Burocracia intimidante

José Horta Manzano

Um dia, já faz um bocado de anos, resolvi me estabelecer por conta própria, aqui na Suíça. Conhecedor da via crucis que a criação de uma empresa representa no Brasil, procurei me informar sobre o caminho a seguir.

Telefonei à autoridade competente e contei o que pretendia fazer.

Meu interlocutor me perguntou:
«É uma firma individual, só no seu nome?».

E eu:
«Sim, sou só eu».

A resposta veio rápida:
«Nada!».

Não entendi. Insisti:
«Como assim, nada? Não tenho de fazer nada?».

E o funcionário repetiu:
«Nada, não, senhor. Comece a exercer sua atividade e, chegando ao final do ano, inclua seus ganhos na sua declaração de renda».

Acostumado com a burocracia massacrante que atormenta todo pequeno empresário brasileiro, levei algum tempo para me dar plenamente conta. Acabei descobrindo que era verdade mesmo. Não há formalidade nenhuma para quem quiser montar uma pequena empresa individual na Suíça. Que comece a trabalhar. Depois, veremos.

Contador

É evidente que isso vale para uma microempresa. Quisesse eu fundar uma sociedade anônima, a conversa seria outra. Uma pequena empresa suíça cujo faturamento anual se situe abaixo de 75 mil francos (180 mil reais) não estará nem sujeita ao recolhimento do IVA (imposto sobre valor agregado).

Chegando ao final do primeiro exercício, o microempresário declarará quanto vendeu, quanto gastou e quanto lhe sobrou. A partir daí, algumas pequenas taxas municipais lhe serão cobradas. Umas são baseadas no total das vendas, outras são calculadas sobre o aluguel pago. Afora isso, o lucro será adicionado a outros ganhos eventuais do microempresário. E o total será inscrito na declaração anual que cada cidadão tem de apresentar.

À medida que a pequena empresa for crescendo, é provável que contrate funcionários. Terá então de seguir as normas trabalhistas, que por aqui são bastante leves. Deverá recolher uma porcentagem da massa salarial anual e repassá-la ao equivalente helvético do INSS.

Quanto maior se for tornando a empresa, mais complexo se tornará o tratamento fiscal e trabalhista. É natural. Mas aí já são outros quinhentos. Parte-se do princípio que uma firma de maior porte tem melhores condições de gerir suas contas. Não se podem exigir os mesmos malabarismos do pequeno autônomo que se lança por conta própria. Ninguém é obrigado a recorrer a contador nem a despachante. Quem souber, cuida de sua contabilidade sozinho. Despachante é função desconhecida, que nem tradução tem.

Andei lendo o escrito de Adriane Silveira, publicado no Blog do Empreendedor, alojado no Estadão. Fiquei abismado. É difícil entender por que, raios, se criam tantos obstáculos para dificultar os que têm ânimo, energia e um pequeno capital para se lançar. A impressão que fica é de que, no Brasil, todo cidadão é suspeito de desonestidade até que prove o contrário.

Quem é que ganha com isso?

O candidato a empresário não será. Muita gente boa deve ter desistido no meio do caminho. Garra de empreendedor não rima necessariamente com fôlego para enfrentar burocracia pesada.

O País também perde. O incrível emaranhado de exigências inibe a microempresa nascente. E pensar que ela poderia até evoluir, criar empregos, contribuir para a dinâmica econômica. É desolador.

Por que esses entraves? Se alguém tiver a resposta, que me explique. Sinceramente, não consigo entender. A impressão que fica é a de que as autoridades fazem o que podem para inibir a livre iniciativa.

Quem planta vento, colhe tempestade. Essa multiplicação de entraves tem efeito perverso: gera miniempreendedores informais, que agirão fora da legalidade. E que, naturalmente, escaparão ao imposto.

Parece-me que as autoridades fiscais brasileiras estão observando o mundo pelo lado errado do binóculo. Estão enxergando tudo muito pequeno. Que deixem a cada um a liberdade de criar, de empreender. No meu entender, autoridades estão aí para fiscalizar a posteriori, não para coibir a priori.

.:oOo:.

Nota: Na Suíça, salvo no caso de sociedades anônimas, o balanço anual que se apresenta ao fisco não precisa ser assinado por um contador. Há normas para demonstrar as contas. Desde que elas sejam respeitadas, o responsável pode prescindir de um contador. Ele mesmo assinará o balanço e, se for o caso, responderá pessoalmente por eventuais irregularidades.

Vexame anunciado

José Horta Manzano

Quanto mais importante for a pessoa, maior será o respeito com que a tratarão. Uma pessoa importante é vista como modelo. É às vezes até seguida como guru.

Como se costuma dizer, não existe almoço grátis: tudo tem sua contrapartida. O figurão importante tem de retribuir a deferência com que é tratado. Tem de dar o bom exemplo, mostrar o caminho certo a seus seguidores. Desgraçadamente, não é sempre assim que acontece.

Estádio Maracanã

Estádio Maracanã

A presidência da República é, sem sombra de dúvida, um cargo elevado. Foi ocupado, até recentemente, por um personagem peculiar. Esperto, soube explorar ao máximo o espírito paternalista que rege nossos costumes. Distribuiu mimos, presentes e agrados aos que o rodeavam. Se deu bons exemplos e deixou um rastro de conduta ética… a História não registrou.

Em contrapartida de sua prodigalidade para com os mais chegados, pôde sempre contar com uma corte fiel, formada por gente que, ao sair da sala do chefe, suponho chegasse a caminhar para trás, a fim de nunca dar as costas ao pater familias. Viveu seus anos de glória cercado por uma corte de áulicos, todos de olho firme nas vantagens pessoais que pudessem auferir da proximidade com o rei.

A palavra de ordem era nunca contrariá-lo. Por mais asneiras que ele dissesse ou cometesse, era importante sempre concordar, elogiar e aplaudir. Assim foi quando, em sua ingenuidade, o antigo presidente fez o que pôde ― e até o que não devia ― para conseguir que o Brasil fosse designado como sede da Copa do Mundo de futebol de 2014. Deve ter-lhe soado como a coisa mais importante que poderia ocorrer em nosso País.

Recuso-me a acreditar que, entre os membros da corte, não houvesse alguns mais instruídos e mais realistas. Esses, justamente, devem ter-se dado conta de que imensos problemas nos esperavam. Hão de ter entendido que o empreendimento esbanjaria o dinheiro de um povo que já não possui muito. Podem até, sabe-se lá, ter percebido que aqueles bilhões todos poderiam ser mais bem empregados em aperfeiçoar nossa decrépita infraestrutura. Devem ter sentido que aquela dinheirama seria mais rentável se investida na Instrução Pública. Mas assim mesmo, ai!, aplaudiram a genial ideia do guia. Como é que ninguém tinha pensado nisso antes?

Só os tolos acreditaram que a organização de tal evento se faria sem trapalhadas, trambiques, erros e contratempos. Só por grande ignorância ou pesada má-fé poderia alguém acreditar que as coisas iam funcionar no Brasil da mesma maneira que costumam funcionar em país organizado. Sabemos que não é assim.

Um exemplo? Em 2011, um ano antes do início dos Jogos Olímpicos de 2012, Londres já estava dando os retoques finais à estrutura que ia receber o evento. Tudo estava praticamente pronto.

Estádio Corinthians

Estádio Corinthians

Em 2013, a um ano da Copa do Mundo e às portas da Copa das Confederações, a triste realidade tupiniquim vai-se encancarando. Estádios não ficarão prontos. Linhas de transporte expresso não foram construídas. A infraestrutura aeroportuária continua na mesma indigência dos tempos do “relaxa e goza”.

E pensar que esse investimento poderia ter sido destinado a elevar o nível do ensino público do País, melhor maneira de despachar para a lata de lixo da História o vexaminoso sistema de quotas.

Enquanto sonhamos com dias melhores, vamo-nos preparando para o fiasco. Aos olhos do mundo, passaremos do estatuto de republiqueta de bananas direto para o de ex-país emergente.

O Estadão nos dá conta do desastre que se prepara. Aqui.

A Folha de São Paulo vai pelo mesmo caminho. Aqui.

Malfeitos estrangeiros

José Horta Manzano

Às vezes a gente imagina que a corrupção é um mal exclusivamente brasileiro, que absurdos só acontecem em terra tupiniquim, que a malandragem é especificidade nacional.

É apenas meia verdade. Se é fato notório que corrupção, absurdos e malandragem correm soltos em nossas terras e fazem parte da paisagem, não é verdade que o Brasil seja o único lugar do planeta onde essas práticas são corriqueiras.Bola futebol

Sabemos todos que a próxima Copa do Mundo terá lugar em nosso País. Sabemos todos que irregularidades ― para usar um termo eufemístico ― têm ocorrido e que muitas mais ocorrerão nos meses que nos separam do evento.

É razoável imaginar que as edições do campeonato mundial de futebol hospedadas pela Alemanha, pela Coreia, pelo Japão não tenham sido manchadas por trambiques. Se os houve, foram menos escancarados.

Já de uns tempos para cá, parece que a Fifa resolveu tirar a máscara. Não bastasse a escolha da África do Sul e do Brasil, a Rússia está escalada para abrigar a edição seguinte.

O imenso país, que se estende do Báltico ao Pacífico, tem espaço, tem população, tem tradição futebolística. Não é por esse lado que se poderá criticar a escolha. O que atrapalha um pouco o quadro é o fato de a Rússia nunca ter conhecido um governo democrático.

Desde os tempos de Ivan, o Terrível, o território tem sido controlado com mão de ferro. De monarquia feroz, passaram a ditadura comunista. Seguiu-se um governo autoritário que ainda subsiste. A candidatura da Rússia não foi, portanto, apresentada por legítimos representantes do povo, mas pela nomenklatura. É verdade, não se usa mais esse termo, mas a realidade não mudou muito por aquelas bandas. As castas dirigentes ainda hão de continuar sobrevoando o populacho por um bom tempo.

Não é absurdo imaginar que algum mimo tenha sido oferecido aos integrantes do comitê que escolheu a Rússia. Dado que não é costume assinar recibo quando se recebem agrados desse jaez, ficaremos sem saber.
Camelo

Mas o que vem depois é bem pior. Os dirigentes da Fifa decidiram que a edição seguinte, a de 2022, vai-se realizar no Catar. O nome se escreve meio esquisito. Quem preferir, que use Qatar ou até Katar, que fica mais exótico.

Poucos já visitaram esse país, mas os meios de informação de que dispomos atualmente nos deixam a par de muita coisa. Não precisa ser nenhum especialista para saber que o Catar não tem tradição futebolística. Uma rápida pesquisa nos ensina que a superfície do país é de 11 mil km2, a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Da população total de menos de dois milhões de almas, metade está concentrada na capital. As duas maiores cidades abrigam 80% dos habitantes.

Mas há pior ainda. O clima é desértico, sem árvores, sem vegetação. Para completar, a média das temperaturas diurnas em junho/julho, justamente quando a Copa será disputada, é de amenos 41°, 42°. Atenção: falo de média. Um dia mais abafado pode empurrar o mercúrio até os 48° ou 50°. Esses valores são, naturalmente, medidos à sombra. Mas nenhum visitante será obrigado a ficar à sombra.

Trinta e duas equipes participarão. Jogarão 64 partidas. Como é que vão se arranjar com as sedes? Todos os jogos no mesmo estádio? Ou novas arenas serão edificadas no deserto? Cá entre nós, nunca o termo «arena» terá sido tão bem utilizado. Em italiano e em espanhol, significa areia.

Dado que é impossível que esses detalhes tenham escapado aos nobres dirigentes do futebol mundial, alguma razão oculta tem de estar por detrás da designação desse micropaís. O fato é que a Fifa, inflexível, mantém sua escolha.

Como diziam os mineiros de antigamente, «debaixo do angu tem carne».

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Nota: Pode-se entrever um pedacinho da carne escondida debaixo do angu por este artigo. Decididamente, está instituído o programa Bolsa-futebol.

Estamos quase no Primeiro Mundo

José Horta Manzano

Dois meses atrás, o jornal parisiense Mediapart publicou uma revelação capaz de causar estrago no governo francês. Após meses de investigação, teve acesso, não se sabe bem como, à gravação de uma conversa telefônica. Um dos interlocutores era o Ministre du Budget ― o número um do Ministério do Orçamento. No diálogo, o ministro mencionava uma conta pessoal secreta que havia mantido num banco suíço. Imaginem só. Um ministro ser acusado de fraude fiscal e evasão de divisas, justamente os crimes cujo combate estava sob sua responsabilidade. Pegou muito mal.

Jérôme Cahuzac

Jérôme Cahuzac

Ato contínuo, o ministro negou que a voz fosse dele. O jornal insistiu. O homem político continuou negando veementemente. A gravação foi enviada à polícia nacional, que conta com os melhores peritos do país.

Passaram-se as semanas. Dois dias atrás ― catapum! ― veio a confirmação: o dono da voz gravada é o ministro Jérôme Cahuzac mesmo.

A reação do governo foi imediata. O ministro, certamente pressionado pelo presidente, apresentou sua demissão. A renúncia foi aceita sob a justificativa de liberá-lo de suas funções para que possa preparar melhor sua defesa.

Monsieur Cahuzac já foi substituído no ministério. Se conseguir provar que nunca teve conta não declarada no exterior ― o que não será fácil ― tem alguma chance de voltar um dia à vida pública. Caso contrário, pode pendurar suas chuteiras, porque nunca mais voltará a se eleger. Não conseguirá nem mesmo um cargo de vereador.

.:oOo:.

Temos nós também, no Brasil, gente graúda metida em situações parecidas. A diferença está no olhar indiferente que a nação lança aos infratores da lei. Um olhar que acaba se tornando um incentivo para a perpetuação de atitudes ilícitas.

Um veterano figurão político brasileiro, que já foi prefeito, governador, deputado e até candidato à presidência da República, é sabidamente beneficiário de não uma, mas várias contas secretas no estrangeiro. Já as teve na Suíça, nos EUA, nas Ilhas Anglo-normandas. Aliás, foi recentemente condenado pelas autoridades de Jersey a devolver alguns milhões aos cofres públicos brasileiros. Chegaram à conclusão de que o beneficiário havia-se apoderado de dinheiro que não lhe pertencia. É coisa pouca perto das centenas de milhões que se suspeita tenham sido subraídas ao erário. Mas já é melhor que nada.

Apesar de todas as evidências, nosso conhecido homem político não se dispôs, até hoje, a admitir seus malfeitos. Continua afirmando que nunca foi beneficiário de nenhuma conta no estrangeiro. E ninguém parece dar muita importância a isso.

Maluf e Lula 2

Já faz tempo que, a pedido dos EUA, a Interpol lançou um mandado de captura visando a levá-lo àquele país para lá ser julgado. O homem não pode nem pensar em pôr os pés fora do território nacional, se não será irremediavelmente detido e extraditado.

Mas nossos costumes são outros. Embora todos saibam que o homem meteu a mãozona no nosso dinheiro, o peculiar político nunca pensou em renunciar a nenhum cargo. Sabendo-se blindado, continua circulando livre e solto. Para provar que nosso povo, generoso mas ingênuo, não se abala com «malfeitos», recebeu em sua casa o presidente-adjunto do Brasil, que, com espantosa desenvoltura, veio solicitar seu apoio político. Esperto, o fugitivo da Justiça internacional fez questão de convocar a imprensa para imortalizar sua glória e a flagrante humilhação infligida ao antigo presidente do País.

O Primeiro Mundo está ali na esquina. Já, já chegamos lá.

O Ipiranga 2

José Horta Manzano

Aos amigos que leram meu artigo de ontem ― O Ipiranga ―, explico que o de hoje é continuação do anterior. Aos que pularam o capítulo, peço que comecem por ler o de 12 de março. É a melhor maneira de se inteirarem do assunto.

.:oOo:.

O caso do ciclista mutilado provocou comoção nacional. É justo e compreensível. Mas cuidado! Não vamos deixar que o estupor nos leve a clamar por um governo autoritário.

Este não é um blogue que propague o cerceamento das liberdades garantidas. As leis maiores já estão aí, não faz muita falta criar mais. Meu sonho é que um dia ― talvez ainda longínquo, admito ― nossas leis sejam de fato cumpridas. Que o Brasil se torne um país civilizado.

Os brasileiros, nascidos e criados em território de povoamento relativamente recente, carecem dolorosamente do sentimento de pertencimento a uma comunidade. Mas não exageremos: nada é inteiramente negativo, nem nada é totalmente positivo.Bicicleta

O fato de nosso País ter sido formado por diferentes correntes de população tem seu lado bom. Levas de gente trazida à força da África, coletividades indígenas que já aqui estavam, bandos de aventureiros e de idealistas, torrentes de vítimas de perseguição, multidões de fugitivos da fome, grupos de imigrantes miseráveis, enfim, gentes de todos os quadrantes estão tentando construir a nação brasileira.

Nação? Chegaremos lá um dia, mas falta um pedaço de caminho. Tudo ainda está muito heterogêneo, há que dar tempo ao tempo e deixar que o caldo engrosse. O feijão ainda está meio cru, muito ralo. Falta cozinhar. Vamos precisar de muito tempo para amenizar as marcas inauguradas pela partilha do território entre os amigos do rei e aprofundadas pelo regime escravagista que vigorou durante 300 anos.

A doação de imensos territórios feita pelo monarca de Portugal a seus mais chegados é hoje objeto de breve menção na escola elementar. Quanto à segmentação da população entre escravos e cidadãos livres, essa terminou num 13 de maio, faz 125 anos. Essa é a História oficial mas, como diria o outro, na prática, a teoria é outra. Não há «discriminação positiva» nem sistema de quotas capaz de mudar mentalidades da noite para o dia.

Os brasileiros ― que isso nos agrade ou não ― dividem-se em duas categorias nítidas: os que mandam e os que são mandados. Se preferirem uma metáfora, há os que habitam no andar de cima e o resto, os do andar de baixo. Repito: constitucionalmente, somos todos iguais, mas o dia a dia se encarrega de escancarar a realidade. Alguns são mais iguais que outros.

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Os jornais de terça-feira 12 de março trouxeram a continuação do caso do ciclista atropelado, uma das ocorrências mais repugnantes de que tenho ouvido falar.

Que se instalem «ciclovias» e «ciclofaixas» somente em ruas menores! Essa foi a solução encontrada pelo prefeito do município mais populoso e mais rico do País. Poxa, que perspicácia, gente! Como é que ninguém pensou nisso antes? Se os ciclistas circularem somente por «ruas menores», não encontrarão mais motoristas bêbados e, por conseguinte, não terão seus membros decepados e atirados ao esgoto. Ah, como seria bela a vida se todas as ruas fossem «menores». Se simploriedade desse cadeia…

Pensam que estou brincando? Pois comprovem aqui.

Riacho Ipiranga, São Paulo

Riacho Ipiranga, São Paulo

O Estadão traz a declaração de «um dos advogados» do acusado ― sinal de que são vários ― segundo o qual a família do jovem criminoso estaria sendo ameaçada. Se for verdade, está aí outro sinal de que ainda é longo o caminho até chegarmos a um grau aceitável de civilização. O Direito Romano, dois milênios atrás, já consagrava o princípio da individualidade da culpa. Por pior que possa ter sido a influência da família, o culpado é o autor do delito. Alguns brasileiros ainda não captaram o ensinamento.

Por acaso, um outro causídico casual já se apresentou à mãe do atropelado e se propôs a assegurar a defesa de seus interesses. A senhora, atordoada pelo que aconteceu ao filho, ainda não sabe o que fazer.

Tudo indica que o acusado pertence ao andar de cima. Sua equipe de advogados saberá valer-se de todas as chicanas que nossa legislação oferece para tirá-lo rapidinho da cadeia e para protelar o julgamento. Daqui a alguns anos, quando e se o processo tiver lugar, não me espantaria que o jovem fosse apenas condenado a pagar algumas cestas-básicas. Seu verdadeiro castigo será o peso desse braço. Será obrigado a arrastá-lo até seu último suspiro.

Já o ciclista é morador do andar de baixo. É pobre e, como convém dizer hoje, euro-afrodescendente. Uma campanha foi lançada no facebook para arrecadar fundos para a compra de um braço mecânico para o infeliz.

Uma pergunta me atormenta: a quantos braços mecânicos equivalem os honorários de um advogado criminalista?

O Ipiranga

José Horta Manzano

Os numerosos anos que já vivi me permitiram presenciar ou tomar conhecimento de muita coisa. Fatos raros, fatos corriqueiros. Acontecimentos bonitos, outros menos. Não me lembro de nenhuma ocorrência com as características do que se passou na madrugada de domingo na Avenida Paulista, em São Paulo.

Falo do ciclista atropelado. Meus leitores que moram no Brasil certamente sabem do que estou falando. Em atenção aos muitos que, como eu, vivem longe de Pindorama, deixo o endereço de duas páginas, uma do Estadão e outra da Folha de SP. Primeiro leiam aqui, em seguida aqui. Depois conversamos.

.:oOo:.

Já leram? Agora estamos todos a par. Não tenho nenhum detalhe a acrescentar, não sei mais do que aquilo que os jornais publicaram. E já é o suficiente. Tivesse um figurão político sofrido um atentado, tivesse uma grande estrela do cinema caído no Vesúvio, tivesse nevado em Manaus, nenhum desses acontecimentos teria provocado o choque que essa notícia me assestou.

Imaginaram a cena? Cinco horas da madrugada, um jovem volta da balada ao volante de seu carro. Não se sabe ainda por que razão, atropela um operário que, de bicicleta, seguia para seu emprego. A vítima tem seu braço arrancado ― sim, extirpado, desarraigado, separado do corpo. O membro fica agarrado ao para-brisa do automóvel. O motorista não se detém para prestar socorro à vítima desmembrada.

E não é só. O jovem universitário ― universitário! ― continua seu caminho com o braço sanguinolento teimosamente colado ao vidro dianteiro. Não lhe passa pela cabeça que todo braço é irrigado por artérias e que a vítima, que naquele momento se esvazia de seu sangue, há de estar precisando de ajuda. Não lhe ocorre que uma chamada de emergência pode ser feita de seu próprio celular. Não se preocupa nosso universitário em ao menos devolver à vítima o braço decepado.

Quem conhece a cidade de São Paulo sabe que, da Avenida Paulista até a Avenida Ricardo Jaffet, vão bem uns 15 minutos. Quando o tráfego está livre, naturalmente. Portanto, afaste-se a ideia de uma reação tresloucada, impensada, tomada sob momentânea e violenta emoção. O que nosso universitário fez foi, como se diz, de caso pensado. Pensado, pesado e arquitetado. Teve um bom quarto de hora para sopesar o que tinha feito e o que se preparava a fazer.

E o que fez? Parou seu veículo às margens do riacho Ipiranga ― sim, exatamente aquele do Hino Nacional ―, atirou lá o membro decepado e foi-se embora tranquilo, na certeza de nunca ser desmascarado.

Neandertal

Sabe-se que, 50 mil anos atrás, os Neandertais já tinham assimilado a noção de solidariedade. Quando a doença, um acidente, a velhice impedia que um deles continuasse a dar sua contribuição ao grupo, os demais o amparavam e provinham ao seu sustento. É uma das características que marcam a diferença entre humanos e animais. Há que reconhecer que algum resquício troglodita ainda resiste nas profundezas da alma.

O que ocorreu na Avenida Paulista às 5h da manhã deste domingo é para mim mais chocante e mais preocupante que todos os arrastões que entopem as páginas policiais de nossos jornais.

Mais do que se preocupar com dividendos de um hipotético pré-sal ou com o resultado de futuras eleições, nossos mandachuvas deveriam tomar a temperatura do desastre que a impunidade crônica está preparando para os que comandarão o país dentro de 20 anos.

De minha parte, não posso fazer grande coisa além de apontar o que me parece errado. Que aqueles que detêm o poder cumpram seu dever e façam o necessário. E urgentemente. A quase garantia de impunidade tem de ser erradicada da paisagem tupiniquim. O Brasil tem de voltar a ser um país normal. A continuar como está, nossos netos voltarão ao estado selvagem.

As margens do Ipiranga, que um dia foram plácidas, estão tingidas de sangue. De sangue e de vergonha. De 1822 para cá, elas já se tinham habituado a receber poluição e detritos, mas não estavam preparadas para dar guarida ao produto de atrocidade tão covarde.

Frustração

José Horta Manzano

Um pouco por seus próprios méritos, um pouco por ajuda de interesseiros, o Lula conseguiu, em sua quarta tentativa, ser eleito presidente do Brasil.

Um pouco por interesse dos que o tinham ajudado a guindar-se à presidência, um pouco por sua própria vontade, o Lula ansiava ficar na História. História mundial, se possível.Boina

Sob o conselho de assessores mais bem informados e sintonizados com a realidade, seu governo manteve, em suas grandes linhas, a mecânica de funcionamento que já havia destravado o País antes de sua eleição. Não transtornar a gestão da economia foi fundamental. O sol desanuviado que inundou as finanças planetárias até a crise de 2008 ajudou também. E muito.

Nosso presidente, embriagado pelo sucesso que ― para espanto de cidadãos mais antenados ― não hesitou em atribuir exclusivamente a seus méritos pessoais, queria mais. As fronteiras nacionais, embora extensas, tornaram-se estreitas para seu anseio de glória planetária.

Seus assessores ― acertada ou ingenuamente, só o tempo dirá ― sopraram-lhe que o caminho mais direto seria alçar contra os Estados Unidos, potência  dominante, uma bandeira de discordância explícita e sistemática.

O presidente anuiu e acumpliciou-se com os que lhe indicavam a senda exótica. Nossos dirigentes decidiram, então, entregar nossos anéis, de mão beijada, à China. Em sua ingenuidade, convenceram-se de que o país oriental, pobre e atrasado como o nosso, se tornaria nosso melhor aliado. Mais que isso: nossa melhor garantia de conquistar uma cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU, obsessão do Planalto já faz 10 anos. Na garupa, viria, naturalmente, a glória eterna de nosso taumaturgo.

Doce ilusão. Esqueceram-se de Drummond. (Talvez jamais tenham ouvido falar dele.)

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

PedraÉ. A pedra se chamava Hugo Chávez. Com esse, ninguém contava. Até pouco tempo antes, a Venezuela era apenas conhecida como saco de pancada da seleção nacional de futebol. Cinco a zero, seis a zero, oito a zero, era tudo o que esperávamos dos hermanos do norte.

Acontece que Hugo Chávez também tinha acólitos que o aconselhavam. E seus auxiliares lhe haviam soprado a mesma recomendação que recebera nosso presidente: afrontar os Estados Unidos.

O inconveniente é que Chávez foi mais rápido, mais midiático e mais contundente. Terá sido por sua boina caída de lado, por sua camisa vermelha, por seu descaramento, por sua falta de compostura. Terá sido porque seu único produto de exportação era mais estratégico que todos os nossos reunidos. É difícil dizer.

O fato é que o presidente vizinho fez mais barulho que o nosso, projetou-se mais que o nosso, amedrontou mais que o nosso. Em uma palavra: enevoou a imagem que nosso Lula nacional gostaria de ter projetado no planeta.

Nosso guia teve de abandonar a ideia de tornar-se líder da rebeldia sulamericana. Foi obrigado a contentar-se com o papel de coadjuvante. Há de ter sido uma das maiores frustrações de sua carreira.

O destino, que é inexorável, decidiu e obrou. Enquanto nosso Lula era número um inconteste no Brasil e brilhava dentro das fronteiras, quem resplandecia no panorama global era Chávez. Ofuscava nosso presidente. Incomodava.

Agora acabou. Ao bolivariano, restam as homenagens dos irredutíveis, as obséquias nacionais, a comoção do bom povo, o culto póstumo. A nosso guia tupiniquim, resta a amargura do que poderia ter sido mas não foi.

Se nosso Lula guarda ― entre outros ― um desgosto particular, é certamente este: seu caminho ao estrelato foi sombreado por um concorrente com as mesmas ambições. Que fazer? Nada é perfeito.

Agora é tarde. Para ambos.

Meio cheio ou meio vazio?

José Horta Manzano

Reportagem publicada na edição online do Estadão de 4 de março informa que a Universidade de São Paulo está entre as 70 mais respeitadas do mundo.

Quem se ativer ao artigo pode até ficar com a impressão de que, afinal, o nível do ensino superior no Brasil não está tão mal como dizem. No entanto, quem for um pouquinho mais zeloso e tiver a curiosidade de conferir a informação diretamente na fonte pode se decepcionar.

THE ― Times Higher Education ―, a instituição que fornece a análise, não se contenta em publicar a lista dos estabelecimentos mais respeitados. Faz outros levantamentos. O site do instituto britânico providencia duas listas de classificação: uma baseada em opiniões subjetivas e outra calcada em 13 critérios objetivos.Meio cheio

A USP, realmente, aparece entre as 70 melhores. Na lista subjetiva. Esse rol traduz a percepção que alguns milhares de cientistas e outros graduados têm com relação a cada universidade. É de apostar que poucos dentre eles conhecem a fundo a totalidade das instituições de qualidade espalhadas pelo planeta.

Já na lista estabelecida a partir de critérios objetivos, nossa universidade aparece num inglório 158° lugar. A primeira da lista 2012-2013 somou 95.5 pontos, enquanto a USP amargou magros 50.5 pontos.

A China, país pelo qual, 20 anos atrás, ninguém daria um vintém, alçou sua Universidade de Pequim ao 46° posto. A Coreia tem sua Universidade de Pohang em 50° lugar. Até Taiwan, antes mais conhecida por sua produção de artigos falsificados do que pela excelência de seu ensino, emplacou sua melhor universidade 24 lugares à frente da nossa.

Se levarmos em conta a indigência de nossa Instrução Pública, é gratificante encontrar o florão de nosso ensino superior entre as 160 melhores instituições do mundo. É quase um milagre. É o copo meio cheio.

.:oOo:.

O Brasil é o 5° país em superfície, o 5° em população, aparece entre as 10 maiores economias do globo, tem pretensões a tornar-se potência regional. Como se não bastasse, faz o que pode (nem sempre o que deveria) para ganhar cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU ― obstinação que atormenta o Planalto já faz uns dez anos.
Meio cheio

Depois de todos esses «considerandos», convenhamos, não há muito que se orgulhar dos «finalmentes». Não se chega lá por obra do acaso. Não há que confundir ONU com Fifa. O caminho passa obrigatoriamente pela Educação. É árduo, demorado? É. Mas não há outro jeito.

É muito chato constatar, mas acho que nosso copo anda meio vazio.

A visitante

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 março 2013

Pelos anos 70, no auge de sua produtividade, a dupla formada por João Bosco ― mineiro de ascendência libanesa ― e Aldir Blanc ― carioca de nome francês ― lançou o samba Incompatibilidade de gênios. Clementina de Jesus, com sua inimitável voz andrógina, deu-lhe o empurrão definitivo para a celebridade.

Muitos se lembrarão do trecho que dizia «se eu tô devendo um dinheiro e vem um me cobrar, a peste abre a porta e ainda manda sentar». A genialidade reside, muita vez, na simplicidade. Essa frase é resumo dos princípios de polidez que nossa civilização levou séculos para destilar.

Quando se recebe alguém, antes de tratar de negócios, antes mesmo de oferecer um cafezinho, propõe-se ao convidado que se sente. Todos já ouvimos um comentário do tipo «imagine que nem me mandou sentar!», percebido como afronta.

Sentar-se antes dos outros, pôr-se à cabeceira da mesa, ficar num cantinho, ser guindado a um lugar de honra são variantes do mesmo tema, cada qual com sua simbologia. E não é de hoje: faz dois milênios, assembleias romanas já mediam o prestígio ou a irrelevância de cada participante pelo lugar que ocupava.

Era prerrogativa do chefe do parlamento sentar-se à frente dos demais. Daí o termo præsidentem, formado pelo prefixo præ (=antes) e pelo particípio presente do verbo sideo (=sentar-se). A palavra assim formada designava aquele que dirigia os trabalhos. Por caminhos tortuosos, acabou desembocando em presidente, que entre nós qualifica, por extensão de sentido, aquele que manda. Quando a função é temporariamente exercida por uma mulher, há quem prefira «presidenta», forma exótica e pouco natural para um descendente direto de particípio presente. Mas não nos percamos, continuemos em Roma.

Se todos os homens fossem iguais e pensassem da mesma forma, o mundo seria muito sem graça. Ainda bem que não é assim. No Senado e em outras assembleias romanas, alguns participantes podiam não compactuar com o chefe. Podiam até discordar da maioria. Concedo que, no Brasil de hoje, tal atitude tornou-se inusitada, mas, acreditem, não é incomum em outras paragens. Aqueles cujas ideias se chocavam com as do chefe e da maioria sentavam-se a certa distância dos outros. Cada um deles era um dissidentem, termo formado pelo prefixo dis (=separado) e pelo particípio presente do mesmo verbo sideo (=sentar-se). É fácil deduzir que a palavra latina equivale ao que hoje chamamos dissidente.Visitante 1

Brasília recebe visitas frequentes de dirigentes estrangeiros, chefes de Estado, primeiros-ministros, presidentes de assembleia e outros graduados. Acolhe também figurões que não estão necessariamente de acordo com as diretivas políticas de seus respectivos países: candidatos a cargos eletivos, por exemplo. Generosos, nossos dirigentes geralmente dão um jeito de homenagear todos os visitantes, estejam eles ou não de acordo com a maioria governante em seus respectivos países.

Um fato pra lá de curioso, no entanto, envolve a palavra dissidente. Ela é hoje usada exclusivamente para designar indivíduos que militam contra regimes autoritários. Já reparou? Ninguém qualificaria de dissidente uma figura contrária ao presidente Hollande, ao presidente Obama, ao primeiro-ministro Cameron. Nem o Lula, que só se tornou conhecido quando o autoritarismo agonizava, jamais foi chamado de dissidente. Designar alguém por esse termo implica qualificar de autoritário ― se não despótico ― o governo de seu país. É um quase ato falho de que nem todos se dão conta.

Faz alguns dias, recebemos uma visita insólita. Como nunca antes na história deste país, uma blogueira foi recebida no Congresso Nacional, com toda a pompa e circunstância devidas a um visitante notável. Veio de Cuba e chegou ao cabo de mil peripécias que não vale a pena repetir aqui.

Não é todos os dias que um visitante estrangeiro é, ao mesmo tempo, alvo de manifestações hostis e centro das atenções de congressistas. Parece que, passado o choque das primeiras carantonhas que a receberam no Recife, a moça guardou a impressão de um Brasil menos agressivo. Chegou até a dizer que levaria a recordação da pluralidade de opiniões. Melhor assim.

Um fato, porém, vale ser lembrado. Em junho de 2011, nossa atual presidente recusou-se a receber Shirin Ebadi, dissidente iraniana, já então detentora de um Nobel da Paz(!).Visitante 2

O cartão de visita de Yoani Sánchez não menciona nenhum Nobel. Ainda. É apenas blogueira e dissidente, mas isso já lhe valeu visto de entrada e homenagem do Congresso brasileiro. É um progresso.

A Escola Normal

José Horta Manzano

Lá pelo último quartel do século XIX, a elite pensante do Brasil sentia-se pouco à vontade. As Américas, tanto a inglesa quanto a hispânica, haviam dado origem a novos países. Inspiradas no exemplo norte-americano, todas as antigas colônias espanholas tinham adotado ― pelo menos oficialmente ― o regime republicano.

O Brasil, na visão positivista daquele fim de século, fazia figura de patinho feio. Enquanto os vizinhos elegiam seu presidente, nós aqui mantínhamos uma monarquia hereditária baseada na lei do sangue, como na Idade Média. Pior que isso: o País era o último pedaço do continente onde ainda subsistia a escravidão. Por sinal, também ela baseada na lei do sangue.

Só um parêntese. Desde que, pela primeira vez, um agrupamento humano entrou em conflito com outra tribo, pareceu natural que os vencidos fossem escravizados pelos vencedores. Fazia parte dos costumes. Foi assim durante milênios. Já nossa escravatura era de outra natureza, uma bizarrice que fugia à lei da guerra. Era um servilismo de casta. A jus sanguinis ― a lei do sangue ― traçava a rota de cada indivíduo. Filho de escravo era escravo e filho de homem livre era homem livre. Fechemos o parêntese.

Quando a situação de uma comunidade não vai lá muito bem, é costume procurar um culpado. A Alemanha nazista designou o povo judeu como bode expiatório e apontou-o como responsável por todos os males do país. Outras civilizações, em outras épocas, apontaram culpados para suas mazelas.

Para muitos dos letrados daquela época, a razão do relativo atraso do País pareceu evidente: o que travava o progresso era o regime, simbolizado pelo Imperador. A abolição da escravidão, em 1888, não acalmou os ânimos. Pelo contrário. Os grandes proprietários agrícolas, subitamente privados da habitual mão de obra gratuita, aliaram-se aos republicanos.

Daí para a frente, sabemos todos o que aconteceu. Em novembro de 1889, o Imperador foi apeado do poder e despachado para a Europa com toda a família.

Escola Normal de São Paulo Inauguração - 1894

Escola Normal de São Paulo
Inauguração – 1894

A partir daí, um punhado de bem-intencionados decidiu que era chegada a hora de iniciar o caminho do progresso. Havia que regenerar o País. Precisava despertá-lo da letargia em que se tinha acomodado durante a era imperial. E por onde começar? Mas… por uma Instrução Pública de qualidade, cáspite!

Em São Paulo, homens de visão se empenharam em promover um ensino público de bom nível. Para ensinar alguém, é preciso aprender primeiro. E era justamente o que fazia falta. Numa São Paulo à qual aportavam diariamente levas de novos habitantes, era urgente formar professores.

Um prédio novinho em folha foi encomendado a Ramos de Azevedo, aquele mesmo arquiteto de cujas pranchetas sairia, alguns anos mais tarde, o Theatro Municipal da cidade.

O imenso edifício dedicado ao ensino público foi inaugurado em 1894. Para lá foi transferida a Escola Normal, que antes funcionava em local exíguo e inadequado.

Aquela que se tornaria, meio século mais tarde, a maior cidade do País, sentiu-se orgulhosa de seu pioneirismo. Bom número de jovens podiam agora ser acolhidas para serem lá preparadas para transmitir seu saber às novas gerações.

A foto que acompanha este artigo, recebida por cortesia de Wilma Legris, foi tirada dia 2 de agosto de 1894, quase 120 anos atrás. Mostra os integrantes do novo estabelecimento de ensino, situado na atual praça da República. O prédio ainda está lá, mas já não acolhe bandos de alunos como fez durante 70 anos: é hoje sede da Secretaria da Educação.

Cliquem sobre a foto para ampliá-la. Reparem na indumentária dos figurantes. Se a chapa fosse em cores, não faria muita diferença: fora uma que outra exceção, os trajes são quase unanimemente pretos ou brancos. A hierarquia é acintosamente marcada. Os personagens mais importantes, todos do sexo masculino, sentam-se à frente. Conforme as filas se vão sucedendo, aparecem figuras menos eminentes. Presumivelmente, os professores e, em seguida, as alunas. Por último, lá no fundão, há uma fileira de homens. Serão serventes, bedéis, auxiliares.

Todas as mulheres ostentam o mesmo penteado, em perfeita harmonia com os usos da época. Os homens trajam o que, com bastante propriedade, chamávamos terno, ou seja, um conjunto de três peças: paletó, colete e calça. O nome ainda perdura, mas o colete anda meio fora de moda.

Fico aqui a imaginar a incongruência que era esse povo se vestir como em Londres ou Paris para enfrentar nossas ruas poeirentas e barrentas, subindo e descendo de bondes puxados a burro, sob um calor tropical.

Enfim, bem ou mal vestidos, republicanos ou monárquicos, cada um deles deu sua contribuição. Não se pode dizer que o grosso da população do Brasil deste século XXI seja um modelo de erudição. Mas, sem o suor ― no sentido literal ― desses pioneiros, o nível geral de instrução seria ainda mais baixo.

Fica aqui expressa nossa reverência.

Vai arco aí, doutor?

José Horta Manzano

A partir do começo dos anos 70, justamente quando a briga entre árabes e judeus começou a esquentar, os países produtores de petróleo se deram conta de que tinham nas mãos um fabuloso instrumento de pressão.

De repente, o planeta ficou sabendo que havia um organismo chamado Opep, fundado já em 1960. Até então, pouco se ouvia falar desse clube que reunia os grandes fornecedores do ouro negro.

O Brasil, cuja produção era pouco significante, passou a sofrer com a súbita elevação de preço do óleo bruto. O governo federal teve então um (raro) rasgo visionário. O país não podia continuar a depender de desentendimentos que se passavam do outro lado do planeta, desavenças que escapavam a seu controle. Era mais que urgente encontrar um substituto nacional para o produto importado.

Foi essa a agulhada que impulsionou a pesquisa acelerada e que, em pouco tempo, elevou a produção brasileira de álcool combustível a níveis comercialmente viáveis.

O novo líquido não tinha a mesma eficiência da gasolina, mas, de certa forma, liberava o País da dependência total dos grandes produtores. A importação continuou ― continua até hoje ― mas em escala bem mais modesta.

Foram logo lançados os primeiros automóveis com motor apto a digerir o novo carburante. O nome químico é algo pomposo: álcool anidro ou álcool etílico. Mas o povo tratou logo de acabar com essa reverência toda. Desde o primeiro dia, todos chamaram a novidade simplesmente de álcool. Quando o cidadão encostava seu veículo junto à bomba, o frentista costumava perguntar: «álcool ou gasolina?».

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Alcool 3

 

No dia 8 de março de 2007 ― está para fazer 6 anos justamente estes dias ― o presidente dos Estados Unidos, um certo George Bush (o filho), já no apagar das luzes de um mandato pra lá de criticado, fez uma rápida visita ao Brasil. Quem quiser rememorar a ocasião, que releia a reportagem da Folha de São Paulo daquele dia.  Nota: a releitura não é obrigatória.

Dizem as más línguas que George W., quando jovem, tinha uma certa quedazinha pelo álcool. Nunca me encontrei com o figurão pessoalmente, portanto não tive ocasião de fazer-lhe a pergunta diretamente. Fico-lhes devendo a  confirmação.

Não sei se terá sido para poupar más recordações ao visitante ou se alguma outra absconsa razão terá influído. O fato é que, a partir daquele exato dia, nosso álcool combustível mudou de nome. Passou a chamar-se etanol.

A etimologia e a história das línguas me atraem muito. Em tudo o que li até hoje, nunca ouvi falar de uma palavra que tenha sido espontaneamente banida e substituída por outra em 24 horas. E de maneira peremptória. Merecia até entrar para o Livro Guinness de Recordes.

Se alguém tiver alguma ideia, que se manifeste, por favor.

Brasil em miniatura

José Horta Manzano

Acho que todo o mundo conhece a jornalista e escritora Danuza Leão. Dispensa apresentações. Pode-se gostar do que ela escreve, mas também é permitido não apreciar. Liberdade é igualmente concedida aos que acham que seus escritos não fedem nem cheiram.

Quanto a mim, encontro pelo menos uma qualidade em seus textos: são espontâneos, um desabafo, como uma conversa na sala. Mas não vamos discutir aqui de gosto, que não é o propósito do post de hoje. Afinal, de gustibus non disputandum.

Li sua última coluna, publicada na edição online da Folha de São Paulo de 24 de fevereiro. Desde o começo, uma sensação de déjà vu me incomodou. Não era bem a lembrança de algum texto antigo, nada disso. Nenhuma cópia, nenhum plágio à vista.

É que a situação que, segundo Danuza, domina o Country Clube do Rio de Janeiro me fez obrigatoriamente enxergar aquela associação como um Brasil em miniatura. Vou explicar.

Naquele clube, polícia não entra. É território protegido. As prerrogativas dos sócios são sagradas. Na atual nomenklatura brasileira a situação é análoga. Parlamentares e mandachuvas são intocáveis.

Para ser aceito no clube, o novo sócio tem de pagar uma joia. Nas altas esferas da república brasileira também funciona assim. Um partido de aluguel, por exemplo, representa uma joia de valor inestimável, que pode abrir a seu proprietário as portas do andar de cima.Brasilia 1

A associação descrita por Danuza está formada por «gente que não tem coragem de se expor, e passa a vida almoçando, jantando, casando, traindo, roubando, dando pequenos golpes dentro da própria família, protegida pelas paredes do clube». Qualquer semelhança com a classe que, nestes tempos estranhos, controla a política nacional não será mera coincidência.

A partir do momento em que entra no clube descrito pela escritora, o novo sócio estará obrigado a respeitar a «omertà»(*), a lei do silêncio. Dentro do clube, tudo pode. De novo, se algo lhe parecer vagamente semelhante ao que se passa nos elevados círculos do Poder no Brasil, não será apenas uma impressão: é igual mesmo.

Faz alguns anos, Roberto Jefferson chegou a balançar o coreto. Mas foi tremor pequeno. Para inglês ver, alguns figurões foram afastados. Mas o grosso continua lá em cima. O coreto ainda está de pé, firme e forte como antes.

Danuza termina sua crônica dizendo que «é de chorar». Concordo.

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(*) O termo omertà, que designa um dos preceitos inelutáveis dos mafiosos, é uma variante dialetal da palavra italiana umiltà, que corresponde, à nossa humildade.

As trapaças de lá e as de cá

José Horta Manzano

Tudo é relativo, costuma-se dizer. É verdade.

Um resto de pão seco, daqueles que se costuma descartar, pode parecer um banquete para alguém que esteja sem comer há vários dias.

A declaração de um figurão que brada «eu não sabia de nada» pode parecer fichinha perto da de um outro que despeja uma ladainha de mentiras, brotadas diretamente de sua imaginação.

Um tempo frio e ventoso de 10 graus, ressentido como clima polar por quem está acostumado a viver em terras tropicais, será percebido por um siberiano como brisa de primavera.

Poderia continuar a citar exemplos. A lista poderia prolongar-se a ponto de cansar meus caros leitores. Não vou fazer isso. Quero citar só mais um caso. Depois dele, dou-lhes uma pausa para refletir.

Faz uns 10 dias, a ministra da Educação da Alemanha, doutora Annette Schavan, amiga chegada da primeira-ministra Merkel, foi acusada de plágio. Alguém descobriu que sua tese de doutorado havia sido fortemente inspirada ― para não dizer copiada ― de textos anteriores.Diploma

Em civilizações mais evoluídas, não se brinca com esse tipo de coisa. Principalmente em países germânicos. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Angela Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira. Caso alguém tenha saltado esse capítulo, vale a pena ver de novo. Aqui.

Lembrei-me de um caso semelhante, ocorrido faz alguns anos em terra tupiniquim. Em julho de 2009, quando a atual presidente ainda era ministra, mas já bastante chegada ao então presidente, exatamente como sua confrade alemã, mentiras ― perdão! ― inverdades foram flagradas em seu currículo oficial, publicado aos quatro ventos pelo sistema Lattes.

Ok, ok, os casos não são idênticos. Enquanto a alemã apresentou tese plagiada, a brasileira, segundo se comprovou, não apresentou tese nenhuma. A seu favor, pode-se dizer que não copiou nada de ninguém.

A maior diferença, no entanto, foi o tratamento dado a cada caso. Frau Schavan foi demitida no ato, o que resultou em seu banimento ad vitam æternam da política e da vida acadêmica alemã. Será para sempre lembrada como fraudadora.

Nossa esperta ministra recebeu tratamento diferente. Declarou, sem corar, que tudo não passava de um erro de assessores ― sempre os outros! O currículo foi emendado, e pronto: ficou tudo por isso mesmo.

O resto, todos conhecemos. Guindada pelo aparelho mercadológico que a sustentava, foi ungida candidata ao posto maior do Executivo e… foi eleita. Currículo fraudado? Ora, que bobagem, ninguém se lembra mais disso.

Se você também se esqueceu, talvez goste de dar uma vista d’olhos por aqui.

Pois é, caros amigos. Tudo é relativo. Até a noção de honra.

A demissão parental

José Horta Manzano

Não, caros e fieis leitores, não é da demissão do papa que pretendo falar hoje. É de uma abdicação menos midiática, mas não menos inquietante. Assim mesmo, não dá para fugir da atualidade: o chefe da Igreja passa raspando pelas linhas que vêm a seguir.

Em reportagem publicada na edição online de 16 de fevereiro, a Folha de São Paulo nos informa que crianças não sabem o que faz um papa. Há até os que torcem para que o próximo seja… corintiano.

Até aí, nada demais. Eu também não sei exatamente o que faz o sultão de Omã ou o xamã de uma tribo da Sibéria oriental. São figuras distantes de nosso dia a dia, das quais não ouvimos falar praticamente nunca.

Acontece que a reportagem se baseia em relato de crianças e pré-adolescentes que estudam em colégio religioso, sob a orientação de eclesiásticos. No meu tempo, ser mandado para um colégio de padres era ameaça feita a crianças desobedientes, tal o pavor que essa ideia nos infundia. Mas estou divagando.Teologia

O que me deixa surpreso e preocupado é a demissão parental. Que diabo é isso? Refiro-me ao fato de, ao matricularem seus filhos na escola, os pais confiarem cegamente a outrem a formação dos rebentos. Na certa não se dão conta de que, ao fazer isso, estão abdicando da função de coeducadores que lhes cabe. A escola vai dispensar ao aluno não somente o ensino formal, mas vai também encharcá-lo com valores que não são necessariamente os de sua família.

Pais que escolhem um colégio de padres para o filho mostram duas particularidades: a primeira é que dispõem de meios suficientes para custear os estudos do pequerrucho; a segunda é que consideram importante que a formação escolar do herdeiro seja completada por formação religiosa.

O que me inquieta é constatar que, ao entregar o filho à escola, os pais ― que não hão de ser ignorantões ― lavam as mãos e se desinteressam pelo ensino que o colégio possa estar dispensando. Abdicam de suas funções. A escola que se encarregue de ministrar ao guri a noção de céu, de inferno e de seus intermediários. Se esta não o fizer ― como sugere a reportagem da Folha―, formará alunos ansiosos para que o papa seja corintiano.

Que um aluno de colégio de padres nunca tenha ouvido falar do papa ― e que, ingenuamente, até se alegre que o próximo torça para seu time de futebol ― é sintoma preocupante. Falha a escola, mas falham principalmente os pais. Aquela não ensina o que devia, enquanto estes últimos não aferem o que está sendo ensinado.

O infográfico inserido na reportagem, então, é cômico. Diz que a segurança do Vaticano é garantida pela Guarda Suíça, cujos recrutas «vestem uma roupa esquisita» (sic). E pára por aí, sem explicar a razão da vestimenta anacrônica. Evidentemente, quando não se sabe, fica complicado ensinar. O artigo diz ainda que a palavra papa é uma sigla. Não é. Uma rápida consulta aos dicionários que qualquer repórter tem à mão teria evitado proferir tamanha enormidade.

Como se vê, os colégios de padres acompanham a degringolada da Instrução no Brasil. E a demissão parental só faz piorar o quadro.

E a gente quase acreditou…

José Horta Manzano

Quando o antigo presidente da República impôs à massa sua sucessora, apresentando-a como perita em economia, voluntariosa, firme, visionária, tocadora de obras, uma luzinha de esperança se acendeRessacau. Luz fraquinha, é verdade, mas parecia apontar para o fim do túnel. Passaram-se dois anos.

Em seu artigo deste sábado 16 de fevereiro, o jornalista Rolf Kuntz deitou no papel palavras duras. Mas, infelizmente, verdadeiras. A quem interessar possa, aconselho uma vista d’olhos no texto claro e lúcido. Está aqui.

Mas não nos desanimemos, brava gente, que vem aí a Copa 2014! Será melhor que um Carnaval! Duro mesmo vai ser enfrentar a ressaca da Quarta-feira de Cinzas que se seguirá. Periga ser pesada.

E a coisa continua!

José Horta Manzano

A finalidade principal deste blogue não é, definitivamente, tratar de assuntos de religião. Especular sobre o resultado da escolha que os cardeais farão no próximo conclave seria como dar palpite em briga alheia.

Mitra 2.Parece que nem todo o mundo pensa como eu. Alguns continuam imaginando que o próximo papa tem de estar sintonizado com a situação declinante do catolicismo no Brasil, que tem de levar em conta nossa situação «emergente», que não pode ignorar o fato de que concentramos o maior número de católicos declarados.

Aos que pensam assim, eu gostaria de dizer que:

1°) Ao assumir seu encargo, o papa ganha automaticamente a nacionalidade vaticana. Não há papa italiano, nem polonês, nem brasileiro, nem tadjique. São todos vaticanos. Ou vaticanenses, como preferirem. Os dicionaristas hesitam.

2°) O chefe supremo de uma Igreja não é escolhido necessariamente em função da comunidade mais numerosa entre as muitas que compõem seu rebanho. Pelo contrário. Se, no Brasil, a alternância e o contraditório tornaram-se noções fora de moda, continuam valendo em outras esferas e em outras partes do mundo.

3°) O papa não é o secretário-geral da Igreja Católica brasileira, mas o chefe supremo do catolicismo planetário. A população (que se diz) católica no Brasil, de 120 milhões de almas, não está muito à frente do número de fiéis americanos, filipinos, mexicanos.

4°) No Brasil, o número de pessoas que se declaram católicas vem decaindo dia após dia. O futuro papa pouco ou nada pode fazer contra essa debandada. Como também tem limitado poder contra a perseguição de cristãos na Índia, no Egito ou no Paquistão. Se os católicos abandonam a Igreja tradicional, não será por razões filosóficas nem teológicas. As causas do sangramento estão fora do alcance do poder papal.

.:oOo:.

Cabe à cúpula da Igreja decidir em que direção quer avançar e, coerentemente, escolher o chefe mais bem sintonizado com o programa.

Podemos até nos considerar «emergentes», visto que latifundiários tupiniquins vendem atualmente muita soja e muito minério de ferro aos chineses. Ainda assim, não chegou a hora de nos atrevermos a pressionar os grandes eleitores de cúpulas religiosas.

Conclave não é reunião de diretoria de ong. Não se está a eleger o síndico de um condomínio.

Segredo é pra quatro paredes

José Horta Manzano

Já faz um tempinho que se fala menos de Julian Assange, aquele que andou bisbilhotando mensagens confidenciais do governo americano e espalhando o resultado da façanha pela internet.

Muita gente aplaudiu. O homem foi, por um breve tempo, elevado à categoria de herói, uma espécie de Robin Hood dos tempos modernos, aquele que rouba segredos dos poderosos para distribui-los aos sem poder. Não é minha visão.

Mala diplomática 1Um bonito samba-canção de Herivelto Martins e Marino Pinto que Dalva de Oliveira gravou em 1947 (*) dizia justamente que «segredo é para quatro paredes». Naqueles tempos recuados, as paredes já tinham ouvidos, mas o som não ia muito além do quarto ao lado. O pior que podia acontecer é que algum maldizente espalhasse a fofoca pela vizinhança. Hoje não é mais assim.

A internet e os novos meios de difusão da informação abriram caminhos que nós, pioneiros, estamos ainda longe de conceber aonde vão levar. Hoje em dia, um sussurro emitido em Singapura será ouvido instantaneamente em Sydney, em Helsinque e até em Ushuaia. Quem joga informações na rede deve estar bem consciente dessa nova realidade. E o senhor Assange certamente estava quando decidiu divulgar dados obtidos por meios fraudulentos.

Na primeira metade dos anos sessenta, foi assinada a Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas. É aceita por praticamente todos os países. Até Cuba e a Coreia do Norte são membros do clube. Entre outras determinações, a Convenção de Viena reitera e regulamenta o antigo princípio da mala diplomática.

Tradução portuguesa da expressão valise diplomatique, a mala chegou, realmente, a ser uma espécie de baú. Os países signatários da convenção comprometeram-se a deixá-la passar, sem violá-la e sem controlar seu conteúdo. O nome ficou, mas a mala, nos dias atuais, se desmaterializou.

Mensagens diplomáticas transitam agora por internet. A mudança de meio de transporte, no entanto, não invalidou o princípio da inviolabilidade do conteúdo. Violá-lo continua sendo um crime. Difundir por internet o produto do crime, a informação surrupiada, é duplamente repreensível.

Os tempos do faroeste passaram. As leis são feitas para serem obedecidas. A ninguém ― salvo, naturalmente, a alguns figurões brasileiros «especiais» ― é dado desobedecer a elas. Quem o fizer, terá de prestar conta de seus atos.Mala diplomática 2

O senhor Assange cometeu um ato de pirataria. C’est plus bête que méchant, diriam os franceses, está mais para tolice que para malvadeza. Seja como for, o ato foi leviano e deu pano pra mangas. Agora, para coroar, o pirata mostra que sua coragem só funcionava quando se sentia protegido por um biombo, perdão, por uma tela de computador. Desmascarado, exposto e procurado por polícias do mundo inteiro, amoita-se num cômodo acanhado da embaixada londrina de uma pequena República sulamericana.

Na entrevista que teve a fineza de conceder a um correspondente do Estadão, Assange fez questão de se apresentar fantasiado de jogador de futebol. Uniformizado como se fosse dos nossos. É receita certeira para embevecer muita gente. Veja aqui e aqui.

Plugado e conectado, o hóspede da exígua embaixada deve estar a par da acolhida peculiar que o governo brasileiro costuma dispensar a refugiados. Deve saber que, durante a Segunda Guerra, nossas representações diplomáticas estavam instruídas a negar visto de entrada a judeus. Deve saber também que o último grande bandido internacional extraditado pelo Brasil foi Tommaso Buscetta, um mafioso pentito (arrependido), faz 30 anos. Deve ter estudado tim-tim por tim-tim o caso Battisti.

Em resumo, sabe que não poderá ― nunca mais ― atravessar fronteiras e circular livremente. Se tiver a sorte de se safar da embaixada onde se encontra encurralado, imagino que trocará o apertado Equador(2) por um refúgio no espaçoso Brasil. À beira-mar, se possível.Mala diplomática 3

Nesse particular, não tem muito a temer: muito provavelmente será aceito. Talvez de braços não tão abertos, dado que seu crime não foi de sangue, mas, assim mesmo, lo recibiremos de corazón.

Seus feitos combinam com o clima de malandragem e de traição.

(1) Quem quiser recordar o samba-canção, siga por aqui.

(2) Quem quiser assistir a um pouso no aeroporto de Quito, clique aqui.

Os picaretas

José Horta Manzano

Muitos anos atrás, um personagem da vida política declarou que o Congresso brasileiro era uma espécie de antro em que vadiavam «uns 300 picaretas». Talvez você se lembre quem disse isso. Eu esqueci.

Pode até ser que que o figurão tivesse razão. Aliás, nos tempos em que pronunciou sua frase lapidar, ele mesmo se candidatou ― e foi eleito ― deputado federal. Aconteceu na época em que foi preparada, temperada, cozinhada e servida ao bom povo a fabulosa ‘constituição-cidadã’ de 1988, ainda hoje em vigor. Com algumas centenas de correções e ajustes, naturalmente.

A seu favor, diga-se que o incriminador da picaretagem não teve atuação destacada na elaboração da Lei Maior. Por certo, havia de ter outras preocupações pela cabeça, que ninguém é de ferro.Picareta

Não me lembro se a constatação foi exprimida antes ou depois de ele ter sido eleito parlamentar. Pouco importa. Não consta que tenha jamais desmentido sua visão do Executivo, o que nos leva a crer que, até hoje, mantenha sua opinião. Está aí um homem de convicções firmes!

Infelizmente, estes últimos anos, numerosos indícios têm corroborado a afirmação do mandachuva. Ainda estes dias, houve troca de cadeiras em nosso parlamento tupiniquim. O recém-eleito presidente do Senado Federal, terceiro personagem na linha sucessória da presidência da República(!) , é alvo de processos criminais.

Um outro personagem, já condenado criminalmente pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de assumir o cargo de deputado que lhe cabe. Com toda a pompa e a dignidade que lhe são devidas.

Para coroar, acabamos de tomar conhecimento da decepção de um nobilíssimo representante do povo, por acaso o deputado federal mais votado do País nas últimas eleições. Antes de ser levado pelos braços do povo à Casa dos Representantes, exercia o ofício de palhaço.

Tiririca quer voltar ao antigo mister. Era de esperar. A sabedoria popular, em sua secular erudição, sempre profetizou: cada macaco no seu galho. Tudo indica que fazer palhaçada é mais gratificante que fazer picaretagem. Talvez até mais rendoso.

Que ninguém mais acuse os parlamentares brasileiros de fazerem palhaçada! O nome do jogo é picaretagem. No duro.

Para quem esteve em cura de sono estes últimos dias e perdeu a notícia, aqui está a reportagem da Folha de São Paulo, que não me deixa mentir.

O pior cego…

José Horta Manzano

Trecho de um dos editoriais do Estadão desta segunda-feira 4 de fereveiro.

“Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, saudou como altamente importante a recuperação lenta, mas aparentemente firme, da produção americana. Afinal, a recuperação da maior economia do mundo é benéfica para todos. Não se sabe se o ministro, antes desse comentário, consultou o líder Luiz Inácio da Silva. O ex-presidente havia-se mostrado muito feliz por chegar ao fim do mandato com o Brasil ainda em crescimento e os Estados Unidos em recessão. Seria um despropósito, exceto em caso de guerra, festejar as dificuldades de qualquer outro país. Mais que um despropósito, seria uma enorme tolice alegrar-se por uma crise no mais importante mercado do mundo.
Mas essa tolice ocorreu.”

O texto completo está aqui.

UE e Mercosul

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 janeiro 2013

Marché communCasamento só faz sentido se for completo e consumado. Se não, não passará de aliança, combinação, arreglo, confraria. É a conclusão amarga a que estão chegando os que acreditaram que a União Europeia desembocaria numa união política federal. O navio está fazendo água e, pelo jeito, o casamento não se consumará.

Assim como a extinta URSS deixou pelo caminho levas de viúvas ― algumas das quais até hoje se recusam a deixar cair a ficha ―, a União Europeia já começa a engendrar seus órfãos.

As recentes ameaças proferidas pelo primeiro-ministro britânico não deixam dúvidas: seu povo não vê mais vantagem em continuar amarrando seu destino ao do continente. Mais dia, menos dia, Londres periga anunciar o divórcio.

Mas comecemos pelo começo. As cinzas da Segunda Guerra racharam a Europa em dois campos antagônicos. A URSS acaparou um deles e tratou de amansar seu novo protetorado. A ferro e a fogo. Deixou claro que ordens do Kremlin não eram passíveis de contestação.

O outro campo ficou solto, como nau sem mastro. Faziam parte dele perdedores da guerra (Alemanha, Itália), ganhadores (Reino Unido, França) e países neutros. Para complicar, havia a sombra amiga mas acachapante dos EUA. Esse ecletismo tornava difícil designar um ponto de convergência.

Se objetivo comum havia entre as nações do bloco ocidental, era a firme determinação de enterrar de vez o espectro da guerra. Fora isso, cada um tinha suas necessidades próprias. A Alemanha, derrotada e fragmentada, sonhava com sua reunificação. A Itália, destruída e cansada de guerra, queria crescer e estancar o sangramento que a emigração maciça lhe causava. A França, a Holanda, a Bélgica tinham um projeto comum: docilizar e conter a vizinha Alemanha, que tanto mal lhes havia feito e que tanto temor ainda infundia. O Reino Unido sonhava recobrar o status de potência mundial que tinha usufruído por mais de um século. Espanha e Portugal queriam distância: seus dirigentes ambicionavam tão somente conservar o poder que tinham conquistado.Mercosul 2

Se pessoas se casam, firmas se associam, entidades se fundem, países se unem, será por imposição ou porque algum interesse comum os aproxima. De amor, o casamento europeu certamente não foi. Se foi de razão, as motivações inconfessas de cada membro acabaram por revelar-se incompatíveis.

Por que iludir-se? Como as gentes, as nações só procuram ajuda de outras quando ― e enquanto ― duram suas necessidades. Terminada a precisão, tchau e bença. Juras de amor eterno entre países não valem.

Erros foram cometidos desde que o Tratado de Roma criou o Mercado Comum em 1957. Os dirigentes não conseguiram ― ou não quiseram ― ver que ao redor da mesa se concentravam interesses divergentes e até conflitantes. Enquanto o povo se entreteve a colar os cacos dos vasos que a Segunda Guerra tinha estilhaçado, a convivência foi cordial e até pareceu confluir. A conjuntura também ajudou: até poucos anos atrás, o mundo viveu decênios de inusitado e ininterrupto crescimento econômico.

Hoje os ideais europeus parecem esgarçados. A geração é outra. Nenhum dos atuais dirigentes conheceu a guerra e seu cortejo de misérias. Nenhum viveu infância aterrorizada por passos cadenciados da soldadesca invasora. Não conheceram desemprego. Conflitos armados lhes parecem inimagináveis, coisa de gente pobre.

Eis por que a maioria dos europeus de hoje julga a união política do continente desnecessária. A UE é hoje vista mais como entrave que como solução.Euromercosul

Na crença ingênua de que todos os membros obedeceriam às orientações do Banco Central, 17 países adotaram uma moeda única. Não se preocuparam com centralizar controles e torná-los obrigatórios. Erraram feio. Livres e desimpedidos, cada um deles fez o que bem entendeu. E deu no que deu, com países inteiros à beira da falência, enquanto outros esbanjam saúde financeira. A exasperação das populações é compreensível. Uns carecem desesperadamente de ajuda, enquanto outros, considerando que não lhes toca pagar por erros alheios, torcem o nariz à ideia de levantar o tampo da burra. O balaio de gatos em que se meteram os europeus é de bom tamanho. Cabe a eles agora encontrar a saída.

Quanto a nós, com nosso Mercosul bizarro, estamos alguns passos atrás. Ainda dá para evitar o pior. Vamos torcer para que vaidades individuais de nossos mandachuvas não sobrepujem o interesse das populações. Para não perder a face, que se atenham ao simulacro de mercado comum que temos. E que parem por aí.

União política é assunto sério. Se não deu certo na URSS, nem na Europa, por que teria sucesso entre nós?