Meritocracia

José Horta Manzano

O Houaiss contém o verbete meritocracia e data seu aparecimento de 1958. Nestes tempos de fake news circulando rápido, não se verifica mais origem e autenticidade da informação. Este blogueiro, que guardou hábitos antigos, costuma verificar. Até o venerando Houaiss, que é considerado o nec plus ultra dos dicionários de nossa língua, tem de passar pelo filtro. Checar é prática útil: pode diminuir a velocidade do trabalho, mas é blindagem contra notícias falsas.

Fui procurar, na hemeroteca(*) da Biblioteca Nacional, se não havia mesmo registro da palavra meritocracia anterior a 1958. Havia. O substantivo é mencionado no Jornal do Brasil (RJ) em 1934, no Diário de Notícias (RJ) em 1931, n’O Jornal (RJ) em 1929 e no Jornal do Commercio (RJ) em 1928. O pesquisador do Houaiss havia de estar apressado.

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

(*) Hemeroteca
É palavra que entrou na língua por via culta. É formada pelas raízes gregas heméra (=dia ) + teca (=lugar onde se guarda). Indica o lugar onde se conservam as coleções de jornais.

Hemer(o) entra na composição de numerosos termos técnicos e científicos como hemeropatia (doença que dura apenas um dia), hemerobatista (membro de uma seita cristã que reiterava o batismo todos os dias), hemeróbio (inseto cuja curta existência não ultrapassa um dia).

Teca é velho conhecido nosso. Aparece em termos que indicam o lugar onde se guarda uma coleção qualquer: biblioteca (livros), filmoteca (filmes), discoteca (discos), datilioteca (anéis), mapoteca (mapas), e por aí vai.

A Biblioteca Nacional mantém uma preciosa hemeroteca, com a versão digitalizada de praticamente todos os jornais publicados no Brasil, desde o primeirão, de 1808. Ainda não estão lá aqueles que seguem sendo publicados.

Pra finalizar
Embora o som de hemeroteca e de meritocracia guarde certa semelhança, as duas raízes não se conhecem nem de elevador. A primeira vem do grego, enquanto a segunda vem do latim.

Intolerância

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias, uma bolsista negra da Fundação Getúlio Vargas foi afrontada, durante um evento esportivo organizado dentro da fundação por uma pessoa – provavelmente um aluno ou membro da instituição –, com os seguintes dizeres: “Negrinha aqui, não!” Que fique claro para quem não se enfronhou com o acontecido: a moça não é cotista, foi contemplada por mérito próprio com uma bolsa de estudos.

Inúmeras reportagens foram feitas nos mais diversos meios de comunicação a esse respeito, a maioria das quais destacando que a fundação prontamente instaurou inquérito para tentar identificar o agressor, sem admitir, contudo, que ele (ou ela) faça parte de seu corpo estudantil, uma vez que o evento era aberto ao público.

Reações de leitores indignados pulularam por todas as partes. Como admitir que uma violência desse calibre tivesse lugar no meio da intelectualidade paulistana e dentro de uma casa que abriga os filhos de sua mais ilustre elite financeira? Especialistas foram chamados a opinar sobre as causas do fenômeno.

Incrédula, ao terminar de ler muitas análises, tudo o que consegui sentir foi um forte impulso de dialogar com a garota. Queria que ela me contasse um pouco de sua história de vida, falasse sobre a experiência de estudar na FGV e relatasse as emoções que experimentou durante o episódio e depois dele. Queria saber por que ela optou por se manter em silêncio e preferiu não ser identificada pela imprensa. Ao final de seu relato, se pudesse, eu a olharia bem no fundo dos olhos e lhe diria:

«Não vou tentar consolá-la, não vou buscar palavras melosas para lhe dizer da minha solidariedade, nem lhe dar conselhos quanto aos passos que você poderia adotar para encontrar justiça. Não vou lhe pedir que confie na justiça divina, mesmo que a dos homens falhe. Não vou usar meus conhecimentos de psicologia para ajudá-la a entender as motivações psíquicas que estão por trás do comportamento de seu agressor. Acredito sinceramente que, como diz a canção, você já sabe disso tudo na ferida viva do seu coração. Só tenho uma coisa a lhe dizer: não busque entender. Qualquer tentativa de explicação desse tipo de fenômeno representa apenas uma forma de abrir espaço para acolhimento de justificativas e acobertamento da transgressão. Da mesma forma, deixar-se levar pela onda de indignação e achincalhar o responsável pelo insulto pode ser uma medida catártica para muitas pessoas, mas de pouca eficácia na prática. Juntar-se ao coro dos que categorizam o agressor como “não-humano” ou “idiota” me parece ainda pior. A vontade de dividir a espécie em categorias mais e menos aceitáveis é exatamente o que parece estar na origem do comportamento transgressor. Infelizmente, apontar o dedo para a pequeneza mental de terceiros pode não passar de tentativa vã de demonstrar superioridade moral. Para o bem e para o mal, estamos todos imersos na lama de nossa própria ignorância e mediocridade. Nossa memória também é lamentavelmente curta quando se trata do que aconteceu a outras pessoas. Quando nova ocorrência de discriminação for registrada, sua dor já terá sido esquecida.

Minha frase preferida, proferida por uma de minhas professoras, é emblemática da única mensagem que quero lhe transmitir: “Às vezes, é preciso não entender”. Quanto mais pessoas puderem admitir para si mesmas o mal-estar, o pasmo, o desconforto psíquico, a angústia e a incompreensão que gestos ou discursos de ódio geram, melhor para a civilização humana.

Seu silêncio e sua recusa em ser identificada têm o peso adequado para reequilibrar os pratos da balança e nos devolver a esperança de dias melhores. Ambos sinalizam que você não está em busca de 15 minutos de fama e que é preciso tempo e introspecção para metabolizar experiências de contato com a barbárie humana. Os cães ladram e a caravana passa, você sabe.

by Marine Fargetton, artista francesa

Não sei como impedir que casos como esse se repitam. Tudo o que me ocorre neste momento é pedir permissão para me juntar à sua caravana e lhe dar um abraço comovido. Um abraço de mulher, um abraço de quem se sabe mortal e já aprendeu que caixão não tem gavetas. Um abraço de quem acredita que o único legado verdadeiramente útil que se pode aspirar a deixar para as futuras gerações é o da dignidade em todas as circunstâncias.»

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Frase do dia — 72

«Só revalorizando a meritocracia e com obsessão pelo cumprimento de metas o Brasil dará o salto que precisa dar na qualidade dos serviços públicos. Com uma carga tributária de 36% do PIB, recursos não faltam.»

Fernando Henrique Cardoso, em coluna publicada no Estadão, 5 jan° 2014

Entra, sortudo

Dad Squarisi (*)

Quem quer? Nove em cada 10 brasileiros levantam a mão. Querem entrar no serviço público. A Constituição de 88 lhes deu um senhor estímulo. Tornou QIs & companhia apadrinhada práticas obsoletas como carteiradas e crachás de autoridade. A única porta de acesso é a seleção aberta a todos os interessados. Só os melhores entram.

A novidade despertou ambições. Criou a indústria dos concursos. Cursos preparatórios enriquecem empresários de norte a sul do país. Não são poucos os candidatos que abandonam o emprego e se dedicam aos estudos em tempo integral. Viraram profissionais. Concursandos passaram a ser chamados de concurseiros.

Concurseiro

Concurseiro

Nada mau. O Estado precisa de profissionais qualificados pra responder aos desafios de uma administração cada vez mais complexa. Recrutá-los com base na meritocracia, porém, tem sido tarefa turbulenta. O pomo da discórdia reside no processo de seleção. Falta seriedade e sobra amadorismo em entidades que organizam o certame.

Falhas em editais, organização e aplicação das provas constituem regra. Com frequência batem à porta da polícia e acabam na Justiça. O mais grave, porém, é a qualidade da cobrança. Qual a relevância, em concurso para nutricionista, saber o estado de origem da Luiza, garota que teve 15 minutos de fama na internet? Ou a frase final do livro sobre os affairs de Bill Clinton na Casa Branca?

As questões tropeçam em conteúdo e forma. Malformuladas, trombam de frente com a clareza e atropelam vírgulas, concordâncias, regências, colocações. A correção não fica atrás. Enchergar, trousse e rasoavel fazem a festa com receitas de miojo e nós pesca o peixe . Resultado: passa o sortudo. O injustiçado chora. Faz companhia ao contribuinte, que paga e não leva. Reclamar ao bispo? Qual o quê! Melhor engrossar o grito das ruas.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.