Rio Tinto

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando a gente acha que já viu de tudo, é aí que aparece coisa assombrosa. Olhe, pode parecer, mas hoje não estou falando do Bolsonaro e do espantoso desfile de desajustados que lhe fazem companhia. O capitão é sobressalto diário garantido, mas há coisas que, embora menos nocivas, também surpreendem.

Você já viu um rio de água vermelha? Não estou me referindo a um curso d’água que um dia tenha ficado vermelho por algumas horas em consequência de um acidente de caminhão-tanque(1). Não. Falo de um rio de águas permenentemente vermelhas. Que não mudam de cor há séculos.

Não existe? Não acredita? Pois sim, esse rio existe. Tem 100km de comprimento e fica no sul da Espanha, na província de Huelva. Nasce nas encostas da Sierra Morena e desemboca no Golfo de Cádiz. Não por acaso se chama Rio Tinto. Tinto, em espanhol, quer dizer vermelho. Essa, por sinal, é a razão de chamarmos o vinho vermelho de vinho tinto.

A cor de suas águas provém de uma mina polivalente, conhecida e explorada faz milênios. É rica em cobre e prata. Tem até um pouco de ouro. Essa profusão de metais confere à água um teor muito ácido (pH 2). A cor avermelhada se deve principalmente ao ferro dissolvido.

Não se tem certeza se o tom vermelho escuro foi sempre o mesmo, ou se foi agravado nos últimos séculos, pela exploração mineira. Seja como for, é uma curiosidade imperdível. Se um dia, passada a epidemia, o distinto leitor fizer uma viagem pela região, não deixe de tirar uma selfie(2).

(1) Em Portugal, usa-se mais “caminhão-pipa” ou “caminhão-cisterna”.

(2) O Volp tanto admite “um selfie” quanto “uma selfie”. Escolha. É acertar ou acertar.

As três vacas

José Horta Manzano

Você sabia?

O tratado mais antigo da Europa foi firmado em 1375. Continua em vigor há quase 650 anos. Na época em que foi assinado, os países ainda não existiam da forma como os conhecemos; os Estados não tinham meios de exercer soberania sobre todo o território. Muitas das atribuições de um governo central ficavam por conta de pequenas autoridades locais.

Os Montes Pireneus marcam a fronteira entre França e Espanha. Por ali, em altitudes acima dos mil metros, a água escasseia e as nascentes são raras. Desde que domesticou bovinos e caprinos, o homem tem absoluta necessidade de água para matar a sede dos animais que são levados a pastar. Dois mil anos atrás, já se tem notícia de rusgas e conflitos motivados pelo acesso à água.

Em certo trecho da cadeia de montanhas, de um lado fica o Béarn (região francesa) e do outro a Navarra (região espanhola). Entre os dois, aqueles montes pontudos. Lindos, mas semiáridos. No verão, pastores dos dois lados levam o rebanho a pastar a erva abundante lá no alto. Na região, só há uma nascente – pomo de discórdia que, desde sempre, azucrinou a existência de todos.

Junto ao marco fronteiriço: três prefeitos franceses (de faixa) e três espanhóis (de sombrero preto).

No começo dos anos 1370, numa briga feia pela água, um pastor espanhol matou um pastor francês. Seguiram-se anos de violência generalizada, vinganças, emboscadas, assassinatos. O horror chegou a vitimar 300 pessoas de cada lado da fronteira, uma hecatombe regional. Numa batalha importante, os franceses perderam o chefe e acabaram entregando os pontos e debandando. Os bispos da região decidiram que era hora de pôr um fim à barbárie.

Costuraram o tratado popularmente conhecido como Tributo das Três Vacas. Ficou combinado que, todos os anos à mesma época, os pastores franceses entregariam aos espanhóis três vacas de 2 anos de idade, em perfeita saúde. Passaram os séculos, houve revoluções, alianças se fizeram e se desfizeram, houve guerras mundiais, ditaduras viraram pó, e… o Tributo das Três Vacas continua de pé. Aliás, foi oficialmente reconhecido e confirmado em meados do século 19 pelo Estado Francês e pela Coroa Espanhola.

Religiosamente, no dia 13 de julho de cada ano, três prefeitos de vilarejos franceses e três do lado espanhol se reúnem junto ao marco fronteiriço n° 262 para a cerimônia de entrega das três vacas. Foi-se o tempo em que os pastores da região se matavam por uma nascente; mas a tradição ficou, como uma página da história local que os habitantes insistem em não virar. O Tributo das Três Vacas está inscrito no Inventário do Patromônio Cultural Imaterial da França.

Doutor Palocci e o imposto a pagar

José Horta Manzano

Muita gente acredita que, na Suíça, todos os habitantes são podres de ricos, têm contas secretas, tomam banho em banheira repleta de moedas de ouro ‒ igualzinho a Tio Patinhas. A realidade é um bocado diferente.

Como por toda parte, há milionários, há abastados, há classe média, há gente de parcos recursos e há também quem passe necessidade. Calcula-se que, em cada cinco habitantes, um esteja em situação financeira precária. Na esmagadora maioria dos casos, trata-se de pessoas idosas, que vivem sozinhas e sobrevivem com pensão de velhice.

O grau de civilização de um povo é visível especialmente na maneira como são tratados os indivíduos mais frágeis. Com o desaparecimento das famílias numerosas, em que os membros se entreajudavam, o Estado tomou a si, gradualmente, a tarefa de assistir os necessitados. Não se admite que nenhum cidadão tenha de viver debaixo de uma ponte nem mendigar para conseguir alimento.

Mas há muita gente que, por ter levado tombos durante a vida ativa, chega à velhice sem poupança e sem recursos. Muitos têm unicamente uma pequena pensão, insuficiente para pagar sequer o aluguel. Como é que fica? Como pagar as despesas básicas?

Quem se encontra nessa situação pede socorro à Assistência Social. Cada caso será estudado individualmente. O solicitante será aconselhado a cortar gastos supérfluos. Se for o caso, as autoridades o alojarão num apartamento de propriedade do Estado, alugado a preço abaixo do valor de mercado.

Mas moradia não é tudo. O cidadão terá de enfrentar outras despesas. O acerto é personalizado, diferente a cada caso. A Assistência Social passa a gerir a vida financeira do solicitante. Em princípio, sua pensão e outros ganhos eventuais irão inteiramente para o Estado. Por seu lado, a autoridade se encarregará de pagar diretamente as contas do indivíduo ‒ aluguel, condomínio, seguros de saúde e de incêndio, conta de eletricidade, água e gás. O cidadão receberá apenas o suficiente para comprar alimentos, acrescido de pequena quantia de «argent de poche» ‒ dinheiro de bolso, para gastos pessoais miúdos.

A base do sistema é não dar dinheiro diretamente ao necessitado, mas encarregar-se do pagamento de suas contas básicas. Com isso, tem-se a certeza de que o cidadão não ficará abandonado e que o dinheiro público não será desbaratado.

Fiquei sabendo que doutor Palocci solicitou a doutor Moro a liberação de 1,2 milhão de reais «para pagamento de impostos». O juiz recusou o pedido. Data venia, acho que o magistrado bobeou.

Era só seguir a prática suíça. Nada de soltar dinheiro na mão do encarcerado, que não faz sentido. O juiz deveria ter proposto que o prisioneiro lhe apresentasse a conta. Em seguida, faria liberar o montante necessário e determinaria que a fatura fosse paga.

Com isso, teria matado dois coelhos. Por um lado, teria ressarcido a Receita de um montante que lhe era devido. Por outro, teria desencorajado outros enjaulados a solicitarem desbloqueio de somas para os mais fantasiosos fins, como vem acontecendo.

Fica para a próxima vez.

Novo aeroporto ― mais um!

José Horta Manzano

Dois dias atrás, escrevi sobre o projeto ― já bem avançado ― de implantar um aeroporto em Caieiras, em pleno cinturão verde da cidade de São Paulo. A ideia me pareceu tão fora de propósito, que deixei aos distintos leitores a escolha do adjetivo que melhor lhes conviesse: absurda, contraditória, incoerente, insensata, disparatada.

Pois hoje fiquei sabendo que o desatino pegou nossas autoridades de vez. O espírito predatório que animava os desbravadores de 300 anos atrás permanece firme e forte. O conforto e a conveniência dos endinheirados que se podem permitir voar em jatinhos particulares passa por cima da preservação do meio ambiente. Frise-se que os jatinhos são privados, enquanto o meio ambiente é de todos os seres vivos. A distorção é enorme.

Aqueles cujos haveres lhes permitem encher piscinas e regar gramados com água mineral importada estão pouco ligando para o aperto por que vão passar os que dependem dos mananciais para se abastecer. Nosso infeliz país ― que foi um dia o país do futuro ― descamba indecentemente para se tornar um país sem passado. E privado de futuro.

Parelheiros: cinturão verde da grande São Paulo Crédito: Periferia em Movimento

Parelheiros: cinturão verde da grande São Paulo
Crédito: Periferia em Movimento

Artigo assinado por Thiago Borges, pescado no blogue Periferia em Movimento, nos informa sobre o projeto de construção de um aeroporto privado em Parelheiros, no mesmo cinturão verde que rodeia a capital paulista. A região responde por 25% do abastecimento de água da megalópole.

O parágrafo que transcrevo abaixo é edificante.

Interligne vertical 14«O aeródromo (…) tem como sócios os empresários André Skaf e Fernando Augusto Botelho. O primeiro é filho de Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), enquanto o segundo é herdeiro da construtora Camargo Correa.»

É de arrepiar. E que ninguém duvide: o aeroporto tem fortes chances de vir a ser construído. Em nome do «bem público», naturalmente. Se alguém não estiver contente, que se mude para Marrakech. Ou para Ushuaia, que é mais pertinho.

Vale a pena dar uma olhada no texto original. São só 350 palavras. Clique aqui.