diferentemente, a ocupação do solo é pulverizada.
Estas eleições francesas trouxeram uma curiosidade dificilmente imaginável no Brasil. Alguns pequenos municípios não têm nenhum candidato disposto a assumir a prefeitura. São 64 vilarejos onde está claro que ninguém quer saber de encrenca.
Cargo de prefeito de vilazinha dá muito trabalho. Além disso, o rendimento é pequeno demais. O eleito terá de cuidar de tudo, ouvir reclamações, servir de árbitro em conflitos de vizinhança, tudo isso sem deixar de exercer sua profissão, que seu ordenado não será suficiente para sobreviver.
Salário de chefe do executivo municipal na França é fixado por lei nacional e varia conforme o número de habitantes do lugar. Num vilarejo de 500 habitantes, o salário bruto será de 646 euros. Se o município abrigar entre 500 e 1000 habitantes, passa a 1178 euros.
Levando em conta que o salário mínimo nacional é de 1445 euros brutos, ordenado de prefeito de cidadezinha é realmente uma merreca. Por sinal, nem a paga de prefeito de cidade grande ― de mais de 100 mil habitantes ― é fabulosa: não chega a 4 salários mínimos.
Passada a votação, os municípios que ficarem órfãos de prefeito serão governados por um interventor nomeado pelo poder central. Até a próxima eleição.
Frase do dia — 123
«O Instituto Lula desmentiu que o ex-presidente tenha dito que a presidente Dilma Rousseff deu “um tiro no pé” ao dizer que aprovara a compra da refinaria nos EUA baseada em relatório “técnica e juridicamente falho”. De fato, não foi essa a frase. A expressão usada por Lula foi “tiro na cabeça”.»
Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 25 março 2014.
Super-regulação à francesa
José Horta Manzano
A lenta maturação que resultou no que hoje conhecemos como União Europeia deu bons frutos. O principal objetivo foi atingido: acabaram-se as guerras. Está pra fazer 70 anos que, nos litígios entre membros da União, não mais se recorreu às armas.
Um objetivo secundário muito positivo tem sido a harmonização. Até 50 anos atrás, cada país tinha peculiaridades: sua moeda, suas unidades de medida, suas normas técnicas. As discrepâncias não desapareceram de todo, mas o panorama se apresenta, hoje, bem menos acidentado que há meio século.
No entanto, vez por outra, alguma norma votada pelo parlamento europeu vai longe demais. São casos de super-regulação. Se é importante traçar linhas gerais, não convém exagerar no detalhamento, sob risco de sufocar o cidadão.
No final do ano passado, o Ministério do Trabalho francês decidiu aplicar com exagerado rigor uma diretiva europeia visando à proteção da infância e da adolescência. Proibiu que menores de idade trabalhassem «na altura». A intenção do legislador há de ter sido proteger adolescentes de cair de um telhado, por exemplo.
É louvável a preocupação do parlamento com a juventude. Mas é pena não terem levado em conta que nem só os telhados iam entrar no campo de aplicação da nova norma, mas também outras atividades bem menos arriscadas. Nos primeiros meses, ninguém se deu conta do problemão que estava armado. Agora, que a chegada da primavera cobriu árvores de flores, a ficha caiu.

Colheita de maçã
Nos meses de férias, milhares de jovens entre 16 e 18 anos procuram um bico temporário para ganhar um dinheirinho. Uma atividade bastante concorrida é a colheita de frutas ― a apanha, como dizem nosso amigos lusos. Maçãs, peras, cerejas, pêssegos dão em árvore, como todo o mundo sabe. Embora não sejam altas como mangueira ou abacateiro, as árvores frutíferas da Europa não permitem que se lhes alcancem os galhos superiores sem uma escadinha.
Escadinha? Opa, não pode! Para cumprir a lei com rigor, um adolescente não pode trabalhar nem em cima de uma cadeira. Como fazer? Os arboricultores estão muito preocupados. Daqui a alguns meses, chega a época de colher e a mão de obra vai faltar. Estudantes também estão decepcionados.
Talvez o Ministério do Trabalho volte atrás e anule o decreto. Não será fácil, dado que o orgulho das autoridades é às vezes mais forte que a razão. Se nada mudar, os jovens terão de se conformar com colheita de morangos, de abóboras e de legumes. Não precisa de escada.
Máximas do Barão ― 9
«Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
Rapidinha 23
José Horta Manzano
Não está à venda
Com a chegada da primavera no hemisfério norte, lojas de bricolagem & jardinagem constatam importante acréscimo de clientes. Quem tem um cantinho de terra vai em busca de sementes, terra vegetal, petrechos de jardim. Quem não tem ― a maioria ― contenta-se em levar algum vaso de flor para enfeitar o terraço.
Funcionários de um desses grandes estabelecimentos, situado na periferia de Bülach (região de Zurique, Suíça), tiveram uma surpresa estes dias. Descobriram que um casal de melros havia escolhido domicílio no alto de uma pilha de suportes para vaso de flor. Ali tinham nidificado.
O melro, espécie inexistente no continente americano, é um grande pássaro preto de bico amarelo alaranjado. Os espécimes maiores podem chegar a 30cm de comprimento e a 38cm de envergadura.

Melro
A direção da loja não titubeou: acolheu o pássaro sob sua proteção. Fez afixar um cartaz ao lado da pilha de engradados com os seguintes dizeres: «Por favor, contamos com sua consideração. Um pássaro está chocando aqui. Nossos agradecimentos».
Aquela pilha de mercadoria vai permanecer intocada até que os filhotinhos batam suas próprias asas.
É no Iraque?
José Horta Manzano
Você sabia?
Quais são as cidades mais violentas do mundo? Onde é que o número de homicídios é mais elevado? Assim, de supetão, a lógica aponta para o Oriente Médio ― Bagdá, Damasco. Talvez Cabul ou mesmo alguma metrópole africana, que a coisa por lá, às vezes, pega feio. Será?
Pois o Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y Justicia Penal, organização com sede no México, fez o estudo. Apurou minuciosamente o número de assassinatos cometidos no planeta em 2013. Em seguida, confrontou com a população de cada localidade. E acaba de publicar, para cada cidade, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes .
O resultado é assustador. Entre as 50 cidades mais violentas do mundo, não há nenhuma do Oriente Médio. Estão lá somente 3 africanas ― todas na África do Sul. E o resto? Pasmem: as outras 47 estão localizadas no continente americano.
Estão lá 9 do México, 6 da Colômbia, 5 da Venezuela, 4 dos Estados Unidos, 2 de Honduras. Outros 5 países contribuem com uma cidade cada um. Mas… a conta não bate. Para chegar a 50, faltam 16 cidades. E onde é que elas estão? Uma bala perdida para quem errar.
Yes! Estão no Brasil sim, senhor! Dezesseis cidades. Das cinquenta piores, uma em cada três é nossa. Um detalhe inquietante: sete dessas capitais violentas sediarão jogos da «Copa das copas». Welcome, mister!
Nessa lista das mais violentas, uma cidade sul-africana aparece na 41a. posição. É justamente aquela que homenageia Nelson Mandela, prêmio Nobel da paz e pacificador da África do Sul.
O destino, por vezes, tem umas tiradas desconcertantes.
Cidade País Homicídios Habitantes Taxa
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01 San Pedro Sula Honduras 1,411 753,990 187.14
02 Caracas Venezuela 4,364 3,247,971 134.36
03 Acapulco México 940 833,294 112.80
04 Cali Colômbia 1,930 2,319,684 83.20
05 Maceió Brasil 795 996,733 79.76
06 Distrito Central Honduras 946 1,191,111 79.42
07 Fortaleza Brasil 2,754 3,782,634 72.81
08 Guatemala Guatemala 2,123 3,103,685 68.40
09 João Pessoa Brasil 515 769,607 66.92
10 Barquisimeto Venezuela 804 1,242,351 64.72
11 Palmira Colômbia 183 300,707 60.86
12 Natal Brasil 838 1,454,264 57.62
13 Salvador Brasil 2,234 3,884,435 57.51
14 Vitória Brasil 1,066 1,857,616 57.39
15 São Luís Brasil 807 1,414,793 57.04
16 Culiacán México 490 897,583 54.57
17 Ciudad Guayana Venezuela 570 1,050,283 54.27
18 Torreón México 633 1,167,142 54.24
19 Kingston Jamaica 619 1,171,686 52.83
20 Cidade do Cabo África do Sul 1,905 3,740,026 50.94
21 Chihuahua México 429 855,995 50.12
22 Victoria México 167 339,298 49.22
23 Belém Brasil 1,033 2,141,618 48.23
24 Detroit EUA 332 706,585 46.99
25 Campina Grande Brasil 184 400,002 46.00
26 New Orleans EUA 155 343,829 45.08
27 San Salvador El Salvador 780 1,743,315 44.74
28 Goiânia Brasil 621 1,393,575 44.56
29 Cuiabá Brasil 366 832,710 43.95
30 Nuevo Laredo México 172 400,957 42.90
31 Manaus Brasil 843 1,982,177 42.53
32 Santa Marta Colômbia 191 450,020 42.44
33 Cúcuta Colômbia 260 615,795 42.22
34 Pereira Colômbia 185 464,719 39.81
35 Medellín Colômbia 920 2,417,325 38.06
36 Baltimore EUA 234 619,493 37.77
37 Juárez México 505 1,343,406 37.59
38 San Juan Puerto Rico 160 427,789 37.40
39 Recife Brasil 1,416 3,845,377 36.82
40 Macapá Brasil 160 437,256 36.59
41 Nelson Mandela Bay África do Sul 412 1,152,115 35.76
42 Maracaibo Venezuela 784 2,212,040 35.44
43 Cuernavaca México 227 650,201 34.91
44 Belo Horizonte Brasil 1,800 5,182,977 34.73
45 Saint Louis EUA 109 319,294 34.14
46 Aracaju Brasil 300 899,239 33.36
47 Tijuana México 536 1,649,072 32.50
48 Durban África do Sul 1,116 3,442,361 32.42
49 Porto Príncipe Haiti 371 1,234,414 30.05
50 Valencia Venezuela 669 2,227,165 30.04
As 16 cidades brasileiras estão assinaladas
Nome de gente
José Horta Manzano
A Europa e a Ásia são regiões habitadas há muito tempo. Agrupamentos humanos estabelecidos há milênios deram nascimento às cidades atuais. Com pouquíssimas exceções, os vilarejos e as cidades levam nomes tradicionais cuja origem se perde na poeira do passado.
As raríssimas exceções ficam por conta de nomes tais como Alexandria (homenagem a Alexandre, o Grande), Leningrado, El Ferrol del Caudillo, Stalingrado. Estas três últimas, aliás, após a queda do homenageado, livraram-se da artificialidade de carregar um nome inventado.
Assim, Leningrado voltou a ser São Petersburgo. Na Espanha, El Ferrol del Caudillo alforriou-se do ditador e passou a assinar O Ferrol. E Stalingrado, à beira do Rio Volga, adotou nome sugestivo: Volgogrado.
No continente americano, a coisa funciona de outra maneira. Especialmente no que é hoje nosso país, o povoamento autóctone não seguia o mesmo padrão do colonizador. Não havia nenhuma cidade. Os agrupamentos humanos eram de pequena importância. Vilas e cidades foram surgindo com a colonização, e seu batismo ficou a critério dos fundadores.
Em alguns casos, a toponimia tupi foi respeitada. Em outros, funcionou a criatividade dos fundadores. Característica dos países americanos em geral e do nosso em particular é o costume de darmos a cidades nome de gente. A mim, parece uma tremenda falta de imaginação. Essa prática deveria ser proibida por lei.
A Folha de São Paulo tirou do fundo do baú a história de um povoado do Maranhão profundo que teve sua denominação tradicional alterada 20 anos atrás ao desmembrar-se de Imperatriz. Sem que os habitantes fossem consultados, o novo município perdeu a tradicional e poética denominação de Ribeirãozinho. Sapecaram-lhe o nome do figurão que acabava de cumprir seu mandato de governador do Estado. Dizem as más línguas que a razão dessa enormidade é o fato de o figurão ser chegado ao clã Sarney. Seja como for, era personagem vivo, em carne e osso. Por sinal, ainda vive.
Se alguém achou absurdo, vai-se encantar com a ironia da situação atual. O governador que emprestou seu nome ao município vive hoje em Brasília, onde ocupa o cargo de Ministro de Minas e Energia. Pois fique sabendo, distinto leitor, que certos distritos da cidadezinha que leva seu nome… não dispõem de energia elétrica.
Se não fosse dramático, seria até engraçado.
Cartilha da Fifa
José Horta Manzano
Na mais recente edição de sua revista semanal, a Fifa tirou do forno, fresquinho e crocante, um manual à atenção de estrangeiros desavisados que porventura se arrisquem a visitar o Brasil por ocasião da «Copa das copas».
O Estadão não gostou. Chamou de «cartilha» o que não passa de um punhado de obviedades abordadas num tom jocoso. O jornal paulista chega a tratar a «cartilha» de polêmica. Só falta desafiar a Fifa para um duelo de cavalheiros, como derradeiro recurso para lavar a honra. Qual… O Estadão está a cometer um rematado exagero.
O artigo ― assinado por Flávia Lopes Sant Anna e pelo editor da revista, Thomas Renggli ―, não faz mais que repisar clichês sobre comportamentos habituais dos brasileiros. Alguns desses chavões, aliás, fazem parte do arsenal de qualidades das quais nosso povo se orgulha.
Falta de pontualidade, lei do mais forte, dificuldade em dizer não, propensão ao contacto físico com o interlocutor ― beijos e abraços. Restaurantes que oferecem quantidades industriais de comida. Tendência a deixar problemas de molho para resolvê-los de afogadilho na última hora. São ou não são características nossas?
Já algumas semanas atrás, o Planalto se tinha indignado com camisetas de forte apelo erótico patrocinadas pela Fifa. A mais alta instância do futebol global reincide: os conselhos aos turistas vêm paramentados com foto de meia página mostrando beldades vestidas de sol.
Que fazer? É assim que somos vistos pelos estrangeiros. Mas, acredite, não há que se indignar. O forasteiro, olho fixo na promessa de prazeres tropicais, passa por cima dos inconvenientes.
Não há inverdades no manual da Fifa. Ele apenas reflete a imagem que, faz séculos, temos mostrado aos que vêm de fora. Os pintores Johann Rugendas e Jean-Baptiste Debret ― que certamente se cumprimentaram nas ruelas do acanhado Rio de Janeiro dos primeiros anos da Independência ― trataram de fazer chegar aos europeus uma imagem paradisíaca destas terras.
Um século mais tarde, Carmen Miranda, de chapéu de frutas e olhar malicioso, reforçou o padrão. Em nossos dias, nove entre dez estampas brasileiras de propaganda turística mostram sol, praias, pouca roupa, um agradável perfume de vida mansa e de dolce far niente.
Que resultado esperamos? Que turistas nos visitem imaginando encontrar uma Alemanha ou uma Noruega tropical? Que esperança! Eles vêm exatamente em busca das delícias dos trópicos.
Em vez de nos irritar, mais vale seguir o conselho final do manual da Fifa: «Relaxa e aproveita», em português no texto. É versão expurgada do pronunciamento vulgar feito anos atrás por uma senhora de fino trato ― hoje ministra da República.
Obs:
Horas depois de ter suscitado reação indignada, o artigo desapareceu do site da Fifa.
Sensibilidade
Virem-se, conterrâneos!
Sigismeno fica muito impressionado com as estrepolias que mãe natureza faz sem pedir licença a ninguém. Horrorizou-se com as cheias do Rio Madeira, no extremo oeste.
Ao ver que a presidente sobrevoava regiões alagadas, achou que ela teria feito melhor se tivesse utilizado um barco para se aproximar das vítimas da enchente. Teria sido um modo mais chegado de mostrar compaixão. Decisões presidenciais são, por vezes, mistérios insondáveis.
Ele ficou um bocado surpreso quando soube que a chefe do Executivo tinha insinuado que aquele desastre só podia ser obra de chuvas estrangeiras, que as nossas são bem-comportadas. E chuvas vão lá escolher onde preferem cair?
Acalmou-se ao ler o desmentido oficial que assegurava que jamais, em tempo algum dona Dilma diria tal enormidade. Chegou à conclusão que, certamente, devia ter ouvido mal.
Sigismeno, que gosta das coisas certinhas ― pão, pão, queijo, queijo ― sentiu-se incomodado com um detalhe. Foi quando dona Dilma chamou as vítimas de «pessoas que estão em situação de calamidade». Econômico por natureza, meu amigo achou que era um desperdício de palavras. Uma só teria dado o recado: flagelados. Enfim, cada um se exprime como consegue.
Mas Sigismeno, que também não é um idiota total, ficou chocado quando soube que, num singular gesto de largueza, os mandachuvas tinham autorizado as vítimas das intempéries a sacar o Fundo de Garantia.
Ele sempre imaginou que aquele dinheirinho ― poupança forçada a que são obrigados todos os assalariados ― devesse servir de garantia para os velhos dias. Pensou com seus botões (mas suficientemente alto para que eu ouvisse) que era superfácil fazer caridade com o dinheiro dos outros.
Não pude deixar de concordar com ele. Ninguém se insurgiria se fosse liberada uma verba de emergência para ajudar os flagelados a atravessar este momento difícil. Mas incentivá-los a gastar o pecúlio que vai fazer falta mais tarde pareceu, a meu amigo, medida criticável e eminentemente antissocial.
Para um governo que se diz preocupado com o “social”, cai mal.
De transposições
José Horta Manzano
Notícias recentes vêm confirmar que, no Brasil, transposição ― conceito da vez ― nos cria dois problemas: um estratégico e um semântico.
Do lado estratégico
A dita «transposição do Rio São Francisco» expõe, para quem quiser ver, o resultado do descaso secular com que nossos dirigentes têm encarado a governança.
Tecnologia existe há muito tempo. O Canal de Suez foi escavado 150 anos atrás, entre 1859 e 1869, e o Canal do Panamá abriu suas comportas para o primeiro navio há exatos 100 anos. Se, no Brasil, o paliativo para as secas do Nordeste se resumiu a cavoucar açudes, não terá sido por falta de tecnologia, mas por abundância de negligência.
Apareceu, estes dias, nova «transposição», a ser arquitetada em regime de urgência urgentíssima. O caso agora é mais grave. A rarefação da água atinge a maior metrópole do país. No sufoco, surgiu a ideia de fazer vir água do Rio Paraíba do Sul.
Temos aí outro exemplo acabado de pouco caso. Setenta anos atrás, São Paulo já tinha passado a marca de 2 milhões de habitantes. Não cresceu da noite para o dia. Se nada se fez até hoje, foi por pura incapacidade de planejamento.
Para piorar, a obra levará 14 meses, quando faltam apenas 3 meses para o grande circo da «Copa das copas» montar seu picadeiro. Bala perdida na rua e água sumida no hotel ― taí um buquê de boas-vindas pra turista nenhum botar defeito.
Do lado semântico
O dicionário ensina que transpor (ou fazer uma transposição) significa mudar de um lugar para outro. Não é, que se saiba, o efeito desejado. Não está nos planos do mais descabeçado de nossos dirigentes transferir as águas do São Francisco para novo leito. Tampouco o Paraíba do Sul deverá deixar de correr de São Paulo até sua foz nos Campos dos Goitacases.
A palavra «transposição» está sendo utilizada erroneamente. A língua oferece numerosas opções bem mais adequadas. Partição, bipartição, tripartição, subdivisão, partilha, repartição, divisão, repartimento, redistribuição são algumas delas. Há outras.
Que fazer? O descaso ― com a governança e com a língua ― parece fazer parte da paisagem do país. Não muda nunca.
Frase do dia — 122
«O que há no governo é mais do que má gerência. É uma fé infinita na empulhação, ofendendo a inteligência alheia.»
Elio Gaspari, em sua coluna da Folha de São Paulo, 19 mar 2014.
Quem foi o engraçadinho?
Velhice e pobreza
José Horta Manzano
Um conhecido meu teve, já faz muito tempo, uma pequena papelaria. Naquela época em que ainda ninguém tinha computador, nem impressora, nem escâner em casa, ele deixava uma fotocopiadora à disposição dos clientes. Por módica soma, o distinto público podia tirar suas copiazinhas em sistema de autosserviço. Pagava-se no final.
Vez por outra, aparecia uma velhinha, moradora das redondezas. Depois dos bons-dias, ela pedia para tirar umas cópias. O dono da loja, comovido com a idade avançada da cliente, nunca cobrou pelo serviço. Sempre deixava por isso mesmo.
Um dia, a anciã chegou com algumas folhas. Parecia apressada. O comerciante propôs que ela lhe confiasse os documentos. Ele mesmo tiraria as cópias, e ela podia vir logo mais à tarde buscar o calhamaço. Contente e agradecida, ela aceitou.
Meu conhecido pôs-se à obra. Deu-se conta de que tinha em mãos a declaração de renda da velhinha, preenchida e pronta para ser enviada à Receita. Não se conteve ― deu uma rápida espiada nos números. Quase caiu de costas: a cliente era dona de fortuna considerável, coisa de milhões! Um espanto.
Ao ficar sabendo que o prefeito da cidade de São Paulo havia decretado, semana passada, que cidadãos que já tenham completado 60 anos têm o direito de viajar gratuitamente nos ônibus municipais, lembrei-me da velhinha da fotocópia.
Pelo que diz o decreto, a idade é o único critério de atribuição desse benefício. O legislador partiu de um curioso pressuposto que equipara a velhice à pobreza. A meu ver, a (relativa) juventude do prefeito distorce sua visão. Sua premissa não é necessariamente verdadeira. Todo velho não é obrigatoriamente desvalido.
Reconheço o preceito de que a sociedade deve amparar seus membros mais frágeis. É a base de todo agrupamento humano. Mas não há que confundir idade madura com precariedade financeira. O cartão que assegura a gratuidade no transporte deveria ser atribuído unicamente a anciãos que comprovassem encontrar-se abaixo de determinado nível de rendimento e de patrimônio.
Do jeito que está, pobre tem de pagar tarifa plena enquanto a velhinha da fotocopiadora viaja de graça.
Cega, alquebrada e impotente
Rodízio eleitoreiro
José Horta Manzano
Desde que veículos automóveis proliferaram, as grandes aglomerações passaram a sofrer forte poluição atmosférica. Quando chove ou venta, o problema diminui. Já quando fica aquela pasmaceira, sem chuva nem vento, as partículas finas não se dispersam. Respirar essa sopa química é fonte de males diversos.
Cada metrópole tem lidado com o problema a seu modo. Há as que não fazem nada ― a maioria. Deixam como está para ver no que dá.
Algumas adotam sistema permanente de rodízio de veículos, como é o caso da cidade de São Paulo. Com isso, as autoridades conseguem retirar da circulação 20% da frota. Não é muito, mas sempre ajuda.
Outras, como Londres e Estocolmo, optaram pelo pedágio urbano. É medida mais vigorosa. Transpor os limites estabelecidos custa caro e faz que automobilistas pensem duas vezes antes de fazê-lo.
Paris não impõe, em princípio, nenhuma medida destinada a refrear o volume de tráfego. A abundante oferta de ônibus e de metrô, aliada à raridade de vagas de estacionamento, se encarrega de convencer a população a utilizar transporte público.
No entanto, depois de quase duas semanas sem chuva e sem vento, o ar parisiense ficou estes dias saturado de porcariada. Os habitantes, especialmente os mais frágeis ― idosos e crianças pequenas, começaram a apresentar problemas respiratórios.
O nó da questão é que, na França também, este é ano eleitoral. Cada um dos mais de 36 mil municípios do país deverá escolher prefeito. Medidas que atrapalham o tráfego são, por natureza, impopulares. Mas… com eleição ou não, cairia muito mal se o governo mostrasse despreocupação com a saúde do povo. Que fazer?
Resolveram cortar a maçã ao meio ― nem muito pra lá, nem muito pra cá. Esperaram até que os serviços de meteorologia predissessem o fim da calmaria atmosférica. Quando, enfim, vento e chuva estavam para chegar, o primeiro-ministro decidiu instaurar um rodízio pra lá de restritivo.
O revezamento, baseado no algarismo final de cada placa, exclui da circulação metade da frota. Em dia par, circulam aqueles cuja placa tem número par. Em dia ímpar, vice-versa.
O sistema começou na segunda-feira, 17 de março, e se aplicou ao município de Paris e aos municípios vizinhos. Os congestionamentos habituais diminuíram 60%, um espetáculo! Em compensação, o descontentamento dos que não puderam sair de casa quase gerou uma nova Revolução Francesa.
A experiência durou apenas um dia. Já foi suspensa. Terá servido para acalmar alguns e para enervar outros. Não se pode agradar a gregos e a troianos. Será que a população gostou? Daqui a algumas semanas, as urnas vão tirar as dúvidas.
Máximas do Barão ― 8
«O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de ter votado no seu candidato.»
Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho
Félix
Wilma Schiesari-Legris (*)
O Félix apareceu nas nossas vidas sorrateiramente, vagando pelos corredores do prédio, passeando pelo jardim de boa terra quente e dormindo num nicho da parede até ser adotado pelos habitantes do imóvel que assim o batizaram por ser ele um pleonasma em branco e preto do gato Félix.
Todas as velhinhas do condomínio adoravam falar com o Félix, mesmo sem saber miar. Uma delas resolveu adotá-lo ensinando ao animal abandonado os caminhos pavlovianos para chegar a seu apartamento situado no sexto andar. Primeiro galgaram juntos as escadas e depois o percurso começou a ser feito por elevador porque a velhinha era mais idosa que o gato.
Félix foi subjugado pela carne fresca cortada a tesouradas e devidamente apresentada num pratinho de porcelana, primeiro à porta do apartamento, depois no seu interior.
A astuta e felina velhinha concebeu então uma campainha para que o gato, assim que chegasse diante da porta, mostrasse a sua presença faminta agitando a patinha no carrilhãzinho colocado estratégicamente ao pé da porta. Assim, pouco a pouco, o gatinho foi voltando e permanecendo no interior da casa com a liberdade de sair quando quisesse e regressando a cada caçada infrutífera tentada no jardim. Não era um gato que se deixasse afagar: ia, comia e partia, voltando sistematicamente.
Quando o bichinho se sentiu realmente à vontade, começou a tirar umas pestanas na sala e foi com grande surpresa que a senhorinha descobriu que o suposto macho era uma fêmea: tinha ela uma enorme e cirúrgica cicatriz ventral, separando suas tetinhas em duas colunas estéreis.
O tempo passando e a confiança se instalando, Madame Félix deixou-se acariciar sem jamais entrar na categoria dos gatos descritos por Miguel Torga, nunca mostrando submissão, e mesmo, ao contrário, submetendo.
O gato (ou gata) pôs a pobre velhinha de quatro patas e, para selar a sua autoridade, passou a utilisar sistematicamente o elevador, onde todo eventual ocupante lhe servia de ascensorista, abrindo-lhe a porta da cabina no sexto andar. Dali em diante, a gata passou a olhar nos olhos da velhinha.
Cada vez que estavam juntas, era ela quem fazia as observações sobre o estado da casa ou o moral da velhinha. Aquela gata com olhos verdes e diabólicos sabia. Sabia da subserviência da velha, da sua submissão milenar, do seu altruísmo e da sua mesquinharia. Acompanhando com o olhar a anfitriã, passava as horas a conjecturar a miséria da vida humana comparada com a dos gatos vagabundos, a ponto de convencer sua senhora a abandonar a casca humana e tornar-se gata como ela.
Era o fim das gatas borralheiras e o começo da reflexão. Aquela velhinha estava começando a entender de filosofia com sua arrogante gata!
Que melhor vida para uma fêmea, mesmo comparando com aquela da gata castrada, do que ser apenas um animal no qual a humanidade se manifestava mais pungente? A gata nunca miou, nunca se deixou pegar no colo, nunca arranhou, sequer destruiu o tecido do sofá onde se pôs a passar as tardes a observar sua serva.
Ela considerava as maneiras da velhinha presenciando as vulgaridades comportamentais cometidas pelas pessoas que vivem sós e se descuidam dos aparatos de educação requeridos pela vida em sociedade.
Quantas não foram as frases ditas em voz alta ― que repugnariam um vizinho mais avisado ― e que a bichana ouviu calada?
Quantos não foram os telefonemas não atendidos ou, se assim não ocorresse, que eram recheados de mentiras ou inverdades que o animal descompreendeu?
Que continham aquelas cartas que chegavam ao apartamento ou que dele saíam para um neto distante ou um filho interesseiro, herdeiro único, que seria o dono do espaço da gata no tempo em que a morte colhesse a sua hospedeira?
A suposta ordem dos objetos e da decoração, pensava o bicho, escondiam uma desordem qualquer?
Quem eram aqueles parcos visitantes que às vezes iam jantar com elas, apreciando mais a gatinha que a senhorinha?
Por que tantos livros nas bibliotecas e tão poucas e murchas as flores nos vasos?
Todas essas questões ficaram sem resposta até o dia em que a senhorinha resolveu comer no mesmo pratinho que a gata, agachada ao chão, ao lado dela. A bichana partilhou a ração e permitiu que a dona se sentasse com ela no sofá da sala. Às vezes ambas faziam a sesta dentro do armário embutido do quarto ou espreguiçavam juntas sobre o tapete bordô.
Quando a gata curvava o dorso esticando as patas dianteiras, sua dona se sentia melhor da lordose. Quando o animal lambia as patas para depois limpar o pelo da cabeça e das orelhas, a velhinha sentia-se mais asseada. Quando Félix procurava uma réstia de sol vinda da janela, dividia o espaço com ela.
O único senão é que, naquela altura, a velha e a gatinha eram da mesma velhice e o animal não era mais visto da janela, nas horas em que ficava fora de casa, a trepar nos muros altos, escalar as árvores ou a caçar os passarinhos desavisados que bicavam no jardim.
O apartamento foi legado em cartório à bichana.
A velhinha morreu tentando saltar dum galho alto do jardim. Ela havia tomado por hábito caçar lagartixas e passarinhos que, a quatro patas, levava para Félix subindo a pé os seis andares com a presa entre os dentes.
(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora
Frase do dia — 121
«Os estádios estão prontos. Agora só falta construir um país em volta.»
Entreouvido numa padaria.















