A Venezuela e a Revolução Bolchevique

José Horta Manzano

Este 7 de outubro marcou o centésimo aniversário da Revolução Bolchevique. Durante o período soviético e mesmo depois do esfacelamento da União Soviética, a data era comemorada com festa, impressionante desfile militar, multidão de espectadores, rojão e banda de música.

Depois da ascensão de Vladimir Putin, a celebração perdeu importância. Não foi por obra do acaso, mas por ordem do dirigente máximo. De fato, o mandachuva preferiu dar maior ênfase à grande festa nacional, aquela que comemora a vitória sobre a Alemanha nazista.

Na época comunista, a verdade sobre os milhões de vítimas do regime era escamoteada. Nada se divulgava sobre as multidões de fuzilados, de banidos nos gulags, dos encarcerados por delito de opinião ou por simples capricho de um comissário qualquer. Esses fatos são hoje de conhecimento público.

Putin, se pudesse, anularia tudo o que pudesse fazer lembrar a revolução de 1917. Prefere focar em acontecimentos que contribuam para a coesão nacional, daí o interesse pela vitória contra Hitler. Há que levar em conta também que cidadãos com menos de 35-40 anos não conheceram o período comunista. Para essa camada mais jovem da população, Stalin e Lenin fazem parte dos livros escolares, como Vargas ou o Marechal Deodoro para nós.

Na contramão da história, como é seu hábito, o ditador Nicolás Maduro convocou os sindicatos venezuelanos para um grande desfile de comemoração do centenário da Revolução Russa. A Assembleia ‒ inteiramente composta por parlamentares a serviço da ditadura ‒ juntou-se aos festejos. Maduro discursou em cadeia nacional de rádio e televisão. Expressões empoeiradas como «socialismo libertário», «dignidade dos povos sul-americanos», «união dos povos do sul», «revolução socialista, camponesa e proletária» fizeram parte do pronunciamento.

Como é possível que a Rússia, pátria do comunismo, tenha optado por tirar o foco da revolução, enquanto a Venezuela se esforça para dar peso a um acontecimento que não lhe diz respeito? Há uma explicação.

Vladimir Putin tenta banir do inconsciente coletivo russo a ideia de que toda mudança de regime tenha de vir pela força de uma revolução ou de um golpe de Estado. Assim, tenta convencer os russos de que ele ‒ Putin ‒ encarna o grande passo à frente. Sem lutas, sem manifestações, sem revolta popular.

Por seu lado, Nicolás Maduro procura incutir no imaginário de seu povo que só uma revolução ‒ a dele, naturalmente ‒ garantirá felicidade para todos. Incentiva passeatas, desfiles, discursos guerreiros, atos violentos. Desde que sejam em seu favor, diga-se.

Países que rechaçaram explicitamente a independência catalã

Nota
A esmagadora maioria dos países condenou explicitamente a declaração unilateral de independência catalã. Señor Nicolás Maduro, no entanto, não quis acompanhar o resto do planeta. Tem aproveitado, sempre que a ocasião aparece, para lançar flechas contra o governo espanhol. É difícil entender por que razão o ditador bolivariano se levanta justamente contra um dos países que mais investem na Venezuela.

A província rebelde

José Horta Manzano

Donald Trump é bom exemplo de pessoa certa no lugar errado.

Pessoa certa por quê? Porque algum jeito para negócios há de ter. A boa estrela não teria sido suficiente para fazer um indivíduo progredir de milionário a multibilionário no espaço de 40 anos. Nem maracutaia grossa de político brasileiro alcança essa amplitude. Para negócios, não resta dúvida, o moço tem talento.

Lugar errado por quê? Porque a presidência dos EUA não é trono pra qualquer um. Mandatário que, além de inexperiente, vem imbuído da arrogância dos que se acostumaram a comprar tudo com dinheiro, periga escorregar feio. E se, ao resvalar, acabar levando o tapete junto, pode causar desastre planetário.

China continental & Taiwan

China continental & Taiwan

Semana passada, Mr. Trump teve uma conversa telefônica com a presidente de Taiwan. Um distraído poderia perguntar: “E daí?” A resposta é que um diferendo entre a China continental (Pequim) e Taiwan (Taipei, ilha de Formosa) perdura há quase 70 anos. O bate-papo foi mal recebido lá pelas bandas de Pequim.

A revolução comunista comandada por Mao Tsé-Tung nos anos 1930-1940 acabou vencendo as tropas nacionalistas ao fim de quase 20 anos de combate. No ano de 1949, a China toda estava dominada e o regime comunista, instalado. Sobrou uma pequena exceção: a ilha de Formosa ‒ que, diga-se de passagem, herdou o bonito nome dos primeiros portugueses que ali desembarcaram faz meio milênio.

Taipei, capital de Taiwan

Taipei, capital de Taiwan

Nessa ilha, que os nativos chamam Taiwan, os vencidos da guerra civil se refugiaram e fundaram uma república não-comunista. Apoiados pelos EUA, receberam ajuda comercial e militar. Foram admitidos na ONU, ao passo que a enorme China continental foi descartada. A situação perdurou até que, durante o governo Nixon, os papéis se inverteram. Em 1971, sob pressão americana, as Nações Unidas excluíram a pequena ilha e passaram a reconhecer a China continental como representante única do povo chinês.

No entanto, a perda de assento na ONU não significou o banimento da ilha do comércio internacional. Os Estados Unidos continuaram a fornecer armamento e as relações comerciais com os demais países continuou, criando uma situação esdrúxula. No oficial, Taiwan não existe. Na prática, tem sido importante ator do comércio mundial. O delicado equilíbrio vem se mantendo há 45 anos.

Taiwan

Taiwan

O telefonema entre a presidente de Taiwan e Mr. Trump desagradou as autoridades de Pequim, para as quais a ilha não é país independente, mas simples «província rebelde», um filho desgarrado. Esta semana, o presidente eleito dos EUA foi mais longe. Em entrevista, aventou a possibilidade de vir a reconhecer a «província rebelde» como país independente, hipótese inaceitável para a China continental, que nunca desistiu de reintegrar os taiwaneses à patria mãe.

O assunto é pra lá de sensível. Para a China, os EUA são parceiros comerciais de suma importância. E vice-versa. Pra completar o quadro, os chineses são os maiores credores dos Estados Unidos. A interdependência é forte ‒ uma ruptura causaria um tsunami de consequências inimagináveis.

Ninguém sabe como a situação vai evoluir, mas é certo que a inexperiência e a ousadia de Mr. Trump ainda vão provocar muito ranger de dentes. O mundo ainda vai levar umas sacudidas. Quem viver verá.