Trumpização

José Horta Manzano

Donald Trump não inventou a baixaria na política, mas está lhe dando um impulso fenomenal. É difícil saber se costumes tão rasteiros já existiram antes, em outras épocas. O bom senso indica que não, que nunca houve nada parecido. Homens políticos, por mais incisivos e veementes que possam ter sido, não desceram tão fundo como o atual inquilino da Casa Branca.

Não assisti ao debate de ontem, etapa obrigatória da corrida presidencial americana. Pra começar, não teria estômago para aguentar hora e meia de bate-boca; pra terminar, o espetáculo caía às 3h da manhã na hora daqui, razão suficiente para renunciar. Mas ouvi, hoje de manhã, uma dezena de analistas, cada um com sua visão e seu resumo do que ocorreu.

Pelo que pude depreender, não foi um debate de ideias stricto sensu, dado que nenhum dos candidatos gastou mais que 10% de seu tempo para apresentar as metas de um eventual governo. Foi mais parecido com uma briga de cortiço, em que a intenção de cada litigante era só rebaixar o adversário.

Invectivas, insultos, mentiras, ataques pessoais, ‘voadoras’ na carótida, dedo no olho, pé no peito pra derrubar. Sabe de uma coisa? Aqueles que se destroçavam num circo romano, dois mil anos atrás, seguiam código de ética bem superior ao que se viu numa etapa crucial das eleições do país mais poderoso do planeta.

Não posso avaliar o que se passa na cabeça do americano médio; não sei como ele se sente depois de quatro anos sob Trump. Visto daqui de longe, no entanto, o problema é diferente. Quem vive fora dos EUA está menos preocupado com problemas internos americanos e mais com a imagem que a grande potência projeta no resto do mundo. E com a influência que exerce em dirigentes mais frágeis, como é o caso do doutor que nos governa.

Que Donald Trump esteja fazendo bom ou mau governo, isso quem tem de julgar são os americanos, seus eleitores. Darão o veredicto nas urnas. Quanto a nós outros, só nos resta constatar o abalo que um indivíduo inculto, agressivo, narcisista, mentiroso e despreparado para ser presidente tem provocado nos costumes políticos do planeta.

Povos mais esclarecidos, como os que vivem em democracias maduras, têm nas mãos as armas para reconhecer essa ameaça de degradação nas artes da política e para resistir a ela. Povos menos esclarecidos – como o nosso, sejamos sinceros – se encontram desarmados. O jeito lulopetista de manejar a coisa pública deu uma perigosa inclinada para baixo. Os anos em que fomos governados por presidentes de poucas letras e ideias curtas (mas braços longos, se é que me entendem) deram a partida para forte rebaixamento no nível do debate de ideias.

A rejeição ao modo lulopetista de governar abriu uma avenida para o aventureiro que se mostrasse mais ousado. Bolsonaro conseguiu ser visto como o mais antipetista dos candidatos. Não deu outra: deixou os demais a comer poeira e venceu.

Sem preparo e sem projeto, nosso doutor precisava agarrar-se à figura de um irmão mais velho a mostrar-lhe caminho radioso. É neste ponto que entra a influência daninha de Trump sobre políticos despreparados, como nosso presidente.

Se Trump não tivesse ousado, Bolsonaro não ousaria. Se Trump não tivesse dito, Bolsonaro não diria. Se Trump não tivesse feito, Bolsonaro não faria. Em resumo: sem Trump, não teria havido Bolsonaro; ou, pelo menos, não esse Bolsonaro que conhecemos.

Resta esperar que os eleitores americanos se mostrem mais espertos desta vez e que despachem o topetudo pra casa. Para o Brasil, será uma bênção.

Os primeiros candidatos

José Horta Manzano

Uma estação de rádio de São Paulo que costumo escutar dispôs-se a sabatinar os (pré-)candidatos à presidência da República. Esta semana, começou com dois deles. Concedeu uma hora a cada um, para responder à perguntas que lhe faziam três ou quatro entrevistadores no estúdio.

Pelo desempenho dos candidatos, podemos tocar a sirene, que temos aí desastre anunciado. E com data marcada para começar: primeiro de janeiro do ano que vem.

Os dois primeiros entrevistados, doutores Bolsonaro e Boulos, deixaram uma triste impressão de despreparo. Pior, não demonstraram capacidade nem abertura de espírito propensa ao aprendizado.

Jair Bolsonaro
by João Bosco Jacó de Azevedo (1961-), desenhista paraense

Doutor Bolsonaro parece boa gente, mas isso não basta pra ser bom presidente. O homem não tem a menor noção das grandes linhas mestras que alicerçam o país, a começar pela economia. Falta-lhe jogo de cintura. Qualquer entrevistador, por mais primitivo que seja, consegue encurralá-lo e deixá-lo embaraçado e sem palavras.

Embora tenha abandonado a carreira há mais de 30 anos, a cada dez palavras ele repete que é militar, o que deve lhe parecer de capital importância. Acredita que os complexos problemas do país hão de se resolver num estalar de dedos ‒ por pura magia ou pela força do pensamento ‒ assim que ele assumir a presidência. Está mais pra iluminado do que pra dirigente sensato. Com ele na presidência, daríamos um pulo no escuro.

Guilherme Boulos

Doutor Boulos é muito diferente. Tem um lustro de cultura que lhe confere certa fluência de linguagem. Articula e exprime corretamente as ideias. Infelizmente, essa faculdade não é de grande valia. O homem tem monomania. Embora jovem, tem os pés fincados nos anos 1960.

Com ele na presidência, o caminho do país seria convulso: enfrentamentos, luta de classes, restrições à propriedade privada, presença invadente do Estado na vida das gentes. Uma cartilha ultrapassada, que se mostrou inadequada e que faleceu com o desmoronamento da União Soviética, trinta anos atrás. A concretizar as ideias do moço, não se vislumbra um Brasil melhor.

Não conheço ainda o programa dos demais (pré-)candidatos. É bom que seja melhor do que o desses dois, senão, o Brasil está bem-arrumado.

Bolsonaro
O sobrenome Bolsonaro é provavelmente transcrição errônea do original Bolzonaro. Na Itália, menos de cem famílias têm esse raro nome. A hipótese mais provável é que derive de Bolzano Vicentino, um vilarejo situado a poucos quilômetros de Vicenza, região do Vêneto, Itália. O patriarca que deu nome à estirpe devia ser originário desse burgo.

Boulos
Boulos é a forma árabe do nome Paulo, usado aqui como sobrenome. A transliteração varia conforme a língua de destino: Bulus, Bulos, Boolos, Boulus, Boulos são algumas das variantes. Dado que a língua árabe não conta com o som P, ele vem sempre transcrito como B. Boulos é a transcrição francesa. Deve ser pronunciado «Bulos». Esse nome de família, usado no Oriente Médio, denota origem cristã.