Desalento

José Horta Manzano

Linguistas divergem sobre a origem da palavra desalento (des + alento). Boa parte acredita que venha da mesma raíz que o verbo latino halare, que significa expirar, soltar o ar dos pulmões. Faz sentido. Um dos sinais característicos do indivíduo desalentado e desesperançado é o suspiro.

A crer nos resultados da pesquisa que o Instituto Paraná Pesquisas acaba de publicar sobre a Operação Lava a Jato, o brasileiro dá sinais fortes de desalento. Indagados sobre como imaginam o futuro da corrupção no Brasil depois da Lava a Jato, nossos concidadãos deram resposta nada otimista.

Pesquisa 6

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Dos entrevistados, mais de 61% acreditam que, terminado o jateamento, a corrupção vai continuar como está ou vai até aumentar. Arredondando os números, de cada três conterrâneos, apenas um acha que esse festival de obscenidades vai dar trégua. Os outros dois não botam fé na regeneração do panorama político.

Desalento 1A constatação é ‒ sem trocadilhos ‒ desalentadora. Como é que ficam aquelas pesquisas que classificam os brasileiros entre os mais otimistas do planeta? Há flagrante contradição aí.

Otimismo por um lado, desalento por outro. Para conciliar as duas afirmações, só enxergo uma tenebrosa hipótese: os brasileiros são felizes e otimistas independentemente de viverem mergulhados num universo de corruptos. Em outras palavras, a corrupção onipresente não incomoda. Será isso?

Aplaudaço ou aplausaço?

José Horta Manzano

A língua evolui com a sociedade, numa dinâmica fácil de entender. Novos conceitos surgem, que devem ser expressos por palavras. Nessa hora, há dois caminhos. Pode-se criar expressão ou palavra específica. Vale também colher expressão existente e dar-lhe nova acepção.

Chamada do jornal O Globo

Chamada do jornal O Globo

As palavras «carreata» e «imexível», que já estão dicionarizadas, foram criadas especialmente para expressar novos conceitos. Por seu lado, os termos «mensalão» e «petrolão», que exprimem realidades novas, são nada mais que o grau aumentativo de palavras existentes.

Semana passada, nosso guia foi intimado a depor. O Brasil decente exultou. Redes sociais lançaram a palavra de ordem: aplaudir a Polícia Federal. Como denominar a manifestação? Aplausão? Palmatória? Ovação?

Chamada do jornal Zero Hora

Chamada do jornal Zero Hora

A mídia hesitou. Embora o sufixo aumentativo mais comum em nossa língua seja ão, o que mais se leu foi «aplaudaço» e «aplausaço», formados com aço, sufixo mais comum na língua castelhana (azo).

Entre os dois neologismos ‒ aplaudaço ou aplausaço ‒, qual escolher? Seria um deles mais correto que o outro? Não. São ambos calcados em raízes latinas, legitimidade garantida. Um ou outro, tanto faz. Pessoalmente, acho que «aplausão» teria ficado melhor. De toda maneira, vai do gosto do freguês.

A galinha do vizinho

José Horta Manzano

Assim como possuir não é sinônimo perfeito de ter, o verbo colocar tampouco é sinônimo perfeito de pôr. Cada macaco no seu galho.

Ovo 2Colocar tem muitas acepções. Quando significa pôr em algum lugar, carrega uma nuance de arranjar, ajeitar, acomodar, dispor de uma certa maneira. Colocar flores num vaso, colocar bibelôs numa prateleira, colocar vírgulas numa frase, colocar os convidados em volta da mesa ‒ são usos que soam bem.

Muito se tem falado da rápida propagação do mosquito Aedes aegypti. O mosquito ‒ especialmente a mosquita, segundo nossa presidente ‒ garante a reprodução da espécie por meio de ovos. Como outros insetos, aliás.

É surpreendente ver e ouvir com frequência que a fêmea pode colocar ovos. Este blogueiro é do tempo em que mosquitos ‒ especialmente mosquitasbotavam ovos. Quem tiver antipatia por esse verbo, pode usar pôr, que funciona do mesmo jeito. Colocar, francamente, não é a melhor opção. Pode desagradar à mosquita.

Vivemos numa democracia. Nada impede que a mosquita, depois de botar seus ovinhos, os coloque noutro lugar, dispostos em ordem de tamanho, por exemplo. Não há, porém, notícia de que proceda assim.

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de Minas 247, 26 fev° 2016

da Folha de São Paulo, 26 fev° 2016

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d'O Globo, 26 fev° 2016

d’O Globo, 26 fev° 2016

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da Folha de São Paulo, 26 fev° 2016

de Minas 247, 26 fev° 2016

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Plebiscito ou referendo?

José Horta Manzano

Desta vez, o Planalto tem razão. Quem errou foi a imprensa. Pensam que estou brincando? Pois não estou. Explico.

Quando pipocaram os protestos populares de jun° 2013, dona Dilma propôs uma consulta popular seletiva, algo que a atual Constituição não contempla. O tempo passou, os ânimos se acalmaram e chegou a hora de dar nome aos bois. Afinal, como devia ser chamada a consulta ‒ referendo ou plebiscito?

Especialistas ensinaram. Os mais atentos prestaram atenção e tomaram nota. Até o mui oficial Blog do Planalto aprendeu! A coisa ficou assim:

Plebiscito
É quando se convocam os eleitores a se pronunciar sobre matéria que ainda não foi votada. Assim, o povo é consultado antes que o parlamento legifere.

Referendo
É quando se convocam os eleitores a se pronunciar sobre matéria já aprovada pelo Congresso. Assim, o povo é chamado a aprovar ou rejeitar lei existente.

Mr. Cameron vai submeter a seu povo uma questão sobre a qual o parlamento britânico ainda não se pronunciou. Portanto, trata-se de um plebiscito. Visto que ainda não há lei, não há como referendá-la. Logo, referendo não será.

Nenhum dos três grandes jornais brasileiros fez a lição de casa. Vejam só:

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Estadão

Chamada do Estadão, 20 fev° 2016

Chamada do Estadão, 20 fev° 2016

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Folha de São Paulo

Chamada da Folha de São Paulo, 20 fev° 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 20 fev° 2016

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O Globo

Chamada d'O Globo, 20 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 20 fev° 2016

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Orthographia ‒ 2

José Horta Manzano

Como bem sabem meus cultos leitores, o AO90 ‒ acordo ortográfico assinado 25 anos atrás ‒ entrou em vigor definitivamente, no Brasil, dia 1° jan° 2016. Aqui está a homenagem de G. Passofundo, desenhista gaúcho.

by Geraldo 'Passofundo' Fernandes, desenhista gaúcho

by Geraldo ‘Passofundo’ Fernandes, desenhista gaúcho

Escrita automática

José Horta Manzano

Se o distinto leitor imagina que a escrita automática do título é introito de artigo sobre psicografia, devo desenganá-lo. O caso de hoje é mais prosaico.

Falar sem refletir é próprio do ser humano. Ao falar, a gente hesita às vezes, por um instante, em busca de um adjetivo ou de um verbo mais adequado. O mais das vezes, no entanto, as palavras fluem automaticamente. Sai como sai. E é bom que assim seja, senão a comunicação seria difícil.

Avião 3Já a escrita demanda um bocadinho de reflexão. O exercício se complica com a importância do texto. Bilhetinho a ser grudado na geladeira não exige concentração nem volteios, a coisa sai como sai. Pra redação de concurso ou artigo de jornal, a história é outra. Não se deve simplesmente lançar as palavras como nos brotam.

Nem todos se dão conta disso, é uma evidência. Ainda hoje topei com artigo no Estadão ‒ bem escrito, por sinal ‒, que peca por irreflexão. O assunto não é transcendente. Relata-se o bloqueio, por parte do fisco, de bens de conhecido jogador de futebol. Iate e avião confiscados! Ao fechar a matéria, o escriba informa que «a sentença cabe recurso».

Iate 1Escorregou. É usual, em notícia de condenação, explicar que cabe recurso. Com isso, quer-se dizer que a sentença não é definitiva, e que o condenado ainda pode contestar. Em outras palavras, cabe recurso significa que é cabível que o interessado interponha recurso. Trocando em miúdos, é admissível a possibilidade de apelar à autoridade que proferiu a sentença para tentar reformá-la.

Ao declarar que «a sentença cabe recurso», o articulista trocou os pés pelas mãos. O que cabe não é a sentença, mas o recurso. Tivesse dito «a sentença admite recurso» ou «contra a sentença, cabe recurso», teria acertado. Fica para a próxima.

A segunda língua

José Horta Manzano

Você sabia?

O serviço central americano de informação ‒ a conhecida CIA ‒ não se restringe a espionar e a colecionar informações militares sensíveis. Para chegar lá, precisa, naturalmente, coletar alentada massa de dados em diferentes setores de atividade.

Depois de extrair o que lhe interessa, deixa toda informação não sigilosa à disposição do distinto público. Mapas e estatísticas fazem a alegria de apreciadores.

Lingua 5Entre as resenhas, há uma relação das línguas faladas em cada país. Estão lá a língua oficial ‒ que não é necessariamente a mais falada ‒ e os idiomas secundários.

Algumas surpresas aparecem. Em Moçambique, que contamos como país lusófono, apenas 10% da população conhecem a língua de Camões. No pequeno Belize (antiga Honduras Britânica), o total percentual excede 100%, o que demonstra que parte da população fala duas ou mais línguas.

Lingua 3Todos sabem que a segunda língua mais falada nos EUA é o espanhol. Mais surpreendente é saber que, na Austrália, a segunda posição é ocupada pelo chinês.

Quanto ao Brasil, porcentagens não são especificadas. Menção é feita a alguns idiomas europeus, assim como a «grande número» de línguas indígenas.

Lingua 4O portal Movehub valeu-se desses dados e desenhou um mapa-múndi da segunda língua falada em cada país. O resultado é curioso. Sem ser imperdível, não deixa de ser interessante.

Curiosos devem clicar aqui. Em seguida, para ampliar os mapas, clique em cada um deles. Quanto aos mais apressados, basta clicar nas ilustrações para ampliar.

Jogo dos sete erros

José Horta Manzano

Segunda-feira de Carnaval. Na redação do jornal, saíram todos: chefe, subchefe, vice-chefe, auxiliar do chefe. Nem o pretendente a chefe ficou. Sobrou para os estagiários.

Jacques, gaúcho trilegal e leitor fiel do blogue, costuma prestar atenção ao que lê na mídia. Ficou ‘estarrecido’ ‒ como costuma dizer aquela em quem vocês estão pensando ‒ com o que encontrou. A edição gaúcha do G1 traz uma coleção de fazer inveja.

Alguns são modismos, outros são imprecisões, outros, ainda, erros primários. A Pátria Educadora continua arreganhando os dentes. Cariados.

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2016-0208-04 G1 RSEstado (da Federação) pede letra maiúscula.

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2016-0208-03 G1 RSFazer foto? Soa esquisito. Este blogueiro é do tempo em que ninguém “fazia” foto. Foto se tirava.

Interligne 28a2016-0208-02 G1 RSÉ irritante ver o verbo seguir usado como sinônimo de continuar. Seguir sugere algum movimento: seguir em frente, seguir alguém, seguir um desfile. No presente caso, o barco está imóvel debaixo d’água há dez dias. Seguir não serve. Substitua-se por continua, permanece, está, perdura, mantém-se.

Interligne 28a2016-0208-07 G1 RSComo todo nome próprio, Carnaval, que é nome de festa, pede inicial maiúscula.

Interligne 28a2016-0208-01 G1 RSNão contente com o sumiço do til, o escriba transformou o feriado numa ferida. Uma grande ferida. Um feridão!

Interligne 28a2016-0208-05 G1 RSNuma curta chamada, três reparos.
Primeiro: não se ateia fogo em, ateia-se fogo a.
Segundo: o cobrador não foi ferido após o assalto, mas no assalto.
Terceiro: dizer que o suspeito fugiu com o dinheiro é exagerar no politicamente correto. Não se pode dizer assaltante? Ou será que tem de esperar que o processo transite em julgado?

Interligne 28a2016-0208-06 G1 RSPronto, aqui está a cereja em cima do bolo. O termo óculos, redução da expressão par de óculos, é plural. Sempre. Os linguistas chamam a esse fenômeno pluralia tantum. Não se assuste. Diga os óculos, meus óculos, seus óculos. Vai acertar.

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Falam de nós – 17

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Não é só no Brasil que as investigações de corrupção estão sendo avidamente acompanhadas pela plateia. Uns mais, outros menos, todos os países dão notícia do desenrolar de cada capítulo.

Interessante é notar que, no Brasil, o receio de arrumar encrenca vem impondo à mídia um certo recato na escolha do palavreado. Quando o santo nome de nosso guia está envolvido, calçam-se luvas e usam-se pinças para tratar do assunto.

Jornais preferem pôr verbos no condicional ‒ «teria feito», «haveria estado», «teria sido». Abusa-se de fórmulas como «supostamente», «hipoteticamente», «por suposição».

by Henriqe de Brito, caricaturista

by Henrique de Brito, caricaturista

Para relatar a mais recente encrenca em que nosso guia (& esposa) estão metidos, a imprensa nacional preferiu expressões do tipo «estão sendo investigados por envolvimento na compra de um apartamento».

Já a mídia internacional comporta-se diferentemente. Sem sentir a mesma pressão, costuma dar a notícia com palavras cruas, sem floreios e sem firulas. Dei um passeio pelas manchetes planetárias e deixo aqui o resultado da colheita.

Nenhum veículo fez rodeios em torno do assunto. Foram todos direto ao ponto. Dizem todos qual é a acusação pela qual o antigo presidente (& esposa) estão sendo investigados:

Interligne vertical 17aAlemão: Geldwäsche (lavagem de dinheiro)

Inglês: money-laundering (lavagem de dinheiro)

Italiano: lavaggio di denaro (lavagem de dinheiro)

Francês: blanchiment d’argent (branqueamento de dinheiro)

Espanhol: lavado de dinero (lavagem de dinheiro)

Turco: yolsuzlukla (corrupção).

Como se vê, dependendo de quem chama, o boi tem outro nome. Mas é sempre o mesmo boi.

Por causo que

José Horta Manzano

Escola 2Nos tempos em que escola ensinava e aluno aprendia, aulas começavam pontualmente. Se um aluno chegasse atrasado, tinha de bater à porta e pedir licença ao professor. O mais das vezes, o mestre consentia em deixar entrar o aluno. Logo em seguida, pedia justificativa para o atraso.

«Desculpa, professor, eu cheguei atrasado por causo que…»

Nesse ponto, o discurso era interrompido de chofre.

«Não se diz ‘por causo que’, menino! O certo é ‘por causa de’».

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Meu distinto leitor já há de ter percebido que, nos dias atuais, esse diálogo está fora de moda . De fato, a expressão ‘por causa de’, em via de extinção, foi substituída pela estranha ‘por conta de’.

Não sei quem terá sido o primeiro a abandonar a locução tradicional. Suponho que o modismo tenha logo sido integrado às novelas, que são o meio mais rápido e eficaz de esparramar cacoetes (não só linguísticos) no Brasil.

Escola 3Na língua falada, é difícil escapar a modismos. Dado que a rapidez da elocução não deixa tempo para refletir, as palavras se encadeiam num semiautomatismo. Na língua escrita, a história é outra. O ritmo mais lento da redação permite ao escriba ser mais cuidadoso na escolha de vocábulos e expressões.

No entanto, mesmo na mídia escrita, ‘por conta de’ tem suplantado a locução tradicional por ampla margem. É surpreendente que locutores e articulistas não se preocupem em apurar o vocabulário, que é, no fundo, seu instrumento de trabalho.

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Casos em que ‘por conta de’ se encaixa perfeitamente:

Interligne vertical 14Aos trinta anos, ainda vive por conta dos pais.

Patrão, quero pedir um vale por conta do salário do mês.

Ela assa os bolos. A venda fica por conta do marido.

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Expressões que, conforme o contexto, podem substituir ‘por causa de’:

Interligne vertical 16 3Kfem virtude de
por efeito de
visto que
por obra de
uma vez que
graças a
dado que
em consequência de
devido a
já que
em razão de
porque
por motivo de
pois que
por ação de
por mérito de
em função de

Viram como língua é rica? Falar bem custa a mesma coisa e rende mais.

Annus horribilis

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 jan° 2016

Em discurso pronunciado por ocasião das celebrações de seus quarenta anos de reinado, Elizabeth II, com ar sinceramente compungido, qualificou o ano que corria, 1992, como «annus horribilis». A expressão pescada no latim contrapunha-se a «annus mirabilis» ‒ ano maravilhoso ‒, título de notável poema escrito trezentos anos antes por conterrâneo seu.

Elizabeth II 1Tinha razão a rainha. Coisas nunca dantes vistas naquele país tinham sobrecarregado o ano e abalado a monarquia. Divórcios no seio da real família, escândalos mercadejados pela imprensa, querelas palacianas expostas à luz do dia e até um ruinoso incêndio numa de suas residências tinham-lhe anuviado o horizonte.

Bola cristal 1Mas tudo é relativo. Acontecimentos valem dentro do contexto em que ocorrem. Se a rainha fosse daquelas de conto de fadas, com poder de enxergar o futuro em bola de cristal ‒ e se tivesse pressentido o sufoco que o ano de 2015 estava reservando para o Brasil ‒, teria classificado seu 1992 como mero «annus placidus».

Para nós, que não temos reis nem castelos, os engasgos do ano que acaba de expirar foram desesperadores. Não se passou semana sem novo escândalo. E dizem que isso foi só aperitivo. Sabe Deus o que vem por aí!

Em meio a tamanha atribulação, poucos se lembraram de que, neste primeiro de janeiro, entrou oficialmente em vigor a grafia imposta pelo AO 90 ‒ aquele acordo ortográfico engendrado e firmado faz mais de um quarto de século. Apreciadas por alguns, execradas por muitos, as novas regras são agora norma oficial. Ai de quem ousar afrontar a lei! Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

AO 90 1Pessoalmente, tenho duas objeções. São estéreis, visto que o que foi decidido, decidido está. Assim mesmo, quero deixá-las aqui consignadas como derradeiro desabafo. Isso feito, não se volta mais ao assunto, pelo menos até a próxima alteração das regras.

Minha primeira bronca é com a dança dos hífens. Onde antes havia certezas, hoje sou obrigado a conferir no dicionário a grafia de cada palavra composta. Os arquitetos do acordo perderam excelente ocasião para eliminar de vez o fugaz e irritante tracinho.

O segundo dissabor que o AO 90 me causou foi o banimento do trema, aqueles dois simpáticos pontinhos que, além de ser úteis, conferiam ar chique e internacional à nossa escrita ao aproximá-la do alemão, do francês, do espanhol e até do sueco.Quinquelingue Torcendo pra que o revisor deixe passar, ouso escrever, pela última vez, aquela que creio ser a única palavra que levava três tremas: qüinqüelíngüe. Não era um charme? Abrigada sob para-sol de seis pontinhos, essa preciosidade designa um poliglota versado em cinco idiomas. O acordo ortográfico, de certa maneira, acentuou a insegurança linguística de que sofremos todos. Fazer o quê?

Como contrapeso, os acontecimentos do ano de 2015 enriqueceram nosso vocabulário. Fatos tão extraordinários ocorreram que jornalistas, analistas e comentaristas foram impelidos a vasculhar fundos de baú à cata de palavras para descrevê-los. Termos que cochilavam foram desempoeirados e trazidos à luz do dia.

Desatino, desvario, bulha, impudência, banzé, desacerto, conspurcação, devaneio foram ressuscitados. Aprendemos que tanto é lícito agir diuturna como noturnamente ‒ um achado! A tragédia de Mariana, aquele mar de lama que, no sentido figurado, tinha forçado o velho Getúlio Vargas a entrar para a história ressurgiu como realidade palpável, mortífera, surreal.

Bicicleta 10Não há hoje um brasileiro medianamente instruído que não saiba o que vem a ser crime de responsabilidade ‒ conceito obscuro até um ano atrás. Outra conquista da língua popular foi a sutil diferença entre desenvolvimentismo e populismo. A nuance ainda não está muito clara, mas logo logo vamos descobrir. (Se é que diferença existe, naturalmente.) Outro ganho vocabular foi a descoberta de que pedaladas não se restringem ao universo do ciclismo.

Fato extraordinário: «Verba volant, scripta manent», máxima latina pra lá de sofisticada, entrou para o vocabulário comum. Uma vitória! Por seu lado, captamos a diferença entre o mandato que se cassa e o mandado que caça, especialmente se for mandado de prisão.

Museu 1No finzinho de um ano generoso para nossa língua, porém, uma nota de tristeza: o incêndio do Museu da Língua Portuguesa. Foi sinal a insinuar que língua, como todo organismo vivo, não merece ser encerrada em gaiola nem em museu. Mais vale desenjaulá-la e deixá-la propagar-se firme, forte, livre e solta.

Que 2016 seja um «annus laetus et faustus» ‒ alegre e venturoso. Sorte a todos! Precisamos.

Por que complicar?

Chamada do Estadão, 1° jan 2016

Chamada do Estadão, 1° jan 2016

José Horta Manzano

Por que “chikungunya”? Essa grafia é destinada à mídia de língua inglesa. Temos meios mais familiares para escrever o nome da enfermidade. Fica assim, ó: chicungunha.

Até a Wikipédia já entendeu ‒ vá conferir.

Do futuro, ninguém sabe

José Horta Manzano

Cabeçalho 4Boas surpresas podem surgir de onde menos se espera. Não é corriqueiro, mas acontece. Quando o Lula indicou, para ocupar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal, o senhor Dias Toffoli(*), a decisão levantou um bruaá dos diabos. Foi em 2009.

Tirando os admiradores mais entusiastas de nosso guia, a escolha foi recebida com cautela e desconfiança. Desconhecido, jovem demais, antigo advogado do PT, reprovado em exame para a magistratura, alvo de processo por fraude em licitação ‒ foram as acusações que sobressaíram.

É verdade que o moço não se encaixava no perfil do ministro ideal. No entanto, a pouca idade, que parecia fator agravante, dá indícios de se estar transformando em elemento positivo. ‘A adolescência é defeito que os anos corrigem’, como diz o outro.

Dias Toffoli 1Fidelidade e gratidão são propriedades com prazo de vencimento. O fato de ter sido nomeado por este ou por aquele não é, em si, garantia de obediência nem de reverência eterna. A história está cheia de exemplos de criaturas que, com o tempo, se emanciparam do criador. É compreensível. A natureza determina que seja assim, desde animais primitivos até animais políticos.

Contrariando a bolsa de apostas, senhor Toffoli posicionou-se contra os interesses do governo na votação da semana passada sobre rito de destituição de dona Dilma. Alguns dias depois, em entrevista ao Estadão, o ministro pronunciou a frase que pus lá em cima, no cabeçalho. Foi pronunciamento sensato, uma entrevista que vale a pena ler.

Parece que, apesar do histórico pouco promissor, o rapaz esteja conseguindo se distanciar da ideologia primária e ultrapassada do PT. As declarações que deu na entrevista são animadoras. Mostram que o fato de ter chegado jovem ao Supremo pode ter sido uma vantagem: sua visão de mundo ainda não estava cristalizada.

No meio da escuridão em que está mergulhado o andar de cima, qualquer indício de lucidez é bem-vindo. Qualquer voz que se alevante para preconizar voto distrital e cláusula de barreira terá meu apoio. Ainda que venha de antigo advogado do PT.

Interligne 18h

(*) Curiosidade etimológica
O sobrenome italiano Toffoli é frequente na região do Veneto, principalmente nas províncias de Veneza, Pordenone e Treviso. Provém de uma alteração ‒ que os linguistas chamam aférese ‒ do nome de origem grega Christopholus (=Cristóvão). O caminho é: Christopholus → Christopholi → Cristoffoli → Toffoli.

Sobe o nível

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 25 dez° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 25 dez° 2015

A notícia é animadora, mas o arauto é capenga.

«Cantareira sobe o nível» ‒ come é que é? Esmiuçada, a frase não faz sentido. Trocaram os pés pelas mãos. Ainda bem que a chamada traz ilustrações. Elas explicam que o Cantareira não sobe nível nenhum: quem sobe é o nível.

É verdade que, nestes tempos bicudos, vivemos aos trancos e barrancos. Gostaríamos todos de subir a ladeira.

Vamos reescrever a chamada em linguagem lógica? Fica assim, ó: Nível do Cantareira sobe.

Simples e claro. Feliz Natal!

Novilíngua – 3

José Horta Manzano

Foto publicada pelo Estadão, 14 dez° 2015

Foto publicada pelo Estadão, 14 dez° 2015

Este blogueiro é do tempo em que se tomava mais cuidado ao traduzir despachos chegados do estrangeiro.

Quanto aos vegetais comestíveis fotografados, faz oitocentos anos que têm nome genérico em nossa língua.

Quanto à metrópole indiana, foi batizada com nome próprio pelos primeiros portugueses que lá desembarcaram quinhentos anos atrás.

Revista e melhorada, a legenda da foto fica assim: “Vendedor de legumes espera por clientes em sua barraca num mercado de Bombaim, na Índia.”

Wishful thinking

José Horta Manzano

Nossa língua é rica. Infelizmente, a deterioração do ensino básico tem negado aos mais jovens a chave do baú. O vocabulário encolhe, palavras-ônibus engolem termos específicos, a transmissão das ideias vai ficando mais complicada. A dificuldade de compreensão contamina até altas esferas: exemplo típico é o de nossa presidente, cujos pronunciamentos absconsos exigem interpretação.

Na Suíça, cada região fala a própria língua. Isso, no entanto, não causa particulares tensões – faz séculos que tem sido assim. Pelo contrário, costuma-se até brincar dizendo que os suíços se entendem bem justamente porque não se compreendem. É galhofa, mas não deixa de ter lá seu fundo de verdade. Talvez venha a se tornar realidade no Brasil de amanhã.

Na estrada 04A línguas germânicas, que muitas vezes dispensam preposições, têm características sintéticas. São, assim, mais maleáveis. Em inglês, por exemplo, com duas palavras exprimem-se conceitos complexos, daqueles que exigiriam uma linha de explicação em nosso idioma. É o caso de wishful thinking.

Ao pé da letra, a tradução «pensamento desejoso» não transpõe a ideia exata. Precisaria verter como «formular conceitos que levam a tomar decisões baseadas menos na realidade e mais no desejo que temos de que algo se concretize». Trabalhoso, não? Pra remediar, ficamos com o original mesmo. É verdade que a conhecida fórmula: “me engana, que eu gosto” exprime, com ironia, pensamento semelhante. Mas não é exatamente a mesma coisa, além de a expressão ser longa demais.

Evidenciando uma característica de nossos tempos, a cada dia pilhas de exemplos de wishful thinking despontam no horizonte político brasileiro. Topei com dois deles esta semana. O primeiro foi proferido por nosso guia. De visita à Espanha, onde chegou a ser recebido pelo rei, disse, sem corar, que «é um luxo para o Brasil ter uma presidente da qualidade da Dilma». Exemplo acabado de wishful thinking.

2015-1211-01 TeleSurOutro belíssimo espécime fez manchete no portal da venezuelana TeleSur, a chamada ‘tevê do Chávez’. Dando uma forcinha a nossa mandatária, noticiaram que «aumenta apoyo a Dilma Rousseff ante juicio político» – cresce apoio a Dilma Rousseff diante de julgamento político.

Quem conta um conto aumenta um ponto. Ou subtrai, dependendo da conveniência.

Latim de botequim

José Horta Manzano

Caesar 1Este blogueiro é do tempo em que ainda se aprendia latim na escola. Aprendia é modo de dizer.  A língua era ensinada, mas aprender, que é bom, eram outros quinhentos. A matéria era um espantalho para muitos de nós. Um belo dia, seu ensino passou a ser considerado supérfluo, e a língua foi abolida do currículo. É pena. Fácil, não era. Mas tinha lá sua utilidade.

Faz uns dias, o vice-presidente de nossa República enviou carta à mandatária-mor. Embora digam que o figurão tem estatura de estadista, o tom da missiva está longe de demonstrá-lo. A ladainha de reclamações pessoais é constrangedora. Apesar do tom de funcionário chorão, o texto começa justamente com uma frase na língua de Cícero. Não se sabe se dona Dilma entendeu ou se teve de se socorrer junto a assessores. Pouco importa.

A frase latina que senhor Temer deitou no papel é:

Interligne vertical 14Verba volant, scripta manent.
Palavras voam, escritos ficam.

Um pouco alterada, a frase é conhecida de todos os que um dia já arriscaram uma fezinha na Paratodos, o Jogo do Bicho. O mote da contravenção mais difundida, conhecida e tolerada é justamente: “vale o escrito”.

Data venia, tenho de botar reparo na citação do vice-presidente. É verdade que alguns conceitos foram poupados pela passagem dos dois milênios que nos separam do auge do Império Romano. Outros, no entanto, envelheceram. A máxima citada é daquelas que precisam ser adaptadas aos novos tempos. A versão 2.0 deverá ser algo como:

Interligne vertical 14Scripta manent, sed igne delebuntur. Verba volant, sed nube captabuntur.
Os escritos ficam, mas serão destruídos pelo fogo. As palavras voam, mas serão aprisionadas por uma nuvem (=cloud).

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PS: Nas aulas do velho professor Biral, que dava o melhor de si para nos iniciar nos mistérios da língua latina, nem sempre fui o aluno mais atento. Para o caso de o mestre, na nuvem de onde hoje nos espia, torcer o nariz para minha tradução, peço-lhe desculpas antecipadamente.

Novilíngua – 2

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

Chamada do Estadão, 7 nov° 2015

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que árvores se plantavam. Aparentemente, hoje se instalam. Há de ser consequência do desmatamento desenfreado.

Pedaladas

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que o termo pedalada lembrava passeio de bicicleta. Pra girar as rodas, a gente dava pedaladas na Monark ou na Caloi. Hoje em dia, pedalada não se dá, se faz. E o significado mudou.

Lula boné 1Nestes tempos estranhos, o sentido da palavra tem evoluído. Não evoca mais as rodas da magrelinha. A imagem que vem é de barbeiragens financeiras cometidas conscientemente por dona Dilma. Parece que é crime. Se for, mais dia menos dia a presidente terá de responder por ele. Quem viver, verá.

Dirigindo-se a plateia amestrada, um Lula que, apesar de viver vida abastada, continua se esforçando para parecer igual aos excluídos, enfiou mais uma vez no cocuruto o boné do MST. Expedientes malandros como esse eram conhecidos já nos tempos do velho Jânio Quadros, mas ainda tem gente que se deixa embalar.

Em 2003, ao fazer o gesto pela primeira vez, nosso guia desencadeou um bafafá. Cidadãos mais conscientes consideraram a atitude imprópria para presidente de país sério. De lá pra cá, o figurão perpetrou impropriedades bem maiores que aquela. Tantas fez que hoje os brasileiros, blasés, não prestam mais atenção.

Estes últimos meses, com o desenrolar veloz e imprevisível dos acontecimentos, o Lula anda mais desnorteado que cego em tiroteio. Perdeu os anéis, quis salvar os dedos. Perdeu os dedos, está tentando salvar as mãos. Seu horizonte anda um bocado nevoento para quem já sonhou abocanhar um Nobel da Paz para, em seguida, terminar presidente do Banco Mundial.

Bicicleta 8Na cerimônia de ontem, sem muito que dizer, o demiurgo aventurou-se por terreno minado. Falou das «pedaladas» que dona Dilma «fez». Contou não ter lido o processo, fato que não surpreendeu ninguém. Assim mesmo, garantiu que a afilhada cometeu esses «malfeitos» para poder continuar pagando programas de distribuição de dinheiro que ele mesmo havia instituído.

Ora, analisemos. Nos tempos em que o Lula era presidente, não foi preciso «pedalar» pra distribuir aos mais necessitados. A partir do momento em que o cumprimento de programas passou a exigir que leis fiscais fossem infringidas, das duas uma: que se mudassem as leis ou que se extinguissem os programas. Nenhum dos dois foi feito.

Blabla 2Qual é o resumo da opereta? Duas considerações se impõem. A primeira é a confissão – involuntária mas evidente – de que a pupila realmente «fez» pedaladas, ou seja, infringiu a lei.

A segunda consideração remete a meu post de ontem – A lei? Ora, a lei… A fala do Lula reforça a ideia de que leis e regras valem para os outros, não para si mesmo. O demiurgo pode falar mais que outros, se agitar mais que outros, ousar mais que outros, ser mais vaidoso que outros, ser menos culto que outros, ser mais ingênuo que outros mas, no fundo… é um político do mesmo padrão que todos os outros. A lei? Ora, a lei…