Até o Vietnã!

José Horta Manzano

Você sabia?

Vietnam 2Em superfície, o pequeno Vietnã, situado na península indochinesa, é o 64° entre os países. Para compensar, é densamente povoado. Com seus quase 90 milhões de habitantes, aparece classificado em 14° lugar.

Em meados do século 19, a França tomou conta da região e fez dela a colônia conhecida como Cochinchina(1). À custa de mais de 20 anos de luta, o território conseguiu se livrar dos franceses. Os acordos de independência foram assinados em 1954.

O sossego não teve vida longa. Dez anos depois, o país foi invadido pelos americanos, que tinham por objetivo barrar a ameaça comunista vinda da vizinha China. A guerra foi terrível e desigual. De um lado, estava o exército mais poderoso do planeta; do outro, viam-se combatentes de pés descalços.

É verdade que a China e a União Soviética deram sólido apoio. Mas há que se reconhecer o valor dos pequenos vietnamitas. Acabaram despachando os americanos de volta pra casa. A briga entrou para a história como a única guerra oficialmente perdida pelos EUA. Uma façanha!

Do país destroçado de quarenta anos atrás, surgiu um novo Vietnã à força de muito trabalho. Turismo, exportação de peixes, de crustáceos, de café e de outros produtos agrícolas formam hoje a base da receita. Já faz anos que o crescimento do PIB é superior a 5% ao ano.

Artigo do portal VietnamPlus de 4 jan° 2015 informa que o comércio com o Brasil movimentou 3 bilhões de dólares nos 11 primeiros meses de 2014. Prevê-se forte aumento para estes próximos anos.

O Vietnã exporta manufaturados ao Brasil: telefones celulares, fibras artificiais, sapatos, sandálias(!). Nossas exportações para aquele país constituem-se, essencialmente, de produtos agrícolas: milho, soja, tabaco, algodão.

Vietnã – arrozais escalonados nas montanhas do norte (arroz de banhado)

Vietnã – arrozais escalonados nas montanhas do norte
(arroz de banhado)

Parece-me paradoxal que um país com importante parque industrial como o Brasil tenha de importar celulares, sapatos e sandálias(!) do Vietnã. Parece que o mundo está de cabeça pra baixo. Nós é que deveríamos estar exportando esses produtos para eles.

Por que é que, em vez de saquear a Petrobrás, nossos governantes não se preocupam em apoiar e fomentar a pequena indústria brasileira? Por outro lado, como é possível que os mesmos elementos(2) continuem sendo sufragados, eleição após eleição? Será que a casa não vai cair um dia?

(1) Atenção! Não é Conchinchina. É Cochinchina – a letra o não é nasalizada. Pronuncia-se como se fosse Co-chinchina.
(2) No jargão policial, meliantes costumam ser designados como
elementos.

O ministro da Ciência e Herodes

Cláudio Tognolli (*)

Interligne vertical 11a“Como você vai fazer um barco navegar contra o vento e contra a corrente, só acendendo uma fogueira embaixo do tombadilho?”, perguntava-se, publicamente, em 1803, Napoleão Bonaparte, sobre o barco a vapor do engenheiro americano Robert Fulton.

“Colocar um homem em um foguete e projetá-lo até o campo gravitacional da Lua – talvez pisar lá – e voltar à Terra: tudo isto constitui um sonho maluco digno de Júlio Verne. (…) Esse tipo de viagem feita pelo homem nunca vai acontecer, independentemente de todos os avanços no futuro”, estabeleceu o físico Lee DeForest, em 1957.

“Pessoas bem informadas sabem que é impossível transmitir a voz através de fios e que, se fosse possível fazer isto, esta coisa não teria valor prático algum” – editorial do Boston Post, em 1865, redigido por um jornalista indignado com a invenção do telefone.

O que esperar de Rebelo?
O novo ministro da Ciência, Aldo Rebelo, é comunista de carteirinha e também jornalista. Entregar a ciência a Aldo Rebelo é como entregar o berçário ao Rei Herodes. E as patacoadas disparadas contra as invenções científicas mais populares, como você leu acima, é o que devemos esperar de Rebelo. Se ele resolver abrir a boca, é claro.

Não vai aqui nenhum ataque pessoal, ad hominem, contra Rebelo. Filiado ao PC do B desde 1977, seria de estranhar se ele não fosse comunista profissional. O que é comunista profissional?

É aquele para quem só existe o que podemos tocar com as mãos. (Para eles, assim sendo, Gisele Bündchen não existe…) Afinal, “a prova da existência do pudim está em comê-lo”, notava Engels, coautor do Manifesto do Partido Comunista.

Luta entre o Carnaval e a Quaresma by Pieter Bruegel (≈1525-1569), artista flamengo

Luta entre o Carnaval e a Quaresma
by Pieter Bruegel (≈1525-1569), artista flamengo

Valores medievais
Aldo Rebelo pode ser entendido também por outra explicação comunista. O pensador marxista alemão Ernst Bloch (1885-1977) gostava de apontar o que chamava de “contemporaneidade do anacrônico” (em alemão, Gleichzeitigkeit der Ungleichzeitigkeit).

Ou seja: você vive no século 21, mas pode estar dividindo o seu espaço, lado a lado, com quem ainda mantém valores medievais. Ou simplesmente com quem acha que a ida do homem à Lua não passa de montagem de vídeo.

Aldo Rebelo é tudo isso aí. Costuma dizer que não há aquecimento global porque ele é “improvável”.

Vamos a casos recentes:

Interligne vertical 16 3Kb– Rebelo é pai daquela loucura de que estrangeirismos tinham de ser limitados no Brasil. Aprovado por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania em 2007, o projeto ainda aguarda votação em plenário. Se ele vingar, o aplicativo Whats Up terá de se chamar “E aí?”; o mouse do computador, “rato”; I-Pad, “Eu bloco”.

– Em 2002, Aldo propôs a proibição de “inovação tecnológica poupadora de mão de obra”. Seriam proibidas as fotos digitais e as xeroxes.

– Em 2000, Aldo tentou proibir a utilização de sistema de catraca eletrônica em veículos de transporte coletivo de passageiros.

– Em 2001, defendeu a adição obrigatória de 10% de raspa de mandioca na farinha de trigo destinada à fabricação do pão francês, o famoso pãozinho de 50 gramas. A ideia era “melhorar os nutrientes do pão e fomentar a cadeia de produção da mandioca”. Aprovado no Congresso, o projeto foi vetado. Por quem? Por Lula.

– Em 2003, tentou transformar o Halloween (Dia das Bruxas), celebrado em 31 de outubro nos Estados Unidos, no Dia Nacional do saci-pererê.

É esse o nosso homem na ciência. E ponto final.

(*) Claudio Tognolli é escritor, jornalista e músico. O artigo foi publicado pela Tribuna da Internet, 1° jan 2015..

Os problemas que não temos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 jan° 2015

Farofa 1Entrada de ano é hora de balanço. Todos nós, coração amolentado, olhamos pra trás, analisamos nossos próprios feitos e juramos de pés juntos fazer mais caprichado no ano que entra. Junto com o peru, a farofa e a troca de presentes, o exame de contrição faz parte do ritual da passagem de ano.

Canais de tevê, jornais, revistas e portais fazem questão de propor retrospectivas do ano que se foi. Pouca atenção se dá a acontecimentos positivos. Em compensação, é impressionante o que se vê de desastre e de desgraça. Compreende-se: coisa ruim vende melhor.

É verdade que, no Brasil, 2014 foi um ano e tanto. Eleições, seca saariana, vexame na Copa, violência endêmica, corrupção aos borbotões assustaram. Os problemas que temos são pesados. Às vezes nos fica a impressão de estarmos vivendo no pior país do planeta. Será mesmo?

Nestes dias flutuantes que separam passado e futuro, proponho darmos uma espiada no quintal do vizinho. Vamos, por um momento, esquecer nossas mazelas e imaginar a aflição de outros povos.

Manif 11Os Estados Unidos, símbolo de desenvolvimento e sucesso, estão sacudidos por distúrbios raciais. Ressurgem os espantalhos que imaginávamos falecidos com o último dos hippies.

Serra Leoa e outros territórios da África Ocidental choram seus mortos. Estão sendo dizimados por severa epidemia, mal terrível contra o qual pouco ou nada se pode fazer.

Desvario na condução da economia mergulhou nossa vizinha Venezuela no desabastecimento e na hiperinflação. O país resvala para a anomia.

Todos os Estados da orla do Pacífico vivem na permanente angústia de terremoto ou tsunami, catástrofes que podem irromper sem dizer água vai.

Imigração 4Empurradas pela miséria, populações inteiras arriscam a pele na temerária travessia do Mediterrâneo a bordo de embarcações precárias em busca de vida melhor na Europa. Esse fluxo continuado de infelizes aporta na Itália, onde acaba gerando fortes tensões que esgarçam o tecido social.

Os países produtores de petróleo do Oriente Médio, aqueles cuja única riqueza repousa na extração do ouro negro, sabem que a qualquer hora a fonte vai secar. Imagina-se a apreensão criada por essa perspectiva.

As duas Coreias vivem situação paradoxal. A do norte passa fome. A do sul vive há 60 anos na apreensão de um ataque do irmão desorientado.

Os iranianos pelejam contra o olhar reprovador do resto do mundo. Além de serem vistos com desconfiança, sofrem sanções que lhes sufocam a economia.

Já faz meio século que nossos vizinhos colombianos vêm tentando varrer do país o estigma da narcoguerrilha. Sem sucesso até agora.

Guerrilha 1Na França, imigração maciça oriunda das antigas colônias africanas tem semeado crescente discórdia entre franceses «de raiz» e recém-chegados. Essa cizânia é alimento para correntes políticas populistas e neonazistas, que ganham adeptos a cada dia.

Os países da África subsaariana, já castigados pela pobreza endêmica e pela natureza hostil, ganharam mais um inimigo. Grupos terroristas elegeram domicílio na região, que se tornou, de facto, território sem lei.

A queda vertiginosa do preço do petróleo, aliada às sanções aplicadas por países ocidentais, reduziu dramaticamente as rendas do Estado russo. Refletindo a desesperança, a moeda nacional perdeu boa parte de seu valor. Como de hábito, quem sente o baque é o povo.

Espanha, Turquia, Ucrânia, China são dilaceradas por crônicos movimentos separatistas – explícitos ou latentes. O estado insurreccional pode até, por momentos, se aquietar. Mas é calmaria que não ilude: por baixo da brasa, o fogo cochila. Um sopro basta para reavivá-lo e incendiar o país.

E o Brasil, bonito por natureza, como é que fica? Temos nossos problemas, sim. Seria hipocrisia negá-lo. No entanto, sopesando os males que corroem outros países, impõe-se o óbvio: nossos problemas têm solução.

Tsunami 1De fato, não dependemos da benevolência de governos estrangeiros, nem da descoberta de vacina milagrosa, nem da clemência da natureza. Não temos guerrilhas a combater, nem separatistas a derrotar, nem inimigos a temer. A faca, o queijo, a responsabilidade e a chave do futuro estão unicamente em nossas mãos – bênção de que outros povos não dispõem!

Quem quer mudar, muda. Quem não quer, reclama. Que tal incluir, nas intenções de fim de ano, a mudança de atitude? Que tal arregaçar as mangas e meter mãos à obra? A recuperação do País requer empenho de todos. Temos de salvar o que ainda pode ser salvo. E é bom acharmos logo solução contra a dissolução de nossa sociedade. Feliz ano-novo!

Os cinco selecionados

José Horta Manzano

Diplomacia não é o forte de dona Dilma – isso não é novidade. Mas há momentos em que ela consegue se superar e atingir a excelência na arte de maltratar autoridades estrangeiras.

Dilma e Joe Biden, vice-presidente dos EUA

Dilma e Joe Biden, vice-presidente dos EUA

Reportagem do jornal O Globo informa que nossa presidente recebeu 15 pedidos de entrevista formulados por autoridades estrangeiras que vieram prestigiar sua tomada de posse. Dos quinze, só cinco foram atendidos. Madame descartou dez.

Assim, dois terços dos solicitantes voltarão para casa chupando o dedo. E pensar que, depois de abandonar família e amigos no réveillon de ano-novo, essa gente atravessou mundo para aplaudir dona Dilma. Não os receber é grande falta de educação. Se concedesse dez minutos a cada um, em menos de duas horas a fatura estaria liquidada. Além de malcriada, a presidente está sendo mal aconselhada – o que tampouco é novidade.

O artigo não diz quem foram os rechaçados. Mas dá a lista dos que foram atendidos. São eles: o representante dos EUA, o da China, o da Suécia, o da Venezuela e o da Guiné-Bissau. Vamos tentar adivinhar a razão dessa seleção.

Dilma e Stefan Löfven, primeiro-ministro da Suécia

Dilma e Stefan Löfven, primeiro-ministro da Suécia

Estados Unidos e China são os mais importantes parceiros comerciais do Brasil. Recusar-lhes o pedido de entrevista seria pecado mortal. Faz sentido.

Quanto à atenção dedicada ao primeiro-ministro sueco, a explicação deve ser buscada nos 36 aviões de caça Gripen encomendados pelo Planalto. Conforme já comentei em meu artigo Os aviõezinhos, há negociações em curso para aumentar o volume encomendado. Passará de 36 a 108 aparelhos, num valor total de cerca de 50 bilhões de reais. Sem dúvida, num negócio dessa magnitude, o acerto de determinados «detalhes» vale meia hora do precioso tempo presidencial.

Dilma e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

Dilma e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

Señor Maduro, mandatário da infeliz e “bolivariana” Venezuela, foi outro para quem dona Dilma abriu as portas da sala de visitas. A intenção há de ter sido consolar o companheiro em perdição. O coitado deve estar-se sentindo cada vez mais só, depois que Cuba – importante membro do clube anti-imperialista – anunciou seu desligamento para dentro em breve.

O último dos agraciados com a simpatia de nossa presidente foi o mandachuva da Guiné-Bissau, país qualificado como narcoestado pela Agência da ONU contra a Droga e o Crime. Pobre, com área pouco superior à do Estado de Alagoas, a Guiné vive da exportação da castanha de caju. Oficialmente.

Por lá, é raro que se passe um ano sem golpe de Estado e assassinato de dirigentes. Bissau é conhecido ponto de passagem da cocaína proveniente da Colômbia. É “hub” importante. De lá, a droga é redirecionada para diversos destinos europeus, para onde é levada por infelizes que conhecemos como ‘correios’, ‘mulas’ ou ‘aviõezinhos’.

Dilma e José Mario Vaz, mandatário da Guiné-Bissau

Dilma e José Mario Vaz, mandatário da Guiné-Bissau

Não atino qual seja o interesse de nossa presidente em receber o atual homem forte de país tão estranho. Ela deve conhecer a razão. Se não, seus aspones saberão.

As dez autoridades rechaçadas deviam representar pouco interesse aos olhos da tosca diplomacia do Planalto. Como dizia o outro: “Dize-me a quem concedes entrevista e dir-te-ei quem és”.

A data incômoda

José Horta Manzano

Não adianta, é de lei: o fruto nunca cai muito longe da árvore. O Brasil herdou, da antiga metrópole lusa, espírito burocrático e cartorial. Volta e meia, um sinal de recaída aparece aqui e ali.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

O mais recente é o anúncio do novo salário mínimo. Todos esperavam 790 reais. O martelo foi batido a 788 reais. Por medida de economia! Alguém falou em mesquinharia? Bota mesquinharia nisso, compadre! Comparada com os bilhões roubados pelos pilantras que nos governam, é avareza revoltante.

A Constituição «cidadã», de 1988, não foge à regra. Com quase 250 artigos, figura entre as mais extensas do mundo. Detalhista, esmiuçada, amarrada, é um primor de complicação.

Entre outras minúcias, fixou até a data exata de início do mandato dos eleitos. Ninguém sabe bem por que, optou pelo primeiro dia do ano. Deve ter parecido lógico aos constituintes. Nenhum deles se perguntou se a data era oportuna.

Pois não era. E continua não sendo. Que vereadores, prefeitos, deputados e governadores assumam a função no dia primeiro de janeiro, pouco incomoda. Já com o presidente da República, a coisa muda de figura. Prestígio de mandatário-mor se mede, entre outros parâmetros, pela presença de autoridades estrangeiras à cerimônia da tomada de posse.

Agora imagine o distinto leitor. Acredita sinceramente que toda essa gente fina que governa o mundo vai abandonar família e amigos, renunciar aos festejos da passagem de ano e viajar na noite de ano-bom só para se mostrar ao lado do presidente do Brasil? Até a governante de país vizinho e hermano anunciou, dias atrás, haver sofrido uma entorse. Luxação presidencial e providencial, que lhe evitou o aborrecimento de viajar na passagem do ano.

Decreto de 1910 que institui a faixa presidencial.

Decreto de 1910 que institui a faixa presidencial.

Resultado: o presidente do Brasil costuma assumir seu cargo diante de uma plateia ralinha, formada por subs, vices e representantes. Neste país onde a inflexibilidade burocrática impera, já faz um quarto de século que o problema permanece. Insolúvel.

E pensar que se pode resolvê-lo até sem mexer na Constituição «cidadã». Como? Ora, basta fazer como noivos modernos. Antigamente, era praxe casar no civil e no religioso no mesmo dia. E espichar com uma festa.

Hoje, já se admite separar os eventos. O casamento diante do juiz de paz será cerimônia simples, celebrada na presença dos padrinhos e do círculo familiar mais próximo. O ato religioso e a recepção não precisam ser necessariamente no mesmo dia.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

O cerimonial do Planalto poderia encaixar o ritual nesses moldes. Dia 1° de janeiro, de conformidade com a lei, o presidente assumiria o cargo e anunciaria o ministério. Cerimônia simples, sem pompa, sem baile, sem queima de fogos. Alguns dias depois, viria a recepção, com caviar, pé de moleque, champanhe e convidados.

A festa poderia ter data fixa ou aleatória. Pode-se fixar, por exemplo, a segunda quinta-feira de janeiro ou o terceiro sábado. Pode-se também marcar a cada quatro anos. Talvez seja até melhor não engessar o dia – nunca se sabe o que vai estar acontecendo no planeta daqui a quatro anos.

Enfim, se os do andar de cima fossem gente de bom senso, não estaríamos na situação em que estamos.

Mais uma vez, feliz ano-novo a todos!

Os réveillons

José Horta Manzano

Champanhe na geladeira, peru no forno, farofa na mesa, é o réveillon que chegou. Época de confraternização, de alegria e de bons propósitos para o novo ano.

Réveillon – de onde é que vem essa palavra? Pois é francesa. Vem do verbo latino vigilo, que significa estar desperto. Em nossa língua deu numerosos filhotes: vigiar, vigilante, vigília (véspera de certas festas religiosas), velar e até velório. Todos carregam o sentido de cuidar, de não estar dormindo.

Reveillon 1No Brasil, associamos o réveillon unicamente à noite de fim de ano. Já os franceses dão sentido mais amplo. A noite de Natal é chamada réveillon de Noël – a vigília de Natal. A passagem de ano é dita réveillon de la Saint-Sylvestre.

Bom réveillon a todos e boas-entradas, como se dizia antigamente. Que 2015 seja alegre, sorridente e traga muita saúde!

A tragédia da língua portuguesa

Dad Squarisi (*)

Tornou-se lugar-comum falar na baixa qualidade do ensino. Em testes nacionais, comprova-se, ano após ano, o mau desempenho dos alunos, sem domínio das habilidades de ler, escrever e fazer as quatro operações. Em exames internacionais como o Pisa, os estudantes brasileiros figuram na rabeira dos concorrentes.

ExameO Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2013 chama a atenção para o resultado da língua portuguesa. Mais de 5 milhões de jovens se submeteram à avaliação para concluir o ensino médio, entrar em universidade pública, participar de programas de intercâmbio, obter bolsa de financiamento em instituições privadas. No total, 14.715 escolas compõem o ranking.

Pouco mais de um terço (33,87%) obteve nota abaixo de 500 na redação. Foram reprovadas. Levando-se em consideração o desempenho individual, mais da metade dos alunos de 3.900 colégios tiraram nota vermelha. O fracasso na produção de texto implica soma de incompetências. Entre elas, falta de domínio da norma culta; incapacidade de leitura e compreensão de enunciados, de organizar e interpretar informações, de argumentar, de transitar de uma ideia para outra.

AnalfabetoAvaliar a redação vai além de analisar a habilidade de escrever. A língua funciona como pré-requisito para as demais disciplinas. Antes de resolver um problema de matemática, por exemplo, o estudante precisa entender o enunciado. Ele pode até saber o raciocínio para chegar à resposta, mas é incapaz de perceber o que a questão pede. Limitação similar se observa em geografia, história, biologia. O jovem estuda, mas não aprende.

Ele é vítima de uma a escola que não ensina. Currículos desatualizados, material didático de má qualidade, bibliotecas mortas, laboratórios decorativos aliam-se a professores desmotivados e sem a qualificação necessária. Espaços assim funcionam como castigo para rapazes e moças que vivem em universo tecnológico povoado de atividades desafiadoras.

Professora 1Sentar-se calado, um atrás do outro para ouvir o professor que repete o que está nos livros ou copiar matéria do quadro é cena do século 19, quando estabelecimentos preparavam os empregados exigidos pela revolução industrial. Não condiz com a sociedade do conhecimento, que exige profissionais proativos, empreendedores, aptos a responder a desafios com criatividade.

Como chegar lá? O ponto de partida é o professor. A carreira do magistério deve atrair os melhores talentos. Para tanto, além de formação acadêmica, impõe-se carreira top. Os brasileiros ambiciosos devem saber que vale a pena ser docente. Não só pelo salário, mas também pela progressão profissional e pelo respeito da sociedade.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

De ponta-cabeça

José Horta Manzano

Você sabia?

As coisas não têm valor intrínseco – têm o valor que lhes atribuímos. Se um objeto qualquer «vale» tal montante, é porque há comprador disposto a dar por ele esse valor. Caso ninguém estiver disposto a despender tal montante, o valor do objeto será mais baixo.

Bens diferentes são avaliados por critérios diferentes. No caso de um imóvel, por exemplo, leva-se em consideração a localização, a área, as comodidades e outros itens. Caso se avalie um automóvel, os parâmetros serão outros.

Quando se trata de avaliar um bem imaterial – como uma moeda nacional (euro, dólar, iene) – o primeiríssimo critério é a confiança que se deposita em sua solidez e em sua capacidade de atravessar, incólume, crises planetárias.

Dinheiro 1Quando o bicho começa a pegar, capitais gigantescos – voláteis por natureza – buscam porto seguro. Exatamente como fazem barcos à vela ao se darem conta de que tempestade se aproxima.

Quais seriam esses portos seguros? O ouro é resposta clássica, mas não única. Entre as moedas nacionais, sobressai o franco suíço, considerado valor refúgio por excelência. É surpreendente que a moeda deste pequeno país suscite no mundo dos negócios um respeito que não condiz com o tamanho da economia nacional. Seja como for, esse interesse gera supervalorização do franco.

Três anos atrás, o euro levou um tombo. Sua cotação caiu uma barbaridade principalmente com relação ao franco suíço. De repente, para os europeus, produtos suíços se tornaram extremamente caros. A exportação, que tem peso importante na economia deste pequeno país, sofreu um baque. A chegada de turistas estrangeiros desacelerou.

Banco 3À vista disso, o Banco Nacional Suíço, que faz as vezes de banco central, teve de entrar rapidamente em ação a fim de deter a valorização excessiva do franco. Fixou uma meta para o câmbio: o euro não deve descer abaixo de Fr. 1,20. Faz três anos que, por meio de compra maciça de euros, o objetivo tem sido alcançado.

Estes últimos tempos, porém, com a crise do rublo e a baixa do preço do petróleo, grandes capitais tornaram a comprar francos suíços em busca de porto seguro. O resultado é que a moeda nacional ameaça valorizar-se de novo, comprometendo as exportações.

Faz duas semanas, as autoridades monetárias do país decidiram adotar medida extrema e inusitada: estabeleceram o «juro negativo». Grandes investidores estrangeiros – principalmente bancos de outros países – deixam de receber juros e passam a pagar pelo direito de depositar seus capitais na Suíça. Atualmente, a taxa é de 0,25% ao ano.

Vasto mundo. Enquanto a maioria faz o que pode para atrair capitais, a Suíça dá-se ao luxo de repelir esses bilhões. Como se diz por aqui, «il faut de tout pour faire un monde» – pra fazer o mundo, precisa um pouco de tudo.

Frase do dia — 216

«Céus, o Amorim!»

Exclamação entreouvida num elevador. Foi emitida por alguém que tinha acabado de ler a notícia de que o senhor Amorim está em vésperas de ser nomeado ministro de Relações Exteriores pela terceira vez.

Elevador emperrado

José Horta Manzano

Entre as chamadas deste domingo, a Folha de São Paulo traz a história de dois garotos adolescentes. Ambos se dedicam à dança clássica e acabam de ser selecionados para uma competição na Suíça.

Num primeiro momento, não entendi bem a razão pela qual tanta importância era dada ao assunto. O que é que justificava o destaque em primeira página, com foto e tudo? Bastou ler a legenda para entender: a origem dos dois – humilde, como se diz – não os destinaria a seguir um caminho em princípio reservado às elites. O artigo diz, logo de saída, que um dos jovens é filho de policial militar e o outro, de empregada doméstica.

Dança 1Lembrei então que, no Brasil, o salto é muito grande. Não se imagina que filho de família de poucas posses possa ir muito mais longe que seus pais. Filho de empregada doméstica que se torna bailarino internacional? Inimaginável! É como filho de operário se formando doutor.

Devo confessar que, nessa história, o que me choca é outra coisa. Das entrelinhas da reportagem salta à vista uma verdade não pronunciada: a de que é (quase) certo que pobre não tem futuro. A história dos dois rapazes é enxergada como inabitual, exceção absoluta, conto de fadas.

A meu ver, é aí que reside o problema maior. Mobilidade social, no Brasil, é fato raríssimo. Os entraves para «subir na vida» são tão numerosos, que caso de sucesso merece destaque de primeira página.

Elevador 1Na Europa, não é assim. Por aqui, as oportunidades são mais homogêneas. Raras são as escolas particulares. Existem algumas, com aulas unicamente em inglês ou alemão, dedicadas a estrangeiros. Tirando esses casos especiais, toda criança vai à escola pública. E, atenção, não dá pra escolher escola! A criança tem de frequentar a escola do bairro onde mora. O resultado é que o filho do médico e o do lixeiro se sentam lado a lado. Recebem o mesmo ensino e têm chances iguais de seguir a carreira que melhor lhes apetecer.

No Brasil, um país onde as disparidades sociais já são gritantes, a escolarização serve para alargar ainda mais as distâncias entre estratos de população. Atenção tem sido dada à distribuição de renda, o que é muito bom e necessário. A educação da meninada, no entanto, é o parente pobre do sistema. Continua relegada ao deus-dará.

DiplômeEm vez de estabelecer quotas universitárias baseadas em critérios raciais(!), melhor faria o governo se investisse na educação e na formação das jovens gerações. No Brasil, o elevador social anda emperrado.

A condição básica para agilizar a mobilidade social é universalizar o ensino de qualidade. Se começarem hoje a investir nesse sentido, dentro de 20 anos ninguém mais se espantará ao ver filho de lavadeira com canudo debaixo do braço.

Brasil, casse a concessão da pilhagem

Guilherme Fiuza (*)

«Um crescente número de pessoas que se acham sérias e não estão (ainda) a soldo do petismo deu para dizer por aí que o petrolão é normal. Quer dizer: uma coisa bem brasileira, arraigada no Estado patrimonialista e toda aquela sociologia de beira de praia.

Arca 1É o mesmo recurso estilístico sacado por Lula no mensalão: caixa dois todo mundo faz. Um empresário chegou a escrever que hoje se rouba até menos na Petrobrás que em outros tempos.

Vamos explicar aos ignorantes ou mal-intencionados (a esta altura, dá no mesmo): o PT não ficou igual aos outros; o PT não é corrupto como os outros, nem um pouco menos, nem um pouco mais. O PT é o único – sem antecessor na história do Brasil – que montou um sistema de corrupção no Estado brasileiro, de dentro do Palácio do Planalto, para enriquecer o partido e se eternizar no poder.»

(*) Guilherme Fiuza é jornalista e escritor. Excerto de artigo publicado na revista Época. Para ler na íntegra, clique aqui.

Cui bono?

José Horta Manzano

Com as devidas adaptações, nosso direito deriva do direito romano. Dois milênios nos separam do tempo dos césares, é verdade. Muita coisa mudou no mundo, é verdade. De lá pra cá, juristas foram forçados a legislar sobre fatos e coisas novas, é verdade. No entanto, certos princípios desafiam o tempo e continuam vivos, fortes e válidos.

Petrobras 3Na hora de analisar um crime ou mesmo um singelo «malfeito», o bom investigador faz a mesma invariável pergunta que já faziam os romanos: «Cui bono?»(1) – quem se beneficia? Excetuados os crimes cometidos por desequilibrados, imprevisíveis por natureza, a resposta a essa pergunta costuma oferecer boas pistas na busca do culpado.

O titular da Controladoria-Geral da União, senhor Jorge Hage, não calçou luvas de pelica para emitir sua apreciação sobre a compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás em 2006: «Não foi um mau negócio. Houve má-fé mesmo» – fulminou.

Não foi palpite lançado numa roda de amigos. Tampouco foi retalho de conversa entreouvido num elevador. A (pesada) acusação emanou do ministro-chefe da CGU, um dos postos mais elevados da República. Não se pode descartá-lo como se fosse tolice.

A CGU constatou que o rolo alinhavado entre a belga Astra Oil e a Petrobrás resultou em prejuízo de mais de 650 milhões de dólares para a petroleira brasileira. Estamos falando de quase 1,8 bilhão de reais de prejuízo, minha gente!

Astra OilÉ sabido que os membros da alta cúpula da Petrobrás são despreparados. Vamos admitir que, além disso, sejam ingênuos – hipótese pouco provável. Ainda assim, não é cabível a suposição de que tenham sido levados no bico pelos loiros de olhos azuis.

Afinal de contas, nossa petroleira conta com 85 mil funcionários, entre os quais, com toda certeza, peritos altamente capacitados e bem formados. Compra de bilhões não se conclue assim, num estalar de dedos, num sarau a portas fechadas. Nem mesmo dona Carochinha, com sua ingenuidade infantil e imaginação fértil, acreditaria nisso.

É chegada a hora da pergunta dos romanos: «Cui bono?». A quem interessava esse negócio podre? Quem se beneficiou com a falcatrua? A diretoria de nossa petroleira, aquele mesmo pessoal que assistia ao saqueio da empresa, teria então, por descuido, atirado pela janela quase dois bilhões? Não é concebível.

Corrupção 2Fosse eu a investigar, daria uma olhada na movimentação bancária da companhia belga que empurrou aquele ativo podre à Petrobrás. Fico curioso pra saber que caminho seguiu a dinheirama depois de ter sido remetida a Bruxelas.

Tenho cá minha ideia. No entanto, não tendo como provar, prefiro não lançar acusação. Com sua costumeira argúcia, meus distintos leitores já devem ter compreendido. Aí tem coisa.

(*) A pergunta retórica «Cui bono?» é, às vezes, substituída por «Cui prodest?». Tanto faz. Ambas procuram descobrir quem é que levou vantagem com o crime.

Os sinos e a Petrobrás

Cora Rónai (*)

Espanto 1É Natal, bimbalham os sinos, o mundo gira e a Lusitana roda — mas, nem por isso, as informações sobre a roubalheira na Petrobrás deixam de nos surpreender. Ou, como gosta de dizer a “presidenta”, de nos estarrecer. Assisti à entrevista que a Venina deu à Glória Maria, e fiquei estarrecida. Não com as denúncias — afinal, eu precisaria ser mais ingênua do que Dilma e Graciosa juntas para acreditar que nem uma nem outra sabiam do que se passava na empresa — mas comigo mesma por, paradoxalmente, não mais me estarrecer diante do que ouvia.

Sinto que nada do que eu possa vir a saber sobre a Petrobrás ou sobre o governo poderá, jamais, me estarrecer; a minha capacidade de estarrecimento está esgotada.

A única coisa que ainda me causa algum espanto em relação à Petrobrás é o profundo silêncio dos seus 85 mil funcionários. Cadê os protestos? Cadê as passeatas? Cadê a vergonha na cara?

(*) Cora Rónai é jornalista e escritora. O texto é excerto de sua coluna d’O Globo, 25 dez° 2014.

Urubu voa de costas

Ruy Castro (*)

Urubu 2Não admira que a economia esteja “prostrada”. O Natal será magro para os dirigentes de empreiteiras apanhados na Operação Lava Jato. Com suas contas e aplicações bloqueadas pela Justiça, e sem fundos para as benesses com que se mimoseiam nesta época, sua inadimplência atingirá os setores em que eles investem seus salários, gratificações, propinas, gorjetas e simples desvios. Afinal, são bilhões de reais subitamente fora de circulação.

Um diretor de construtora, por exemplo, teve bloqueio da primeira parcela do 13º salário: R$ 95 mil. Quando uma parcela do 13º de um funcionário chega a esse valor, imagine o dinheiro que não circula por seus relatórios, pareceres e bolsos. Parece muito? Pois é um grão de alpiste diante dos valores creditados aos parlamentares abençoados pelos poços sem fundo da Petrobrás.

Com isso, certas famosas grifes do exterior estão apreensivas. Sem os políticos brasileiros neste fim de ano, o que fazer com os estoques de Romanée-Conti (o vinho de Lula), de uísque Ballantine’s 30 anos e de champagne Cristal? O que será das estações de esqui em Aspen, das clínicas estéticas em Phoenix e dos cassinos de Las Vegas, que, mal saídos de seus grotões, eles se habituaram a frequentar?

Urubu 1A drenagem de dinheiro é de tal ordem que, mesmo descontados os gastos lá fora e os depósitos nos paraísos fiscais, o que sobra por aqui é decisivo para movimentar a economia. A compra, digamos, de um triplex no Guarujá espalha-se pela pirâmide financeira e seus resíduos podem se refletir na qualidade de vida de centenas de humildes famílias brasileiras, permitindo-lhes comprar TVs HD com tela de LCD e smartphones de última geração.

Na visão oficial, esta deve ser uma nova forma de distribuição de renda – só que digna do planeta Bizarro, onde urubu voa de costas e o certo é o errado.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo e jornalista. Em sua coluna na Folha de São Paulo de 24 dez° 2014.

Ho, ho, ho!

José Horta Manzano

Antes de se tornar frenesi comercial como conhecemos hoje, Natal já foi festa religiosa. Talvez os mais jovens não consigam dar-se conta disso.

Noël 6Famílias reunidas – e com fome – iam à Missa do Galo, rito solene e demorado, que começava à meia-noite do 24 para o 25. Digo que iam com fome porque precisava estar em jejum pra receber a comunhão. O número de horas sem comer, que chegou a ser de 12 horas, foi-se afrouxando com o tempo. Depois da missa, ceia simples e levinha esperava em casa. A reunião familiar, de verdade, era para o almoço do dia 25.

É interessante saber também que, antes de ser comemoração religiosa, o fim de dezembro, período de solstício de inverno no hemisfério norte, era pontilhado por festas pagãs. O povo manifestava júbilo e alívio porque as longas noites iam começar a encurtar. A partir da época do Natal, os dias se alongam a olhos vistos. Dependendo da latitude, o período diurno vai mordiscando a noite e vai ganhando um, dois, quatro, cinco minutos por dia sobre o período de escuridão. O Natal anuncia a primavera e o renascimento.

A origem da figura do Papai Noel moderno é conhecida, mas não custa repetir. Até o começo do século XX, algumas regiões da Europa cultivavam a lenda do velhinho que vinha, na época do Natal, presentear as crianças bem-comportadas e castigar as que tivessem sido desobedientes.

Diferentemente do que ocorre hoje, presente de Natal não vinha automaticamente, não era uma evidência. Não bastava ser criança para merecer prêmio. Precisava, além disso, ter-se comportado bem. Pequerruchos rebeldes arriscavam-se a levar umas chicotadas do velhinho. Era, a meu ver, prática útil. Inculcava, nos pequeninos, a noção de que não existe almoço grátis – para atingir um objetivo, há que se esforçar.

Noël 7Não tem nada que ver com Natal, mas, como não sei ver defunto sem chorar, repito: os programas assistenciais implantados estes últimos anos no Brasil vão na contramão desse ensinamento básico. O sistema atual dá aos cidadãos a certeza de que é natural que Papai Noel distribua suas benesses sem pedir nenhum esforço em troca. É pena que crianças cresçam nessa ilusão, porque, na vida real, as coisas não funcionam exatamente assim.

A imagem que hoje temos de Papai Noel nada mais é que o fruto da imaginação de desenhistas americanos. Em 1921, por ocasião de uma campanha de propaganda encomendada pelos fabricantes de Coca-Cola, bolaram aquele velhinho gordo e sorridente, de bochechas rosadas, viajando num trenó puxado por renas. E dizendo “ho, ho, ho!”.

Os holandeses identificavam o velhinho do Natal com São Nicolau e o chamavam Sinterklaas. Por influência dos imigrantes batavos, os americanos adotaram o nome depois de o terem anglicizado para Santa Claus. Nos EUA, esse é o nome de Papai Noel. E, no resto do mundo, como fica? Que nome se dá ao bom velhinho do “ho, ho, ho”?

Noël 8EUA:         Santa Claus      (São Nicolau)
França:      Père Noël        (Pai Natal)
Brasil:      Papai Noel       [francês traduzido pela metade]
Portugal:    Pai Natal
Rússia:      Санта Клаус      (Santa Claus)
Reino Unido: Father Christmas (Pai Natal)
Alemanha:    Weihnachtsmann   (Homem da noite de Natal)
Catalunha:   Pare Noel        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Dinamarca:   Julemanden       (Homem do Natal)
Lituânia:    Kalėdų senelis   (Vovô Natal)
Holanda:     Kerstman         (Homem do Natal)
Suécia:      Jultomten        (Gnomo de Natal ou Duende de Natal)
Bulgária:    Дядо Коледа      (Vovô Natal)
Noruega:     Julenissen       (Gnomozinho de Natal)
Romênia:     Moș Crăciun      (Antepassado do Natal)
Turquia:     Noel Baba        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Polônia:     Święty Mikołaj   (São Nicolau)

Conto de Natal

Rubem Braga (*)

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:

— Porcaria…

Presépio 2Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí…

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui…

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima. Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí…

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

Choupana 1De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não…

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher…

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus…

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade havia dois dias.

— Eu acho que o jeito…

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

Presépio 1No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava…

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Havia muitos dias que não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê…

— Uai! Péra aí…

O menino Jesus Cristo estava morto.

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(*) Rubem Braga (1913-1990) é por muitos considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis. O texto foi extraído do livro Nós e o Natal, editado por Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964.

Impressão e expressão

José Horta Manzano

Escrita 3O jornal finlandês Savon Sanomat informa que o presente ano escolar é o último em que as crianças estão aprendendo a escrever à mão. Nos anos 50, a esferográfica baniu caneta, tinteiro e mata-borrão. Na Finlândia, a partir do ano escolar 2015-2016, esferográficas seguirão o mesmo destino: serão despachadas para o museu. A partir de então, os pequeninos serão alfabetizados diretamente num teclado.

Daqui a poucos anos, todos dominarão, desde tenra idade, a arte de se exprimir por meio de teclas. A escrita manual, condenada à obsolescência, será olhada com a curiosidade que hoje reservamos para manuscritos medievais. Num futuro não longínquo, só especialistas em paleomanugrafia (ciência nova, que acabo de inventar) serão capazes de decifrar os manuscritos atuais que se salvarem do incêndio.

Máquina de escrever 1Dá uma sensação esquisita, não dá não? Pensar que uma técnica cuja aquisição nos custou tanto esforço está em via de extinção. Na escola regular, tínhamos aula de caligrafia, mas nunca tivemos datilografia – não fazia parte do currículo. Quem quisesse aprender a bater à maquina, como se dizia, que se inscrevesse numa escola particular. Foi o que fiz. Foi no tempo em que os bichos ainda falavam. Aprendi numa velha Remington, preta, pesada e barulhenta. Recebi um diploma que guardo até hoje com muito orgulho.

A meu ver, a abolição da escrita manual é drástica e prematura. O ato de escrever educa a mão, disciplina-lhe os movimentos, prepara incursões no universo da pintura, do desenho, da música.

Na escola, costumávamos aprender latim, língua já então extinta – sim, senhores, não minto! – havia dois mil anos. E isso não fez mal a nenhum de nós, pelo contrário: deu-nos a chave para descobrir a árvore genealógica da maioria de nossas palavras. Um enriquecimento.

Escrita 2Privados do aprendizado da língua mãe, jovens de hoje não se podem dar conta de que conceitos aparentemente diferentes como expressão, impressão, opressão, depressão, compressão, repressão são irmãos de pai e mãe, saídos do mesmo tronco. É pena, porque essa noção da interligação das palavras é útil para desenvolver espírito analítico.

Escrita 1Ah, tem mais! A escrita manual é pessoal, única, identificável entre mil. É impossível encontrar duas escritas idênticas. Ao escrever à mão, cada um se revela. A grafologia permite conhecer particularidades da personalidade ignoradas, às vezes, até pelo próprio analisando. Já a escrita por teclado é pasteurizada, padronizada, insípida e despersonalizada.

Espero que nossos governantes, que às vezes adotam medidas educacionais pra lá de estranhas, não se joguem de cabeça nessa moda. Há que refletir muito nas consequências das decisões que tomamos. Criança que anda cedo demais periga ficar com as pernas tortas.