Parlamento feminino

José Horta Manzano

Com 77 mulheres eleitas nas eleições parlamentares de 2018, a bancada feminina na Câmara Federal subiu para 14,6%, um número curiosamente baixo. Digo curiosamente porque a discriminação contra mulheres não é traço marcante da personalidade brasileira. Em outras terras, a intolerância  é sabidamente mais acentuada do que entre nós.

Como referência, tomemos o comportamento dos votantes na escolha de candidatos para cargos do Executivo, os mais vistosos. Observe-se que o eleitorado brasileiro dá seu voto, sem maiores complexos, a uma mulher. Basta conferir algumas prefeitas e governadoras eleitas no passado.

A maior cidade do país já foi comandada por mulher em duas ocasiões: por Luiza Erundina, nos anos 1990, e por Marta Suplicy, nos 2000. O estado do Rio já elegeu Rosinha Garotinho. Fortaleza já teve Maria Luiza Fontenele e Luizianne Lins como prefeitas. O Rio Grande já deu a vitória a Yeda Crusius. E o Brasil inteiro – embora pareça hoje difícil acreditar – já consagrou Dilma Rousseff.

Há que constatar que o brasileiro é desembaraçado na hora de votar. Não me parece que deixe de votar em mulher só por causa do sexo da candidata. O fato de, apesar das quotas, a representação feminina ser tão baixa no Congresso ainda está por ser estudada.

Outros países têm desempenho melhor que o nosso. Fiz uma pequena pesquisa e descobri algumas curiosidades.

Os países que ocupam o topo da classificação são aqueles em que a eleição de parlamentares é artificialmente dirigida, não somente por sistema de quotas, mas também porque certo número de parlamentares é designado, sem voto popular, pelo Executivo (ou pelo rei, emir, príncipe ou ‘dono’ do país). É nesta categoria que se encontram os que têm parlamento com maioria feminina: Ruanda (61,3% de mulheres) , Cuba (53,2%), Bolívia (53,1%), Emiratos Árabes (50%).

Descendo na classificação, aparece a Suécia, país fortemente igualitário, em 7° lugar, com 47% de mulheres. A Espanha e a Suíça estão entre os bons alunos, com 44% e 41,5% respectivamente.

Quanto a nossos vizinhos mais chegados, a Argentina faz bonito: 40,9% de mulheres no parlamento. Já o Uruguai não sai tão bem na foto: 21,2%. O Paraguai, apresenta placar bem magrinho: 16,3%.

O parlamento americano está mais feminizado que o nosso: 23,4% dos mandatos foram entregues a representantes do sexo feminino. A Itália apresenta um quadro ainda melhor, com 35,7% de mulheres na atual legislatura.

O Parlamento Europeu, renovado em 2019, não é o nec plus ultra, mas está no bom caminho: 36,4% de mulheres.

Classificado em 142° lugar na lista mundial com marca supermodesta de 14,6%, o Brasil aparece mal. Como vê o distinto leitor, nessa matéria, ainda estamos engatinhando.

Quem tiver curiosidade pode consultar a lista completa atualizada mensalmente pela União Interparlamentar, agência da ONU, com sede em Genebra, à qual o Brasil está afiliado desde 1954.

Árabes e judeus

José Horta Manzano

Apesar da energia despendida pelos governos petistas para promover e alargar linhas de fratura no seio da sociedade brasileira, o estrago não ultrapassou os clichês ligados à aparência física. As famigeradas quotas raciais foram estabelecidas grosseiramente. Na base, guiaram-se apenas pela cor da pele e restringiram-se a distinguir duas categorias: de um lado, pretos e mulatos; de outro, brancos e orientais. A medida tosca se limitou à aparência externa de cada indivíduo. Não tendo descido a minúcias, a estigmatização poupou a diversidade de nossa herança étnica e cultural. Melhor assim.

Nosso país faz parte do clube seleto dos que não ressentem o eco das rusgas entre judeus e árabes. Passando ao largo das desavenças no Oriente Médio, o brasileiro não demonstra preconceito contra nenhum dos dois povos beligerantes. Seria falso dizer que isso ocorre porque não os conhecemos. A sociedade brasileira integra milhões de descendentes de imigrantes árabes e judeus, que são considerados cidadãos exatamente como os outros, nem melhores, nem piores.

O fato de representantes das duas colônias sobressaírem em altos cargos da política nacional não abala ninguém. A mídia nem costuma sublinhar a origem desses personagens. Os árabes Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab, Rosinha Garotinho e Fernando Haddad são conhecidos e apreciados (ou detestados) por motivos que nada têm a ver com a origem de seus antepassados. O mesmo se aplica aos judeus Jaime Lerner, Jacques Wagner, Alberto Goldman e Ilan Goldfajn.

Rainha Silvia da Suécia

No estrangeiro, as paixões são mais vivas. Quando doutor Temer subiu à Presidência, a notícia chegou correndo ao Líbano, terra de seus antepassados. A mídia se empolgou e homenagens foram prestadas ao político brasileiro. No vilarejo de onde vem a família, doutor Temer é nome de rua.

Agora, que doutor Alcolumbre foi eleito presidente do Senado, foi a vez de a mídia israelense se entusiasmar. Todos salientaram o fato de ser a primeira vez que um judeu chega à Presidência de nossa Câmara Alta.

Note-se que o Brasil é menos efusivo quando algum de seus filhos chega a posição importante no exterior. Temos uma brasileira sentada no trono da Suécia e, no entanto, raramente se tem notícias da rainha Sílvia que, filha de Herr Walther Sommerlath e de dona Alice Soares de Toledo, cresceu no Brasil e fala nossa língua como qualquer conterrâneo. Além da coroa, ela dispõe hoje de tripla nacionalidade: brasileira, alemã e sueca.

Confirmando a convivência pacífica entre comunidades, temos agora o judeu Davi Alcolumbre e a árabe Simone Tebet no Senado, ambos em posição de destaque. A mídia estrangeira pode continuar se entusiasmando. Quanto a nós, vamos torcer pra que as linhas de fratura criadas à força acabem por cicatrizar sem deixar marcas.