Yo no me vendo por dinero

José Horta Manzano

A donna bella io non mi vendo a prezzo di moneta.

A mulher bonita, eu não me vendo por dinheiro.

Tosca, opera em três atos
Libretto: Illica & Giacosa
Musica: Giacomo Puccini
Clique sobre a imagem

Fragmento de ária cantada pelo Barão Scarpia, no segundo ato da ópera Tosca, de Giacomo Puccini.

Interligne 18b

Leio, com surpresa, que um jogador de futebol está lançando sua autobiografia. O rapaz tem 24 anos! Tento me lembrar de quando eu tinha essa idade, faz tanto tempo. Não tinha grande coisa que relatar. Minha biografia teria cabido em dez linhas. Mas cada um tem sua história, a do moço há-de ser bem recheada.

Que será que alguém tão jovem terá para contar que desperte interesse em tanta gente? Quem tiver atravessado uma guerra terá histórias intensas pra botar no papel. Quem tiver sido raptado por marcianos ou fugido da Coreia do Norte, idem. Mas um jovem magricela que, apesar de ser bambambã em seu esporte e já ter ganhado baldes de dinheiro, começou a carreira anteontem… que terá de tão sublime a escrever?

Para ler a reportagem de Antena 3, clique sobre a foto

Para ler a reportagem de Antena 3, clique sobre a foto

Olhe lá, não me entenda mal. De tempos em tempos, até aprecio assistir, pela tevê, a alguma competição esportiva. Mas nem por isso tenho ligação visceral com o ramo. Não tenho nada contra o rapaz ― que continue ganhando seus jogos e suas cachoeiras de dinheiro. O que me intriga é o fato de moço tão novo ser polivalente: esportista e escritor. Por incomum, é admirável.

Como tira-gosto, os jornais publicam uma frase do livro: «Yo no me vendo por dinero». Não pude deixar de associá-la à fala de Scarpia no segundo ato da Tosca, quando o chefe da Polícia chantageia a protagonista para obter seus favores carnais. Mas o contexto é outro.

Vamos em frente, que a Copa é nossa!

Dr. Jekyll & Mr. Hyde

José Horta Manzano

Biografia

A maioria de nós escolhe levar uma existência discreta, corriqueira, comum. Há os que ― por motivos profissionais ou não ― tornam-se conhecidos além do estreito círculo familiar e profissional. Tornam-se personagens públicos. Podem ser artistas, políticos, esportistas, milionários, grandes empresários. Bandidos de grande fama também entram nessa categoria. Quem puser um pé nessa seara fica marcado pelo resto da vida.

Greta Garbo (1905-1990), de origem sueca, era uma linda e famosa atriz de cinema nos anos 20 e 30. Deve ter partido muitos corações naquele tempos. No cinema, no entanto, teve carreira curta. Aos 36 anos, abandonou a vida artística, retirou-se e passou a viver reclusa. Não queria mais ser vista por ninguém. Mas não houve jeito: foi perseguida por fotógrafos e repórteres até seu último dia. Alguns anos após seu falecimento, no ano em que comemoraria 100 anos de nascimento, o governo sueco autorizou até que suas cartas pessoais fossem publicadas.

Tenho lido estes dias que alguns artistas brasileiros se opõem a que se publiquem suas biografias sem o consentimento expresso do biografrado. Parece-me incongruente. Acho que as coisas são ou não são. Todos temos um pouco de Dr. Jekyll e uma dose de Mr. Hyde. Nos mortais comuns ― a maioria da humanidade ― isso passa despercebido. Ninguém está realmente interessado em conhecer os desvãos da personalidade alheia.

Biografia

Já o mesmo não acontece com relação a figuras públicas. É natural que detalhes da história de um artista ou de um político de renome interessem mais do que as peripécias de um zé qualquer. Alguns dizem que esse é o preço da fama.

Por coerência, artistas não podem se opor a que se lhes investigue a vida. A remuneração deles vem de um público pagante e entusiasta que lhes cultua a personalidade. É normal que retribuam, que satisfaçam a curiosidade de seus fãs.

Ocupantes de cargos públicos têm (ou teriam) de declarar seu patrimônio ao chegar e ao sair. Isso me parece normal. Não é invasão de privacidade. Eles têm de declarar todo o patrimônio, não somente a parte que lhes interessa, escondendo o resto.

Por que seria diferente com os que atuam no mundo do espetáculo? Não me parece que possam selecionar as informações publicáveis, escondendo as outras.

Na vida, tem o toma lá. Mas tem também o dá cá. Nada sai de graça.