Meus parabéns!

José Horta Manzano

Quando um povo elege chefe de Estado ou de governo, é praxe que mandatários de outros países enviem ao eleito mensagem de congratulações. É mais raro que se envie mensagem aos perdedores.

Bem, isso é o que costuma ocorrer no mundo real. No entanto, em certos bolsões que vivem num limbo, fora do tempo, num universo de fantasia, as coisas não funcionam como no resto do globo.

Unk 03Señor Nicolás Maduro, o pouco talentoso mandachuva venezuelano, sofreu derrota acachapante nas eleições de domingo passado. Que não seja por isso. Señor Raúl Castro, número um da gerontocracia cubana, mandou-lhe mensagem de fã entusiasta e admirativo(*).

Para conferir, fui direto à fonte: recortei a notícia do mui oficial diário Granma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano. Ponho a mensagem logo aqui abaixo. Clara, ela dispensa tradução. Dado que ainda estamos num país livre, o distinto leitor está autorizado a esboçar, ao final da leitura, um sorriso zombeteiro. Francamente, tem gente que não tem medo do ridículo.

Interligne vertical 12Estimado Maduro:

He seguido, minuto a minuto, la extraordinaria batalla que han dado y escuché con admiración tus palabras.

Estoy seguro de que vendrán nuevas victorias de la Revolución Bolivariana y Chavista bajo tu dirección.

Estaremos siempre junto a ustedes.

Un abrazo

Raúl Castro Ruz

Interligne 18h

(*) Não há notícia de que alguma mensagem de parabéns tenha sido enviada aos vencedores das eleições.

O pote de mágoa

José Horta Manzano

Temer 2Fez furor hoje a carta que senhor Temer enviou a dona Dilma. O fato dá que pensar. Antes de prosseguir, quero deixar claro que não jogo no time de nenhum dos dois. Para mim, ambos – como dizia minha avó – são do tipo que não fede nem cheira.

Senhor Temer afirma que a carta é pessoal. O fato de ter permitido seu vazamento à imprensa desmente toda intenção de discrição. Fica claro que, longe de ser pessoal, a missiva visa o grande público.

Senhor Temer assevera que o desabafo já devia ter sido feito há tempos. Então, por que esperou? E por que, diabos, se decidiu justamente agora?

Carta 1Senhor Temer fala em lealdade, qualidade que não combina com a política. Os atores do andar de cima são movidos a manobras, golpes, traições, conchavos, propinas, troca de favores, conciliábulos, conspirações, conluios, acordos. Lealdade, francamente, é conceito desconhecido.

Senhor Temer menciona, entre outros protestos, o fato de apaniguados seus terem sido maltratados por dona Dilma. Num ato falho, o vice desvela o fundo do pensamento: queixa-se de a presidente ter-se recusado a ratificar seu nepotismo explícito.

Em pelo menos dois trechos da carta aberta, senhor Temer deixa claro que dona Dilma e ele são as «duas maiores autoridades do país». Ao mesmo tempo, queixa-se de que «o governo» tenciona provocar cisão no PMDB. Ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. O missivista precisa, de uma vez por todas, assumir seu posto. Ou faz parte do «governo» ou não.

Dilma Lula TemerAo final, fica uma pergunta intrigante. O vice-presidente confessa ter-se sentido figura decorativa durante os quatro anos do primeiro mandato. A pergunta é: por que, raios, aceitou candidatar-se de novo?

Uma derradeira consideração. Descontente e frustrado que está, carregar o fardo imposto pelo cargo deve ser-lhe insuportável. Em vez de continuar guardando mágoa em pote, o caminho mais adequado para senhor Temer seria a renúncia. Por que não se decide? Será por abnegado espírito público?

Lembrete a todos os políticos que cerram fileiras contra o impeachment da presidente

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O Brasil, ao menos em teoria, é uma democracia representativa. Isso significa que todos aqueles que foram eleitos por nós – seja no Executivo, seja no Legislativo – são única e exclusivamente representantes de nossos valores, ideais, crenças e sonhos, não detentores de fatias do poder.

Bilhete 1O dicionário informa que democracia é o sistema de governo no qual o povo exerce soberania e também o sistema político cujas ações atendem aos interesses populares. É fundamental lembrar a todos vocês que, se neste momento, a expressiva maioria daqueles que os elegeram não se sente mais representada, só há uma conclusão inexorável: não estamos mais vivendo uma democracia representativa.

Congresso 2Já demos seguidas mostras de descontentamento e profundo cansaço com as aberrações perpetradas por políticos que aprenderam a se servir do Estado ao invés de servirem a ele. Já deixamos claro em nossas manifestações públicas que queremos o poder de volta para nossas mãos para que possamos criar novas formas de representação. Ainda que muitos de vocês aleguem terem ouvido “a voz das ruas”, é preciso convir que pouquíssimas mudanças ocorreram de fato.

Urna 10Assisto agora com horror, nojo e incredulidade as manifestações de tantos de vocês arvorando-se em defensores da legalidade constitucional e vomitando palavras de ordem como “golpe nunca mais”. Outros, cheios de tardios pruridos éticos, optando por declarar-se contrários ao impeachment até que o Judiciário comprove a existência de crime de responsabilidade. Ora, senhores, toda essa falácia só serve para distrair as atenções. Atarantados com tantos e tamanhos escândalos, certamente vocês esqueceram que nem tudo o que é legal é moral. Se lhes apraz participar desse triste espetáculo, por favor não nos convidem a fazer parte da plateia.

Manif 26Lícito é supor que os que assumem essa posição já delinearam formas de o nosso país sobreviver à catástrofe política, econômica e social que nos submergiu. Que já encontraram maneiras de persuadir os cidadãos a se deixarem governar por mais três anos por aqueles que não nos respeitam, não nos ouvem e nos espoliam. Que já estão prontos para estender a mão ao governo federal sem pedir em troca nenhum ministério, nenhuma secretaria, nenhuma autarquia, nenhuma nova fatia de verbas. Que podem garantir que já estão aptos a colocar em prática de imediato os projetos prometidos de educação, saúde, segurança e emprego.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Fim de ciclo

José Horta Manzano

De uns dez dias pra cá, parece que os ventos mudaram de quadrante pelas bandas da América do Sul. Fazia já tanto tempo que a coisa andava degringolando, que a gente já estava ficando desesperançado. Agora parece que uma luzinha apareceu lá no fim do túnel. É tênue, mas alumia.

Brasil
Começou no Brasil dia 25 de novembro. Foi quando, em acontecimento extremamente raro nesta República, um senador – no exercício de seu mandato – foi parar na cadeia(*). Parece pouco? Não é. Há que lembrar que nosso país já nasceu dividido em castas. Entre elas, a dominante sempre foi integrada pelos abastados, pelo clero e pelos amigos do rei.

America do Sul 1Se clérigo não é, o líder do PT no senado, hoje encarcerado, é integrante de carteirinha da turma do andar de cima. É lícito também supor que esteja ‘bem de vida’, pra não dizer podre de rico. A prisão do figurão deu mais uma prova de que a lei se aplica também aos que dela, ainda não faz muito tempo, costumavam escapar.

Dias depois, a Câmara Federal, (ainda) presidida pelo folclórico senhor Cunha, acolheu pedido de destituição da mal-amada presidente da República. Um espanto! Que o voto final expulse ou mantenha a mandatária é de somenos. A notícia boa é que as instituições continuam funcionando. Figurões sentem-se hoje mais vigiados do que no passado.

Argentina – símbolos

Argentina – símbolos

Argentina
Domingo passado, a eleição de señor Macri ao «sillón de Rivadavia» (como é chamado o trono presidencial argentino) fez cair o pano final sobre a ópera-bufa encenada durante 12 anos pelo exótico casal Kirchner. Ponto para o mundo e especialmente para o Brasil!

Venezuela
Neste fim de semana, chegou outra notícia alvissareira. Mostrando haver despertado de longo torpor, os hermanos venezuelanos deixaram explícito seu repúdio ao modo «bolivarianista» de governar. Ao renovar a assembleia nacional, deram maioria a antichavistas.

Interligne 28a

No mundo globalizado em que vivemos, governos que tentam sair dos trilhos encontram resistência no plano internacional. Precisam procurar aliados e juntar forças. Essa é justamente uma das principais razões pelas quais o Lula e seus aspones fecharam os olhos a iniquidades cometidas na Venezuela, em Cuba, na Argentina. Precisavam de aliados.

Tunel 1O que vemos hoje é prenúncio do fim de um ciclo. Brasil, Argentina e Venezuela – todos com a economia cambaleante – buscam horizontes mais arejados, livres do mofo de ideologias falecidas.

O estrago feito durante a última década é grande. Assim mesmo, chegaremos lá. O céu se está desanuviando.

Interligne 18h

(*) Há um antecedente. Ocorreu em 1963, quando o senador Arnon de Mello (pai de Fernando Collor de Mello) trocou ofensas com um desafeto, sacou o revólver, atirou e… feriu mortalmente um suplente de senador que teve a infelicidade de estar no lugar errado na hora errada. O assassino ficou alguns meses preso para, em seguida, ser inocentado e solto. Não perdeu sequer o mandato.

Retrato do governo

Elio Gáspari (*)

Train 4

«O trem-bala, delírio da doutora, era para ficar pronto para a Copa de 2014 ou, o mais tardar, para a Olimpíada de 2016. Felizmente, até as empreiteiras fugiram da maluquice. Apesar disso, o governo criou uma estatal para gerenciar a grande obra.

Não se fala mais em trem-bala, mas a estatal, chamada de Empresa de Planejamento e Logística, mudou de propósito e está aí, firme e forte. Funciona em dois andares de um edifício em Brasília e acaba de trocar sua diretoria.

Fazer trem é coisa difícil. Para criar uma estatal, bastam caneta e tinta. Fechá-la é impossível.»

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

Tripartidarismo

José Horta Manzano

Este domingo, vota-se na França. O povo está sendo convocado para eleger os dirigentes das 13 grandes regiões (um tanto artificiais) em que o país está dividido. Estes últimos tempos, por razões de economia, Paris decidiu fusionar antigas regiões. Das dezenas que, séculos atrás, compunham o país, resta apenas uma dúzia de conjuntos heterogêneos, verdadeira colcha de retalhos.

Regiões da França

Regiões da França

Região é escalão intermediário entre município e governo central. Dado que a organização política da França é unitária e não federativa, o grau de independência da região é bastante limitado. Nenhuma delas conta com Constituição, nem assembleia, nem Justiça independente. Entram na competência regional o transporte, a assistência às empresas, o zoneamento territorial, a gestão ecológica do lixo, o aprendizado dos jovens, a formação profissional.

Tradicionalmente, o mundo político francês se divide entre direita e esquerda. As últimas décadas têm levado os dois campos a convergir a ponto de as diferenças se tornarem quase imperceptíveis. Assim mesmo, ainda é importante, na cabeça de cada um, que cada político se encaixe numa etiqueta: ou é de esquerda ou é de direita.

Assemblee nationale 1

Até os anos 1970-1980, ainda eram numerosos os cidadãos que haviam vivido os horrores da guerra. Estava viva a consciência de que regimes populistas haviam arrastado o continente à catástrofe. Até aqueles anos, idéias de extrema-direita não tinham a menor chance de prosperar.

Mas o tempo passou, os antigos se foram, novas gerações que não conheceram a guerra são os adultos de hoje. Para estes, a paz é estado natural, automático, quase obrigatório. A guerra desapareceu do rol das preocupações.

As desgraças que a extrema-esquerda causou na União Soviética e na Europa Oriental só terminaram em 1989, com a queda do Muro de Berlim. O fato é recente e todos, assustados, se lembram. Como resultado, os partidos de extrema-esquerda (comunistas) sumiram do mapa.

Já a debacle que a extrema-direita (nazistas e fascistas) acarretou é antiga, acabou faz 70 anos, todos tendem a esquecer. Como filme de terror, a história esquecida tende a se repetir. De uns anos pra cá, mais e mais cidadãos aderem ao populismo nacionalista. Em todos os países do continente.

Esquerda tradicional, direita tradicional, extrema-direita populista

Esquerda tradicional   –   Direita tradicional   –   Extrema-direita populista

Pela primeira vez na história, a França periga conhecer nova partilha política. A crer nas sondagens, o tradicional bipartidarismo já era. Viva o tripartidarismo! Direita tradicional, esquerda tradicional e uma extrema-direita populista ressuscitada dominarão a paisagem política do país nos próximos anos.

Cidadãos equilibrados torcem para que o desvario dos conterrâneos não chegue ao desatino de entregar o poder central a extremistas populistas. Como bem sabem norte-coreanos, cubanos e venezuelanos, todo extremismo é daninho.

Frase do dia — 276

«O PT que, quando estava na oposição, prometia enforcar o último político fisiológico nas tripas do último empresário corrupto é o mesmo que franqueou a administração pública a diversas quadrilhas, em troca do pedágio que irrigaria os cofres petistas.»

Editorial do Estadão, 5 nov° 2015.

Porta aberta

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 dez° 2015

Vicente CelestinoNo longínquo ano de 1946, com vozeirão potente que caracterizava cantores da era anterior à chegada do microfone, Vicente Celestino lançou a toada Porta Aberta. Fez sucesso retumbante. Falava da porta de uma igreja que, simbolicamente, se abria para acolher de volta uma ovelha desgarrada, um vivente abandonado pela sorte.

Toda casa costuma ter porta. À discrição do dono, visitas são recebidas ou rechaçadas. A porta se abre para os bem-vindos, cheguem eles para visita de médico, para algumas horas ou até para pousar. Quanto aos indesejados, que procurem outra freguesia. Dono não é obrigado a permitir entrada a quem não lhe convém.

Porta 1Assim como igrejas e casas, país soberano também tem porta. Virtual, ela não está presa por gonzos a nenhum batente. Os nacionais, que têm franqueada a saída do país e a volta a ele, quase não se dão conta da sutil barreira. É que não lhes faz falta nenhuma autorização especial, o que não ocorre com estrangeiros.

Afora casos especiais em que a livre passagem tenha sido sacramentada por tratados – como acontece entre alguns países da União Europeia –, não se entra em terra estrangeira como se adentra o botequim da esquina. Nem todos os viajantes são iguais perante inspetor de alfândega e polícia de fronteiras.

Trafic 4Caso o viajante seja titular de passaporte emitido por país com o qual foi assinado acordo de liberação de visto, terá direito a entrar como turista, por período limitado, sem exercer atividade remunerada. No Brasil e na maior parte do mundo, a permanência padrão é de 90 dias. Na hipótese de o estrangeiro vir a trabalho ou estar planejando longa estada, é imperativo ter obtido previamente visto específico emitido por representação consular brasileira.

Visando a regrar a exigência de documentos, o Brasil – nação soberana e responsável – assinou, ao longo dos anos, convenções com a quase totalidade dos países. Esses acordos, fruto de tratativas cuidadosas, respondem a interesses mútuos. Cidadãos de numerosos países estão dispensados de visto para visita turística de até 90 dias a nosso país. Por razões ligadas à segurança do território e dos habitantes, o Estado brasileiro decidiu não conceder a mesma facilidade a todos. Cidadãos de determinados países só pisarão nosso chão se estiverem munidos de visto obtido no estrangeiro.

Não é segredo para ninguém que a política econômica dos últimos anos deixou o país em estado calamitoso. Rapinagem crônica e gestão arrevesada esvaziaram as burras. Para remediar, nosso governo anda no sufoco, raspando fundo de gaveta e matando cachorro a grito. Na esperança de incrementar o número de turistas que acudirão aos JOs 2016, mentes iluminadas imaginaram suspender a exigência de visto de entrada… para cidadãos de todos os países!

Passaporte 2Sancionada por dona Dilma, a lei já está em vigor. Vale até setembro do ano que vem. Abriu-se um hiato de dez meses durante os quais nosso país virou casa de mãe joana: entra quem quiser. O Brasil abre mão de um dos atributos maiores da soberania tão cara a nosso governo popular: o direito de filtrar a entrada do território. Durante quase um ano, passa qualquer um. Entre sem bater, minha gente, que a boca é livre!

Num mundo assolado por atentados, ataques terroristas e migrações de proporções bíblicas, a decisão é, no mínimo, temerária. Os caraminguás que um hipotético acréscimo de turistas trará não compensam a amplificação dos riscos. Um atentado perpetrado durante os JOs sairá bem mais caro que os dólares adicionais.

Passaporte 1A outra ameaça evidente é a de um acréscimo descontrolado da imigração ilegal. Sem a triagem do visto prévio, qualquer um vai poder se achegar. Ninguém é capaz de predizer o volume desse afluxo. Não é impossível que, daqui a um ano, tenhamos recebido milhões de estrangeiros aos quais, em circunstâncias normais, teria sido negado o visto. É lícito supor que centenas de milhares de viventes abandonados pela sorte – como cantava Vicente Celestino – aproveitem a porta aberta, entrem e não queiram mais sair. Estará armada uma sinuca de bico.

Um quarto de século atrás, o socialista Michel Rocard, então primeiro-ministro da França, pronunciou frase célebre: «La France ne peut pas accueillir toute la misère du monde» – a França não pode acolher toda a miséria do mundo. O Brasil tampouco. No intuito de vestir um santo, estamos despindo outro. Com todos os problemas que já temos, não precisamos correr atrás de mais um. Arrombada a porta, minha gente, será tarde pra botar tranca.

Frase do dia — 275

«Em seis minutos, quando você houver terminado de ler este texto, 12 brasileiros terão perdido o seu emprego: dois a cada minuto. Será difícil achar outro. Quem encontrar dificilmente será com um salário semelhante.»

José Nêumanne Pinto, escritor e jornalista, em artigo publicado no Estadão de 2 nov° 2015.

Almas nobres e impolutas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Discurso 2Esperou que fotógrafos e repórteres se arranjassem à sua volta e ligassem seus equipamentos. Quando todos silenciaram, ele se postou em frente às câmeras, o pescoço levemente curvado para a frente, olhos fixos na lente, o rosto ligeiramente erguido e impassível. Pensou com seus botões: “Estou pronto, nervos sob controle. Eu sabia que meus anos de dedicação ao pôquer me seriam de grande valia num momento como este”.

Com voz firme mas um tanto lacônica, deu a notícia bombástica pela qual todos esperavam. Respirou fundo, esperou alguns segundos para que o burburinho arrefecesse, e continuou: “Não me dá nenhuma felicidade [adotar esta ação]… Maldito Freud e seus lapsos linguísticos inconscientes, esbravejou consigo mesmo. Com cara de paisagem, insistiu na declaração de seu caráter impoluto: “Os motivos foram puramente técnicos, não me move nenhum propósito político…”

Fez nova pausa para dialogar com seus botões: “Por que será que as pessoas negam tanto suas motivações políticas? Por que essa palavra soa como algo sujo, inconveniente, despropositado? Sou político, ora bolas, e me orgulho de dominar todas as técnicas de persuasão para atingir meus objetivos. Que se danem todos, vou em frente”.

Discurso 3Continuou historiando brevemente as razões para sua decisão. Enfatizou o grande volume de demandas, o prazo exíguo que lhe era concedido legalmente para análise delas, os erros perpetrados por alguns dos demandantes, os acertos da proposta acolhida. Acelerou um pouco a fala, na esperança de causar máximo impacto com o ‘grand finale’ escolhido.

Com um meio sorriso concluiu, destemido: “Não me restou outra saída, a não ser atender aos reclamos populares”. Fez a derradeira pausa para auscultar sua voz interna e parabenizou-se triunfante: “É minha consagração como estadista! Desta vez, acho que me superei. Quero ver alguém ousar me desmentir. Tenho todos os números e detalhes técnicos para provar minha postura equidistante, a despeito de tanta passionalidade demonstrada por meus adversários”.

Deu o comunicado por encerrado e foi-se embora.

Interligne 28a

Resoluta, ela dirigiu-se ao microfone com passos firmes, acompanhada por todo seu séquito. Quando todos já estavam perfilados e a atmosfera ao redor já ganhara ares solenes, abaixou levemente a cabeça e consultou a si mesma em pensamento: “Tenho que parecer serena, custe o que custar. Não posso hesitar, não posso me deixar abater, não posso transpirar nem autoritarismo nem desejo de vingança. Sei quem sou e até onde posso chegar. Já passei por momentos piores, mais dolorosos. Pairo acima do bem e do mal, ainda que tenham me colocado no olho do furacão mais uma vez”.

Dilma 1Seu assessor direto fez um pequeno gesto de aprovação, como se quisesse lhe infundir mais confiança. Afinal, a roupa escolhida a dedo e impecavelmente bem passada ajudava a passar a mensagem de mulher destemida, acostumada a pôr tudo preto no branco. A maquiagem perfeita para reforçar a imagem de jovem senhora com os olhos ainda cheios de esperança em dias melhores. Joias e acessórios arrematando com precisão o perfil de pessoa dona de si.

Só um pequeno detalhe havia escapado aos cuidados de seus consultores de estilo: por debaixo da grossa camada de maquiagem, enegrecidas e fundas olheiras desvelavam o peso de tantos dias e noites de angústia, de apreensão.

Iniciou o pronunciamento com voz um tanto hesitante: “Recebi indignada a notícia…”. Repreendeu-se de imediato por não ter conseguido encontrar o tom certo, capaz de afiançar a todos que o sentimento de indignação realmente a tomava por inteiro. A frase tinha saído espremida na garganta por causa do colossal esforço de autocontenção, e seu corpo desvitalizado traíra a intenção de comunicar que estava pronta para qualquer combate.

Respirou fundo, tentando recompor-se, e prosseguiu: “Não há nenhuma consistência…”. Congratulou-se intimamente: o tom agora era o correto, o desejado. Mais animada, enfatizou: “Eu nunca…não sou….não tenho…não paira sobre mim nenhuma suspeita…não omiti…”. Parou por alguns segundos, perguntando-se se as seguidas negativas a estavam ajudando de fato a contrapor-se a seu adversário e a reforçar seus proclames de inocência ou se poderiam ser interpretadas como sinal de fragilidade.

Dilma Lula CunhaDecidiu agregar um tom de ironia a suas palavras, tentando esboçar um sorriso. Não conseguiu. Os músculos da face paralisados pela tensão não permitiram. O rosto contorceu-se num ricto. Atabalhoadamente, historiou em breves palavras os contornos da chantagem política a que sentia estar sendo submetida e deu prosseguimento aos autoelogios: “…meu compromisso inquestionável com a coisa pública…”. Será, perguntou-se mais uma vez, que os tribunais deste país acreditam sem qualquer dúvida razoável no caráter nobre de minha gestão? Será que meus assessores não exageram quando dizem que ainda há tempo e recursos para virar o jogo? E se….

Espantou as dúvidas com um leve meneio de cabeça e finalizou, arfante, como se aconselhasse a si mesma: “Não vamos nos intimidar, vamos agir com serenidade…”

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Contra ou a favor?

José Horta Manzano

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015 às 9h30

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Chamada de O Globo, 4 dez° 2015

Chamada de O Globo, 4 dez° 2015 às 9h30

4 de dezembro de 2015, 9h30

O Diário do Poder afirma que dona Dilma dispõe de 124 votos a seu favor.

O jornal O Globo afirma que dona Dilma dispõe de 258 votos a seu favor.

Que significa essa diferença? Significa que ninguém sabe de nada. Quem disser que sabe estará mentindo.

A resposta só virá no dia da votação depois de o último parlamentar ter declarado o voto. Antes disso, tudo não passa de especulação.

Melhor que novela

José Horta Manzano

Hoje eu ia contar algumas particularidades curiosas do exército suíço. Atropelado pelos acontecimentos pátrios, deixo para uma próxima vez.

Provando que realmente faz jus ao mais alto cargo da Câmara, senhor Cunha mostrou empatia com o anseio de 90% dos brasileiros e, magnânimo, abriu as portas para o processo de destituição de dona Dilma. Foi gesto louvável de desprendimento.

Aliás, fez-me lembrar o adágio «alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo». Ao dar-se conta de que estava cercado por todos os lados – ilhado em seu universo de mentiras desmascaradas, abandonado pouco a pouco por gente com quem imaginava poder contar, ameaçado de perder o cargo, o mandato e a liberdade, com fortuna confiscada –, o deputado jogou a última ficha.

Dilma 15Doravante, sua única (tênue) esperança é ver a tempestade se transformar em forte furacão, daqueles que carregam tudo. Se não vier o tufão, nosso rancoroso presidente da Câmara tem pouca esperança de sair incólume.

Os mais antigos hão de se lembrar da novela Vale Tudo, exibida 25 anos atrás. O Brasil parou durante os capítulos finais, quando todos queriam saber quem tinha matado Odete Reutemann(*). Curiosamente, o intuito do autor da obra era abrir o debate sobre um problema de sociedade. «Até que ponto vale ser honesto no Brasil?» – era a questão de fundo. A resposta clara não veio até hoje.

Como o distinto leitor há de imaginar, a notícia do iminente processo de destituição da presidente repercutiu na mídia mundial. Dou aqui uma coletânea.

(*) Talvez para evitar erros de pronúncia, os responsáveis decidiram grafar Roitman no lugar do original Reutemann.

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Chamada de The Guardian, Inglaterra

Chamada de The Guardian, Inglaterra

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Chamada de Le Figaro, França

Chamada de Le Figaro, França

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Chamada de Der Spiegel, Alemanha

Chamada de Der Spiegel, Alemanha

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Chamada de La Nación, Argentina

Chamada de La Nación, Argentina

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Chamada de Digi24, Romênia

Chamada de Digi24, Romênia

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Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

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Chamada de Sveriges Radio, Suécia

Chamada de Sveriges Radio, Suécia

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Chamada de De Volkskrant, Holanda

Chamada de De Volkskrant, Holanda

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Chamada de El País, Espanha

Chamada de El País, Espanha

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Chamada de TVN24, Polônia

Chamada de TVN24, Polônia

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Chamada de Corriere della Sera, Itália

Chamada de Corriere della Sera, Itália

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Chamada de Observador, Portugal

Chamada de Observador, Portugal

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Lixo eletrônico

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 2 dez° 2015

Chamada do Estadão, 2 dez° 2015

Fico na dúvida quanto às intenções do autor da chamada. Pode ter sido sensacionalismo, pode ter sido má-fé. No fundo, no fundo, opto pela preguiça. Bastava fazer as contas. E olhe que não é difícil. Veja só:

O Brasil abriga 35% da população da América Latina.

Os brasileiros produzem 36% do lixo eletrônico.

A lógica foi respeitada.

Palestras do Lula

Cláudio Humberto (*)

O ex-presidente Lula se enrola para explicar como faturou R$ 52,3 milhões, inclusive com sua empresa de palestras – a Lils (suas iniciais) – entre 2011 e 2014.

Lula caricatura 2Lula jurou que sua receita vem de “palestras”, que, curiosamente, não são encontradas nas redes sociais. Tampouco no YouTube, onde palestrantes profissionais divulgam seu trabalho. O Instituto Lula se recusa a informar a lista de palestras do ex-presidente.

Se Lula tiver trabalhado os 1460 dias de 2011 a 2014, os R$ 52,3 milhões que ganhou com palestras representam R$ 35,8 mil por dia(!).

A movimentação financeira milionária nas contas de Lula foi detectada pelo Coaf, órgão de inteligência do Ministério da Fazenda.

A mídia segue Lula diariamente, mas só há registro de poucas palestras em grandes empresas, tipo LG, Santander, Itaipava e Caixa.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Cacto de Natal

José Horta Manzano

Flor-de-maio

Flor-de-maio (cacto-de-Natal)

Dezembro chegou. No Hemisfério Norte, os dias escurecem e vão-se tornando mais e mais curtos. Apesar do aquecimento que o planeta tem conhecido estes últimos trinta anos, os invernos continuam frios.

A época convida grandes e pequenos a passar mais tempo dentro de casa. Estreitamento de relações, encontros familiares, conversas ao pé do fogo são atividades que combinam com este tempo.

Flor-de-maio

Flor-de-maio (cacto-de-Natal)

Naturalmente, come-se e bebe-se também. Determinadas especialidades culinárias, que variam de um país a outro, são preparadas unicamente no período das festas de fim de ano.

As casas se enfeitam por dentro e por fora. A falta de luz natural é suprida pela profusa iluminação artificial. Guirlandas de lampadazinhas são instaladas em cada vilarejo. Dentro de casa, todos fazem questão de montar a árvore de Natal.

A natureza está em repouso: árvores não têm folhas e nenhuma flor se abre. A paisagem tem sua formosura, mas é beleza meio triste. Para contrabalançar o espetáculo acabrunhado, cada um faz questão de trazer um pouco de cor natural pra dentro de casa.

Bico-de-papagaio

Bico-de-papagaio (estrela-de-Natal)

Chegou a hora das flores de interior, cultivadas em vaso. As preferidas são espécies exóticas que costumam florir justamente nesta época de pouca luz. São plantas que, deixadas ao ar livre, não sobreviveriam ao inverno europeu. Entre as preferidas, estão a estrela-de-Natal (Euphorbia pulcherrima) e o cacto-de-Natal (Schlumbergera truncata).

Flor-de-maio

Flor-de-maio (cacto-de-Natal)

A estrela-de-Natal (poinsétia ou bico-de-papagaio) é originária da América Central. Em dezembro, todo supermercado que se preze expõe, logo na entrada, grande quantidade de vasos com essa flor.

O cacto-de-Natal é originário do Brasil. Conforme a variedade, as flores têm cor diferente. Em nosso país, a planta é conhecida por diversos nomes: flor-de-maio (justamente porque floresce no outono), mas também flor-de-seda, rainha-da-noite, margarida-de-árvore.

Flor-de-maio

Flor-de-maio (cacto-de-Natal)

São flores que duram o tempo das festas. Com a chegada do ano-novo, voltam à terra pra servir de adubo. E a vida continua.