Menu dos guardas

José Horta Manzano

Tantos problemas internos temos que acabamos deixando em segundo plano o que ocorre além-fronteiras. Nem que seja de vez em quando, vale a pena dar uma olhada em torno pra ver o que anda acontecendo. Este período natalino, em que o tempo parece suspenso, é boa ocasião.

Já faz anos que o governo da província espanhola autônoma da Catalunha vem soprando as brasas do independentismo. Historicamente, a região sempre teve um terço da população permeável a ideias separatistas. A insistência com que o assunto foi martelado pelos sucessivos governos da região nos últimos quinze anos fez o percentual subir. Grosso modo, de cada dois catalães, um vê hoje na independência da província e na instauração de uma república a solução para todos os males.

Menu dos policiais

Quem assiste ao espetáculo de longe, sem estar contaminado por paixões nacionalistas, sabe não é bem assim que a coisa funciona. A ligação da Catalunha com o resto da Espanha é secular e visceral. São gêmeos xifópagos. Se um espirrar, o outro apanhará pneumonia. Os catalães separatistas não estão conseguindo se dar conta do caráter de mútua dependência entre as duas partes. Uma vez separadas, a Espanha se ressentirá e a Catalunha definhará. A união é vital para ambas.

Assim mesmo, o governo provincial teimou em convocar um plebiscito para 1° de outubro passado para os cidadãos se pronunciarem sobre a independência. Pela Constituição, a consulta era ilegal. Madrid enviou policiais da Guarda Civil Nacional para impedir que a lei fosse violada.

Dado que não há alojamento para os guardas, eles foram hospedados num navio militar ancorado até hoje no porto de Barcelona. Como a temperatura política local não baixou, faz três meses que continuam dormindo no barco. Do lado político, meia dúzia de parlamentares que organizaram o plebiscito ilegal foram presos e estão em Madrid, atrás das grades, à espera de julgamento.

Profiteroles à la crème

Na véspera de Natal, tanto para policiais quanto para prisioneiros, o jantar costuma sair do habitual. Os policiais hospedados no navio receberam macarrão com mariscos, croquetes, bacalhau à milanesa e pãezinhos. De sobremesa, turrones e polvorones, doces típicos da estação.

Por seu lado, os políticos presos em Madrid foram brindados com uma “salada de Natal” composta de aspargos, iscas de siri, milho e atum. Como prato de resistência, filé com molho e batata frita. E “profiteroles à la crème” de sobremesa. É menu pra nenhum gourmet botar defeito.

Foi a conta. Os guardas, alguns dos quais estão há três meses sem visitar a família, se irritaram. Alguns compartilharam sua zanga com o distinto público: nas redes sociais, postaram fotos da refeição e comentários aborrecidos.

Em nosso país, que eu saiba, nada foi publicado sobre a mesa de Natal de policiais e de encarcerados. Mas algo me diz que não há de ter sido muito diferente do que ocorreu na Espanha.

Sem vinho, nada de almoço

José Horta Manzano

A tolerância ‒ que alguns, equivocadamente, confundem com preconceito ‒ é um dos pilares do processo civilizatório. Tolerar a diferença alheia não quer dizer aderir a ela.

Significa esforçar-se por conviver com ela. Exigir que todos ajam e se comportem como nos agrada é dar mostra de intolerância no mais alto grau. É atitude que polui o relacionamento entre as gentes. Guerras deflagradas por motivos de intolerância religiosa já mataram milhões.

Itália: estátuas ocultadas

Itália: estátuas ocultadas

O Irã, país que até o mês passado estava banido do mundo civilizado, passou por uma lavagem a jato ‒ sem trocadilhos. De supetão, os pecados foram perdoados e o país se viu reintegrado no convívio planetário. Uma ressureição instantânea.

No entanto, não convém acreditar em milagres. Nada se transforma de golpe. Assim como o grão de milho, depois de virar pipoca, guarda alma de cereal, os dirigentes da república islâmica não perderam o inconfundível viés autoritário, despótico até.

Hassan Rohani, líder religioso, é o sucessor de Ahmadinedjad na presidência do Irã. Na esteira da anulação das sanções econômicas que pesavam sobre seu país, visitou Itália e França, esta semana, para reatar relações comerciais.

Dando prova de que tolerância é conceito desconhecido na alta cúpula de Teerã, o medalhão exigiu que, nas refeições, o cardápio fosse halal(*) e que bebidas alcoólicas não fossem postas à mesa.

França & Irã: reunião de trabalho

França & Irã: reunião de trabalho

A Itália dobrou-se à imposição dos visitantes. O tradicional copo de vinho foi substituído por água. Mais que isso, esculturas do Capitólio romano mostrando corpos desnudados foram ocultadas.

Já na França, menos disposta a vergar-se, o banquete programado foi simplesmente cancelado. Sem vinho, nada de refeição. O cerimonial francês julgou a exigência inadmissível. A delegação iraniana almoçou separada dos demais.

François Hollande 8A meu ver, a decisão de Paris foi acertada. Note-se, aliás, que as normas ocidentais de etiqueta impõem que homens se apresentem em reuniões e à mesa com a cabeça descoberta. Assim como o turbante do visitante foi tolerado, cabia ao dignitário aceitar que os franceses acompanhassem a refeição com a bebida à qual estão acostumados. Cada um se serviria de vinho ou de água, conforme lhe apetecesse.

É um toma lá dá cá necessário. A tolerância ensina que cada um deve dar um passo em direção ao outro. Embora tenha progredido, a cúpula iraniana mostra que ainda não chegou lá.

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(*) Diz-se refeição halal daquela em que as carnes provêm de animais abatidos segundo as normas da charia, o conjunto de preceitos maometanos.