América del Sur

José Horta Manzano

Faz 13 anos que nosso governo popular vem se esforçando para integrar o Brasil no clube das nações sul-americanas. É verdade que, desde que os primeiros portugueses aportaram, demos as costas para nossos vizinhos. Nunca nos identificamos com os hermanos. No nosso imaginário, nosso ideal sempre foi outro, situado a milhares de quilômetros daqui.

No entanto, analisando de mais perto e comparando nosso comportamento com o dos vizinhos, não há como escapar da conclusão: não somos tão diferentes assim.

A mentira, por exemplo, é defeito comum a todos os governantes da região, vício que costuma passar batido. Cuba é o arquétipo desse comportamento ‒ faz cinquenta anos que os Castros embalam seus concidadãos com inacreditáveis lorotas.

Ultimamente, o mau costume tem-se alastrado pelo subcontinente. Chávez, Kirchner, Correa, Evo, Maduro mantêm-se à custa de cascatas de falsidade e de muita conversa fiada. Sem mencionar nosso inefável Lula, naturalmente. Nosso guia adotou o mesmo caminho indigente.

A apropriação indébita da coisa pública é outro defeito. Em outras palavras, falo do roubo, em proveito próprio, daquilo que pertence a todos. Dizem as más línguas que a fortuna dos irmãos Castro, devidamente encafuada em lugar seguro, totaliza bilhões. Quanto aos outros, pouca gente conhece o montante exato da riqueza de cada um. Mas todos desconfiam.

O mais recente exemplo de assalto aos bens do contribuinte acaba de ser dado por doña Cristina, que deixou a presidência da Argentina faz alguns dias. A mandatária e seus áulicos deram um verdadeiro rapa. Sumiram computadores, móveis, eletrodomésticos, equipamentos. Para completar a herança maldita, deixaram veículos presidenciais com multas não pagas. Nem água quente havia na Casa Rosada quando Mauricio Macri assumiu.

Interessante será notar que a mídia argentina, ressabiada com possíveis represálias de correligionários da antiga presidente, não deu eco a esses «malfeitos». Quem noticiou foram jornais chilenos e espanhóis.

Essa rapina me fez recordar a declaração surpreendente dada em 2002 por Jorge Batlle, então presidente do Uruguai, sobre a honestidade de seus vizinhos. O homem declarou textualmente: «Los argentinos son una manga de ladrones, del primero hasta el último» ‒ os argentinos são um bando de ladrões, do primeiro ao último.

Foi sentença pesada, sô! Ofendeu um povo inteiro, sem deixar brecha pra exceção nenhuma. Nem nosso amado guia, em seus mais desatinados pronunciamentos, ousou ir tão longe.

Pra abrandar, há que jogar água nessa fervura. Melhor será dizer que muitos argentinos ‒ assim como muitos brasileiros, muitos uruguaios, muitos venezuelanos ‒ são desonestos. Mas não todos. Pelo menos, espero.

Apagando incêndios

José Horta Manzano

Argentina 5Estas últimas semanas, a República Argentina vive uma febre de nomeação de embaixadores. Um mês antes de deixar o cargo, Cristina Fernández de Kirchner(*) disparou uma série de decretos designando nada menos que sete representantes no exterior.

Não ficou claro o motivo dessas nomeações às carreiras. É permitido imaginar que doña Cristina estivesse pagando dívidas de gratidão. Quando se deu conta de que seus dias na chefia do Estado estavam contados, tratou de resgatar compromissos assumidos de longa data.

É interessante notar que, menos de uma semana depois de assumir suas funções, o novo presidente parece ter sido contaminado pela febre de nomeações. Já designou seis novos representantes.

Casa Rosada, a sede do Executivo argentino

Casa Rosada, a sede do Executivo argentino

Se Cristina, em fim de mandato, pagava dívidas, Macri tem outra motivação. As loucuras cometidas nos últimos vinte anos, desde a era Menem, corroeram a imagem da Argentina. O longo reinado dos Kirchner não contribuiu para aplainar arestas. Cabe ao novo presidente enviar, a postos-chave, portadores de mensagem de seriedade.

Compreensivelmente, señor Macri decidiu rapidinho quem serão os representantes nos Estados Unidos e na China – são potências mais que importantes. Os outros quatro enviados vão ao Uruguai, ao Brasil, à Espanha e… ao Vaticano. Por que terão sido escolhidos esses destinos?

Quanto ao Uruguai, é fácil entender: há interesses econômicos e enorme proximidade entre os dois países platinos, amigos de fé e irmãos camaradas.

O Brasil é parceiro incontornável, grande fornecedor, paciente interlocutor e generoso cliente. As boas intenções que o novo presidente tem com relação ao desencalhe do Mercosul dependem desesperadamente da anuência de Brasília.

Embaixada da República Argentina, Brasília

Embaixada da República Argentina, Brasília

Novo embaixador também foi designado para a Espanha. A encampação das atividades que a petroleira espanhola Repsol desenvolvia em solo argentino, decidida faz alguns anos, estremeceu as relações com Madrid e deixou marcas. A missão maior do novo embaixador será restabelecer a normalidade.

E o Vaticano? Sabe-se lá por que razão, a Santa Sé, fugindo à praxe diplomática, não enviou mensagem de felicitações ao novo presidente. E olhe que o papa é argentino! Algum problema há. O novo enviado há de estar incumbido de apagar focos de incêndio e de apaziguar relações.

Interligne 18h

(*) Na tradição espanhola, a mulher casada conserva o sobrenome de solteira – prática cuja imparcialidade me agrada. Em princípio, as antigas colônias hispânicas seguem o mesmo costume.

Nesse particular, nossos hermanos do Sul inovaram. Ao casar-se, a mulher argentina costuma conservar o sobrenome de solteira, podendo agregar o do marido precedido da partícula “de”.

Assim, Cristina Elisabet Fernández, quando se casou, tornou-se Cristina Elisabet Fernández de Kirchner. Para nós, parece estranho. Soa como se a esposa se tivesse tornado propriedade do marido.

Enfim, cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.

João que chora, João que ri

José Horta Manzano

Fronteira 2O real – a moeda brasileira – vai mal, disso sabemos todos. Faz um ano que vem sofrendo acentuada desvalorização, fato que traz severas consequências. Enquanto angustia uns, a degringolada da moeda alegra outros.

Importadores e consumidores de produtos importados se descabelam. Pagam hoje, pela mesma mercadoria, 50% a mais do que um ano atrás.

Fronteira 4No Brasil, ainda que nem sempre percebamos, somos um bocado dependentes de artigos importados. Produtos agrícolas escapam a esse raciocínio, mas raros são os produtos industriais que se contentam de componentes unicamente nacionais. Em menor ou maior medida, integram insumos ou peças importadas. De um ano pra cá, com a queda de nossa moeda, tudo o que vem de fora ficou 50% mais caro, o que realimenta a inflação.

Os que vinham economizando, de olho naquela sonhada escapada ao exterior, murcharam. Convertidas em euros ou em dólares, suas economias minguaram. Do outro lado do espectro, boa parte dos três milhões de compatriotas estabelecidos fora da pátria remetem, todo mês, uns cobrinhos para ajudar a família. Tanto expatriados quanto familiares estão felizes: os mesmos dólares rendem muito mais reais.

Preços 1Em nova prova de que o crime compensa, mensaleiros e petroleiros – falo dos espoliadores que sugaram o fruto do trabalho de todos nós – estarão satisfeitos. Tirando a minoria que está na cadeia, os outros, que podem ser centenas ou até milhares, estão hoje mais ricos ainda. Convertidas em reais, fortunas bem guardadas no exterior cresceram.

Fronteira 3Mais prosaicamente, o comércio fronteiriço do sul do Brasil anda animado. A desvalorização do real diante da moeda de países hermanos esquentou o turismo de compras. Trata-se de movimento pendular, ora são os de cá que compram lá, ora o fluxo se inverte. Atualmente, são paraguaios, uruguaios e argentinos que levam vantagem fazendo compras no Brasil.

Segundo informa o jornal argentino Ámbito Financiero, vale a pena atravessar a fronteira para comprar desde laranja e cerveja até celular e ar condicionado. Contentes estão os que vivem pertinho do Brasil. Podem fazer as compras diárias de supermercado – com vantagem não desprezível – em nosso país.

É o Mercosul provando que é útil e eficiente. Exatamente como a «Pátria Educadora», poderoso instrumento que veio redimir nossa proverbial falta de cultura.

Floresta – vida e morte

José Horta Manzano

Você sabia?

Floresta 1Na visão brasileira, floresta é floresta, o resto é o resto. Para a maioria de nós, a palavra lembra Amazônia, região mítica e distante, que poucos visitaram.

Em zonas temperadas, a oposição entre a selva e o resto é menos nítida. Sabia o distinto leitor que 32% do território suíço é coberto de floresta? Sim, senhor!

Parece inacreditável principalmente levando em conta que mais de oito milhões de habitantes se espremem num território equivalente à quarta parte do Uruguai. Como é que ainda sobra espaço pra floresta? Fica ainda mais difícil de acreditar quando se lembra que parte da Suíça é inabitável em virtude da presença de lagos, altas montanhas, glaciares ou neves eternas. Pois, assim mesmo, árvores cobrem um terço da superfície total.

Floresta 2Vale notar que a floresta, na Europa, não se apresenta de forma contínua como conhecemos no Brasil. Áreas arborizadas se alternam com pastos, campos cultivados ou zonas urbanizadas. Vista do alto, a paisagem é bastante diferente do que conhecemos. Manchas de floresta, bem recortadas e comportadinhas, convivem com áreas de plantio ou de habitação.

Nos anos 80, com o avanço da urbanização, receava-se que, em poucas décadas, a cobertura florestal desapareceria. Constata-se hoje que o destino, cabeçudo, decidiu de outra maneira. Em vez de diminuir, a área arborizada vem crescendo pouco a pouco.

Floresta 3Como é possível? A razão do milagre é o abandono de áreas cultivadas antigamente. Especialmente em região de montanha, a agricultura é problemática e a produtividade, baixa. Não compensa. Vai daí, pouco a pouco, cultivadores dessas regiões têm abandonado a agricultura. E o que é que acontece nas lavouras descuradas? A floresta ressurge.

Resumo da ópera: ainda há esperança de salvar a Amazônia. Se as zonas desmatadas forem abandonadas, a natureza fará seu trabalho de reflorestamento. Nem tudo está perdido. Mas é aconselhável não esperar que a última árvore seja derrubada.

Arma secreta

José Horta Manzano

Heroi 1Todo país guarda memória de algum dirigente excepcional, daqueles que só aparecem uma vez por século. Refiro-me a gente da estirpe de um Winston Churchill, de um Otto von Bismarck, de um Abraham Lincoln ou de um Charles de Gaulle. O Canadá também teve o seu. Foi o Primeiro-Ministro Pierre Elliott Trudeau (1919-2000).

Dotado de grande simpatia e de espírito vivo, Trudeau segurou as rédeas de seu país em duas ocasiões, totalizando 15 anos. São de sua lavra algumas pérolas oratórias. Certa ocasião, em discurso no Clube de Imprensa de Washington, soltou uma preciosidade curta, grossa e irretocável. Referindo-se aos Estados Unidos, disse:

Interligne vertical 3Interligne vertical 3«Living next to you is in some ways like sleeping with an elephant. No matter how friendly and even-tempered is the beast, one is affected by every twitch and grunt.»

Ser vizinho seu é como dormir com um elefante. Por mais amistoso e manso que seja o animal, a gente sente cada movimento e cada grunhido.

Fazia alusão, naturalmente, ao descomunal peso demográfico, econômico, militar e político do vizinho. Os dois países são separados (ou unidos, como queira) por quase 9000km de linha demarcatória, a mais longa fronteira do planeta entre duas nações.

Fronteira 1Embora a gente nem sempre se dê conta, o Brasil assume, na América do Sul, o papel do elefante. Com população e peso econômico equivalente ao de todos os hermanos reunidos, nosso país é observado com crescente atenção pelos vizinhos. Nossos sobressaltos nacionais extrapolam fronteiras.

A edição online deste domingo do espanhol El País aponta exatamente para essa influência que, o mais das vezes, nos passa despercebida. Se mensalões, petrolões e recessões nos deixam apreensivos, o mesmo sentimento de insegurança atravessa cerrados, pampas, pantanais e florestas para incomodar outros povos.

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

Nossos vizinhos – uns menos, outros mais – sentem inquietação. Para a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, as trocas comerciais com o Brasil são de importância vital. Se bambearem, eles estarão em apuros.

Nossos vizinhos de inclinação autocrática e populista – ou «bolivariana», como eles preferem – andam angustiados com os desdobramentos da Lava a Jato. La Paz, Caracas e Quito sabem que o regime que vêm tentando implantar há anos não sobreviverá a uma guinada brasileira em direção à civilização. Se o Brasil conseguir aperfeiçoar sua democracia, o regime autoritário de alguns vizinhos definhará.

Manif 3A marca deixada pelo presidente americano Richard Nixon (1913-1994) não é positiva. No entanto, em pelo menos uma ocasião, o chefe de Estado pronunciou palavras proféticas. Em 1971, já vislumbrava a crescente e inevitável influência de nosso País quando disse que «para onde for o Brasil, irá a América Latina».

Está aí, companheiros! Não estamos sós! Além-fronteiras, também se repete a partição entre «nós & eles». De um lado, há os que torcem pelo soerguimento da economia brasileira, objetivo que só pode ser atingido depois de varrida a bandalheira que nos tem martirizado. De outro lado, há os que rezam para que nada mude, pois são beneficiários diretos do statu quo.

Quanto aos de fora, que torçam, que rezem, que façam novena ou trezena, de pouco adiantará. O futuro do Brasil está contido na arma que só se concede aos nacionais: o voto.

Sem apoio

José Horta Manzano

Príncipe Ali bin al-Hussein

Príncipe Ali bin al-Hussein

Quando autoridades americanas estouraram a bolha da roubalheira deslavada em que medalhões do futebol nadavam de braçada, o mundo ficou sabendo de coisas assombrosas. Muitos já suspeitavam, agora todos têm certeza: cartolas-mores levam vida de nababo.

Doravante, por algum tempo, o nível de corrupção nas altas esferas do futebol deve baixar. Assim mesmo, com ou sem roubalheira, o cargo máximo da Fifa continua pra lá de atraente. Dinheiro, poder, favores e mordomias despertam apetite em muita gente.

Foi dada a partida da corrida para a sucessão de Sepp Blatter. Muitos gostariam de se candidatar, poucos têm ousado. Para se apresentar, postulantes têm de obter o apoio oficial e declarado de pelo menos cinco federações nacionais.

O candidato natural e esperado é o príncipe Ali bin al-Hussein, da Jordânia, justamente o desafiante de Blatter na última eleição. Os 73 votos que recebeu em maio dão-lhe cacife. É rico e vem de país insignificante no futebol – qualidades interessantes.

Outro candidato evidente é Michel Platini, antigo craque da seleção da França, que preside, há anos, a poderosa Uefa – União Europeia de Futebol. Esse também tem grande possibilidade de ser eleito.

Fifa del NeroAlém dos dois, há meia dúzia de paraquedistas. Entre eles, o antigo futebolista carioca Arthur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico. O moço terá, é certo, dificuldade grande pra chegar lá.

O histórico de suspeitas que embaçam brasileiros como Havelange, Teixeira e del Nero (aquele que fugiu de Zurique pra escapar da polícia) contamina a candidatura de Zico.

Pra conseguir os cinco apoios, ele começou por pedir a bênção de del Nero. Ao deixar-se fotografar ao lado do cartola, embora fosse passagem obrigatória, assinou sua sentença de exclusão do páreo.

Michel Platini

Michel Platini

Para piorar, nossos hermanos já começaram a nos dar as costas. Ah, os ingratos! A Asociación Paraguaya de Fútbol já comunicou oficialmente à Fifa seu apoio a Platini. O Paraguai não está sozinho: Chile, Uruguai, México e a União Caribenha de Futebol também estão com o antigo craque francês.

A “liderança regional” brasileira ambicionada por Marco Aurélio “top-top” Garcia e pelo lulopetismo ainda está longe de se tornar realidade.

¡Que viva nuestra Latinoamérica!

Dia perigoso

José Horta Manzano

Futebol 3Dia 16 de julho tem lugar garantido na História do Brasil. Em 1950, marcou a derrota do time brasileiro de futebol. Fosse um jogo amistoso, o 2 x 1 em favor do Uruguai teria sido resultado banal. O drama é que era uma final de Copa do Mundo e, pra mal dos pecados, organizada no Brasil. O País perdeu a taça.

Sessenta e cinco anos depois, señor Alcides Ghiggia, autor do decisivo gol uruguaio, faleceu. Exatamente num 16 de julho. Durante 64 anos, foi chamado de “algoz” do Brasil. Um certo 7 x 1 relativizou as coisas. Señor Ghiggia pode descansar em paz.

No mesmo dia em que faleceu o jogador, singular notícia pipocou. Em meio a dezenas de outras às quais nos estamos tristemente acostumando, passou quase inaudível. A Procuradoria da República abriu procedimento investigatório criminal para investigar o Lula. Repito: procedimento investigatório criminal! Contra nosso guia, pesam suspeitas de ter agido no sentido de obter vantagens indevidas.

Que eu me lembre, nunca antes na história dessepaiz se havia ouvido falar em investigação criminal contra ex-presidente. Embora previsível, a notícia não deixa de ser «estarrecedora», palavra do agrado de nossa atual mandatária. É interessante a coincidência de datas. O 16 de julho parece ser dia delicado para o Brasil.

Vou parando por aqui – deixo que o distinto leitor reflita sobre as ironias do destino.

"Maracanazo" - 16 jul° 1950

“Maracanazo” – 16 jul° 1950

Maracanazo
Tenho ouvido ultimamente que o Brasil perdeu a Copa de 1950 no episódio que ficou conhecido como «Maracanazo». A afirmação não é verdadeira. Nunca jamais se utilizou, no Brasil, essa expressão para qualificar o desastre. É criação platina e por lá ficou.

A primeira vez que a palavra apareceu no Estadão, jornal brasileiro de referência, foi em 1977, vinte e sete anos depois do jogo. E, assim mesmo, como citação de publicação estrangeira.

Na verdade, foi o traumatizante 7 x 1 que, no ano passado, espalhou a expressão do Oiapoque ao Chuí.

Falam de nós – 2

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Efeito colateral
A rádio estatal sueca – Sveriges Radio – ressalta que o escândalo de corrupção e roubalheira na Petrobrás tem respingado até na beira do Polo Norte. Um espanto!

O fato é que a Skanska, gigantesca empreiteira escandinava, está consorciada com outras empresas em pelo menos quatro grandes projetos em território brasileiro: Gasoduto Urucu-Manaus, Propylene Repar (Araucária), Gasoduto Cabiúnas-Vitória, Refinaria Presidente Bernardes (Cubatão).

Entre os sócios, estão as empresas Engevix, Camargo Correa e Toyo Setal, envolvidas no astronômico assalto. Daí o salpico em terras nórdicas.

Como é hábito em nossa terra, poderão sempre alegar que não sabiam de nada. Costuma funcionar.

Interligne 28a

Racismo 2

Embates raciais
Jornais estrangeiros compararam as escaramuças ocorridas estes dias em Ferguson (Missouri, EUA) com a crônica violência policial a que se assiste no Brasil dia sim, outro também.

Coincidentemente, o artigo de Mac Margolis (Bloomberg View, em inglês) e o de Tjerk Brühwiller (Neue Zürcher Zeitung, em alemão) ostentam praticamente o mesmo título: «Há um Ferguson por dia no Brasil».

Ambos ressaltam o fato de a violência policial brasileira, estatisticamente mais contundente, passar praticamente em branco na mídia planetária.

Interligne 28aMinistro da Fazenda
Praticamente toda a mídia mundial noticiou a nomeação dos futuros comandantes da economia brasileira. Ressaltam que a situação está crítica e que a nova equipe é considerada capaz de desfazer o nó. Aqui, no alemão Handelsblatt e no francês 20minutes.

Interligne 28aPelé 1Pelé doente
Muito comentada também a internação de Pelé. O profissional aposentado mantém intacto seu prestígio além-fronteiras.

Outros jogadores famosos houve, como Di Stefano, Johan Cruyff, Franz Beckenbauer, Michel Platini, mas o mítico Edson Arantes do Nascimento – que o mundo conhece de boca fechada – ainda aparece por cima da carne-seca.

Aqui, no britânico Daily Mirror.

Interligne 28aTemporal
O portal italiano TGCom24, de estilo marcadamente sensacionalista, volta sua atenção para o temporal que se abateu sobre a cidade de São Paulo.

Interligne 28aDinheiro lavagemLavado e passado
Sob o título «El juez que hace temblar a los corruptos de Brasil», o espanhol El País destaca a atitude inusitada de Sergio Moro, e reverencia sua coragem de enfrentar poderosos ao investigar sobre «un lavado de dinero».

Até a mídia estrangeira mostra-se surpresa com o andamento desta versão tupiniquim da italiana Õperação Mãos Limpas, levada a cabo alguns anos atrás.

Interligne 28aCobra que fumaCoquetel mortal
Cocaína com veneno de cobra coral? Pois a novidade acaba de penetrar em território nacional, segundo reportagem do espanhol El Mundo.

Vem entrando pela extensa linha fronteiriça em que o Brasil linda com o Uruguai. O intuito dos produtores é aumentar o potencial de adicção, mas o resultado pode ser desastroso. Usuários temerários ou mal informados estão pondo em risco a própria vida.

Interligne 28a

Comparecimento imediato

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, quem sai fora da linha não arrisca muito. Tendo um bom advogado e alguma folga financeira, aí então é moleza. Na falta de dinheiro, o apoio de uma ong qualquer também funciona.

Habeas corpus, prisão domiciliar, regime semiaberto, recursos, chicanas, entrevistas à mídia, protestos, faixas, passeatas contam-se aos montes. Até pedido de asilo político em consulado do Uruguai anda na moda. Cadeia é mesmo só pra pobre desdentado. Gente fina sempre dá um jeito.

Em outras partes do mundo, a coisa não funciona exatamente assim, que lugar adequado para quem afronta a lei é cadeia.

Um grupo havia solicitado à polícia francesa autorização para organizar uma manifestação em solidariedade com o povo palestino. As autoridades não deram permissão. Os manifestantes resolveram passar por cima e sair em passeata assim mesmo. Foi em Sarcelles, arredores de Paris, domingo passado.

Manif 2O que tinha de acontecer, aconteceu. Elementos perturbadores infiltraram-se na passeata e transformaram o cortejo pacífico em manifestação violenta. Vitrinas quebradas, lojas saqueadas, degradação de patrimônio público.

Tivesse ocorrido em nosso País, teria dado em nada. Ultimamente, os deveres andam meio esquecidos ― só valem os direitos. A expressão violenta da opinião de uns poucos tem prioridade sobre o direito à paz e à tranquilidade de que a esmagadora maioria de cidadãos deveria poder gozar.

Na França, tem disso não. A polícia deteve 18 arruaceiros. Foram divididos em grupos, conforme o delito cometido. Os primeiros foram apresentados à Justiça num procedimento dito de comparution immédiate ― comparecimento imediato. Essa fórmula é frequentemente utilizada em caso de pequenos crimes.

Os quatro primeiros foram julgados e condenados já na terça-feira, dois dias depois do tumulto. Três deles pegaram pena de dez meses de prisão ― os quatro primeiros meses em regime fechado e os seis últimos no semiaberto.

Não há consulado do Uruguai em Sarcelles. Nem que houvesse, não adiantaria nada. Preso político é uma coisa, baderneiro é outra.

Cada cabeça, uma sentença ― 2

José Horta Manzano

RP-Online (Alemanha)
«Cafu: “Wir glauben alle an ein Finale gegen Deutschland”»
«Cafu: “Acreditamos todos numa final Brasil x Alemanha”»

Interligne 18h

Estadão (Brasil)
«Pelé quer ‘revanche’ contra o Uruguai na Copa do Mundo»

Interligne 18hFotbollskanalen (Suécia)
«Tyskarna har landat: “Brasilien är favoriter”»
«Os alemães aterrissaram: “Brasil é o favorito”»

Frase do dia — 137

«O governo Lula fez uma jogada arriscada com o Irã ao tentar mediar um acordo nuclear. Imagine se a Turquia resolvesse fazer um acordo entre Argentina e Uruguai. Não tem como.»

Fernando Henrique Cardoso em entrevista concedida à Folha de São Paulo por ocasião da cerimônia em que a Universidade de Tel Aviv lhe concedeu o título de doutor honoris causa. Publicado na edição online de 19 maio 2014.

De camisa florida

José Horta Manzano

Você sabia?

Palmeira 1Se eu lhes perguntar qual é o país mais visitado do mundo, que é que me responderão? Pois eu lhes conto: em números absolutos, a França, com 83 milhões de visitantes, ganha de longe.

Mas há uma outra resposta. Se considerarmos a quantidade de turistas como porcentagem da população residente, o panorama é mais nuançado. Com magros 800 habitantes, o minúsculo Estado do Vaticano ganha disparado, milhas à frente do segundo classificado. Cinco milhões e meio de estrangeiros passam por lá a cada ano, o que dá 6500 visitas por habitante. Uma enormidade.

Há que conceder que mini- e microestados falseiam as estatísticas. São ponto fora da curva ― expressão em voga atualmente. Melhor observar o que se passa em países de tamanho habitual.

Pelo critério de visitantes como porcentagem da população, os países europeus são campeões. Em primeiro, aparece a Áustria que, com população de 8 milhões e meio, acolhe 24 milhões de visitantes a cada ano. Dá quase três turistas por habitante! Logo atrás, vem a Croácia, destino apreciado para as férias de verão. No total, uns dez estados europeus recebem turistas em número superior ao de sua própria população.

Turismo no mundo Fonte: The Telegraph, UK

Turismo no mundo
Fonte: The Telegraph, UK

E como é que ficam as Américas? Ao norte, o Canadá se sai bem: os visitantes representam 46% da população. Os EUA, onde os forasteiros de passagem equivalem a 21% da população também não podem reclamar. As Antilhas são constituídas por microestados, fato que perturba o resultado estatístico.

Vamos falar da América do Sul. Quem seria o campeão? Difícil adivinhar, não é? Pois é nosso vizinho Uruguai. Visitantes representam 80% da população do país. Atrás dele, está o Suriname (45%). A Guiana (22%), o Chile (20%) e a Argentina (14%) seguem mais descolados.

E nosso país, como é que anda? Pois saibam que fica na rabeira da classificação continental, em penúltimo lugar. Os 5 milhões e meio de pessoas que visitam o Brasil perfazem apenas 2,86% da população local. Pior que nós, só a Venezuela.

Turismo 2E por que um afluxo de turistas tão diminuto em nossas terras? A lógica ensina que, quanto maiores forem os atrativos turísticos, mais visitantes virão. O Brasil tem beleza natural de sobra, cachoeiras, praias, pantanais, sol, calor. O que é que atravanca a vinda de mais gente?

A distância não há de ser: China, Nova Zelândia, Chile ― todos longe dos grandes centros emissores ― recebem proporcionalmente mais turistas que nós. Até Paraguai e Bolívia nos ultrapassam.

Não tenho respostas, infelizmente. Tenho apenas conjecturas ― e elas não são nada risonhas.

Interligne 18b

Obs 1: Os dados vêm da Organização Mundial do Turismo, órgão da ONU, e se referem ao ano de 2012.

Obs 2: Vale a pena examinar de perto o resultado de cada país. Clique no mapa para ter acesso ao site do jornal inglês The Telegraph. Em seguida, uma clicada em cada país vai-lhe dar a população, o número de visitantes e a porcentagem.

Muy amigo

José Horta Manzano

O semanário uruguaio Búsqueda publicou ― e o site informativo Espectador repercutiu ― uma pesquisa levada a cabo entre os dias 13 e 26 de março. Um universo de 1013 pessoas representativas da população do país declararam qual dos países sul-americanos lhes parecia ser o mais amigo do Uruguai.

GauchoAdivinhem quem foi o feliz ganhador? Pois foi o Brasil. Nada menos que 42% dos entrevistados (quase a metade!) considera que, na América do Sul, o Brasil é o melhor amigo do Uruguai. Bem lá atrás, vem a Argentina com 15%, seguida pela Venezuela com 8%. O Chile e o Paraguai recolheram apenas 3% de opiniões cada um.

E tem mais. A pesquisa quis saber também qual era, na opinião dos entrevistados, o país menos amigo do Uruguai. Pois 61% ― 6 entre 10 cidadãos! ― deram a palma à Argentina. Nesse quesito, o Brasil recolheu nada mais que 2% das opiniões. Para nós, é notícia reconfortante: 98% da população do país vizinho não nos vê como o menos amigo do bairro.

E tem mais ainda. Indagados sobre o país em que gostariam de morar, 38% apontaram o Brasil. Em segundo lugar na preferência dos entrevistados, vem o Chile, com 17%. A Argentina aparece bem atrás, com 12%.

É verdade que a grama do vizinho sempre parece mais verde. Assim mesmo, a notícia é como um bálsamo nestes tempos pra lá de bicudos.

Droga & Mercosul

José Horta Manzano

As pesquisas indicam que 2/3 dos uruguaios são contrários à legalização das drogas. Na contramão da vontade popular, a Câmara de Deputados do país vizinho acaba de aprovar um projeto de lei que legaliza o cultivo, a distribuição e a comercialização da marijuana (cannabis sativa ou maconha).

Para entrar em vigor, a lei terá ainda de passar pelo Senado do país. E, naturalmente, pela sanção presidencial. Deve demorar ainda um ano até que o processo esteja completado.

Ir contra a vontade de 2 em cada 3 eleitores já me parece uma violência, uma imposição de cima para baixo. Mas há problema maior.

Cânhamo (Cannabis sativa)

Cânhamo
(Cannabis sativa)

O Uruguai, vizinho de parede do Brasil e da Argentina, é membro do Mercosul. Se votar leis que podem representar perigo à ordem de um país vizinho já é uma falta de consideração, entre sócios de um mesmo clube passa a ser escandaloso.

A fronteira entre o Brasil e o Uruguai está entre as mais permeáveis da América do Sul. Algumas cidades fronteiriças constituem conurbação, ou seja, são separadas por fronteira simbólica, uma avenida em alguns casos. Tradicionalmente os habitantes dessas localidades não dão grande importância a essa linha imaginária. Passam de um país a outro com a mesma facilidade com que nós damos um pulinho à padaria na esquina.

Não precisa ter nenhuma bola de cristal para prever que a fronteira entre o Uruguai e o Rio Grande vai-se tornar a principal porta de entrada de entorpecentes no Brasil.

Em vez de esbravejar contra seus auxiliares diretos, dona Dilma poderia redirigir sua fúria contra os mandachuvas uruguaios. Um apelo vindo de Brasília será certamente levado em consideração pelos parlamentares do país vizinho.

Ainda há tempo de sustar a tramitação dessa lei. Já temos problemas suficientes sem ela.

Interligne 18gNota: Até o mui sério site de notícias russo Vesti (Rússia 24H) repercutiu a notícia.

Y ahora, ¿bailamos?

José Horta Manzano

Interligne vertical 4Em sua nota n° 241, o Itamaraty nos informa sobre a reunião de cúpula de chefes de Estado do Mercosul, que se realizou em Montevidéu, dias 11 e 12 de julho de 2013.

Algumas considerações me ocorrem.

Interligne 07

Objetivo
A visão dos que idealizaram e fundaram a união alfandegária certamente alcançava horizontes mais distantes do que os que conseguimos atingir. Desgraçadamente, a ideologia terceiro-mundista fora de moda que impregnou o governo do Brasil estes últimos dez anos gerou uma distorção. Emperrou o bloco.

Chega a ser grotesco o Brasil acusar a Argentina de atrapalhar o funcionamento da organização. Quando se detém 70% de participação numa associação qualquer, tem-se a faca e o queijo na mão. É o caso do Brasil no Mercosul. Se temos cedido aos caprichos de nossos hermanos, é porque assim foi decidido em nossas altas esferas.

Na ânsia de aparecer como «o bonzinho» e na impossibilidade de montar um verdadeiro império à soviética ou à americana, nosso País perde-se em suas ilusões e fica no meio do caminho ― sem condições de avançar, nem coragem de recuar.

Quem pretende liderar tem de saber meter medo nos liderados. Pouco deveria importar que nossos sócios «gostem» do Brasil ou não. O importante é que respeitem o sócio maior. Para aparecer como o «paladino dos pobres», papel sonhado por nossos dirigentes, um país tem de começar por fazer-se respeitar.

Não temos um exército ameaçador. Não dispomos de arsenal nuclear. Não temos sequer nosso próprio satélite de comunicações. Nosso ministro da Defesa(!) confessou outro dia, candidamente, que desconfiava que seu telefone estivesse sendo grampeado. Tudo isso deixa claro que o Brasil é um país fraco, que não amedronta ninguém. Se, além disso, cedermos a todos os caprichos de nossos hermanos, estaremos cada dia mais longe do objetivo.

Um gigante bobão não assusta.Interligne 07

Cúpula da União Europeia Junho 2012

Cúpula da União Europeia
Junho 2012

Números reveladores
Em sua nota oficial, o Itamaraty revela que, embora represente 80% do PIB da América do Sul, o Mercosul responde unicamente por 65% do comércio exterior do subcontinente. Trocando em miúdos, isso significa que os países sul-americanos não membros do Mercosul exportam, proporcionalmente, muito mais que nós. E tudo isso sem união aduaneira e sem reuniões de cúpula. Não é curioso? Pra que mesmo tem servido nossa associação?Interligne 07

Ambiente cordial
O jornal venezuelano El Mundo publica surpreendentes declarações do presidente Mujica, do Uruguai. O dirigente vizinho se lamenta do volume de burocracia e da quantidade de instituições inúteis que regem o Mercosul.

Mujica não tem papas na língua. Diz textualmente que «quando se tem de falar tanto em livre comércio é porque não há livre comércio». Acrescenta que, na atualidade, os dirigentes passam seu tempo «cada um desconfiando do outro e olhando de soslaio para ver se consegue enganar o colega».

O ambiente, como se vê, é de franca amistad y fraternidad.Interligne 07

Clube político
O próprio de uma associação comercial é fomentar o comércio, seja entre os sócios, seja com parceiros de fora. Quando se observa o Mercosul, constata-se que estamos muito longe do objetivo.

O tema dominante da última reunião de cúpula não tem que ver com o comércio, como seria de esperar. Discutiu-se espionagem, ameaça externa, asilo a Snowden ― o delator destrambelhado.

O jornal gaúcho Zero Hora nos informa que, em comunicado conjunto, os sócios «repudiam» a espionagem americana. Os dirigentes da agência americana de segurança nacional não devem ter dormido à noite de tanto medo.

Reunião de condomínio costuma ser mais produtiva.Interligne 07

Miopia brasileira
Das trevas nasce a luz. Pelo menos, deveria nascer. Mas quem tem cabeça dura não aprende. Incapacidade é defeito difícil de suplantar.

O Planalto tem esperneado desde que tomou conhecimento de que espiões espionam, e que o Brasil, tanto quanto todos os outros países, está na mira dos que têm capacidade de bisbilhotar casa alheia. Em vez de espernear, o governo faria melhor se usasse esse episódio como fonte de inspiração.

Nosso País não dispõe da mesma parafernália tecnológica de grandes potências como EUA, Rússia, China, Reino Unido, França, Alemanha, Japão. Esses, sim, têm os meios necessários e podem se permitir muito mais.

Mas nós temos gente. Temos diplomacia ― ainda que estranhamente direcionada nos últimos doze anos. Deveríamos utilizar nossos canais de informação diplomática, nem que fosse para não fazer papelão.

O Estadão nos informa que, num gesto magnânimo, os membros do Mercosul declararam que permitiriam a volta do Paraguai, suspenso há uma ano por decisão sumária. Só que nossa antigamente festejada diplomacia se esqueceu de combinar com o adversário. Não se preocuparam em perguntar ao sócio se ele queria voltar do castigo.

Pois o presidente eleito do Paraguai, numa resposta corajosa e sintomática, recusou-se a reintegrar o bloquinho. Pelo menos, enquanto a Venezuela estiver no exercício da presidência rotativa.

Nossa diplomacia podia ter ido dormir sem esse tapa na cara. Mais preocupados em costurar termos indignados para «repudiar» espionagens do «hermano del Norte», esqueceram-se de que é importante arrumar a casa e pôr-se de acordo primeiro. Que papelão!Interligne 07

Cúpula do Mercosul Junho 2013

Cúpula do Mercosul
Junho 2013

Conclusão
Como ilustração deste artigo, ponho a foto de uma cúpula europeia e um instantâneo da reunião do Mercosul. O contraste é patético. Quase uniformizados, os europeus transpiram seriedade. Até demais. Já nossos sócios mais parecem estar vestidos para um baile à fantasia. O Mercosul morre um pouco a cada dia.

Mas que os pessimistas não percam a esperança: está sendo preparada a adesão da Guiana, do Suriname e da Bolívia. Agora, vai!

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Insistir pra quê?

José Horta Manzano

Susana Werner, mulher do goleiro da seleção brasileira de futebol, foi vítima de assalto à mão armada, em Fortaleza. Ficou feliz por ter saído com vida.Interligne 07

Manifestantes tentaram invadir o Hotel Bahia, em Salvador, onde está hospedada a comitiva da Fifa. A Polícia Militar conseguiu segurar a turba que, enfurecida, depredou dois ônibus dedicados ao transporte dos cartolas.Interligne 07

A delegação espanhola teve dinheiro e objetos furtados de seus aposentos no hotel em que se hospedavam, no Recife. Que fique bem claro: não era a pensão de dona Mariazinha. Que fique mais claro ainda: os espanhóis são os atuais detentores do título de campeões do mundo ― portanto, o time mais visado e o que deveria, em teoria, ter sido mais bem protegido.Interligne 07

Um jogador uruguaio declarou, em entrevista coletiva, que o Brasil tem muito a melhorar para a Copa-14. Lúcido, disse que, caso os aborrecimentos de que sua delegação foi vítima, tivessem ocorrido com uma seleção europeia, o reclamo teria tido repercussão bem maior.Interligne 07

Os enviados especiais da Folha de São Paulo confirmam que, embora a Fifa não esperasse uma organização perfeita ― só faltava! ― a magnitude dos problemas está além do pior cenário imaginado. Os cartolas estão apavorados.

Antes da Copa das Confederações, os dirigentes da Fifa já se tinham conformado com muitos dos males brasileiros endêmicos. Corrupção, desorganização, promessas e prazos não cumpridos. Tudo isso já estava mais ou menos previsto e, bem ou mal, assimilado. No entanto, não contavam com o desencadeamento de um clamor popular impossível de reprimir. Sejamos sinceros, ninguém imaginava o que estava por acontecer.

Essa mistura explosiva de desorganização e violência está causando problemas pesados. A Fifa está-se vendo obrigada a negociar com as delegações estrangeiras a fim de convencê-las a não abandonar o País antes do final desta copinha.Interligne 07

Quando se faz uma besteira, o melhor caminho é ser honesto, reconhecer o erro e, parodiando mestre Vanzolini, dar a volta por cima. Na era em que o Lula mandou no País, asneiras grossas foram cometidas. Algumas são já irreparáveis, outras ainda não estão consumadas.

ChangeBrazil

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A questão da manutenção da Copa-14 no Brasil está sobre a mesa. Chegamos a um ponto em que as autoridades competentes deveriam parar para refletir. À vista do ensaio geral a que estamos assistindo estes dias, fica a pergunta: ainda vale a pena insistir em hospedar a próxima Copa? Não valeria mais a pena parar por aqui e deixar o abacaxi para quem se dispuser a descascá-lo?

Há países prontos para receber o evento: Alemanha, Reino Unido, Itália são alguns deles. Dispõem todos de infraestrutura adequada, vasta e bem azeitada rede hoteleira, transportes organizados.

Faz dez dias que o planeta inteiro descobre, boquiaberto, que o povo brasileiro não está tão feliz como o marketing político vinha martelando estes últimos anos. Todos conhecem agora a incompetência das autoridades brasileiras para organizar dignamente um evento de importância média, como essa copinha. A Copa de verdade é um desastre anunciado.

ChangeBrazil

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Que se desista agora, antes que seja tarde demais! Não há por que envergonhar-se: a indisciplina, a corrupção e a incompetência já caíram no domínio público planetário, não dá mais para esconder.

Resta estancar a sangria. E, quanto mais rápido, melhor.

Vesgo

José Horta Manzano

Acostumados que estamos a ouvir políticos de alto coturno discursando ou dando entrevista diante de câmeras, tendemos a imaginar que a boa postura e o recato fazem parte da personalidade de cada um deles.

Crédito: Ginette Ayral

Crédito: Ginette Ayral

Não é necessariamente assim. Como qualquer ser humano, eles também têm seus momentos de descontração, contam pilhérias em rodas de amigos, se soltam quando se sentem em ambiente menos pomposo.

Embora isso aconteça frequentemente, o mais das vezes o público não chega a ficar sabendo. São momentos reservados a plateia cúmplice e reduzida.

Mas todo cuidado é pouco. Nestes tempos em que cada um carrega no bolso uma máquina fotográfica, uma filmadora e um gravador, há que redobrar o cuidado. Melhor pensar duas vezes antes de pronunciar palavras desairosas.

Faz alguns dias, o presidente do vizinho Uruguai se viu numa situação embaraçosa. Momentos antes do início de uma palestra oficial, acreditando que os microfones estivessem desligados, referiu-se à mandachuva do outro lado do Rio da Prata com palavras pouco elegantes.

Para azar dele, os microfones já estavam ligados. E deu no que deu. A cena foi vista, ouvida, fotografada, gravada e filmada. Não tem como deixar o dito pelo não dito.

Ao referir-se à presidente da Argentina, o figurão, entre outras amabilidades, saiu-se com esta: «Esta vieja es peor que el tuerto. El tuerto era más político, esta es más terca».

Em vernáculo tupiniquim, ele disse nada menos que: «Esta velha é pior que o vesgo. O vesgo era mais político, esta é mais cabeça-dura».

Todos entenderam que «o vesgo» era o falecido Nestor Kirchner e que «a velha» é a viúva, a atual presidente.

Pegou muito mal. Já não não bastasse que os recatados habitantes das Falkland/Malvinas se refiram amavelmente a Doña Cristina como «old plastic face», vem agora o muy amigo vizinho pisar a ferida e chamá-la de «vieja». A presidente há de ter apreciado o cumprimento.

.:oOo:.

Fiquei pensando que, com uma pequena adaptação, a observação do senhor Mujica cairia como uma luva para nossos dois mais recentes mandachuvas maiores. Bastaria substituir «o vesgo» por uma palavra mais condizente, mais clara, mais branquinha. Deixo que cada leitor encaixe o termo que lhe parecer mais adequado.

O resto da frase fica como está.