Vai arco aí, doutor?

José Horta Manzano

A partir do começo dos anos 70, justamente quando a briga entre árabes e judeus começou a esquentar, os países produtores de petróleo se deram conta de que tinham nas mãos um fabuloso instrumento de pressão.

De repente, o planeta ficou sabendo que havia um organismo chamado Opep, fundado já em 1960. Até então, pouco se ouvia falar desse clube que reunia os grandes fornecedores do ouro negro.

O Brasil, cuja produção era pouco significante, passou a sofrer com a súbita elevação de preço do óleo bruto. O governo federal teve então um (raro) rasgo visionário. O país não podia continuar a depender de desentendimentos que se passavam do outro lado do planeta, desavenças que escapavam a seu controle. Era mais que urgente encontrar um substituto nacional para o produto importado.

Foi essa a agulhada que impulsionou a pesquisa acelerada e que, em pouco tempo, elevou a produção brasileira de álcool combustível a níveis comercialmente viáveis.

O novo líquido não tinha a mesma eficiência da gasolina, mas, de certa forma, liberava o País da dependência total dos grandes produtores. A importação continuou ― continua até hoje ― mas em escala bem mais modesta.

Foram logo lançados os primeiros automóveis com motor apto a digerir o novo carburante. O nome químico é algo pomposo: álcool anidro ou álcool etílico. Mas o povo tratou logo de acabar com essa reverência toda. Desde o primeiro dia, todos chamaram a novidade simplesmente de álcool. Quando o cidadão encostava seu veículo junto à bomba, o frentista costumava perguntar: «álcool ou gasolina?».

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Alcool 3

 

No dia 8 de março de 2007 ― está para fazer 6 anos justamente estes dias ― o presidente dos Estados Unidos, um certo George Bush (o filho), já no apagar das luzes de um mandato pra lá de criticado, fez uma rápida visita ao Brasil. Quem quiser rememorar a ocasião, que releia a reportagem da Folha de São Paulo daquele dia.  Nota: a releitura não é obrigatória.

Dizem as más línguas que George W., quando jovem, tinha uma certa quedazinha pelo álcool. Nunca me encontrei com o figurão pessoalmente, portanto não tive ocasião de fazer-lhe a pergunta diretamente. Fico-lhes devendo a  confirmação.

Não sei se terá sido para poupar más recordações ao visitante ou se alguma outra absconsa razão terá influído. O fato é que, a partir daquele exato dia, nosso álcool combustível mudou de nome. Passou a chamar-se etanol.

A etimologia e a história das línguas me atraem muito. Em tudo o que li até hoje, nunca ouvi falar de uma palavra que tenha sido espontaneamente banida e substituída por outra em 24 horas. E de maneira peremptória. Merecia até entrar para o Livro Guinness de Recordes.

Se alguém tiver alguma ideia, que se manifeste, por favor.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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