Manda embora o assessor, Lula!

José Horta Manzano

Lula, prezado presidente!

É curioso notar que tens o costume, desde teu primeiro mandato, de nomear uma dupla para cuidar as Relações Exteriores. Talvez isso te dê maior segurança numa área em que tu, vez por outra, deslizas na maionese.

Nos primeiros mandatos, além do ministro de Relações Exteriores, mantiveste um “assessor” (aquele do top-top, lembras?), que parecia ter mais influência nas tuas decisões do que o próprio ministro. Neste Lula 3, continuas a manter o esquema. Um diplomata de carreira, bom conhecedor das minúcias da profissão, está no posto de ministro. A par disso, de novo, um “assessor” avulso.

Só que, desta vez, escolheste um assessor problemático, Lula. O temperamento belicoso dele tem te dado dores de cabeça. Parece que te apoias demais nos conselhos do personagem.

Por exemplo, a terrível comparação que fizeste, em discurso pronunciado em Adis-Abeba, que deu que falar no mundo todo, foi improviso teu, não há que se diga. Já a emenda do soneto leva as impressões digitais de teu assessor, aquele que tem esperança de que o “bloco dos pobres”, o desengonçado Sul Global, possa ser levado a sério.

Lula, há que ser razoável: toda troca de ofensas e ameaças tem hora pra acabar. É como jogo de futebol – pra usar metáforas que te são familiares. Tem tempo pra jogar e tem tempo pra acabar. Quando o árbitro apita o fim da partida, não é mais hora de tentar acertar o gol.

O auê que a tua fala provocou em Israel e no mundo já se estava acalmando. Eis senão quando, na tua alocução de sexta-feira passada, tornaste a martelar o prego da discórdia:


“Se isso não é genocídio, nâo sei o que é genocídio”.


Pois não sabes, velho Lula, não sabes de fato o que é genocídio. E pensar que já te ensinei mais de uma vez, mas não pareces ter boa memória. Ou quiçá nem lês o blogue. Ou (desconfio que seja a resposta correta) isso é obra de teu “assessor” marrudinho. É ele quem te está ‘fazendo a cabeça’.

O martírio imposto aos gazeus pelo exército israelense, podes chamá-lo como quiseres: massacre, matança, morticínio, castigo coletivo, carnificina perpetrada por agressores desapiadados. Mas genocídio, certamente não é. Se em mim não acreditas, pergunta a teu ministro, o verdadeiro. Ele parece ser pessoa arrazoada. Terá estudado o assunto e deve saber que a definição de genocídio é rigorosa, estabelecida há 75 anos pela ONU.

Mas um conselho te dou e repito, Lula: livra-te rápido de teu empacado “assessor”. Se não tens coragem de dispensá-lo de chofre, oferece a ele um prêmio de consolação: uma embaixada em Paris, por exemplo. Ele não há de recusar. Assim tu te livras de uma fonte de dor de cabeça.

Está na hora de nossa diplomacia olhar pra frente em vez de ficar aí andando de banda feito caranguejo.

O insulto de Lula

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 21 fevereiro 2024

Fico imaginando a cena. Vejo um Lula que, apesar do incentivo de seus áulicos, hesita em puxar o gatilho. E a torcida: “Vai firme, Lula, não tem perigo, que o gatilho está travado!”. Depois de muita hesitação, Luiz Inácio por fim aperta o dedo com força. Desastre! O gatilho não estava travado, e o tiro sai, mortal.

Não sei até que ponto Lula se deixa influenciar por seu séquito empoeirado, de gente enrijecida e ideologizada mas orgulhosa da própria sapiência. Tanto faz, porque o autor do tiro é aquele que aperta o gatilho. Luiz Inácio será sempre pessoalmente responsabilizado pelo que diz.

Lula não é um caso único. O fenômeno é recorrente: homem público em viagem ao exterior faz às vezes declarações estranhas, contrastantes com a doutrina que deveria estar defendendo. Já assisti a episódios envolvendo diferentes líderes. Até Papa Francisco, no enlevo de ares estrangeiros, já deslizou.

Fato é que Lula já disse coisas de arrepiar o cabelo, pronunciou frases que contrastam com a neutralidade e a equidistância que a diplomacia brasileira tradicionalmente exibe diante de conflitos externos. Ele já se posicionou ostensivamente simpático a Putin e avesso à causa ucraniana. Já estendeu tapete vermelho para o ditador Maduro enquanto os demais líderes sul-americanos pisaram chão nu. As enormidades pronunciadas por Lula – especialmente quando em viagem ao exterior – são muitas. Não vale a pena elencá-las todas.

Holocausto é termo dos tempos bíblicos, de etimologia controversa, que nos chegou através do grego antigo. Na sequência dos malfeitos da Alemanha nazista, a palavra deixou o contexto da História da Antiguidade, ganhou H maiúsculo e passou a designar o massacre sistemático de judeus perpetrado nos campos de concentração da Segunda Guerra.

A política de genocídio nazista foi tão cruel e violenta que marcou os espíritos. Ninguém quer ver repetir-se o horror daqueles tempos. Tudo foi feito para banir a ideologia nazi-fascista da face da Terra. Na Europa, que assistiu de mais perto às atrocidades daqueles tempos, a legislação de numerosos países proíbe gestos, sinais e palavras que lembrem a barbárie: é proibido macaquear saudações nazistas ou exibir insígnias daqueles tempos.

Todo negacionismo da exterminação dos judeus nas câmaras de gás é ilegal. Um discurso feito em público, como o que Lula pronunciou, é passível de processo, quiçá de encarceramento. Nenhum dirigente no mundo, nem mesmo os aiatolás do Irã, piores inimigos de Israel, ousaram até hoje fazer a comparação que Lula fez – entre o exército israelense e as hordas nazistas.

O resultado da fala desastrada é a humilhação em dose múltipla. Lula é declarado “persona non grata” em Israel, sinônimo de “impedido de visitar”. Mais ainda: nosso presidente é instado a pedir desculpa por suas palavras. Nosso embaixador é tratado de ignorante e levado ao Memorial do Holocausto “para aprender o que os nazistas fizeram com os judeus nos anos 1940”.

Luiz Inácio teve direito a mais espinafradas. Israel Katz, ministro do Exterior de Israel, cuja família foi dizimada pelos nazistas: “A fala de Lula da Silva profana a memória daqueles que morreram no Holocausto”.

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel: “Lula cruzou a linha vermelha. Suas palavras são vergonhosas e alarmantes. Trata-se de banalização do Holocausto e uma tentativa de prejudicar o povo judeu e o direito de Israel de se defender”.

Dani Dayan, presidente do Memorial do Holocausto: “Os comentários de Lula representam um antissemitismo flagrante e uma combinação ultrajante de ódio e ignorância”.

Yoav Gallant, ministro da Defesa: “Acusar Israel de perpetrar um Holocausto é um ultraje abominável”.

Até Yair Lapid, líder da oposição, se manifestou: “Os comentários de Lula demonstram ignorância e antissemitismo”.

Registre-se que, nessa derrapada fenomenal, dizer que a fala “foi tirada de contexto” não vai funcionar. Essa desculpa, comum no Brasil, não vale lá fora.

Lula da Silva parece ter incorporado a ‘síndrome de ser pária’ de Bolsonaro. É curioso como sempre escolhe o lado errado da História. Fica com Putin e despreza a Europa; apoia ditadores e desdenha a democracia; apoia o povo palestino e odeia o povo israelense.

É extremamente preocupante. Um Lula em perceptível processo de envelhecimento, que se aplica a tornar públicas suas convicções pessoais, é um risco na cerzidura de nossa esgarçada democracia, tarefa para a qual foi eleito.

Do jeito que vai, ele está-se tornando o melhor cabo eleitoral de nossa estridente e folclórica extrema-direita.

Lula no Egito

José Horta Manzano


“A única coisa que se pode fazer é pedir paz pela imprensa, mas me parece que Israel tem a primazia de descumprir, ou melhor, de não cumprir nenhuma decisão emanada da direção das Nações Unidas”


O texto acima faz parte da declaração dada por Lula no Egito, país onde foi fazer turismo no Complexo de Gizé para visitar as pirâmides. No segundo dia, aproveitou para se encontrar com o ditador de turno, um senhor sorridente que leva o vistoso nome de Abdul Fatah Khalil al-Sissi.

Luiz Inácio se esmerou no discurso, falou bonito, usou até o verbo emanar, mas tropeçou na hora de escolher uma palavra para expressar a liberdade que as Nações Unidas dão a Israel para fazer o que quiser.

Disse que Israel tem a primazia de descumprir ordens da ONU. Primazia é superioridade, competência, excelência de algo ou alguém. Certamente não é o que Lula queria dizer. Ele quis sublinhar a licença especial que, segundo ele, Israel tem para dar de ombros às determinações onusianas e agir como bem entende.

Em vez de primazia, tinha a escolha entre uma dezena de termos:

  • Licença (como citado acima)
  • Consentimento
  • Permissão
  • Privilégio
  • Anuência
  • Direito
  • Apanágio
  • Regalia
  • Carta-branca

A lista não é extensiva. Há outras palavras ainda. Ficam para a próxima, não é, senhor Presidente?

Lembre-se de que quem usa “emanar” não pode escolher termo inadequado no mesmo discurso, pior ainda, na mesma frase. Se não, vão acabar pensando que o discurso foi escrito por outra pessoa. O que cai mal, francamente.

Curtidas e likes

O Globo, 3 fev° 2024

José Horta Manzano

Leitores poderão até reclamar que estou me preocupando com coisa de pouco interesse para cidadãos equilibrados. Respondo que não se trata realmente de preocupação, estou é curioso com os comos e os porquês. Mas vamos aos fatos.

Dona Marta Suplicy, que no mês que vem completa 79 aninhos (nem parece!), mudou de partido e voltou ao PT que havia abandonado 9 anos atrás. Por que voltou? Terá mudado o PT ou terá mudado ela? Ninguém sabe. Voltou explicando: “Sou petista raiz”. (Se for verdade, por que, diabos, abandonou seu partido de coração?)

A razão oficial da volta é conhecida: Madame vai se candidatar a vice-prefeita da capital paulista na chapa do sulfuroso Guilherme Boulos. O motivo verdadeiro do passo ousado é menos comentado. Por que razão uma senhora com currículo exuberante – já foi deputada federal, ministra do Turismo, ministra da Cultura, senadora, vice-presidente do Senado e prefeita de São Paulo – se rebaixa, em fim de carreira, a candidatar-se a substituta do prefeito, cargo de importância secundária?

Que o Lula, aos 77 anos, tenha se arriscado a tentar reconquistar o cargo de presidente, dá pra entender. Afinal, ele queria provar a si mesmo (e ao mundo) que a prisão não tinha acabado com ele. Era pra ser a grande revanche do tipo: “Quiseram me enterrar? Não conseguiram!”. Na verdade, acredito que Luiz Inácio teria se contentado com os louros da vitória, sem o ônus de ter de batalhar quatro anos no cargo de presidente. Depois de subir a rampa, foi-se o sossego e o Lula se tornou prancha de tiro ao alvo – recebe zilhões de críticas e reclamações todos os dias.

Tornar-se famoso e conhecido por amplo público é sonho de muita gente. A vida moderna oferece numerosas possibilidades de chegar lá. Redes sociais, BBBs, canais de influenciador(a) estão aí pra gerar ‘likes’ pra quem quiser. Hoje em dia, cidadão que não consegue um punhado de curtidas por dia sente-se como o infeliz que “passou pela vida, não viveu”.

Na minha humilde opinião, dona Marta (do PT, como dizia Maluf) já é dona de uma robusta coleção de ‘likes’, granjeados durante as décadas que passou na política. Acredito que candidatar-se, a esta altura dos acontecimentos, ao posto mais insignificante de sua vida política não vai glorificar seu currículo.

Se perder a eleição, pior ainda.

Genocídio?

A expulsão dos judeus
by James Tissot (1836-1902), artista francês

José Horta Manzano

A “Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio”, arquitetada pela ONU, foi assinada em 1948 e ratificada por praticamente todos os países do globo, apenas uma dezena deles ficando de fora.

A partir dessa convenção, o crime de genocídio ficou formalmente enquadrado e tipificado. São cinco condições que determinam se há genocídio ou não. O texto oficial é o seguinte:

Na presente Convenção, entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tal como:

1) Assassinato de membros do grupo;

2) Dano grave à integridade física ou mental de membros do grupo;

3) Submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial;

4) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;

5) Transferência forçada de menores do grupo para outro grupo.

Portanto, faz 75 anos que não deveria haver dúvida na hora de qualificar determinados atos como genocidários ou não, visto que há uma definição precisa. Na prática, porém, não é assim que funciona. Todo governo apontado como autor de genocídio costuma repelir com veemência toda acusação .

Muitos vêm acusando Israel de estar levando a cabo genocídio qualificado contra o povo gazeu estes últimos três meses. A África do Sul foi além: junto ao Corte Internacional de Justiça, denunciou o governo israelense de conduta genocidária. Trata-se de um processo altamente simbólico, mas sem efeito coercitivo. Seja qual for a decisão do tribunal (que pode demorar até anos para sair), não há meios de obrigar Israel, na hipótese de ser condenado, a pôr ponto final em seus atos.

O distinto leitor e a adorável leitora certamente têm acompanhado, ainda que com um ouvido distraído, o noticiário sobre a guerra feia que Israel está travando contra o Hamas, organização terrorista que se aninha em Gaza e cujos membros se misturam com a população civil.

Temos informações sobre a amplitude dos bombardeios, que não poupam residências, escolas, hospitais, campos de refugiados, até roças de hortaliças. Temos ciência de pronunciamentos de diversos ministros israelenses que preconizam ora uma ocupação perene do território, ora uma expulsão da população gazeia em direção ao Egito.

De posse dessas informações e conhecendo a definição de crime de genocídio, cada um pode tirar suas próprias conclusões e julgar, se sim ou não, Israel lhe parece um Estado genocida. Em nossa república, o pensamento ainda é livre.

No entanto, em política – especialmente em política internacional – há que tomar grande cuidado com o que se diz. Muitas cobras e infinitos lagartos têm às vezes de ser engolidos com o sorriso (nosso, não dos bichos). Não se tecem relações estrangeiras com o fígado, mas com um cérebro bem repousado e depurado de emoções fortes.

Nosso presidente dá mostras de ter-se deixado mais uma vez arrebatar pelo antiamericanismo primitivo e enraizado que condiciona sua visão de mundo. Ao dar-se conta de que “os louros de olhos azuis” (europeus e americanos) desaprovam a iniciativa da África do Sul, fez questão de bandear para o outro lado. Apoiou a atitude sul-africana e fez disso política oficial: o Brasil qualifica Israel como nação genocida.

É pena que Luiz Inácio nunca tenha frequentado um curso preparatório para a função de estadista. Talvez até nem exista nenhum cursinho desse gênero. Se ao menos tivesse feito uma formação rápida no Itamaraty, por exemplo, teria aprendido aquela história das cobras e dos lagartos. Embora odeie Israel (que é amigo dos americanos!), o melhor a fazer perante esse processo movido pelos africanos teria sido calar-se e não se pronunciar nem sob tortura. Não teria feito mal a ele nem a nós.

Agora, com leite derramado, é tarde. O gato já está lambendo.

Líder regional

José Horta Manzano

Há quem acredite nessa balela de que nosso país exerce liderança natural sobre a vizinhança e que seríamos o farol predestinado a conduzir todos os hermanos a um mundo melhor.

Impossível, até que não seria. Mas coisas desse tipo não caem do céu, precisa fazer acontecer. E o fato é que, depois que FHC deixou o Planalto, faz mais de 20 anos, os sucessivos governantes não souberam (ou não quiseram) polir nossa faceta de liderança predestinada.

Se bastasse ser um país dotado de amplo território, o Canadá, que é maior que o Brasil, seria um dos maiorais do planeta – mas ele não é. Se bastasse ter população abundante, a Nigéria estaria no pódio dos mandachuvas, o que não é verdade. Longe de ser “natural”, liderança é qualidade que se cultiva e que leva tempo pra alcançar.

Os EUA, ao enviarem tropas à Europa em 1917, liquidaram a Primeira Guerra Mundial. Nem por isso se tornaram o farol do planeta. Foi preciso esperar a passagem de algumas décadas. Foi só ao final da guerra seguinte, em 1945, que os Estados Unidos, que haviam preparado cuidadosamente seu début na cena mundial, assumissem a posição de incontornável guia do Ocidente.

Nas últimas décadas, o Brasil preocupou-se com mil problemas, mas abdicou de toda veleidade de se tornar líder regional. Lula, que governou por mais tempo, desde cedo mostrou apetência por participar de “blocos”, atividade que ele parece considerar de extrema importância. G7, G20, Mercosul, Brics, Unasul, Grupo de Cairns são nomes que ressoam com frequência em suas falas. É pena que ele só utilize essas tribunas para se queixar dos loiros de olhos azuis; e para pedir dinheiro a eles. Quanto a Dilma e Temer, se desinteressaram do tema. Bolsonaro, com seus modos de ignorantão agressivo, foi boicotado pelo mundo, fechou-se na corte palaciana e submergiu.

Com essas e outras, o Brasil fechou-se aos vizinhos sul-americanos. Ressalte-se que, assim agindo, nosso país não fez nada de novo: já nos tempos coloniais, era assim que nos comportávamos, sempre de costas para a vizinhança.

Como ficamos sabendo ontem, o Equador, país-hermano, se encontra em estado de insurreição. Instalou-se no país uma guerra civil que não diz seu nome. A sociedade equatoriana vem passando, há anos, por um acelerado processo de desagregação. O Equador chega a 2024 com um tecido social esgarçado, gangrenado pelo poder paralelo de gangues de traficantes que passam por cima do governo oficial e impõem seu próprio ritmo ao país.

Quanto ao Brasil, não estamos em condição de cantar de galo, que o narconegócio nos atinge também em alta escala, vide o que se passa no Rio. Mas estamos mais bem equipados que o pequenino Equador para amenizar nossa situação e impedir que as gangues tomem as rédeas do país.

O problema é que o Brasil não cultivou, como eu dizia, uma imagem de irmão mais velho, aquele de quem se pode esperar uma mão amiga e protetora nas horas difíceis. Fica agora pouco credível destacar um emissário e despachá-lo às pressas a Quito para perguntar “Em que posso ajudar?”. Aliás, nem sei se o governo Lula pensou em fazer isso.

Líder regional não é somente aquele que, com sua lanterna, mostra o caminho aos vizinhos mais frágeis. É também aquele de quem se espera um braço forte e uma ajuda concreta na hora do pranto.

O Brasil não parece estar preparado para tão excelsa responsabilidade. E isso não tira o sono de ninguém.

Farol da Humanidade

José Horta Manzano

O Lula dá sinais de ter desistido de lutar pra alcançar o almejado posto de “Farol da Humanidade”.

Nos primeiros dois mandatos, seu ego foi acariciado pela boa sorte. Os tempos eram outros, sem Trump, sem um Putin belicoso, sem Xi Jinping. Nem Bolsonaro havia ainda posto as manguinhas de fora. Na política interna, o “terrível” adversário era o suave FHC e seu partido.

Marinheiro de primeira viagem, Luiz Inácio navegou então por águas mansas, com céu de brigadeiro e golfinhos brincando a bombordo e estibordo.

Em 2009, um Obama efusivo apresentou Lula aos presidentes do G20 com um “This is my man, right here! I love this guy.” (Este é o homem, bem aqui! Adoro esse cara.). E acrescentou que Luiz Inácio era “the most popular politician on Earth” (o político mais popular da face da Terra).

Lula deve ter acreditado em cada sílaba. Tanto que, inchado, assumiu o papel de Paladino da Paz e da Justiça. Meteu-se de cabeça no jogo internacional. Aventurou-se até no insolúvel conflito palestino certo de que, com uma partida de futebol, apaziguaria os dois povos. Como se sabe hoje, sua intervenção não foi bem sucedida.

Em versão 3.0, o Lula internacional anda mais travado. Bem que ele tentou, mas falta gás. No espocar da mortífera invasão da Ucrânia pelas tropas russas, deu uma de Salomão: culpou os dois lados igualmente. Levou silenciosa vaia internacional. Na guerra entre Israel e o Hamas, tentou opinar, mas já andava sem ânimo pra essas coisas. Seus vagos pronunciamentos tiveram o condão de irritar ambos os lados do conflito.

Agora, parece ter desistido de vez. Nas últimas ocasiões em que teria podido dar diretivas à humanidade, subtraiu-se. Quando o venezuelano Maduro e seu par, o presidente da Guiana, anunciaram reunião numa ilha caribenha, não quis conduzir os trabalhos. Em seu lugar, mandou Amorim, “assessor especial”.

Outra ocasião foi quando Zelenski, presidente da Ucrânia, a caminho da Argentina para a posse de Milei, teve de pousar em Brasília para reabastecimento. Apesar do convite do ucraniano, Lula preferiu declinar de encontrar-se com ele.

Será por cansaço devido aos anos vividos? Será para não se expor ao risco de novos fracassos? Ele é quem sabe a razão, mas tudo indica que já não se empenhará para tornar-se o Pacificador das Gentes.

Se isso significa que vai dedicar mais tempo e esforço para enfrentar nossos problemas internos, aplaudiremos de pé.

Lula e a Instrução Pública

José Horta Manzano

Faz poucos dias, Lula foi o participante de honra da cerimônia de credenciamento do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Na ocasião, o instituto foi promovido a “instituição de ensino superior” – como se fosse indispensável organizar esse tipo de cerimônia para elevar o Impa ao patamar em que qualquer faculdade de beira de estrada está. Só o nome do instituto já informa que, em matéria de estudo, lá não se brinca.

Luiz Inácio, que deve ter ouvido falar do papelão que o Brasil continua a fazer na classificação Pisa (e que se repete a cada ano), resolveu ralhar. (Não sei se esse verbo ainda é conhecido ou se já foi para o arquivo morto.) Ralhar é sinônimo de “passar um pito”, embora com sentido mais intenso. Dizer que “o professor ralhou comigo” significava contar que o mestre tinha me dado “um esculacho” (expressão que, acredito, esteja ainda em uso).

Luiz Inácio, portanto, resolveu dar um esculacho. Não na Matemática, que não ia ficar bem. Preferiu desancar os cursos de Direito assim como os formados nesses cursos. Apoiado em estatísticas (o que mostra que a fala não foi de improviso, mas estava já programada), colocou o Brasil entre os países que mais formam advogados. Disse que nem juntando todos os advogados da China e da Índia, países de volumosa população, se chega ao número de advogados brasileiros.

Parece inadequado um presidente falar mal de um ramo de estudos diante de uma plateia composta por gente de outro ramo. Não é pecado o que ele fez, mas ficou esquisito. Tem até gente achando que nosso presidente é fofoqueiro. Não é minha opinião.

Talvez para suavizar a relhada, Lula acrescentou: “Nada contra formar advogados. Mas é preciso que a gente forme mais em matemática, engenharia, física”. Mais adiante, com a voz trêmula e uma lágrima querendo apontar no canto do olho, Luiz Inácio não resistiu à tentação do autoelogio e lembrou ao distinto público que foi durante seus mandatos que o Brasil “construiu o maior número de universidades da História”.

Eu disse “autoelogio”? Deveria ter acrescentado “o que Lula acha que é autoelogio”. Luiz Inácio, que sofre de um (pequeno) complexo de sem-diploma, não costuma perder ocasião para ressaltar que saiu do nada e, sem ter feito estudos formais, chegou à Presidência – o que lhe parece motivo de orgulho. Talvez para compensar essa falta de estudo, Lula se empenhou, sobretudo no primeiro e no segundo mandatos, na criação de faculdades de ensino.

Faculdade pública, por oferecer ensino gratuito, atrai muitos alunos. Os cursos de Direito, que têm fama de serem menos puxados que os demais, atraem mais gente ainda. Dado que não existe um controle nacional do tipo “numerus clausus”, para limitar o acesso a carreiras já superconcorridas, as escolas de Direito formam, sim, muitos bacharéis. Como prova de que a maioria não alcança o nível de conhecimentos que se espera de um futuro advogado, sabe-se que nove entre dez formados são reprovados no exame da Ordem.

Há advogados demais no país? Não sei, é possível. Se já há quem reclame agora, fico a imaginar como seria o quadro sem o exame da Ordem. Sem exame, o número de profissionais seria multiplicado por dez.

Lula está terminando seu nono ano como presidente do Brasil. Nove anos é muita coisa. De 1889 pra cá, só o ditador Vargas conseguiu ficar tanto tempo assim no topo. Com essa bagagem toda, é surpreendente que Luiz Inácio não tenha entendido que o problema maior da Instrução Pública no Brasil não se encontra no ensino superior.

O nó que impede os brasileirinhos de avançar é o baixo nível da escolaridade obrigatória. Podem-se abrir dúzias e dúzias de institutos de Matemática que não vai adiantar. Enquanto o estudo Pisa continuar jogando na nossa cara que, em Matemática, nosso país foi classificado em 59° lugar entre 73 pesquisados, raros serão os jovens a desenvolver gosto por essa ciência.

É verdade que, ao se autoagradar lembrando que foi o presidente que mais criou faculdades no Brasil, Lula tem certeza de que a História lhe reservará um lugar especial.

E a avaliação Pisa, Lula? Pfff, isso não conta! É coisa de países ricos que tentam nos rebaixar e humilhar! Vamos continuar abrindo faculdades!

Lula na Cúpula do Mercosul

José Horta Manzano

Lula acolheu os chefes de Estado dos países integrantes do Mercosul para um encontro no Rio de Janeiro. Foi no dia 7 de dezembro. Gostaria de saber quem teve a luminosa ideia de marcar o convescote para essa data.

É de conhecimento público que o novo presidente da Argentina, escolhido mês passado pelas urnas de seu país, tomará posse do cargo no dia 10 de dezembro. No regime presidencial das repúblicas sul-americanas, o chefe do Executivo tem forte influência sobre políticas públicas, particularmente sobre a política externa. Por que, diabos, a cúpula foi marcada para 3 dias antes da posse do novo presidente dos hermanos?

Pode ter sido por distração. Ninguém se deu conta de que, três dias depois, a Argentina teria novo presidente. Será?

Pode ter sido uma homenagem ao presidente que deixa o cargo, como a festinha que se faz para o colega de trabalho que se aposenta. Será?

Pode ter sido para evitar acolher, sob o mesmo teto e junto com os outros dirigentes mersossulinos, señor Javier Milei, novo presidente argentino, que já declarou que retiraria seu país do Mercosul. Será?

Tenho tendência a acreditar na terceira possibilidade. Lula, o anfitrião, deve fechado as portas a seu novo colega, o autodeclarado “anarcocapitalista”. Lula deve ter raciocinado: “Ah, está desdenhando de nós? Pois então vá ficando fora desde já!”.

É atitude infantil, de criança mimada que fecha a porta ao coleguinha bagunceiro. Tivesse 7 anos de idade, Luiz Inácio estaria desculpado. Mas ele tem mais que isso. Já perto dos 80, Lula não só está distante da infância, como também é chefe de Estado de um país grande. Nessa situação, não se fica de mal dando o dedinho.

No dia seguinte à eleição, Milei já abriu o jogo: grande parte do que havia declarado em campanha era pra ser esquecido. Declaração de palanque não se escreve, que não é pra valer. E Lula sabe bem disso.

Costuma-se falar em “lobo em pele de cordeiro”. Pois o figurino de Milei parece corresponder mais ao de um “cordeiro em pele de lobo”. Eleito, desvencilhou-se da fantasia de lobo que o atrapalha e tenta agora mostrar que, lá no fundo, dorme um cordeirinho de cartão de Natal.

Lula recebeu convite pessoal e especial para a posse. Milei mandou ainda sua futura ministra de Relações Exteriores visitar Lula em Brasília enfatizar o convite. Luiz Inácio preferiu não ir. É escolha sua.

Mas seria de bom alvitre pelo menos ouvir o que o argentino tem a dizer. Será que mudou mesmo? Será que continua firme na intenção de bombardear o Mercosul? Se voltar as costas aos vizinhos, vai comerciar com quem? Na igreja, o padre costuma escutar a confissão do fiel antes de condená-lo ou dar-lhe absolvição. Lula bobeou feio ao não marcar a cúpula para depois da posse.

Pra piorar, Lula aproveitou a cúpula para confessar estar pessoalmente triste com o fim do mandato do presidente argentino que se vai. A frase que dirigiu a Fernández, “Acho que você merecia melhor sorte. A economia poderia ter melhor sorte”, foi óbvia flechada endereçada ao novo presidente.

Em política externa, Lula tem seus rasgos de Bolsonaro. Tanto um como o outro acreditam que amizade e sintonia pessoal entre dirigentes contam mais do que os interesses próprios dos países. Não é assim que funciona na vida real. Sintonia pessoal ajuda, sem dúvida, mas não é essencial. O interesse nacional nem sempre coincide com a amizade entre os presidentes.

A esse propósito, veja-se o caso atualíssimo dos arroubos de Maduro contra a vizinha Guiana. Apesar da “amizade fraterna” que une Lula e Maduro, os interesses nacionais brasileiros divergem totalmente das intenções belicosas do dirigente venezuelano. Apesar da simpatia que os une, Lula deverá (ou deveria?) dar um basta na brincadeira perigosa do compañero bolivariano.

Quer Lula queira, quer não, Brasil e Argentina são maiores do que Lula e Milei. Governantes passarão, mas os países continuarão vizinhos de parede até que, talvez um dia, as placas tectônicas resolvam nos separar. Daqui até lá, periga levar alguns milhões de anos.

Medo de vaia

Folha de SP, 5 dez° 2023

 

José Horta Manzano

É incrível ver como, passados dezesseis anos daquele fatídico 13 de julho de 2007, o Lula ainda empalidece a cada ocasião em que sente o risco de levar vaia.

Pra quem não se lembra, era a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos, espetáculo que só se realiza de quatro em quatro anos. Era a vez do Brasil, e a cerimônia tinha lugar no Maracanã.

Lula, então presidente da República, estava sentadinho ao lado da esposa, antegozando a ovação que havia de receber daquelas dezenas de milhares de populares.

Estava previsto que Luiz Inácio fizesse um breve discurso e declarasse abertos os Jogos. Assim que seu nome foi pronunciado e que ele foi chamado ao palco, em vez de ovação, o que se ouviu foi uma longa, terrível e acabrunhante vaia. O estádio inteiro – ou quase – desabou naquele interminável apupo.

Assustado, Lula desistiu do discurso. Foi o presidente do COB quem fez o discurso de abertura. Apesar dos anos que escorreram de lá pra cá, Luiz Inácio fez fixação no apuro por que passou aquele dia – e que jurou nunca repetir.

Javier Milei, que havia ofendido Lula durante a campanha, deu-se conta de que, eleito, tinha de descer do palanque e se comportar como presidente.

Mandou convite a Lula para assistir à posse, numa simbólica oferta de cachimbo da paz. Para reforçar, mandou a Brasília sua futura chanceler visitar nosso presidente. Durante semanas, Lula hesitou. E parece que agora bateu o martelo: não fará a viagem até Buenos Aires. Vai mandar nosso ministro de Relações Exteriores representá-lo na cerimônia.

Não é por receio de ser mal acolhido. Tampouco é por receio de lá se encontrar com Bolsonaro. O pavor, na verdade, é de receber uma sonora vaia em algum ponto do caminho: aeroporto, saída do hotel, entrada nos palácios portenhos. As ocasiões de risco são inúmeras. Melhor não ir.

É pena que, além de ter medo de vaia, ele também não tenha pavor de falar besteira. Se sentisse medo de passar ridículo quando fala de improviso, calaria a boca mais frequentemente e nossa política externa estaria em melhor estado.

Aproximação

José Horta Manzano

A chamada d’O Globo me chamou a atenção.


Em viagem, Lula busca aproximar Brasil dos países árabes


Dizem que a ordem dos fatores não altera o produto. Pois bem, se essa frase fosse uma continha de vezes, a inversão de fatores faria uma sutil diferença sim, senhor. Veja só.


Em viagem, Lula busca aproximar os países árabes do Brasil


Então, deu pra notar?

Dizer que o Lula está se abalando de Brasília até as Arábias para tentar aproximar o Brasil dos países do Médio Oriente me incomoda um pouco. Me faz pensar no conhecido “complexo de vira-lata”. Fica a impressão de estarmos batendo à porta dos milionários e pedindo pra nos aceitarem. “Você me aceita no seu grupo?”. Humilhante.

O que Lula deveria estar fazendo – e na certa é o que vai fazer – é marquetear o Brasil. Mostrar aos estrangeiros as vantagens que eles podem conseguir caso invistam aqui, mandem seus dólares, abram empresas, construam casas de veraneio aqui, paguem impostos aqui, comprem mais frango.

O fato de não haver pendências nem contencioso entre Brasil e países árabes é uma bênção. Lula tem de dar carona a uma equipe de camelôs de luxo, com prática em vender o que o cliente nem sempre quer comprar.

Vamos fazer com que os países árabes se aproximem do Brasil e descubram as vantagens que essa aproximação vai lhes trazer. É o que se quer.

Repeteco

2010 – Dona Marisa recebe a Ordem de Rio Branco das mãos do marido

José Horta Manzano

Luiz Inácio aprecia honrarias. Títulos de doutor “honoris causa” e condecorações estrangeiras, tem aos montes. Quando pode, estende também aos parentes as honras que recebe.

Todos ainda devem se lembrar que, em 31 de dezembro de 2010, último dia de seu segundo mandato, distribuiu passaporte diplomático a todos os membros de sua família – esposa, filhos e agregados. No dia seguinte, quando já não era presidente, criou uma situação de absoluta excepcionalidade: foi passar férias com a família no Forte Militar dos Andradas, litoral de São Paulo, à nossa custa. Ficou por isso mesmo. (Depois a gente reclama do Bolsonaro.)

Naquele mesmo 2010, aproveitando sua staliniana cota de popularidade, que roçava então os 80% de aprovação, fez uma bufonaria. Concedeu a Ordem de Rio Branco, mais alta honraria do Itamaraty, a Dona Marisa, sua esposa. E não deixou por menos: outorgou-lhe a ordem no mais alto grau, o de Grã-Cruz. A faixa com a medalha foi entregue pessoalmente por Lula em cerimônia oficial.

A imprensa se encarregou de difundir a notícia, que rodou o país e causou espanto. Proibido não é, mas é chocante por contrariar a ética e o decoro presidencial.

21 Nov 2023 – Chamada da Folha de São Paulo

O tempo passou. Ontem, 13 anos depois da jactância de 2010, Lula reincidiu. Enviuvado e recasado, concedeu à atual esposa a mesma honraria com que tinha mimado dona Marisa. Janja da Silva acaba de ser agraciada com a Ordem de Rio Branco, no grau Grã-Cruz. Só que desta vez, pra fugir a eventuais reprimendas, Lula preferiu fazer a entrega numa cerimônia discreta, privada, sem imagens. Nem mesmo as fotos do Ricardo “Stuquinha” Stucker, fotógrafo pessoal do presidente, circularam.

Lula é malandro. Não corrigiu a agressão à ética, mas aprendeu a camuflá-la. Numa época em que tudo passa pelas redes sociais, imagem é crucial. Sem imagem, não há notícia. Ninguém mais lê informação de texto. Se a Globo não der (e como vai dar notícia sem imagem?), ninguém vai ficar sabendo.

Assim, fica o dito pelo não dito. E estamos entendidos.

Espírito universalista

José Horta Manzano

O universalismo é conceito básico de todas as correntes de pensamento socialistas, comunistas e social-democratas.


Proletarier aller Länder, vereinigt euch!
Proletários de todos os países, uni-vos!


O manifesto lançado, século e meio atrás, pelo alemão Karl Marx não conclamava os proletários alemães a se unirem. Nem mesmo os colegas europeus. Seu chamado se dirigia aos proletários de todos os países, sem exceção.

Luiz Inácio só abraçou a doutrina com meio braço. Seu espírito universalista não é amplo nem irrestrito. Está inquieto apenas pelos reféns latino-americanos. Os demais? Que se lixem!

Num surto de deslumbramento, Lula fala com o presidente de Israel como se tivesse recebido mandato dos países latino-americanos para defender seus interesses. Dado que não recebeu procuração nenhuma, soa esquisito. Dá impressão de uma forçada de barra pra se autoeleger líder regional na marra.

De outra vez, nosso presidente deve mostrar interesse por todos os reféns, sem excluir os “louros de olhos azuis”. Todos os sequestrados caíram na mesma arapuca e merecem benevolência planetária, pouco importando a cor dos olhos ou do passaporte.

Se Luiz Inácio for incapaz de alargar seu horizonte, será melhor não tocar no assunto. Melhor ainda, será falar com quem manda. Em Israel, o presidente é figura decorativa. Netanyahu, o primeiro-ministro, é quem dá as ordens.

Parece que Lula só divulgou o telefonema pra sair no jornal.

Brasileiros em Gaza

José Horta Manzano

Até esta terça-feira 7 de novembro, nenhum brasileiro foi autorizado a deixar a Faixa de Gaza. Assim como outros milhares de estrangeiros e binacionais, nossos compatriotas são obrigados a passar privações e a continuar vivendo sob bombas até receberem permissão para deixar aquele inferno.

Os diplomatas brasileiros, com a mão nervosa e cheia de dedos, estão dando tratos à bola para entender a razão de um milhar de cidadãos de outros países já terem sido contemplados com a liberação enquanto nossos conterrâneos continuam no angustiante chá de cadeira.

A pergunta que dói é: “Por que já autorizaram tantos americanos, ingleses, franceses, alemães, e nos deixaram pra trás?”. À primeira vista, se poderia concluir que os países desenvolvidos têm preferência e os do Terceiro Mundo vêm no fim. Será?

Que há uma hierarquia entre países, parece evidente. Israel, responsável pelas autorizações, não escolhe os premiados no palitinho. Há um método, que não tem nada a ver com a oposição entre países ricos e países pobres. Para entender, há que ter em mente a própria formação do Estado de Israel.

Criado por decisão da ONU, ao final da Segunda Guerra, Israel se encontrou diante da hostilidade dos vizinhos árabes desde o primeiro momento. Os 75 anos que decorreram da criação do país até aqui estão coalhados de escaramuças, conflitos e guerras de verdade. Curtos momentos de quase-paz se alternaram com erupções de violência. O povo e o governo israelense são obrigados a manter-se em estado de alerta permanente.

Um Estado que vive na angústia constante de ser atacado a qualquer momento não divide o mundo entre países ricos e países pobres. A divisão, na verdade, é entre países amigos e países inimigos. Pode-se também falar em países países amistosos vs. países inamistosos.

Em pronunciamentos feitos desde que a guerra estourou, nosso presidente deixou transparecer certa simpatia pelos palestinos, deixando os israelenses em segundo plano. Isso, sozinho, não seria suficiente para fazer o Brasil entrar na lista de países inimigos. Mas Lula foi além. Em uma ocasião, pisou mais fundo no acelerador.

Foi duas semanas atrás que, em fala solene proferida com fundo de bandeira nacional e brasão de armas da República, Lula não deixou por menos. Referindo-se ao conflito em Gaza, afirmou que aquilo “não é guerra, é genocídio”. Tropeçou feio.


To constitute genocide, there must be a proven intent on the part of perpetrators to physically destroy a national, ethnical, racial or religious group.


A palavra genocídio não se pode utilizar assim, de supetão, na hora da raiva. O termo tem definição oficial, em vigor desde 1948, quando foi adotada a Convenção do Genocídio, ratificada por praticamente todos os países do planeta.


Para constituir genocídio, deve haver uma intenção comprovada por parte dos perpetradores de destruir fisicamente um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.


Como se vê, a definição é objetiva, restrita, autoexplicativa. Ao acusar Israel de estar praticando genocídio, Lula simplesmente acusou o país de estar tentando eliminar fisicamente o povo palestino. No exato instante em que a frase foi pronunciada, Israel transferiu o Brasil para a lista dos países inamistosos.

Não precisa procurar mais longe. Para um povo que se sente permanentemente acuado, bastou uma palavra. Enquanto Lula não se retratar (o que me parece difícil), o Brasil vai permanecer entre os países dos quais Israel desconfia.

Certos pronunciamentos levianos, além de não ajudar ninguém, atrapalham. Com tanta desgraça interna, não precisamos cavar inimizades no exterior.

O combate às milícias

José Horta Manzano

Não sou grande conhecedor do mundo das milícias. Pelo que tenho lido, são organizações paramilitares especializadas em negócios escusos, como por exemplo achaque à população civil a fim de extorquir dinheiro de cidadãos indefesos, extorsão feita sob ameaça de retaliações. Entendo também que são muitos e que estão especialmente presentes na cidade e no estado do Rio de Janeiro.

Às vezes chego a acreditar que jornalistas também possam estar enfronhados nesses assuntos, tal é a familiaridade com que falam do “Abelha”, do “Zinho”, do “Faustão” e de outros milicianos de alto coturno. Como é que se faz pra conhecer o nome dos integrantes de um bando de elementos fora da lei?

Há suspeitas de que nosso ex-presidente Bolsonaro e seus filhos tenham ligações bastante chegadas com milicianos. Nada foi ainda provado, mas a desconfiança permanece. Talvez nunca se venha a saber. Quando figurões estão envolvidos, mais vale uma bela mentira que a feia verdade.

Há mais do que suspeitas da existência de ligações promíscuas entre milicianos, políticos e até militares.Testemunhos reforçam essas conexões. Volta e meia, os próprios fatos se encarregam de corroborar esse convívio – contra a natureza, diga-se – entre delinquentes e os que, em tese, deveriam dar-lhes voz de prisão.

Estes dias, após o assassinato pela milícia de um grupo de médicos que visitavam o Rio para um congresso profissional, a população sentiu o tranco. Enquanto as vítimas são pobretões de quem se extorque uma “comissão” pelo direito de usar água ou eletricidade, a boa sociedade olha para o outro lado e faz que não viu. No dia em que quatro doutores são abatidos com rajadas de metralhadora na porta de um hotel estrelado, a coisa muda.

O governo Lula estuda enviar a tropa para “erradicar” milicianos da paisagem carioca. É permitido, desde já, apostar todas as fichas no fracasso da missão. Não faz sentido.

Em primeiro lugar, tropa não é polícia. Militares são formados para defender nossas fronteiras e para operar na selva, longe do habitado. Resolver crises urbanas não é especialidade deles.

Em segundo lugar, até os mosaicos de pedra portuguesa de Copacabana sabem que será impossível “erradicar” as milícias enquanto elas estiverem contaminadas (e protegidas) por políticos politiqueiros e policiais indignos do uniforme que vestem.

O melhor caminho para a erradicação de grupos milicianos começa pelo combate à promiscuidade que os envolve com políticos de baixa extração e policiais sem caráter. É menos vistoso e bem mais complicado que mandar recrutas, mas é esse o caminho. Sem isso, o envio da tropa será apenas inócua ação de fachada para impressionar a galeria.

Nada como um dia após o outro – 2

José Horta Manzano

O mundo dá voltas. Às vezes, a sociedade enfrenta de novo problemas já vividos no passado. É interessante reparar na solução adotada a cada vez. Trago aqui dois exemplos de repatriação de brasileiros por situação de emergência ocorrida no estrangeiro.

 

 

O Globo, jan° 2020

2020 – Covid
No finzinho de janeiro 2020, a epidemia de covid tinha acabado de estourar na China. Naquelas alturas, ninguém imaginava que, em poucos meses, a infecção se tornaria pandemia global.

Um certo número de brasileiros se encontravam em território chinês, prisoneiros da situação. Com aeroportos fechados e voos cancelados, era impossível sair do país. Não vendo solução, pediram ajuda a nossa embaixada em Pequim.

Bolsonaro era então o presidente da República. Com sua conhecida falta de empatia para com a aflição e o sofrimento alheios, fez corpo duro. Não quis saber de mandar uma aeronave à China pra buscar os conterrâneos aflitos. Botou entraves. Declarou que “Custa caro um voo desses”.

Foi só com muita insistência que um avião saiu, semanas mais tarde, para trazer de volta os compatriotas.

 

 

CNN Brasil, out° 2023

2023 – Palestina
O mundo deu algumas voltas e, de novo, o problema apareceu: brasileiros, apanhados numa situação de emergência no exterior, precisam de ajuda do governo para escapar do perigo e voltar à pátria. Estou me referindo à agressão terrorista do grupo Hamas contra Israel.

Desta vez, a sorte é que temos um presidente normal. O governo anda meio desequilibrado, batendo cabeça o tempo todo, se movimentando feito barata tonta. Sem dúvida, não é o melhor governo que já se viu em nossa terra. Apesar disso, quando se trata de amparar filhos da pátria, as decisões que vêm de cima são normais, exatamente como deveriam ser em qualquer democracia civilizada.

O mundo ainda estava atordoado com o massacre dos invasores, quando Lula mostrou que tinha entendido perfeitamente a urgência da situação. Pediu “prioridade absoluta” na busca de compatriotas impedidos de voltar.

 

 

O sorriso dos resgatados

O voo de volta
Observei algumas fotos do repatriamento. Os resgatados aparecem felizes e sorridentes. Aliás, quem não estaria? Escapar daquele inferno e ainda viajar à custa da Viúva.

Um detalhe me chamou a atenção. Todos (ou quase) parecem vestidos como se estivessem se dirigindo a um comício de Bolsonaro. Pode ser coincidência, mas veem-se camisas da Seleção, camisetas com desenhinhos da bandeira nacional, roupa verde-amarela. Repare que, além do preto e do branco, ninguém está vestido com outra cor que não seja verde, amarelo ou azul. Pra coroar, vi foto de gente que, já em Brasília, desceu do avião enrolada na bandeira!

Seriam bolsonaristas retardatários? É difícil afirmar. Mas uma coisa é certa: tiveram muita sorte de o capitão já não estar do Planalto. Se ele lá estivesse, essa gente ainda estaria em Israel recebendo bombas e mísseis no bestunto.

Lula e Zelenski

José Horta Manzano


“Ukrainian soldiers are doing with their blood what the U.N. Security Council should do by its voting”.

“Soldados ucranianos estão fazendo com o próprio sangue o que o Conselho de Segurança da ONU deveria fazer pelo voto”.


Essa foi uma das frases mais impactantes do discurso pronunciado ontem por Volodímir Zelenski no púlpito das Nações Unidas.

Não há como discordar. A ONU foi criada, ao final do segundo conflito mundial, justamente com o objetivo de evitar novas guerras. Praticamente todos os países ao redor do globo são membros da organização, dos mais poderosos ao mais desvalidos.

De 1945 para cá, muitos conflitos estouraram. Embora tenham matado muita gente – e cada morte sempre poderia ter sido evitada –, os embates não autorizados pela ONU têm sido relativamente localizados.

Contudo, a invasão da Ucrânia pelo exército russo deu início a uma guerra de grandes proporções, totalmente ilegal e não autorizada pelas Nações Unidas. Assim mesmo, o Conselho de Segurança falhou.

Entender é fácil: a Rússia, que é o país agressor, tem direito de vetar qualquer resolução do C.S. que não lhe agrade, um privilégio concedido unicamente a cinco membros da organização: EUA, França, Reino Unido, China e a própria Rússia.

Esse poder de veto é arma de dois gumes. Por um lado, garante que uma das grandes potências que o detêm bloqueie toda decisão tresloucada ou cabeluda que pudesse ser tomada. Por outro lado, garante que não seja tomada nenhuma decisão que colida com os interesses de um dos cinco membros privilegiados.

No caso da guerra na Ucrânia, uma resolução do C.S. impondo o fim das hostilidades iria contra os interesses russos, eis por que um texto assim não tem chance de passar. Seria vetado pela Rússia.

Não sei se Lula da Silva se deu conta de que sua birra contra o Conselho de Segurança empata com a visão que Zelenski tem dessa instituição. Ambos os dirigentes entendem que passou o tempo em que cinco países tinham o direito de tutelar os demais. Zelenski pede a anulação do direito de veto russo, enquanto Lula pede uma reforma geral do Conselho. Elas por elas, os dois pedem a mesma coisa.

Em vez de bancar o difícil, fazer biquinho e menosprezar o baixinho que dirige a Ucrânia, nosso presidente (que também não é nenhum gigante) devia aproveitar a maré e se associar ao colega de Kiev, pelo menos nessa cruzada em favor de uma repensada geral da “governança mundial” – termo que aquece o coração de Luiz Inácio.

Neste ano e meio de destemida resistência à invasão russa, Zelenski, apesar da cara feia, granjeou um imenso capital de simpatia. Lula, que de cara feia também entende, é outro que (ainda) carrega um balde de simpatia e admiração.

Se se dessem as mãos, juntando o capital de um com o balde do outro, é certo que dariam um passo mais decisivo em direção ao objetivo de ambos: uma boa reformulada do Conselho de Segurança da ONU.

Ânimo, Lula, às vezes precisa fazer um esforço!

Ilha da Fantasia

Sessão de abertura da ONU
Nova York 19 set° 2023

José Horta Manzano

Acabo de escutar o discurso de Lula da Silva na abertura da Sessão Anual da ONU. No final, devo dizer que fiquei aliviado. O pronunciamento foi curto e desapaixonado. Quem esperava frases de impacto e posicionamentos memoráveis voltou decepcionado e de mãos abanando.

O discurso não foi o de um caixeiro viajante, mas o de um promotor turístico. Luiz Inácio vendeu um país invejável, onde a energia elétrica é limpa, o desmate amazônico praticamente acabou, a democracia ressuscitou, o plano Brasil sem Fome corre a pleno vapor, a igualdade salarial entre sexos está alcançando o objetivo, a Bolsa Família voltou pra ficar.

Depois desse discurso, fica a quase certeza de que as massas migratórias que arriscam a travessia do Mediterrâneo para chegar à Europa vão preferir cruzar o Atlântico para ter às costas brasileiras.

Do lado positivo, temos ainda a reafirmação da luta do Brasil de Lula contra a desigualdade, a intolerância, a xenofobia. O mundo agora sabe que, diferentemente dos países hoje mais adiantados, temos a firme intenção de promover um desenvolvimento sem poluir nem destruir o meio ambiente.

O mundo ficou sabendo ainda que Lula é um grande líder do “Sul Global”. Cuida do G20, do Brics e da Agenda de Belém, instituição que congrega 50 milhões de amazônidas (palavra chiquérrima).

Já do lado negativo, foi estranho que a única menção nominal de Lula tenha sido a Julian Assange, jornalista australiano atualmente encarcerado na Inglaterra à espera de extradição para os EUA. Nosso presidente asseverou que esse senhor “não deve ser punido”. Independentemente de concordar ou não com Lula, achei que não cabia a um presidente do Brasil adiantar-se às deliberações da Justiça de um país estrangeiro. É como se um líder estrangeiro dissesse que este ou aquele cidadão brasileiro não merece ser condenado. É bola fora.

No capítulo “Palavras Inúteis”, Lula mencionou de passagem os conflitos na Palestina, no Haiti, na Líbia, em Burkina Faso e em outros países africanos. Falou do risco de golpe de Estado na Guatemala, mas silenciou sobre o golpe permanente que há anos vem sendo dado na vizinha Nicarágua por Ortega, ditador atual e amigão do petista.

Não podia deixar de mencionar a Ucrânia. Esperto, deu uma pirueta. Não mostrou ódio nem simpatia por Kiev. Disse apenas que, na Ucrânia, “não conseguimos impor a Carta da ONU”. E logo fugiu do assunto.

Para terminar com fecho de ouro, Lula montou em seu cavalo de batalha: a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Assim como Pútin, que desejava entrar para a História como aquele que recompôs o Império Russo, Luiz Inácio tem a pretensão de ser lembrado como aquele que permitiu a entrada do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança.

Só que… nenhum dos dois vai conseguir. Pútin, por problemas evidentes: se não conseguiu nem domar a Ucrânia, como é que se apossaria da meia dúzia de países europeus que faltam para integrar seu império?

Já nosso Lula, faz anos que entretém um sonho furado, sem nenhuma ancoragem na realidade. Por acaso, os cinco membros permanentes do CS são os vencedores da última guerra mundial e – veja a coincidência – as principais potências atômicas do planeta. Partindo do princípio que não teria cabimento o Brasil entrar sozinho no CS e que cada membro atual tem direito de veto, o problema passa a ser ser cabeludo.

A China não aceitaria o Japão como novo membro. A Rússia vetaria a Índia. Se o Brasil entra, por que não o México? A Alemanha seria olhada com desconfiança por meio mundo. Como o distinto pode perceber, o problema é mais que cabeludo: é insolúvel.

É por isso que a reclamação que Lula tirada do bolsinho do colete a cada discurso é maçante, cansativa, estéril como birra de criança que se joga no chão e esperneia. Não serve pra nada.

Resumindo, o discurso não foi tão mal. O contraste com as falas estranhas de Bolsonaro foi flagrante. A plateia aplaudiu em vários momentos – só isso já diluiu as imperfeições.

Nunes, Mendonça e Zanin

José Horta Manzano

Vale a pena anotar como se comporta profissionalmente cada um dos três ministros do STF entronizados mais recentemente. Refiro-me a Nunes e Mendonça, nomeados por Bolsonaro, e a Zanin, nomeado por Lula.

Logo ao emitir seus primeiros votos, Zanin deixou a plateia de queixo caído. Seu posicionamento em matéria de entorpecentes, de homofobia e de furto famélico foi ducha fria para os ardores progressistas da militância lulopetista. Quem esperava dele um comportamento de ‘pasionaria’ deu com os burros n’água.

Já os indicados por Bolsonaro, que oficiam há mais tempo no STF, jamais surpreenderam ninguém. Desde o primeiro voto, posicionaram-se rigorosamente na linha de interesse daquele que os nomeou. Como cães de guarda, servem aos interesses do bolsonarismo.

Os votos de Mendonça e Nunes costumar divergir do voto dos colegas. Os dois não parecem se importar em se posicionar às vezes contra o bom senso. A obediência cega a um chefe destituído surge como objetivo obstinado, atitude que, no distinto público, levanta certa inquietação.

Cabe a curiosidade de saber por que razão, apesar de estarmos na era pós-bolsonárica, Mendonça e Nunes persistem na reverência ao antigo “chefe”. Será por convicção ou por outro motivo?

E Zanin, por que razão ousa se posicionar no campo oposto ao do cliente (Lula), que ele defendeu por tantos anos? Será por convicção ou por outro motivo?

Quanto a Zanin, me parece que ele aposentou a vida de advogado. Ela entrou no passado e a página está virada. Agora, abrigado sob o manto de magistrado, seus votos são ditados pela consciência, sem conexão sistemática com o ideário de antigos clientes. Daí a disparidade de vistas entre o velho lulismo e o nascente “zanismo”.

Quanto a Mendonça e Nunes, seus votos mostram persistente apego ao antigo chefe. É compreensível que, no geral, apoiem causas conservadoras, mas o julgamento dos atos do 8 de Janeiro é outra coisa. O que está em jogo estes dias não tem a ver com pautas de costumes, como homofobia, racismo ou aborto. Está-se avaliando a que ponto a depredação dos palácios do governo revelou-se parte de um amplo projeto de golpe de Estado – fracassado.

É perturbante a insistência com que Mendonça e Nunes tentam desconstruir a tese aceita por todos os outros ministros. Fica evidente que a tentativa de minimizar os acontecimentos e apresentá-los como um passeio dominical é uma estratégia para beneficiar o chefe que, mais dia menos dia, estará no banco dos réus pelo mesmo motivo.

Em resumo, a atitude dos que foram nomeados pelo capitão é a de quem deve favor a alguém mais importante. Agem como agiriam integrantes de uma estrutura mafiosa, baseada em fidelidade canina e submissão absoluta, regime no qual o menor sinal de infidelidade pode ser punido com rigor.

Ainda bem que são só dois.

Ministros do Supremo – adendo

José Horta Manzano

Semana passada, escrevi um artigo comentando a fala polêmica de Luiz Inácio em que ele exprimia seu desejo de que os ministros do STF fossem mais discretos. Em razão da pobreza de vocabulário de Lula, as frases saíram mal formuladas, logo mal compreendidas.

Num momento inusual, daqueles que só acontecem a cada morte de papa, alinhei-me com o presidente. No artigo, expus minha visão. Na sequência, me dei conta de que as palavras do Lula tinham levantado uma grita geral. Discretamente, alguns de meus leitores também se mostraram decepcionados com o que eu escrevi.

Acredito que, como Luiz Inácio, também eu não devo ter sido claro. Vamos tentar de novo.

Que se compreenda logo: passa longe de mim o desejo de ver a Justiça do Brasil acolher julgamentos secretos. Tribunais secretos combinam com regimes autocráticos e autoritários, daqueles em que o cidadão é levado para a cadeia para lá apodrecer, sem processo e sem nunca saber a razão do encarceramento. Não é assim que eu gostaria que a Justiça funcionasse em nosso país.

Em dezembro de 2018, escrevi para o Correio Braziliense um artigo exortando os ministros do STF a nunca se esquecerem que o Supremo é um tribunal colegiado. O artigo, que nunca perdeu a atualidade, teve boa repercussão na época. Está aqui para quem quiser dar uma olhada.

O STF não é um tribunal qualquer. É o superior, o maior, o supremo, o nec plus ultra. E, principalmente, é um tribunal colegial. Suas decisões não podem ser atabalhoadas nem muito menos personalizadas. A meu ver, a decisão de cada processo tem de ser evidentemente publicada, mas os debates internos e o voto de cada um dos ministros não deveria ser dado ao conhecimento do público. Essas discussões deveriam ficar consignadas apenas nas atas internas.

Não vejo realmente o interesse em saber quem votou como. O importante é o resultado colegiado.

No tribunal do júri funciona assim, sem que ninguém se abale. Os jurados se reúnem em privado para determinar a culpabilidade ou não do réu. Votam. Ao final, entregam ao presidente do tribunal o resultado final das deliberações. O distinto público jamais ficará sabendo como votou cada jurado. É um bom exemplo de deliberação colegiada. Nenhum jurado periga ser hostilizado na esquina.

No Brasil, estamos acostumados a grande quantidade de decisões monocráticas tomadas pelo STF. Faz poucos dias, um dos magistrados decidiu, de uma canetada, deletar as provas de um processo monstro, que tinha levado anos para ser instruído. Causou comoção nacional.

Como é possível que, num tribunal colegiado cujas decisões só deveriam ser tomadas depois de debate interno entre os membros, um único ministro consiga impor sua vontade assim, de repente, como se tivesse levantado de bom (ou mau) humor? É difícil entender.

Dependesse de mim, o STF passaria por uma reforma profunda, uma renovação da cabeça aos pés. Decisões monocráticas só seriam admitidas em casos extremos, como por exemplo numa situação de urgência. (Se bem que, sabendo que um processo leva anos até chegar ao STF, não vejo bem qual poderia ser a urgência.) Toda decisão monocrática seria obrigatoriamente liminar, passível de ser referendada pelo pleno.

Em se tratando do Supremo, tem muita coisa que me parece fora do eixo. É absurda essa multidão de cidadãos com foro especial, acima da ralé. Acho que foro por prerrogativa de função deveria ser concedido somente ao chefe de cada Poder da República. Só enquanto estiver no cargo.

Enfim, só pra resumir:


Justiça discreta não é o mesmo que justiça secreta.


O que eu gostaria de ver é a despersonalização dos membros do Supremo, o desaparecimento do estrelismo, o fim dos ataques virtuais e verbais contra este ou aquele ministro, sempre ao sabor de polarizações políticas. E o fim de decisões monocráticas fora de situação de urgência.