O que fica desta vida

José Horta Manzano

A Primeira Guerra Mundial, carnificina que castigou a Europa de 1914 a 1918, foi orquestrada por generais, como é costume em tempos de conflito. Na França, depois que as armas se calaram, os oito generais que mais se tinham destacado foram proclamados marechais ‒ um título honorífico que se outorga àqueles cuja atuação tenha sido considerada extraordinária. Um dos homenageados foi o marechal Philippe Pétain, cujo gênio tático havia permitido a vitória do país na terrível Batalha de Verdun. O homem entrou para a memória coletiva como salvador da pátria.

Passaram-se pouco mais de vinte anos. Na irrequieta Europa do século 20, foi tempo suficiente pra estourar nova guerra ‒ a que viria a ser conhecida como Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1940, num ataque relâmpago de apenas três semanas, a Alemanha nazista invadiu a França, destroçou-lhe as forças militares e ocupou o país. Dernorteados, os franceses se lembraram do herói da guerra anterior. Chamaram o marechal, já então com 84 anos de idade, para de novo salvar a pátria.

O ancião assumiu as rédeas do governo. Depois de avaliar prós e contras, tomou a decisão de baixar os braços, assinar a rendição, aceitar a ocupação do território pelo exército estrangeiro e dar início a um período de colaboração com o inimigo. Não foi pra isso que tinha sido chamado e não era exatamente o que se esperava dele. Mas os franceses tiveram de engolir a pílula, por mais amarga que fosse. O exército de Hitler continuou ocupando a França pelos anos seguintes.

Quepe de general francês

Cinco anos depois, vencidos os alemães e terminada a guerra, chegou a hora do acerto de contas. O marechal Pétain, acusado de alta traição e conluio com o inimigo, foi processado e condenado à pena capital acrescida da perda de todas as honrarias. Recebeu também o castigo simbólico de desonra nacional. Levando em conta a idade do militar ‒ o homem já estava com 90 anos ‒, o general De Gaulle decidiu graciá-lo. Sua pena foi comutada em prisão perpétua. O ancião morreria na prisão alguns anos mais tarde. Desde então, Pétain reside na galeria dos anti-heróis, dos traidores da pátria, dos personagens sinistros da história da nação.

Estes dias a Europa celebra o centenário do fim da Primeira Guerra. O ponto alto das comemorações será sábado próximo nos Invalides, um complexo arquitetônico que compreende uma catedral, diversos museus e um cemitério militar. Na ocasião, o nome dos marechais de 1914-1918 será solenemente pronunciado. Voluntorioso, o presidente Macron declarou, faz alguns dias, que o nome de Pétain fará parte dos que vão ser enunciados. Ah, pra quê! Alevantou-se uma grita nacional. Políticos, figurões, entidades, analistas, jornalistas ‒ a França inteira se eriçou em protesto. Ficou claro que a pátria não perdoou a Pétain. O papel que ele representou na Segunda Guerra anulou a glória conquistada na Primeira. Em vista do clamor, Monsieur Macron teve de recuar: o nome do marechal não será pronunciado. A nação não quer ouvi-lo.

Essa historinha de personagem que chegou ao topo para depois descer às profundezas me lembrou um conhecido ex-presidente nosso. Lula da Silva de fato subiu ao ponto mais alto a que se pode aspirar, festejado dentro e fora das fronteiras. No entanto, desvelada a podridão de certos atos seus, despencou do pedestal para ingressar na galeria dos caídos. Cruel e imperdoável, toda queda cassa e revoga as glórias do passado. O que fica é a última impressão. Como aconteceu com o velho marechal francês, a memória de Lula da Silva está para sempre avariada. Ainda que se lhe comutasse a pena de prisão, a desonra é definitiva, uma via sem retorno.

Escola em fatias

José Horta Manzano

Onibus 6Longe do Brasil e há muitos anos apartado da escola, confesso que não acompanhei o diferendo que resultou em ocupação de estabelecimentos escolares no Estado de São Paulo. De notícia boa, a gente corre atrás. De notícia ruim, a gente foge – só lê por obrigação.

Uma cara amiga e fiel leitora me fez, em poucas linhas, um resumo da situação. Foi um relato claro como manual de English for beginners. Se não me tornou especialista, deu-me visão global do problema. Fica aqui registrado meu agradecimento.

Se bem entendi, as autoridades que cuidam da educação em São Paulo propõem que a escola pública seja compartimentada por ciclos. Cada escola se dedicaria unicamente a um deles. Assim, escola de ciclo básico não acolheria alunos do intermediário nem do secundário. E assim por diante.

Escola 1Se raciocinarmos no absoluto, passando por cima dos considerandos, a ideia não é absurda. Combina com o que se faz no resto do mundo. Aqui na Suíça, por exemplo, é assim que funciona, a começar pela creche: berçário para crianças muito novinhas e creche para os maiorzinhos não estão necessariamente no mesmo vilarejo. Quem tem duas crianças em idade pré-escolar tem de depositar cada filho numa creche diferente, situada noutro lugar. Mais tarde, o problema desaparece, porque o transporte escolar se encarrega de levar e trazer os guris a partir de sete anos de idade.

Feliz ou infelizmente, Brasil não é Suíça. As condições de vida diferem muitíssimo de um país ao outro. A mobilidade urbana – que, em metrópoles brasileiras, melhor seria descrita como «imobilidade urbana» – é fonte de graves problemas no Brasil. A predominância de famílias de renda baixa é outro estigma nacional.

Na outra ponta, muitos professores brasileiros só conseguem sobreviver se acumularem dois (ou mais) empregos em ciclos diferentes. Se o dia a dia desses profissionais já é carregado, ficará infernal caso a reforma vingue.

Onibus 7Não há garantia de que sistemas testados e aprovados nalgum lugar continuem a funcionar bem quando transplantados a outras plagas. Para que a especialização de cada estabelecimento de ensino possa ser adotada no Brasil, há que estar atento ao transtorno que possa trazer a pais e alunos. Não se fala aqui de problemas de adaptação de um pequerrucho a nova escola. Nossos empecilhos são reais, palpáveis, espinhudos, às vezes intransponíveis.

No dia em que as condições de vida do cidadão brasileiro tiverem evoluído e atingido nível civilizado, será chegado o momento de criar estabelecimentos especializados para cada ciclo. Por enquanto, o quadro geral não permite dar esse passo.