Aprendendo a ser presidente

José Horta Manzano

Em 2003, assim que foi empossado, o novíssimo presidente Lula da Silva fez aparições públicas em eventos variados. Como recém-chegado, foi paparicado à bessa, o que é muito natural. Fotógrafos logo imortalizaram o distintivo que ele insistia em fincar na lapela: um pin com a estrela vermelha do PT, seu partido.

Jornalistas publicaram textos escandalizados com o gesto do novo mandatário. Afinal, ele tinha sido eleito para presidir a República, não para chefiar um partido. Portada ostensivamente, aquela insígnia era sinal hostil lançado aos que não fossem simpatizantes de seu partido. Cargo de presidente exige que o titular se coloque acima de querelas politiqueiras.

Lula da Silva não costumava ler jornais. Mas seus prestimosos assessores se deram conta do reclamo, informaram o chefe, e o pin vermelho cedeu lugar a um mais decente, com as cores da bandeira.

Essa historinha ‒ que é bem real ‒ serve pra ilustrar os tropeços de todo principiante. Todo debutante dá seus foras, seja qual for a profissão ou o cargo, é compreensível. Importantíssimo, no entanto, é que aprenda de seus escorregões e se encaixe na liturgia que a posição exige.

Doutor Bolsonaro deu outro dia um bruta fora. Ressentido com o tratamento que lhe dispensou um jornal de São Paulo durante a campanha, tratamento que ele julga ter sido persecutório e injusto, prometeu fazer desabar raios e relâmpagos sobre o veículo. Errou feio.

Se sentimentos de rancor de vingança já caem mal em mortais comuns, que dirá em figurões da República. Uma bordoada. E pensar que a solução é tão evidente: para casos como esse, a lei prevê caminhos mais civilizados. Se o doutor se sentiu caluniado, que demande reparação por via judicial. Assim, sai tudo nos conformes. Agora, prometer benesses aos amigos e castigo aos adversários ‒ tudo isso com nosso dinheiro ‒ é expediente que não combina com democracia.

Por esta vez, passa, doutor. Da próxima, pense duas vezes antes de abrir a boca. A acumulação de pequenos incidentes como esse pode embaçar sua imagem antes do fim do período de graça.

Símbolos horizontais

José Horta Manzano

SOSDesde antes de inventar a escrita, o homem procurou deixar marca de sua passagem. Escreveu na pedra, na madeira, na argila, na areia, no papel, no bronze, na natureza.

Deixar marcas no chão, que só poderiam ser vistas do alto, fazia pouco sentido antes do advento de balões, aviões & conexos. Hoje a coisa mudou.

Estes dias, voando atrás de sequestradores, a Polícia Civil de Santa Catarina surpreendeu – e fotografou – uma piscina residencial cujo revestimento reproduz o desenho de uma inquietante suástica, de triste memória.

Foto divulgada pela Polícia Civil de Santa Catarina

Foto divulgada pela Polícia Civil de Santa Catarina

Desconheço a legislação, mas acredito que, no Brasil, o fato de ostentar uma cruz gamada no exterior de sua residência não constitua crime. Na Alemanha, levaria o responsável ao calabouço. Rapidinho.

Ocorreram-me dois outros casos de mensagem desenhada no solo, casos que fizeram história.

O primeiro deles aconteceu faz meio milênio. Foi quando José de Anchieta, religioso espanhol de origem judia aportado à Capitania de São Vicente nos idos de 1553, escreveu seu Poema à Virgem. Riscou-o nas areias de Iperoig (atual Ubatuba, Estado de São Paulo). O padre poeta tinha sido tomado como refém por uma tribo autóctone e encontrava-se em cativeiro. Diríamos hoje que estava no regime semiaberto.

Padre Anchieta escrevendo seu Poema à Virgem by Benedito Calixto (1853-1927)

Padre Anchieta escrevendo seu Poema à Virgem
by Benedito Calixto (1853-1927)

O primeiro registro da composição teve exata duração de uma maré. As águas atlânticas se encarregaram de apagar a obra. Seus 4712 versos só chegaram até nós por façanha da extraordinária memória de Anchieta. Uma vez liberto, ele reescreveu a poesia.

O caso catarinense lembrou-me também – que remédio? – outro episódio bem mais recente e bem menos glamoroso. O distinto leitor há de se lembrar da estrela vermelha que a esposa do então presidente mandou plantar nos jardins do Palácio da Alvorada. Mostrando, já naquela época, o sinal distintivo do partido do marido – o «nós contra eles» –, não hesitou em marcar a sede do Executivo de todos os brasileiros com o símbolo do «nós».

Estrela Alvorada«Nós», que chegamos lá. «Nós», que ganhamos. «Nós», que mandamos. Pareceu natural a todos eles. Não foi senão na sequência de clamor popular – e bem a contragosto – que desmancharam o «enfeite» plantado no jardim da sede do Poder brasileiro. Poder que emana do povo, lembre-se.

Foto de 2011

Foto de 2011

Anos mais tarde, repetiu-se a dose. Só que, desta vez, nos jardins da Granja do Torto, outra residência oficial do chefe do Executivo. O nome da granja, por falar, combina com seus atuais ocupantes. Pau que nasce torto não tem jeito: morre torto.

Interligne 18bEm tempo
O poema de Anchieta ainda está aí, à disposição do leitor. Ainda que não possa ser incluído entre as obras-primas da poesia de todos os tempos, continua comovente pela pureza e pela singeleza de suas estrofes. Já o «nós contra eles», visivelmente na contramão da História, tem prazo de validade efêmero. Mais dia, menos dia, será varrido pela maré. Ou por um tsunami.