Falam de nós – 26

José Horta Manzano

No Brasil, os espíritos já vão serenando. Lá fora, no entanto, o mundo continua abismado com a ousadia da maioria de brasileiros que deram voto de confiança a doutor Bolsonaro. Basta abrir qualquer jornal pra encontrar análises tingidas de incompreensão. Este apanhado de manchetes colhidas estes últimos dois dias revela que a ficha ainda não caiu.

La Depêche, França
«Le Brésil est revenu cinquante ans en arrière»
«O Brasil retrocedeu cinquenta anos»

Le Monde, França
«Sergio Moro adhère au programme répressif de Jair Bolsonaro»
«Sergio Moro adere ao programa repressivo de Jair Bolsonaro»

The New York Times (Spanish edition), USA
«Bolsonaro representa el pasado colonial de Brasil»
«Bolsonaro representa o passado colonial do Brasil»

Le Point, França
«Brésil: Bolsonaro et Israël, une relation politico-religieuse à haut risque»
«Brasil: Bolsonaro e Israel, uma relação político-religiosa de alto risco»

Sydöstran, Suécia
«Brasilien: nationalismen ett allvarligt hot mot våra barn»
«Brasil: nacionalismo é ameaça séria contra nossos jovens»

Le Monde, França
«Au Brésil, la détresse des homosexuels et des trans»
«No Brasil, a aflição dos homossexuais e dos trans»

O que fica desta vida

José Horta Manzano

A Primeira Guerra Mundial, carnificina que castigou a Europa de 1914 a 1918, foi orquestrada por generais, como é costume em tempos de conflito. Na França, depois que as armas se calaram, os oito generais que mais se tinham destacado foram proclamados marechais ‒ um título honorífico que se outorga àqueles cuja atuação tenha sido considerada extraordinária. Um dos homenageados foi o marechal Philippe Pétain, cujo gênio tático havia permitido a vitória do país na terrível Batalha de Verdun. O homem entrou para a memória coletiva como salvador da pátria.

Passaram-se pouco mais de vinte anos. Na irrequieta Europa do século 20, foi tempo suficiente pra estourar nova guerra ‒ a que viria a ser conhecida como Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1940, num ataque relâmpago de apenas três semanas, a Alemanha nazista invadiu a França, destroçou-lhe as forças militares e ocupou o país. Dernorteados, os franceses se lembraram do herói da guerra anterior. Chamaram o marechal, já então com 84 anos de idade, para de novo salvar a pátria.

O ancião assumiu as rédeas do governo. Depois de avaliar prós e contras, tomou a decisão de baixar os braços, assinar a rendição, aceitar a ocupação do território pelo exército estrangeiro e dar início a um período de colaboração com o inimigo. Não foi pra isso que tinha sido chamado e não era exatamente o que se esperava dele. Mas os franceses tiveram de engolir a pílula, por mais amarga que fosse. O exército de Hitler continuou ocupando a França pelos anos seguintes.

Quepe de general francês

Cinco anos depois, vencidos os alemães e terminada a guerra, chegou a hora do acerto de contas. O marechal Pétain, acusado de alta traição e conluio com o inimigo, foi processado e condenado à pena capital acrescida da perda de todas as honrarias. Recebeu também o castigo simbólico de desonra nacional. Levando em conta a idade do militar ‒ o homem já estava com 90 anos ‒, o general De Gaulle decidiu graciá-lo. Sua pena foi comutada em prisão perpétua. O ancião morreria na prisão alguns anos mais tarde. Desde então, Pétain reside na galeria dos anti-heróis, dos traidores da pátria, dos personagens sinistros da história da nação.

Estes dias a Europa celebra o centenário do fim da Primeira Guerra. O ponto alto das comemorações será sábado próximo nos Invalides, um complexo arquitetônico que compreende uma catedral, diversos museus e um cemitério militar. Na ocasião, o nome dos marechais de 1914-1918 será solenemente pronunciado. Voluntorioso, o presidente Macron declarou, faz alguns dias, que o nome de Pétain fará parte dos que vão ser enunciados. Ah, pra quê! Alevantou-se uma grita nacional. Políticos, figurões, entidades, analistas, jornalistas ‒ a França inteira se eriçou em protesto. Ficou claro que a pátria não perdoou a Pétain. O papel que ele representou na Segunda Guerra anulou a glória conquistada na Primeira. Em vista do clamor, Monsieur Macron teve de recuar: o nome do marechal não será pronunciado. A nação não quer ouvi-lo.

Essa historinha de personagem que chegou ao topo para depois descer às profundezas me lembrou um conhecido ex-presidente nosso. Lula da Silva de fato subiu ao ponto mais alto a que se pode aspirar, festejado dentro e fora das fronteiras. No entanto, desvelada a podridão de certos atos seus, despencou do pedestal para ingressar na galeria dos caídos. Cruel e imperdoável, toda queda cassa e revoga as glórias do passado. O que fica é a última impressão. Como aconteceu com o velho marechal francês, a memória de Lula da Silva está para sempre avariada. Ainda que se lhe comutasse a pena de prisão, a desonra é definitiva, uma via sem retorno.

Apocalipse vende mais

José Horta Manzano

Puxa! Nunca imaginei que o Brasil se tivesse tornado tão importante! Visto do exterior, parece que o país subiu de nível. Passou a eleição, o novo presidente está definido há dez dias, mas o assunto continua a ser comentado na imprensa. Em volume de citações, este período supera com folga a época de ouro do lulopetismo, quando se imaginava que um salvador da pátria tinha surgido da secura da caatinga para redimir definitivamente a nação tupiniquim. Quá!

A abundância de artigos, entrevistas e análises atuais se deve, com certeza, à rede mundial de telefones e computadores, que faz que a informação circule fluente e dê volta ao planeta num segundo. No entanto, apesar das facilidades modernas, constato que a informação que chega ao exterior pende para um lado que não é o que os brasileiros escolheram. Com folgada maioria, os eleitores elegeram doutor Bolsonaro. Passando por cima dessa realidade, a mídia europeia continua de queixo caído, incapaz de reconhecer que o eleito encarna a mudança pela qual todos anseiam, tanto os que votaram nele, quanto os demais.

Por aqui, o discurso que se ouve é aflitivamente semelhante ao do lulopetismo. Analistas continuam a mostrar-se escandalizados com a «deriva conservadora» do eleitorado do maior país da América Latina. Acusam os brasileiros de ‘fascistas’, ‘adeptos da extrema-direita’, ‘homofóbicos’, ‘machistas’, ‘adeptos do autoritarismo’ e outros apodos graciosos.

Também, brasileiros com projeção internacional não ajudam. Outro dia, ouvi nosso ultraconhecido fotógrafo Sebastião Salgado, convidado matinal da rádio pública francesa, declarar que ‘os brasileiros ficaram loucos’ e martelar o relato do golpe sofrido por doutora Rousseff. Entre dezenas de outros, essa mesma ex-presidente, mais Chico Buarque e até FHC ‒ quem diria! ‒ botam lenha na fogueira. Correspondentes da mídia internacional baseados no Brasil também contribuem para difundir a versão lulopetista. É que anunciar o apocalipse vende mais do que falar em esperança de enfiar corruptos na cadeia e pôr ordem no país.

O festival de desinformação continua. Por minha parte, preferia que se falasse do país por outros motivos. Mas as coisas são como são. The (poor) show must go on. O show (mambembe) tem de continuar.

Adendo 1
Signor Paolo Mieli é colunista do italiano Corriere della Sera há 25 anos. Passando por cima do fato de que foi o próprio povo brasileiro a fazer sua escolha, ele assina um artigo publicado domingo passado que dá a impressão de que o novo presidente nos tenha sido imposto por algum poder extraterrestre. Aqui vai a primeira frase:

“Il trionfo elettorale di un personaggio discutibile e discusso come Jair Bolsonaro è stata una pessima notizia non soltanto per il Brasile, ma anche per l’America Latina tutta e, probabilmente, per il mondo intero ‒ O triunfo eleitoral de um personagem discutível e discutido como Jair Bolsonaro foi péssima notícia não só para o Brasil, mas também para toda a América Latina e, provavelmente, para o mundo inteiro.”

Precisa ler o resto?

Adendo 2
Ouvi outro dia no rádio, no dia seguinte ao da eleição do novo presidente, o comentário de um jornalista, que soava como trovão:

«Les minorités entendent déjà le bruit des bottes sur le sable de Copacabana ‒ As minorias já podem ouvir o ruído de botas nas areias de Copacabana.»

Que talento dramático! De todo modo, pouco importa o conteúdo, o que conta é a embalagem. Não é pra assustar qualquer cristão?

Prova amarela

José Horta Manzano

A passagem dos anos é implacável. Francamente, este blogueiro está começando a se sentir defasado com relação ao mundo atual. Vai longe o dia em que me sentei numa carteira pra enfrentar um exame de seleção. Faz tempo, mas ainda me lembro de como era. Anos atrás, não havia Enem. Cada faculdade promovia o próprio exame de seleção, conhecido como vestibular. Para o aluno, era um quebra-cabeça. Tinha de se inscrever em cada uma das faculdades onde eventualmente poderia ingressar. Na hora dos exames, precisava viajar de um canto a outro ‒ uma mão de obra danada.

Acho o Enem uma excelente solução. Fui dar uma espiada na ‘prova amarela’, que engloba questões de Ciências Humanas e Linguagens. Foi aí que me dei conta de que algo mudou na realidade brasileira. Perpassando as perguntas, me dou conta de que a finalidade do ensino médio está desvirtuada. Em vez de ensinar a pensar, a escola está ensinando como pensar. O caminho que leva à verdade única está ladrilhado. Com pedrinhas de brilhante.

De cada duas perguntas, uma transpira ideologia. Até quando o enunciado está em língua estrangeira, a fim de testar a compreensão do aluno, os temas giram sempre em torno do mesmo eixo, um eixo monomaníaco. Fervilham expressões de carteirinha, tais como: moradores de rua, cidadãos socialmente vulneráveis, movimento popular, inclusão de palavrão, grupos populares, descolonização estética, imaginário racista, mito do sexo frágil, assédio, exploração sexual, crimes contra mulheres, censura, opressão, gays, travestis. Não estou exagerando. Garanto que essa enxurrada está presente nos enunciados ou nas correções propostas.

Dá saudade do tempo em que eram mencionados Camilo Castello Branco, Eça de Queirós, Machado de Assis, Olavo Bilac, em vez de citações colhidas na internet, como fazem hoje. Dá tristeza constatar que, em vez de expor caminhos a tomar pra clarear o futuro da nação, as questões insistem em martelar desgraças do passado e remoer misérias do presente. Espremendo as folhas da ‘prova amarela’, sai um caldo negativo, desesperançado. Dá pena dos vestibulandos de hoje. Ao fim e ao cabo, fica uma grande preocupação com o Brasil de amanhã. Do jeito que vai, boa coisa não sai.

O presidente e o asilado

José Horta Manzano

Interessadíssimos na promessa feita por doutor Bolsonaro de mandar signor Cesare Battisti de volta para seu país, os italianos despacharam uma equipe do primeiro canal da televisão pública (Rai) a Cananeia, estância balneária paulista onde reside o estrangeiro.

Todos se lembram, mas não custa recordar. Battisti é aquele cidadão italiano condenado pela Justiça de seu país à prisão perpétua por envolvimento em quatro assassinatos cometidos nos anos 1970. Refugiou-se no Brasil em 2004. Passou os primeiros anos como clandestino. Uma vez descoberto e preso, foi objeto de pendenga judicial em que se envolveram o ministro da Justiça, o STF e até Lula da Silva, então presidente da República.

Depois de o asilo lhe ter sido negado pelo STF, o condenado já estava com um pé no avião que o levaria de volta à Itália. Eis senão quando, em 31 de dezembro de 2010, no último dia de seu mandato, Lula da Silva deu o golpe do escorpião, aquele bicho traiçoeiro que leva o veneno atrás. Contrariando parecer do Supremo, concedeu asilo ao estrangeiro. A Justiça italiana acusou o golpe, ressentido como afronta.

Vista de Cananeia, Estado de São Paulo

Desde então, a Itália reclama a entrega de Battisti. Nos tempos em que o PT detinha o mando, toda esperança era vã. Quando o candidato Bolsonaro afirmou, durante a campanha, que entregaria o condenado às autoridades de seu país, o povo italiano se animou. Eis por que, Bolsonaro eleito, a equipe de televisão veio procurar pelo asilado.

Faz uns dias, o grande jornal da tevê italiana inseriu matéria de um minuto e meio sobre o caso. Lá aparecem cenas de Cananeia (SP) e uma curta entrevista com Cesare Battisti. Petulante, o estrangeiro afirma que a declaração do ora presidente eleito não passa de palavras ao vento, de fanfarronice, de bravata. Acrescenta que é protegido pela Justiça e que Bolsonaro nada pode fazer. Os italianos não apreciaram a fala do entrevistado, tanto que intitularam a matéria “a última zombaria de Battisti”.

Cada um que cuide de sua vida, não tenho conselho a dar a esse senhor. Assim mesmo, considero que a atitude desafiadora dele é imprudente. Nestes tempos de insegurança jurídica, em que a lei é continuamente reinterpretada no Brasil, nada é garantido. O que valia ontem pode não estar mais em vigor hoje. Atitude insolente não desperta simpatia. Melhor faria o estrangeiro se procurasse ganhar a simpatia do novo presidente em vez de o provocar para duelo.

Honey catches more flies than vinegar ‒ mel atrai mais moscas do que vinagre.

Inadequação vocabular ‒ 10

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 4 nov° 2018

As consequências nefastas das notícias falsas são tema da redação do Enem este ano. Na chamada do Estadão, o ‘sobre’ sobra.

O tema é a própria manipulação. Melhor será dizer: ‘O tema da redação do Enem é a manipulação de usuários na internet’.

Do you speak English?

José Horta Manzano

Depois de quinze anos de afligente monoglotismo nas altas esferas brasileiras, surpreende agradavelmente constatar que o vice-presidente eleito, general Mourão, se exprime em inglês decente.

Entrevistado pela BBC três dias atrás, doutor Mourão entendeu as perguntas e não hesitou em alinhavar as respostas, mostrando familiaridade com o idioma. Em se tratando de autoridade política brasileira, a coisa é tão extraordinária que a conversa de dois minutos foi parar até no youtube.

by Mix & Remix, desenhista suíço

De fato, os que nos governaram desde que o lulopetismo se aboletou no Planalto ignoravam línguas estrangeiras. Para piorar, tinham grande dificuldade em se exprimir na própria língua nacional. Nesse particular, doutora Rousseff atingiu o paroxismo: suas falas foram, com frequência, incompreensíveis.

Num país onde boas notícias têm de ser garimpadas com persistência, é um alívio saber que o vice-presidente ‒ que foi adido militar nos EUA por dois anos ‒ consegue ler e se exprimir em inglês com destreza. Comparando com o que tivemos em passado recente, já é enorme avanço!

Jerusalém x Tel-Aviv

José Horta Manzano

Em matéria de política externa (mas não só), o lulopetismo é contrarreferência. Para acertar, basta fazer o contrário do que fizeram eles. Se foram, convém não ir. Se ficaram, é bom afivelar malas e partir rápido. Agir assim é a melhor receita pra atingir o alvo.

Uma das gafes mais sonoras de Lula da Silva ‒ memorável vexame ‒ foi a desastrada tentativa de interferência no nó do Oriente Médio. Ao forçar a entrada de um lugar onde não tinha sido chamada, a trôpega diplomacia petista acabou se pondo mal com todos os envolvidos. Não resolveu problema nenhum e, humilhada, teve de recolher-se à própria insignificância.

A embrulhada médio-oriental é angu de caroço. Interesses conflitantes, irreconciliáveis e às vezes incompreensíveis se embolam num balaio de gatos. Pra quem é de fora, mais vale dar um sorrisinho, cumprimentar a todos educadamente, mas permanecer longe, equidistante de cada um.

Itamaraty, Brasília

Doutor Bolsonaro anunciou que tenciona transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Não sei o que é que o terá levado a essa ideia inoportuna. Num vespeiro daqueles, a melhor atitude a tomar é deixar como está. Toda ação, ainda que simpática a uns, será tomada como agressão por outros. Não vale a pena forçar a barra.

Desde que Mr. Trump anunciou a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, seu gesto foi seguido por um único país: a Guatemala ‒ por mistérios insondáveis, diga-se. Por que raios o Brasil tem de seguir por esse caminho pedregoso? Doutor Bolsonaro pode até sentir vontade de deslocar a embaixada, mas o Estado brasileiro não tem interesse nisso.

Ainda há tempo de minorar o efeito negativo do anúncio. Doutor Bolsonaro pode, por exemplo, ir adiando a transferência da embaixada até o dia de São Nunca. Não dá pra reparar o mal causado pelo anúncio, mas o tempo atenua o impacto.

Quanto a futuras decisões em negócios internacionais, o novo presidente deveria guardar sempre em mente, como um mantra: se o PT fez, não farei; se o PT não fez, faço rápido.

No fundo do poço

José Roberto Guzzo (*)

Em seu desabamento progressivo, Lula, com a ajuda empolgada do PT, quis representar o papel de mártir. Péssima ideia. Brasileiro, no fundo, não gosta de gente que está na cadeia. Não acha que as penitenciárias estejam cheias de injustiçados. Acha o contrário: que há muita gente culpada do lado de fora.

Para a maioria do eleitorado, Lula não é vítima, nem preso político. É só um político ladrão que foi condenado ‒ como deveriam ser nove entre dez dos que continuam soltos. Não é um julgamento sereno, mas é assim que a massa pensa e continuará pensando, e vai apenas perder seu tempo quem quiser convencê-la do contrário.

Revela muito da decomposição política de Lula e do PT o fato de terem achado que uma cela de cadeia é um lugar capaz de despertar admiração no povo ou de servir como centro de comando de uma campanha eleitoral.

(*) José Roberto Guzzo é jornalista e colunista.
O texto foi extraído de artigo publicado na revista Veja.

Lava a Jato pro brejo?

José Horta Manzano

No primeiro momento, quando vazou a notícia de que o juiz Moro podia se assentar no topo do Ministério da Justiça, também senti certo desconforto. “Se o homem está tão bem onde está” ‒ pensei ‒ “por que diabos tirá-lo de lá? Não se mexe em time que está ganhando.”

Passaram-se alguns dias e a ideia foi amadurecendo. Ah, nada como um dia depois do outro (com uma noite no meio)! Com o espírito serenado e já acostumado à nova realidade, dá pra reavaliar a decisão do juiz. De toda maneira, ele aceitou o convite do presidente eleito. Vai virar superministro em janeiro.

O inconveniente maior que consigo enxergar é o fato de doutor Moro abrir mão da cátedra de juiz federal para tornar-se, no fundo, funcionário subalterno de doutor Bolsonaro. Trocou a inamovibilidade e a estabilidade da carreira de juiz pelos tremores de uma poltrona ejectável. Mas esse problema é dele. Fora isso, ganham todos.

Doutor Moro ganha em altitude perante o povo. Se, antes, já era figura pra lá de popular, pode agora abrir as asas pra voos mais ousados. Não seria espantoso se estivesse entre os pré-candidatos para as eleições presidenciais de 2022. Com boas chances de levar a taça, dependendo ainda do balanço de sua gestão.

Doutor Bolsonaro ganha em credibilidade. Dá um ‘chega pra lá’ no temor que alguns têm de ver a Constituição rasgada pra dar lugar a regime militar ou ditatorial. Doutor Moro é baluarte da lei. Quem tem vocação pra ditador não convoca Moro de assistente.

Ganha o Brasil, com maior amplitude e mais largo raio de ação de um incansável batalhador contra a corrupção nos altos escalões. Digam o que disserem, o ministro da Justiça ‒ mormente quando respaldado pelo presidente ‒ tem muito mais poder do que um juiz de Primeira Instância.

Uma consideração final. Tem gente por aí achando que, com a saída de doutor Moro, a Operação Lava a Jato vai pro brejo. Isso me faz lembrar a lição de um superior hierárquico, muitos anos atrás. Ensinou-me que a gente deve aprender a delegar, a não segurar todo o serviço, a deixar que colegas e subalternos assumam as rédeas. «Você verá que os controles deles são, às vezes, mais rigorosos que os seus.»

Desde então, já tive ocasião de comprovar a lição. Funciona. A Lava a Jato vai prosperar como nunca. Achar que doutor Moro é o único capaz de levar adiante uma operação dessa envergadura é fazer ofensa aos demais juízes. Que se cuidem os corruptos que já estiverem esfregando as mãos com a perspectiva da saída de doutor Moro. Perigam sentir saudades da mansuetude dele.

Aprendendo a ser presidente

José Horta Manzano

Em 2003, assim que foi empossado, o novíssimo presidente Lula da Silva fez aparições públicas em eventos variados. Como recém-chegado, foi paparicado à bessa, o que é muito natural. Fotógrafos logo imortalizaram o distintivo que ele insistia em fincar na lapela: um pin com a estrela vermelha do PT, seu partido.

Jornalistas publicaram textos escandalizados com o gesto do novo mandatário. Afinal, ele tinha sido eleito para presidir a República, não para chefiar um partido. Portada ostensivamente, aquela insígnia era sinal hostil lançado aos que não fossem simpatizantes de seu partido. Cargo de presidente exige que o titular se coloque acima de querelas politiqueiras.

Lula da Silva não costumava ler jornais. Mas seus prestimosos assessores se deram conta do reclamo, informaram o chefe, e o pin vermelho cedeu lugar a um mais decente, com as cores da bandeira.

Essa historinha ‒ que é bem real ‒ serve pra ilustrar os tropeços de todo principiante. Todo debutante dá seus foras, seja qual for a profissão ou o cargo, é compreensível. Importantíssimo, no entanto, é que aprenda de seus escorregões e se encaixe na liturgia que a posição exige.

Doutor Bolsonaro deu outro dia um bruta fora. Ressentido com o tratamento que lhe dispensou um jornal de São Paulo durante a campanha, tratamento que ele julga ter sido persecutório e injusto, prometeu fazer desabar raios e relâmpagos sobre o veículo. Errou feio.

Se sentimentos de rancor de vingança já caem mal em mortais comuns, que dirá em figurões da República. Uma bordoada. E pensar que a solução é tão evidente: para casos como esse, a lei prevê caminhos mais civilizados. Se o doutor se sentiu caluniado, que demande reparação por via judicial. Assim, sai tudo nos conformes. Agora, prometer benesses aos amigos e castigo aos adversários ‒ tudo isso com nosso dinheiro ‒ é expediente que não combina com democracia.

Por esta vez, passa, doutor. Da próxima, pense duas vezes antes de abrir a boca. A acumulação de pequenos incidentes como esse pode embaçar sua imagem antes do fim do período de graça.

Visão do exterior

José Horta Manzano

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

A representação que os europeus se fazem das recentes eleições presidenciais brasileiras está sintetizada no traço de Patrick Chappatte, desenhista suíço.

A charge apareceu no New York Times dois dias atrás. O artista é colaborador permanente da grande mídia planetária. Desenha para o NYT, o alemão Der Spiegel, o suíço Le Temps, o francês Herald Tribune.

Inadequação vocabular ‒ 9

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 30 out° 2018

Por mais sórdidos que tenham sido, os crimes cometidos pelo indivíduo não têm o poder de cassar-lhe o diploma. Enfermeiro era, enfermeiro é e enfermeiro será. Não há meio de anular a formação profissional recebida pelo criminoso.

Sua licença de exercer será, naturalmente, anulada ‒ se é que já não foi. É bem provável que, ainda que um dia saia da cadeia, nunca mais receba autorização para atuar como enfermeiro. Ainda assim, enfermeiro sempre será. Enfermeiro não é função nem cargo: é profissão. Portanto, o ex- da chamada sobra.

Não dá samba

José Horta Manzano

«Mulher que não dá samba, eu não quero mais». Assim vai o refrão do samba sacudido que Paulo Vanzolini criou e Carmen Costa gravou em 1974 em duo com Paulo Marquez. Nessa música, o compositor pinta os traços de uma mulher-objeto. Fosse hoje, ele seria renegado como machista malvado, plantado a milhas do politicamente correto. Na época, no entanto, a Polícia dos Costumes ainda não havia criado essas amarras. Artista podia permitir-se maior liberdade de movimento.

Hoje não se deve mais falar em mulher que dá samba, que não pega bem. Mas ainda não é proibido ver gente famosa dar substantivo e adjetivo. Não é façanha pra qualquer um. Duas condições precisam estar reunidas. Em primeiro lugar, o personagem deve ser importante e amplamente conhecido. Em segundo, seu nome tem de permitir a criação de derivados.

Vários campos da atividade humana são propícios à criação de adjetivos e substantivos derivados de nome próprio. No campo religioso, São Bento (Benedito) deu a paciência beneditina. São Francisco desembocou na humildade franciscana. Nas artes e nas ciências, há muitos exemplos: freudiano, balzaquiana, dantesco, machadiano.

A política é campo fértil para esse tipo de derivação. No passado, tivemos adhemarismo/adhemarista, janismo/janista, juscelinismo/juscelinista, getulismo/getulista e numerosos outros. É que, por capricho da história, o nome desses figurões aceitava um sufixo. Já outros nomes não aceitam derivação. FHC, nesse campo foi estéril. Como falar em FHCismo? Impossível. No mesmo caso estão Collor, Sarney, Renan, Geisel, França e tantos outros. Não se prestam a formar substantivo nem adjetivo. Collorismo? Não dá. Sarneyista? Que feio!

A cereja em cima da glória de todo homem político é a nomeação de corrente política com base em seu nome. Nesse ponto, Lula teve sorte. (Não só nesse, aliás.) Lulismo e lulista são termos amplamente aceitos e utilizados. Convenhamos: emprestar o próprio nome a uma tendência política é pra inflar o ego de qualquer um.

Quando se apresentaram treze pretendentes à Presidência da República, examinei o nome de cada um. Acabei me dando conta de que quase nenhum permitia a criação de derivados. Haddadismo? Alckminismo? Diasismo? Boulosismo? Nem em pesadelo! Era uma coleção de nomes estéreis. Só se salvava um: Bolsonaro. E o homem acabou ganhando! Que agrade ou não, bolsonarista já está na praça, aceito por número crescente de veículos. Aliás, o número de bolsonaristas da undécima hora cresce a cada dia.

Muito poucos já ousaram bolsonarismo. O substantivo virá com o tempo. Só nos resta esperar que ele nunca assuma a conotação pejorativa que hoje carregam lulismo e, sobretudo, dilmismo.

Ça y est, c’est fait!

José Horta Manzano

Ça y est, c’est fait!, dizem os franceses, lançando mão de expressão com mil e uma utilidades. Neste caso, pode ser traduzida por Acabou, chegamos ao fim.

A expressão é vazia de emoções, não tem carga negativa nem positiva. Quem a usa não denota euforia, nem desânimo, nem espanto, nem tristeza. Cai bem pra pôr fim a uma campanha eleitoral atípica, suja, de baixo nível, violenta, desgastante tanto para candidatos quanto para eleitores. Se um sentimento sobressai neste momento, é a sensação de alívio. C’est fait!

Como toda campanha, esta também deixa marcas. Alguns nomes, sufragados pelos eleitores, sobem de elevador ao pedestal da glória. Aos abandonados pelos votantes, não resta senão recolher-se à própria inexpressividade.

Confirmando tendência já detectada pelas sondagens, doutor Bolsonaro foi, sem surpresa, escolhido para o Planalto. Apesar de todas as análises e especulações, ninguém tem a menor ideia dos rumos que tomará o Brasil nestes próximos quatro anos. Acredito que nem o próprio doutor tenha ideia de como será seu governo.

Portanto, o que vier será surpresa para todos. Esperamos que, na condução dos assuntos nacionais, os anos que temos à frente sejam mais simpáticos do que os que deixamos atrás. No fundo, não é pedir muito: é difícil fazer pior.

Uma coisa é certa. Escapamos do vexame de ter na Presidência a marionete de um condenado purgando pena por corrupção, uma situação bizarra e constrangedora. Já é um bom começo.

Lembrete horário

José Horta Manzano

Este lembrete é pra você que tem conhecidos na Europa. Neste último domingo de outubro, mudamos de hora ‒ provavelmente pela última vez. Voltamos à hora de inverno. Na madrugada passada, quando o relógio marcou 3 horas, voltou a ser 2 horas.

As autoridades encarregadas do assunto estão atualmente considerando acabar com esse vaivém horário que perturba todo o mundo duas vezes por ano. Se as discussões forem bem sucedidas, esta terá sido a última mudança de hora. Vai valer para todos os países da União Europeia e para os vizinhos que aderem à norma.

Seja como for, convém ajustar sua agenda de contactos. Se você vive no Brasil, a distância que o separa de seu amigo na Europa fica diminuída de uma hora a partir de hoje. Se eram quatro horas, agora são três. Se eram cinco horas, agora são só quatro. E assim por diante.