Inferno bolivariano

José Horta Manzano

Señor Maduro, (ainda) presidente da sofrida Venezuela, está pulando na corda bamba. Sua base congressual, composta por não mais que 1/3 dos parlamentares, é amplamente minoritária. O povo passa fome. O país, que pouco ou nada exporta além de petróleo bruto, não tem mais onde encontrar dinheiro. Pra piorar, o preço do petróleo caiu muito estes últimos anos. Fator agravante é a inflação, que deve fechar este ano por volta de 800% ‒ nível que os brasileiros com menos de 30 anos não têm ideia do que possa ser.

venezuela-6Não se sabe bem por que, o governo decidiu abruptamente tirar de circulação a nota de 100 bolívares, a de maior valor e também a mais utilizada no país(*). Note-se que seu valor é de 7 centavos de dólar. Sim, a maior nota do país vale em torno de 20 centavos de real! Pra fazer compras, desde que haja o que comprar, o cidadão tem de carregar uma sacola de dinheiro. Com o banimento da maior nota, o povo ficou sem meios de pagamento. Resultado: este fim de semana, mercadões e mercadinhos foram invadidos e saqueados. O exército foi chamado a intervir.

As fronteiras rodoviárias do país estão fechadas. No oficial, a medida foi tomada para impedir a passagem de «máfias», como se mafioso costumasse atravessar fronteira de ônibus, passaporte na mão. No paralelo, a medida foi tomada para impedir o esvaziamento do país. Se bobearem, metade da população periga abandonar a terra natal, criando um problemão com os vizinhos.

Nas condições atuais, não tem mais jeito: señor Maduro tem de cair e levar consigo todos os auxiliares, assessores, milicianos e apaniguados. O sistema esgotou-se. Raspado o fundo das gavetas, não há mais de onde tirar dinheiro. Nem o lulopetismo, que poderia usar nosso dinheiro pra dar uma mão a Maduro, vai poder ajudar. Embora muitos dos bilhões roubados de nossos impostos ainda devam estar vagando por aí, os rapinadores, acuados, estão mais preocupados em guardá-los para remunerar batalhões de advogados. Ninguém está ligando para «hermanos» necessitados.

venezuela-7Saídas há, embora todas as opções sejam traumáticas. A mais suave seria que Maduro renunciasse, um governo provisório assumisse, novas eleições fossem convocadas. Maduro não se candidataria. Logo após a renúncia, se mudaria para Cuba e sairia de cena. Infelizmente, é pouco provável que as coisas caminhem assim. Ditadores, como se sabe, perdem o contacto com a realidade. Até o último minuto, acreditam que ganharão a partida. Hajam vista Hitler, Ceaușescu & congêneres.

Outra opção, tipicamente hispano-americana, é o golpe de Estado. A única instituição capaz de fazê-lo com boa chance de dar certo é o exército. Chávez tinha sido militar de formação. Maduro, que passou ao largo das casernas e fez a vida como motorista de ônibus, não inspira reverência dos militares.

Se falharem os dois primeiros caminhos, só resta um tenebroso fim: a guerra civil. É a pior das saídas. A da Espanha (anos 1930), a do Líbano (anos 1970-1980), a da antiga Iugoslávia (anos 1990) e todas as outras deixaram um rastro de desolação e de feridas abertas que, décadas depois, ainda não cicatrizaram completamente. Esperemos que os infelizes «hermanos» não tenham de seguir por essa vereda.

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(*) Talvez não tenha nada que ver, mas o súbito desaparecimento da moeda faz lembrar o que Fernando Collor fez ao assumir a presidência do Brasil. Naquela ocasião, a intenção do confisco da poupança dos brasileiros era frear a inflação. O plano fracassou rapidamente. Se não deu certo aqui, não dará ali. Espero que não seja esse o projeto do paranoico señor Maduro. Se bem que…

Ninguém mentiu

José Horta Manzano

Sem apelar para a mentira, a mesma notícia pode ser dada de maneiras diferentes dependendo da intenção do mensageiro e do impacto que se quer causar. Veja o distinto leitor como dois dos maiores diários do país deram, ao mesmo tempo, a mesmíssima notícia.

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Manchete do Estadão online,
manhã de 19 dez° 2016:

2016-1219-01a-estadao

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Manchete da Folha de São Paulo online,
manhã de 19 dez° 2016:

2016-1219-02a-folha

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É bem verdade que, tendo em vista a folha corrida do personagem, tanto faz. Assim mesmo, fica esquisito.

Procura-se porto seguro

José Horta Manzano

O caldeirão do Oriente Médio ferve. Sempre ferveu, não é de hoje. Ponto de origem e de difusão da civilização ocidental, abriga uma emaranhado de povos díspares. As linhas de fratura passam pela língua, pela religião, pela etnia, pelo histórico de enfrentamentos que alimenta a discórdia. Para engrossar o caldo, há petróleo naquela parte do mundo, o que atrai interesse comercial e político.

Síria: mosaico étnico

Síria: mosaico étnico

Não adianta tapar o sol com a peneira: nunca houve e nunca haverá democracia na região. Pelo menos, democracia como entendemos nós. É inviável, não tem jeito. O intrincado de problemas é de tal grandeza, que não há como formar consenso. O mando será obrigatoriamente autoritário, que não há outra maneira. Todos dirão «sim, senhor» a quem gritar mais alto.

Mais brutais ou menos, mais sanguinárias ou menos, mais restritivas ou menos ‒ essa é a graduação possível entre as ditaduras. Que ninguém espere ver o povo da Síria, do Iraque, do Kuwait e de numerosos outros territórios da região elegendo um dia, democraticamente, seus representantes e dirigentes, numa democracia pluripartidária. Vai demorar muito pra esse dia chegar. Por enquanto, vige a lei do mais forte.

Base militar naval russa de Tartus, Síria

Base militar naval russa de Tartus, Síria

Muita gente tem reclamado da ação dos russos na Síria, de sua aliança com o sanguinário Bashar el-Assad. Pra começar, sanguinários são todos os chefes de guerra daquelas paragens. Não há um melhor que outro. O fato é que a dinastia el-Assad conseguiu segurar o país e manter uma certa estabilidade, ainda que precária, desde 1970.

Quanto aos russos, que o distinto leitor me perdoe a franqueza: não estão nem aí para os povos da região, para o drama dos desabrigados, para o sofrimento dos feridos nem mesmo para os infelizes que perderam a vida. O interesse crucial é conservar a base naval de Tartus, na Síria, concedida a eles por Hafez el-Assad (o pai), nos anos 1970. Desde então, a troca de favores entre Moscou em Damasco tem sido contínua. É um toma lá dá cá. Por um lado, a Rússia faz o necessário para garantir o trono da dinastia alauíta e seu domínio sobre o país. Por outro, o clã garante a cessão da base, verdadeiro «Guantánamo russo».

Bashar el-Assad e Vladimir Putin

Bashar el-Assad e Vladimir Putin

A Rússia, apesar de ser o maior país do planeta em superfície, ressente-se cruelmente da falta de abertura marítima para águas temperadas, livres de gelo o ano inteiro. Para ser operacional o tempo todo, sua frota marítima tem de contar com bases instaladas em clima mais ameno. As instalações de Tartus são ideais para abrigar a frota mediterrânea. Assim como os Assad têm garantido a permanência russa na região, os russos não pretendem abandonar os Assad. Se o clã que domina a Síria é composto por gente pouco recomendável, tanto faz. Essa preocupação não tira o sono dos dirigentes de Moscou.

Só no dia em que as potências entenderem o objetivo maior dos russos é que será possível pensar em trégua, conferência ou acordo de paz. É capital enfiar na cachola que a Rússia sempre dará seu apoio a quem lhe garantir a permanência da base naval.

Perguntar não ofende ‒ 3

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem que um bom entrevistador deve fazer perguntas que não proponham escolha simplista entre o “sim” e o “não” ou que permitam acomodação entre lados pseudamente opostos de uma situação.

Se, por exemplo, você suspeita que seu entrevistado é alcoólatra e deseja que ele confirme ou elimine essa suspeita, não pergunte “Você bebe?”. Basta simplesmente perguntar “Quantos copos de bebida alcoólica você toma por dia?“. Se você for ainda mais perfeccionista, investigue uma a uma cada bebida alcoólica que lhe interessa descobrir se a pessoa consome habitualmente. Dessa maneira, além de correr menor risco de constranger o entrevistado (já que a pergunta parte da premissa de que algumas pessoas bebem todos os dias), você pode ter uma dimensão mais exata do seu grau de alcoolismo ou de abstinência.

escolha-1Uma das manchetes do dia em jornais brasileiros e sites da internet diz respeito à reação inflamada de nossa amada ex-presidente Dilma diante da pergunta feita por um jornalista da rede de televisão Al Jazeera. No trecho divulgado, o entrevistador coloca Dilma em saia para lá de justa afirmando: “Algumas pessoas dizem que, se a senhora sabia o que estava acontecendo dentro da Petrobrás, seria cúmplice, e que, se não sabia, seria incompetente”. Conclui perguntando na maior cara de pau qual das opções ela considera a verdadeira.

Dilma se exalta antes de apresentar sua resposta: “Esse é um questionamento tipo “escolha de Sofia”. Para quem não sabe ou não lembra, esse é o título de um filme que aborda o drama de uma mãe judia forçada a escolher qual de seus dois filhos deverá morrer na câmara de gás.

Na sequência, a ex-presidente, ganhando tempo para aprofundar sua defesa, aponta, irritada, as diferenças semânticas entre as atribuições do “Conselho” e da “Diretoria Executiva” das grandes empresas “no mundo todo”. Conclui, mais irritada ainda, dizendo que “nem todos os membros da diretoria sabiam que aqueles diretores da Petrobras tinham mecanismos de corrupção e estavam se enriquecendo de forma indevida”. E por aí ficou.

escolha-2Um detalhe chamou minha atenção e provavelmente chamará também a sua: sabidamente, Dilma era na época presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, órgão ao qual se subordinava todo o quadro de diretores da estatal. Freud, como de hábito, será capaz de nos auxiliar a entender os estranhos meandros cerebrais que nossos pensamentos percorrem em momentos de tensão.

Proponho que você se divirta por alguns instantes reformulando a pergunta a seu bel prazer, mas de modo a excluir em definitivo a opção da entrevistada por um dos lados da questão. A diversão pode ficar ainda melhor se a reformulação da pergunta puder incluir uma terceira via: por que não ambas as possibilidades?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

De revoluções

Sebastião Nery (*)

Antes
Em 1952, Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. O saudoso David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes e esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina.

Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castillo, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico e estava precisando de uma passagem para a Guatemala, onde queria ajudar o governo revolucionário de Jacobo Arbenz.

Gaia e David fizeram uma “vaquinha” na rádio e compraram a passagem. Nos dias que passou em São Paulo, o rapaz de bigode ralo conheceu o deputado Coutinho Cavalcanti, paulista adotivo de São José do Rio Preto, autor do segundo projeto de reforma agrária apresentado no Congresso (o primeiro tinha sido o do baiano Nestor Duarte).

guatemala-1Com a passagem e o projeto, o rapaz de barbicha fina embarcou para a Guatemala. Lá, acabou trabalhando no Instituto Nacional de Reforma Agrária e aplicando os ideais do deputado Coutinho. Em 1954, um golpe militar montado nos Estados Unidos e dirigido pelo coronel Castillo Armas derrubou o governo de Arbenz. O rapaz de cabelos negros fugiu para o México.

Em 1958, reapareceu em Cuba, na Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. Derrubado o ditador Batista, o rapaz de olhos grandes e esbugalhados implantou a reforma agrária em Cuba, baseada no projeto do deputado Coutinho, o paulista adotivo de Rio Preto.

O rapaz chamava-se Ernesto “Che” Guevara. Ia encontrar-se com Fidel Castro em Sierra Maestra.

charuto-1Depois
Vitorioso em Cuba, em 1959 Fidel Castro esteve no Rio. O embaixador Vasco Leitão da Cunha ofereceu-lhe um banquete. Estava lá todo o society carioca, deslumbrado com o charuto enorme e a engomada farda de Fidel. De repente, aproxima-se dele um homem gordo e vermelho:

– Senhor primeiro-ministro, só não lhe perdoo os fuzilamentos em Cuba.

– Pois posso assegurar ao senhor que só fuzilei os ladrões dos dinheiros públicos.

O homem gordo e vermelho ficou ainda mais vermelho. Era Adhemar de Barros.

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(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.

Gato por lebre

José Horta Manzano

Quando a esmola é muita, todo santo devia desconfiar. Alguns, talvez mais ingênuos, acreditam ter encontrado a mina de ouro. Tsk, tsk. Não há almoço grátis, como sabe o distinto leitor.

Loucos para dar uma escapadinha de alguns dias ao exterior, mas com pouco dinheiro no bolso, quatro cidadãos de Bratislava (Eslováquia) procuraram uma opção que lhes coubesse no bolso. Depois de consultar numerosas opções de voo de baixo custo, deram de cara com uma incrível oferta para «Nis». O preço do bilhete era realmente imbatível.

Promenade des Anglais Nice, Côte d'Azur, França

Promenade des Anglais
Nice, Côte d’Azur, França

Imaginaram que nunca apareceria outra ocasião tão favorável de conhecer Nice, a ultrafamosa joia da Côte d’Azur. O grupo já se pôs a sonhar com um despretensioso passeio pela Promenade des Anglais, à beira do Mediterrâneo, aproveitando o sol que, mesmo no inverno, costuma brilhar por aqueles lados.

Decisão tomada, compraram a passagem. No dia aprazado, dirigiram-se ao aeroporto de Bratislava. Embarcaram. Ao pousar, uma hora mais tarde, surpreenderam-se com o aspecto modesto do aeroporto. Imaginavam que Nice, cidade importante, contasse com instalações mais majestosas. O susto maior ainda estava por vir.

Aeroporto de Niš, Sérvia Crédito: Google Street View

Aeroporto de Niš, Sérvia
Crédito: Google Street View

Deram uma olhada em roda e notaram que tudo estava escrito em caracteres cirílicos. Estranharam. Foi quando um deles, queixo caído, cutucou os companheiros apontando para o letreiro com o nome do aeroporto. Com certa dificuldade, soletraram: «Аэродром Ниш» ‒ Aeroporto de Nis. Passado o primeiro momento de estupor, um deles se lembrou de que, de fato, havia na Sérvia uma cidade industrial chamada Nis.

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O vento frio que lhes bateu no rosto confirmou: haviam desembarcado na Sérvia, a um pulinho de onde tinham saído, mas a mil quilômetros da Côte d’Azur. A história não conta se, ao voltar pra casa, deram queixa ao Procon local. De qualquer maneira, não teria adiantado, pois erraram sozinhos, sem ajuda de ninguém.

O preço da imprudência

José Horta Manzano

Velho ditado herdado dos lusos ensina que o segredo é a alma do negócio. Para mim, continua válido. No entanto, nestes tempos bizarros, parece que menos e menos gente leva essa evidência a sério.

Todo o mundo faz besteira de vez em quando, que ninguém é santo. Quando éramos adolescentes e fazíamos algo reprovável, a reação primeira era guardar segredo. Alguns, não aguentando a tensão e o peso de reter a informação, confiavam-se ao melhor amigo, àquele que oferecia certa garantia de não espalhar a notícia. Já outros, mais prudentes ainda, preferiam confiar o escorregão ao diário.

diario-1Aos mais jovens, explico que diário era um caderno pessoal, geralmente de capa dura, muitas vezes trancado com um cadeadozinho, onde o proprietário deitava por escrito as peripécias de cada dia. Alegrias, tristezas, esperanças e confissões se misturavam. Dado que faz anos que não ouço falar nesse tipo de confessionário, imagino que tenha desaparecido junto com a máquina de escrever e o óleo de fígado de bacalhau.

A popularização de ‘redes sociais’ tornou menos nítidos os limites entre o pessoal e o coletivo. Adolescentes ‒ e adultos também ‒ parecem não se dar conta de que, ao confessar «façanhas» a um círculo que imaginam fechado e confiável, estão divulgando informações que lhes podem ser prejudiciais.

Chamada do Estadão, São Paulo

Chamada do Estadão, São Paulo

Dia sim, outro também, a gente acaba ficando a par da besteira alheia. Tem aquela servidora ‒ Coordenadora do Programa de Saúde Bucal do Ministério da Saúde! ‒ que pediu licença médica para tratamento de saúde e se mandou para Madri, numa escapada de lazer. Imprudente, fez circular na internet a prova da transgressão. Com foto e tudo. Não deu outra: a história foi parar no Estadão e a moça perdeu o emprego.

Tem também aquela funcionária da Receita argentina que, alegando doença traumatológica, tirou licença. Na verdade, veio curtir o sol e «tomar uns tragos» nas praias de Florianópolis. Também ela fez questão de difundir a prova documental do delito. Tudo foi parar no Clarín, jornal argentino de grande circulação.

Chamada do Clarín, Buenos Aires

Chamada do Clarín, Buenos Aires

Fico aqui a me perguntar o que leva essa gente a relatar suas infrações ao grande público. Será inconsciência? Vaidade exacerbada? Burrice mesmo? Ou, talvez, uma combinação de todas essas fraquezas?

Freud deve poder explicar. Enquanto a explicação não vem, astros e atrizes destes novos tempos pagam seu efêmero momento de estrelato com a perda do emprego. E assim vai o mundo. Imperfeições e desvios, que antes eram guardados debaixo de chave, vão-se tornando motivo de orgulho. Vá entender, distinto leitor!

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Só para finalizar
E o que acontece com médico que dá atestado a paciente em perfeita saúde? Fica por isso mesmo?

Quem te viu, quem te vê ‒ 2

José Horta Manzano

Chamada do jornal O Globo, 13 dez° 2016

Chamada do jornal O Globo, 13 dez° 2016

«Curiosamente, em 2012 Trump chamou o Colégio Eleitoral de “um desastre para a democracia”, quando pensou que o sistema levaria o presidente Barack Obama a perder o voto popular e mesmo assim conquistar seu lugar à Casa Branca.

Depois de sua própria vitória eleitoral, no entanto, o magnata elogiou o “gênio” que criou o sistema.»

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Citação do artigo de O Globo de 13 dez° 2016.

É fácil clicar

José Horta Manzano

Sociedades evoluem, é natural. Leis, regras e preceitos têm de acompanhar a evolução e se adaptar à realidade, sob pena de se tornar letra morta, maior infâmia que uma lei pode sofrer.

Valores societários não se transformam em velocidade uniforme. Em certos pontos, a evolução é mais rápida que noutros. A edição de 1916 do Código Civil Brasileiro ‒ consolidação das leis que regem o direito das pessoas, dos bens e das empresas ‒ esteve em vigor durante quase 90 anos. Todo remendado, valeu até 2002.

É natural. Disposições que se justificavam cem anos atrás não correspondem mais à sociedade atual. O estatuto da mulher casada, por exemplo, evoluiu muito. Em 1916, a igualdade entre sexos não estava na ordem do dia. Os homens eram donos do mundo e senhores do lar. Num casal, a mulher devia obediência e submissão ao marido, sem discussão possível. O divórcio não existia.

Os mais de dois mil artigos do novo Código Civil de 2002 são um retrato da sociedade brasileira tal como ela se apresentava no começo deste século. É possível, pra não dizer inevitável, que, daqui a meio século, ele esteja defasado e exija atualização. Assim são as coisas.

foot-in-the-door-1Em 1990, foi lançado o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Novidade total, sua criação foi fruto da rápida evolução de uma sociedade na qual o imediatismo do consumo vem ocupando lugar cada vez maior. O antigo sonho de ter acesso a bens duráveis ‒ os ditos bens de raiz ‒ vem sendo mais e mais substituído pelo consumismo, pelo desejo de possuir o objeto ou a roupa da moda.

Apesar de ser recente e de já ter sido atualizado quase dez vezes, o Código do Consumidor ainda apresenta discrepâncias com relação à realidade. Editado numa época anterior à popularização da internet, não tinha como prever que a rede viria a ser usada, duas décadas mais tarde, em grande parte das transações comerciais.

Seu Artigo n°49 estipula que o comprador (agora chamado ‘consumidor’) tem direito a desistir da compra dentro do prazo de sete dias, desde que a contratação tenha ocorrido «fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou em domicílio». O objetivo era proteger o comprador de decisões impulsivas tomadas, por exemplo, diante de um vendedor de enciclopédia que batesse à porta. Falo daquele tipo de vendedor «foot-in-the-door» ‒ literalmente: pé na porta.

foot-in-the-door-2Compra feita através da internet ocorre, por definição, fora do estabelecimento comercial físico. No entanto, para comprar, o internauta tem de entrar na loja virtual. A porta do estabelecimento não se abre por encanto, mas em consequência de ato deliberado do visitante.

A Justiça tem assimilado compra por internet a compra de impulso, proposta por vendedor porta a porta. A meu ver, um caso não tem nada que ver com o outro. Compra por internet é ato voluntário. A transação exige preenchimento de cadastro, um processo longo e às vezes complicado. Se o comprador chega ao clique final, aquele que confirma a operação, é porque atravessou o percurso por vontade própria e não forçado pela lábia de um estranho que bateu à porta.

Não estou de acordo que se lhe conceda prazo para desistir. Por um lado, a regra atual deixa o comerciante num limbo durante uma semana. Por outro, provoca efeito deletério: o comprador, ciente de que tem sete dias para se desdizer, tende a clicar irresponsavelmente. O sistema acaba reforçando a noção de que há muitos direitos e pouquíssimos deveres. Contribui para reforçar a infantilização do cidadão. Esse artigo merece ser reescrito.

A província rebelde

José Horta Manzano

Donald Trump é bom exemplo de pessoa certa no lugar errado.

Pessoa certa por quê? Porque algum jeito para negócios há de ter. A boa estrela não teria sido suficiente para fazer um indivíduo progredir de milionário a multibilionário no espaço de 40 anos. Nem maracutaia grossa de político brasileiro alcança essa amplitude. Para negócios, não resta dúvida, o moço tem talento.

Lugar errado por quê? Porque a presidência dos EUA não é trono pra qualquer um. Mandatário que, além de inexperiente, vem imbuído da arrogância dos que se acostumaram a comprar tudo com dinheiro, periga escorregar feio. E se, ao resvalar, acabar levando o tapete junto, pode causar desastre planetário.

China continental & Taiwan

China continental & Taiwan

Semana passada, Mr. Trump teve uma conversa telefônica com a presidente de Taiwan. Um distraído poderia perguntar: “E daí?” A resposta é que um diferendo entre a China continental (Pequim) e Taiwan (Taipei, ilha de Formosa) perdura há quase 70 anos. O bate-papo foi mal recebido lá pelas bandas de Pequim.

A revolução comunista comandada por Mao Tsé-Tung nos anos 1930-1940 acabou vencendo as tropas nacionalistas ao fim de quase 20 anos de combate. No ano de 1949, a China toda estava dominada e o regime comunista, instalado. Sobrou uma pequena exceção: a ilha de Formosa ‒ que, diga-se de passagem, herdou o bonito nome dos primeiros portugueses que ali desembarcaram faz meio milênio.

Taipei, capital de Taiwan

Taipei, capital de Taiwan

Nessa ilha, que os nativos chamam Taiwan, os vencidos da guerra civil se refugiaram e fundaram uma república não-comunista. Apoiados pelos EUA, receberam ajuda comercial e militar. Foram admitidos na ONU, ao passo que a enorme China continental foi descartada. A situação perdurou até que, durante o governo Nixon, os papéis se inverteram. Em 1971, sob pressão americana, as Nações Unidas excluíram a pequena ilha e passaram a reconhecer a China continental como representante única do povo chinês.

No entanto, a perda de assento na ONU não significou o banimento da ilha do comércio internacional. Os Estados Unidos continuaram a fornecer armamento e as relações comerciais com os demais países continuou, criando uma situação esdrúxula. No oficial, Taiwan não existe. Na prática, tem sido importante ator do comércio mundial. O delicado equilíbrio vem se mantendo há 45 anos.

Taiwan

Taiwan

O telefonema entre a presidente de Taiwan e Mr. Trump desagradou as autoridades de Pequim, para as quais a ilha não é país independente, mas simples «província rebelde», um filho desgarrado. Esta semana, o presidente eleito dos EUA foi mais longe. Em entrevista, aventou a possibilidade de vir a reconhecer a «província rebelde» como país independente, hipótese inaceitável para a China continental, que nunca desistiu de reintegrar os taiwaneses à patria mãe.

O assunto é pra lá de sensível. Para a China, os EUA são parceiros comerciais de suma importância. E vice-versa. Pra completar o quadro, os chineses são os maiores credores dos Estados Unidos. A interdependência é forte ‒ uma ruptura causaria um tsunami de consequências inimagináveis.

Ninguém sabe como a situação vai evoluir, mas é certo que a inexperiência e a ousadia de Mr. Trump ainda vão provocar muito ranger de dentes. O mundo ainda vai levar umas sacudidas. Quem viver verá.

L’Escalade

José Horta Manzano

Você sabia?

Os heróis perpetuados pela história nem sempre merecem a glória que se lhes atribui. A própria existência de alguns deles é incerta. Isso tanto vale para o Brasil quanto para o resto do mundo. Não temos prova cabal de que personagens como Anhanguera, Zumbi dos Palmares, Caramuru e Moema tenham existido. Até de Tiradentes, herói maior, não sobrou um escrito sequer, o que faz desconfiar que o homem não tenha passado de «laranja» de um grupo de românticos e espertos intelectuais.

O nome do Rio Amazonas faz alusão a mulheres guerreiras da mitologia grega. Foi assim nomeado porque os primeiros visitantes europeus garantiram ter dado de cara com ferozes mulheres que, montadas a cavalo, combatiam. Sabemos hoje que, antes da chegada dos colonizadores, não havia cavalo nas Américas. Portanto, a história das lutadoras não passa de, digamos, «realidade aumentada».

Genebra nos anos 1600

A cidade fortificada de Genebra nos anos 1600

Este fim de semana, Genebra celebra uma de suas datas mais importantes. Pelo fim da Idade Média, a transição entre o regime feudal e o aparecimento do Estado-nação foi lenta e coalhada de vaivéns complicados. Entraram em jogo ambições pessoais, conflitos religiosos, rivalidades seculares, interesses estratégicos. Mal comparando, a atual situação da Síria e do Médio Oriente lembra o cenário político dos anos 1500 e 1600: num tabuleiro de povos de línguas e religiões diversas, tecia-se um jogo de alianças e de hostilidades entre poderosos. A marca da época era a instabilidade. Traições eram comuns. Todos temiam todos.

Logo que sobreveio a reforma protestante, a cidade de Genebra ‒ uma cidade-Estado ‒ se tornou bastião do calvinismo, um ramo do cristianismo reformado. Vítimas de perseguição religiosa afluíram de outras partes da Europa. Embora protestante, a cidade se encontrava cercada por populações de fé católica. Para complicar a situação, passava por ali a estrada que ligava o ducado da Saboia e o reino da França. Dominar Genebra era importante.

escalade-1Os saboianos, apoiados num batalhão de mercenários, prepararam um ataque noturno para tomar a cidade. O plano era mandar um punhado de homens escalar as muralhas de 7m de altura e penetrar no interior do vilarejo. De dentro, abririam o portão principal para permitir a entrada do batalhão que surpreenderia e dominaria os habitantes.

O assalto foi marcado para a noite de 11 para 12 dez° 1602. Valendo-se da escuridão e da negligência dos vigias, algumas dezenas de invasores conseguiram encostar escadas de madeira e penetrar na cidadezinha. Uma vez detectada, a presença dos invasores pôs em movimento a população. Uns correram aos templos para tocar os sinos em sinal de alerta, outros se atracaram aos assaltantes ou lançaram sobre eles variados objetos. Até mulheres deram contribuição para defender o vilarejo.

escalade-3É aí que uma certa Dame Royaume (Madame Catherine Cheynel, casada com Pierre Royaume) cometeu façanha que salvou a cidade. Conta a lenda que estava preparando uma sopa de legumes num imenso caldeirão. Ao avistar um invasor, não teve dúvidas: lançou, sobre o infeliz, o caldeirão com sopa e tudo. Salvou os concidadãos. A invasão acabou sendo repelida e Genebra pôde viver alguns anos de tranquilidade.

Quanto a mim, tenho cá minhas dúvidas. Parece-me surpreendente que, meia-noite passada, uma mulher estivesse cozinhando. Não era comum à época, como ainda não é hoje. Seja com for, o caldeirão de «Dame Royaume» ‒ também dita «Mère Royaume» ‒ tornou-se símbolo da proeza genebrina de 400 anos atrás.

escalade-2Todos os anos, desfiles em trajes de época, maratona para não-profissionais e diversas manifestações se desenrolam nos dias que precedem a festa conhecida como «L’Escalade» ‒ A Escalada. Até o governo federal participa das festividades.

Crianças (e adultos) recebem um caldeirão de chocolate recheado de bombons de marzipã. O ponto alto da festa é o momento de quebrar o caldeirão. Dependendo do tamanho, pode-se dar um murro ou até usar um martelo. Em seguida, comem-se os estilhaços de chocolate e devoram-se os bombons.

Nobel de Literatura

José Horta Manzano

« (…) åt dem som under det förlupna året hafva gjort menskligheten den största nytta.»

No final do século XIX, o engenheiro, químico, inventor, negociante e filantropo sueco Alfred B. Nobel era um homem rico. Já idoso, decidiu legar boa parte de sua considerável fortuna a uma fundação que cuidasse de fazer frutificar o capital aplicado, com a intenção de utilizar os frutos para premiar «aqueles que, durante o ano anterior, tiverem fortemente contribuído para o bem da humanidade». Essa é a tradução do original sueco citado acima.

Como é compreensível, as últimas vontades do cientista não foram lá muito apreciadas pela família, privada de uma parte da fortuna. Depois de alguns anos de batalha judiciária, não houve jeito: o testamento era válido e teve de ser respeitado.

nobel-2Em 1901, cinco anos após o falecimento de Nobel, a fundação estava de pé e os primeiros laureados foram nomeados. De lá pra cá, centenas de cientistas, escritores e benfeitores da humanidade vêm sendo premiados a cada ano. Mais de um século se passou e a fundação tem tomado certas liberdades com relação ao que tinha sido determinado no início.

A escolha dos laureados não se tem restringido aos que se tiverem destacado no ano anterior. Prêmios têm sido atribuídos a personalidades cuja obra já é mais antiga. Até prêmios por antecipação já foram atribuídos, como aconteceu com Barack Obama, laureado em início de mandato, quando sequer havia mostrado a que vinha.

Este ano, o Nobel de Literatura causou surpresa ainda maior. Fugindo à tradição, não foi concedido a um romancista ou a um ensaista, mas a Bob Dylan, autor de «folk music» americana, versão americana de nossa música caipira ‒ ou ‘sertaneja’, como se costuma dizer agora.

A escolha deixou muita gente espantada. Uns aplaudiram, outros balançaram negativamente a cabeça. Pessoalmente, achei um desperdício. Acredito que outros autores tivessem mais méritos, mas… que fazer? Ao fim e ao cabo, o dinheiro é deles. Dão a quem melhor lhes parecer.

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Assim mesmo, francamente, por mais que letra de «folk music» possa comover alguns, é surpreendente equiparar Bob Dylan a nomes como Alexander Soljenitsyn, Mario Vargas Llosa, Ernest Hemingway, Pablo Neruda, John Steinbeck, François Mauriac, William Faulkner, Rudyard Kipling, Anatole France e outras sumidades devidamente “nobelizadas”.

Mas o castigo vem a cavalo. Numa esnobada que há de ter causado desconforto à Fundação Nobel, o cantor/compositor deixou de comparecer à cerimônia de premiação, um desaforo. No entanto, como bobo não é, o moço mandou representante para ter certeza de não perder o prêmio. Afinal, o montante beira o milhão de dólares. E, de quebra, uma medalha de ouro 18 quilates. Dinheiro limpo e declarado, diga-se de passagem!

A Fundação Nobel bem faria se instituísse mais uma categoria: a de letrista de música popular. Se a instituírem e se concordarem em atribuir prêmio a título póstumo, sugiro Orestes Barbosa (1893-1966). De fato, não está à altura de qualquer um deitar no papel versos magistrais como:

   (…) e a lua, furando nosso zinco,
    salpicava de estrelas nosso chão.
    E tu pisavas nos astros distraída (…)

Um monumento.

Salto para trás

José Horta Manzano

Atribuem ao grande Antônio Carlos Jobim a frase «O Brasil não é para principiantes». Que seja dele ou não, a ‘boutade’ exprime uma grande verdade. O distinto leitor que, há tantos anos, tem visto o país descendo a ladeira, não não faz parte dos «principiantes» aos quais Tom Jobim se referia. Assim sendo, conhece os comos e os porquês do descalabro atual.

No entanto, quem não vive a realidade nacional no dia a dia recebe informações fragmentárias. Certas notícias chegam, outras não. Quem vive em Terras de Santa Cruz conhece nome, sobrenome e, muitas vezes, ‘codinome’ de todas as figurinhas carimbadas que circulam pelos corredores do Planalto, do Congresso e do STF. Para quem vive fora, é diferente.

jornal-6O respeitado jornal «Le Monde», quotidiano francês de referência, cujas análises costumavam ser respeitadas como as do New York Times, começa a dar mostra de ter abandonado a isenção, sua marca registrada. Quanto trata dos problemas brasileiros, sabe-se lá por que, tem mostrado visão sistematicamente capenga. Insiste em apresentar uma versão parcial dos fatos, dando a seus leitores uma ideia distorcida de nossa realidade.

A edição datada de 8 dez° 2016 traz um surpreendente artigo que ilustra o que acabo de dizer. Começa pelo título: «Brésil: le grand bond en arrière» ‒ «Brasil: o grande salto para trás». Para que fique ainda mais claro, o subtítulo insiste que «desde a destituição de Dilma Rousseff, o governo de Michel Temer conduz uma política que combina conservadorismo, autoritarismo e corrupção». Pronto, o tom está dado.

Transcrevo abaixo os primeiros parágrafos do artigo. Vai no original, em seguida dou a tradução.

Interligne 18c

«Le mardi 29 novembre, le Sénat brésilien a voté en faveur d’un amendement constitutionnel (PEC-55) plafonnant pour 20 ans les dépenses publiques. Alors que les sénateurs votaient, une manifestation d’étudiants se déroulant sur l’esplanade du Congrès était violemment réprimée par la police militaire(1). Au même moment, les députés adoptaient une série de dix mesures anti-corruption, vidées de leur substance et perçues comme une manière de se protéger des investigations liées aux dédoublements de l’Affaire Petrobras et de contre-attaquer un pouvoir judiciaire prompt à théâtraliser son action, à outrepasser ses prérogatives et à bousculer l’équilibre entre les pouvoirs.

Une semaine plus tard, le Président du Sénat, Renan Calheiros (du Parti du mouvement démocratique brésilien, auquel appartient le président non-élu(2) Michel Temer) est mis en accusation et écarté de ses fonctions par un membre de la Cour suprême (STF). La décision «monocratique» est refusée par le comité directeur du Sénat. Cet ensemble de faits en dit long sur l’état de la démocratie au Brésil, ébranlée depuis le coup d’État parlementaire maquillé en processus d’impeachment.»

Chamada do jornal Le Monde, 8 dez° 2016

Chamada do jornal Le Monde, 8 dez° 2016

«Terça-feira 29 de nov°, o Senado brasileiro votou emenda constitucional limitando, por 20 anos, as despesas públicas. Enquanto os senadores votavam, uma manifestação de «estudantes» (as aspas são minhas) na esplanada do Congresso foi violentamente reprimida pela PM(1). No mesmo momento, os deputados adotavam um conjunto de dez medidas anticorrupção ‒ desfiguradas ‒ destinadas a protegê-los de investigações do escândalo Petrobrás e a contra-atacar um Judiciário prestes a ultrapassar teatralmente suas prerrogativas e a desestabilizar o equilíbrio entre os Poderes.

Uma semana depois, o presidente do Senado, Renan Calheiros (do PMDB, partido do presidente não-eleito(2) Michel Temer) torna-se réu e é afastado de suas funções por um membro do STF. A decisão «monocrática» é rejeitada pela mesa diretora do Senado. Esse conjunto de fatos traduz o estado da democracia no Brasil, abalada desde o golpe de Estado parlamentar disfarçado de processo de impeachment

Interligne 18c

É frustrante ver órgão respeitado da mídia internacional publicando esse tipo de análise lacunar e tendenciosa. Atravessamos um momento difícil, sim, mas ainda há esperança. Esse tipo de escrito, que reduz o Brasil a uma republiqueta de bananas, nos é altamente prejudicial. À leitura de artigos como esse, grandes investidores não se sentem encorajados a arriscar estabelecer-se num país tão primitivo.

Ninguém ignora que nosso país está longe de ser perfeito, mas está na hora de o governo federal tomar iniciativas enérgicas para dizer ao mundo que, apesar dos pesares, muito está sendo feito para sair do buraco em que nos metemos.

by Paul Colin (1892-1985), artista francês

by Paul Colin (1892-1985), artista francês

(1) Ao sublinhar que Michel Temer é presidente “não-eleito“,  o artigo desinforma. Dilma Rousseff e Michel Temer formavam uma chapa eleitoral. Os 54 milhões de votos foram dados aos dois, não somente a ela. Houve tempos, no Brasil, em que se votava separadamente para presidente e para vice-presidente. Faz tempo que não é mais assim. Todos os que sufragaram a doutora também votaram no doutor.

(2) PM (= Polícia Militar) é expressão corriqueira no Brasil. Contrapõe-se a Polícia Civil. Em francês, não é assim. A informação que o artigo dá aos franceses é maliciosa. A Polícia Militar brasileira deve ser traduzida simplesmente por Police ou Gendarmerie. À Polícia Civil brasileira, corresponde a Police Judiciaire francesa.

Dado que, na França, a expressão «Police militaire» não designa nenhum corpo policial corriqueiro, traz à imagem o exército. No texto, o autor dramatizou voluntariamente a situação. A ouvidos franceses, soa como se o exército tivesse sido chamado para reprimir inocentes «estudantes». Com tanques e brucutus.

Blá-blá-blá ‒ 3

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 8 dez° 2016

Chamada do Estadão, 8 dez° 2016

Como se dizia no meu tempo, «olha só quem fala»…

Uma velha, branca e rica (sem aspas) dizer isso cai mal pra caramba. No fundo, quem desdenha quer comprar. Ah, se inveja matasse…

A salsicha e a pizza

José Horta Manzano

Nosso país é engraçado. Desde sempre, a gente se acostumou a ir dormir sem certeza de que leis e regras serão as mesmas no dia seguinte. Estes últimos meses, as «otoridades» que nos dirigem ‒ grande parte delas eleitas por nós ‒ não deixam passar um dia sem confirmar o chavão.

Razão tinha o estadista prussiano Otto von Bismarck (1815-1898) quando disse que «se a humanidade soubesse como são feitas as salsichas e as leis, teria pesadelos à noite». Para abrasileirar a máxima, basta substituir as salsichas por pizzas. Pronto, cai como luva!

Otto von Bismarck (1815-1898)

Otto von Bismarck (1815-1898)

O distinto leitor há de ter reparado que, nestes tempos estranhos, tudo termina diante de um juiz. Desde briga de vizinhos até diferendo entre Poderes da República, os problemas deixaram de ser resolvidos pelas partes envolvidas. Tornou-se automática a intervenção de terceiros. Por um sim, por um não, contendores entregam a outrem o encargo de encontrar solução.

E olhe que não será por falta de lei. Temos uma longuíssima Constituição que, em quase 250 artigos, está aí pra dar a linha mestra. Além dela, dispomos de invejável arsenal legislativo cuja extensão é de deixar babando de inveja o mais burocrático dos países. No entanto, interesses pessoais e corporativos costumam falar mais alto. Na hora do vamos ver, ninguém arreda pé. A intervenção de terceiros é indispensável.

Só que tem uma coisa: engana-se quem acredita na absoluta neutralidade de quem quer que seja. Terceiros, sejam eles quem forem, nunca serão neutros. Somos todos feitos da mesma matéria, tanto o trabalhador mais humilde quanto o ministro da Suprema Corte. Na hora de dar razão a este ou àquele, a decisão passará antes pelo filtro pessoal de quem julga.

TribunalPor isso, essa história de «julgamento isento» não existe. Quando chega, a decisão do juiz já atravessou um túnel pessoal, uma teia de interesses. Dinheiro, religião, raça, corporação, família política, ideologia, vingança, ‘toma lá dá cá’ entram em linha de conta. Até mera simpatia pesa na balança. E olhe que não estou mencionando suspeita de conchavos e acordões que ‒ Deus nos livre! ‒ não existem em nosso país.

Bom senso está-se tornando mercadoria escassa. A esmagadora maioria dos processos judiciais não tem razão de ser. Naturalmente, não estou falando de crime. Corrupção é crime e os autores têm de ser denunciados, processados, julgados e castigados. O mesmo caminho deve ser reservado a todo ato criminal.

Quando o problema é político, um pouco de bom senso evita muito dissabor e muito ressentimento. Tivesse o presidente do Senado renunciado ao cargo ‒ digo bem ao cargo, não ao mandato ‒ teria escapado dos holofotes e deixado impressão de atitude lógica e racional.

Supremo Tribunal Federal, Brasília

Supremo Tribunal Federal, Brasília

Preferiu ser marrudinho. Resultado: semeou cizânia no STF, mostrou-se antipático e arrogante. Assim mesmo, acabou perdendo prerrogativas da função, o que o tornou um esdrúxulo «meio senador». Para completar, acrescentou nomes à sua já longa lista de inimigos e desafetos.

O agora «semissenador» ‒ aquele que não serve para presidente do Executivo mas pode exercer a chefia do Legislativo ‒ se esquece de que vingança é prato que se come frio. Teria sido tão simples se, de sua própria iniciativa, tivesse renunciado à presidência da Casa. Não o fez. Desta vez, ganhou a parada mas, daqui para a frente, vai ser difícil que, para ele, tudo continue terminando em pizza. Ou em salsicha.

É noz!

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 7 dez° 2016

Chamada do Estadão, 7 dez° 2016

Quem diria! Este ingênuo blogueiro sempre acreditou que todos morreriam um dia. É sempre bom saber que quem come nozes corre menos risco.

Candidatos à eternidade, aqui está o caminho! Vivendo e aprendendo…

Frase do dia — 322

«Sabe por que as empresas envolvidas nos esquemas de corrupção pedem desculpas ao País, reconhecem seus crimes e se prontificam a pagar o pato enquanto os políticos não fazem a mesma coisa?

Porque o mundo dos negócios depende do mercado, ao passo que o universo político tem no voto obrigatório uma reserva de mercado.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 7 dez° 2016.

Lição de Psicanálise

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Assistindo ontem ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em que se debatia o projeto anticorrupção aprovado recentemente na Câmara dos Deputados, vi-me forçada a relembrar muitos dos sábios ensinamentos do pai da Psicanálise.

Quando você se depara com um comportamento bizarro, aparentemente sem sentido e cuja motivação lhe escapa, não se deixe abater. Controle por alguns segundos a sensação de que sua mente é obtusa e lembre-se: Freud explica. Tudo. Sempre. Se não parece explicável sob nenhum ângulo, é porque você ainda não absorveu inteiramente o arcabouço teórico do genial mestre.

Com um pouco de paciência para estudar a obra freudiana, você descobrirá que, dentre os mecanismos de defesa do ego propostos por ele, há um particularmente curioso chamado de “formação reativa”. O conceito é complexo, denso, cheio de meandros teóricos, mas pode ser fácil e rapidamente compreendido quando se dá um exemplo.

falar-em-publicoImagine que você tem pavor de falar em público. Só a simples ideia de que terá de se levantar, dirigir-se ao centro da sala, encarar as pessoas sentadas à sua frente e apresentar suas ideias de forma concatenada já é suficiente para detonar uma série de reações orgânicas de desconforto. Suas pernas bambeiam, suas mãos ficam trêmulas e úmidas, sua boca seca, sua voz falha e sai como um sussurro, assumindo por vezes um tom esganiçado.

Você sente que, para não ter de passar pela situação, seria capaz de fazer qualquer coisa. Ao mesmo tempo, sabe que não há escapatória. Todos serão chamados a falar, é só uma questão de tempo para que seu nome seja anunciado. Sua ansiedade extravasa e bloqueia sua mente. Não conseguindo suportá-la por mais tempo, você se voluntaria para ser o primeiro da fila.

Estranho, não é mesmo? Por que alguém aceitaria fazer o exato oposto do que está sendo pedido em seu íntimo? A explicação, no entanto, é simples: literalmente qualquer coisa é melhor para a preservação de sua saúde psíquica do que suportar a ansiedade. Sendo o primeiro, você se livra rapidamente da tensão e pode se preparar emocionalmente para responder a eventuais dúvidas ou contestações.

O exemplo mais emblemático de formação reativa no cenário político brasileiro recente é o que acometeu o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Para quem não lembra, o ex-deputado optou por depor espontaneamente numa CPI, ocasião em que declarou enfaticamente não possuir contas no exterior. Deu no que deu.

roda-viva-1Voltando ao debate no Roda Viva, estava presente o deputado maranhense responsável pela apresentação da emenda sobre o abuso de autoridade de magistrados e membros do Ministério Público. Acuado por comentários irados dos demais debatedores, ele deu início a suas explicações de peito estufado e voz firme, tecendo comentários vagos a respeito da coragem que teve para se opor ao clã Sarney em seu estado natal e relembrando um pacto assinado em 2009 entre o Executivo e o Legislativo para reformular a lei de abuso de autoridade, que data do período de ditadura militar. Foi recebido com um silêncio sepulcral.

Na sequência, um respeitado jurista fez questão de ler cada uma das 10 medidas contra a corrupção descartadas no substitutivo aprovado e concluiu enfático: “Isso é um estelionato legislativo, um verdadeiro projeto de facilitação e institucionalização da corrupção”.

Várias mensagens de apoio à fala do jurista começaram a chegar através das redes sociais. O deputado maranhense tentava se defender das acusações, mas não conseguia deixar de gaguejar e tremer. Foi então que um advogado se mostrou solidário à emenda do deputado. Elencou vários dos erros cometidos pela Operação Lava Jato e exigiu respeito à Constituição, argumentando que “ninguém está acima da lei”. Mais uma vez, a tela foi inundada por comentários de apoio dos telespectadores.

Logo depois, foi a vez de uma procuradora do Ministério Público falar. Fazendo menção às quase 2 milhões e 400 mil assinaturas coletadas, ela lembrou que várias das 10 medidas propostas haviam sido “importadas” de outros países democráticos e, algumas, recomendadas pela ONU. Ao final, sugeriu sem sutileza alguma que a intenção do “nobre deputado” só podia ser a de intimidar juízes e promotores, numa tentativa de autodefesa de parlamentares investigados por corrupção. Milhares de comentários indignados com a safadeza de membros do parlamento foram recebidos.

peticao-1Minha sensação de pasmo ao ouvir as teses apresentadas podia ser resumida pelo ditado popular que afirma que “em casa em que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão”. Não me escapava a impressão de que todos os lados da polêmica haviam recorrido inconscientemente a mecanismos de defesa. Tudo pairava no plano da “nobreza” das intenções declaradas para os próprios projetos em contraste com a suspeição quanto às “intenções ocultas” dos projetos alheios.

Freud deve ter se revirado na tumba várias vezes e se arrependido de ter formulado o conceito de motivações psíquicas inconscientes. Provavelmente, pensei eu já em meio à minha própria formação reativa, estaríamos pisando em terreno mais seguro caso fosse convocada uma Assembleia Constituinte fora do congresso e implantadas novas regras para a escolha de nossos representantes. É, concluí, Sartre estava mesmo certo: o inferno, decididamente, são os outros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.