Não me esqueçam!

José Horta Manzano

O senhor Julian Assange, nome meio esquecido ultimamente, está mofando há dois anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres.

by Patricia Storms, desenhista canadense

by Patricia Storms, desenhista canadense

Sabe-se lá por que razão, o gajo decidiu um dia subir ao telhado e gritar ao mundo o que o mundo já sabia. Contou que agências americanas bisbilhotavam a vida e a obra de gente importante e de empresas relevantes. Por malícia ou por ignorância, nada disse sobre agências de outros países.

O primeiro caso de espionagem se deu quando um agrupamento de neandertais sofreu a primeira cisão, indo cada subgrupo morar em caverna própria. A partir do dia seguinte, cada grupo designou emissário para, discretamente, inteirar-se do que estava acontecendo na caverna rival.

E assim continua até hoje. Todos espionam todos. Marido e mulher, pais e filhos, chefes e subordinados, bandoleiros, seitas religiosas, partidos políticos. E, com maior razão, países. Democráticos, comunistas, fascistas, autoritários, liberais, republicanos, monárquicos ― todos os países se espionam entre si. Na medida dos interesses de cada um e, é claro, de suas possibilidades.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

É altamente improvável que agências americanas sejam as únicas interessadas em abelhudar altas esferas brasileiras. Não precisa ser formado em contraespionagem para imaginar que russos, chineses, argentinos, britânicos, alemães, franceses também tentem colher informações sobre o que se passa em Tupiniquínia.

Bom, eu disse tudo isso para reafirmar que, ao dar com a língua nos dentes, o senhor Assange não disse nada de extraordinário. Todos fizeram cara de espanto e ar de melindre, mas era ― ou deveria ter sido… ― só pra inglês ver.

Depois de dois anos sem botar o nariz fora do imóvel onde se encontra, é compreensível que Assange esteja à beira de um ataque de nervos. Como bom súdito da Coroa, ele sabe que as autoridades britânicas não costumam largar o osso. Uma vez que decidiram negar-lhe salvo-conduto e vigiar a saída da embaixada 24 horas por dia, irão até o fim.

Outro dia, o refugiado bateu um papo telefônico com um jornalista do Estadão. Percebendo que, no Brasil, alguns ainda se lembram dele, decidiu requentar o prato já servido dois anos atrás.

Para botar medo nas autoridades brasileiras ― e tentar, quem sabe, cavar uma oferta de asilo ―, ressaltou o fato de que «os EUA são capazes de cortar o Brasil do resto do mundo em qualquer momento que queiram». É grande o risco de sua advertência cair em ouvidos de mercador.

EspiãoEm primeiro lugar, porque é de conhecimento geral que o grosso das telecomunicações planetárias transita pelos Estados Unidos. Assim é e assim continuará a ser. Não faz sentido instalar centenas de cabos submarinos para ligar o Brasil diretamente a cada país.

Em segundo lugar, porque o refugiado agita espantalho na hora errada. Período eleitoral não é momento adequado para esse tipo de polêmica.

Em terceiro lugar, vem a razão mais importante. O Brasil não precisa de interferência dos EUA para desligar-se do mundo. Nosso governo federal, com a inestimável ajuda dos aspones que cuidam de nossa diplomacia, já está cuidando, faz anos, de apequenar nossa importância na cena planetária. Mais alguns anos, conseguirão.

Thank you anyway, Mr. Assange. Valeu!

Comparecimento imediato

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, quem sai fora da linha não arrisca muito. Tendo um bom advogado e alguma folga financeira, aí então é moleza. Na falta de dinheiro, o apoio de uma ong qualquer também funciona.

Habeas corpus, prisão domiciliar, regime semiaberto, recursos, chicanas, entrevistas à mídia, protestos, faixas, passeatas contam-se aos montes. Até pedido de asilo político em consulado do Uruguai anda na moda. Cadeia é mesmo só pra pobre desdentado. Gente fina sempre dá um jeito.

Em outras partes do mundo, a coisa não funciona exatamente assim, que lugar adequado para quem afronta a lei é cadeia.

Um grupo havia solicitado à polícia francesa autorização para organizar uma manifestação em solidariedade com o povo palestino. As autoridades não deram permissão. Os manifestantes resolveram passar por cima e sair em passeata assim mesmo. Foi em Sarcelles, arredores de Paris, domingo passado.

Manif 2O que tinha de acontecer, aconteceu. Elementos perturbadores infiltraram-se na passeata e transformaram o cortejo pacífico em manifestação violenta. Vitrinas quebradas, lojas saqueadas, degradação de patrimônio público.

Tivesse ocorrido em nosso País, teria dado em nada. Ultimamente, os deveres andam meio esquecidos ― só valem os direitos. A expressão violenta da opinião de uns poucos tem prioridade sobre o direito à paz e à tranquilidade de que a esmagadora maioria de cidadãos deveria poder gozar.

Na França, tem disso não. A polícia deteve 18 arruaceiros. Foram divididos em grupos, conforme o delito cometido. Os primeiros foram apresentados à Justiça num procedimento dito de comparution immédiate ― comparecimento imediato. Essa fórmula é frequentemente utilizada em caso de pequenos crimes.

Os quatro primeiros foram julgados e condenados já na terça-feira, dois dias depois do tumulto. Três deles pegaram pena de dez meses de prisão ― os quatro primeiros meses em regime fechado e os seis últimos no semiaberto.

Não há consulado do Uruguai em Sarcelles. Nem que houvesse, não adiantaria nada. Preso político é uma coisa, baderneiro é outra.

A ousadia

José Horta Manzano

Ainda que muitos não liguem a mínima pra isso, bato pé firme: não aceito que o meu País se transforme em esconderijo de bandidos, fugitivos de Justiça ou párias internacionais. Já bastam nossos bandidos, nossos fugitivos de Justiça e nossos párias nacionais. Já temos Dirceus e Malufs em quantidade suficiente. Chega, obrigado.

Uma coisa é dar abrigo a perseguidos por razões de raça, de etnia, de religião, de orientação sexual, de opinião política. Outra coisa, bem diferente, é acolher bandidos e fugitivos de Justiça. Coração de mãe não é covil de malfeitores.

Interligne 28a

O Brasil mudou muito de uns 5 ou 6 anos pra cá. A economia já não vai tão bem quanto ia, é verdade. Apesar disso ― ou, talvez, por causa disso ― o povo parece ter aberto um olho. Se a proposta de acolher uma futura Copa do Mundo tivesse de ser tomada agora, em 2014, é duvidoso que fosse aceita.

Briga 2O povo descobriu que tem dirigentes. E os dirigentes se deram subitamente conta de que não vivem em círculo fechado. Perceberam que têm um povo por detrás e que essa gente pode até ― ora, vejam só! ― cobrá-los por seus feitos e malfeitos. Francamente, o mundo está de ponta-cabeça.

Pela primeira vez na história dos campeonatos mundiais de futebol do pós-guerra, o Chefe de Estado do país-sede não dirige palavras de boas-vindas aos participantes. Nada, nenhuma saudação! Três pombas se encarregaram de acolher zilhões de telespectadores de olho colado na telinha. Que vexame! Podiam ao menos ter integrado no magro espetáculo de dança uma coreografia de saudação ao mundo. Ficou demonstrado que nossos dirigentes temem o povo.

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Que é que tem acontecido no mundo? No plano internacional, Chávez desceu sete palmos, Ahmadinedjad foi varrido pra fora da arena e nossos belicosos vizinhos de parede ― atolados em problemas ― andam meio apagados. Do lado de cá das fronteiras, o Lula se foi, o Amorim foi mandado pra escanteio, o ‘top top’ Garcia se recolheu à sua insignificância. Dona Dilma está mais é preocupada em se manter de pé num momento em que todos tentam puxar-lhe o tapete.

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O nome do senhor Glenn Greenwald, empresário, advogado e jornalista americano, é bastante conhecido no Brasil. Todos o conhecem por ter anunciado ao mundo que os EUA tinham meios de espionar o planeta.

Briga 3Não foi, digamos assim, uma revelação de capital importância. Todos já sabiam disso. Há certas verdades sobre as quais é melhor manter a boca calada. Sabe Deus por que razão, Greenwald passou por cima dessas conveniências. Julgando-se dono da virtude, houve por bem botar a boca no trombone e proclamar bem alto o que todos já sabiam. Causou alguma marolinha, mas nada que abalasse o equilíbrio do planeta. O maior prejudicado foi ele mesmo.

O que menos gente conhece é o passado errático, movimentado e sulfuroso do jornalista. Poucos sabem que já foi até proprietário de um site pornográfico ― atividade pra lá de malvista em sua terra de origem. E que não se justifique como «erro de juventude»: foi 12 anos atrás, quando o advogado já tinha 35 aninhos. O gajo é useiro e vezeiro em matéria de desacato a seu próprio país.

Interligne 28a

O senhor Greenwald concedeu entrevista estes dias ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Ele reivindica que o Brasil dê asilo a Snowden ― aquele maluquinho que andou roubando informações secretas de seu país e, procurado por todas as polícias do mundo, há um ano se encontra encurralado nas estepes russas.

A certa altura, o jornalista preconiza que o Brasil ofereça abrigo a Snowden. Segundo ele, «o Brasil não deve ter medo de deixar os EUA zangados, e acho que qualquer país independente vai acolher o Snowden. Na Europa, os países são muito submissos aos EUA e jamais vão fazer algo que os EUA não queiram. A questão é se o governo brasileiro é independente, mesmo.»

Briga 4Inacreditável! Um estrangeiro atreve-se a lançar desafio às autoridades brasileiras! Justamente um forasteiro que vive em nosso território em situação análoga à de um asilado ― não ousa voltar à sua terra por medo de ser preso.

A que ponto chegamos! A escalada da agressividade continua. Hoje, qualquer um xinga a presidente da República, ameaça de morte o presidente do STF, acusa a Justiça de parcialidade, destrói patrimônio público ou privado, e fica por isso mesmo.

Agora temos o que faltava. Um estrangeiro, que, embora esteja sendo aqui acolhido «de favor», ousa desafiar as mais altas autoridades da República com algo do tipo «vamos ver se você é homem».

É insuportável.

Dar asilo aos perseguidos

José Horta Manzano

Alimentar quem tem fome, agasalhar quem tem frio, consolar os que choram, proteger os indefesos, abrigar os perseguidos. São princípios universais, base de toda sociedade organizada e termômetro de seu grau de civilização.

O Brasil está rodeado de vizinhos estranhos e imprevisíveis. Alguns até violentos. No tempo em que cada país vivia fechado em seu universozinho, sem grande contacto com o exterior, vizinhos tinham pouca importância. Mas a roda girou e a ordem mundial se alterou.

Com a melhora nos transportes e nas comunicações, a proximidade geográfica passou a ter maior significado nas relações entre os povos. Cinquenta anos atrás, uma viagem internacional ― fosse ela a Assunção ou a Bruxelas ― causava o mesmo pasmo. Era assunto para relatos que duravam meses, anos até. Hoje não é mais assim. A proximidade dos vizinhos tem assumido importância crescente.

Se é um bem ou um mal? Pois não me parece nem um nem outro. É da vida. Tendemos todos a ter mais intimidade com o vizinho de parede do que com o que vive na rua de baixo. E a recíproca é verdadeira: nossos vizinhos também nos veem, mais e mais, como gente digna de atenção e de respeito.

Foi nessa continuidade histórico-política que um senador boliviano, perseguido pelo governo de seu país e sentindo-se por ele ameaçado, buscou asilo na embaixada do Brasil em La Paz. Causou rebuliço em nosso governo popular. Por um lado, princípios universais de convivência ensinam que se deve dar asilo aos perseguidos. Por outro, dar proteção a um desafeto de governante amigo pode ser interpretado como afronta. Que fazer?

Oficialmente, nada se fez. Brasília escudou-se detrás de desculpa cômoda: o governo boliviano se negava a conceder salvo-conduto para o asilado abandonar o país em segurança. No entanto… por baixo do pano, as coisas não se desenrolavam exatamente assim.

Não tivesse a notícia sido publicada pelo Estadão, em sua edição de 14 fev°, não seria de acreditar. Se você não leu, não perca: é edificante. Clique aqui. Sabemos agora que, logo que o senador bateu à porta de nossa embaixada e lá foi acolhido, Brasília e La Paz entabularam tratativas para resolver o problema de maneira indolor para os dois governos e, se possível, infernizando e desgraçando a vida do ousado parlamentar.

O plano era remover de nossa embaixada o refugiado incômodo, instalá-lo num avião venezuelano e despachá-lo para a Venezuela de Chávez ou para a Nicarágua de Ortega ― gente notoriamente confiável e amiga. Para coroar o cenário de sórdida deslealdade, o senador não deveria ser informado do destino final de sua viagem.

Dois motivos impediram o sucesso da infame operação. Primeiro, o asilado não concordou em embarcar num voo de destino ignorado. Segundo, Chávez, apesar do desvelo do ápice do suprassumo da quinta-essência da superior medicina cubana, faleceu. E a urdidura secreta foi por água abaixo. O senador teve de ser resgatado pela compaixão de um funcionário de nossa embaixada, que arriscou seu futuro profissional na empreitada.Roger Pinto 2

O senador refugiado sobrevive hoje em Brasília no quarto de empregada ― perdão! ― no quarto de auxiliar de serviços domésticos do apartamento de um senador brasileiro. É cômodo sem janela, de uns 5 metros quadrados, onde não cabe nem criado-mudo.

É inconcebível que nossos governantes, que, em nome do Estado brasileiro, deram refúgio na embaixada ao político perseguido, não lhe proporcionem o alojamento e a proteção que lhe são devidos. Mais inexplicável é o fato de o terem acolhido em La Paz e de se recusarem agora a confirmar-lhe asilo em território nacional.

Melhor teria feito o señor Molina se tivesse procurado a embaixada de um país civilizado. Fez mau negócio, o infeliz parlamentar.

Copas e Jogos Olímpicos podem servir para anestesiar o distinto público interno. Casos como o do senador boliviano corroem a imagem de nosso país no exterior. É pena.

Cala a boca

José Horta Manzano

Ramona Rodríguez Crédito: José Cruz, ABr

Ramona Rodríguez
Crédito: José Cruz, ABr

Sonia Racy nos dá notícia, por seu blogue alojado no Estadão, das últimas peripécias da señora Rodríguez. Falo de dona Ramona, aquela sui-generis missionária cubana que, algum tempo depois de chegar ao Brasil no bojo da importação de pessoal médico de Cuba, renegou o trato e postulou asilo nos EUA.

O escândalo que se esboçava era grande demais. Não era caso pra ficar sentado esperando o que ia acontecer. Nossos governantes ― respeitados mestres na arte de amansar adversários, oponentes e inimigos ― agiram rápido. Deram-se conta de que um providencial emprego se encontrava justamente vago, na administração da Associação Médica Brasileira. Ora, veja você que feliz coincidência!

O posto foi imediatamente proposto a señora Rodríguez O salário? Pode ser que um dia o distinto público fique sabendo. O que não saberemos nunca é o valor que esse cala-boca terá custado ao bolso do contribuinte brasileiro. Não é com qualquer dez merréis que se faz alguém desistir de um asilo nos EUA.

Frase do dia — 100

«Há milhares de cubanos no Brasil com olhos, ouvidos e corações ligados nessa aventura, por ora solitária, de Ramona. Se ela tiver êxito ― e a condições são favoráveis ―, poderá servir de exemplo e criar uma legião de desertores do Mais Médicos. Uma tragédia política para o governo.»

Eliane Cantanhêde, jornalista, em sua coluna da Folha de São Paulo, 7 fev° 2014.

O teste

José Horta Manzano

Os milhares de médicos importados de Cuba são, evidentemente, seres humanos como todos nós. Têm qualidades, defeitos, riem, choram, comem, dormem, exatamente como o resto da humanidade. Não são autômatos.

Para alcançar a graça de ser enviado ao estrangeiro por um período, o profissional cubano tem de dar a seu governo escravocrata alguma garantia de que vai cumprir a «missão» abnegadamente e, principalmente, de que vai voltar à miserável ilha. Em resumo, o missionário pode partir desde que um cordão umbilical o mantenha atado à terra de origem.

O espírito caritativo dos Castros é enorme, mas tem seus limites. Os bondosos irmãos estão de acordo em arrendar a países estrangeiros o serviço de seus cidadãos. Contudo, entregar seus profissionais assim, de mão beijada, ah, isso não!

Solidariedade mercantil à cubana é mais mercantil que solidária. Funciona assim: eu te empresto contra remuneração. De graça, não te dou nada. E não te esqueças de minha (polpuda) comissão.

Solidaridad... pero no mucho

Solidaridad… pero no mucho

Até que demorou, mas era inevitável: a primeira defecção acaba de acontecer. Trata-se de uma corajosa profissional despachada para exercer seu ofício no interior do Pará. Não há de ser uma adolescente descabeçada: exerce a medicina há 27 anos. Apesar de ter deixado uma filha na ilha-prisão, deu o passo arrojado: escapuliu de seu cativeiro amazônico e buscou refúgio em Brasília, junto a um dos (raros) partidos de oposição.

Pode até parecer estranho. Em princípio, pedidos de asilo costumam ser apresentados a autoridades alfandegárias ou policiais. Nossa valente profissional, que já deve ter-se dado conta de como as coisas funcionam no País, achou melhor evitar esse caminho. É possível que tenha tido notícia do caso dos esportistas desertores que foram despachados de volta a Cuba em 2007. Melhor evitar esse risco.

Fez bem a doutora. Cuba é um dos 58 membros fundadores da Organização das Nações Unidas. Em 1948, a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, válida para todos os seus membros. O Parágrafo 2 do Artigo 13 do documento reza: «Toda pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar a seu país». Mais claro, impossível.

Essa primeira deserção ocorre num momento delicado e tem valor de teste. O momento é sensível porque, pouco a pouco, os olhos do planeta começam a se voltar para o Brasil por causa da copa que vem aí. O tratamento que for dado a esse primeiro pedido de asilo vai ter eco planetário.

Demorou, mas chegou a hora do vamos ver.

Imigrante não se engana

Janer Cristaldo (*)

Ano passado, me escrevia um leitor: “às vezes dá vontade de ir embora deste país. Afinal, Janer, se você pôde viver em Paris, Madri e Estocolmo, por que decidiu voltar para esta terra de apedeutas, comunistas, fanáticos, et caterva?”

Expus minhas razões. Saí para não voltar. Não fui expulso do Brasil. Saí e voltei pela porta da frente. O que me irritava era aquela imagem de país do carnaval e do futebol. Em Ponche Verde, narro, em tom de ficção, minha resposta ao policial que me ofereceu asilo na Suécia:

― Ah! Então o senhor quer asilo político?

― Oh não, jag ska tacka nej(1), como pode muito bem ver Herr Konstapel(2), nesse formulário peço apenas uma permissão de estada, agradeço a generosa oferta, que aliás é pertinente. Meu país vive uma ditadura, sei disso, os dias não são os melhores para quem pensa e escreve o que pensa. Mas antes de fugir de ditaduras, Herr Konstapel, estou fugindo do país todo, fujo exatamente daquilo que para vossos patrícios é sinônimo de charme e exotismo, fujo do carnaval e do futebol, do samba e da miséria, da indigência mental e da corrupção, quero tirar umas férias do subdesenvolvimento, viver em um território onde o homem sofre os problemas da condição humana e não os da condição animal. Muito antes de os militares tomarem o poder, min Herr(3), eu já não suportava os civis.

Imigração 3― Veja o senhor, meu povo morre de fome e todos sorriem felizes e desdentados quando um time de futebol bate outro, se bem que a coisa não é assim tão tétrica como a pinto, veja bem, lá também existe luxo, requinte, hotéis que talvez fizessem inveja aos de vosso rico país, mansões de sonho isoladas da miséria que as envolve por arames farpados, guardas e cães, há cronistas sociais que acendem charutos com notas de cem dólares e homens catando no lixo restos de podridão para comer. E não fujo só do Brasil, Sr. Policial Superdesenvolvido, fujo também de minha condição de jornalista, pertenço a uma classe que se pretende de esquerda e entorpece multidões com doses cavalares de… futebol.

― Em minha cidade ― não sei se o chateio com estes dados ― há questão de uma década um sociólogo calculou em trinta mil o número de prostitutas, só não sei se havia repertoriado em suas estatísticas meus colegas de ofício. Penso até mesmo que a profissional de calçada tem mais dignidade, ela aluga por instantes o corpo, mantendo o espírito livre, enquanto nós vendemos corpo, alma e opiniões, o mais livre dos jornalistas não é livre coisa alguma, o jornal pertence ao chefe, nossos pensamentos também, os mais nobres ele os joga na cesta de lixo, publica os lugares comuns humanísticos na página dos editoriais e posa de liberal. Sim, sei que isto não vem caso neste pedido de permissão de estada, bosätningstillstand como dizem os senhores, é que para expor minhas razões tenho de dar-lhe uma idéia do Brasil, pretensão aliás inviável, já que nem eu entendo aquele país.

Imigração 2Acabei voltando, apesar do carnaval, copa e miséria. Em primeiro lugar, havia uma mulher que me chamava poderosamente no Brasil. Ela valia mais, para mim, que a Europa toda. Há quem troque uma pessoa querida por um país. Eu não troco.

Em segundo, os suecos me queriam para trabalho de imigrante, o que meu orgulho me impedia. Não lavo pratos nem em minha casa, não iria lavar pratos para o Primeiro Mundo. Disputei uma vaga como jornalista na Sveriges Radio. Tinha dois cursos universitários, dois anos de trabalho em jornal. A vaga é minha, pensei.

Não era. Eu não era de esquerda. Se não conseguia trabalhar em profissão decente, melhor voltar. Considero que ganhar pouco no Brasil em um trabalho compatível com as próprias capacidades é bem melhor ― e mais digno ― do que fazer tarefa de imigrante no estrangeiro, mesmo ganhando mais. Há quem prefira ganhar mais. Não é meu caso.

Em terceiro, em país estrangeiro, você será sempre um cidadão de segunda categoria, ainda que viva melhor que no Brasil. Sempre que criticar o país ― e críticas, você sempre as terá ― poderá ouvir de bate-pronto: por que então você não volta para seu país?

Havia uma outra razão, e das mais estranhas. Era como se eu necessitasse, naquele país habitado por deusas, de um pouco de feiura e imperfeição. Saudades de uma negra gorda carregando um balaio na cabeça. Nem sempre são inteligíveis os ímpetos que acometem um ser humano.

(*) Janer Cristaldo Ferreira Moreira (1947-), escritor, romancista, ensaísta e tradutor gaúcho. Edita o site cristaldo.blogspot.com

Dicas minhas:
(1) Jag ska tacka nej = Não, obrigado
(2) Herr Konstapel = Senhor Agente (de polícia)
(3) Min Herr = Meu Senhor

Frase do dia — 59

«Dentre os destinos possíveis para o americano desterrado, o Brasil desponta como ecossistema promissor. Afinal, é um portento entre os emergentes, democrático e dono de uma diplomacia independente. Respeita a liberdade de expressão e nutre um certo dissabor frente ao poderio americano. Tanto que o Palácio do Planalto parece até teleguiado por Snowden, que se manifesta pela caneta do jornalista Glenn Greenwald.»

Mac Margolis, colunista dominical do Estadão e editor do site Brasilinfocus.com, discorrendo sobre Mr. Snowden e a sinuca em que se meteu. In Estadão, 22 dez° 2013.

Observação natalina: neste começo de estação, a temperatura em Moscou anda anormalmente clemente: estacionou no zero grau faz alguns dias. Mas a previsão é de que, nas próximas semanas, volte ao costumeiro e desça uns 10 ou 15 graus. O inverno moscovita pode tardar, mas não falha nunca, que diabos!

Quem tem telhado de vidro…

José Horta Manzano

Anos atrás, quando autoridades italianas indicaram à PF que um certo Signor Battisti, foragido da Justiça daquele país, se encontrava vivendo ilegalmente no Brasil, nossa polícia não perdeu tempo: surpreendeu o indivíduo no Rio de Janeiro e o conduziu algemado a Brasília. Naquele momento, ninguém sabia, mas a ação espetaculosa não era mais que a primeira página de uma interminável novela. A lenga-lenga, recheada de altos e baixos, durou vários anos, envolveu advogados, parlamentares, a PF, o Ministério da Justiça, o STF, a presidência da República. Ninguém pode afirmar que tenhamos chegado ao ponto final. Não é impossível que o epílogo ainda esteja por escrever.

Tarso Genro, governador do RS by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

Tarso Genro, governador do RS
by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

Saíram todos chamuscados daquele execrável episódio. O prisioneiro, depois de viver encarcerado durante anos, em meio a incertezas, está marcado para o resto da vida ― onde quer que vá, será reconhecido e olhado com certa reserva. O ministro da Justiça da época, ao conceder asilo ao foragido, foi forçado a alegar que desconfiava da Justiça italiana, numa atitude arrogante que pegou muito mal. O STF, que empurrou a decisão final para a presidência da República, desagradou a muita gente. A decisão do presidente da República ― tornada pública no apagar das luzes do mandato ― que confirmou o asilo ao estrangeiro ornou a novela com fecho de ouro. As autoridades italianas devem ter saído enfurecidas, o que é compreensível.

Os anos passaram e o mundo girou. O processo do mensalão está chegando ao fim e cada condenado executa a pirueta que lhe parece mais conveniente. Uns dizem que não têm nada que ver com a história, que estavam de passagem. Outros alegam que foram julgados pela imprensa ― como se o julgamento não tivesse sido público e transmitido ao vivo por rádios e tevês. Há até guerrilheiros que, embora tenham empunhado armas e participado de guerrilha na selva, hoje derramam lágrimas que destoam da bravura que outrora exibiam.

by Dalcio Machado, desenhista paulista

by Dalcio Machado, desenhista paulista

Um dos condenados, talvez mais realista que os demais, não acreditou em Papai Noel. Perspicaz, deu-se conta, bem antes dos outros, de que o desfecho poderia não ocorrer em meio a gargalhadas em volta de uma pizza. Preparou minuciosamente sua fuga do País. Não está claro se Signor Pizzolato solicitou emissão de seu passaporte italiano antes do escândalo do mensalão. Pouco importa. O que importa é que, aos olhos da Itália, ele é um cidadão do país peninsular igual a todos os outros. Todo Estado civilizado costuma zelar por seus súditos.

Algum tempo atrás, as autoridades judiciais brasileiras exigiram, como medida de precaução, que todos os réus da Ação Penal 470 consignassem seu passaporte. Signor Pizzolato fez mais que os outros: entregou dois, o brasileiro e o italiano. Fechadas, como de costume, sobre si mesmas e pouco afeitas a práticas internacionais, as autoridades de Brasília foram dormir tranquilas. Um homem sem passaporte não pode viajar, devem ter pensado.

Se o olhar de nossas sumidades fosse um pouco além de seu próprio umbigo, saberiam que um cidadão estrangeiro cujo passaporte tiver sido confiscado pode solicitar um novo, desde que não esteja sendo procurado pela polícia de seu próprio país. Era exatamente o caso de Signor Pizzolato. Bastou-lhe comparecer a um consulado italiano e requerer um novo passaporte.

Alberto Alpino, desenhista capixaba

by Alberto Alpino, desenhista capixaba

Imaginam muitos que o fujão tenha passado por peripécias semelhantes às do senador boliviano que viajou clandestinamente de La Paz até o Mato Grosso. Pois eu não vejo a coisa assim. Não tenho como provar, mas tudo me diz que, ao deixar definitivamente sua cobertura em Copacabana, o réu fugido já levava no bolso o documento que lhe permitiria viajar para onde quisesse. Atravessar a fronteira entre o Brasil e qualquer um de seus vizinhos é moleza. Em numerosas cidades de fronteira, no Rio Grande por exemplo, a divisa entre dois países é representada por uma avenida. Atravessada a rua, é fácil chegar a Buenos Aires, de onde partem diariamente voos para Roma e para Milão. Elementar, meu caro Watson.

Agora é que chega a hora de a porca torcer o rabinho. A malandragem demonstrada pelo Planalto no caso Battisti ainda é muito recente. Os personagens estão vivos e na ativa, todos se lembram. Esperar grande empenho por parte de Roma é ilusão. O fato de o Brasil dar guarida a um condenado por envolvimento em quatro assassinatos pegou muito, muito mal na Itália. Será praticamente impossível reaver o cidadão italiano Pizzolato, cuja ficha, em terra itálica, está limpa.

Os italianos, que residam na Itália ou no estrangeiro, estão inscritos no registro do município onde vivem ou ao qual estão ligados. Esse banco de dados leva o nome de anágrafe. As autoridades italianas sabem perfeitamente onde vive Signor Pizzolato. Daí a transmitir a informação às autoridades de Brasília são outros quinhentos. Quem tem telhado de vidro…

De asilo & de embaixadas

«Em junho de 1957, Juscelino nomeou embaixador em Portugal o inesquecível pernambucano Álvaro Lins, dos nossos maiores intelectuais.

Em janeiro de 1959, Álvaro deu asilo na embaixada ao general Delgado, que Salazar queria matar porque Delgado tinha saído candidato a presidente da República. Salazar ameaçou invadir a embaixada. Álvaro Lins resistiu. Quando o general deixou a embaixada para disputar, Salazar o matou.

Serra, Weffort, Teotônio Santos, Cesar Maia, José Maria Rabelo, tantos poderiam ter sido mortos no Chile se não tivessem tido asilo dos EUA, da França, da Alemanha, do México contra Pinochet que poderia matá-los. Metade do governo Dilma não existiria se não houvesse asilo político.

Dilma não pode desmoralizar a tradição de asilo do Brasil, punindo o bravo embaixador Saboia, que salvou a vida do senador Molina, só para atender a um presidente que na Bolívia é chamado Evo “Imorales”.»

Do blogue do jornalista Sebastião Nery.

Infeccionou de vez

José Horta Manzano

A Folha de São Paulo deste 3 de setembro traz excelente análise de João Paulo Charleaux, jornalista e bacharel em Comunicação Social, sobre a situação legal do senador boliviano que passou quase um ano e meio na embaixada do Brasil em La Paz.

Bem a o estilo English for beginners, o artigo deixa clara a distinção entre refúgio e asilo. O asilo é um caminho curto, sem paradas intermediárias. Sua concessão é prerrogativa da presidência da República. O refúgio segue uma via bem mais tortuosa, com intervenção de várias instituições. Periga demorar muito tempo para ser concedido.

Talvez por desconhecerem essa sutil diferença, os que organizaram a fuga do senador fizeram que ele assinasse um pedido de refúgio. O que está feito, está feito. A máquina foi posta em marcha e o trem tem de ir até o fim da linha.

Segundo a análise do jornalista, uma coisa é certa: o senador não poderá ser devolvido à Bolívia. Já é uma notícia tranquilizadora.

Agora infeccionou

José Horta Manzano

Dilma e Evo passaram uma hora conversando sobre a situação criada pela entrada no Brasil do senador boliviano. Falo daquele que ― como um verdadeiro super-homem ― escapuliu de La Paz, atravessou milhares de quilômetros de Bolívia, enfrentou numerosas barragens policiais, transpôs uma fronteira internacional, tomou emprestado um avião e chegou a Brasília, o ninho da águia. Uma odisseia! E nosso improvisado James Bond fez tudo isso com a cumplicidade de uma única pessoa: um singelo encarregado de negócios, que deve ter um coração grande assim, ó.

Enfim, eu dizia que Dilma e Evo confabularam durante uma hora inteira sobre o caso. Ignoram que, ao telefone, se podem dizer as mesmas coisas. Preferiram abandonar por um momento a ultrarrelevante cúpula da Unasul. Quanto jogo de cena!

Crianças de 7 anos carregam hoje no bolso um telefone. Faz 120 anos que palácios presidenciais são dotados do aparelhinho mágico que permite, sem necessidade de levantar do trono, conversar com mandarins do outro lado do planeta. Alguém já fez as contas de quanto custa à população brasileira uma hora de ― vá lá o termo ― trabalho da presidente da República?

Dilma e Evo, dois evidentes amadores, não aprenderam a lição ancestral que os avós de nossos avós já conheciam: mais vale prevenir que remediar. Desde o momento em que o senador bateu às portas da embaixada do Brasil e lá se refugiou, tiveram quase um ano e meio para tramar. Inexperientes e ingênuos, foram deixando para lá, acreditando que o tempo se encarregaria de resolver o assunto. Quem é que gosta de enfrentar problema espinhoso, não é mesmo?

Dilma e Evo

Dilma e Evo

Imaginaram que, como joelho infantil esfolado, a situação se resolveria por si mesma. Não aconteceu. Adubada pela incapacidade dos que podiam tê-la curado meses antes, a ferida se arruinou.

Cansados de suportar a inércia de mandachuvas imprevidentes, alguns resolveram agir por conta própria. Seria cômodo vender a fábula de que o pequeno encarregado de negócios ― que nem embaixador é ― tenha podido arquitetar sozinho a logística dessa peregrinação de La Paz a Brasília, coisa de filme de suspense. Acredite quem quiser.

Seja como for, agora chegou a hora, não dá mais pra esperar. A porca está torcendo o rabo. Infeccionada, a ferida já está. Antes que sobrevenha a septicemia, há que agir. Mas… fazer o quê? Qualquer solução será ruim.

O Conare não é órgão decisório, mas apenas consultativo. Asilos são concedidos, como se viu no caso Battisti, pelo ministério da Justiça, atrás do qual está o Planalto. Se asilo definitivo for concedido ao senador, o companheiro Evo pode ficar muito contrariado. E isso pode arranhar a coesão da potência bolivarianopetista que o Brasil e seus comparsas estão tentando edificar. A importância da Bolívia no subcontinente é tão enorme, como sabem todos, que sem ela nada se construirá. Melhor não desagradá-la.

Por outro lado, se o Planalto deixar de conceder asilo ao senador, um outro país qualquer lhe abrirá as portas. Pode até ser que o império o acolha! Senhor, que humilhação! Se acontecer algo do gênero, é a imagem do subcontinente inteiro que vai escorrer pelo ralo. Continuaremos a ser vistos como um bando de cucarachas que não conseguem resolver seus problemas civilizadamente. Um golpe sério para nós. O mundo vai voltar a nos enxergar como um punhado de republiquetas bananeiras, uma caterva de imaturos politicamente incapazes.

Agora infeccionou. Que fazer?

Se segura, Rogério!

José Horta Manzano

Das duas uma: ou nossa presidente é uma excelente atriz ou de fato está furibunda. Ela terá suas qualidades ― todos temos alguma ―, mas a sutileza não faz parte de seu arsenal. Portanto, o ritmo frenético com que anda disparando sua metralhadora giratória no caso do senador boliviano tende a indicar que dona Dilma esteja realmente encolerizada.

Tivesse agido com tanta firmeza desde o começo, todos esses aborrecimentos teriam sido evitados. Ela tinha a faca e o queijo na mão. Um bom acordo de bastidores é sempre preferível a essa exibição de trapos coloridos. Roupa suja, já diziam os antigos, convém lavar em casa. E de portas e janelas fechadas, de preferência.

Tentação Crédito: Carol Parrish

Tentação
Crédito: Carol Parrish

Vamos supor que a fúria de nossa mandachuva seja verdadeira, que não se trate de encenação para a galeria. Se assim for, o que salta à vista é a incompetência da própria presidente. Em vez de atacar o problema de frente, deixou que o galo fosse cozinhado em água fria durante mais de um ano. Ela hesitou, hesitou, e não foi capaz de desatar o nó. Há de ter balançado entre o apreço pelo companheiro bolivariano Evo e uma vaga e incômoda obrigação de respeito aos princípios universais do asilo.

Terá sido necessário que terceiros tomem a decisão em seu lugar. Caiu muito, muito mal. E a emenda está saindo pior que o soneto. A presidente demitiu sumariamente o ministro das Relações Exteriores. Ressalte-se que o homem tinha sido nomeado por ela mesma. Portanto, a presidente se desautoriza a si mesma. Ou não?

A presidente barrou a remoção ― que soava mais como promoção ― do embaixador do Brasil em La Paz. O homem estava de malas prontas para Estocolmo. Ressalte-se que dona Dilma já havia aprovado a troca de cadeiras. Preferiu melar a transferência. De novo, deu provas de ser criatura hesitante ou, pior, vingativa.

Senador Roger Pinto

Senador Roger Pinto

Em resumo, se entendi bem, todos os auxiliares diretos da presidente, justamente aqueles que tinham sido escolhidos pessoalmente por ela, estão errados nesta história. Quando todos a seu redor estiverem errados e só você estiver certo, é bem mais provável que errado esteja você.

Não se nomeia um ministro nem se designa um embaixador sem o beneplácito do presidente da República. Se esses funcionários executarem mal seu trabalho, não é possível escapar de uma conclusão lógica: a responsabilidade recai sobre quem os nomeou, ou seja, o próprio presidente. Nossa Constituição (ainda) não contempla a figura do autoimpeachment. Que não seja por isso. A renúncia ao mandato é direito inalienável de todo presidente ― aliás, há um precedente. No presente caso, renunciar teria sido mais digno que cortar cabeças alheias.

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Mas a novela não acabou, ainda faltam alguns capítulos. O chefe da Advocacia-geral da União (AGU) informou que o senador boliviano Roger Pinto ainda não passou pelo exame de admissão do asilado modelo. Diferentemente dos médicos cubanos, que furaram a fila e já desceram do avião vestindo jaleco, o senador ainda tem atribulações pela frente. Quem mandou fazer oposição ao companheiro bolivariano?

O chefe da AGU declarou que a decisão final sobre a concessão de asilo político depende do… Ministério da Justiça. Ai, ai, ai. Ainda está fresca, na memória coletiva dos brasileiros, o desastrado vaivém que envolveu o caso Battisti.

O senador boliviano não tem sangue nas mãos nem foi condenado pela Justiça de seu país. A priori, portanto, não preenche as condições básicas para obtenção do estatuto de asilado, segundo a lógica vigente atualmente no Planalto. Suas chances são, portanto, estreitas.

Esta novela ainda vai dar pano pra mangas. Se segura, Rogério!

Jogo de cena ― Capítulo 2

José Horta Manzano

Brasil-Bolívia fronteira

Brasil-Bolívia fronteira

Minha curiosidade começa a ser satisfeita. Como eu previa (cf. meu post Jogo de Cena de 25 ago 2013), apareceu uma rocambolesca explicação. Acredite quem quiser.

Segundo o relato, a iniciativa de remover o senador boliviano de seu asilo precário na embaixada do Brasil em La Paz foi tomada pelo próprio chefe daquela representação diplomática. Com que então, o homem mandaria às favas seu futuro profissional ― por sua própria decisão ― para arriscar-se numa missão digna de James Bond? Acredite quem quiser.

Muito oportunamente, o embaixador tinha sido chamado ao Brasil. Os negócios estavam sendo tocados por um funcionário menor. Foi deste último a iniciativa de organizar a retirada do senador. Logo, ninguém poderá jamais acusar um diplomata de alto coturno de comportamento inadequado. A imagem do Itamaraty está salva e continua imaculada. Acredite quem quiser.

Bolívia - alfândega

Alfândega boliviana

Segundo o Estadão, o comboio viajou 22 horas, passou por cinco controles militares(!) e atravessou a fronteira. Tudo isso sem que ninguém desconfiasse de nenhuma anormalidade. Acredite quem quiser.

Assim que o grupo chegou a Corumbá, o diplomata brasileiro que chefiava a comitiva não se preocupou em alertar seus superiores. Preferiu procurar diretamente um parlamentar, o senador brasileiro Ferraço. Juntos, tentaram desesperadamente encontrar o presidente do Senado. Sem sucesso. Logo, ninguém poderá jamais suspeitar que o Itamaraty ou o presidente da câmara alta estivesse a par do que se tramava. Acredite quem quiser.

Ao inteirar-se do que havia ocorrido, a chancelaria boliviana acionou a Interpol. Naturalmente, só fizeram isso depois de certificar-se de que o senador havia de fato transposto a fronteira. Acredite quem quiser.

Candidamente, nosso chanceler Patriota faz saber que, nos bastidores, já se confabulava havia tempos, com vistas a uma «saída discreta». Não precisava nem dizer. Taí o resultado.

Brasil-Bolívia transporte

Transporte Brasil-Bolívia

Daqui a algumas semanas, ninguém mais se lembrará do caso. O senador boliviano viverá meses tranquilos em nosso território até que um novo golpe derrube o regime bolivariano de Evo. Vale lembrar que, considerando unicamente o século XX, mais de 15 presidentes (ou ditadores) bolivianos foram derrubados por golpes de Estado. Nas Américas, só o instável Haiti fez mais.

De tudo isso, fica uma evidência: apesar das aparências, as altas esferas do Planalto não estão total e automaticamente alinhadas com La Paz. Ainda restam alguns habitantes do andar de cima não contaminados pelo bolivarianismo. É notícia boa e importante.

Sintonia com o 13 de maio

José Horta Manzano

A pluma crítica do arguto Elio Gáspari assesta, este domingo, um tiro certeiro na promiscuidade, cada dia mais visível, entre o atual governo brasileiro e a dinastia cubana. Sinto-me extremamente honrado de fazer parte do mesmo clube que o grande jornalista da Folha.

Com um tom bem menos aveludado que o meu, Gáspari vai direto ao ponto. Aqui está um excerto do artigo:

Interligne vertical 10«O ADVOGADO-GERAL DE FIDEL CASTRO

O doutor Luís Inácio Adams informou que os médicos cubanos que vêm para o Brasil não terão direito a asilo político caso queiram se desvincular da ilha comunista. Nas sua palavras: “Me parece que não têm direito a essa pretensão. Provavelmente seriam devolvidos”.

Num país que teve um presidente asilado (João Goulart) e centenas de cidadãos protegidos pelo instituto do asilo, Adams nega-o, preventivamente, a cubanos. Isso numa época em que o russo Vladimir Putin concedeu asilo a um cidadão acusado pelo governo americano de ter praticado crimes e a doutora Dilma tem um asilado na embaixada brasileira em La Paz. Noves fora a proteção dada a Cesare Battisti, acusado de terrorismo pelo governo italiano.

A tradição petista vai na direção desse absurdo. A Polícia Federal já deportou dois boxeadores cubanos durante a gestão do comissário Tarso Genro no Ministério da Justiça. (Eles foram recambiados e fugiram de novo.)

O próprio governo castrista já permitiu a saída de cidadãos para a Espanha. A vigorar a Doutrina Adams, o Brasil transforma-se numa dependência do aparelho de segurança cubano.»

A sequência está na Folha de São Paulo de 25 ago 2013.

Jogo de cena

José Horta Manzano

Todos já ouviram falar no drama do senador boliviano que, ameaçado pelo governo do folclórico e bolivariano Evo, tinha solicitado asilo à embaixada do Brasil em La Paz faz mais de um ano. Ao ligar o rádio, a tevê ou a internet neste domingo, todos ficarão sabendo que o homem passou a fronteira e se encontra em território brasileiro. Melhor assim.

O círculo mais próximo do senador garante que ele concederá à imprensa uma entrevista coletiva na segunda-feira 26 de agosto. O Itamaraty preferiu não comentar o assunto. O governo boliviano fechou-se num silêncio ensurdecedor.

Seja o que for que disserem ― antes, durante e depois da entrevista do senador ― nós, meros mortais, jamais saberemos exatamente o que aconteceu. Alguma historinha rocambolesca terá de ser costurada, naturalmente, para tirar todo resquício de responsabilidade das costas das autoridades bolivianas e das brasileiras. Mas eu não poria a mão no fogo sobre a veracidade do relato que está por vir.

Vigiar uma embaixada e impedir a entrada ou a saída de alguma pessoa não é empreendimento difícil. Que o diga o senhor Assange, que continua cumprindo sua pena de privação de liberdade na representação londrina do Equador. Por coincidência, um país também bolivariano.

Embaixada do Brasil La Paz, Bolívia

Embaixada do Brasil
La Paz, Bolívia

Em 1956, na esteira da fracassada revolução húngara, o cardeal József Mindszenty recebeu asilo na Embaixada dos EUA em Budapest, onde permaneceu 15 longos anos. Só saiu quando lhe foi concedido, na sequência de um acordo político, um salvo-conduto para deixar o país. Antes disso, nem por sonho. Faleceu 4 anos depois de libertado, já com 83 anos.

Portanto, nenhuma explicação, por mais sofisticada que venha, me fará acreditar que o senador boliviano «fugiu» da embaixada. E em seguida? Dirigiu-se ao aeroporto, comprou uma passagem, entrou num avião, desceu em Corumbá (ou em Cuiabá, dependendo da fonte)? Tudo isso sem dinheiro e sem passaporte? Me engana, que eu gosto ― como diz o outro.

É muito mais plausível que a vinda do senador seja fruto de um arreglo político entre Brasília e La Paz. Nenhuma das partes estava interessada em fazer durar a situação. Ao mesmo tempo, nenhuma queria perder a face. Estou curioso para ouvir a explicação oficial.

Há males que vêm para bem. Nesse melodrama, algo de positivo começa a apontar: o Brasil aparenta já não mais estar de joelhos diante da Bolívia. Que alívio! Como parecem distantes aqueles tempos bizarros em que o Lula não só aceitou como também aprovou a invasão e a encampação de uma refinaria da Petrobrás situada em território boliviano. Uma prova de fraqueza!

Vale lembrar que o sócio majoritário da semiestatal de petróleo somos nós, o povo brasileiro. O governo federal, por mais enfatuados que sejam seus integrantes, não é dono da gigante. Ele é mero representante dos verdadeiros donos, que somos nós. Fosse o Brasil um país menos preocupado com direitos individuais e mais atento ao Direito ― com D maiúsculo ―, o presidente pusilânime teria sido processado por crime de responsabilidade.

Enfim, vamos a quedarnos con lo bueno. A novela de La Paz teve final feliz. Podemos dormir em paz.

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Despacho do Estadão e da Folha de São Paulo.

Patacoada

José Horta Manzano

O Correio Braziliense nos informa que Antonio Patriota, o ministro das Relações Exteriores, não exclui interrogar Edward Snowden fora do Brasil. É surpreendente que nosso chanceler, diplomata de carreira, demonstre ingenuidade tão grande.

Como não é imaginável que nosso ministro, na posição em que está, fale da boca pra fora, sem avaliar o peso de cada uma de suas palavras, algo tem de estar por trás dessa estranha intenção de «ouvir, fora do Brasil, o consultor Snowden».

Espionagem Crédito: Storms

Espionagem
Crédito: Storms

Imagino alguns cenários:

1) O ministro realmente acredita que o delator fugitivo detenha um caminhão de informações detalhadas sobre o grau de intercepção exercido pela espionagem americana sobre cada país em particular. Parece-me difícil que um tal volume de dados tenha sido deixado à disposição do jovem. Acho que o chanceler está dando demasiada importância a um pequeno ex-funcionário de uma firma terceirizada.

2) O ministro gostaria de mostrar ao «império» que nosso País tem, sim, condições de investigar em profundidade sobre a natureza de intromissões que possam ter sido perpetradas em nossos segredos de estado. Em suma: conosco, ninguém podosco. Se a «jus esperneandi» é direito que assiste a cada um de nós, porque negar ao ministro que recorra a ela?

3) O ministro está sendo teleguiado. É a hipótese mais inquietante e, infelizmente, a mais provável. Tudo não passa de jogada de marketing para demonstrar que o governo não se acovardou diante de um ataque a nossa soberania. Visa a acalmar bolsões ultranacionalistas que sempre resistem aqui ou ali. “Da ôtra veiz, cê vai vê aqui cum nóis!”

Continuo achando que essa história está recebendo mais atenção do que merece. Com ou sem Snowden, os serviços secretos de todos os países sempre espionaram e hão de continuar espionando. É exatamente para isso que existem.

Hipocrisia

José Horta Manzano

Desde que o mundo é mundo, espia-se o próximo. Desde a esposa que remexe nos bolsos da calça do marido (e vice-versa) até altas esferas do governo do país A que bisbilhota os assuntos internos do país B. Desde o mordomo que escuta atrás da cortina, como nos filmes, até organizações oficiais ― complexas, estruturadas e gordamente financiadas ― especializadas no ramo.

Sempre foi assim e sempre será. No entanto, em nome da coabitação harmoniosa, convém tomar cuidado para manter a discrição. Seja debaixo do teto familiar, seja entre países. Assim como os mafiosos, os espiões também têm sua omertà, seu código de conduta.

Embora não se faça muito alarde sobre o assunto, a cada ano são organizadas em vários países (inclusive no Brasil) dezenas de feiras e exposições especializadas em armamentos. Expõem-se revólveres, carabinas, espingardas, bombas de fragmentação, minas antipessoais, até tanques de guerra. As balas são apresentadas em estojos almofadados. Coisa de louco.

Faz algum tempo, num salão desse tipo organizado em Paris, descobriu-se que os chineses haviam montado, no interior de seu estande, uma complexa central de escuta telefônica. Conseguiam captar todas as comunicações que circulassem via telefone celular no recinto da feira. Alguns poucos jornalistas ficaram sabendo. Para evitar um incidente diplomático, o Estado francês fez questão de abafar o acontecido. Ficou tudo por isso mesmo.

A História (não) registrou milhares de outros episódios de mesmo tipo. Dar publicidade a certos fatos pode ser mais danoso do que fazer de conta que não aconteceu.

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Estes dias, um jovem com vocação para salvador do mundo tomou a ousada decisão de subir ao telhado para anunciar que espiões espionam. Não contou nenhuma novidade, o infeliz. Nada disse que especialistas no assunto já não soubessem. Mas rompeu velho acordo tácito, atributo básico da velha profissão de espião: manter a discrição a todo custo.

Os países espionados ― os quais, sejamos claros, também se espionam entre si ― mostraram-se indignados. «Oh! Como é possível? Entre amigos?» Esqueceram-se todos de que até marido e mulher cometem a mesma incorreção. Mutuamente, às vezes.

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva Moscou, Rússia

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva
Moscou, Rússia

Enfim, cada um tem de representar seu papel nesta grande comédia planetária. Ao mesmo tempo que juram respeito e amizade eterna, todos os países transgridem como podem. Espionam-se uns aos outros na medida da tecnologia de que cada um dispõe. Quando um é apanhado com a boca na botija, vem a grita generalizada: «Céus! Nunca esperava isso de você!».

Quanta hipocrisia! No final, vai ficar tudo por isso mesmo. O mundo não vai acabar. O infeliz denunciante, que tenha feito isso por ingenuidade ou por estrelismo, será o único prejudicado.

Que seja acolhido no Equador, na Venezuela ou no Sultanato de Omã, está condenado a viver em aflição permanente até o fim de seus dias. Terá palpitações a cada vez que tocar o telefone ou a campainha de casa. Não se quebram as regras do métier impunemente.

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Preguiça mental
O site Wikileaks informa que o jovem imprudente enviou pedido de asilo a mais de 20 países. Não sei se por erro de digitação ou por ignorância, a nota informa que o Consulado Russo (sic) no Aeroporto de Шереметьево(*) está despachando os pedidos às embaixadas que os países solicitados mantêm em Moscou. Consulado russo em Moscou? É tão incongruente quanto falar de um consulado brasileiro em Brasília. Vivendo e aprendendo…

Mas não pára por aí. Os funcionários de plantão na Folha de São Paulo e no Estadão, meio sonolentos, repercutiram a informação tal qual a receberam. Engoliram sem mastigar. Confirmam todos a existência de um consulado da Rússia dentro da própria Rússia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

 .

(*) Шереметьево = Na Rússia, a pronúncia “Cheremetiêvo” é considerada inculta. Faça como os moscovitas, diga Chirimiêtchiva, numa pronúncia proparoxítona.

Posso entrar?

José Horta Manzano

Em despacho de 23 de junho, o diário South China Morning Post informa que Edward Snowden escapou de Hong Kong. Embarcou num voo da companhia Aeroflot em direção a Moscou. No momento em que escrevo estas linhas, deve estar sobrevoando território russo. A previsão de pouso é por volta das 10h da manhã deste domingo, pela hora de Brasília.

Conheço muito bem as formalidades de imigração em vigor em Hong Kong. A cidade-estado está longe de ser uma peneira. Os controles de entrada e de saída aliam o antigo rigor comunista à eficiência britânica. De olhos perscrutantes, os agentes são mal-encarados, silenciosos, inflexíveis.

Se Snowden deixou o território, fez isso com a anuência das autoridades. É possível ― e mesmo bastante provável ― que Pequim tenha fechado um olho na esperança de se livrar de um problema cabeludo. O homem está sendo procurado pelo governo dos EUA sob a acusação de espionagem, crime ultrapesado pela lei de qualquer país.

Os dirigentes russos, pelo menos por enquanto, alegam estar completamente alheios ao que se passa. Acredite quem quiser.

Robin Hood

Robin Hood

O destino final do fugitivo, segundo o South China Morning Post, poderia ser a Islândia ou o Equador. Eu acrescento: poderia também ser o Brasil, por que não?

A Islândia acolheu, 4 anos atrás, um cirurgião plástico brasileiro, que, condenado a 47 anos de prisão por homicídio, havia escapulido de sua prisão. Mas o problema foi resolvido em pouco tempo. O governo brasileiro solicitou e obteve a extradição do condenado.

O Equador abriga em sua embaixada londrina, há mais de um ano, um Robin Hood dos tempos modernos. O original, a quem a lenda confere uma aura de honra e magnanimidade, roubava dos ricos para distribuir aos pobres. O clone atual roubou segredos diplomáticos e os publicou ao planeta inteiro. Segredo é para quatro paredes. Espalhar troca de correspondência confidencial, além de ser feio, não traz vantagem a ninguém. Tanto o Robin Hood original quanto o moderno agiram mal. Nenhum deles transformou o mundo.

No apagar das luzes de seu governo, como quem põe o morango em cima do bolo, no mesmo dia em que concedeu passaporte diplomático a seus filhos e netos, o Lula negou definitivamente a extradição de um fugitivo da Justiça italiana, já condenado em seu país por participação em quatro assassinatos.Interligne 38

A Islândia é país pequeno, sem árvores e sem calor. Para um jovem de 30 anos, como Snowden, a perspectiva de passar o resto da vida naquele lugar é desmoralizante.

Já o Equador é um pouco melhor. Tem árvores, tem calor, mas o território é diminuto. Para quem chega, saber que não vai nunca mais poder sair deve ser frustrante.

Robin Hood

Robin Hood

Se eu fosse Snowden, sondaria o governo brasileiro. Generosos, estamos sempre prontos para acolher assassinos, ex-ditadores e outros bandidos. Por que não traidores? O País é vasto como coração de mãe. Cabem todos.

No entanto, caso a Islândia decida abrigar o fugitivo, resta-nos a possibilidade de convidar aquele país hermano para integrar o Mercosul. Seria mais ou menos como se nós mesmos tivéssemos acolhido o fugitivo. É sempre um consolo, não é mesmo?Interligne 38

Complemento
Sabe aquela batata quente, aquela que ninguém quer segurar na mão e joga no colo de quem estiver mais distraído? Pois é. Este caso Snowden está ficando assim. Tornou-se um abacaxi que ninguém quer descascar.

No momento em que escrevo este complemento, o homem deve estar desembarcando em Moscou. A Agência Reuters informa que seu destino poderia ser Caracas, via Havana. Faz sentido.

A Islândia, finalmente, não vai precisar ser convidada a fazer parte do Mercosul. Não faz jus ao convite, além do que a Venezuela já é membro de pleno direito. Snowden vai se sentir em casa. A velha máxima do tempo de nossos tataravós continua válida: dize-me com quem andas, e dir-te-ei quem és.

Que o destino final seja Cuba, o Equador, a Venezuela, tanto faz. Pode ser até um País gigante por natureza, por que não? Quem viver verá.

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