Couvre-feu

José Horta Manzano

Devido ao alastramento da pandemia, 46 milhões de franceses entraram neste 25 de outubro em regime de toque de recolher (couvre-feu) por um período inicial de 6 semanas. Essa medida pesada e excepcional atinge 2/3 da população do país. Entre as 21h e as 6h da manhã, é proibido sair de casa. Umas poucas exceções estão previstas.

Quem tiver de sair, tem de baixar um formulário oficial, preenchê-lo e levar no bolso para mostrar caso seja controlado. Quem for apanhado em infração vai pagar multa de 135 euros (900 reais). A dolorosa sobe a 3750 euros (25.000 reais) em caso de reincidência.

A intenção das autoridades é dupla. Por um lado, buscam reduzir o contágio, inevitável entre frequentadores de bares e outros locais noturnos. Por outro, com a eliminação da circulação noturna de automóveis, acidentes decorrentes do consumo de álcool – comuns entre jovens, em fins de semana – desaparecerão; com isso, leitos hospitalares de reanimação e de UTI estarão liberados e prontos para receber pacientes com covid.

by Bernard Jullien, artista francês

Couvre-feu
Couvre-feu é expressão muito antiga, presente na língua francesa desde os anos 1200. De origem militar, significava o toque de um sino ou de uma corneta informando aos soldados que era hora de voltar para o quartel. Nosso toque de recolher é perfeita tradução.

Com o tempo, a expressão passou a ser também usada fora do círculo militar. No entanto, num mundo civil em que liberdade individual não combina com rigidez disciplinar de quartel, seu uso é raro.  Na França, já houve imposição de toque de recolher em momentos de estado de sítio e também quando o país esteve ocupado, na Segunda Guerra. Fora isso, é a primeira vez.

Hora de inverno
É interessante anotar que, neste domingo 25 de outubro, a Europa atrasou seus relógios e voltou à hora normal, também conhecida como hora de inverno. Agora vai assim até o último domingo de março do ano que vem.

Silêncio!

José Horta Manzano

Onde muitos veem um problema, outros enxergam uma oportunidade – é axioma que se ouve frequentemente. A epidemia de covid que transtorna o mundo atualmente se encaixa nesse raciocínio. Ela traz morte e desolação, mas também acende luzes.

Quando a progressão da epidemia se intensificou, muitos países tomaram a difícil decisão de confinar a população. Em muitos deles, não foi só um suave conselho do tipo “Fique em casa”. Na França, na Itália, na Espanha e em outros países, o confinamento rigoroso foi pra valer. Os comércios fecharam, com exceção dos essenciais (farmácias e supermercados). Escolas deixaram de funcionar. E – o mais chato – o povo foi obrigado a ficar em casa, só podendo sair para fazer compra de comida ou de remédio. Tudo isso, sob controle rígido e multas pesadas.

Um dos efeitos colaterais desse confinamento foi a drástica diminuição do tráfego urbano. Menos tráfego = menos barulho. Como se sabe, ruídos fortes produzem efeitos na audição e podem ocasionar perda irreversível do olfato e do paladar.

Os dois meses (março a maio) durante os quais a população francesa permaneceu confinada dentro de casa foram psicologicamente difíceis, mas trouxeram de volta um mundo silencioso como não se via desde os tempos de antigamente.

Uma pesquisa informa que, depois do período de confinamento, 57% dos habitantes das metrópoles ficaram mais sensíveis aos ruídos. É que, antes da pandemia, o barulho era tão intenso e constante que ninguém mais prestava atenção. Agora, sim. Todos entenderam que é bem mais agradável viver num universo pouco barulhento.

Paris: os Champs Elysées em dia de confinamento.

Pesquisadores do Instituto Francês de Pesquisa Científica (CNRS) empreenderam um estudo relevante sobre o assunto. O projeto chama-se Silent Cities e visa a modelizar os fatores que reduzem o barulho. Por exemplo, uma distribuição mais inteligente e integrada dos horários de trabalho pode contribuir para a diminuição do ruído urbano. A pesquisa pode também indicar ser mais racional instalar ciclovias nesta rua em vez de noutra.

Atualmente, diversas sociedades desenvolvem asfalto menos barulhento e edifícios que absorvem o barulho. Certas empresas chegam a criar bolhas de silêncio. Para leigos como eu, a explicação sobre o funcionamento da bolha vem a seguir.

Caixinhas com alto-falantes são instaladas nos cômodos da casa. Visto que o barulho é uma onda, quando ela é detectada pelos sensores, os alto-falantes emitem uma onda inversa para neutralizar o som. O princípio é genial. Mas é bom que funcione direitinho, porque se não, vão surgir interferências desagradáveis. A sociedade Silentium está desenvolvendo um sistema de “bolha de silêncio”. Prometem que, quando estiver pronto e for posto no mercado, deverá neutralizar 90% dos sons externos. Boa notícia pra quem vive em lugar barulhento.

Certamente muitos outros projetos só estão saindo do papel graças à pandemia. Como diziam os antigos, há males que vêm pra bem.

Tuíte – 16

José Horta Manzano
Seguindo uma tradição da América espanhola iniciada em 1692, quando indígenas atearam fogo ao Palacio Nacional da Cidade do México, arruaceiros incendiaram e destruíram ontem a Igreja da Assunção de Santiago (Chile), que tinha sido inaugurada em 1876.

O templo chileno é o mais recente exemplo desse bizarro pendor hispano-americano de exprimir insatisfação queimando edifícios públicos e religiosos. Outro exemplo desse comportamento medieval é o Palacio Quemado, de La Paz (Bolívia), criminalmente incendiado em 1875.

No Brasil, temos grande respeito por edifícios, templos e toda obra humana. Preferimos incendiar e arrasar florestas, o que traz vantagem dupla. Por um lado, nos livramos do mato; por outro, abrimos espaço para erguer edifícios e templos à vontade.

Ah, e tem mais um benefício: dado que a destruição da vegetação enxuga a atmosfera e desertifica o clima, o problema das enchentes das metrópoles brasileiras se resolve sozinho. Como é que ninguém pensou nisso antes?

Penitência

José Horta Manzano

Você sabia?

Nos anos 1600, a Espanha era dona de meio mundo. Além do espaço peninsular, a coroa contava com outras possessões: as extensas colônias na América, as Filipinas, entrepostos comerciais na costa africana e ainda territórios na Europa: Sardenha, Sicília, Milão, o Condado da Borgonha (hoje na França), a Bélgica, os Países Baixos, Luxemburgo e alguns territórios hoje alemães. Era um império vastíssimo que despertava muita cobiça.

No ano de 1700, Carlos II, rei da Espanha, morreu sem deixar descendência. Ele era da poderosa linhagem dos Habsburgos – a Casa da Áustria –, família cujos membros reinaram por séculos na Alemanha, na Áustria, na Espanha, na Croácia, na Hungria e em outros territórios.

Famílias da alta nobreza europeia costumam ser muito entrelaçadas e exibir parentesco intrincado. Esse fenômeno perdura até nossos dias. Os reis e rainhas atuais são todos primos próximos ou distantes. É fácil entender que, com a morte de Carlos II, tenha aparecido meia dúzia de pretendentes ao trono, todos oriundos dessa consanguinidade e, de certa forma, parentes do falecido.

Como não houve meios de se pôr de acordo, o jeito foi entrar em guerra. Desses conflitos antigos, não se fala muito. A razão é simples: vivemos num mundo de imagem e dessas velhas guerras não há foto, nem filme, nem vídeo. O máximo que se tem é uma ou outra pintura, em geral executada décadas mais tarde.

A Guerra de Sucessão espanhola foi feroz; representou um prenúncio dos futuros conflitos mundiais. Opôs a dinastia dos Habsburgos à dos Bourbons. Batalhas travaram-se não só na Europa, mas também na América, entre colonos ingleses, espanhóis e franceses. É complicado explicar em duas linhas os comos e os porquês do enfrentamento. Alguns números dão uma ideia da amplitude. A guerra se estendeu de 1701 a 1714. É impossível calcular o total de vidas humanas perdidas, visto que os observadores da época não dispunham dos instrumentos de hoje. As estimativas variam muito, mas a contagem mais impressionante chega a 1.250.000 mortos, entre militares e civis. A fome e a doença são a causa principal de mortes civis.

Importante batalha ocorreu em 1713 na região de Valencia, na cidadezinha de Xàtiva. Dado que o enredo é complicado, não vale a pena descer aos pormenores. Convém notar que a memória coletiva dos habitantes guarda gosto amargo dos massacres de que seus antepassados foram vítimas. O ressentimento contra os Bourbons perdura até hoje.

Felipe V, rei da Espanha

Passados 300 anos, é justamente a Casa de Bourbon que ocupa o trono espanhol. Tanto Juan Carlos I como seu filho e atual rei, Felipe VI, pertencem a essa dinastia. Em Xàtiva, que hoje conta com 30 mil habitantes, há um museu de arte que abriga pinturas. Entre os quadros, há um retrato do rei Felipe V, aquele que reinava na época da batalha de 1713. Artisticamente, não é nenhuma obra-prima, mas representa justamente o detestado opressor, fato que incomoda os nativos.

Nos anos 1950, o diretor do museu era um señor mais ousado que seus antecessores. Um dia, tomou a decisão de pendurar o quadro de cabeça para baixo. Está até hoje nessa posição. Ficou combinado que só voltará à posição original no dia em que um dos descendentes pedir desculpas pelo massacre que seus antepassados cometeram contra o povo da cidadezinha.

Até hoje, nenhum dos reis da Espanha aquiesceu ao pedido. Para surpresa de visitantes do museu que não conhecem a história, o quadro continua de ponta-cabeça. A depender da vontade dos habitantes de Xàtiva, assim vai continuar.

E o santo remédio?

José Horta Manzano

Neste dias em que um planeta paralisado e aflito mantém os olhos voltados para o hospital onde o presidente Donald Trump está internado, seu médico pessoal, Dr Sean Conley, é a voz oficial que traz as esperadas notícias sobre a evolução clínica do ilustre paciente.

No boletim da noite de ontem (sábado), ele informa que Trump recebeu a segunda dose de Remdesivir(*) sem complicações. Acrescenta que o paciente está sem febre e que a saturação de oxigênio arterial está entre 96% e 98%, nível plenamente aceitável. Diz ainda que, embora Trump ainda não esteja fora de perigo, a equipe guarda prudente otimismo. O plano para domingo é manter o paciente em observação entre as doses de Remdesivir.

Trump com covid
Boletim médico de 3 out° 2020

Ué? Acho que meus distintos leitores também repararam: onde está a cloroquina? Li o boletim de frente pra trás e de trás pra diante e… nada. O santo remédio foi abandonado!

No entanto, não faz muito tempo que assisti a um vídeo em que o próprio Trump afirmava tomar hidroxicloroquina regularmente como preventivo contra a covid. E o devoto Bolsonaro, então, que de tanto botar fé na palavra do mestre, chegou a mostrar o remédio às emas do Planalto!

Pelo que agora se vê, tanto a gesticulação de lá quanto a de cá não passavam de blá-blá-blá, fruto de ignorância malandra. Ou de ignorância autêntica, o que é ainda pior.

(*) Remdesivir é um medicamento antiviral que tem dado resultados positivos em alguns pacientes com covid. É aquele tipo de remédio que, na falta de outro, o médico receita. “Se não tem tu, vai de tu mesmo.”

As surpresas de outubro

José Horta Manzano

Agosto e nossos distúrbios

No Brasil, dizem que agosto é mês de vento e cachorro louco. Mas parece que não passa de crença de gente antiga, daquelas que fazem sorrir. Mas há fatos ocorridos nesse mês, que não tem nada a ver com brincadeira. Todos ligados à Presidência da República, estão mais para tragédia nacional.

Em 24 agosto de 1954, suicidou-se o presidente Getúlio Vargas. O país entrou em comoção.

Sete anos mais tarde, em 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo e zarpou para a Inglaterra.

Passados mais nove anos, chegou a vez do presidente Costa e Silva: em 31 de agosto de 1969, sofreu um AVC e foi afastado do cargo.

Mais sete anos, e a tragédia atingiu Juscelino Kubitschek, então já ex-presidente: morreu num terrível acidente de automóvel em 22 de agosto de 1976.

Em 13 de agosto de 2014, Eduardo Campos, candidato à Presidência, morreu num acidente de jatinho que se estatelou na cidade de Santos (SP). Não era candidato nanico – tinha até boas chances.

Dois anos mais tarde, nova convulsão na Presidência. O fim do julgamento do impeachment de Dilma Rousseff foi em 31 de agosto de 2016. Nesse dia, a presidente foi destituída.

Outubro e os distúrbios deles

Nos EUA, o mês reservado aos perigos parece ser outubro. Afeta, em especial, candidatos à Presidência. Criativos, os americanos inventaram até a expressão «October surprise – surpresa de outubro» para designar o fenômeno. Dependendo da magnitude, a ‘surpresa’ – que costuma ser fruto de conspiração – pode até afetar o rumo da eleição.

No finzinho de outubro 1972, dias antes da eleição, Henry Kissinger, secretário de Estado, deixou vazar a informação de que a Guerra do Vietnam estava para acabar. Peace is at hand – a paz está ao alcance da mão”. Considera-se que a notícia foi responsável por um fabuloso empurrão na candidatura de Nixon, o presidente que tentava a reeleição. De fato, o homem foi reeleito, mas a guerra, que estava longe de acabar, ainda duraria longos anos.

Em novembro de 1979, na presidência Carter, estudantes iranianos invadiram a embaixada americana em Teerã e tomaram centenas de americanos como reféns. O sequestro foi longo. Já ia para um ano, mas as negociações continuavam no ponto morto. No fim de outubro de 1980, perto das eleições, os sequestradores anunciaram que só soltariam os reféns quando Jimmy Carter tivesse deixado a presidência. A notícia foi tão impactante, que os eleitores descartaram Carter (sem trocadilhos) e deram ampla vitória a Reagan. (Dizem que os sequestradores receberam uma ‘ajudazinha’ da campanha de Reagan, mas pode ser intriga da oposição.)

Nas eleições de 2000, outra ‘surprise’ apareceu. Em outubro, cinco dias antes do voto, vazou a (velha) notícia de que George W. Bush, então governador do Texas, tinha sido preso em 1976 (24 anos antes!) por dirigir embriagado. A equipe de campanha de Al Gore foi suspeitada de estar por trás do vazamento. Bush ganhou, mas teve a vitória mais apertada que se tinha visto até então. Perdeu no voto popular e só se elegeu após recontagem de votos na Flórida e batalha na Suprema Corte.

Em outubro de 2004, os EUA patinhavam nas batalhas do Oriente Médio e caçavam Bin Laden sem nunca conseguir encontrá-lo. Menos de uma semana antes da eleição, a emissora de tevê Al Jazeera exibiu um vídeo de Bin Laden com ameaças ao então presidente George W. Bush e com críticas a seu desempenho. Desconfia-se de que a exibição do vídeo tenha resultado de um acerto entre John Kerry, o adversário de Bush, e a tevê árabe. Esperto, Bush virou o jogo ao convencer os eleitores de que somente ele era capaz de proteger o país. Venceu com facilidade.

Nos últimos dias de outubro de 2012, uma verdadeira surpresa aconteceu: o violento furacão Sandy atingiu Nova Jersey. Ainda que, neste caso, a surpresa de outubro não fosse resultado de conspiração, acabou sendo benéfica para Barack Obama, o presidente que tentava reeleger-se. Por um lado, Obama foi magistral ao aproveitar a ocasião para se mostrar à altura do cargo no trato da emergência. Por outro, Mitt Romney, o adversário, teve de suspender a campanha na reta final, visto que pegaria supermal fazer comício em tempo de tragédia nacional. Obama foi reeleito sem problemas.

Estamos em outubro de 2020. O presidente Trump, adulado por uns, abominado por outros, tenta a reeleição. Desta vez, a “October surprise” veio logo no começo do mês: ele anunciou hoje que apanhou a covid. Pode ser que seja jogada de marketing – com Trump, nunca se sabe. (É curioso notar que, dos dirigentes mundiais mais conhecidos, os únicos três que se contaminaram foram justamente os negacionistas, aqueles que afirmaram que a doença não passava de uma gripezinha: Boris Johnson, Donald Trump e Jair Bolsonaro. Alguém acredita em castigo de Deus?)

Para saber se a safra 2020 da “October surprise” afetou a eleição, vai precisar esperar que os americanos votem. Ouvi dizer que, ao saber que Trump está com covid, muita gente se pôs a fazer novena. Parece que até alguns agnósticos aderiram à reza.

 

Salário mínimo suíço

José Horta Manzano

A noção de salário mínimo está tão ancorada nos costumes brasileiros, que a gente imagina que a garantia de um piso salarial exista no mundo todo. Não é bem assim. Tal como ocorre com o 13° salário, que não é obrigatório por toda parte, também o salário mínimo não é universal. Embora a paga mínima legal seja bastante difundida, trabalhadores de países importantes como, por exemplo, Itália, Áustria, Suécia não contam com essa garantia.

A Suíça é um caso especial. Como meus distintos e cultos leitores sabem, o país é uma confederação, ou seja, um Estado nacional composto por cantões que gozam de forte autonomia. Tirando a defesa nacional, a política monetária, a legislação aduaneira, a segurança nacional e a política externa, os cantões têm ampla autonomia de decisão. A política salarial faz parte das atribuições de cada cantão.

Assim, cabe ao governo de cada cantão legislar sobre a matéria. A maior parte deles ainda não achou oportuno estabelecer um salário-base válido para todo o território cantonal. Diferentes categorias profissionais, por seu lado, firmaram convenção coletiva fixando um piso salarial para o setor. Por exemplo, o sindicato dos padeiros pode ter conseguido um salário mínimo para a categoria, enquanto o sindicato dos balconistas de farmácia pode não ter firmado ou simplesmente não estar interessado no assunto.

Em plebiscito realizado domingo passado, os eleitores de Genebra aprovaram a instituição de um salário mínimo cantonal. O valor do piso salarial válido no território cantonal para todas as categorias é de 23 francos suíços por hora. Para quem trabalha em período integral (42h por semana), isso dá (pasmem!) 4.186 francos por mês, pouco mais de 25.000 reais ao câmbio de hoje. É com certeza o salário mínimo mais elevado do mundo. Na própria Suíça, nenhum outro cantão fixou montante tão alto.

Pode parecer quantia exorbitante, mas não é. Para sobreviver com menos que isso, uma família de quatro pessoas teria dificuldade. Só de aluguel, vai metade do salário. Em seguida, tem de pensar no seguro de saúde, que custa os olhos da cara. É que o país não conta com um sistema nacional de saúde, como o Brasil. Todos os cidadãos têm obrigatoriamente de estar cobertos por empresa particular, mas cada um é livre de escolher a companhia com a qual quer concluir o seguro. Assim mesmo, seja qual for o plano escolhido, não sai barato. Cobrir os quatro membros da família de nosso exemplo, com plano bem básico, não vai sair por menos de 1000 francos (uma quarta parte do novo salário mínimo). Em seguida, tem de se vestir, se transportar, se aquecer, se alimentar – tudo muito caro.

Normalmente, a notícia da instituição de salário mínimo garantido costuma alegrar os beneficiários. Nestes tempos de covid, porém, o que ela trouxe foi grande preocupação aos 25 mil empregados que se enquadram na nova regra. Os que fazem jus ao aumento – funcionários de restaurante, salão de cabeleireiro, firma de limpeza – estão receosos de que o empregador, já em dificuldade financeira em razão da pandemia, não suporte o baque e acabe demitindo. Está aqui um exemplo trágico de como uma medida bem-intencionada acaba causando efeito oposto ao previsto.

Trumpização

José Horta Manzano

Donald Trump não inventou a baixaria na política, mas está lhe dando um impulso fenomenal. É difícil saber se costumes tão rasteiros já existiram antes, em outras épocas. O bom senso indica que não, que nunca houve nada parecido. Homens políticos, por mais incisivos e veementes que possam ter sido, não desceram tão fundo como o atual inquilino da Casa Branca.

Não assisti ao debate de ontem, etapa obrigatória da corrida presidencial americana. Pra começar, não teria estômago para aguentar hora e meia de bate-boca; pra terminar, o espetáculo caía às 3h da manhã na hora daqui, razão suficiente para renunciar. Mas ouvi, hoje de manhã, uma dezena de analistas, cada um com sua visão e seu resumo do que ocorreu.

Pelo que pude depreender, não foi um debate de ideias stricto sensu, dado que nenhum dos candidatos gastou mais que 10% de seu tempo para apresentar as metas de um eventual governo. Foi mais parecido com uma briga de cortiço, em que a intenção de cada litigante era só rebaixar o adversário.

Invectivas, insultos, mentiras, ataques pessoais, ‘voadoras’ na carótida, dedo no olho, pé no peito pra derrubar. Sabe de uma coisa? Aqueles que se destroçavam num circo romano, dois mil anos atrás, seguiam código de ética bem superior ao que se viu numa etapa crucial das eleições do país mais poderoso do planeta.

Não posso avaliar o que se passa na cabeça do americano médio; não sei como ele se sente depois de quatro anos sob Trump. Visto daqui de longe, no entanto, o problema é diferente. Quem vive fora dos EUA está menos preocupado com problemas internos americanos e mais com a imagem que a grande potência projeta no resto do mundo. E com a influência que exerce em dirigentes mais frágeis, como é o caso do doutor que nos governa.

Que Donald Trump esteja fazendo bom ou mau governo, isso quem tem de julgar são os americanos, seus eleitores. Darão o veredicto nas urnas. Quanto a nós outros, só nos resta constatar o abalo que um indivíduo inculto, agressivo, narcisista, mentiroso e despreparado para ser presidente tem provocado nos costumes políticos do planeta.

Povos mais esclarecidos, como os que vivem em democracias maduras, têm nas mãos as armas para reconhecer essa ameaça de degradação nas artes da política e para resistir a ela. Povos menos esclarecidos – como o nosso, sejamos sinceros – se encontram desarmados. O jeito lulopetista de manejar a coisa pública deu uma perigosa inclinada para baixo. Os anos em que fomos governados por presidentes de poucas letras e ideias curtas (mas braços longos, se é que me entendem) deram a partida para forte rebaixamento no nível do debate de ideias.

A rejeição ao modo lulopetista de governar abriu uma avenida para o aventureiro que se mostrasse mais ousado. Bolsonaro conseguiu ser visto como o mais antipetista dos candidatos. Não deu outra: deixou os demais a comer poeira e venceu.

Sem preparo e sem projeto, nosso doutor precisava agarrar-se à figura de um irmão mais velho a mostrar-lhe caminho radioso. É neste ponto que entra a influência daninha de Trump sobre políticos despreparados, como nosso presidente.

Se Trump não tivesse ousado, Bolsonaro não ousaria. Se Trump não tivesse dito, Bolsonaro não diria. Se Trump não tivesse feito, Bolsonaro não faria. Em resumo: sem Trump, não teria havido Bolsonaro; ou, pelo menos, não esse Bolsonaro que conhecemos.

Resta esperar que os eleitores americanos se mostrem mais espertos desta vez e que despachem o topetudo pra casa. Para o Brasil, será uma bênção.

Discurso na ONU

José Horta Manzano

Salvo intérpretes simultâneos, ninguém presta muita atenção aos discursos pronunciados na abertura da sessão anual da ONU. Intérpretes, naturalmente, são obrigados, por dever de ofício, a não perder uma palavra. Fora eles, cada um dá importância ao discurso de seu presidente. E a mais nada.

Não escutei todos os discursos – só faltava! –, mas acompanhei o de Bolsonaro, o de Trump e o de mais meia dúzia de dirigentes. Não pretendo aqui fazer análise comparativa entre todos, mas vou revelar a impressão que algumas passagens me deixaram.

Os discursos de Trump e de Bolsonaro seguiram linha semelhante: traziam ambos a palavra de um governante acuado, angustiado, preocupado com o próprio destino. Tanto o discurso de um quanto o do outro se destinavam ao público interno.

Sabe-se que Trump anda pisando em ovos, de olho nas eleições de novembro. Sabe-se também que Bolsonaro anda sentindo o cerco da justiça e da polícia ao próprio clã. Nas entrelinhas, o discurso de ambos deixava transparecer essa preocupação.

Sem atuação internacional digna do tamanho do país, Bolsonaro mencionou as forças de paz que, ao longo da história, contaram com participação de militares brasileiros. Ah, a falta que uma política internacional faz!

Uma diferença notável entre os discursos lulopetistas e o de Bolsonaro é que aqueles reivindicavam, a cada ano, um lugar para o Brasil entre os grandes, com direito a assento permanente no Conselho de Segurança. Com Bolsonaro, parece que o Brasil se acomodou no papel de coadjuvante.

Tanto Trump quanto Bolsonaro se gabaram de ter feito tudo o que não fizeram. Ambos pintaram um quadro de combate à pandemia como se tivessem sido eles os idealizadores. Nada mais falso; foram eles o principal empecilho. Bolsonaro teve o topete de sugerir que foi ele quem deu instruções a prefeitos e governadores. Todos sabem que não foi assim; prefeitos e governadores tiveram que batalhar firme para aplicar as políticas preconizadas pelas autoridades sanitárias mundiais.

Sem se dar conta da contradição, Bolsonaro diz o sim e o não, o verso e o reverso. E faz isso na mesma frase. Em exercício de negacionismo explícito, disse que a floresta, por ser úmida, é incombustível. Logo a seguir, quase sem pausa pra respirar, acrescentou que as queimadas são provocadas pelo caboclo e pelo índio que queimam o roçado em busca da sobrevivência. Afinal, o mato queima ou não queima, doutor?

Trump e Bolsonaro destoaram da polidez aveludada que costuma reinar naquele recinto. O americano atacou veementemente a China, acusando seu maior parceiro comercial de todos os males. O brasileiro acusou (sem provas) a Venezuela pelo derramamento de óleo que atingiu nosso litoral no ano passado. Como se sabe, a origem daquele desastre nunca ficou estabelecida com segurança.

Ficou mais uma vez demonstrado que presidente de uma república não pode ser improvisado. As falas de Trump e de Bolsonaro são a prova disso. Ambos são gente saída não se sabe de onde, sem eira nem beira, oportunistas sem o mínimo de cultura e de abertura de espírito indispensáveis para exercer a função que lhes foi outorgada.

Bolsonaro pronunciou (e louvou) o nome de Trump, o que não é habitual, nem fica bem. Escancara uma subserviência que só faz rebaixar a «soberania» reclamada pelo Planalto. O presidente de Cuba não perdeu a ocasião para queixar-se do «império» (leia-se os EUA); é recorrente.

A Rússia foi feliz na instalação das bandeiras como pano de fundo, atrás de Vladimir Putin. Apareciam, lado a lado, a bandeira nacional e a da ONU. Ficou bonito. Tanto a estética quanto a simbologia ficaram nos trinques.

No fundo, o que mais me agradou da apresentação do Brasil foram as legendas. Tradução benfeita e legenda colocada à margem inferior, permitindo visão integral da imagem. A tradução foi impecável. Pena não se poder dizer o mesmo do discurso. Mas disso a gente já sabia. Ou não?

Parlamento feminino

José Horta Manzano

Com 77 mulheres eleitas nas eleições parlamentares de 2018, a bancada feminina na Câmara Federal subiu para 14,6%, um número curiosamente baixo. Digo curiosamente porque a discriminação contra mulheres não é traço marcante da personalidade brasileira. Em outras terras, a intolerância  é sabidamente mais acentuada do que entre nós.

Como referência, tomemos o comportamento dos votantes na escolha de candidatos para cargos do Executivo, os mais vistosos. Observe-se que o eleitorado brasileiro dá seu voto, sem maiores complexos, a uma mulher. Basta conferir algumas prefeitas e governadoras eleitas no passado.

A maior cidade do país já foi comandada por mulher em duas ocasiões: por Luiza Erundina, nos anos 1990, e por Marta Suplicy, nos 2000. O estado do Rio já elegeu Rosinha Garotinho. Fortaleza já teve Maria Luiza Fontenele e Luizianne Lins como prefeitas. O Rio Grande já deu a vitória a Yeda Crusius. E o Brasil inteiro – embora pareça hoje difícil acreditar – já consagrou Dilma Rousseff.

Há que constatar que o brasileiro é desembaraçado na hora de votar. Não me parece que deixe de votar em mulher só por causa do sexo da candidata. O fato de, apesar das quotas, a representação feminina ser tão baixa no Congresso ainda está por ser estudada.

Outros países têm desempenho melhor que o nosso. Fiz uma pequena pesquisa e descobri algumas curiosidades.

Os países que ocupam o topo da classificação são aqueles em que a eleição de parlamentares é artificialmente dirigida, não somente por sistema de quotas, mas também porque certo número de parlamentares é designado, sem voto popular, pelo Executivo (ou pelo rei, emir, príncipe ou ‘dono’ do país). É nesta categoria que se encontram os que têm parlamento com maioria feminina: Ruanda (61,3% de mulheres) , Cuba (53,2%), Bolívia (53,1%), Emiratos Árabes (50%).

Descendo na classificação, aparece a Suécia, país fortemente igualitário, em 7° lugar, com 47% de mulheres. A Espanha e a Suíça estão entre os bons alunos, com 44% e 41,5% respectivamente.

Quanto a nossos vizinhos mais chegados, a Argentina faz bonito: 40,9% de mulheres no parlamento. Já o Uruguai não sai tão bem na foto: 21,2%. O Paraguai, apresenta placar bem magrinho: 16,3%.

O parlamento americano está mais feminizado que o nosso: 23,4% dos mandatos foram entregues a representantes do sexo feminino. A Itália apresenta um quadro ainda melhor, com 35,7% de mulheres na atual legislatura.

O Parlamento Europeu, renovado em 2019, não é o nec plus ultra, mas está no bom caminho: 36,4% de mulheres.

Classificado em 142° lugar na lista mundial com marca supermodesta de 14,6%, o Brasil aparece mal. Como vê o distinto leitor, nessa matéria, ainda estamos engatinhando.

Quem tiver curiosidade pode consultar a lista completa atualizada mensalmente pela União Interparlamentar, agência da ONU, com sede em Genebra, à qual o Brasil está afiliado desde 1954.

PEC italiana

José Horta Manzano

Embora diferentes países possam enquadrar-se na categoria de Estados de direito, o arcabouço legal de cada um não é necessariamente idêntico ao dos demais.

No Brasil, para ser aprovada, uma PEC – dispositivo legal que modifica a Constituição – precisa obter o voto de 2/3 dos parlamentares. Obtida essa quota, entra em vigor.

Na Itália, funciona mais ou menos assim, mas há um fator complicador. A PEC passa primeiro pelo Congresso, em duas votações. Caso alcance maioria de 2/3 dos congressistas, entra em vigor, como no Brasil. No entanto – e aqui está a diferença – caso alcance apenas maioria simples (50% dos parlamentares), será submetida a referendo popular.

Em outubro de 2019, o Parlamento italiano aprovou modificação importante na Constituição, alterando o número de parlamentares. O projeto foi aprovado nos conformes, só que a maioria não alcançou 2/3 dos congressistas. É compreensível: a mudança diminui drasticamente o número de parlamentares, fato que incomoda muita gente.

Num corte de 40% (!), o número de deputados cai de 630 para 400, e o de senadores despenca de 618 para apenas 392. Pedir aos parlamentares que aprovem essa mudança é como pedir-lhes que serrem o galho onde estão sentados. É até surpreendente que o texto tenha obtido maioria simples.

O referendo popular, previsto para o mês de março mas suspenso por causa da pandemia, deve realizar-se daqui a duas semanas. As pesquisas são contraditórias, de modo que seus dados têm de ser tomados com precaução. Espera-se, de qualquer maneira, que a maioria dos eleitores aprove a mudança. É verdade que, com a nova configuração, os distritos eleitorais serão modificados. Mas esse é um mal menor, comparado com a robusta economia obtida com a supressão de 456 cadeiras de parlamentares.

Sabem quando é que o Congresso brasileiro vai suprimir 40% das cadeiras? No dia de São Nunca, como dizia minha avó.

Congresso de luxo
Segundo levantamento publicado em dez° 2018 pela BBC Brasil, o Brasil tem o segundo Congresso mais caro do mundo. Nosso parlamento custa mais que o francês, o alemão, o japonês ou o britânico. Só perde para o dos EUA.

Cada parlamentar nosso custa ao contribuinte, segundo o método de paridade de poder aquisitivo, a bagatela de US$ 7,4 milhões por ano. Dólares! Multiplicando pelo número de cadeiras, dá um custo total de quase 4,5 bilhões de dólares. Bilhões! Só pra efeito de comparação, um parlamentar francês custa 6 vezes menos que um brasileiro; um britânico sai por 20 vezes menos.

Os nossos recebem, além do salário, auxílio moradia, plano médico (de categoria nec plus ultra) extensivo à família, transporte. Sem contar os assessores. Para senadores, por exemplo, não há limite para contratação. Sabe-se de caso de senadores que têm mais de 100 colaboradores – porta aberta a todo tipo de rachadinha. E esse povo todo vivendo à nossa custa! Revoltante.

Uma lavada

José Horta Manzano

Pelo campeonato da Liga dos Campeões, enfrentaram-se ontem o Bayern (de Munique, Alemanha) e o Barça (de Barcelona, Espanha), dois times de primeira grandeza. A partida teminou com um inacreditável placar de várzea: 8 x 2 em favor dos alemães. Até parece notícia falsa.

O glorioso Barça, que hoje tem Messi, Piqué e Suárez, já abrigou astros como Cristiano Ronaldo e Neymar num passado bem recente. Ninguém imaginava que pudesse levar uma surra desse tamanho.

Às vezes, o destino parece irônico. O carioca Philippe Coutinho, autor de dois gols em favor do Bayern, na realidade é jogador no Barça; está apenas ‘emprestado’ ao time de Munique.

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

Do lado alemão, Lewandowski também marcou um gol. Falo do Lewandowski deles, não do nosso. Que fique bem claro. Quarenta anos separam os dois.

Muitos comentaristas lembraram de um tristemente famoso 7 x 1, o ‘mineiraço’ imposto pelos alemães aos brasileiros na Copa de 2014.

Fica confirmado o dito popular francês:

«Le football est un sport qui se joue à onze. Et à la fin c’est les allemands qui gagnent.»

«Futebol é um esporte de onze jogadores. E, no final, são os alemães que ganham.»

E estamos combinados.

O velho prefeito

José Horta Manzano

Paul Girod é prefeito do pequeno município de Droisy. Seu vilarejo, de apenas 74 habitantes, fica na França, a 120km de Paris, nas planícies agrícolas do norte do país. Aos 89 anos de idade, Monsieur Girod detém um recorde difícil de ser batido: está no cargo há 62 anos.

Foi eleito pela primeira vez em 1958, quando era um jovem de 27 aninhos, e o mundo era outro. No Brasil, Juscelino Kubitschek ainda tratava de construir Brasília, a futura capital. Em Washington, Eisenhower ocupava a Casa Branca. Em Paris, o reinado de De Gaulle ainda não havia iniciado; o presidente se chamava René Coty.

De lá pra cá, Monsieur Girod foi candidato em todas as eleições – e ganhou todas. Está no 12° mandato consecutivo. É de crer que seus munícipes estão satisfeitos com o desempenho do patriarca.

Ele explica que, naquele tempo, as motivações do eleitor eram diferentes do que conhecemos hoje. Recém-diplomado, ele assumiu o comando da propriedade do tio, onde se cultivava a terra e se criavam umas poucas reses. Diminuta para padrões brasileiros, a fazendola era a mais importante do município. Naqueles meados de anos 50, ninguém tinha automóvel no vilarejo. Monsieur Girod foi o primeiro a ter um.

Droisy (Picardia), França

Por razões que a sociologia explica, os eleitores tinham tendência a entregar as chaves da prefeitura ao candidato mais abastado. É que acreditavam que um rico teria mais tempo disponível para se dedicar à coisa pública. É permitido enxergar nessa tendência um resquício da ordem feudal, quando era natural que o rei fosse o mais rico. Ou que o mais rico fosse rei, o que dá no mesmo.

Quando li a explicação do velho prefeito francês, pensei nos coronéis brasileiros que, até hoje, seguram municípios pequenos com rédea curta. Não sei se os munícipes os elegem e reelegem porque acreditam que eles têm mais tempo disponível pra cuidar da administração. Deve parecer natural, aos eleitores, que o coronel-prefeito seja o mais rico.

O problema é que, mantidos na ignorância, eles nem sempre se dão conta de que o mandachuva, distraído, pode estar incorporando uma parte das verbas públicas a seu patrimônio pessoal. Não sei por que, acabo de me lembrar do mensalão e do petrolão. Mas essa é uma outra história.

Mapa macabro

José Horta Manzano

O ESRI (Environmental Systems Research Institute) é uma entidade americana que gere poderosa plataforma cartográfica de análise. Alimentada pelos dados da Universidade Johns Hopkins, o instituto mantém um mapa interativo da propagação da covid-19 no planeta.

O mapa mostra a mortalidade, não em números absolutos, mas por 100.000 habitantes, uma abordagem que reflete melhor o estrago provocado pela doença. De fato, algumas centenas de óbitos num pequeno país podem representar uma baixa relativamente mais importante do que centenas de milhares de mortes num país mais populoso.

Em números absolutos, os EUA e o Brasil são os mais atingidos pela epidemia. Porém, em número de mortos por 100.000 habitantes, o quadro se modifica. Excluindo casos anômalos, como San Marino, Andorra e outros micropaíses, a lista macabra dos 10 mais atingidos é a seguinte:

Mortes por 100.000 habitantes
Bélgica       85,7
Reino Unido   71,5
Peru          63,8
Espanha       58,3
Suécia        57,7
Itália        56,6
Chile         54,6
EUA           47,6
Brasil        45,7
França        45,2

clique para ver o original

A maioria de nossos vizinhos sul-americanos está em situação bem mais confortável que a nossa:

Mortes por 100.000 habitantes
Peru          63,8
Chile         54,6
Brasil        45,7
Equador       35,4
Bolívia       29,0
Colômbia      23,1
Argentina      8,6
Suriname       4,6
Guiana         2,9
Uruguai        1,1
Paraguai       0,8
Venezuela      0,8

Observa-se que o confinamento precoce parece ter contido, em certa medida, o avanço da epidemia. Países que, num primeiro momento, deram de ombros às medidas de distanciação social estão pagando conta mais salgada – é o caso do Reino Unido e da Suécia. A Alemanha, que deu resposta rápida à ameaça, exibe quota menos trágica: 11,37 mortos por 100.000 habitantes.

Essa era a situação em 4 de agosto. O problema é que, enquanto o contágio caiu na Europa, continua feroz nas Américas. Fica evidente que as trapalhadas (ordens e contraordens, confinamento e desconfinamento, quarentena vs circulação livre), além de repercutir mal no exterior, contribuíram e continuam contribuindo para a subida incessante dos números.

O link para o mapa interativo original é este.

A pandemia e as próximas décadas

José Horta Manzano

Que seja ou não do agrado de Mr. Trump, a Organização Mundial da Saúde, agência da ONU criada em 1948, é referência planetária em matéria de saúde, o bem mais precioso de que o homem dispõe. No mundo moderno, onde longas viagens são corriqueiras, micróbios viajam também. Os bichinhos não respeitam fronteiras: entram de contrabando sem pedir licença.

Todo dirigente dotado de um mínimo de bom senso entende que é importante apoiar uma organização que cuida da saúde do planeta. Quanto menos doentes houver, menor será o risco de vírus, bactérias e outros micróbios circularem. Quanto mais sadia forem as populações, melhores serão, especialmente para os países industrializados, as perspectivas de vender seu peixe em escala planetária.

Não serão os arroubos arrogantes e ignorantes do inquilino atual da Casa Branca que vão mudar alguma coisa. A OMS está no comando de programas de vacinação, de luta contra a pobreza, de campanhas de erradicação de doenças endêmicas. Os países mais pobres são os maiores beneficiários de suas ações.

Seu orçamento é financiado pelos quase 200 países-membros. As contribuições são fixadas levando em conta o PIB e população de cada um. Além disso, está em aumento o apoio financeiro proveniente de entidades privadas. O maior contribuidor são ainda os Estados Unidos, mas o segundo – é interessante notar – não é um país, mas uma entidade privada: a Fundação Bill & Melinda Gates, que participa com mais de meio bilhão de dólares por ano.

Numa época em que nosso país ainda estava longe de ser representado no exterior por indivíduos do estilo Weintraub, a organização foi dirigida por um ilustre conterrâneo. O médico carioca Marcolino Candau presidiu a OMS durante 20 anos (1953-1973), eleito e reeleito por quatro mandatos consecutivos – uma longevidade inigualada até hoje.

Sede da OMS, Genebra (Suíça)

Atualmente, 7.000 funcionários, baseados em 149 países, tocam uma centena de programas. Cuidados com a saúde de recém-nascidos, erradicação da poliomielite, prevenção da cegueira, pesquisa de doenças tropicais, resistência antimicrobiana, estudos sobre ebola – são alguns desses programas.

Estes dias, a OMS anunciou que a crise sanitária decorrente do coronavírus vai produzir efeitos «durante as próximas décadas». O quadro não é nada encorajador, antes, é bastante assustador. Mas não adianta tentar se esquivar: a realidade é como é, nem sempre como gostaríamos que fosse.

A contragosto, dirigentes ao redor do mundo começam a se dar conta de que teremos de conviver com esse fato novo por muitos anos. Uma doença nova, contagiosa, mortal e (por enquanto) sem vacina e sem cura anda solta e pode pegar qualquer um. Doutor Bolsonaro não é o único dirigente a torcer o nariz para essa situação desagradável, que atrapalha os planos de qualquer poderoso. É hora de parar, pensar e planejar. Hora de espremer as meninges e tentar organizar o amanhã.

Portanto, em vez de agitar embalagem de remédio duvidoso para emas, nosso presidente devia deixar de se comportar como avestruz – por sinal, parente das moradoras do gramado do palácio. Não adianta enfiar a cabeça na areia pra fingir que não viu as nuvens escuras. Melhor deixar de molho a cura miraculosa, arregaçar as mangas e abrir passagem para cientistas, pensadores e técnicos encarregados de esboçar o Brasil dos anos pós-covid. Não o fazendo, o doutor pode até escapar da cadeia, mas será irremediavelmente degredado para o limbo dos governantes amaldiçoados. Para todo o sempre.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

A luva

José Horta Manzano

No ano de 1967, este escriba estava na Suécia para alguns meses de trabalho. Tendo deixado o ninho pouco tempo antes, o conhecimento das coisas da vida ainda era escasso. A experiência de usos e costumes europeus, então, não dava nem para o gasto.

Certa feita, eu caminhava por uma rua residencial. Algumas casas eram de madeira, outras de alvenaria, mas todas tinham um jardinzinho. A maioria das janelas não tinha veneziana nem cortina, a indicar que os moradores não se incomodavam de ser observados por quem passasse pela rua. Acho até que ninguém, além de mim, havia de prestar atenção ao que ocorria dentro das casas.

Alguns jardins eram delimitados por uma cerca viva baixinha, plantada junto à rua. De repente, enxergo uma luva dormindo no topo de uma cerca viva podada rentinho. Não era um par de luvas, era uma só. Conjecturando o que é que aquela peça de vestuário estava fazendo ali, mostrei a quem me acompanhava.

A explicação veio na hora. Tratava-se certamente de uma luva que algum passante tinha deixado cair sem se dar conta. Quem veio atrás, ao encontrar o objeto e sem saber a quem pertencia, apanhou-o do chão e pousou-o em cima da cerca. Quando se desse conta do ocorrido, o dono da luva provavelmente refaria o percurso; e acabaria encontrando o objeto perdido.

Foi uma de minhas primeiras surpresas na Europa. Muitas viriam mais tarde, mas essa marcou. Tanto é verdade, que, passado tanto tempo, me lembro ainda. Na hora, fiquei imaginando que, fosse na minha terra, não viria à cabeça do dono da luva refazer o caminho pra buscar o objeto perdido. Ainda que, esperançoso, refizesse o percurso, a luvinha teria desaparecido antes de ele chegar.

Luva – etimologia
Os dicionários informam que luva é palavra de origem gótica. (O gótico era um dialeto germânico, falado pelos godos.) Na origem, a palavra designava a palma da mão.

Na difusão desse nome entre as línguas da Europa ocidental, deu-se um fenômeno interessante e pouco comum. As línguas latinas – italiano, francês, catalão, espanhol – adotaram filhotes da mesma palavra para designar esse objeto: guanto / gant / guant / guante. O termo também é germânico, só que oriundo de outro dialeto, o frâncico, falado pelos francos. (É o povo que deu origem ao nome da França.) Todas as línguas irmãs foram por um lado, só o português é que foi por outro.

Note-se outra curiosidade: luva é da mesma família do inglês glove.

Engraçado mesmo é o termo que alemães e escandinavos usam para dar nome à luva. Em alemão, é Handschuh, literalmente: sapato de mão. Sueco, dinamarquês e norueguês usam a mesma imagem.

Pra finalizar, note-se mais um fato interessante. É verdade que, divergindo das línguas irmãs, demos preferência a luva. Mas a raiz guanto / gant / guant / guante não foi banida de nossa língua. Está presente na nossa fala de todos os dias, sim, senhor! O digno representante é o verbo aguentar, descendente da mesma fonte. De fato, traduz a ideia de ‘aferrar, tomar um objeto com violência e agarrar forte’.

P.P.P.

José Horta Manzano

Às vezes se ouvem inacreditáveis histórias de cubanos que padecem com salário mensal de 10 ou 20 dólares. São relatos que nos deixam de queixo caído e sem entender como é possível alguém viver com uma ninharia assim.

É verdade que, em qualquer lugar do mundo, ter de se virar com poucas dezenas de dólares por mês é andar na corda bamba. No entanto, há que relativizar. O dólar não é referência absoluta. Nenhuma moeda poderia servir de régua para medir realidades assimétricas.

Tradicionalmente, o PIB (produto interno bruto) tem servido de parâmetro para medir a riqueza de cada país. O cálculo é teórico, mas é o que temos. O problema é que um cubano, com o equivalente de 10 dólares, pode comprar mais mercadoria e mais serviços do que um norueguês que dispuser da mesma quantia. Portanto, simplesmente dividir o PIB pela população de um país pode levar a resultado distorcido, longe da realidade.

Para corrigir a distorção, utiliza-se a variante PPP (Purchasing Power Parity = Paridade de Poder Aquisitivo). Uma manipulação científica de indicadores permite a obtenção de resultado mais próximo da realidade. É aí que se vê que um ordenado mensal de US$ 5.000, considerado excelente no Brasil, é salário de fome na Suíça, país onde esse montante não chega para sustentar uma família de quatro pessoas.

Calculado pelo método PPP, o PIB brasileiro per capita aumenta 50%. O G7, o clube dos ricos, congrega as nações teoricamente mais ricas do planeta. Atualmente, os membros do clube são: os EUA, o Japão, a Alemanha, a França, o Reino Unido, a Itália, o Canadá – acompanhados da União Europeia. A Rússia, que fazia parte, foi excluída desde que suas tropas se apossaram da Crimeia, território antes ucraniano.

Algum tempo atrás, uma jornalista alemã esmiuçou dados do FMI e confrontou com a riqueza dos integrantes do G7. Chegou à conclusão de que, considerada a paridade de poder aquisitivo, os integrantes do G7 não seriam os mesmos. A ilustração mostra os países que, pelo método P.P.P., deveriam participar do clube, de 1980 a 2019.

Pode-se notar que, na década de 1980 (a chamada década perdida), o Brasil contava entre as sete maiores economias. Deu um escorregão no início dos 2000. Atualmente, é o oitavo da lista, ou seja, o primeiro dos que vêm depois. É interessante notar a ascensão fulgurante da China, o grande ausente. Não passava nem perto do clube em 1980 e, em 40 anos, assumiu o primeiro lugar. Mas continua de fora, que o clube não aprecia novos-ricos. Regras são regras, ora.

De Davi para Golias

José Horta Manzano

Com frequência, o Brasil se furta a levar a mão ao bolso quando o assunto é cooperação internacional. Enchentes, furacões, terremotos e demais catástrofes que acontecem do outro lado do mundo nos deixam com cara de paisagem.

«Eles que se virem.»

«Somos um país pobre, que não tem nem suficiente pra alimentar o próprio povo; como é que vamos ajudar outros?»

«De qualquer maneira, os países ricos vão ajudar; o problema não é nosso.»

Esses são os argumentos habituais. Ora, se nem nossas catástrofes nacionais nos abalam, como é que hemos de nos importar com as dos outros, não é mesmo?

E seguimos nosso caminho, alma lavada e consciência tranquila. A humanidade inteira não tem a mesma visão egocentrada. Felizmente.

Portal de mídia pública da República de São Marino

A República de São Marino é um país minúsculo. No mapa, é um retângulo irregular de apenas 7km de largura por 9km de altura. O país está encravado na Itália, que o circunda integralmente – nem saída para o mar tem. É um daqueles acidentes históricos que, esquecido por todos, atravessaram os séculos sem despertar cobiça em invasores.

O sistema político é original e interessante; qualquer hora escrevo a respeito. A população não chega a 34 mil pessoas e o PIB são-marinense é 1.200 vezes menor que o brasileiro. Pois o governo de um país que pouca gente saberia apontar no mapa tomou a decisão de dar uma mão ao Brasil para combater a epidemia de coronavírus.

Comovidos com o estrago provocado pelo alastramento da doença em nosso país, os eleitos de São Marino despacharam, com destino à prefeitura de São Paulo, um pequeno carregamento de 3.000 máscaras e 100 trajes de proteção. Não é a salvação da lavoura, mas é um símbolo forte. A doação mostra a maneira como todos deveríamos agir quando vemos o próximo em dificuldade. O mundo dá voltas – nunca se sabe o que pode acontecer amanhã.

França: ex-primeiro-ministro condenado

José Horta Manzano

François Fillon é político francês. Nos últimos 30 anos, já exerceu numerosos cargos: foi presidente de administração regional, deputado, senador, ministro de Estado (diversas vezes). Seu posto mais importante foi o de primeiro-ministro, cargo que ocupou durante toda a presidência de Nicolas Sarkozy.

No começo de 2017, corria solta a campanha para presidente da República. Monsieur Fillon tinha vencido as primárias de seu partido (direita moderada), e o futuro se apresentava sorridente. Com a bagagem que carrega, tinha boas chances de vencer a eleição. Eis senão quando, uma reportagem do jornal satírico Le Canard Enchaîné veio espalhar pedras por seu caminho.

François Fillon: a queda vertiginosa

Foi acusado de nepotismo por ter garantido à própria esposa, durante uma dezena de anos, emprego de assessora fantasma no tempo em que ele tinha sido parlamentar. O político defendeu-se como pôde. Alegou que, longe de serem fictícias, as funções de Madame Fillon correspondiam ao ordenado que recebia. Mas o estrago estava feito. Instalou-se a desconfiança. Monsieur Fillon, cuja candidatura se apresentava tão promissora, não foi ao segundo turno. Ninguém pode afirmar o que teria ocorrido caso o escândalo não tivesse estourado.

A máquina judiciária, inexorável, levou três anos investigando. O veredicto saiu ontem, 29 de junho. O ex-primeiro-ministro foi condenado a 5 anos de prisão, sendo dois anos em regime fechado. Pra coroar, levou multa de 375 mil euros e foi agraciado ainda com 10 anos de inelegibilidade. A esposa saiu-se melhor: 3 anos de prisão com suspensão de pena, mais outra multa de 375 mil euros.

As penas são pesadas até para padrões franceses. E olhe: sem Lava a Jato e sem Sergio Moro. Imaginem se a moda pega no Brasil. Imaginem se o Bolsonarinho – aquele que está enrolado com a Justiça – leva uma condenação desse quilate pra cada funcionário fantasma com o qual é acusado de praticar rachadinha. Não sai da cadeia até o fim da vida.

Observação
Monsieur Fillon foi condenado em primeira instância. Não foi encarcerado imediatamente porque seus advogados tencionam recorrer.

Ministros da Educação

José Horta Manzano

À moda de lá
Em fevereiro de 2013, doutora Annette Schavan, ministra da Educação da Alemanha e amiga chegada da chanceler Angela Merkel, foi acusada de plágio – sua tese de doutorado havia sido fortemente ‘inspirada’ de textos anteriores, com largos trechos idênticos.

Em países sérios, não se brinca com essas coisas. Quando é um cidadão comum que escorrega, a mentira já pega mal; quando a mutreta vem de um ministro de Estado, o mundo desaba. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira.

A espertona nem tentou dar desculpa. De cara no chão, foi chorar sua vergonha longe dos holofotes. Nunca mais se ouvir falar dela.

À moda daqui
Com o pranteado Weintraub fugido do país, o terreno estava aplainado para entrada triunfal do substituto. Afinal, ser melhor do que o anterior é barbada: qualquer um consegue.

Besteiras, todos cometemos. Só que, para os mortais comuns, que vivemos longe do palco, os deslizes podem passar a vida toda esquecidos. Para quem aceita cargo importante, a coisa é diferente: saem todos os jornalistas à cata de falhas do passado. Quem procura, acha. No caso do novo ministro da Justiça, não demorou muito.

Alguns dias atrás, o reitor da Universidade de Rosario (Argentina) veio a público em pessoa para uma ‘retificação’. Doctor Decotelli, nosso novo ministro, havia afirmado, no currículo inserido por ele mesmo na plataforma Lattes, ter obtido o título de doctor em Administração naquela universidade. Negativo – o reitor desautorizou o ministro mentiroso. Ai, que coisa feia!

Dois ou três dias depois, lá vem bomba de novo. Desta vez, o novo ministro é acusado de plágio na dissertação de mestrado que apresentou à FGV em 2008. Como a ministra alemã, doctor Decotelli também é suspeito de haver copiado passagens inteiras, palavra por palavra, de trabalhos anteriores.

Só que aqui não estamos na Alemanha. Brasília não é Berlim. Diferentemente de Frau Merkel, que despachou rapidinho sua ministra de volta a casa, doutor Bolsonaro continua quietinho no seu canto. Nem um pio. Quanto ao ministro, seguiu o padrão dos políticos brasileiros que enfrentam acusações. Longe de se dobrar às evidências, ousou contestar. Nega tudo.

Em lugar de agarrar o touro pelos chifres, mandou o ministério soltar nota. Saiu um daqueles contorcionismos do tipo ”caso” haja alguma ilicitude, terá sido mera distração, “que corrigiremos imediatamente”. O problema será contornado, 12 anos após a entrega da dissertação, com o acréscimo do crédito aos verdadeiros autores dos trechos plagiados. E pronto.

E ainda há quem se pergunte por que raios o Brasil não consegue sair do subdesenvolvimento…