A luva

José Horta Manzano

No ano de 1967, este escriba estava na Suécia para alguns meses de trabalho. Tendo deixado o ninho pouco tempo antes, o conhecimento das coisas da vida ainda era escasso. A experiência de usos e costumes europeus, então, não dava nem para o gasto.

Certa feita, eu caminhava por uma rua residencial. Algumas casas eram de madeira, outras de alvenaria, mas todas tinham um jardinzinho. A maioria das janelas não tinha veneziana nem cortina, a indicar que os moradores não se incomodavam de ser observados por quem passasse pela rua. Acho até que ninguém, além de mim, havia de prestar atenção ao que ocorria dentro das casas.

Alguns jardins eram delimitados por uma cerca viva baixinha, plantada junto à rua. De repente, enxergo uma luva dormindo no topo de uma cerca viva podada rentinho. Não era um par de luvas, era uma só. Conjecturando o que é que aquela peça de vestuário estava fazendo ali, mostrei a quem me acompanhava.

A explicação veio na hora. Tratava-se certamente de uma luva que algum passante tinha deixado cair sem se dar conta. Quem veio atrás, ao encontrar o objeto e sem saber a quem pertencia, apanhou-o do chão e pousou-o em cima da cerca. Quando se desse conta do ocorrido, o dono da luva provavelmente refaria o percurso; e acabaria encontrando o objeto perdido.

Foi uma de minhas primeiras surpresas na Europa. Muitas viriam mais tarde, mas essa marcou. Tanto é verdade, que, passado tanto tempo, me lembro ainda. Na hora, fiquei imaginando que, fosse na minha terra, não viria à cabeça do dono da luva refazer o caminho pra buscar o objeto perdido. Ainda que, esperançoso, refizesse o percurso, a luvinha teria desaparecido antes de ele chegar.

Luva – etimologia
Os dicionários informam que luva é palavra de origem gótica. (O gótico era um dialeto germânico, falado pelos godos.) Na origem, a palavra designava a palma da mão.

Na difusão desse nome entre as línguas da Europa ocidental, deu-se um fenômeno interessante e pouco comum. As línguas latinas – italiano, francês, catalão, espanhol – adotaram filhotes da mesma palavra para designar esse objeto: guanto / gant / guant / guante. O termo também é germânico, só que oriundo de outro dialeto, o frâncico, falado pelos francos. (É o povo que deu origem ao nome da França.) Todas as línguas irmãs foram por um lado, só o português é que foi por outro.

Note-se outra curiosidade: luva é da mesma família do inglês glove.

Engraçado mesmo é o termo que alemães e escandinavos usam para dar nome à luva. Em alemão, é Handschuh, literalmente: sapato de mão. Sueco, dinamarquês e norueguês usam a mesma imagem.

Pra finalizar, note-se mais um fato interessante. É verdade que, divergindo das línguas irmãs, demos preferência a luva. Mas a raiz guanto / gant / guant / guante não foi banida de nossa língua. Está presente na nossa fala de todos os dias, sim, senhor! O digno representante é o verbo aguentar, descendente da mesma fonte. De fato, traduz a ideia de ‘aferrar, tomar um objeto com violência e agarrar forte’.

2 pensamentos sobre “A luva

  1. Muito interessante. Lembrei que os argentinos dizem “aguantar” e não aguentar, como nós. Fiquei curiosa também para saber a origem da palavra “meia” (será que embute a ideia de que é a coisa que fica “no meio”, entre o pé e o sapato?) – enquanto que, no português de Portugal, se diz ‘peúgas’ (uma das palavras que mais me divertem)

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    • O espanhol tem ‘aguantar’ e o italiano usa ‘agguantare’ – ambos de sentido idêntico ao de nosso ‘aguentar’. São, naturalmente, frutos da mesma árvore. Já o francês, para esse uso, não tem verbo da mesma família.

      O Houaiss informa que ‘meia’, na acepção daquilo que se enfia no pé, é palavra registrada na língua desde 1619. Diz também que é redução de ‘meia-calça’. No verbete ‘meia-calça’, diz que é peça do vestuário feminino. Quando li isso, franzi o cenho. Meia-calça em 1619? Está faltando um pedaço nessa história.

      Depois de refletir, acho que encontrei o caminho. Para designar a meia, o espanhol diz ‘calcetín’ e o italiano usa ‘calza da uomo’ (=meia de homem). Percebe-se que ‘calcetín’ é diminutivo de ‘calza’, que confronta com nossa ‘calça’. Portanto, estamos em família.

      Conjecturo que o ancestral da moderna calça possa ter sido aquela vestimenta agarradinha, que cobria a perna toda, usada pelos fidalgos na época de Luís XIV. Imagino que possa ter levado o nome de ‘calça’ em terras lusas.

      Séculos mais tarde, quando apareceu uma peça que cobria só meia perna, deu-se-lhe o nome de ‘meia-calça’. Com a popularização do adereço, a língua se encarregou de abreviar ‘meia-calça’ para ‘meia’. Apesar das dimensões cada vez mais reduzidas, o nome permaneceu o mesmo. Que seja mais longa ou mais curtinha, a peça continua sendo ‘meia’.

      Nota
      O que acabo de dizer é simples conjectura. Não deve ser tomado como emanação de aprofundado estudo etimológico.

      Curtido por 1 pessoa

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