Hino espanhol

José Horta Manzano

Você sabia?

Antes do pontapé inicial de jogos de futebol internacionais ‒ amistosos ou de campeonato ‒ é costume tocar o hino de cada país. O momento é solene, com jogadores e árbitros perfilados. Alguns atletas cantam a música, outros não. Cada um terá suas razões. Talvez o distinto leitor já tenha reparado que os jogadores da Espanha nunca cantam o hino. Nenhum deles. Jamais. Por que será?

A resposta é simples: porque o hino espanhol não tem letra. O caso é curioso. Esse clube dos sem-letra conta somente com dois membros ‒ o outro é a República de São Marino. Com um senão: o hino são-marinense tem palavras, só que elas não são oficiais. O da Espanha não tem letra mesmo.

A história começou 250 anos atrás. A música, de autoria de um certo Manuel Espinosa, começou como marcha militar, o que explica que a letra fosse desnecessária. Com o passar do tempo, firmou-se o hábito de tocar o hino em ocasiões oficiais. Dado que, nesses momentos, o rei costumava estar presente, a marcha passou a ser conhecida como Marcha Real ou Marcha de Honra.

Desde o século 19 tem havido tentativas de dar letra ao hino. A primeira, de 1843, deu em nada por não ter sido cantada por ninguém. Uma segunda tentativa foi feita em 1909. Embora tenham sido cantadas em atos oficiais, essas palavras nunca obtiveram apoio popular e acabaram caindo no esquecimento.

Durante a ditadura franquista houve mais uma tentativa, assim como outra em 2007. Nenhuma delas vingou. A mais recente ocorreu dois dias atrás. Numa apresentação no madrilenho Teatro de la Zarzuela, a cantora Marta Sánchez comemorava trinta anos de carreira. De repente, sem aviso prévio, pôs-se a cantar a Marcha Real com letra de sua autoria. A interpretação, acompanhada unicamente por um piano, surpreendeu o público. Aplausos choveram.

Dado que a moça é bastante conhecida, a façanha ecoou nos quatro cantos do país. Até o primeiro-ministro se manifestou por meio de um tuíte dizendo que era «muy buena iniciativa». Líderes partidários e gente conhecida também se mostraram receptivos à ousadia da artista.

A letra tem acentos lírico-patriotas. Saúda a terra «que viu nascer meu coração». Lembra as cores da bandeira e termina pedindo à pátria que «se um dia eu não puder voltar, guarda um cantinho para eu poder descansar». Quem sabe, desta vez vai.

No fundo, o problema espanhol vem do fato de diversas línguas serem faladas no território nacional. Aliás, todas elas têm estatuto de língua co-oficial, cada uma no respectivo território. Uma letra unicamente em castelhano daria um tapa no orgulho dos falantes dessas línguas.

Talvez devessem fazer como fez a Suíça. O hino helvético tem quatro letras oficiais, uma para cada língua nacional. Quando é executado, cada um canta sua letra, e tudo bem. Ninguém se sente rebaixado.

Mudança de geração

José Horta Manzano

A eleição francesa, cujo desfecho se deu ontem com a eleição em segundo turno de novo presidente, representou um marco importante na caminhada da quinta potência econômica do mundo (e segunda da União Europeia). Como numa corrida de revezamento, uma geração de políticos precocemente envelhecida passou adiante o bastão. Vem aí a juventude deixando a velha guarda a comer poeira.

Emmanuel Macron (1977-)

Só pra ter ideia da inusitada juventude de Monsieur Emmanuel Macron, dê uma olhada nas seguintes considerações:

•   Com 39 anos e 4 meses, Macron é o mais jovem chefe de Estado francês desde o advento da República, no século XIX. Antes dele, o detentor do recorde era Louis-Napoléon Bonaparte, eleito em 1848 aos 40 anos de idade. Valéry Giscard d’Estaing, considerado então extremamente jovem, tinha-se tornado presidente em 1974 aos 48 anos.

•   Monsieur Macron é, de longe, o líder mais jovem do G20. Até Monsieur Trudeau, o sorridente primeiro-ministro do Canadá, é seis anos mais velho que ele.

•   Na União Europeia, um único dirigente é mais jovem que ele. Trata-se do primeiro-ministro da pequenina Estônia, Jüri Ratas, atualmente com 38 anos. A idade média dos dirigentes europeus é de 54 anos. Frau Merkel e Ms. May são já sexagenárias.

•   No mundo, somente quatro chefes de Estado são mais jovens que Monsieur Macron. A campeã é Vanessa D’Ambrosio, uma das cabeças da regência bicéfala de San Marino, microrrepública independente encravada na Itália. Signorina D’Ambrosio acaba de completar 29 anos.

•   Há outros três chefes de Estado mais jovens que Macron, embora não tenham sido eleitos pelo povo mas designados por hereditariedade. O mais jovem deles é Kim Jong-Un (34 anos), o belicoso e imprevisível ditador da Coreia do Norte. Vem em seguida Tamim ben Hamad Al Thani (36 anos), emir do Catar, que sucedeu ao pai. Por fim, lembremos Jigme Khesar Nambyel Wangchuck (37 anos), rei do Butão, pequeno país encravado entre Índia e China.

Paul Doumer (1857-1932)

Como curiosidade, note-se que Paul Doumer foi o presidente francês eleito em idade mais avançada. Chegou ao posto máximo em 1931, quando já tinha 74 anos. Não ficou lá muito tempo. Um ano mais tarde, seria assassinado.

Tomara que a presidência de Monsieur Macron seja menos agitada. Que ele tenha tempo de fazer uma França melhor, o que só pode ser benéfico para a Europa e para o planeta.