Nobel de Literatura

José Horta Manzano

« (…) åt dem som under det förlupna året hafva gjort menskligheten den största nytta.»

No final do século XIX, o engenheiro, químico, inventor, negociante e filantropo sueco Alfred B. Nobel era um homem rico. Já idoso, decidiu legar boa parte de sua considerável fortuna a uma fundação que cuidasse de fazer frutificar o capital aplicado, com a intenção de utilizar os frutos para premiar «aqueles que, durante o ano anterior, tiverem fortemente contribuído para o bem da humanidade». Essa é a tradução do original sueco citado acima.

Como é compreensível, as últimas vontades do cientista não foram lá muito apreciadas pela família, privada de uma parte da fortuna. Depois de alguns anos de batalha judiciária, não houve jeito: o testamento era válido e teve de ser respeitado.

nobel-2Em 1901, cinco anos após o falecimento de Nobel, a fundação estava de pé e os primeiros laureados foram nomeados. De lá pra cá, centenas de cientistas, escritores e benfeitores da humanidade vêm sendo premiados a cada ano. Mais de um século se passou e a fundação tem tomado certas liberdades com relação ao que tinha sido determinado no início.

A escolha dos laureados não se tem restringido aos que se tiverem destacado no ano anterior. Prêmios têm sido atribuídos a personalidades cuja obra já é mais antiga. Até prêmios por antecipação já foram atribuídos, como aconteceu com Barack Obama, laureado em início de mandato, quando sequer havia mostrado a que vinha.

Este ano, o Nobel de Literatura causou surpresa ainda maior. Fugindo à tradição, não foi concedido a um romancista ou a um ensaista, mas a Bob Dylan, autor de «folk music» americana, versão americana de nossa música caipira ‒ ou ‘sertaneja’, como se costuma dizer agora.

A escolha deixou muita gente espantada. Uns aplaudiram, outros balançaram negativamente a cabeça. Pessoalmente, achei um desperdício. Acredito que outros autores tivessem mais méritos, mas… que fazer? Ao fim e ao cabo, o dinheiro é deles. Dão a quem melhor lhes parecer.

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Assim mesmo, francamente, por mais que letra de «folk music» possa comover alguns, é surpreendente equiparar Bob Dylan a nomes como Alexander Soljenitsyn, Mario Vargas Llosa, Ernest Hemingway, Pablo Neruda, John Steinbeck, François Mauriac, William Faulkner, Rudyard Kipling, Anatole France e outras sumidades devidamente “nobelizadas”.

Mas o castigo vem a cavalo. Numa esnobada que há de ter causado desconforto à Fundação Nobel, o cantor/compositor deixou de comparecer à cerimônia de premiação, um desaforo. No entanto, como bobo não é, o moço mandou representante para ter certeza de não perder o prêmio. Afinal, o montante beira o milhão de dólares. E, de quebra, uma medalha de ouro 18 quilates. Dinheiro limpo e declarado, diga-se de passagem!

A Fundação Nobel bem faria se instituísse mais uma categoria: a de letrista de música popular. Se a instituírem e se concordarem em atribuir prêmio a título póstumo, sugiro Orestes Barbosa (1893-1966). De fato, não está à altura de qualquer um deitar no papel versos magistrais como:

   (…) e a lua, furando nosso zinco,
    salpicava de estrelas nosso chão.
    E tu pisavas nos astros distraída (…)

Um monumento.