Pior do que se imaginava

José Horta Manzano

A aproximação da «Copa das copas» vai girando os holofotes em direção a nosso país. Artigos, comentários, reportagens, emissões de rádio e de tevê vão pipocando aqui e ali.

Diferentemente do que imaginavam nossos ingênuos e inexperientes figurões quando «conseguiram convencer» a Fifa a atribuir ao Brasil a realização da copa, o que menos chama a atenção dos estrangeiros são os estádios. De «arenas», o mundo está cheio. Disseminado desde o tempo dos romanos, esse tipo de construção já não deixa mais ninguém estupefacto.

Jornalistas, em princípio, são bisbilhoteiros. Fogem de lugares-comuns e partem à cata do que está por detrás do cenário. No Brasil, não precisa ir muito longe. A decepção mora ao lado.

Duas jornalistas belgas vieram ao «país do futebol» para fazer uma radiografia detalhada. Passaram 5 meses em solo tupiniquim. O resultado, que está começando a ser publicado agora, não traz a imagem cintilante com que nossos medalhões sonhavam.

A edição online do jornal L’Avenir (de Namur, Bélgica) mostra um esboço do que será o trabalho final. Cito, a seguir, alguns trechos do artigo.Copa 14 logo 2

Interligne vertical 11a«Naquele país paradoxal, em pleno crescimento econômico, mas que carrega o peso de grandes desigualdades sociais e de extrema pobreza, a grande festa está sendo preparada, mas a cólera cresce e ameaça.»

«Em junho passado, milhões de brasileiros berraram seu descontentamento nas ruas do país inteiro com o slogan “Copa para quem?”»

«Fortaleza se caracteriza pelo turismo sexual, por milhares de crianças de rua e pelas favelas. Uma realidade negra, que não corresponde à imagem que o Brasil quer vender à mídia internacional.»

«O Brasil aproveita a copa para limpar as cidades, mas sem dar solução aos problemas. A miséria é simplesmente afastada.»

«Vimos coisas que, aqui na Europa, ninguém pode imaginar. Uma das piores imagens foi a de uma menina de 10 anos, magrelinha e completamente drogada, que se prostituía.»

Prefiro parar por aqui. Se alguém quiser ler o original em francês, que clique aqui.

O respeito que um país inspira não provém da excelência de seus estádios, mas do grau de civilização de seu povo.

Empurrando a culpa

José Horta Manzano

Lado A
Dois anos atrás, François Hollande ganhou de Nicolas Sarkozy e foi eleito presidente da França. O sistema político francês ― a meio caminho entre o presidencialismo e o parlamentarismo ― dá grande poder ao presidente, mas impõe que ele nomeie um primeiro-ministro, que, por sua vez, deverá receber o voto de confiança da assembleia. É cargo que funciona como fusível: está na linha de frente para receber choques. Quando queima, é substituído.

Jean-Marc Ayrault

Jean-Marc Ayrault

Ao ser eleito, Hollande concedeu o posto de primeiro-ministro a um amigo de muitos anos, Monsieur Ayrault. Mas os tempos são difíceis, com estagnação econômica e taxa de desemprego nas alturas. Indústrias abandonam o território para se instalar em país de mão de obra barata. Como resultado, a popularidade de Hollande baixou a níveis jamais registrados para um presidente.

Faz poucos dias ― como lhes contei em post de 27 de março ― realizaram-se eleições para prefeito em todos os municípios do país. O povo não perdeu a ocasião de mostrar seu descontentamento: o partido do presidente levou uma surra nas urnas. Os socialistas perderam a prefeitura de dezenas de cidades importantes.

Em países civilizados, certas regras do jogo democrático, embora apenas consensuais e não escritas, costumam ser respeitadas. Quando um figurão não tem mais o apoio popular, melhor dizer adeus e ir-se embora. Foi o que fez Monsieur Ayrault, o primeiro-ministro. Fechadas as urnas, contados os votos e constatada a lavada, convocou a imprensa. Em breve discurso diante das câmeras, assumiu pessoalmente a inteira responsabilidade pelo insucesso. Dia seguinte, apresentou sua demissão ao presidente da República. E se foi.

Lado B
Estamos todos assistindo, estes dias, a espetáculo consternante proporcionado por dona Dilma. Diante da evidência de que houve «irregularidades» ― para usar palavra gentil ― nos negócios da Petrobras nos EUA durante sua gestão, vem ela com a versão 2.0 do conhecido «eu não sabia de nada».

Petrobras 3Não contente de confessar sua ignorância sobre o que se passava na empresa que estava sob sua guarda, vai mais longe: desce à baixaria de acusar um subordinado. «A culpa é daquele ali, ó! Eu sou boazinha, gentil, reta e proba ― jamais faria uma coisa dessas. Assinei sem ler! Fui traída!»

Para uma antiga revolucionária, que se vangloriou de jamais ter denunciado um companheiro, nem sob tortura, cai mal. Para quem ocupa o cargo maior da República, cai pior ainda. Um pouco de dignidade não lhe faria mal.

Não se exige a verdade integral, mesmo porque talvez nem ela a conheça. Que dê a desculpa que lhe parecer mais conveniente, mas que, pelo menos, não entregue o companheiro. Coisa feia.

Francamente, não se fazem mais revolucionários ― nem revolucionárias ― como antigamente.

Pânico no trem

José Horta Manzano

Na manhã desta quarta-feira 2 de abril, um trem inteiro teve de ser evacuado na estação de Berna (Suíça). Os 450 passageiros foram obrigados a se aglomerar na plataforma enquanto um grupo de intervenção especialmente treinado foi chamado a operar a bordo.

O motivo? Uma cobrinha de 50cm, fininha e não-venenosa. Apareceu de repente. Um primeiro viajante deu o alarme, e o corre-corre foi geral. Um tigre teria causado o mesmo efeito.

Foto: Polícia Cantonal de Berna

Crédito foto: Polícia Cantonal de Berna

O trem deveria ter partido às 7h34 com destino a Basileia. Teve um atraso de meia hora. Alguns passageiros que contavam apanhar um avião no aeroporto basileense perderam a conexão. Ficaram a dizer cobras, lagartos e cobrinhas suíças da companhia nacional de estrada de ferro.

Frase do dia — 125

«O Brasil é politicamente “démodé”. Não inova, recorre aos mesmos métodos há décadas e deles não desgruda por mais que o esgotamento seja uma evidência. É quase como se o País tivesse reconquistado a democracia mas não soubesse direito o que fazer com ela.»

Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 1° abril 2014.

Pé de sapato

Osvaldo Molles (*)

De início, ela quis impor o respeito. Logo no primeiro dia, dona Maricota entrou e foi dizendo para aqueles alunos do primeiro ano primário:

― Quero disciplina e respeito, se não, dou ponteirada!

A gente era pequeno demais e achava imenso, enorme, aquele ponteiro com que dona Maricota apontava a lição do quadro-negro e desapontava os malcriados com bordoadas justas e certeiras. De vez em quando, o subdiretor botava o nariz enorme pela porta entreaberta. Aí ela sorria. E a classe, logo no primeiro mês, começou a desconfiar que havia namoro.

Professora 1Não sei por que é que ela implicou comigo. Acho que era por causa do «pé descalço ― pé calçado». É que pobre faz assim: compra um par de calçado só. Um irmão calça o pé direito, o outro calça o esquerdo. E o dedão de fora está sempre amarrado num pano sujo de poeira. Dona Maricota não gostava da tapeação. E intimidava:

― Seu Osvaldo, se esse pé não sarar até o dia 21 de abril, dou ponteirada!

É que, naquele tempo, o Brasil tinha sido descoberto no dia 21 de abril. Depois, descobriram o Brasil no dia 3 de maio. E a 21 de abril havia festa. Aí, então, os irmãos que calçavam o mesmo número tiravam o par ou ímpar. Quem ganhava ia à festa. Eu nunca fui, talvez por causa do meu azar em jogo.

Entretanto, dona Maricota costumava sorrir para os três alunos mais bem penteados e bem vestidos da classe. Um deles era o Peixotinho, de colarinho sempre alvo e de gravatinha preta. Levava «manteiga do sítio de papai» para dona Maricota e era o primeiro da classe. Era talentoso na arte de agradar. E tinha um futuro brilhante. Dona Maricota acreditava no futuro do Peixotinho. Hoje, ele é vendedor de bananas na rua da Cantareira.

Foi um pó de arroz antigo, cheirado de passagem, que me trouxe essas lembranças de dona Maricota. E, apesar de tudo, a gente sente saudade do perfume tênue que a professora espalhava quando fazia o esforço de distribuir ponteiradas entre os «pé descalço ― pé calçado» da classe.

Interligne 23

(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.

Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.

Palavrão

José Horta Manzano

Rindfleischetikettierungsüberwachungsaufgabenübertragungsgesetz

Como sabem muito bem meus cultos leitores, as línguas anglo-germânicas não são muito chegadas ao uso de preposições. Não é que não as tenham, mas, econômicas, preferem justapor palavras sem necessariamente inserir um elemento de ligação entre elas.

O inglês dirá mais facilmente «theater entrance design ideas» do que o pesadão «ideas of design for the entrance of the theater» ― ideias de traçado para a entrada do teatro.

A língua alemã vai mais longe ainda. Além de dispensar preposições, costuma aglutinar palavras. Sem a menor cerimônia, vai colando umas nas outras. Para quem não está habituado, fica esquisitíssimo. Já os alemães, acostumados com essa prática, não veem problema nenhum em destrinchar os diversos elementos de um palavrão. Questão de hábito.

Clique na foto para ver o vídeo

Clique na foto para ver o vídeo

É esporte nacional na Alemanha criar a palavra mais longa. Nome de molécula química não vale. Volta e meia, aparece alguém com um achado. O último que vi foi esse monstrinho de 63 letras que está lá no começo do post. O que significa? É isto aqui:

Lei de aplicação da tarefa de supervisão da etiquetagem da carne de vaca

A palavra é tão longa que chega a confundir algum alemão. Clique no vídeo para assisir a dois minutos de pesquisa de rua.

Frase do dia — 124

«É sabido que os americanos vivem em estado de alerta contra doenças transmitidas por bichos. Lá, as vacinas antirrábicas de cachorros valem por três anos. No Brasil, valem só por um ano. Ou os cachorros brasileiros são viciados em vacinas ou o vício é outro.»

Elio Gaspari, em sua coluna in Folha de São Paulo, 30 mar 2014.

Uns de menos, outros de mais

José Horta Manzano

Os brasileiros de boa vontade se comoveram com a triste sorte dos médicos cubanos arrolados no programa Mais Médicos ― aquele que visa a aumentar o número de profissionais sem lhes garantir o apoio de infraestrutura condizente.

Os infelizes caribenhos são tratados como raça à parte, tratamento que combina com o regime de apartheid, de divisão do povo em estratos, que nossas autoridades vêm tentando nos impingir. A distorção entre a remuneração dos médicos comuns e a dos cubanos é chocante. Enquanto os comuns recebem remuneração decente, os cubanos, encurralados em regime de pão e água, têm de resignar-se a sofrer confisco de 80% a 90% do salário.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Mas toda moeda tem duas faces. De um lado, estão os cubanos, desapossados, por seu próprio governo, do fruto de trabalho suado. No outro extremo, estão alguns espertinhos que descobriram caminho pouco ortodoxo para engordar seus ganhos. Explico.

A província argentina de Misiones, cuja capital é Posadas, faz fronteira com o Paraná e com Santa Catarina. O lado brasileiro é mais densamente povoado que a província vizinha. Uma vez anunciado, o Mais Médicos despertou interesse em bom número de profissionais argentinos. Muitos se apresentaram e estão hoje empregados no Brasil, onde recebem os 10 mil reais como todos os outros ― à exceção dos azarados cubanos.

Até aí, nada de excepcional. O caldo começa a engrossar agora. Maurice Closs, governador da Província de Misiones, acaba de vir a público denunciar uma fraude perpetrada por uma vintena de médicos argentinos.Mais médicos

São profissionais que, contratados pelo Brasil no bojo do Mais Médicos, encontraram um jeito original de continuar a receber salário de médico contratado pela Saúde Pública argentina. Conseguiram falso atestado médico e pediram a seu governo licença para tratamento de saúde. Conseguiram. Além do salário brasileiro, recebem, sem trabalhar, mais o equivalente a 5 mil reais.

Das duas dezenas de profissionais argentinos contratados pelo Brasil naquela região, dezesseis estão-se valendo do mesmo estratagema. Os problemas de saúde alegados são, em maioria, de ordem psíquica. A constatação de que, numa pequena província, tantos médicos estavam com problemas mentais despertou a curiosidade das autoridades. E a tramoia foi descoberta.

O ministro argentino da Saúde Pública, indignado com essa mostra de desonestidade e de falta de ética, promete tomar providências.

Unesco tomba as Sete Maravilhas do Caos da Copa

Diego Rebouças (*)

Notícia azeda de tão velha: Brasil não vai conseguir maquiar todos os seus problemas até a Copa do Mundo! Pensando nisso, a Unesco decidiu tombar as «Sete Maravilhas do Caos da Copa do Brasil». Não é o máximo? Agora, os gringos não vão poder reclamar. E nem você, mané! A não ser que queira levar de brinde da PM uma arma que eles chamam de não-letal, mas que mata que é uma beleza. Papel e caneta na mão para a lista:

1) O caos aéreo
Welcome, gringaiada! Primeira parada obrigatória: o aeroporto. Nós temos tanto orgulho de termos aeroportos que nenhum brasileiro passa menos de duas horinhas preso em um. Tanto é que a gente vota na mesma corja que promete ajeitar as coisas e não ajeita nada. Ajeitar pra quê? A gente gosta assim! Filas, malas trocadas, voos superlotados. Se espremam na confusão e welcome!

Parece cheio, mas cabe mais gente by Roberto Capote, Folhapress

Parece cheio, mas cabe mais gente
by Roberto Capote, Folhapress

2) Trens, metrôs e ônibus superlotados
Conseguiu sair do aeroporto, Gringo? Mas a superlotação continua nos trens, metrôs e ônibus. Esse assunto irritou alguns brasileiros em 2013, muitos foram até pras ruas protestar, dizendo que “Não é só por 20 centavos”, mas a CPI dos Ônibus do Rio de Janeiro morreu, todo mundo esqueceu do assunto e tenta entrar aí no trem, Gringo, com mala e tudo. Não conseguiu? Não tem problema, porque a gente acha que Gringo é tudo rico e por isso temos a honra de apresentar a Terceira Maravilha do Caos da Copa!

3) Taxistas monolíngues
Símbolo do nosso folclore, o taxista fala pouco quando você precisa de uma informação crucial e entope os seus ouvidos quando você não está nem aí pra saber a opinião dele sobre como as novelas das 21h prejudicam a educação das crianças. Gringo, saiba desde já uma coisa: seu taxista vai falar pouco. Ou vai falar muito. Mas quase nunca vai falar o que você quer. Ainda bem que isso não importa porque nós temos a Quarta Maravilha do Caos da Copa!

4) Os maxiengarrafamentos
Bem-vindo, Gringo! Seu taxista não diz coisa com coisa e esse táxi bandeira dois não sai do lugar. É que nós, brasileiros, adoramos ficar parados. Em aeroporto, transporte público ou no carro. Tanto que todo ano a gente vota em pessoas que têm até uma cara diferente, mas são financiadas pelos mesmos empreiteiros. Que ganham maravilhas fazendo megaviadutos, que tapam a visão e dão uma maquiada no trânsito daqui, só pra meio quilômetro mais na frente afunilar tudo de novo. Isso é que é bacana do Brasil, gringo! Não importa em que cidade você esteja, você sempre estará em Gambiarra City. E olha, que máximo! Enquanto você lia esse item, clic, clic, o precinho do seu taxímetro só fez aumentar. Tá achando ruim? É porque você ainda não viu o próximo item da lista, o…

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

5) Alagamento pós-chuva
Recapitulemos a sua situação, Gringo: você levou uma surra no aeroporto, está preso numa avenida que não anda, com um taxista que consulta um dicionário cada vez que você pronuncia uma palavra. Eis que começa a chover. Carros começam a buzinar. Uns sobem na calçada, outros sobem no posto e quem não consegue sobe sua prece em direção a Deus. Mais 15 minutos e tudo estará debaixo d’água.
Mas antes temos a Sexta Maravilha do Caos da Copa, a…

6) Violência urbana
Com os carros parados e a chuva caindo, décadas de negligência dos governos municipais, estaduais e federal de todos os partidos dão suas caras: crianças que não tiveram acesso à escola viraram jovens sem acesso ao mercado de trabalho e pior – sem acesso à autoestima. Vão respeitar pra quê, se o Estado brasileiro nunca os respeitou? Eles não estão nem aí. Tanto que estão mandando você entregar sua carteira e sua mala no meio do engarrafamento, antes que a rua alague. E é bom entregar, Gringo.

7) Estádios überfaturados
ÊêÊêÊê!!! Chuva passou, táxi andou, Gringo precisou parar num caixa 24 horas para poder pagar a corrida, mas é hora de comemorar. Sem malas nem carteira, você está muito mais leve. E como o taxista não entendeu onde ficava o seu hotel, então, ele te trouxe para um dos nossos estádios überfaturados. Isso mesmo: über. Afinal, nem a Muralha da China e as pirâmides do Egito JUNTAS custaram tanto. E daí que mais da metade da população brasileira não tem cacife para assistir os jogos da Copa? Se você tem ingresso, Gringo, pode entrar. Por isso, seja muito welcome. Entre no estádio. Ache a sua cadeira-padrão-Fifa, que a partida vai começar.

(*) Diego Rebouças é roteirista e jornalista. O artigo acima foi publicado pela Folha de São Paulo, 26 dez° 2013.

Este artigo foi publicado neste blogue no fim do ano passado. No entanto, com a aproximação da “Copa das copas”, está mais atual que nunca. Daí a republicação.

O relógio mais caro

José Horta Manzano

Para o mundo da relojoaria e da joalheria, a Feira de Basileia ― que ultimamente ostenta o nome de «Baselworld», mais adaptado a nossos tempos ― é a referência maior. Expositores e visitantes acorrem do mundo inteiro.

A edição 2014 abriu as portas neste 27 de março para uma semana de frenesi. Para lhes dar uma ideia da grandiosidade do show, aqui vão alguns números da safra 2013:

      • 1460 expositores provenientes de 40 países
      • 122 mil visitantes de 100 países
      • 25 mil funcionários a serviço dos visitantes
      • Extensão de todas as alas somadas: 30km
      • 3600 jornalistas de 70 países
      • 1300 estandes
      • Superfície do maior estande: 1625m2
      • 6 milhões de cartões de visita trocados

The Graff Hallucination

The Graff Hallucination

Este ano, a grande atração da Feira ficou por conta de um relógio pra lá de exclusivo. Peça única. Está sendo apresentado pela britânica maison Graff Diamonds ― referência no mundo dos diamantistas desde 1960.

O relógio, chamado Hallucination, é pequenino. O que chama a atenção é a pulseira que lhe está em roda. É um tapete de pequenos diamantes lapidados, de cores variadas.

Se é bonito? Há gosto pra tudo. Observe a foto e julgue você mesmo. Pode deixar, que qualquer hora vai aparecer alguém disposto a arrematá-lo. Seu valor? Uma bagatela: 55 milhões de dólares. Brincadeira! Coisa pra novo-rico.

A joia não é lá nenhuma Pasadena, mas seu valor daria pra enxugar uma parte do prejuízo causado pela trapalhada. Eu disse trapalhada? Será?

.

Fonte em inglês
Fonte em francês
A Feira de Basileia

Quem quer ser prefeito?

José Horta Manzano

Você sabia?

Estes dias, a França está elegendo prefeitos e vereadores (chamados conselheiros municipais). São dois turnos de votação espaçados por uma semana. Os candidatos que obtiverem pelo menos 10% dos votos passam ao segundo turno.

São muitas prefeituras. Em consequência do lento crescimento populacional ao longo dos séculos, o país conta com quase 37 mil municípios, a grande maioria com menos de 1000 habitantes.

Esses pequenos municípios são constituídos por casarios que datam da Idade Média, época em que cada povoado se bastava a si mesmo. Cada um sobrevivia com o que produzia. Eventos importantes eram as feiras, momento em que mercadorias eram trocadas ― cada vilarejo vinha vender seu excedente e buscar aquilo que não tinha condições de produzir.

Só para efeito de comparação, o Brasil, com 200 milhões de habitantes, está composto por menos de 5600 municípios. Isso indica a existência de ilhas densamente povoadas cercadas por desertos populacionais. Na Europa, diferentemente, a ocupação do solo é pulverizada.Prefeito francês

Estas eleições francesas trouxeram uma curiosidade dificilmente imaginável no Brasil. Alguns pequenos municípios não têm nenhum candidato disposto a assumir a prefeitura. São 64 vilarejos onde está claro que ninguém quer saber de encrenca.

Cargo de prefeito de vilazinha dá muito trabalho. Além disso, o rendimento é pequeno demais. O eleito terá de cuidar de tudo, ouvir reclamações, servir de árbitro em conflitos de vizinhança, tudo isso sem deixar de exercer sua profissão, que seu ordenado não será suficiente para sobreviver.

Salário de chefe do executivo municipal na França é fixado por lei nacional e varia conforme o número de habitantes do lugar. Num vilarejo de 500 habitantes, o salário bruto será de 646 euros. Se o município abrigar entre 500 e 1000 habitantes, passa a 1178 euros.

Levando em conta que o salário mínimo nacional é de 1445 euros brutos, ordenado de prefeito de cidadezinha é realmente uma merreca. Por sinal, nem a paga de prefeito de cidade grande ― de mais de 100 mil habitantes ― é fabulosa: não chega a 4 salários mínimos.

Passada a votação, os municípios que ficarem órfãos de prefeito serão governados por um interventor nomeado pelo poder central. Até a próxima eleição.