Lata d’água

José Horta Manzano

Copo d'água 2No Rio de Janeiro, na noite de 19 para 20 jan° 2009, faleceu o compositor paraense Joaquim Antônio Candeias Júnior, também conhecido como Jota Júnior. Tinha 85 anos.

O artista havia atingido seu apogeu nos anos 1950, quando suas obras foram gravadas por dezenas de cantores – dos bons. Francisco Alves, Jair Rodrigues, Marlene, as Irmãs Batista, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Nélson Gonçalves, Ângela Maria estavam entre os que se valeram de composições de Jota Júnior.

Sassaricando, Confete, Sapato de pobre (é tamanco), Garota de Saint-Tropez, Lata d’água (na cabeça) são algumas de suas centenas de composições. É justamente esta última que me inspira uma reflexão.

Lata d'água 1Nos tempos em que a personagem de Jota Júnior subia o morro levando sua reserva de água, todos dizíamos «lata d‘água». Ninguém ousaria o esquisito «lata de água». Simplesmente porque a expressão «lata d‘água» subentendia que a lata já estava cheia. «Lata de água» descrevia apenas o recipiente, sem informar se estava cheio ou não.

O mesmo se pode dizer de outra mazela carioca: a «falta d‘água», que já atormentava a população em tempos bem mais chuvosos que os atuais.

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Quem tinha sede costumava pedir um «copo d‘água», jamais um «copo de água» nem – horror dos horrores! – um «copo com água».

Enchentes e racionamentos permanecem, mas a língua mudou. A «lata d‘água», a «falta d‘água», o «copo d‘água» têm perdido terreno. Fiz uma pesquisazinha caseira no site do jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Considerando essas três locuções, contei o número de vezes em que aparecem na forma contraída (d’) e na forma extensa (de). É curioso notar que a forma extensa vem ganhando de goleada sobre a contraída.

Vejam o quadro com a porcentagem de ocorrência de cada forma:

Interligne vertical 14Falta d’água   27%
Falta de água  73%

Copo d’água    16%
Copo de água   84%

Lata d’água     9%
Lata de água   92%

Faz sentido. Se morro e clima mudaram e os anseios de cada um também, por que a fala permaneceria estática? Que venha muita chuva e que nos deixe «debaixo de água»!

Advertência importante:
A amostragem que serviu de recheio para este artigo não tem valor científico. Eventuais reclamações devem ser endereçadas a Google Corporation, Mountain View (CA), EUA.

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Clique aqui quem quiser recordar Marlene e sua Lata d’água, lembrança nostálgica de uma época em que, no morro, ninguém arriscava servir de ponto final para bala perdida.

De transposições

José Horta Manzano

Notícias recentes vêm confirmar que, no Brasil, transposição ― conceito da vez ― nos cria dois problemas: um estratégico e um semântico.

Do lado estratégico
A dita «transposição do Rio São Francisco» expõe, para quem quiser ver, o resultado do descaso secular com que nossos dirigentes têm encarado a governança.

Tecnologia existe há muito tempo. O Canal de Suez foi escavado 150 anos atrás, entre 1859 e 1869, e o Canal do Panamá abriu suas comportas para o primeiro navio há exatos 100 anos. Se, no Brasil, o paliativo para as secas do Nordeste se resumiu a cavoucar açudes, não terá sido por falta de tecnologia, mas por abundância de negligência.

Nascente do São Francisco

Nascente do Rio São Francisco

Apareceu, estes dias, nova «transposição», a ser arquitetada em regime de urgência urgentíssima. O caso agora é mais grave. A rarefação da água atinge a maior metrópole do país. No sufoco, surgiu a ideia de fazer vir água do Rio Paraíba do Sul.

Temos aí outro exemplo acabado de pouco caso. Setenta anos atrás, São Paulo já tinha passado a marca de 2 milhões de habitantes. Não cresceu da noite para o dia. Se nada se fez até hoje, foi por pura incapacidade de planejamento.

Para piorar, a obra levará 14 meses, quando faltam apenas 3 meses para o grande circo da «Copa das copas» montar seu picadeiro. Bala perdida na rua e água sumida no hotel ― taí um buquê de boas-vindas pra turista nenhum botar defeito.

Do lado semântico
O dicionário ensina que transpor (ou fazer uma transposição) significa mudar de um lugar para outro. Não é, que se saiba, o efeito desejado. Não está nos planos do mais descabeçado de nossos dirigentes transferir as águas do São Francisco para novo leito. Tampouco o Paraíba do Sul deverá deixar de correr de São Paulo até sua foz nos Campos dos Goitacases.

Bacia do Paraíba do Sul Fonte: Agência Nacional de Águas

Bacia do Rio Paraíba do Sul
Fonte: Agência Nacional de Águas

A palavra «transposição» está sendo utilizada erroneamente. A língua oferece numerosas opções bem mais adequadas. Partição, bipartição, tripartição, subdivisão, partilha, repartição, divisão, repartimento, redistribuição são algumas delas. Há outras.

Que fazer? O descaso ― com a governança e com a língua ― parece fazer parte da paisagem do país. Não muda nunca.

Miscelânea 9

José Horta Manzano

Você sabia?

Nome mal escolhido
A Universidade Federal de Minas Gerais aliou-se à Universidade Federal de Uberlândia para juntas trabalharem num projeto de avião. É um aparelho diferente ― ou diferenciado, como se usa dizer hoje. Tem hélice e motor na traseira, mais ou menos como o 14bis do também mineiro Santos-Dumont.

Bumerangue Ex-27

Bumerangue Ex-27

O nome atribuído à nova aeronave é surpreendente: bumerangue. Um nome que sugerisse algo rápido, que vai para a frente, me pareceria mais adequado. Qualquer coisa como flecha, lança, catapulta, seta, foguete, raio, corisco, chispa transmitiria essa noção. Já bumerangue lembra algo que vai e volta. Aplicado a um objeto comercializado, sugere que será devolvido pelo cliente. Enfim, cada um escolhe para seus filhos o nome que lhe apraz.

Desejamos boa sorte ao bumerangue mineiro. Quando for vendido, que vá e… não volte.

Interligne 18hBandidagem europeia
Tem duas coisas que sempre me surpreenderam nos filmes de cinema, quando o personagem chega de automóvel a algum lugar. A primeira é que sempre ― mas sempre, mesmo ― encontra uma vaga para estacionar exatamente na porta do lugar aonde tem de ir. A segunda é que, diferentemente da vida real, atores jamais trancam a porta do veículo. Batem a porta do carro, e tchau!

Carro sem rodas Neuchâtel, Suíça

Carro sem rodas
Neuchâtel, Suíça

Vaga para estacionar já faz tempo que se tornou artigo raro, seja no Brasil, seja no exterior. Quanto à segurança, já não é a mesma de antigamente. Aqui ao lado está uma foto tirada na Suíça algumas semanas atrás. Mostra um carro cujas rodas foram surrupiadas durante a noite. Parece impossível, não é? Pois é, eu também jamais imaginei que algo parecido pudesse ocorrer.

E tem mais: aconteceu num vilarejo minúsculo onde, segundo o proprietário do veículo, «há mais vacas que habitantes».

Já não se fazem mais lugares civilizados como antigamente.

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Protesto incongruente

Caixa d'água

Caixa d’água

Aconteceu durante a onda de manifestações de junho passado. Em meio a tanta coisa que ocorria naqueles dias agitados, a notícia passou meio despercebida.

Na mui nobre localidade maranhense de Paraibano, situada a 425 quilômetros de São Luís, os munícipes, exacerbados pela crônica falta d’água, não tiveram dúvida: atearam fogo à estação de distribuição de água da Companhia de Saneamento.

Agora, sim, terão água à vontade. Taí o exemplo magistral de um protesto inteligente.

Interligne 18h