O desaforo inútil

José Horta Manzano

A diversidade humana é fascinante. O que um tem sobrando pode faltar a um outro. Por sua vez, este outro pode esbanjar alguma característica que escasseia no primeiro. Assim caminha a humanidade, é salutar.

O que pode causar algum problema é o excesso. Nenhum descomedimento é bom. Pode provocar encontrões com a família, com os colegas, com os amigos. Quando o indivíduo excessivo exerce função de mando, os transtornos serão mais amplos. Quando o posto de mando é o mais importante do país, decisões impulsivas e exageradas podem acarretar resultados calamitosos para a nação inteira. Quem ocupa posição elevada deve pensar duas vezes antes de agir.

Característica marcante de nosso antigo presidente era seu espírito exageradamente maleável e conciliador. Para aumentar seu rebanho, por exemplo, não hesitava em lançar mão de expedientes, digamos assim, pouco convencionais. Manobras de bastidores, cooptação, distribuição de benesses, atribuição de sinecuras, criação de ministérios sob medida para acomodar mais ovelhas, afagos em adversários, todos os meios, fossem eles quais fossem, justificavam o almejado fim.

No afã de fazer-se bem querer por todos, nosso messias chegou a extremos e navegou por mares traiçoeiros, nunca dantes navegados nessepaís. Chamou para junto de si um acadêmico que vivia nos EUA ― justamente aquele que havia escrito que o governo do Lula era o mais corrupto que jamais houvera no Brasil. Fez as pazes com José Sarney, inimigo de 30 anos, e ainda ensinou a todos que o novo companheiro, por não ser pessoa comum, merecia tratamento especial. Curvou-se aos caprichos de Paulo Maluf e não se envergonhou de ir até a casa do tradicional adversário para suplicar apoio eleitoral. Mas esses eram assuntos internos, que não transpunham as fronteiras do País. Não fosse a orientação ideológica que arruinou sua diplomacia, poderia até ter legado ao mundo a imagem de um Brasil civilizado e confiável. Fica para uma próxima vez.

Já nossa atual presidente… ah, nossa atual presidente! São outros quinhentos. O que o Lula tinha de sobra, falta a dona Dilma. A diferença entre o criador e a criatura é tão gritante que a gente fica a cismar que bicho terá mordido nosso messias no dia em que resolveu, com um dedazo, designar sua sucessora. Dona Dilma está nos antípodas da maleabilidade e da conciliação.

Reunião ministerial

Reunião ministerial

É sabido que nossa presidente tem gênio forte, que é irascível, estabanada, agressiva. Dizem que, vendo-se contrariada, é sujeita a ataques de fúria. Ao contrário de seu predecessor, não procura convencer por meios suaves ― prefere impor sua vontade. Talvez esteja aí a explicação para o andamento errático de seu governo. Seus auxiliares, intimidados, encolhem-se e não ousam contradizer a chefe. Na ausência do contraditório, ela se convence de que está no caminho certo e acaba tomando decisões inapropriadas.

Esta terça-feira, dona Dilma anunciou o cancelamento de sua visita de Estado aos EUA. Nenhum de seus conselheiros diplomáticos terá conseguido explicar-lhe que essa decisão, conquanto satisfaça seu amor-próprio, pode não ser benéfica para nosso País. Na valsa aveludada da diplomacia mundial, anular uma visita de Estado é pior do que pisar o pé da dama no meio do baile.

Concordo que não é confortável saber-se espionado por quem quer que seja. Mas, que fazer? Ainda que dona Dilma se sinta incomodada, governos sempre se espionaram e vão continuar a fazê-lo. O Brasil não é o único país na mira de espiões internacionais. Todos dão uma xeretada nos que lhe interessam. Estes últimos meses, tornou-se pública a informação de que os EUA espionam praticamente todos os governos do planeta. Alguém viu alguma reação epidérmica? Não. Todos se limitaram a um protesto formal e tudo ficou por isso mesmo.

A reação violenta de nossa presidente só faz escancarar a realidade: os dirigentes brasileiros, desprovidos de proteção contra intrusões, se encontram em situação de total vulnerabilidade. A revelação dessa verdade soa como um estímulo a outras potências que estejam planejando matricular-se no clube dos que espionam o Planalto.

Aquilo roxo by Alpino

Aquilo roxo
by Alpino

Por que o governo de outros Estados reagiu de maneira tão suave? Porque são realistas. Entendem que o vigor e a intensidade do protesto não mudarão a situação. Todos continuarão a espionar todos, como sempre se fez.

Está faltando realismo ao Planalto. Conseguem-se melhores resultados com um sorriso do que com uma carranca. Nossa ultrassusceptível presidente não deve conhecer esse princípio basilar da boa convivência. Uma boa conversa reservada com o presidente Obama teria surtido melhor efeito. Sem causar escândalo. Derrubar pontes, barrar estradas e fazer beicinho não são a melhor solução. Nosso messias esqueceu-se de ensinar à pupila as artes da persuasão pelo diálogo.

Entre importação de cubanos, perdão a dívidas de países africanos ditatoriais e enfrentamento com o império, estamos cada dia mais parecidos com nossa república vizinha, a bolivariana.

Os limites da igualdade

José Horta Manzano

Antes da Revolução Francesa, a estratificação da sociedade era rígida. O roteiro de cada um já era conhecido desde o nascimento. Filho de ferreiro se tornaria ferreiro. Filho de príncipe já nascia príncipe. Filho de agricultor seria necessariamente agricultor. O elevador social ainda não havia sido inventado.

Filho de peixe...

Filho de peixe…

Os acontecimentos destes últimos 200 anos aceleraram o ritmo de transformação da sociedade. Embora enguice às vezes, o elevador da ascensão social já existe e costuma funcionar. Há que saber manejá-lo.

Substituído pela indústria, o ofício de ferreiro praticamente desapareceu. Para usar a mesma metáfora, direi que filho de metalúrgico já não nasce predestinado a seguir a profissão do pai. Pode até fazer sucesso no ramo de telecomunicações, por exemplo. (Tivemos, aliás, um exemplo. De notoriedade nacional.) Da mesma maneira, nada impede que um filho de agricultor possa vir a ser doutor.

Estes últimos anos, a busca frenética da igualdade tem levado muita gente a forçar a mão. Certas palavras e expressões ― usadas no dia a dia havia séculos ― foram banidas. Cego, surdo, mudo, preto, aleijado, manco, mulato, velho & companhia são palavras a evitar. A etiqueta hoje manda substituí-las por um equivalente genérico. Mais complicado, um circunlóquio também serve. Seja.

Mas a eliminação de toda menção àquilo que foge à norma não elimina aquilo que foge à norma. Em outros termos: não basta silenciar sobre uma realidade para fazer que ela deixe de existir. Todo agrupamento humano é um conjunto harmonioso de seres diferentes. Por mais que me digam que estou na melhor idade, na terceira idade, na feliz idade ― nada disso me fará rejuvenescer.

Ser mais idoso que a média significa apenas que nasci antes, assim como tantos outros nasceram antes de mim e tantos outros nascerão depois de todos nós. Não deveria ser motivo de vergonha nem de orgulho. Não é qualidade a ostentar nem defeito a esconder. Não há palavra melhor para definir um velho que esta: velho.

O bom-senso indica que assim deveria ser com todas as outras minorias. Infelizmente, não é o que acontece. E é bom não transgredir, porque pode até dar processo. O brasileiro, grande fã de novelas, adora uma intrigazinha. Qualquer picuinha pode terminar num tribunal. Todo cuidado é pouco.

A Constituição de países civilizados costuma dizer que todos os cidadãos são iguais em direito. Em princípio, é frase vazia, que não funciona na prática. Mas continua lá. E, vez por outra, gera efeitos absurdos.

Semana passada, as autoridades do Estado americano de Iowa determinaram que, em nome da igualdade entre cidadãos, os cegos ― ou não-videntes, se preferirem ― estão autorizados a portar armas. O jornal Des Moines Register noticiou. Não estamos falando aqui de pessoas com leve disfunção visual. O direito se estende a indivíduos que não enxergam absolutamente nada.

... peixinho há de ser

… peixinho há de ser

Para mim, não faz sentido. Até para aplicar nobres princípios, como a igualdade de direitos, não se pode fugir ao bom-senso. Se não, chega-se a situações esdrúxulas como o direito de voto que o Brasil concedeu a seus cidadãos analfabetos. A alfabetização do povo é dever do Estado. Que cumpra primeiro seu dever, oferecendo instrução a todos, depois conversamos. Adolescentes e presidiários não têm o direito de votar. Por que analfabetos o teriam?

Há limite para tudo. Permitir a não-videntes portar uma arma de fogo é tão incongruente como seria conceder-lhes uma carteira de motorista.

Falta um

José Horta Manzano

No momento em que escrevo, o ministro Celso de Mello ainda não revelou seu voto com respeito aos embargos infringentes ― expressão que muitos repetem sem saber exatamente o que significa. Como muitas expressões do jargão da Justiça, deixa a desagradável impressão de ter sido escolhida exatamente para não ser entendida pelo populacho. Como já acontecia com a missa em latim, tendemos a ter maior respeito pelo que não compreendemos direito.

O que se sabe, por certo, é que os tais embargos têm o poder de solapar o que tinha sido acordado. O tribunal pode, portanto, desdizer hoje o que disse ontem. Um tribunal que se contradiz não é coisa banal. Até onde irão?

Quem nos garante que, passada a fase dos embargos infringentes, não se dê nova interpretação a algum obsuro artigo da Constituição e não se inventem uns embargos reinfringentes, ou o nome que se queira dar? Por que não começar tudo de novo? De qualquer maneira, isso não deveria pesar no bolso dos acusados. Embora seja difícil provar, temos todos uma certa ideia sobre a origem dos milhões que estão sendo usados para pagar o exército de advogados. Ou não?

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Brasileiro gosta de um espetáculo, não resta dúvida ― as telenovelas estão aí para confirmar. Mas, no caso desse mensalão, o teatral está encobrindo o real. Estamos passando dos limites. O País tem muitos problemas maiores a resolver, não pode continuar tetanizado por esse julgamento que, sejamos honestos, não vai mudar nosso destino. Que os hoje condenados sejam absolvidos ou condenados ao degredo na Sibéria, a Terra continuará a girar. A corrupção, soberana, ainda tem lindos dias pela frente.

A guinada que o colégio de ministros do STF encetou estas últimas semanas foi brusca. Pôs diante dos holofotes um dispositivo constitucional que bate de frente com a independência dos poderes da República. Falo do fato de a escolha de ministros do STF ser atributo pessoal do presidente da República. Já falei sobre isso, mas prefiro dar uma repassada na matéria. Que os membros do colegiado supremo da Justiça sejam designados pelo chefe do Executivo contradiz o princípio de independência dos poderes. Seria como se deputados e senadores fossem escolhidos pelo presidente da República. Uma aberração.

Num regime como o nosso, que reconhece três poderes independentes e harmônicos, a escolha dos membros da instância suprema de um dos poderes não pode repousar no arbítrio do cabeça de outro poder.

Uma última palavra. Desde a suspensão da última sessão do STF, quando faltava o voto decisivo de um dos ministros, o Brasil pensante se atirou de cabeça no picadeiro. O senhor Celso de Mello virou capa de revista, teve sua foto estampada na primeira página de jornais, domina as conversas e as conjecturas da franja do povo que se preocupa com essas coisas. Seja qual for seu voto, será incensado por uma parte dos torcedores e execrado pelos demais.

Mas Eremildo, o idiota ― como diria o arguto Elio Gáspari ― ficou sem entender. Por que tanta pressão sobre um dos ministros depois de os outros dez já terem emitido seu voto? Dizem que o futuro do Brasil depende dele. Proclamam que ele tem em suas mãos a faca e o queijo. Eremildo acha que estão dando ao homem mais importância do que tem.

Calhou que ele fosse o último a votar, só isso. Antes dele, 5 (cinco) ministros já deram o «sim» e 5 (cinco) outros já deram o «não». Por que tanto assédio ao último a votar? Não é ele quem vai decidir o rumo do processo. Quer gostemos, quer não, o placar vai marcar 6 a 5. Esse assanhamento todo em torno do senhor Mello não é justo nem normal. O voto dele será apenas um entre seis.

Se pressão fosse necessária, ela chega tarde demais. O rio já está próximo da desembocadura. Teria sido importante pressionar bem mais a montante. Agora, que o senhor Mello vote a favor ou contra, tanto faz. Nesta altura, Inês é morta.

Mineirinho no tribunal

José Horta Manzano

Depois de refletir um pouco, seu Bento, o mineirinho, chegou à conclusão de que os ferimentos que tinha sofrido num acidente de tráfego, duas semanas antes, eram suficientemente sérios. Valia a pena processar o dono do outro carro.Tribunal

No tribunal, o advogado do réu começou a inquirir seu Bento:  

Advogado: 
― O Senhor não disse na hora do acidente que estava muito bem?

Seu Bento: 
― Bão, vô-lhe contá o que acunteceu. Eu tinha acabado di colocá minha mula favorita na caminhonete…

Advogado (interrompendo): 
― Eu não pedi detalhes! Só responda à pergunta, o senhor não disse na cena do acidente que estava muito bem?

Seu Bento: 
― Bão, eu fiz a mula subi na caminhonete e tava desceno a rodovia…

Advogado (dirigindo-se ao juiz): 
― Meritíssimo, estou tentando estabelecer os fatos aqui. Na cena do acidente este homem disse ao patrulheiro rodoviário que estava bem. Agora, várias semanas depois, ele está processando meu cliente. Isso é tentativa de estelionato! É uma farsa! Por favor, poderia dizer a ele que simplesmente responda à pergunta?

Mas, a essa altura, o juiz estava muito interessado na resposta de seu Bento e respondeu ao advogado:

― Eu gostaria de ouvir até o fim o que ele tem a dizer.

Seu Bento agradeceu ao juiz e prosseguiu:

― Como eu tava dizeno, fiz subi a mula na caminhonete e tava  desceno a rodovia quando uma picapi atravessô o sinar vermeio e bateu na minha caminhonete bem na laterar. Eu fui jogado fora do carro prum lado da esa e a mula foi jogada protro lado. Eu tava muito firido e num pudia mi movê.

E continuou:

― De quarqué jeito, eu pudia ouvi a mula zurrano e grunhino e, pelo baruio, eu pude percebê que ela tava muito mar. Logo adispois do acidente, os guarda chegô no locar. Teve um que oviu a mula gritano e zurrano e foi até onde ela tava. Depois de dá uma zoiada nela, ele pegô a arma e atirô bem nos ôio do animar. Então, o policiar atravessô a estrada ca arma na mão, oiô pra mim e disse ansim:

― Óia, sua mula tava muito mar e eu tive que atirá nela. Cumé que o senhô tá se sentino?

― O senhô ia respondê o quê, meritísso?”

Tribunal federal

José Horta Manzano

Quando de julgamentos de repercussão nacional, grandes crimes ou grandes escândalos, a vedete costuma ser o acusado. Paradoxalmente, no atualíssimo caso da Ação Penal 470, que julga os acusados pelo mensalão, quem sobressai é… o tribunal. Fala-se mais dos julgadores que dos julgados. Pouquíssimos saberão declinar, de cabeça, o nome dos 40 acusados no processo inicial. Em compensação, qualquer brasileiro medianamente informado conhece de cor e salteado o nome, o rosto e o gosto de cada juiz do STF.

Discute-se acirradamente, apaixonadamente. Há quem sinta simpatia por este ou por aquele ministro, há quem torça por algum deles, todos querem saber quem namora quem, quem comprou apartamento aqui ou ali. Os espectadores vibram como num reality show. A diferença é que, neste caso, o prêmio não será em dinheiro, mas em anos de cárcere.

Falando em dinheiro ― e já que perguntar não ofende ― uma divagação: de onde estarão vindo os milhões devidos a esse batalhão de ilustres advogados que asseguram a defesa dos acusados?

Supremo Tribunal Federal Brasília

Supremo Tribunal Federal
Brasília

Nenhum país de direito ― regido por leis ― pode prescindir de tribunais para julgar transgressões e arbitrar conflitos. A organização judiciária varia de um Estado a outro. É comum existir uma segunda instância judiciária, à qual é permitido recorrer quando uma decisão de primeira instância não satisfaz a uma das partes.

Embora não seja o caso em todos os países do mundo, muitos contam com uma terceira instância, em princípio o topo da pirâmide. Quando esse tribunal superior tiver tomado sua decisão, não é mais possível recorrer. Ela será definitiva e executória. A derradeira chance, em países onde é admitida, será a graça real ou presidencial.

O funcionamento do STF brasileiro é complexo, dado que ele reúne funções que, em outras terras, são repartidas entre duas ou mais instituições. Na França, por exemplo, quando surgem dúvidas quanto à constitucionalidade de uma determinada lei, cabe à Cour constitutionnelle (Tribunal Constitucional) dar o veredicto definitivo e inapelável. Já em casos de contestação de decisão judicial emitida por instância inferior, recorre-se à Cour de cassation (Tribunal de Cassação).

É relativamente raro que o Tribunal de Cassação francês seja acionado. A Justiça detesta contradizer-se. Na esmagadora maioria dos casos, a corte suprema mantém a decisão já dada pela instância inferior. Portanto, a não ser que algum fato novo haja surgido, o sentenciado tem interesse em acatar a decisão que lhe concerne e não tentar mais além.

Tribunal Fédéral suíço, Lausanne imagem google

Tribunal Fédéral suíço, Lausanne
imagem google

Não é necessário ter seguido formação de jurista para se dar conta de que o STF brasileiro é uma corte pra lá de atarefada. Por um sim, por um não, processos aterrissam lá. Há casos anedóticos, do tipo «furto de galinha do quintal do vizinho», que esperam sua vez na fila interminável de pastas pendentes. Sabe-se de casos encalhados há vinte anos ou mais.

Numa hipotética reforma do sistema judiciário brasileiro, seria interessante cogitar a criação de uma corte constitucional. Talvez de outras cortes independentes ― para assuntos eleitorais, por exemplo. Isso, sim, é trabalho para especialistas.

Outro ponto que me parece passível de ser modificado é o número de ministros. São onze. E essa confraria diminuta carrega o peso de milhares e milhares de decisões, múltiplas atribuições. Uma carga, a meu ver, exagerada. Só para comparar, o Tribunal fédéral suíço é composto de 38 juízes, secundados por 19 juízes suplentes. Esses substitutos são acionados em caso de impedimento de um titular, seja por doença, férias, compromisso inadiável.

Diferentemente dos onze ministros do STF brasileiro, os 38 juízes suíços se subdividem em diferentes comissões, de acordo com a especialidade de cada um. O Tribunal fédéral abriga uma corte de direito público, uma de direito civil, uma outra de direito penal, uma de direito social. Há ainda outras comissões. Um hipotético mensalão suíço seria subdividido entre duas ou mais cortes, cada uma julgando o malfeito que lhe compete. A divisão de direito público e a de direito penal seriam, com toda certeza, chamadas a invervir.

Tribunal de Cassação Paris

Tribunal de Cassação francês
Paris

Num país como o Brasil, que não conseguiu fazer nenhuma reforma política de importância desde 1988, imaginar que se reforme o STF é coisa de sonhador crédulo. Mas não custa cogitar. Se viesse essa hipotética reorganização da instância máxima do Judiciário brasileiro, o modo de escolha dos ministros teria absolutamente de ser revisto.

A meu ver, o fato de a nomeação ser apanágio pessoal do presidente da República gera uma distorção. Todo homem, por definição, é falível. Ninguém é perfeito. Quando se reflete sobre o assunto, percebe-se que o sistema já nasceu com um defeito de fabricação. Não é possível que os juízes máximos da nação ― aqueles que, se for o caso, terão a incumbência de julgar o presidente da República ― sejam por ele nomeados. É a quadratura do círculo, uma especificidade perversa que não condiz com a imparcialidade que se espera da Justiça.

Um outro meio de escolher os árbitros maiores tem de ser encontrado. Na Suíça, por exemplo, são eleitos pela assembleia. Poderíamos fazer o mesmo. Ou, para diluir ainda mais as responsabilidades, compor uma comissão ad hoc de grandes eleitores para escolher novos ministros do STF. Dela fariam parte parlamentares, a OAB, a presidência da República, até o próprio STF.

Fica aí a sugestão. Nunca se sabe, pode servir.

Frase do dia ― 29

«A ira de Dilma contra Saboia não se explica apenas por ela se sentir vítima de um crime de lesa-majestade. Tão ou mais grave, a seus olhos, há de ter sido a desmoralização de Evo, a quem o Planalto, desde Lula, presta incompreensível vassalagem.»

Editorial do Estadão de 13 set° 2013 a propósito da fúria presidencial diante da chegada do senador boliviano a Brasília.

A insubordinação louvada

José Horta Manzano

O Blog do Noblat, alojado no jornal O Globo, está promovendo uma pesquisa. Claro, é dessas enquetes de internet, sem garantia e sem valor científico. Assim mesmo, especialmente quando o resultado faz a balança pender implacavelmente para um dos lados, esse tipo de consulta dá conta do espírito reinante na população.

A pergunta é: «Que achou do funcionário do Itamaraty que trouxe para cá, à revelia do governo boliviano e também do nosso, o senador asilado na embaixada do Brasil em La Paz?». Além do incontornável «não tenho opinião», duas respostas são propostas: «Ele agiu bem diante do risco de o senador se matar» ou «Ele agiu mal porque não tinha autorização dos seus superiores».

Pesquisa ― Blog do Noblat alojado no Jornal O Globo

Enquete ― Blog do Noblat
Jornal O Globo

Talvez eu seja um dos raros a pasmarem diante do resultado. Mais de 87% dos primeiros 672 a responder optaram pela primeira opção: aprovaram a ação do funcionário insubmisso. Embora não seja prova irrefutável, é boa indicação de que praticamente 9 em cada 10 brasileiros acham que o senhor Saboia agiu bem.

É surpreendente. Fica a desagradável impressão de que a esmagadora maioria de nossos concidadãos está de acordo com o princípio de que os fins justificam os meios. Dado que a liberação do senador deu certo, pensam quase todos, que se passe o apagador por cima dos meios. Está justificada a insubordinação do funcionário. É uma lógica perversa e muito perigosa.

A destituição do presidente Collor foi justamente consequência de um fato de mesma natureza. Logo nos primeiros dias de seu governo, para lograr debelar a monstruosa inflação, o presidente aprovou a confiscação da poupança da população brasileira. O princípio era o mesmo: com vistas a atingir um objetivo nobre, meios tortuosos podem ser utilizados. Deu no que deu. Ninguém jamais esqueceu nem perdoou. Não demorou muito, o homem foi despachado de volta para suas Alagoas.

Que não me entendam mal. Não estou aqui a defender a permanência do senador boliviano num cubículo da embaixada ad vitam æternam. Acho uma crueldade o que fizeram com ele. A vergonha de ter usado um ser humano como joguete de interesses politiqueiros recai sobre o governo brasileiro tanto quanto pesa sobre o governo boliviano. O problema não é esse.

O senhor Saboia, certamente um homem de bons sentimentos, um dia decidiu empregar-se como funcionário de carreira dos serviços diplomáticos brasileiros. O estatuto de funcionário tem suas regalias e suas contrariedades. Do lado bom, estão um emprego garantido, um plano de carreira, um salário confortável, apoio do Itamaraty para problemas do dia a dia tais como escola para as crianças, moradia e assemelhados. Do lado menos simpático, estão as obrigações de todo funcionário: cumprir horários, respeitar ordens da hierarquia, seguir a orientação dos superiores.

Não se pode ficar só com a parte boa e recusar o que estorva. Ninguém é obrigado a ser funcionário. Está ao alcance de qualquer um montar uma barraquinha e sair vendendo sanduíches naturais. O autônomo assume os riscos de seu negócio, mas tem a vantagem de organizar sua vida como bem entende. O mesmo não acontece com um funcionário. Não se pode ter tudo na vida.

Uma sociedade tem de ser enquadrada por regras. E regras existem para ser cumpridas. Fora desse esquema, grassa a anarquia. A ninguém é permitido fazer justiça com as próprias mãos. Foi onde o senhor Saboia deslizou.

Tivesse ele, ao término de sua cinematográfica fuga da Bolívia, entregue o senador às autoridades brasileiras e, imediatamente, apresentado sua demissão ao Itamaraty, eu poderia ainda concordar. O que não me parece certo é que esse senhor cometa um importante ato de insubordinação e ainda pretenda conservar seu emprego como se nada tivesse acontecido.

Homem-aranha

Homem-aranha

Digo mais uma vez, só para que fique bem claro. No meu entender, o governo brasileiro deveria ter pressionado o folclórico Evo desde o primeiro dia para que concedesse um salvo-conduto ao refugiado. O problema, assim, teria sido resolvido em poucos dias, o senador estaria vivendo feliz e contente em Pindorama. No entanto, o Planalto decidiu seguir caminho diferente.

Eu, pessoalmente, se tivesse vocação para homem-aranha, teria ido raptar o senador na Embajada del Brasil em La Paz e o teria levado para o Brasil. Eu poderia fazê-lo, porque não sou funcionário do Itamaraty, portanto, não estou sujeito à hierarquia interna da instituição. O senhor Saboia não tinha esse direito.

Já imaginaram se for permitido a cada funcionário passar por cima da disciplina e tomar as atitudes que lhe parecerem mais adequadas? Será a anarquia garantida.

O vinho da viúva

José Horta Manzano

Diga nosso antigo presidente (e eterno messias) o que quiser, a verdade é que a elite (ou zelite, como ele prefere) é composta por todos os que moram no andar de cima. O corolário é que todos os que moram no andar de cima compõem a zelite, quer admitam, quer não. Portanto, ele também, assim como seus companheiros, integram atualmente aquela confraria. Há os que entram pela porta principal, por sua erudição ou por algum outro mérito mais nobre. Há os que entram pela porta dos fundos, por meios menos sublimes.

Veuve Clicquot Ponsardin Millésime 2004

Veuve Clicquot Ponsardin
Millésime 2004

Como definir o andar de cima? É o nome genérico que se costuma dar aos que mandam, aos que detêm poder sobre os demais. Ali vivem políticos importantes, gente muito rica, grandes empresários, componentes do Congresso e do STF, mandachuvas de grandes autarquias, de estatais e de paraestatais. Até alguns prefeitos passam a morar no andar de cima, com a condição de estarem à frente de município importante. Quanto ao prefeito de São Nicodemo do Brejo, sinto decepcioná-lo, ainda vive no porão.

Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte. Leis, normas, regulamentos, decretos são editados pelos de cima. São eles os que tomam as decisões que afetam a vida de todos os habitantes do País. Subterfúgios e chicanas também são fabricados pelas mesmas zelites. Nunca se sabe, podem até servir.

Caviar

Caviar

Pelas informações que tenho colhido na imprensa, a Ação Penal 470, a do mensalão, é novela com muitos capítulos por vir. Faz sentido. Desde sempre, as leis ― e suas modalidades de aplicação ― foram costuradas pela zelite. Como qualquer um pode facilmente compreender, o legislador sempre cuidou de deixar, para seu uso eventual, válvulas de segurança, brechas de escape, vias de contorno. Detenção em cela especial e direito a foro especial estão entre os privilégios que a zelite reservou para si. O ladrão de galinhas não tem chance nenhuma de usufruir esses direitos.

De um determinado patamar social para cima, não é tanto a gravidade do crime que conta, mas o degrau em que se encontra o criminoso. Li outro dia que um pobre bugre havia sido «esquecido» na prisão. A anomalia só foi descoberta vários anos depois de o infeliz haver purgado sua pena. Fato inimaginável para um condenado provindo da zelite.

Veuve Clicquot La grande dame

Veuve Clicquot
La grande dame

Colunistas e comentaristas da imprensa começam a vaticinar que o mensalão vai acabar em pizza. Que as chicanas interpostas por advogados ― amiúde remunerados com dinheiro que um dia foi nosso ― vão conseguir protelar a decisão final até que alguns crimes prescrevam, o que livrará todos os condenados da prisão fechada.

Pizza? Isso é comida de pobre. Pizza e cachorro-quente, que combinam com cachaça e tubaína, podem até cair bem em banquetes do populacho. Os agapes de nossa zelite merecem mais. Essa novela vai terminar em caviar do Mar Cáspio. Regado a Veuve Clicquot Ponsardin, millésime 2004 ― uma das safras de champã mais disputadas do mercado.

Como é bom fazer festa com dinheiro alheio, não?

Alô! Quem fala?

José Horta Manzano

Muito se tem falado em espionagem estes últimos tempos. Pouco, muito pouco sobre contraespionagem. Que bicho é esse? É uma atividade patrocinada por Estados para, entre outras funções, protegê-lo da bisbilhotagem alheia.

O escândalo que surgiu faz algumas semanas ― falo do anúncio de ações de espionagem monitoradas pelo governo dos EUA ― só espantou o distinto público. Governantes estão cansados de saber que espionagem entre Estados é prática mais antiga que o rascunho da Bíblia.

Governos de países mais desenvolvidos foram bem mais comedidos em sua reação. Mostraram um simulacro de indignação, mais para satisfazer a galeria. E ficou por isso mesmo. O mundo continuou a girar. Business as usual. Por que reagiram de maneira tão branda? Por dois motivos.

Telefone celular

Telefone celular

Primeiro, porque já faz tempo que se deram conta de que as maiores ameaças externas não provêm mais de armamento bélico. Foi-se o tempo em que possuir um grande número de tanques e de aviões era garantia de ganhar qualquer guerra. Os países mais bem orientados fazem a distinção entre objetivos do Estado (a longo prazo) e metas de governo (a curto prazo). Essas nações vêm-se dedicando, faz anos, a proteger-se desse tipo de ameaça cibernética. É atribuição de seus serviços de contraespionagem.

Em segundo lugar, a reação foi comedida justamente pelo fato de esses países mais desenvolvidos fazerem exatamente a mesma coisa que os EUA, cada um na medida de suas possibilidades. Quem tem telhado de vidro procura não atirar pedrinhas no telhado do vizinho. Ainda que o vizinho tenha sido flagrado roubando frutas do seu quintal, mais vale fazer de conta que não viu. Ou, melhor ainda, dizer: «Olhe aqui, que não se repita, hein!».

Muita informação não costuma ser divulgada. Não é preciso que todos saibam de tudo a todo momento. Seria malsão. Vazou hoje a informação de que o pessoal do andar de cima da França (ministros, secretários e figurões de alto escalão) estão proibidos de utilizar seus smartphones comuns para transmitir dados referentes a assuntos do governo. Já faz tempo que essa recomendação vigora. Os mandarins de Paris contam com cerca de 2300 telefones especialmente concebidos para esse fim. São smartphones só na aparência. Ultrasofisticados, enviam mensagem criptadas e passam por canais diferentes dos que nós, simples mortais, utilizamos. Em princípio, são ingrampeáveis.

Dez ou doze anos atrás, justamente quando as novas tecnologias começavam a dominar o planeta e a dar uma reviravolta nos antigos conceitos bélicos, o Brasil teve a má sorte de começar a ser governado por gente um pouco especial. Ingênuos, deslumbrados e despreparados, nossos mandachuvas não se deram conta de que as regras do jogo haviam mudado. Continuam temendo uma invasão da Amazônia. Por que não um desembarque de marcianos?

Telefone celular (não recomendado para ministros)

Telefone celular
(não recomendado para ministros)

O candor com que nosso ministro da Defesa declarou outro dia que «desconfia» que seu telefone tenha sido grampeado e o furor com que nossa presidente tem reagido à bisbilhotice americana atestam que nosso país não tem um serviço de contraespionagem. O estupor do ministro e a cólera da presidente são sinceros. Nossa defesa cibernética, se existe, não funciona.

Mas nunca é tarde para fazer benfeito. Chorar, espernear, bater o pé, fazer beicinho, ficar de mal, ameaçar, nada disso vai adiantar. Melhor farão se aprenderem com o erro. Se nossos governantes passarem a dedicar à função para a qual foram eleitos ou nomeados uma décima parte do tempo que gastam fazendo politicagem, já teremos dado um grande passo.

Quando o carteiro chegou

José Horta Manzano

ISAURINHA GARCIA
Lá pelo fim dos anos 70, talvez logo no comecinho dos 80, eu estava em São Paulo. Vi anunciado que a Isaurinha Garcia se apresentava por alguns dias num teatro. Nunca a tinha visto, mas sabia, de ouvir falar, que tinha sido uma moça muito bonita. Na minha família, os mais antigos apreciavam a cantora. Fui já predisposto.

Deu muita pena. Vi, sozinha no palco imenso, uma pequena criatura, maltratada pelo tempo, aparentando bem mais que os cinquenta e poucos anos que tinha. Na plateia, meia dúzia de gatos pingados. Ficava a impressão de que aquela velha senhora não estava ali pela glória, mas para granjear alguns trocados.

Ela mais falou que cantou. Era muito gente, a Isaurinha, gente como a gente, desprovida desses ares de diva inatingível que algumas se dão. Sentou-se numa cadeirinha, num canto do palco, e contou um pouco da sua história, num relato simples como aqueles que se faziam antigamente à mesa da cozinha, na hora do chá da noite. Ou do café com leite, para as crianças.

Isaurinha Garcia

Isaurinha Garcia

CAETANO VELOSO
Até o fim de 1964, tive um professor de música, excelente profissional. Não vou revelar seu nome ― vocês entenderão por quê.

Em 1965, vim para a Europa. Os mais velhos hão de se lembrar, mas aos mais jovens vou contar: mudar-se para a Europa, naquele tempo, equivalia a mudar-se para o planeta Marte hoje em dia. A distância ressentida era bem maior que hoje. Nem se pensava em telefonar, que custava uma fortuna. Não havia internétchi, nem feicibúqui, nem imêiu, nem tevê por satélite. Laços de amizade que não fossem sólidos partiam-se rapidamente.

Durante alguns anos, guardei contacto ― por carta, naturalmente ― com alguns dos amigos e conhecidos que havia deixado no Brasil. Passados dois, três anos, os liames foram-se esgarçando e sobrou somente a família.

Entre as pessoas com quem me correspondi no começo, estava justamente meu professor de música. A cena musical brasileira estava em plena efervescência, com gente do quilate de Elis Regina e Chico Buarque aparecendo. Festivais proliferavam. Foi uma época muito criativa. Meu amigo músico me mandou algumas partituras de artistas novos, que eu desconhecia. Entre eles, havia Roda Viva, composta por Chico Buarque. O impresso veio com uma anotação à mão: «Êste é dos bons!!!», com acento diferencial no êste, como se escrevia à época.

Uma partitura de Tropicália, de Caetano Veloso, veio também. Aquela trazia observação manuscrita menos airosa: «Êste, em minha opinião, é pilantra!!!». Como eu tinha grande admiração pela erudição de meu professor, achei que ele devia ter razão.

Não foi senão uns dez anos mais tarde que, de volta ao Brasil, pude conhecer mais a fundo a obra dos dois jovens artistas, Buarque e Veloso. Tenho de admitir que meu mestre não estava tão errado assim. O Chico era realmente «dos bons», enquanto o outro nunca me entusiasmou.

Quando o carteiro chegou

Quando o carteiro chegou

MENSAGEM (Quando o carteiro chegou)
Sempre achei ― e continuo achando ― que o melhor do Brasil não é seu povo, nem seu clima, nem suas belezas naturais, nem sua língua. O que mais me encanta em Pindorama é a música. Antes da internet, a cada viagem que fazia ao Brasil, eu trazia de volta uma boa quantidade de discos. Primeiro, foram aquelas bolachonas pretas de vinil. Depois, apareceram os cds, bem mais práticos e menos volumosos. Hoje em dia, não precisa mais. Meu rádio recebe o sinal por internet, o que me dá acesso a milhares de estações, desde a Mongólia até a Patagônia.

Outro dia estava sintonizado na Rádio Nacional de Brasília. É uma emissora chapa-branca, daquelas que chamam a presidente de presidenta. Mas tem uma excelente programação, quase exclusivamente musical. Uma coisa compensa a outra. Lá pelas tantas, uma música me pareceu familiar. Não coincidia exatamente com o que eu tinha em memória, mas a parecença era indiscutível.

Não precisei pensar muito. Logo identifiquei que aquilo que estavam tocando era uma quase cópia do samba-canção Mensagem, composto pelos cariocas Cícero Nunes e Aldo Cabral e gravado por Isaura Garcia, na flor de seus 23 aninhos, em 1946. Esperei até o fim da cantoria do rádio. Queria ficar sabendo que música era aquela e quem se apresentava como autor. No fim do bloco, o locutor informou: «Pé do meu samba, de autoria de Caetano Veloso, cantada por Mart’nália». Pra você ver.

Envelope... sem sobrescrito

Envelope… sem sobrescrito

PLÁGIO
Plágio? É difícil dar um veredicto definitivo. Apesar dos mais de 60 anos que separam as duas composições, a linha melódica e a harmonia, pelo menos nos primeiros compassos, é idêntica. É possível até que a velha Mensagem já tenha caído no domínio público deixando, assim, de ser protegida pela legislação sobre direito autoral.

Há atitudes que, embora lícitas, fogem à ética. O senhor Veloso, ao ressuscitar o velho samba-canção, poderia ter revelado a origem de sua inspiração, a parceria póstuma. Teria sido bem mais simpático e não faria mal a ninguém. Ademais, evitaria chocar os ouvidos dos que ainda se lembram «daquela do carteiro». Será que meu bom professor de música tinha razão?

Interligne 18c

Quem quiser comprovar a estonteante semelhança, que faça uma visitinha ao youtube, preste atenção e compare:

Mensagem
(a partir do ponto 0:10)

Pé do meu samba
(a partir do ponto 0:33)

Nossa elite dirigente

Dilma, Cristina, Evo e Bouterse

Dilma, Cristina, Evo e Bouterse

«Definitivamente, somos o elo perdido que os cientistas tanto procuram para fazer a ligação entre o período jurássico e a era moderna…»

Comentário de um leitor do blogue do jornalista Políbio Braga ao contemplar a foto estampada acima.

Quem quiser saber quem é o presidente do atual Suriname (antiga Guiana Holandesa), não deve deixar de ler o editorial do Estadão de 8 set° 2013. É edificante.

É dia de votar!

José Horta Manzano

Você sabia?

Lembrete aos eleitores: Vota-se hoje

Lembrete aos eleitores:
Vota-se hoje!

Na Suíça, vota-se frequentemente. Temos, em média, 4 votações por ano. Uso o termo votação para diferenciar de eleição. Para nós, no Brasil, com raríssimas exceções, vai-se às urnas para eleger governantes, deputados, senadores. As exceções ficam por conta de esporádicos referendos ou plebiscitos, como aquele que tratava da posse de armas de fogo.

Na Suíça acontece o contrário. Na imensa maioria das vezes, vota-se para tomar decisões, instaurar leis, modificar regulamentos, abolir normas. A exceção é ir às urnas para eleger alguém. Dia 22 de setembro é dia de voto popular. No plano federal, os cidadãos serão consultados sobre três diferentes assuntos ― um plebiscito e dois referendos. Cada cantão aproveita o embalo para acrescentar, se for o caso, uma ou mais questões de caráter regional.

Já falei outro dia sobre a diferença entre plebiscito e referendo, mas não custa repetir para quem faltou à aula. Quando se pergunta aos eleitores se são a favor (ou contra) uma lei que ainda não existe, tem-se um plebiscito. Já quando se pergunta aos eleitores se aprovam uma lei já votada pelo parlamento, temos um referendo.

Lembrete aos eleitores: Vota-se este fim de semana

Lembrete aos eleitores:
Vota-se este fim de semana!

Posso me enganar, mas, assim de cabeça, não me lembro de ter jamais visto os brasileiros serem chamados a referendar alguma decisão já tomada pelo Congresso. As escassas consultas feitas diretamente ao povo foram todas plebiscitárias, ou seja, interrogavam os eleitores sobre a pertinência de se legislar sobre isto ou aquilo.

Na Suíça, as regras da chamada democracia direta fazem que qualquer cidadão ou qualquer agremiação possa dar origem a uma petição ― aqui chamada iniciativa popular ― pedindo criação, abolição ou modificação de algum instituto legal. Como consequência, referendos e plebiscitos são corriqueiros.

Para que uma iniciativa popular seja reconhecida e dê origem a uma consulta ao povo, há regras severas. Um determinado número de adesões deve ser colhido dentro de um determinado espaço de tempo. Em seguida, as assinaturas são rigorosamente controladas. Se o número mínimo tiver sido atingido, o governo marcará uma data para a votação, geralmente entre 6 meses e um ano depois da validação da iniciativa popular.

Local de votação, Suíça

Local de votação, Suíça

Um dos referendos do dia 22 de setembro faz uma pergunta curiosa, inimaginável no Brasil. Pela legislação suíça atual, os postos de gasolina estão entre os (mui raros) estabelecimentos comerciais autorizados a permanecer abertos a noite inteira. Até alguns anos atrás, enquanto vendiam nada mais que gasolina, tudo corria bem. Acontece que, aí como cá, chegou a moda das autoshops, conhecidas no Brasil como lojas de conveniência ― nome inesperado. E aí a coisa complicou.

Com exceção de postos de gasolina, cafés, bares, restaurantes & assemelhados, a abertura de estabelecimentos comerciais à noite é terminantemente proibida. Postos de gasolina, hoje em dia, costumam ter todos uma loja de conveniência acoplada. Até o momento presente, a situação é a seguinte: entre 1h e 5h da madrugada, os postos podem vender combustível e produtos específicos para automóveis. Têm também o direito de deixar a cafeteria aberta. Mas estão proibidos de vender quaisquer outros artigos. É uma situação bizarra, convenhamos. Os produtos estão ali, nas gôndolas. Os funcionários estão à disposição. Mas a venda é ilegal.

Lembrete aos eleitores: Vota-se este fim de semana

Lembrete aos eleitores:
Vota-se este fim de semana!

O que se pede agora ao povo é que diga se aceita ou não uma modificação da Lei Federal sobre o Trabalho, já votada pelo Parlamento em dezembro de 2012. Os que apoiam a modificação sublinham a falta de lógica da situação atual. Acreditam que os tempos mudaram e que a legislação não pode continuar inarredavelmente plantada num mundo que desapareceu. Os oponentes, por seu lado, temem que seja essa a porta de entrada para uma liberalização generalizada do comércio noturno, o que, a seu ver, além de desnecessário, seria nocivo para a vida familiar dos empregados.

Dia 22 à tarde, conheceremos o veredicto da população sobre essa questão palpitante e transcendental.

Por que será?

José Horta Manzano

Faz menos de uma semana, vazou um relatório interno do CIO (Comitê Internacional Olímpico) sobre o andamento das obras em vista dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. O correspondente do Estadão na Suíça conseguiu uma cópia e desvelou a seus leitores o conteúdo ― terrivelmente constrangedor para as autoridades brasileiras encarregadas de preparar o evento. Falei disso no post Cheia de encantos mil, de 2 setembro 2013.

Jogos Olímpicos 2020 Tóquio, cidade candidata

Jogos Olímpicos 2020
Tóquio, cidade candidata

Ontem, sábado, o mandarinato olímpico estava em peso em Buenos Aires para revelar, em cerimônia solene e retransmitida ao vivo para o mundo inteiro, o nome da cidade escolhida para suceder ao Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos.

Para o verão de 2020, havia três candidatas: Madrid, Istambul e Tóquio. Longe de mim suspeitar que o voto dos figurões seja um jogo de cartas marcadas. Cruz-credo! O CIO, assim como a Fifa, o Congresso brasileiro e outras elevadas instâncias vêm confirmando, ao longo dos anos, sua ilibada reputação de total isenção. São organismos comprovadamente imaculados.

O fato é que todos esperavam Madrid. É a capital de um país simpático, bem-visto pela maioria. Vivem época de penúria, mas tinham-se comprometido a mostrar ao mundo que é possível organizar um grande evento gastando pouco.

Se não desse Madrid, havia de dar Istambul. A Turquia anda um pouco magoada com os europeus que não dão sinal de aceitá-la como membro da União Europeia. Conceder-lhe a honra de sediar as Olimpíadas seria uma maneira de apaziguar os ânimos, assim como quem dá uma chupetinha à criança que choraminga. E tem mais: se a diretoria do CIO fosse venal ― digo bem: se fosse, probabilidade mais que remota! ― poderia exigir dos turcos um mimo mais consistente do que de espanhois empobrecidos ou de japoneses pudicos.

Ao final, para espanto da galeria, não deu nem uma nem a outra. Deu Tóquio, aquela que ninguém esperava. Das três cidades, é justamente a que já sediou Jogos Olímpicos no passado, em 1964. Das três, é a que mais deveria ter assustado os decididores: uma simples menção às inquietantes consequências do acidente nuclear de Fukushima é de afugentar qualquer um.

JO 2020 ― Tóquio by Shizuo Kambayashi

JO 2020 ― Tóquio
by Shizuo Kambayashi

Por que, diabos, escolheram Tóquio? Tenho minha ideiazinha. Acredito que o CIO esteja se comportando como gato escaldado, aquele que tem medo de água fria, percebe? Depois do sufoco pelo qual estão passando com a enxurrada de problemas que os Jogos do Rio lhes estão causando, preferiram a segurança.

Nem o sol garantido e os 40 graus madrilenhos, nem o cosmopolitismo da imensa Istambul ― única capital do planeta assentada sobre dois continentes ― adiantaram. O comitê, escaldado, optou pela cautela. Aprenderam.

Inimigos médicos

Percival Puggina (*)

Quando viu o povo na rua, cobrando atenção à Saúde Pública, Dilma adotou prática tão antiga quanto namorar no portão. Escolheu um inimigo e o apontou à sociedade: os médicos brasileiros. A partir daí, jogou contra eles os raios e trovões que conseguiu recolher em seu repertório.

A saúde pública tem problemas. Falta atendimento, dinheiro, leitos. São longas as filas. Espera-se meses por um exame e anos por uma cirurgia. De quem é a culpa? Segundo a presidente, a culpa é dos médicos. Sua Excelência cuidou de passar à sociedade a impressão de que eles preferem viver nos grandes centros não porque ali estejam os melhores hospitais, laboratórios e equipamentos, mas porque ali estão os melhores restaurantes, clubes e cinemas. Foi para a tevê tecer ironias com o fato de que os primeiros a fazerem opções no “Programa Mais Médicos” preferiram localidades litorâneas. A compreensão dessa mensagem pelos sem discernimento (estamos falando de dezenas de milhões) fica assim: os doutores gostam, mesmo, é de praia.

Através dessas paquidérmicas sutilezas, o governo tenta convencer a sociedade de que os médicos não vão para as pequenas comunidades porque se lixam para as carências com que ele, governo, se preocupa. Opa! Preocupa-se agora, preocupa-se depois das vaias, preocupa-se depois das passeatas. E esquece que, pelos mesmos motivos, milhões de outros profissionais também preferem trabalhar em centros urbanos mais dinâmicos. Identificado o inimigo, a presidente partiu para o ataque. Criou um 2º ciclo de formação médica, obrigatório, a serviço do SUS, com duração de dois anos, a ser prestado onde houver necessidade. Fez com que os médicos perdessem a exclusividade de diversas atribuições relativas a diagnósticos e prescrição de tratamentos. Jogou na lixeira a insistente e lúcida recomendação no sentido de que seja criada na área médica uma carreira de Estado, semelhante à que existe para as carreiras jurídicas. Explico isso melhor: espontaneamente, nenhum juiz ou promotor vai solicitar lotação em Paranguatiba do Morro Alto. No entanto, como etapa de uma carreira atraente e segundo regras bem definidas, sim. É desse modo que se resolvem as coisas numa sociedade de homens livres.

Nada revela melhor a vocação totalitária do partido que nos governa do que este episódio. É uma vocação que dispensa palavras, que atropela leis e se expressa nas grandes afeições. Cubanas, por exemplo. A vinda dos médicos arrematados em Castro & Castro Cia. Ltda. permite compor um catálogo de transgressões aos princípios da liberdade individual, da dignidade da pessoa humana, da justiça, da equidade, da proporcionalidade, do valor do trabalho. Repugna toda consciência bem formada a ideia de que um país possa alugar seus cidadãos a outro, enviá-los aos magotes como cachos de banana, beneficiar-se financeiramente dessa operação em proporções escandalosas e ainda fazer reféns as respectivas famílias por garantia da plena execução do mandado. E há quem afirme que toda oposição a uma monstruosidade dessas é “preconceito ideológico”! Pois eu digo diferente: acolher como louvável semelhante anomalia política é coisa que só se explica por desvio do juízo moral.

Dilma e os seus gostariam de dispor dos brasileiros como coisas suas, assim como os Castro dispõem dos cubanos. Sendo impossível, buscam-nos lá, do mesmo modo como, antigamente, eram trazidos escravos das feitorias portuguesas no litoral africano.

(*) Arquiteto, empresário e escritor

Entra, sortudo

Dad Squarisi (*)

Quem quer? Nove em cada 10 brasileiros levantam a mão. Querem entrar no serviço público. A Constituição de 88 lhes deu um senhor estímulo. Tornou QIs & companhia apadrinhada práticas obsoletas como carteiradas e crachás de autoridade. A única porta de acesso é a seleção aberta a todos os interessados. Só os melhores entram.

A novidade despertou ambições. Criou a indústria dos concursos. Cursos preparatórios enriquecem empresários de norte a sul do país. Não são poucos os candidatos que abandonam o emprego e se dedicam aos estudos em tempo integral. Viraram profissionais. Concursandos passaram a ser chamados de concurseiros.

Concurseiro

Concurseiro

Nada mau. O Estado precisa de profissionais qualificados pra responder aos desafios de uma administração cada vez mais complexa. Recrutá-los com base na meritocracia, porém, tem sido tarefa turbulenta. O pomo da discórdia reside no processo de seleção. Falta seriedade e sobra amadorismo em entidades que organizam o certame.

Falhas em editais, organização e aplicação das provas constituem regra. Com frequência batem à porta da polícia e acabam na Justiça. O mais grave, porém, é a qualidade da cobrança. Qual a relevância, em concurso para nutricionista, saber o estado de origem da Luiza, garota que teve 15 minutos de fama na internet? Ou a frase final do livro sobre os affairs de Bill Clinton na Casa Branca?

As questões tropeçam em conteúdo e forma. Malformuladas, trombam de frente com a clareza e atropelam vírgulas, concordâncias, regências, colocações. A correção não fica atrás. Enchergar, trousse e rasoavel fazem a festa com receitas de miojo e nós pesca o peixe . Resultado: passa o sortudo. O injustiçado chora. Faz companhia ao contribuinte, que paga e não leva. Reclamar ao bispo? Qual o quê! Melhor engrossar o grito das ruas.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.

A bolsa eleição

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 setembro 2013

«Não existe político honesto» ― é frase que, de tão batida, está-se transformando, não sem razão, em lugar-comum. Em matéria de honestidade política no Brasil, é verdade que precisa levantar cedo, levar uma boa lanterna, abrir bem os olhos e procurar muito. Gente fina está cada vez mais difícil de achar. Mas toda regra costuma ter suas exceções. Quem procura acaba encontrando.

O doutor Hélio Bicudo, jurista de formação, está entre os raros brasileiros que se encaixam no perfil estreito do homem público íntegro. Foi procurador e promotor de Justiça, secretário municipal, vice-prefeito de São Paulo. Por breve tempo, foi até titular do Ministério da Fazenda. Hoje, aos 91 anos, conquanto guarde sua visão aguda e lúcida sobre a sociedade, está menos envolvido na vida pública. Há um tempo para tudo.

Humanista e humanitário, doutor Bicudo sempre batalhou pela defesa dos direitos humanos. Quando alguns idealistas se reuniram, faz mais de 30 anos, para fundar um novo partido político com o intuito declarado de defender os interesses dos oprimidos e dos trabalhadores, Hélio Bicudo não hesitou: juntou-se ao grupo. Foi um dos membros fundadores do PT.

A bolsa...

A bolsa…

Os anos passaram, a Terra girou, o Brasil mudou muito. O partido do doutor Bicudo chegou ao poder maior, a presidência da República. Mas a agremiação, na visão do jurista, estava desfigurada. Havia-se arredado demais de sua vocação primeira. Sentindo que a confraria partia à deriva e que a generosidade e o idealismo do início se haviam perdido pela estrada, o doutor Bicudo, desencantado, apeou do bonde. Desfiliou-se do PT.

Quem não tiver visto ainda, pode encontrar facilmente na internet o depoimento, com imagem e som, que Hélio Bicudo gravou alguns anos atrás. Discorre sobre a bolsa família. Revela que o programa de redenção dos miseráveis embutia um despudorado cálculo eleitoral: o esquema traria 40 milhões de votos para o partido e garantiria sua perpetuação no poder. Visto que o antigo partido do doutor Bicudo ainda continua empoleirado lá em cima, é de crer que tenha dado certo. Pelo menos até hoje.

Já faz tempo que se cogita, nas altas esferas, em importar médicos de Cuba. De uma só tacada, dois objetivos: mostrar preocupação com a saúde dos brasileiros e enviar um óbulo à dinastia reinante na ilha. No entanto, dada a resistência das associações que defendem os interesses dos médicos tupiniquins, a ideia foi deixada em banho-maria.

As manifestações de junho desfiaram um rosário de pedidos de «mais»: mais escolas, mais segurança, mais transportes. Uma reivindicação sobressaía: mais médicos. Era o sinal pelo qual o Planalto esperava havia tempo! Na onda do clamor popular, era hora de agir rápido. A importação de médicos podia entrar na ordem do dia.

Muita crítica está sendo aventada diante dessa iniciativa do governo. Há quem perceba a introdução de uma medicina de duas velocidades: uma para o andar de cima, outra para o populacho. Muitos médicos brasileiros, por seu lado, consideram injusto terem sido obrigados a se esforçar mais que seus colegas cubanos para obter o mesmo diploma. Há quem veja na diferença de línguas um obstáculo intransponível. Outros temem que os estrangeiros não tenham recebido formação suficiente. Enfim, há críticas de todos os feitios, para todos os gostos. Quanto a mim, vejo, embutida nessa operação, uma jogada pra lá de astuciosa.

... e a eleição

… e a eleição

A graciosa leitora e o ilustre leitor certamente já estiveram alguma vez num consultório médico. Assim como católicos despejam seus pecados no confessionário, pacientes confiam ao médico segredos íntimos, daqueles que nem sempre se compartilham entre marido e mulher. O respeito cria uma relação de confiança. O paciente pouco instruído tende, com mais forte razão, a admirar o galeno e a ver nele quase um guru. Se o médico missionário, no recôndito do consultório, sugerir ao paciente que vote neste ou naquele candidato, terá boa chance de ser obedecido.

Façamos as contas. São 4000 médicos cubanos. Se cada um der 20 consultas por dia, serão 100 pacientes por semana. Em um ano, cada médico terá dado 5000 consultas. Agora, ficou fácil: 4000 x 5000 = 20 milhões. Em teoria, 20 milhões de pacientes terão uma conversinha reservada, a portas fechadas, com os missionários da ilha caribenha. Ano sim e outro também.

Se os missionários tiverem recebido bom treinamento como cabos eleitorais, seus discretos conselhos hão de granjear muitos milhões de votos para o embornal do partido no poder. Bem bolado, não?

As marionetes

José Horta Manzano

Antigamente, costumava-se dizer que «livro é cultura». Com o advento da internet e outros bichos, livro ― pelo menos livro impresso ― anda perdendo o pouco de embalo que já tinha no Brasil.

Não sei, mas acho que o conceito de cultura é entendido de maneira sui-generis em nosso País. A escolha dos titulares da pasta da Cultura estes últimos anos tem deixado uma desagradável impressão de que o setor é de somenos importância. Não passa de um cabide onde se dependuram figuras vistosas, como um Gilberto Gil. Serve também de refúgio temporário para «desempregados» políticos, como é o caso da atual ocupante, dona Marta Suplicy, batida em sua última campanha eleitoral.

Das duas figuras que citei, nenhuma é conhecida por sua excepcional erudição, muito menos por suas qualidades organizacionais. Milagres não existem. Lembro-me de um velho chefe inglês que tive anos atrás. Falando de computador, ele dizia: «You feed shit it, you get shit out», se você puser cocô dentro, só pode sair cocô.

Teatrinho de marionete

Teatrinho de marionete

O nosso é um País de pouca cultura, de escassa erudição. Não se tem notícia de que realizações extraordinárias tenham sido deixadas de herança pelos últimos titulares do ministério. A última façanha de dona Marta Suplicy foi amplamente noticiada duas semanas atrás. Ignorando decisão da CNIC ― Comissão Nacional de Incentivo à Cultura ―, a ministra concedeu por volta de 7,5 milhões de reais a três estilistas de moda, para financiamento de seus desfiles no Brasil e no exterior.

Em matéria de incentivo à Cultura, pareceu a muitos uma decisão esdrúxula. Dona Marta decerto aprecia particularmente o estilo desses artistas. Será, aliás, interessante observar se, daqui para a frente, seu guarda-roupa não incluirá algumas criações exclusivas dos três.

A promoção do Brasil no exterior deveria ser atribuição do Ministério do Turismo. No limite, o Itamaraty deveria encarregar-se. Que o Ministério da Cultura faça as vezes de Ministério da Propaganda Cultural me parece estranho. Evoca instituições do III Reich, de triste memória.

Interligne 18g

Vivo em uma cidadezinha que não chega a 12 mil habitantes. Pois saibam os senhores que, enquanto aglomerações brasileiras bem maiores não dispõem nem de um teatro de marionetes, nós aqui temos um teatro de verdade. Com 372 lugares e uma programação pra ninguém botar defeito. A temporada 2012-2013, que começa agora em outubro e vai até abril, propõe não menos de 22 atrações. Teremos peças de teatro, one-man shows (e two-men shows) de artistas cômicos, música coral, música de câmera, concertos de piano. Até uma noitada especial com 7 pianos! Quem tiver curiosidade clique aqui para ver o programa.

Teatro de Gland by E. Baghtchadjan

Teatro de Gland
Fotos de E. Baghtchadjan

Ok, ok. Estou de acordo que não faz sentido construir um teatro em São Nicodemo do Brejo. O povo de lá está mais preocupado em saber se vai poder comer amanhã. Em casos assim, melhor será começar pela instrução pública. Quem sabe, mais tarde, se chegará ao teatrinho de marionetes.

Mas, convenhamos, entre as marionetes que o povo de São Nicodemo nunca verá e os desfiles de moda ― custeados com nosso dinheiro ― que Paris e Nova York verão, há muito espaço a ser preenchido. Falta competência.