Rapidinha 25

José Horta Manzano

Serviço pos-vendaServiço pós-venda
O Estadão nos informa que, em livro que acaba de sair do prelo, um jornalista britânico lança suspeita sobre a lisura da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A acusação é de que membros do Comitê Internacional Olímpico tenham sido subornados. Em resumo: os Jogos foram comprados.

Fica no ar uma pergunta: pode devolver?

Para transações de compra concluídas, todo código de consumidores costuma estipular prazo de carência durante o qual o comprador tem direito a devolver a mercadoria que não lhe agradou ou que não serviu.

Cada dia fica mais claro que esses Jogos não são remédio, antes, agravam o mal do paciente. Portanto, nada mais justo que registrar reclamação junto ao Serviço Pós-Venda do Comitê Olímpico, mandar os Jogos de volta e pedir reembolso. Ou não?

Democracia direta

José Horta Manzano

Mês que vem, os cidadãos suíços serão chamados a se pronunciar sobre quatro matérias de âmbito nacional. Como de costume, cada cantão vai aproveitar a ocasião para incluir alguma consulta regional.

Dentre os assuntos federais, três são particularmente interessantes.

Lembrete aos eleitores: Vota-se hoje

Lembrete aos eleitores:
Vota-se hoje

Pedofilia
Ainda que pareça desconcertante, indivíduos condenados por atos pedófilos ― e que já tenham cumprido a respectiva pena ― estão liberados para voltar a exercer atividade profissional em contacto com menores.

Uma iniciativa popular recolheu o número de assinaturas suficiente para que seja organizado um plebiscito sobre o assunto. A petição exige que tais indivíduos sejam proibidos de trabalhar junto a menores de idade. O parlamento não deu nenhuma recomendação de voto. O povo decidirá.

Salário mínimo
Diferentemente de muitos outros países, a Suíça nunca estabeleceu um salário mínimo nacional. Alguns sindicatos mais poderosos já conseguiram, por meio de acordos setoriais, instituir uma paga mínima para seus afiliados. No entanto, grande parte dos assalariados continua sem garantia salarial.

O plebiscito convocado para 18 de maio solicita à população que se pronuncie sobre a instituição de um salário mínimo de 22 francos por hora, equivalente a 58 reais. Por grande maioria, o parlamento rejeitou essa proposta. O voto popular dará a palavra final.

Avião 5Aviões de combate
Faz anos que 54 aviões Tiger F5 obsoletos da Força Aérea Helvética adquiriram direito à aposentadoria por tempo de serviço. Depois de profundos estudos técnicos e longas negociações, a Aeronáutica decidiu substituí-los por 22 modernos caças Gripen. O distinto leitor já deve ter ouvido falar dessa joia da indústria sueca, não é mesmo?

É. Mas acontece que, na Suíça, decisão de tamanha importância não costuma ser sacramentada por uma simples canetada palaciana. Uma petição exigindo referendo popular contra a decisão de compra foi lançada e alcançou o número de assinaturas regulamentar.

No dia 18 de maio à noite, computado o último voto, saberemos se o povo terá dado seu acordo ao desembolso de 3 bilhões de francos (8 bilhões de reais).

Parece salgado demais para ser aceito. Quem viver, verá.

Clique aqui quem quiser consultar a convocação oficial do governo suíço

Linha quebrada

José Horta Manzano

O alvorecer do século XX conheceu espetacular movimento estético. Todo feito de curvas lânguidas e voluptuosas, o Art Nouveau tomou conta do ambiente artístico. Pintura, arquitetura, grafismo sucumbiram ao charme da nova tendência.

Art Nouveau arquitetura, pintura e decoração

Art Nouveau: arquitetura, pintura e decoração

A quase ausência de ângulos concedia liberdade ilimitada à criação e trazia um não sei quê de fim de época, como se se estivessem queimando os últimos cartuchos antes do fim da festa. De fato, a festa acabou. A carnificina da Grande Guerra (1914-1918) deu conta de aniquilar todas as ilusões.

Nos anos 20 e 30, surgiu nova tendência artística. Era o Art Déco, a arte decorativa. As curvas sensuais foram banidas. Ângulos ríspidos e círculos bem organizados tomaram conta. O novo movimento ― ordenado, rigoroso, controlado, vigiado, canalizado ― combinava com os novos tempos.

Art Déco domínio de ângulos e círculos

Art Déco: domínio de ângulos e círculos

O Art Déco cresceu ao mesmo tempo que regimes fascistas e nazistas, de forte tendência autoritária. A hecatombe da Segunda Guerra (1939-1945) se encarregou de enterrar tanto os regimes quanto, de quebra, o movimento artístico.

Interligne 18h

Já faz décadas, desde que a circulação de veículos automóveis se acentuou, que brotou a ideia de dar diretivas ao motorista por meio de inscrições no solo. A simbologia, feita de linhas e de inscrições, é conhecida por todos. Alterações do fluxo têm sido tradicionalmente indicadas por linhas curvas, tanto para alargamento, quanto para afunilamento. A linha curva tem efeito colateral não desprezível: incita à fluidez e à harmonia.

Sinalização curva tradicional

Sinalização tradicional com linhas curvas;

O que vou dizer agora pode parecer brincadeira, mas asseguro-lhes que é verdade. As autoridades que coordenam o tráfego da cidade de São Paulo acabam de substituir a curva por um zigue-zague. Parece um primeiro de abril atrasado.

Duas reflexões me ocorrem. A primeira diz respeito ao comportamento dos motoristas no tráfego do Brasil em geral e de São Paulo em particular. Linha angulosa combina com a rispidez e a selvageria que caracterizam os usuários. Comportamentos bicudos são atiçados pelas linhas angulosas. Está criado um círculo vicioso em que a agressividade se autoalimenta.

Sinalização «diferenciada» Crédito: Rivaldo Gomes, Folhapress Clique na foto para ler a reportagem

Sinalização «diferenciada»
Crédito: Rivaldo Gomes, Folhapress
Clique na foto para ler a reportagem

A segunda reflexão é sobre o momento que nosso País atravessa. Tentações autoritárias, vindas todas do andar de cima, mostram suas garras e ameaçam os cidadãos que somos. Regulação de internet, controle de mídia, censura à imprensa são farinha do mesmo saco. Tendem todas a incrementar a dominação dos que estão por cima.

Vamos torcer para que as linhas quebradas do solo paulistano não sejam prenúncio de quebras maiores. De liberdade, por exemplo.

E como é que fica?

José Horta Manzano

Estava lendo, agora há pouco, os resultados de pesquisa feita pelo Instituto Datafolha para aferir o índice de confiança dos brasileiros.

Para transpor felicidade em números, os técnicos questionam os entrevistados sobre sete pontos. Dois deles são vagos, como o orgulho de ser brasileiro. Os demais têm que ver com o bolso de cada um.

Estatísticas 2Uma rápida análise mostra que as questões se limitam a sondar as expectativas de cada um. Nenhuma pergunta é feita sobre a atitude que o entrevistado tenciona assumir para mudar esse estado de coisas. É dado de barato que o cidadão, por definição, é um ser passivo que se limitará a aprovar ou rejeitar uma situação.

Seria interessante incluir, numa próxima edição, perguntas sobre a ação que o entrevistado pretende empreender para ajudar a corrigir o que lhe parece fora do lugar.

Ninguém é obrigado a agir, mas, para quem se decidisse a arregaçar as mangas, abrem-se vários caminhos: manifestação de rua, escolha mais ajuizada de representantes do povo, quebra-quebra, doutrinamento de vizinhos e amigos, criação de movimento político, decisão de matricular-se num curso qualquer. Vale até pensar em abandonar o País.

É interessante ficar sabendo a quantas anda o humor do povo. Melhor ainda será conhecer a solução preconizada por cada um.

A aceitação da apatia geral vai acabar transformando o índice de confiança em índice de descrédito.

Interligne 18f

A pesquisa
O resultado da pesquisa está aqui.

A rainhazinha

José Horta Manzano

Bicicleta 2

Você sabia?

O pouco caso que se faz da bicicleta no Brasil contrasta com o prestígio de que ela goza em outras partes do mundo. Na Europa em particular. Na França, por sinal, tem o apelido de «petite reine» ― a rainhazinha.

Os primeiros veículos de transporte pessoal apoiados sobre duas rodas já existiam desde princípios do século XIX. No entanto, não eram dotados de pedal, o que tornava seu uso problemático na subida.

Nos anos 1860, o estabelecimento parisiense Maison Michaux lançou a bicicleta com pedais, novidade absoluta para a época. A partir de então, o veículo se popularizou. Numa época sem automóveis, poder triplicar ou quadruplicar a velocidade de deslocamento era uma revolução!

A minha também é Peugeot!

A minha também é Peugeot!

A Europa do Norte conheceu, em poucos anos, uma revoada de magrelinhas. A novidade teve especial sucesso em regiões de planície ― é fácil entender por quê. Norte da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, norte da Alemanha, norte da Itália são bons exemplos.

Com a popularização, o novo veículo foi objeto de melhoramentos constantes. Foi-se tornando mais confiável, mais seguro, mais resistente, mais veloz. Quem fala em velocidade, pensa em competição. Foi exatamente o que aconteceu.

Na virada do século XIX para o século XX, surgiram grandes concursos nacionais de corrida por etapas. Cada país fez questão de ter o seu. O Tour de France (1903), o Giro d’Italia (1909), a Vuelta a España (1935), competições prestigiosas, têm sido disputadas sem interrupção até hoje. Só foram suspensas durante períodos de guerra.

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Além dos incontornáveis concursos nacionais, que duram de uns poucos dias a três semanas, há inúmeras corridas regionais ou locais, com duração de algumas horas. Uma das mais antigas é a Paris-Roubaix, que se realiza a cada ano, sempre no mês de abril. A edição 2014 tem lugar neste 13 de abril.

Como seu nome indica, o percurso original levava da capital a Roubaix, no extremo norte, fronteira com a Bélgica. Já faz quase 50 anos que, apesar do nome, a partida é dada em Compiègne, a uns 70km da capital. Essa corrida é cognominada Inferno do Norte.

Campeão Paris-Roubaix 2013

Campeão Paris-Roubaix 2013

A razão de qualificativo tão drástico é o fato de uma parte do percurso se efetuar em estrada revestida de paralelepípedos. Sem ser ciclista, cada um pode imaginar o que isso representa de sacolejo, escorregão e pneu furado.

Ciclistas belgas constituem a vasta maioria dos campeões do passado. De cada duas edições, nos últimos 50 anos, uma foi vencida por um corredor belga. Vamos ver quem será o primeiro a cumprir os 257km hoje.

Uma curiosidade dessa corrida é o troféu. O vencedor tem direito a… um paralelepípedo! Limpinho, lavado, escovado, montado sobre uma base, é verdade, mas sempre paralelepípedo será. O mais difícil é, depois de horas de suadeira, ainda encontrar força para fazer o tradicional gesto de levantar os 15-20kg do troféu e exibi-lo à multidão.

Até hoje, a História não registra nenhum vexame.

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Informação complementar:
Um ciclista holandês venceu a Paris-Roubaix 2014. E não deixou cair o paralelepípedo.

PCC

José Horta Manzano

O jornal francês Libération publicou uma reportagem daquelas que incomodam.

Começa dizendo que, a dois meses da «Copa das copas», a maior cidade do País é obrigada a conviver com uma organização de narcotraficantes que, de tão poderosa, está em condições de paralisar as instituições a qualquer momento. Está falando do PCC, como você já imaginou.

Crédito: Nacho Doce, Reuters

Crédito: Nacho Doce, Reuters

Em seguida, dá um apanhado das origens e da atualidade da «principal organização criminosa» do país. Faz uma radiografia da quadrilha e cita os seguintes números:

Interligne vertical 101993: ano de criação do bando

190 mil: total de detentos no Estado de São Paulo

46 anos: idade do chefe da gangue

37 milhões de euros: receita anual do PCC, o que permite que seja incluído no grupo das 1150 maiores empresas brasileiras

200 euros: contribuição mensal paga por todo membro, ainda que esteja em liberdade

11’500: número total de membros da organização

1’800: membros atualmente em liberdade na cidade de São Paulo. É mais que o dobro do efetivo da Rota, a polícia de elite. Esses são os tarefeiros, os que executam as ordens do chefe.

Para ler o original, clique aqui e também aqui.

Vai arco aí?

José Horta ManzanoBomba gasolina

O site sueco Jordbruksaktuellt, dedicado à agricultura, informa que, este ano, o Brasil se tornou importador de etanol.

Apesar de ser o segundo produtor mundial de combustível de origem vegetal, nosso país passou a integrar o clube dos importadores.

Segundo o jornal, o Brasil já importou 60 milhões de litros dos EUA e 5 milhões do Paraguai.

O lado podre

José Horta Manzano

Dia 3 de fevereiro passado, o então obscuro vice-presidente da Câmara conquistou súbita notoriedade nacional. Conseguiu essa façanha ao levantar o braço esquerdo e exibir punho cerrado em plena cerimônia de abertura do ano legislativo.

Teve a desarrazoada ideia de cometer o gesto na presença de Joaquim Barbosa, presidente de um dos poderes da República. É de crer que tenha agido assim de caso pensado. Não nos esqueçamos que, pelo ordenamento de nossa Constituição, o posto ocupado pelo doutor Barbosa é equiparado à presidência da República.

Naquele momento, o deputado Vargas não estava na sala de visitas de sua casa. Encontrava-se em solenidade oficial, mirado pelas câmeras de tevê. Desacatou a figura máxima do Judiciário brasileiro, personagem hierarquicamente superior a ele. Se fez o que fez, foi porque quis.

Crédito: Folhapress

Crédito: Folhapress

Seu primitivismo incomodou muita gente. Escandalizou gregos, persas, troianos e cartagineses. Fez lembrar a dança da pizza, obra daquela parlamentar que a poeira do tempo se encarregou de varrer. Foi daquelas atitudes que projetam seu autor à estratosfera da popularidade para, em seguida, atirá-lo rapidinho ao lixo da humilhação e do esquecimento.

Mais que ofensivo, seu gesto foi suicidário. Nestes tempos em que o gigante adormecido anda ensaiando entreabrir um olho, não convém mostrar a face torpe do Congresso. O Poder Legislativo anda já bastante alquebrado. Não interessa a nenhum parlamentar degradar ainda mais sua imagem junto à população. A última coisa que nossos parlamentares desejam é acentuar a a face escabrosa que já projetam.

Com a arrogância que só a ignorância permite, o deputado Vargas cutucou a onça com vara curta. Agasalhado na certeza da impunidade, o parlamentar foi dormir feliz como criança depois da mamadeira. O sono do herói não durou muito. Dois meses depois do desaforo, o mundo desabou sobre sua cabeça.

Sua íntima ligação com um doleiro vai levá-lo à ruína. A não ser que abandone seu mandato antes, será destituído por seus pares. E quer saber de uma coisa? Não escaparia nem que a votação ainda fosse secreta. A nenhum de seus colegas interessa atrair a atenção do distinto público para o lado podre daquela Casa.

O bumerangue voltou e atingiu em cheio o lançador bisonho. Quem tem telhado de vidro…

Novos tempos

by Silvano Gonçalves Mello, desenhista mineiro

by Silvano Gonçalves Mello,
desenhista mineiro

O índio vai ao cartório e o funcionário, solícito, pergunta:

― Em que posso ajudá-lo senhor?

― Índio quer mudar de nome.

― Mas, senhor, os nomes indígenas são suas raízes culturais. Tem certeza de que deseja mudar?

― Sim, certeza! Nome comprido, difícil falar.

― Bom, sendo assim… Qual é o seu nome atual?

― Grande Nuvem Azul que Leva Mensagem para outro Lado da Montanha.

― É, é verdade que é comprido. E o senhor já pensou num novo nome?

― Já.

― E qual é?

― Email.

Amazônia britânica

José Horta Manzano

Fish & chips no cartucho

Fish & chips no cartucho

Do site francês de notícias esportivas Le Buzz, nos chega informação transcendental. Ficamos sabendo que, até no coração da Amazônia, os turistas ingleses poderão comer fish & chips, especialidade tão apreciada em Londres quanto é o pastel de feira entre nós.

Segundo a reportagem, nosso país pode não estar pronto para acolher o monumental evento, mas os torcedores britânicos não foram esquecidos.

Pela módica quantia de duas libras, os 42 mil espectadores do jogo Inglaterra x Itália, previsto para dia 14 de junho em Manaus, poderão degustar uma porção da iguaria. Naturalmente, regada a vinagre.

A reportagem não diz se virá servida em cartucho de papel-jornal.

Cariocas ladrões

José Horta Manzano

Ladrão

O site da italiana TM News, no qual a TIM detém participação acionária de 40%, traz artigo que, para os sofridos cariocas, cai como bálsamo.

O título já diz tudo quando põe na boca do papa a frase: «Os cariocas? São ladrões porque me roubaram o coração!»

O artigo traz o relato da audiência papal concedida a Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, e ao comitê que organizou a JMJ nove meses atrás.

Favela de última hora

José Horta Manzano

Estadio 2O site do grupo francês RTL (rádio, tevê e internet) informa seus leitores sobre a construção acelerada de nova favela «a apenas alguns quilômetros do Maracanã».

A reportagem fartamente ilustrada indica que 5000 pessoas se juntaram para implantar a mais nova comunidade informal carioca. Diz que alguns dos recém-chegados eram moradores de rua, mas a maioria vem de outras favelas da região.

E explica que a aproximação da «Copa das copas» tem feito o valor do aluguel subir além do que aqueles cidadãos podiam aguentar, daí a mudança de endereço.

Palpite infeliz

José Horta Manzano

A coroa do rei não é de ouro nem de prata

A coroa do rei
não é de ouro nem de prata

Todo Noticias, site informativo do grupo argentino Clarín, classificou de «desafortunado» o comentário feito por Pelé sobre a morte acidental de um operário, dez dias atrás, nas obras do estádio Itaquerão.

O acidente foi gravíssimo e causou perda de uma vida. Apesar disso, Pelé minimizou o acontecido dizendo que «são coisas da vida, nada que assuste». E concluiu dizendo que importante mesmo é a infraestrutura e os aeroportos.

O site atribui o infeliz pronunciamento do «rei» à pressão que ele vem sofrendo por parte da Fifa e do governo do Brasil.

Como já dizia, anos atrás, conhecido futebolista carioca: «O Pelé, de boca fechada, é um poeta».

Com unhas e dentes

José Horta Manzano

Reportagem do Estadão deste 8 de abril informa que, para o Lula, o governo precisa defender a Petrobras «com unhas e dentes».

Não precisava nem dizer. Ninguém vai ser louco de maltratar a galinha dos ovos de ouro. Ou não?

De menor

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 abril 2014

Atividades criminosas ocorrem em qualquer lugar do mundo. Em nosso país, infelizmente, sua frequência tende a ser mais elevada do que a média mundial. Refiro-me a todos os comportamentos que se enquadram no Código Penal, desde roubo de maçã até assassinato, passando por todo tipo de assalto ao erário. O volume exagerado de malfeitos tem poder anestesiante. A gente acaba nem prestando mais a atenção que deveria.

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

Crimes particularmente odiosos têm, ainda assim, o poder de sacudir a opinião pública. Quando algum feito escabroso é obra de um menor de idade, uma grita costuma se levantar para pedir que seja adiantada a idade da maioridade penal.

É o que acontece estes dias. Na sequência de crime excepcionalmente abjecto cometido por um menor de idade, o legislativo prevê desengavetar e levar a votação, ainda este mês, projeto de adiantamento da maioridade penal. A proposta é baixar o limite, em casos específicos, de 18 para 16 anos de idade.

A mim, me parece que o assunto é complexo demais para ser tratado a vassouradas. Comoção nacional não é boa conselheira. Decisão tomada na hora do abalo, sob o impacto de forte emoção, periga não ser a mais adequada. A problema complexo, solução ajuizada e bem arquitetada.

Para começar, há que encarar uma questão que roça a filosofia: que objetivo se persegue ao determinar que seja tolhida ou limitada a liberdade do criminoso condenado? Fazemos isso por simples castigo ou por vingança? Interessa à sociedade tentar a reeducação do delinquente? Ou será que procuramos simplesmente banir a ovelha negra para evitar que a contaminação se alastre aos demais cidadãos?

Basilar, essa reflexão extravasa amplamente dos limites do parlamento. Merece ser confiada a uma comissão de sábios, que inclua gente do ramo e gente de bom-senso. Antes de definir a razão pela qual mandamos o transgressor para trás das grades, não faz sentido discutir idade.

A fixação da idade a partir da qual as leis penais são aplicáveis é assunto espinhoso. Nem países europeus, que já uniformizaram longa fieira de procedimentos em variados campos, enxergam essa matéria de maneira homogênea. Na falta de acordo, cada qual procede a seu modo.

Nosso Código Penal talha a questão de modo exageradamente brusco, sem grande sutileza: a barreira que separa o adolescente do adulto cai, abrupta, no dia em que o cidadão completa seus dezoito anos. À meia-noite, mais precisamente.

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Ora, sabemos todos que o amadurecimento não acontece, como por milagre, de um dia para o outro. Ninguém vai dormir criança para, de manhã, acordar adulto. O processo de desenvolvimento do indivíduo é gradual. E como tal deveria ser encarado. Quando não se sabe que caminho tomar, não há que envergonhar-se. Tomar decisões no escuro será ainda pior. Melhor mesmo é baixar a crista e tomar o pulso em outros países. Quem sabe outros povos já não terão encontrado soluções que nos possam ser úteis?

A fixação da maioridade penal está longe de ser universal. É controversa e varia de país a país. Na Suíça, a idade a partir da qual o indivíduo pode ser considerado penalmente responsável é de 7 anos. Na Inglaterra, de 10 anos. Na Holanda, de 12 anos. Na França, de 13 anos. Na Alemanha e na Itália, de 14 anos. Na Bélgica e na Espanha, de 16 – sendo que, neste último país, está em estudo a redução para 13 anos. Em vista do volume crescente de crimes graves cometidos por adolescentes, a Alemanha e a Bélgica tencionam baixar o limite da responsabilidade penal para 12 anos.

A alteração que está sendo proposta no Brasil, de 18 para 16 anos, não vai, por si, conter a violência. Vai – isso sim – contribuir para a superlotação das prisões, que são por muitos consideradas verdadeiras escolas do crime.

Num país onde o ministro da Justiça – aquele que tem a faca, o queijo, o pão e a manteiga na mão – já chegou a declarar que «preferia morrer» caso tivesse de cumprir alguns anos em prisão brasileira, a idade em que o indivíduo atinge a maioridade penal é de importância secundária. Nenhuma reforma do sistema será eficaz se não incluir reformulação total do universo prisional. Do porão ao telhado. País rico é país sem miséria carcerária.