Bomba-relógio

José Horta Manzano

O mundo anda de olho grudado no Brasil. E não estão sonhando com o rumor das ondas de Ipanema nem com o rugido da onça-pintada na floresta tropical. Estão temerosos do desastre que começa a tomar forma com a chegada do coronavírus.

«O Brasil, nova bomba-relógio do planeta» – é a manchete do diário francês Le Parisien.

O medo é que os vaivéns presidenciais tenham prejudicado a tomada de decisão sobre as melhores estratégias para enfrentar a epidemia. Cada dia perdido no bate-cabeça que paralisa o Planalto contribui para aumentar a força da bomba que está por explodir.

«No Brasil e no México, a luta contra o coronavírus está marcada pela ignorância» – estampa o alemão SWP (Südwest Presse). Tem razão. A ignorância é a única explicação para um Brasil que destoa no concerto global. Todos vão, disciplinados, em compasso de marcha enquanto, por aqui, vai da valsa.

«O Brasil se dirige a uma terrível tormenta» – é a sombria previsão lançada pela Deutsche Welle, conglomerado alemão de mídia.

«O receio do pior nas favelas do Brasil» – é o temor expresso por France TV, conglomerado francês de mídia.

Como disse um magistrado, estes dias, só os astronautas não correm risco de contágio. Enquanto permanecerem no espaço, naturalmente.

Reparem que, em matéria de coronavírus, ninguém ousaria tratar nenhum outro país de ‘bomba-relógio’. Nem mesmo os EUA, que lideram a triste estatística de vítimas, são vistos como um perigo para a humanidade. Só nosso país. E todo o mundo sabe por quê.

Como é possível que um só personagem, fraco e cercado de meia dúzia de imbecis, possa causar tanto estrago? Será que não encontram um meio de acabar com essa trágica farsa? Temos um cipoal de leis. Temos centenas de parlamentares e milhares de magistrados. Vamos, gente, coragem!

Nós aqui, do andar de baixo, não dispomos dos meios necessários. O Brasil não aguenta mais três anos assim. Só a interdição desse homem pode nos devolver a tranquilidade. É melhor agir antes que o povo se subleve.

Eco planetário

José Horta Manzano

O mundo continua embasbacado com o bate-cabeça que se vê em Brasília no trato da pandemia de Covid-19. Todos começam a entender que as atitudes que vão contra a corrente emanam diretamente de doutor Bolsonaro.

Estivesse tudo isso ocorrendo numa ilhota do Pacífico, ninguém se importaria. Mas o Brasil, francamente, é um país que conta. Ninguém entende como nosso presidente pode ser tão atrasado.

Está aqui um florilégio de manchetes internacionais.

Bolsonaro ironiza sobre o vírus enquanto sobe o número de mortos
Clarín, Argentina

 

Bolsonaro pouco se importa com os perigos da epidemia de coronavírus. Isso poderia anunciar seu fim político.
Stuttgarter Zeitung, Alemanha

 

Bolsonaro põe em dúvida número de mortes por coronavírus no Brasil
France 24 em inglês

 

O Brasil tem dois problemas: o coronavírus e o presidente Bolsonaro
Il Post, Itália

 

O último negacionista
O presidente Bolsonaro continua minimizando a extensão da epidemia de coronavírus. Em protesto, a população agarra colheres e panelas.
Der Spiegel, Alemanha

 

O exército brasileiro, do positivismo ao anticomunismo paranoico
Le Monde, França

Covid-19, o Brasil determina que cultos religiosos são “essenciais”
(Reparem: “essenciais” entre aspas)
La Croix, jornal católico francês

 

 

Coronavírus: a situação alarmante do Brasil preocupa a população da Guiana Francesa
France Info – emissora local de rádio, Guiana Francesa

 

 

No Brasil, a luta contra a propagação do coronavírus se aproxima de uma luta de classes
France 24, portal de informação da TV francesa

 

Bolsonaro está disposto a sacrificar os idosos?
Dagens Nyheter, Suécia

Paranoia ou método?

José Horta Manzano

«Minha campanha, eu acredito que, pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu tinha sido, eu fui eleito no primeiro turno, mas no meu entender teve fraude

«[Essa quantidade de óbitos] está muito grande para São Paulo. Tem que ver o que está acontecendo aí. Não pode ser um jogo de números para favorecer interesse político. Não estou acreditando nesse número

Ambas as frases, nem precisa dizer, foram pronunciadas por doutor Bolsonaro. A primeira, em Miami, num evento neopentecostal. A segunda, no Brasil, em entrevista a uma estação de televisão.

Em ambas, ele abre o jogo: deixa claro que, no seu entender, manipulação de resultados é matéria corriqueira, coisa que todo o mundo faz. Está brincando com assunto sério, Excelência! Nem sua proverbial mania de perseguição explica essa desconfiança.

A menos que…
A menos que, por detrás dessa conversa boba de matuto, haja método, armação, orquestração. É permitido imaginar que Sua Excelência esteja preparando o espírito do distinto público para uma dança de números, jogados no ventilador com o intuito de causar polêmica, confusão e descrença geral. Ele mesmo já deu a dica de como enxerga o problema quando insinuou não acreditar nos números paulistas porque pode ser um jogo de números para favorecer interesse político”.

Imaginemos um cenário
O Planalto sabe muito bem que, afrouxadas as medidas de confinamento, a doença vai se alastrar. Assim mesmo, decide apoiar o afrouxamento, com o fim de evitar catástrofe que lhe parece mais importante: a perda de renda dos trabalhadores informais. Diga-se, en passant, que o presidente já avisou que «terão mortes»(sic).

Pra evitar que esse ‘terão mortes’ resulte em número assustador, prepara-se para maquiar estatísticas e mascarar a realidade. Afinal, cada hospital tem seus números, mas só o governo federal é dono da planilha que coleta todos os dados. Com um pouco de arte, não é difícil ‘achatar’ essa curva. Os números paulistas são os que fazem a curva empinar, daí o descrédito que o presidente lança, desde já, sobre eles.

O achatamento artificial somado à não notificação de casos em que a morte tiver ocorrido em casa, longe de amparo e assistência, vão dar o resultado sonhado pelo doutor. Ficará demonstrado que ele tinha razão ao liberar geral.

Engenhoso, não?

Discurso assombroso

José Horta Manzano

Hoje o Brasil acordou em efervescência por causa do discurso do presidente. Foi pronunciamento assombroso. Tome-se assombroso no sentido literal: discurso que lança sombra sobre o destino dos brasileiros; um falatório que ensombreia e apaga a luz que tínhamos esperança de ver no fim do túnel.

Não adianta procurar, na fala presidencial, algum traço de coerência: não há. Que não se busque tampouco linha de conduta ou objetivo fixado: não há.

É interessante comparar o modo de agir dos dois grandes falastrões que se sentaram na poltrona presidencial neste começo de século: Lula da Silva e Jair Bolsonaro. O Lula, finório por natureza, modulava o discurso de acordo com a plateia. Embora soltasse alguma asneira aqui e ali, era mais astuto. Sabia, por intuição, até onde podia esticar a corda; ao discursar, não costumava transgredir as regras da decência. Via de regra, seu discurso mostrava compaixão para com os menos favorecidos, atitude que invariavelmente lhe angariava simpatia. Tudo era da boca pra fora, mas isso só se soube mais tarde.

Doutor Bolsonaro tende a comportar-se como um Lula da Silva sem talento. Não é orador (mal sabe enunciar as palavras); não tem rumo; não é astuto; é fraquinho de intuição; desconhece as regras da decência; não deu mostras, até hoje, de nenhuma preocupação social. Ora, com todas essas insuficiências, a coisa se complica. Como fazer um discurso? Que dizer?

Homem de visão

Atualmente, discursos importantes estão sendo preparados por assessores de cunho radical. O problema maior é que tanto Bolsonaro quanto os que o rodeiam vivem encerrados dentro de uma bolha, fechados ao exterior, ignaros do que acontece no Brasil e no mundo. Como não têm programa nem falam para todos os brasileiros, discursos são moldados com um só propósito: alimentar a torcida alojada nas redes sociais.

No fundo, o presidente não está nem aí para o fechamento ou a abertura de comércios, transportes, serviços. Ele não vive no mundo real em que vivemos nós, mortais. Comida, na sua despensa, não vai faltar. Jatinhos da FAB suprem a falta de aviões. Seu cabeleireiro vem atendê-lo dentro do palácio. Portanto, se prega o fim atabalhoado da quarentena, é porque está tentando agradar à sua torcida.

Não tentem analisar nem encontrar lógica. Não encontrarão. Taí a razão pela qual o canal de comunicação entre o presidente e a maior parte da população está entupido. É que ele vive dentro da bolha; nós não. A lógica dos que habitam na bolha é interesseira e visa a manter privilégios. A nossa, cá fora, é de sobrevivência: gostaríamos todos de chegar sãos e salvos ao fim desta crise.

Falando em crise, quando é mesmo que o doutor vai mostrar o resultado de seu teste de Covid-19 assinado pelos diretores do hospital? Fica cada dia mais evidente que o dele deu positivo. Será que ele pretende continuar a contaminar, sem pudor, todos os que dele se aproximam? De um Bolsonaro, pode-se esperar tudo.

Satans taktik

José Horta Manzano

Ah, com a moderna tecnologia, a informação corre o mundo rapidinho. Boas ou más, as notícias alcançam os leitores, estejam eles onde estiverem. Chegou à longínqua Suécia a declaração do dono de uma igreja de cunho neopentecostal. Disse o homem: «O coronavírus é tática de Satanás para espalhar o medo». São palavras que desafiam o bom senso e deixam qualquer cidadão perplexo.

Pior que isso, dizem as más línguas que, ao minimizar o perigo de contágio em ajuntamentos de milhares de fiéis, o ‘bispo’ está mais é valorizando a continuidade do fluxo de caixa de seu negócio em detrimento da saúde dos adeptos. Não é análise a ser descartada.

Períodos de calamidade pública como este que nos assola agem como reveladores. Propiciam a afloração do que há de melhor e, infelizmente, do que há de pior no ser humano.

“O coronavírus é tática de Satã para espalhar o medo”
Dagens Nyheter, jornal sueco.

Do lado positivo, tenho visto, na Europa, grupos de jovens se oferecendo espontaneamente para auxiliar idosos que vivem sozinhos. Dado que estes últimos correm risco maior ao sair pra comprar alimentos ou medicamentos, os jovens propõem fazer as compras e entregar em casa aos velhinhos. Sem cobrar pelo serviço, naturalmente.

Do lado negativo, tenho visto gente roubando máscaras cirúrgicas aos milhares e gente vendendo o sumido álcool gel por 20 vezes o preço original. A declaração do dono da igreja entra nesta categoria de atos execráveis. Quem expõe os próprios seguidores ao perigo de contaminação, esse sim, está agindo como Satanás. Pobres dos que se deixam enganar.

O gargalo

José Horta Manzano

Acaba de sair portaria determinando o fechamento das fronteiras terrestres com 8 países, com o objetivo de frear a entrada de pessoas contaminadas pelo coronavírus. O Brasil tem fronteira comum com 10 países. A Venezuela já está há alguns dias ‘isolada’. Com os oito de hoje, são nove. Por inexplicadas razões, ficou de fora o Uruguai. Note-se que a portaria vale para fronteiras terrestres e fluviais; todos os que quiserem entrar em território nacional por via aérea têm catraca livre.

A primeira observação é que a expressão solene «fechamento de fronteira» impressiona, mas não funciona. Nossas porosas fronteiras não são susceptíveis de fechamento. Passa quem quer – e, principalmente, passa carregando o que quiser. O corolário de fronteira é contrabando. Não será um decreto do Planalto que vai impedir o ir e vir de gentes e mercadorias.

A segunda observação é temporal: a decisão chega tarde demais. Duas semanas atrás, quando a epidemia já castigava Ásia e Europa mas não tinha aportado nestas terras descobertas por Cabral, ainda dava tempo. O problema é que, naquela altura, a alta cúpula federal enxergava a doença como «histeria» e «fantasia da grande mídia». Estamos agora pagando o preço da leviandade e da ignorância dos que nos dirigem – principalmente do chefe deles todos.

Nesta altura, o vírus já está circulando em território nacional. Ainda vale fazer triagem dos que chegam do exterior, com aquele termômetro pistola que mede a temperatura sem contacto com o viajante. Afora isso, «fechar» fronteiras é perda de tempo e esforço.

Em vez de reagir com uma semana de atraso, as autoridades tinham mais é que antecipar o que está por vir. O Brasil vai precisar de milhares de respiradores (ou ventiladores), aqueles aparelhos que se sobrepõem a pulmões vacilantes e ventilam pacientes entubados. Pacientes de coronavírus em estado grave só terão alguma chance de sobrevida se forem conectados a uma dessas maquinetas. Não são leitos que faltam, são respiradores.

Já fizeram a contagem? Já sabem quantos deles estão disponíveis no país? Há fabricante nacional? Se não houver, há possibilidade de adaptar rapidamente alguma planta industrial para a produção de respiradores? Essas são as questões que deveriam estar preocupando nossos dirigentes.

A Suíça, pequeno país encarapitado nos Alpes, já fez o inventário: há cerca de 1100 respiradores no país, incluindo os do exército. Então, já se sabe: pacientes em estado grave não podem exceder o número de 1100. Se, por desgraça, forem 1200, 1300 ou mais, o corpo médico será compelido a fazer escolhas dolorosas; terá de decidir quem será entubado e quem será abandonado.

E o Brasil? Já conhece o diâmetro desse gargalo?

Brasil: objeto de zombaria

José Horta Manzano

Além de governar sem pulso e transformar o Brasil em nau sem rumo a navegar em ritmo de pedalinho, doutor Bolsonaro nos envergonha lá fora. Sua desconexão da realidade – que já está sendo vista como caso psiquiátrico – não passa mais despercebida na mídia mundial.

Os mais antigos hão de se lembrar de Idi Amin Dada, o ditador louco e sanguinário que reinou sobre a pobre Uganda de 1971 a 1979. Do jeito que nosso presidente solta barbaridades, a comparação entre os dois vai se tornando cada dia mais pertinente. Bolsonaro só não é sanguinário porque não tem poder para tanto. Felizmente.

Notícia boa logo sai da pauta; notícia ruim, ao contrário, demora pra ir-se embora da manchete. O vexame que o doutor cometeu domingo passado, quando se jogou nos braços dos fanáticos de sua seita, ainda ecoa no resto do planeta. Nosso presidente tornou-se objeto de sarcasmo; por consequência, o país inteiro também.

Nestes tempos de confinamento, toda notícia ridícula é bem-vinda pra fazer brotar um sorriso, ainda que seja de desdém. Um balançar de cabeça faz bem, em meio a tanta pressão por causa de uma doença que ninguém vê mas que todos temem.

O mundo entende que o Brasil não é uma ditadura. Portanto, se esse homem está na Presidência, é porque seus compatriotas o puseram lá. Vai daí, o reflexo de todas as enormidades que ele comete recai sobre nós todos.

Veja abaixo um florilégio da mídia internacional.

 

 

Clarín, Argentina
Bolsonaro prepara uma festa de aniversário e critica os governadores que impõem medidas emergenciais.

 

 

Stern, Alemanha
“O mundo está enlouquecendo”: Bolsonaro ignora as diretrizes da OMS e fala em histeria corona.

 

 

Le Monde, França
No Brasil, Bolsonaro se esfrega na multidão apesar do coronavírus.

 

 

CNN, EUA
Bolsonaro trata medidas de prevenção contra coronavírus de “histeria”.

 

 

Dagens Nyheter, Suécia
Bolsonaro acredita que o vírus é desculpa para afastá-lo do poder.

 

Fim da fila

José Horta Manzano

Com relação ao coronavírus, o Brasil está desperdiçando a sorte (se é que se pode falar em sorte) de estar no fim da fila. Ásia e Europa estão na linha de frente e tiveram de começar a enfrentar o Covid-19 há semanas ou até meses. O que europeus e asiáticos fizeram de certo e o que fizeram de errado tem de servir de guia do que se deve fazer e do que se tem de evitar.

Atitudes como a do presidente neste último domingo são verdadeiro crime contra a nação. No espaço de uma hora, ele fez tudo o que tem de ser banido, caso se queira conter a expansão do vírus.

Fim da fila

Bolsonaro é importante, mas, por sorte (e aqui se pode falar em sorte), não é a única autoridade no Brasil. Há ministros, parlamentares, cientistas, médicos, influenciadores de todo tipo, que podem (e devem) neutralizar o primitivismo do presidente. Têm de soltar a voz e a pluma, cada um dentro de suas possibilidades.

O importante é agir. Não dá pra continuar de braços caídos à espera de uma orientação segura vinda do Planalto: ela não virá.

Namastê

José Horta Manzano

Os franceses costumam dizer: Il n’est jamais trop tard pour bien faire” – nunca é tarde demais pra fazer benfeito. Ainda dá tempo pra aplicar uma excelente ideia. Nestes tempos de coronavírus, é importante substituir apertos de mão, beijinhos, soquinhos de falanges, tapinhas nas costas, apertos de braço e outras manifestações exuberantes por uma saudação que dificulte a transmissão do coronavírus.

Na Europa e nos EUA, está se popularizando a saudação tradicional indiana. Chama-se namastê e é excelente pra evitar todo contacto físico. O uso desse interessante cumprimento ‘no touch’ se alastra. Utilíssimo atualmente, está sendo adotado até por chefes de Estado e pela realeza.

Não tenho o endereço de doutor Bolsonaro. Se o distinto leitor tiver, mande uma cartinha a ele pra contar a novidade. Diga que Mr. Trump já adotou. Se nosso doutor adotar e der o exemplo, contribuirá pra evitar muito contágio. E, de quebra, parecerá menos primitivo.

Emmanuel Macron, presidente da França, já adotou

Donald Trump, presidente dos EUA, já adotou

Até o príncipe Charles, herdeiro aparente do Reino Unido, adotou.

E agora?

José Horta Manzano

A epidemia de Covid-19, o novo coronavírus devasta o planeta numa onda que veio do Extremo Oriente, chegou à Europa e ameaça as Américas. Escorado no comportamento fanfarrão de seu ídolo americano, doutor Bolsonaro tem se mostrado nulo. Em vez de agarrar a ocasião pra subir ao palanque e mostrar força e vigor na proteção de seu povo contra o inimigo microscópico, deu de ombros e disse que a epidemia é “invenção da grande mídia”. Que cada um cuide de si. Afligente.

Nesta quinta-feira, ao levantar-se, ele há de ter ficado sabendo do que fez Trump durante a noite. O presidente americano deu uma pirueta e mudou radicalmente o discurso. Em tom solene, anunciou haver decretado a proibição de entrada nos EUA de todo estrangeiro que tiver pisado solo europeu nas últimas semanas. Solo chinês pode. A medida só visa a Europa. Mr. Trump encontrou no Velho Continente o inimigo providencial para reforço de sua campanha eleitoral. A medida sem precedentes assustou Oropa, França e Bahia. Bolsas caíram. Aviões voam vazios. Homens de negócio não sabem que fazer. Turistas desacorçoados pousam a mala no chão.

by Luc “O Sekoer” Descheemaeker (1955-), desenhista belga

E agora, doutor Bolsonaro? Como é que fica aquela história de que «esse vírus não é mais que uma gripezinha à toa»? Vai dar uma viravolta também? Agora pode, que Seu Mestre mandou. É nisso que dá viver dentro de uma bolha, cercado de militantes, isolado do mundo. Quem se afasta, como ele, nada aprende, de nada fica sabendo, a nada reage.

Agora doutor Bolsonaro está metido numa saia justa. Se seguir o exemplo de Mr. Trump, a vassalagem vai ficar explícita – um papelão. Se persistir na negação do evidente perigo causado pelo vírus, é o entupimento que vai ficar evidente – um papelão. Dilema é isso: escolha entre duas opções ruins. Quem viver, verá.

Coronavírus e precauções

José Horta Manzano

Não sei se será impressão minha, mas parece que, no Brasil, a perspectiva de crise econômica está preocupando mais do que a crise sanitária provocada pelo Covid-19. A julgar pelas manchetes e notícias da imprensa, minha impressão é correta. Considerando a área impressa, a recessão mundial que bate à porta ganha de goleada do vírus. Essa atitude é estranha, dado que a recessão é amanhã, enquanto o vírus é hoje.

É verdade que o Brasil não é o terreno de predileção do coronavírus. Não é porque «o vírus morre com o calor», como li outro dia – tolice. A rápida propagação da doença neste fim de inverno do hemisfério norte é simples de explicar. No inverno, faz frio. Com isso, as pessoas tendem a permanecer o tempo todo em locais fechados, abafados, confinados, com ar viciado. Bares, restaurantes e assemelhados são aquecidos e hermeticamente fechados. Transporte coletivo (ônibus e metrô) idem. Pronto, está dada a receita da propagação relâmpago.

No Brasil, dado que costuma fazer calor, há menos ajuntamento em local fechado. Bares e até restaurantes mantêm portas e janelas escancaradas. O vírus não derrete com o calor, mas pode até escapar pela janela.

Na Suíça, por enquanto, não há confinamento. Mas o jornal televisivo, que dura meia hora, gasta 15 minutos com notícias do vírus. Por seu lado, o governo federal lançou campanha de prevenção, com folhetos publicitários em 12 línguas.

Um dos ‘flyers’ editados pelo governo federal suíço. (O português é lusitano.)

Na Itália, saiu hoje ordem do governo: confinamento obrigatório em todo o território nacional. Sair de casa passa a ser permitido somente por razões de trabalho ou necessidade justificada. Estão fechadas, até o mês que vem, escolas, creches, faculdades. Casamentos e homenagens fúnebres estão proibidos. Até futebol, paixão nacional, se joga em estádios sem público.

Na França, o vírus já pegou um ministro e três parlamentares da Assembleia Nacional. O entorno do presidente está sendo cuidadosamente protegido. Banidas as coletivas de imprensa, as viagens, as entregas de condecoração. Confinamento obrigatório está em vigor somente nas regiões mais atingidas do território – por enquanto.

Espero que, no Brasil, as autoridades tomem consciência rapidamente. Não convém brincar com coisa séria. Deixado à solta, sem que se tomem precauções, o Covid-19 que saiu pela janela pode voltar pela porta e fazer estragos.

No avião

José Horta Manzano

Pouco importa que o presidente, os filhos, os áulicos e o guru sejam tremendos bocas-sujas. Como é de público conhecimento (apesar de algumas vozes discordantes), não vivemos no país de Joseph Goebbels. O fato de uma aberração ser repetida sem cesso não a faz entrar à força nos usos e costumes nacionais.

Doutor Guedes, aquele que, em três tempos, havia de tranformar o país de calhambeque em Rolls-Royce, escorregou na mesma casca de banana que seu entourage costuma pisar dia sim, outro também. Que o tivesse feito entre amigos acomodados ao redor de um copo de pinga – que digo! – de um uísque 18 anos, passaria. O problema é que escorregou em público. E o público, como se sabe, dificilmente perdoa a quem resvala.

Pra quem esteve de quarentena em Wu Han estes dias e perdeu o último capítulo, o enredo é simples. Em fala pública sobre o valor do dólar, doutor Guedes soltou esta: “Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vou exportar menos, em função de importações, turismo, todo mundo indo pra Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia. Peraí”. (O grifo é meu.)

Seria cômico se não fosse trágico. Se Guedes ‘está’ ministro, é porque doutor Bolsonaro – seu chefe e empregador – assim quis. Bolsonaro foi eleito em contraponto ao lulopetismo, é verdade, mas unicamente porque o regime petista, na cabeça dos eleitores, tinha se tornado sinônimo de roubalheira. O que se queria era eliminar a podridão e manter as conquistas.

Empregada em avião… e daí? Pois ela já não vive dentro da casa de distintas famílias? Já não exerce a primordial função de primeira educadora de muito pimpolho bem-nascido? Por que é que no avião não pode? Será medo de coronavírus ou hipocrisia grossa?

Doutor Guedes não entendeu a cançoneta. Milionário, segundo dizem, é legítimo representante daquela gente de nariz empinado a quem o Lula apontava o dedo reprovador. Naquela época, muita gente fina acompanhou o dedo reprovador e acabou acreditando nessa conversa – que parecia generosa e humana – até que o próprio Lula escorregou no melado, se lambuzou, e foi parar na cadeia por corrupção. Será por isso que alguns narizes por aí estão se sentindo de novo livres pra se empinar. E será também por isso que certos doutores estão voltando a se horrorizar com doméstica em avião.

A chacoalhar desse jeito, o avião de doutor Guedes não chega a bom porto. Em país decente, ministro nenhum continuaria no cargo depois de dizer o que disse doutor Guedes. Vamos ver se Bolsonaro se toca.

Mentes embotadas

José Horta Manzano

É impressionante como a ignorância dá filhotes. Não se passa uma semana sem que o Planalto lance nova barbaridade, filha da ignorância. A mancada de hoje bate às portas da crueldade. É negação de um dos princípios básicos da democracia: o Estado tem o dever de amparar os membros mais frágeis da sociedade.

Algumas dezenas de conterrâneos nossos vivem nas cercanias de Wuhan, o ponto central da epidemia de pneumonia viral que está assustando o planeta. Nenhum deles está lá a mando do governo; cada um terá razões pessoais: paixão, estudo ou trabalho. Todos os dias, nossos patrícios veem amigos expatriados sendo recolhidos pelo país de origem. Os EUA, o Japão, a Alemanha, a França, a Espanha, a Bélgica, a Holanda, a Itália, a Suíça e muitos outros já cuidaram de repatriar seus filhos e tirá-los do olho do furacão.

Nossos conterrâneos, sentindo-se abandonados, juntaram-se e produziram um vídeo conjunto, em que rogam ao presidente da República que dê um jeito de tirá-los de lá. Sem ajuda, não conseguem sair. Os transportes estão todos paralisados; nada de trem, ônibus ou avião. Estão de mãos atadas, à mercê da boa vontade de doutor Bolsonaro. Sabem o que ele fez?

Nosso solerte presidente declarou-se «muito preocupado». Foi só. Negou ajuda aos patrícios. Disse que nenhum avião será encomendado pelo governo brasileiro, nem avião da FAB, nem fretado. Alegou que custa muito caro. Tentou escapar da responsabilidade ao explicar que precisa da aprovação do Congresso. (O Congresso não precisou aprovar a requisição do jato da FAB que levou um auxiliar de ministro à Índia – mas essa é uma outra história.)

Bolsonaro encerrou o assunto e matou a charada ao declarar-se receoso de que aquele punhado de expatriados venha contaminar 200 milhões de brasileiros. Não disse, mas todos entenderam: «Foram para esse país comunista porque quiseram; agora, que se virem; não tenho nada que ver com isso.»

Não sei como Donald Trump, Angela Merkel e outros fizeram para evitar contaminar milhões de cidadãos seus ao repatriar os conterrâneos em dificuldade. Deram um jeito. Sei, no entanto, como fez a França. Requisitou uma espécie de colônia de férias, à beira-mar, desocupada nesta época do ano. Conforme vão chegando os franceses vindos de Wuhan, vão sendo acomodados no lugar. Hoje já chegou o segundo avião, com mais uma leva de cento e tantas pessoas. Vão ficar lá por 14 dias, que é o prazo após o qual não há mais risco de contágio. Alimentados e bem tratados, podem circular dentro do perímetro da colônia; só não podem sair. Concordo que não é a maneira mais agradável de passar férias, mas é sempre melhor do que ficar confinado dentro de casa na China.

Os aviões fretados pela França trazem também cidadãos de países vizinhos. Belgas, holandeses e luxemburgueses estão sendo trazidos assim. O Brasil tem vizinhos que, muito provavelmente, têm cidadãos perdidos naquela lonjura. Nestas horas, a prática diplomática ensina que se deve consultar Buenos Aires, Montevidéu, Assunção, Santiago e propor uma ‘rachadinha’ – no bom sentido, naturalmente. Cada uma paga na proporção do número de cidadãos repatriados. O avião faz escala aqui, depois ali e acolá até chegar ao destino final definido pelas autoridades sanitárias brasileiras.

Bom, “isso aí” é o que ocorreria se tivéssemos um governo normal. Desgraçadamente, não temos. Portanto, os conterrâneos desgarrados que se virem, que o governo está se lixando procês.

E parem com essa história, que já deu. Agora, silêncio, porque os graúdos do Planalto estão preparando a próxima live. Pô! Essas picuinhas de brasileiro em país comunista atrapalham pra caramba, taoquei?

Coronavírus e pânico

José Horta Manzano

Coronavírus
Uma amiga me pergunta, preocupada, o que penso do coronavírus chinês, e se os europeus estão entrando em pânico por causa da propagação da doença. Respondi que sim, como por toda parte, o coronavírus anda mexendo com os nervos.

Há muita gente entrando em pânico, mas acho que ainda é cedo pra exagerar. É verdade que o bichinho tem potencial de se alastrar rápido, embarcado no enorme volume atual de viagens internacionais.

Assim mesmo, autoridades do Sistema de Saúde da França afirmam que esse novo vírus não é mais letal do que o da gripe comum. Cálculos atuais indicam uma taxa de letalidade em torno de 2% a 3%. Quem corre mais risco são os que estão nos extremos da vida: recém-nascidos e velhos.

Todo ano, milhares morrem de gripe e não sai nos jornais. Quanto a nós, temos de nos orgulhar de nossos vírus nacionais endêmicos; a dengue, o sarampo e a ignorância matam muuuito mais do que qualquer vírus importado.

Representação do deus grego Pan

Pânico
Embora seja atualmente usado quase somente como substantivo, pânico entrou na língua como adjetivo. Como tantas outras palavras, nasceu no grego e viajou até nós através do francês.

Pânico refere-se ao deus Pan, protetor dos rebanhos e dos pastores, frequentemente representado como criatura fantástica, meio homem, meio bode. Diz a lenda que assustava e desorientava os que se aproximassem com os ruídos estranhos e fortes que emitia. Quem o ouvisse se sentia perdido, desorientado, assustado. Entrava em medo pânico (=medo de Pan).

Na língua francesa, ainda se diz peur panique (=medo pânico). Há também o verbo paniquer (=panicar), que nossos dicionários ainda não abonam. Qualquer dia destes, chega.