Paz de mentirinha

José Horta Manzano

Sabe aquele sorriso meio forçado que a gente dá em direção ao fotógrafo, sorriso que não reflete a verdade do momento e que só serve pra aparecer bem na foto? É a imagem que me vem à mente quando vejo a autolouvação de Trump e Putin na sequência da conversa telefônica entre os dois. Desligado o aparelho, o mundo continua igual e a tão desejada paz continua longe e difícil de alcançar. Mas o sorriso meio forçado sai bem na foto e satisfaz ao ego.

Donald Trump não tem a menor ideia do que seja a geopolítica. Talvez nem chegue a se dar conta de que as relações entre os diferentes países são regidas por fios sutis e sensíveis, e que um leve esbarrão na teia repercute em todo o trançado. Sua especialidade são os negócios.

Dizem que é excelente homem de negócios, agressivo, resistente, incisivo. Não há razão para duvidar de suas habilidades. O problema é que relações internacionais não devem ser tratadas como quem compra uma peça de tecido ou meio lote de terreno. É grave que um presidente seja a tal ponto desconectado da dualidade entre diplomacia e negócios. Os dois mais recentes presidentes de nossa maltratada república tinham ambos algo de Trump.

Quanto aos negócios, não sei, mas o fato é que nenhum dos dois manjava lhufas de diplomacia. Daí o tempo perdido por Bolsonaro que passou seu mandato vituperando contra a China, insultando a primeira-dama da França e arrumando encrenca gratuita com uma dúzia de outros países. Lula seguiu pelo mesmo caminho. Arrogante e soberbo, destratou o presidente da Ucrânia e deu ao mundo seu peculiar diagnóstico pessoal segundo o qual a Crimeia, parte integrante do território ucraniano, tinha de ser entregue ao invasor. Sua dose cavalar de orgulho levou-o ainda a arrumar encrenca com Israel, país onde acabou sendo declarado “persona non grata” – vejam que cúmulo!

Mas essas trapalhadas não perturbaram o equilíbrio do planeta. E isso por uma razão simples: o Brasil não são os EUA. Dirigentes de um país periférico, carente, militarmente pouco significativo, nossos figurões são tigres sem dentes, que não assustam. Já o presidente dos EUA, quando faz das suas, assusta. E muito.

Quando Trump pega o telefone e chama Pútin para darem cabo, juntos, à guerra provocada pela invasão russa à Ucrânia, toda a teia dos relacionamentos globais estremece. É que o presidente americano, certamente sem se dar conta, acaba de entrar de sola num terreno espinhoso, cujos problemas não podem ser resolvidos no grito, nem no par ou ímpar, nem no dadinho.

Está fazendo três anos que a grande Rússia invadiu a pequena Ucrânia. Os invadidos vêm lutando com muita bravura, tanto que até agora seguraram o exército de Pútin. Milhões de ucranianos fugiram do país e se asilaram na Europa que, generosa, os acolheu a todos. Faz três anos que todos os países europeus vêm ajudando a Ucrânia, cada um conforme suas possibilidades. Faz três anos também que os EUA vêm ajudando com fornecimento de material bélico, sem o qual a Ucrânia não teria resistido.

De repente, chega um sujeito de pé grande, vira o jogo e, sem avisar aos aliados, decide entrar em comunicação com o ditador do país agressor, passando por cima do país agredido e de todos os aliados que contribuíram para segurar até agora o tirano. Imagine a que ponto a geopolítica está assustada. Não é todos os dias que se assiste a uma traição tão flagrante e tão desenvolta.

A não ser que, nas trevas da equipe de Trump, um raio de luz consiga penetrar e ensinar que não é assim que se joga esse jogo. Do jeito que está, o presidente americano está reabilitando o ditador russo e condenando a pobre Ucrânia a uma existência de medo, sob a ameaça permanente do apetite expansionista do vizinho e grande irmão moscovita.

Talvez nem a Otan resista a essa inacreditável quebra de aliança.

Prêmio Sákharov

José Horta Manzano

O Prêmio Sákharov pela Liberdade de Pensamento é a mais alta distinção concedida pelo Parlamento Europeu para recompensar ações em favor dos direitos humanos. Desde 1988, o nome do ganhador (ou dos ganhadores) é anunciado alguns dias antes do Natal. Em época de troca de presentes, o Sákharov é um presentão: o vencedor tem direito a um cheque de 50 mil euros (R$ 316 mil). Nada mal para um Natal farto.

Através dos anos, já foram agraciadas figuras conhecidas como Nelson Mandela (África do Sul), Alexander Dubček (Tchecoslováquia), Xanana Gusmão (Timor Leste), Alexei Navalny (Rússia) e muito mais gente.

O nome do prêmio é homenagem ao físico nuclear, ativista dos direitos humanos e dissidente soviético Andrei Sákharov (1921-1988), nascido e morto em Moscou. Jovem formado, recebeu de Stalin a incumbência de alcançar os EUA na corrida ao armamento atômico. De seu desempenho, a União Soviética pôde contar, em pouco tempo, com a bomba H made in Russia.

Com o passar do tempo, o cientista foi tomando consciência do perigo que a arma atômica poderia representar em mãos incompetentes. E enveredou pelo caminho do pacifismo, um pecado mortal na antiga União Soviética. A tal ponto seus atos irritaram as autoridades, que ele foi mandado para um exílio interno. Foi obrigado a se mudar para a cidade de Gorki (hoje Nijni Novgorod), a 7 horas de estrada de Moscou. Só não foi parar na Sibéria em razão do respeito que lhe deviam como pai da bomba soviética.

Em 1975, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz. Todavia, não pôde ir buscá-lo pessoalmente em Oslo (Noruega) dado que as autoridades soviéticas não lhe concederam um visto de saída. Anos mais tarde, com a chegada de Mikhail Gorbatchev ao posto de secretário-geral do Partido Comunista e o progressivo afrouxamento do regime, o cientista pôde finalmente viajar pela Europa e pelos Estados Unidos, onde já era admirado.

Neste dezembro de 2024, o Parlamento Europeu acaba de entregar o Prêmio Sákharov do ano. O ganhador simbólico é o conjunto de opositores ao regime de Maduro, representados por María Corina Machado e Edmundo González Urrutia. Ela era para ser a candidata oposicionista nas eleições deste ano, mas no último momento foi declarada inelegível. De última hora, González a substituiu e ganhou o pleito com quase 70% dos votos. Ele é, portanto, o legítimo presidente da Venezuela.

Não sei se a turma do Planalto está sabendo do ocorrido. Se tiver ouvido falar, nosso presidente deve estar maldizendo a hora em que recebeu Maduro em palácio, com flores, banda de música e tapete vermelho. E quando disse que a “narrativa” do companheiro seria sempre melhor que a dos opositores. É de fazer chorar de raiva no escurinho do banheiro.

Assim são as coisas. Nada fica sem troco.

Mr. Fico

Folha, 11 dez° 2024

José Horta Manzano

Resistente, o primeiro-ministro eslovaco certamente é. O homem escapou com vida de um atentado a tiros, ocorrido durante um comício, ocasião em que foi atingido por nada menos que 5 projéteis. Tem corpo fechado, como se costuma dizer.

Chama-se Fico (Robert Fico), sobrenome predestinado, daqueles que chegam é não arredam mais pé. Note-se que a gracinha não faz sentido além de nossas fronteiras. A pronúncia original não é Fico, mas Fitso.

Ovelha negra entre seus pares europeus, Senhor Fico é russófilo e, por coerência, americanófobo (ou antiamericano, que dá no mesmo). Atravessou o Atlântico com sua comitiva para prestar homenagem ao presidente do Brasil, que também se posiciona no mesmo quadrante do tabuleiro, entre os que simpatizam com Moscou e detestam Washington.

Fico, que se encontra em Brasília neste momento, nasceu e cresceu num país comunista, à sombra de Moscou. Muitos descreveriam mais tarde esse período como pesado e opressivo – não deve ser o caso de Robert Fico. Suas convicções traduzem até uma mal disfarçada nostalgia. Talvez as aulas obrigatórias de língua e cultura russas que recebeu na infância lhe tenham aberto horizontes fascinantes e desconhecidos por nós outros.

O primeiro-ministro eslovaco joga no mesmo time de Viktor Orbán, seu colega húngaro. Vivem agarrados na União Europeia como chupins, estendendo a mão para a substancial ajuda econômica que recebem, mas recusando-se a participar do esforço comum decidido pela maioria.

Em entrevista à Folha, Robert Fico fez comentários indignos de um chefe de governo, com palavras que ele não ousaria pronunciar na Europa. Disse que o Ocidente arrastou a Ucrânia para a guerra – afirmação encharcada de desonestidade intelectual.

O 24 de fevereiro de 2022 é uma data ainda fresca na memória. Acho que, naquele dia, até as redes sociais noticiaram a invasão da Ucrânia por zilhões de tanques de guerra russos, aviões bombardeiros, drones e centenas de milhares de soldados. Todos os que acompanharam aquelas primeiras semanas se lembram de como os soldados ucranianos, sozinhos e bem antes da chegada das primeiras armas ocidentais, botaram os russos pra correr e salvaram a capital de seu país.

Algumas semanas depois, a Europa e os EUA começaram a entregar armas mais modernas que permitissem aos invadidos frear o avanço dos invasores. O resto é uma história que continua sendo escrita. Afirmar que o Ocidente arrastou a Ucrânia para a guerra é distorcer a realidade para adaptá-la a seus próprios interesses. Truque indigno de um primeiro-ministro.

Robert Fico veio ao Brasil, em viagem oficial, para se encontrar com Lula. Sabe-se lá o que o visitante tinha pela cabeça, mas era até capaz de estar animado em criar uma “rede de amigos de Moscou”. Deve ter imaginado receber boa acolhida de Luiz Inácio.

Só que o destino às vezes prega boas peças. No meio da viagem, enquanto cochilava no avião, Lula foi operado às pressas. Não caiu sob as balas de um matador, mas o resultado é o mesmo: está nocaute por um bom tempo.

Fico não fica, retorna a seu país, ainda que desenxabido. Pode ser que volte um dia.

Inútil diplomacia do coice

José Horta Manzano

Impressionados com a inútil diplomacia do coice, implantada por Bolsonaro e seu impagável ministro de Relações Exteriores (lembra-se dele, aquele barbudo que se orgulhava de ser pária?), Lula e assessores vêm se empenhando para não deixar cair a peteca. Têm imprimido à diplomacia brasileira um feitio rude, arrogante, sectário, petulante, tolo, mesquinho. São muitos adjetivos, mas cada um deles foi pesado e escolhido por representar uma faceta da atuação do Brasil em suas atuais relações exteriores.

Algum tempo atrás, pus num artigo uma visão geral do funcionamento da OCDE. Expliquei que, se o Brasil ainda não é membro desse grupo, é porque, até poucos anos atrás, nunca tinha tido interesse em se candidatar. México, Chile, Colômbia e Costa Rica, nossos vizinhos de hemisfério, já integram o clube. Sem contar nações pequenas e de pouca expressividade econômica como Letônia e Estônia, com menos de 2 milhões de habitantes cada uma, que também fazem parte do esquadrão.

Como sabemos, daqui a exatamente uma semana abre-se no Rio de Janeiro a reunião anual do G20. O Brasil, que sedia o evento, é o encarregado de emitir os convites aos que participarão. Em princípio, ninguém entra de penetra como fez Nicolás Maduro outro dia na reunião do Brics na Rússia, quando chegou na cara de pau, sem ser convidado.

O Itamaraty convidou todos os membros do G20, mais alguns países não membros, como é costume. Enviou convite também à União Europeia. Só que cometeu o impensável: passando por cima da praxe estabelecida desde a 1ª. Cúpula do G20, que teve lugar no longínquo ano de 2008, deixou de convidar a OCDE.

A OCDE, acreditando que tivesse havido um engano no protocolo do Itamaraty, escreveu pedindo que seu secretário-geral fosse convidado. Silêncio total: nosso Ministério das Relações Exteriores simplesmente fez cara de paisagem, ignorou o pedido e nunca respondeu à missiva. Em diplomacia, tal deselegância não se vê todos os dias.

Ao saber disso, o governo da África do Sul, que sediará a Cúpula no ano que vem, já avisou que a OCDE será, sim, convidada no ano próximo, retomando a tradição que o Brasil tentou quebrar. Com isso, o coice do Itamaraty ficou ainda mais doído. O Brasil é o único país sede das cúpulas anuais do G20 a ter ousado excluir a OCDE da lista de convidados.

É difícil entender as razões pelas quais nosso Itamaraty se orgulha de receber o G20 e, ao mesmo tempo, não quer saber da OCDE. Numerosos membros de um dos blocos são também membros do outro. Politicamente, nenhum dos dois apita nada, dado que suas resoluções são meramente indicativas, não obrigatórias para os membros.

Será que, aos olhos dos peritos do MRE, o antiamericanismo entranhado do atual governo aceita receber todos os membros do G20 mas não suportaria ver, em solo nacional, o secretário-geral da OCDE?

Em que planeta vive essa gente, que não se dá conta de que as coisas aqui na Terra vêm se transformando a toda a velocidade? Já perderam o bonde do passado e, a continuar remoendo desgraças que só existem na cabeça deles, vão acabar perdendo o trem bala do futuro também.

Brasil e o Brics

José Horta Manzano

No início deste século, um dirigente do Banco Goldman Sachs se inspirou na primeira letra do nome dos países à época emergentes, que eram Brasil, Rússia, Índia e China. Como num quebra-cabeça, o economista organizou essas quatro letrinhas iniciais e formou o acrônimo Bric. O nome foi publicado pela primeira vez num relatório de 2001.

Com o passar dos anos, a sigla, que representava o que mais tarde seria batizado de “Sul Global”, foi sendo cada vez mais citada. Oito anos depois da invenção do economista, os quatro países emergentes decidiram se reunir. O que não passava de acrônimo abstrato começou a tomar vida.

Naqueles anos, antes da invasão russa à Ucrânia, ainda não pesava um mandado de prisão sobre a cabeça do ditador Putin, e ele viajava livremente ao redor do mundo e comparecia às reuniões anuais do grupo. Hoje deixou de fazê-lo, receoso de ser detido e despachado para a Haia, nos Países Baixos, onde está o Tribunal Penal Internacional.

Nosso Lula nacional, que não desdenha uma viagenzinha ao exterior, sobretudo se for para discursar perante seleta plateia, foi entusiasta do novo grupo desde o início. Sem refletir sobre as implicações que isso poderia ocasionar, chegou até a aplaudir a ideia, lançada pelos chineses, de alargar o clube, permitindo a entrada de outros sócios. Por um momento, a ideia de brilhar diante de plateia mais ampla deve ter lhe parecido inebriante.

A ressaca vem sempre no dia seguinte. Talvez sacudido por assessores, Luiz Inácio deu-se conta de que, quanto mais países integrassem o grupo, menos importante ia se tornando o papel do Brasil. Num hipotético universo de dezenas de países membros, a presença de nosso país se diluiria. Expansão desenfreada só interessa a quem detém o poder real : a China.

Desde que se deu conta do problema, o Brasil entrou num dilema cabeludo entre ficar no grupo ou deixá-lo.

Continuar membro significa transformar-se em coroinha da China, que é quem diz a missa. Os chineses esperam que todos os que ali estão digam amém a seus ditames, exatamente como fazem os russos atualmente. A permanência no bloco é vista pelo mundo como sujeição aos desígnios de Pequim, que não é exatamente o caminho que o Brasil tencionava seguir.

Virar as costas e sair do clube é também problemático. A China é nosso principal comprador, a Rússia nos vende fertilizantes. O Planalto, que gostaria de ficar bem com todos, teria nessa retirada um grave problema.

Há ainda o fato de Lula e seu assessor Amorim serem antiamericanos de carteirinha. Se saísse do clube, o Brasil ajudaria a marcar pontos para os EUA, fato que deve deixar nosso presidente horrorizado.

Que fazer? Não há meias verdades. Para o Brasil de Lula, é complicado passar o tempo atacando os EUA e os países ocidentais e, ao mesmo tempo, esperar ser por eles apreciado e bem tratado. Por seu lado, Brasília não pode brincar de amigo-amigo com Moscou e Pequim sem ser visto como aliado da China.

Diferentemente do que Lula e sua diplomacia podem imaginar, o planeta não está se tornando “multipolar”. Tudo caminha para a bipolaridade, que é o caminho traçado e seguido nas últimas décadas. De um lado, estão os EUA e as democracias ocidentais, do outro lado está a China acompanhada por ditaduras e autocracias.

Será difícil equilibrar-se entre os dois.

Espaço de liderança

José Horta Manzano

Ao ler a chamada que estampo acima, fiquei pensativo. Quem lê essas palavras pode até ficar com a impressão de que o “espaço de liderança” do Brasil – seja lá o que isso possa significar – está sendo atacado e que necessita ser defendido. Esse raciocínio nos leva direto à doutrina Lulamorim, que divide o mundo em dois enormes grupos de países.

De um lado, estão os EUA e seus aliados, malvados que querem dominar o mundo à custa dos países atrasados. De outro, está o resto do mundo, um amálgama de países díspares, que vão da enorme China ao minúsculo Timor Leste, da rica Arábia Saudita ao paupérrimo Haiti.

Se a chamada do jornal tivesse sido fabricada na gráfica do Planalto, sairia nos mesmos termos. A filosofia do coitadismo está aí, resumida em uma dúzia de palavras: atacado, coitado, o Brasil precisa de um líder (no caso, Lula) para defendê-lo.

Essa dúzia de palavras toma o problema pelo avesso. O espaço de liderança de um país não se decide com discursos na ONU, ainda que pronunciados à frente daqueles belíssimos blocos de granito verde. Aquele recinto não foi feito para esse tipo de pleito. Dos que sobem àquele púlpito, esperam-se palavras que evoquem e encoragem a boa convivência entre os povos. Eventuais boas notícias sobre avanço sanitário e educacional de cada um também são bem-vindas.

Não faz sentido subir àquele pódio para defender o Brasil de ataques que fraudam nossa hipotética liderança onde quer que seja. Liderança não é medalha concedida pela ONU. A conquista da liderança é fruto de uma sequência de ações que vão firmando o Brasil como país estável, confiável e líder em algum tema ou em alguma região: aquele que segura as rédeas e dá as cartas.

Essas ações não estão sendo empreendidas. Olhando para trás no tempo, faz quase sete anos que o governo brasileiro “pedala pra trás” em política externa – tanto regional quanto internacional. Com o capitão, foram quatro anos de esforço continuado para nos levar à condição de pária internacional, status que quase alcançamos.

Desde que o imobilismo lulopetista, sincronizado com a doutrina de Celso Amorim, voltou ao poder, temos nadado de braçada para alcançar a outra margem, aquela que não é a nossa, e onde nos sentimos estrangeiros. Temos tentado, a todo custo, nos afastar do Atlântico, berço civilizatório de onde provêm os povos que constituem nossa nação, para tentar nos ancorar na margem das ditaduras e dos regimes ferozes. Que não combinam com nossos ideais de democracia.

Aproximação com Putin, desprezo da agredida Ucrânia, apoio envergonhado ao Hamas, apoio inabalável e indisfarçado a Maduro – esses são os atos que nos afastam de uma almejada liderança regional. Se pretendesse ser a locomotiva à qual se engatam todos os países vizinhos, o Brasil teria de se comportar com maior clareza e, sobretudo, com menos parcialidade.

Lula dirá e fará o que acha que tem de dizer e fazer em Nova York. Ao fim e ao cabo, porém, vai acabar se dando conta de que a liderança começa por um dever de casa benfeito. Nesse quesito, não são só as arestas que precisam ser aparadas – é hora de sentarem-se em volta de uma mesa e repensarem a política exterior brasileira, que tem sido tratada a sopapos.

Circuito Elizabeth Arden

José Horta Manzano

Quem dá a notícia é o jornalista Ancelmo Góis, n’O Globo.


Depois de viagens a Paris e ao Catar, Janja vai a Nova York para debater a… fome

Depois de viajar a Paris para os Jogos Olímpicos, e ao Catar, para discutir a educação em territórios de conflito, Janja vai a Nova York, sexta, dia 21, para participar de um painel sobre a “fome”, na famosa Universidade de Columbia.

Metamorfose ambulante

Metamorphose
by Brenda Erickson

José Horta Manzano

Se alguém tivesse dito que Lula era uma “metamorfose ambulante”, teria sido imediatamente acusado de crime de ódio e talvez tomasse até um processo. Mas foi ele mesmo, Luiz Inácio, quem se qualificou assim. Portanto, quem achar que o presidente está se comportando feito biruta de aeroporto, que vá em frente e use a expressão. O termo está liberado.

Alguns anos atrás, Lula defendeu o regime bolivariano dizendo que “lá tem democracia até demais”. Referia-se ao fato de, segundo ele, o povo vizinho votar com mais frequência que os brasileiros.

Nesse meio tempo, a metamorfose operou. Segundo os jornais de hoje, Luiz Inácio admitiu que o povo venezuelano vive sob regime autoritário, mas não ditatorial. Considere-se que estamos falando do mesmo povo, do mesmo regime e, pra coroar, do mesmo dirigente.

Se isso não é comportamento metamorfótico, não sei o que será.

Um ponto me chama a atenção no tratamento que o Brasil e o mundo estão dando ao que ocorre na Venezuela.

Faz décadas que o regime autoritário se instalou. Se parecia manso no princípio, foi endurecendo com o tempo até chegar ao ponto em que está hoje, a um passo da ditadura ao estilo russo.

Em tempos normais, o drama venezuelano tem sido tratado pelo governo brasileiro como um não acontecimento. É como se a Venezuela não existisse. Não fosse o afluxo de centenas de milhares de venezuelanos famintos e desesperados, o silêncio sobre nosso vizinho do norte seria total.

De repente, em consequência das eleições (das quais todo o mundo sabia que Maduro sairia vencedor), a Venezuela entrou no noticiário. Já se passaram quase três semanas e Caracas continua no foco dos holofotes.

O que chama minha atenção é o contraste entre o olhar intenso que lançamos sobre nossos vizinhos agora, com relação ao descaso que lhes dedicamos em tempos normais.

Me parece que, longe do período eleitoral, teria sido o momento de agir, conversar, combinar e, principalmente, avisar o ditador venezuelano que o Brasil não toleraria eleições fraudadas. Acredito que um aviso prévio nesse sentido teria sido mais eficaz que toda a atual gritaria mundial, com pressões daqui e dali, e com sugestões incômodas e ofensivas para Maduro e seu desafiante, como essa história maluca de novas eleições.

A diplomacia brasileira bobeou nessa matéria. Ou, quem sabe, não bobeou não, simplesmente deu a entender ao vizinho ditador que o Brasil estava disposto a apoiá-lo nas eleições. Em seguida, diante do escândalo internacional, enfiamos o rabo no meio das pernas.

Quando se lida com um personagem metamorfótico, poder-se-á esperar dele tudo.

Preparando a paz da Ucrânia – 2a. parte

José Horta Manzano

(Este post dá sequência à primeira parte, publicada aqui abaixo)

Ao preparar a cúpula, a Suíça estava preocupada com o risco de o encontro parecer um convescote entre ricos. Logo na abertura dos trabalhos, a presença de 57 chefes de Estado, 92 Estados e 8 organizações internacionais desfez esse receio de parecer clube fechado. Países do chamado “Sul Global”, com intervenções importantes e pertinentes enriqueceram os debates.

Luiz Inácio perdeu excelente ocasião para reparar suas cruéis declarações do passado recente. Um discurso seu teria tido o dom de mostrar que, no fundo, o presidente do Brasil não não é aquele sujeito insensível que o mundo imagina, mas é um homem preocupado de verdade com a paz mundial e com o sofrimento que os conflitos causam a todos.

A fala de William Ruto, presidente do Quênia (África Oriental), poderia perfeitamente ter sido pronunciada por Lula. Ao abrir seu discurso, Mr.Ruto logo deplorou o “horrível espetáculo e a carnificina” que representa a guerra na Ucrânia lançada pela Rússia em 2022. Mas usou como exemplo os numerosos conflitos que castigam o planeta – Sudão, Chifre da África, Oriente Médio – para mostrar preocupação com a governança mundial. Falou ainda da falta de fertilizantes e da explosão dos preços que os países menos ricos têm de pagar por causa de uma guerra que não é a deles.

Luiz Inácio voltou do G7 de mãos abanando. Foi à festa dos ricos, mas nem levou presente, nem voltou com um pratinho de doces.

Algumas horas de presença sua na reunião dos que buscam a paz na Ucrânia teria sido mais útil para o mundo e mais gratificante para ele mesmo.

Da próxima vez, quem sabe.

Preparando a paz na Ucrânia – 1a. parte

Bürgenstock, Suíça: local da conferência

José Horta Manzano

Em 2023, a reunião anual do G7 teve lugar em terra japonesa. Como frequentemente acontece, Lula foi convidado a ocupar uma poltrona sobressalente. Questionado por jornalistas sobre a guerra decorrente da invasão russa à Ucrânia, Luiz Inácio deu sua lição:


“Tenho repetido quase à exaustão que é preciso falar da paz. Nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo. Precisamos trabalhar para criar espaço para negociações”, afirmou.


Trabalhar para criar espaço para negociações – foram as sábias palavras de seu evangelho. Nenhum dirigente político bem-intencionado discordaria. Lula tem razão. No momento atual, com os canhões ainda troando e os tanques sulcando campos que costumavam ver brotar espigas de trigo, é complicado convocar uma conferência entre as partes com vistas ao fim das hostilidades.

A Rússia reclama para si a totalidade da Ucrânia, que considera sua propriedade. A Ucrânia, invadida de surpresa por terra, mar e ar pelo exército russo, não faz mais que se defender de forças estrangeiras que ocuparam seu território.

Paz, para a Rússia, significa rendição incondicional da Ucrânia e anexação do território ucraniano à Rússia. Paz, para a Ucrânia, significa a imediata retirada das forças russas de seu território.

Nessas circunstâncias, fica complicado colocar face a face, em volta de uma mesa, negociadores russos e ucranianos. No momento atual, a reivindicação de uma parte é inaceitável para a outra. E vice-versa.

Para se chegar a uma reunião séria e objetiva entre Rússia e Ucrânia, os países patrocinadores da paz vão ter de gastar muita conversa, usar muito poder de convicção, fazer algumas ameaças veladas nos bastidores. Não vai ser fácil nem rápido.

Para dar início a essa maratona de conversas e negociações, que perigam levar anos, a Suíça organizou uma conferência preparatória para a qual praticamente todos os países foram convidados, com duas notáveis exceções: a Rússia e a China. A Rússia, porque já tem declarado querer a rendição incondicional da Ucrânia, exigência incompatível com negociações que ainda nem começaram. E a China, porque já fez saber que não aceitaria o convite.

Durante a conferência

A conferência para preparar a paz na Ucrânia realizou-se nos dias 14 e 15 de junho num cenário de cartão postal, num centro de conferências situado no alto de um penhasco com vertiginosa vista para um lago. No total, uma centena de países e organizações internacionais mandaram representantes. Entre chefes de Estado e chefes de governo, eram 57. A vice-presidente dos EUA e o líder de praticamente todos os países europeus estavam presentes. Entre os latino-americanos, diversos presidentes compareceram: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala.

Por coincidência, Lula esteve pertinho dali na véspera da conferência. Estava, como no ano passado, ocupando uma poltrona sobressalente na reunião de 2024 do G7, realizada este ano na Itália, para a qual tinha sido convidado pela primeira-ministra Giorgia Meloni. Será difícil alegar incompatibilidade de agenda para não dar uma esticada até terras alpinas (até Meloni foi à conferência preparatória da paz na Ucrânia). Assim mesmo, Lula preferiu embarcar em seu jatão A330 da FAB, avião grande, que tem maior autonomia que o pequenino Aerolula. Sem escalas, levantou voo em Bríndisi (Itália) e pousou em Brasília.

O Brasil pediu para não ser contado como participante à conferência da Suíça. Solicitou ser inscrito como “observador”. Não mandou presidente, nem vice, nem ministro nenhum. Nosso país foi representado pela embaixadora do Brasil na Suíça. Fiquei com impressão de que inscrever-se como “observador” foi pretexto para não ter de assinar a declaração final (que poderia conter algum parágrafo em desacordo com o atual Itamaraty, de Lula e Amorim).

Agora vem a pergunta: Senhor presidente, com que então, aquela história de “Trabalhar para criar espaço para negociações”, repetida “à exaustão” por Vossa Excelência, era só gogó pra inglês ouvir? Que história é essa de sair de fininho justamente na hora em que finalmente se realizou a primeira conferência preparatória para a paz na Ucrânia? Medo de desagradar a seu amigo Putin?

Quem fica sempre em cima do muro um dia se desconcentra e acaba caindo. Além do vexame, pode se machucar. Que a duplinha Lulamorim se cuide!

Estado x governo

José Horta Manzano

Certos políticos, especialmente os de extrema direita (mas não só), têm desconcertante tendência a confundir Estado e governo. Em política estrangeira, é flagrante e constante essa dificuldade em fazer a distinção entre os dois conceitos.

O primeiro artigo de nossa Constituição elenca os princípios que regem as relações internacionais do Brasil. Entre eles, estão: 1) a prevalência dos direitos humanos e 2) a não-intervenção. Na cerimônia de tomada de posse, todo presidente da República promete cumprir a Constituição. Assim mesmo, apesar do juramento público e solene, volta e meia a Lei Maior é escanteada.

Presidentes de tendência autoritária como Bolsonaro e Lula convergem neste ponto: nenhum dos dois entendeu a diferença entre seu governo e o Estado brasileiro. Ambos acreditaram (e continuam acreditando) que, uma vez eleito, o presidente tem direito de burlar princípios constitucionais como se sua ideologia pessoal sobrepujasse a Constituição.

Bolsonaro, com seu apego à tortura, entra em choque com o princípio constitucional de prevalência dos direitos humanos. A cada vez que mencionou suas “preferências” nessa matéria, desrespeitou o Estado brasileiro, cuja Constituição condena expressamente a tortura.

Lula, ao desdenhar a vítima (o ucraniano Zelenski) e prestigiar o invasor (o russo Pútin), entra em colisão frontal com o princípio da não-intervenção. Ao Estado brasileiro, não cabe apoiar quem interveio no país alheio. A atitude de nosso presidente afronta a Constituição. Sua ideologia pessoal não pode ofuscar a Lei Maior.

O pensamento é livre, pode passear por onde quiser. Já a expressão do pensamento só é livre dentro de certos limites. Você e eu, em bate-papo informal, podemos até elogiar a tortura ou prestigiar Pútin. Mas Bolsonaro e Lula, durante o exercício do mandato, deixaram de ser cidadãos comuns; eles não se podem dar ao luxo de assumir publicamente certas posições. O presidente, afinal, não é o dono do país.

Outro princípio claro enunciado no mesmo artigo da Constituição do Estado brasileiro é a dignidade da pessoa humana. Trata-se de conceito que abrange múltiplos aspectos do comportamento em sociedade. A convivência civilizada entre indivíduos é um deles.

Já nos primeiros meses de governo, Bolsonaro insultou a esposa do presidente da França, indispôs-se com a Alemanha e a Noruega, ofendeu o Chile, deu de costas para a Argentina, caluniou a China. Note-se que são todos países amigos com os quais o Brasil mantém florescente comércio bilateral.

Lula, desde que iniciou seu terceiro mandato, não ficou atrás. Desdenhou o FMI, mandou flechadas contra Washington, encrencou com a Ucrânia, meteu-se na briga entre palestinos e israelenses, ofendeu gravemente Israel e acabou rebaixando o Estado brasileiro diante de observadores estrangeiros.

Em nenhum dos encontrões, o motivo das brigas, dos beicinhos e das rejeições foi político. As colisões ocorreram sempre em decorrência da visão de mundo primitiva e sem nuances dos presidentes que temos tido a má sorte de eleger. Desde os saudosos tempos de FHC, os presidentes de nossa castigada República deixaram de ser gente civilizada e passaram a ser populistas ignorantes sem eira nem beira.

A esses indivíduos encharcados de vaidade mas vazios de sabedoria, falta entendimento do que seja a coisa pública, realidade talvez fora do alcance das mentes simplórias que têm preenchido o mais alto cargo do Executivo nos últimos 20 anos.

Para mudar rapidamente esse estado de marasmo que não ata nem desata, o mais simples seria uma revolução. O problema é que a velha moda das revoluções brasileiras e latino-americanas passou. O caminho das mudanças não é mais aquele.

Só resta um outro método: é a escola. Só um programa de Instrução Pública digno desse nome poderá dar cabo da ignorância que, há séculos, sufoca nosso país.

Ah, mas isso aí vai demorar pra caramba! Vai. Mas não há outro jeito. Tem de começar pelo começo, não há milagre.

Fiasco do 1° de maio

José Horta Manzano

O comício que Lula da Silva convocou para o 1° de maio foi um furo n’água. Você assistiu? Nem eu. Comparando com os sucessos de bilheteria do capitão, dá pena ver o grupo magrinho de admiradores que foram ouvir o Lula. Qualquer cantor(a) de renome atrairia mais gente que o velho guerreiro de Garanhuns. Como é possível que o antigo torneiro mecânico, que eletrizava multidões até algum tempo atrás, tenha perdido o charme? Qual é a razão, afinal, do fiasco de público?

A maioria dos analistas explicam, com razâo, que a esquerda murchou e que o mundo que Lula deixou ao sair da Presidência mudou muito sem que ele perceba. É verdade, mas não pode ser só isso. O mundo mudou, sim, mas, dede o ano de 2010, a Terra não passou a girar ao contrário. Mudanças houve, mas não a ponto de cortar a conexão entre o Lula e o povo.

A meu ver, o buraco é um pouco mais embaixo. Mudou o mundo e Lula, que insiste em não aceitar isso, continua a fazer de conta. Mas acredito que, nessa explicação, está faltando um ingrediente.

Acredito que o grande fator que elegeu Lula em 2022 foi o desejo de milhões de eleitores de se livrarem do capitão. Se o adversário de Luiz Inácio fosse qualquer outro, Lula muito provavelmente teria fracassado. Ele só foi eleito, repito, para derrubar Bolsonaro e desalojá-lo do Planalto.

O fato de ter sido eleito praticamente sem um esboço de programa de governo é forte indício de que, para os eleitores, isso era mero detalhe. Votaram nele assim mesmo.

A última eleição foi diferente das anteriores. Enorme contingente de brasileiros estavam fartos de Bolsonaro e queriam se livrar dele. Acredito que qualquer adversário que não fosse o Lula teria vencido por margem até mais ampla do que os magros 50,9% do antigo metalúrgico. É que, para um número considerável de eleitores, Lula era tão repulsivo que votar nele era impensável.

A meu ver, o ingrediente que está faltando nas análises que li é o fator cansaço. O Brasil está cansado de Lula. Veja só, a candidatura de Lula às presidenciais equivale, guardadas as proporções, à candidatura de um Collor de Mello. Há diversos pontos comuns entre eles. Ambos foram presidentes. Ambos deram boa contribuição ao país, Collor com a abertura do Brasil ao mundo e Lula com um olhar compassivo em direção aos desvalidos. Ambos saíram chamuscados de problemas com a justiça: um foi destituído e outro acabou na cadeia.

Por que razão uma candidatura de Collor de Mello hoje em dia é inconcebível? Porque é figura do passado. Já deu o que tinha que dar, e passou. A página está virada. O homem, que é senador da República, ainda circula pelos palácios de Brasília feito um zumbi, mas seu tempo passou.

E o Lula? Pois está nas mesmas condições: é figura do passado, já deu o que tinha pra dar, já passou, é página virada. Para alguns, deixou saudade, mas não se faz um país com saudade. Ele quis candidatar-se à Presidencia num momento crucial da vida da nação.

Venceu, mas venceu por um fio. No dia seguinte, já tinha esquecido das condições da vitória. Está governando como se tivesse sido eleito com cem porcento dos votos. Na parte internacional, envergonha o país a cada ocasião que se apresenta. Na parte nacional, está sempre atrasado, correndo atrás da realidade, que lhe escapa.

Sem Bolsonaro, Lula jamais teria sido eleito. Ele deve sua estreita vitória ao forte antibolsonarismo. Nosso país não tem demonstrado especial preferência por um governo gerontocrático. À porta dos 80 anos, Lula já está fazendo hora extra.

Seria bom não ceder à vaidade que o impele a solicitar mais um mandato. Seu oponente não será o inelegível Jair Bolsonaro. Dependendo de quem for o candidato, Lula periga ser derrotado, o que seria um desastre para sua biografia.

Que solte as cartas, passe a mão, levante-se e vá preparar sanduichinhos. Sem ele, a partida continuará do mesmo jeito. Talvez até melhor do que com ele.

Façam como eu digo…

Lula da Silva, Rafael Correa (Equador), Hugo Chávez (Venezuela)

José Horta Manzano

Celac é acrônimo da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, organismo fundado em 2011 por um clube formado por Lula da Silva, Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador).

A organização congrega os países das Américas com exceção dos EUA e do Canadá. É uma daquelas brincadeiras adolescentes de nosso líder, que, para tentar se distanciar dos EUA, inventa soluções que acabam dando trabalho e custando dinheiro sem chegar nunca a resultados práticos. Essas pseudoassembleias emitem notas, escrevem memorandos, fazem recomendações. E só. Nada tem poder impositivo.

Pois bem, no começo desta semana, em cúpula virtual da Celac, Lula soltou uma de suas pérolas costumeiras. Em discurso veemente, passou uma carraspana no Equador por ter invadido outro dia a embaixada do México em Quito. Suas palavras:


“O que aconteceu em Quito é simplesmente inaceitável e não afeta só o México. Diz respeito a todos nós. Um pedido formal de desculpas por parte do Equador é um primeiro passo na direção correta”


Ah, na hora de passar pito nos outros, a memória humana é sempre um tanto falha. Costumamos apontar para o cisco no olho alheio sem nos dar conta da tora que está em nosso olho, já ensinava a sabedoria bíblica.

Luiz Inácio “se esqueceu” de episódio recente no qual ele mesmo ficou pessoalmente na berlinda. Todos se lembram de que, numa de suas falas jogadas fora, Luiz Inácio colocou em pé de igualdade a matança de civis cometida atualmente por militares israelenses na Faixa de Gaza e a exterminação de judeus ordenada por Hitler nos anos 1940.

Seu discurso abordou um tema delicadíssimo, que toca fundo na sensibilidade do mundo civilizado, de maneira especial nos integrantes da comunidade israelita. É terreno minado no qual convém pisar com extremo cuidado. Lula entrou de sola, como se diz. E se estrepou. Levou pancada de todos os lados.

A mídia internacional foi unânime em repudiar suas palavras. Autoridades israelenses o declararam persona non grata, uma afronta em termos de diplomacia e uma vergonha pessoal para nosso presidente. O Estado de Israel fez saber que estava à espera de um pedido de desculpas.

Lula se escondeu atrás dos vitrais do Alvorada. Dias depois, para esquivar-se, disse jamais ter pronunciado o termo Holocausto, como se fosse esse o problema. E deu o assunto por encerrado. As desculpas não vieram até hoje.

Isso visto, soa indecente ele dar pito num país inteiro (o Equador) e exigir uma postura da qual ele mesmo outro dia fugiu.

A memória humana é falha…

Observação
O Lula marcou bobeira ao não apresentar escusas pelas palavras ofensivas que pronunciou. Ele não ofendeu ninguém de propósito, só disse o que disse por pura ignorância histórica. Portanto, bastava ter escrito uma nota assim: “Não era minha intenção ofender ninguém. Se alguém se sentiu melindrado com minhas palavras, peço desculpas”. Com isso, a polêmica murchava na hora. Quis bancar o marrudinho, e deu no que deu.

Quem pode, quem não pode

Chega um pouquinho mais pra lá!
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 março 2024

Num discurso pronunciado poucos dias atrás, Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, pisou com força no calo de muita gente. Atacou forte o primeiro-ministro de Israel. Com todas as letras, afirmou que, com os crimes que vem cometendo em Gaza, Benjamin Netanyahu “inscreve seu nome ao lado de Hitler, Mussolini e Stalin, como um nazista dos dias atuais”.

E não parou por aí. Garantiu que “ninguém jamais obrigará a Turquia a chamar o Hamas de organização terrorista”. Acrescentou ainda que a Turquia “conversa abertamente com os líderes do Hamas e os apoia com determinação”.

São poucos os líderes a poder pronunciar tais palavras sem que o mundo venha abaixo. Erdogan é um deles, e sabe que pode fazê-lo sem ser cobrado. O dirigente turco entendeu que a liberdade de palavra de um líder está ligada à importância de seu país no tabuleiro da política mundial. Há nações importantes pelo poder econômico, outras se impõem pelo arsenal atômico, há ainda países que, por sua posição geográfica, são estratégicos.

Antes de falar grosso, Erdogan manobrou paulatinamente para aumentar o peso de seu país. O território turco se assenta nas duas margens do Bósforo, o estreito por onde é obrigado a passar todo navio com destino ao Mar Negro.

Isso significa que toda a frota russa baseada naquelas águas tem de pedir licença à Turquia para transitar por ali, até poder largar âncoras em seu porto de armamento situado na margem russa do Mar Negro. A política externa de Erdogan torna seu país polivalente. Membro da Otan, a Turquia é próxima da Ucrânia, amiga da Rússia e inimiga de Israel. Numa hipotética futura mesa de negociação da paz na Ucrânia, a Turquia será um participante por assim dizer obrigatório.

Essa esperta ambiguidade da política turca, aliada à importância geográfica do país, faz que se releve boa parte dos exageros retóricos do presidente – que são basicamente destinados a seu público interno. Fecham-se os ouvidos para a comparação extravagante entre Netanyahu e Hitler, e fecha-se o olho para o apoio veemente e fraterno ao Hamas, grupo considerado por muitos como terrorista.

Nosso Lula nacional, depois de levar puxões de orelha por falas inoportunas e inapropriadas, parece ter mudado a espingarda de ombro. (Essa é a situação no momento em que escrevo; amanhã, ninguém sabe.) A importância estratégica do Brasil ainda não permite a nosso presidente sair por aí dando murros na mesa. Lula acaba quebrando os dentes a cada vez que se aventura por mares que não costumamos navegar.

Tudo indica que sua nova meta é assumir a liderança do “Sul Global”. O alvo está distante e o caminho será pra lá de árduo. Há sinais de que nossa sociedade está mudando. Um fato novo revelado pelo último Datafolha mostra que 10% dos entrevistados apontam a política externa de Lula como algo negativo. Isso é novidade. Política exterior nunca foi tema importante para o grande público no Brasil, sendo reservado, via de regra, para iniciados. Percebe-se que já não é assim.

Mas o que vem a ser esse tal de Sul Global? O nome é portentoso, deixando a impressão de que congrega todos os países ao sul do Equador, irmanados num interesse comum. Não é nada disso. Não passa de uma etiqueta. É um elenco de países díspares que se imagina não terem simpatia pelos Estados Unidos, país cuja hegemonia talvez os incomode. Assim, excluídos os EUA, a Europa e mais algumas antigas colônias britânicas, a etiqueta reúne em tese todos os países restantes.

O nome da etiqueta foi mal escolhido. China, Índia e Rússia – apesar de se situarem inteiramente no Hemisfério Norte, com a Rússia roçando até o Polo Norte – fariam parte do “Sul Global”. Vê-se que é uma congregação de interesses contrastados, às vezes divergentes e até antagônicos. São países que pouco têm a ver entre si. É esse Sul Global que Luiz Inácio tem intenção de liderar? Um Lula a liderar Putin, Xi Jinping e Modi?

O Brasil é um país lindo e cheio de promessas mas nossas potencialidades têm de ser desenvolvidas. Em vez de tentar liderar etiquetas ao redor do mundo, Lula deveria começar combatendo os males nacionais, pelo menos os mais evidentes e urgentes, como a dengue, a miséria, o massacre sistemático dos povos indígenas. Seria o melhor caminho para tentar recobrar a velha aura que murchou.

Um dia, o Brasil certamente será importante. Mas a estrada ainda é longa.

O “lapsus linguæ” do Lula

José Horta Manzano

Como todos os meus cultos leitores sabem, a expressão latina lapsus linguæ, que, ao pé da letra quer dizer “escorregão da língua”, é usada para indicar o ato de tropeçar na língua, dizer uma coisa por outra. O próprio Houaiss informa que, por influência das ciências psicanalíticas, um lapsus linguæ costuma ser interpretado como a expressão de “pensamentos reprimidos”.

Ontem, no abafamento úmido da selva amazônica, Lula recebia um Macron meio pálido, mangas arregaçadas, rosto transpirado e ar cansado. Via-se que o visitante não está habituado aos trinta e tantos graus de calor.

Os dois personagens principais tocavam conversa amena, sentados formando uma roda com numerosos participantes, entre ministros e índios paramentados.

Era a vez de Lula, personagem que nunca rejeita um microfonezinho. De repente, ele olha para Macron e lança, em seu dialeto costumeiro: “Eu e o Sarkozy vamo viajá po Rio de Janeiro inda agora à noite”.

Passado um instante de estupor, a pequena assembleia se tumultua. Vozes se elevam para apontar o erro. Lula logo conserta: “Eu e o Macron…” E a fala continua. (Trechinho de 20 segundos disponível no youtube.)

O erro não passa de um errinho sem consequências. Volta e meia, um dirigente troca o nome de um par. Talvez Macron nem tenha se dado conta, dependendo da pirueta dada pelo intérprete.

O que me ficou foi mais uma demonstração de que o Lula versão 3.0 não passa de um Lula 1.0 recauchutado por fora, mas com o miolo (=cerne) intocado. É verdade que Lula se encontrou com Sarkozy em numerosas ocasiões, mas esse fato, sozinho, não seria suficiente pra fazê-lo trocar o nome do atual presidente da França.

Muita gente reclama dos erros de governança cometidos por Luiz Inácio, que tenta aplicar hoje soluções que já não deram certo ontem. A verdade é que nosso presidente não se desgrudou de seus primeiros tempos na Presidência. Pelo jeito, não se desprenderá nunca.

Será que ele chegaria a chamar seu amigo Maduro de Chávez?

Educação

José Horta Manzano

No verbete ‘Educação’, o Dicionário Houaiss é claro. Garante que:


“Educação é a aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano.”


Ministro da Educação é o profissional que vela pela aplicação e pelo bom cumprimento das diretivas mestras relativas à Instrução Pública nacional. Como sabemos, nosso ensino é laico, obrigatório e gratuito.

Diretivas elaboradas num ambiente como o Estadão descreve, sem música mas com acompanhamento de gritos e socos na mesa não podem dar bons frutos. Para começar, de onde saiu essa gente que, para se entender, recorre a gritos e a socos na mesa? Serão trogloditas que o capitão esqueceu de levar na bagagem?

O presidente da República (e seus assessores) têm absoluta necessidade de dar maior atenção à escolha dos que cuidam da Educação nacional. É um terreno por demais importante para ser largado nas mãos de gente que, contrariada numa reunião de trabalho, arregaça as mangas e chama pra briga.

Indivíduos que só conseguem se entender no grito e na pancada não servem para estruturar a Instrução Pública. Seja qual for o motivo do barraco, teriam de ser demitidos imediatamente.

“Dor de cabeça” ou “problemas familiares” não servem como desculpa para a violência no trato profissional.

Parabéns, chefe!

José Horta Manzano

Fica cada dia mais claro que tanto Lula quanto o PT estacionaram na era soviética, uma época em que, por falta de internet, a comunicação circulava de forma lenta e muito mais restrita que hoje.

Putin venceu uma pseudoeleição, uma votação de cartas marcadas, com os adversários mais fortes fora do páreo: afogados na própria banheira, tombados do terraço do apartamento ou simplesmente encarcerados nalguma masmorra perto do Polo Norte.

Apenas conhecido o resultado, o PT se apressou a parabenizar o presidente russo reeleito. Usou expressões elogiosas como “resultado expressivo”, “participação popular impressionante”, “momento importante e especial para o país”. Faz sentido. O partido, que ainda não se deu conta da queda do Muro de Berlim, continua afagando o Kremlin, como se lá ainda reinasse Josef Stalin, o “pai dos pobres” (o original).

Lula, como sabemos, não resiste a uma ocasião de dar uma boa escorregada. Viu a casca de banana e correu antes da passagem do gari. Mandou escrever uma carta de congratulações ao companheiro Putin em nome do povo brasileiro.

Com essa atitude, fez companhia aos dirigentes de Venezuela, Cuba, Nicarágua, China e mais alguns ao redor do planeta. Os líderes de países democráticos, por seu lado, manifestaram pesar e preocupação por uma eleição classificada como “farsa eleitoral”.

Francamente, este Lula versão 2022 é o mesmo que o de 2002, só que descomplexado. Nos dois primeiros mandatos, Luiz Inácio se segurou, tentou enfiar o terno presidencial e, bem ou mal, deixou de herança para o mundo uma imagem simpática de político pacífico e de pai dos pobres.

É que, nos dois primeiros mandatos, um Lula mais jovem tinha conseguido se conter e, a seu modo, se apropriar do estilo que se espera de um presidente. Depois disso, houve a humilhação da prisão e as trevas da era bolsonárica. Lula voltou à corrida eleitoral sabendo que este seria seu derradeiro período na Presidência, quer dure um mandato ou dois.

Assim sendo, parece ter se soltado de vez. O que vimos antes foi um Luiz Inácio tentando ser Mister Da Silva. Hoje ele se contenta de ser apenas Lula.

Cria vergonha!

José Horta Manzano

Cria vergonha! – a expressão é do tempo de meu pai. Uma notícia de hoje me fez lembrar dela, mas fazia um tempo que andava sumida. É compreensível que tenha desaparecido. Usava-se falar assim no tempo em que “ter vergonha na cara” significava alguma coisa.

Hoje, acredito que o assunto já não comova. Chamar alguém de “sem vergonha” não faz efeito, acho que nem xingamento é mais.

Por ser muito branda, a expressão não faz mais parte da escala de ofensas. Hoje em dia, insulto bom já começa em “Ladrão!”. E daí pra cima, passando por “Nazista!”, “Comunista!” e companhia bela.

É indiscutível que o nível de tolerância de comportamentos violentos anda um bocado maleável, deixando a velha “vergonha na cara” em posição de primo pobre e fraquinho. Mas não é a única razão por trás do sumiço da antiga expressão. O problema maior é que já não se dá à “vergonha na cara” o mesmo valor de antes.

Atualmente, acho que a vergonha já não aparece entre as qualidades exigidas do perfeito cidadão. Em personagens políticos, então, é virtude praticamente inexistente. Sem nenhuma vergonha, eles insultam, roubam, corrompem, deixam-se corromper, esbanjam nosso dinheiro, beneficiam parentes.

Quando a Federal apanha um deles com a mão na carteira alheia, o danado nem se mostra envergonhado. Logo alega que o culpado não é ele, é outro. E, em geral, fica por isso mesmo. Vergonha na cara, ninguém exibe.

Como eu dizia, hoje, de repente, me reapareceu diante dos olhos a velha expressão. E veio da boca do presidente da República. Numa entrevista, indagado sobre o caso Robinho, Lula foi direto: ”Todas as pessoas que cometerem crimes de estupro têm que ser presas”. E emendou:


“Um homem, jovem que tem dinheiro, um jovem rico, famoso, praticar estupro? E coletivo? E acha que não cometeu crime! Acha que estava bêbado? Ah, cria vergonha! Estupro é um crime imperdoável!”


Não sei se todo o mundo pensa igual, quanto a mim, aplaudi de pé a fala presidencial. E olhe que não é todos os dias que isso acontece…

Estupro é crime covarde, em que um indivíduo forte submete um mais fraco. No assalto à mão armada, o forte (que aponta a arma) também submete o frágil (desarmado), só que, no estupro, além da arma apontada, há a humilhação e a dor da violação do corpo desonrado. Estupro coletivo, então, é covardia ao cubo. Em outras latitudes, dá perpétua.

Está terminando a época em que nosso país acolhia o refugo da criminalidade internacional. Durante décadas, mafiosos, nazistas, assassinos, assaltantes de trem pagador & alia encontraram abrigo nestas terras tropicais. Hoje rareiam. E não está longe o dia em que não virão mais.

O Brasil não pode ser covil de criminosos. O Lula tem toda razão: lugar de estuprador é na cadeia. Vamos ver que decisão tomam os magistrados encarregados do caso desse “jovem, rico, famoso” – nas palavras do presidente.

Vai aqui uma ideia para evitar que a índole honesta do brasileiro continue a se esgarçar. No finalzinho do Hino Nacional, onde se canta “Pátria amada, Brasil!”, que se passe a cantar “Cria vergonha, Brasil!”.

Vox populi

José Horta Manzano

A pluma do jornalista Lauro Jardim nos informa que convocar a manifestação na Avenida Paulista duas semanas atrás foi um grande erro que Bolsonaro cometeu. Não se trata de opinião de uma pessoa, mas de resultado de pesquisa do Ipec, instituto que, entre os dias 1° e 5 de março, consultou dois mil eleitores sobre o assunto.

A uma questão direta, a resposta tem de ser direta. A pergunta era: “Na sua opinião, está certo ou errado o ex-Presidente Jair Bolsonaro convocar um ato em seu apoio após se tornar alvo de investigação da Polícia Federal pela suspeita de ter planejado um golpe de Estado?”. E a resposta só podia ser “certo” ou “errado”, sem mais nuances.

Pasmem: 61% dos entrevistados julgam que Bolsonaro errou ao organizar o comício. O resultado é surpreendente, visto que, pouco mais de um ano atrás, o país saiu das eleições dividido em dois campos de tamanho praticamente igual.

A pesquisa mostra que não só os que votaram no Lula acham que Bolsonaro fez uma grande besteira. Até entre os que têm simpatia pelo capitão e nele votaram, um eleitor em cada três acredita que ele errou.

Ao longo de seu mandato, Bolsonaro especializou-se em convocar reuniões, entrevistas e comícios que, sendo erros políticos, desabaram sobre sua cabeça.

* Vamos lembrar das desastrosas reuniões ministeriais em que a enxurrada de palavrões não encobriu a estupidez e a maldade do que foi dito. A última delas está até servindo de prova nos processos movidos contra o ex-presidente.

* Vamos recordar também o calamitoso “brienfing” com Suas Excelências, os embaixadores de países amigos. Esse meeting absurdo cobrou custo pesado: provocou a inelegibilidade do capitão.

* E não nos esqueçamos do trio elétrico montado nas comemorações de 7 de setembro, alguns anos atrás, peça importante entre as acusações que pesam sobre o ex-presidente.

Lula tem cometido erros primários, que embaçaram o brilho que envolvia sua personalidade. No entanto, verdade seja dita, até agora se absteve de convocar “brienfings” e manifestações em causa própria.

Que continue assim, pra não arriscar ficar cada dia mais parecido com seu predecessor.

Portugal: Lula na cadeia

José Horta Manzano

Neste domingo os eleitores portugueses votam para renovar o Parlamento. Dependendo do resultado, o deputado André Ventura, líder do “Chega” (partido de ultradireita), ficará bem posicionado para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Seu partido exibe, com orgulho, o apoio de Jair Bolsonaro.

Quinta-feira última, Ventura fez um discurso de campanha. Apesar do ar irônico, foi veemente ao afirmar (com todas as letras que o falar lusitano lhe permite):

“O senhor presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não vai entrar em Portugal. Nós não vamos deixar que entre em Portugal.”

(Neste ponto, pausa para uma chuva de aplausos e coro de “Ventura, Ventura”, que o deputado incentiva, regendo a cadência com a mão direita)

Mais adiante, animado pelos aplausos, adota palavreado sarcástico. Adverte “todos os que estão pra vir neste 25 d’abril” (cinquentenário da Revolução dos Cravos, que enterrou a ditadura em Portugal em 1974), que sejam “prudentes na compra da passagem”. E cita de novo “senhor Lula da Silva” ao repetir que, se ele aparecer, “ficará no aeroporto de Lisboa”. E martela: “Se insistir, vai pra uma cadeia, mas ele já sabe o que é isso, portanto também não será uma grande novidade pra ele”.

O discurso foi blablá de bravateiro, visto que o Lula já pagou pelo que fez, seu processo foi encerrado e ele não tem por que temer fanfarronices. Já é diferente o caso do Bolsonaro, mentor do deputado português. Com as investigações que carrega às costas, inclusive na Corte Internacional de Justiça, é o capitão quem arrisca ser preso assim que puser os pés fora do país.

Uma lição se pode extrair da fala do deputado, um ensinamento que o Lula deveria reter. Vai aqui abaixo.

Tirando dirigentes do nível de Bolsonaro, que felizmente são poucos, não é comum ouvir insultos pesados e gratuitos dirigidos contra mandatários estrangeiros. Se o deputado português sentiu-se à vontade para zombar tão violentamente do presidente de nossa República, não é somente por ser ele da extrema direita. Tem mais.

Com seus malditos palpites dados em público em assuntos dos quais não entende patavina, o Lula tem aberto o flanco. Ao posicionar-se ao lado de Putin e contra a Ucrânia, ao condenar Israel e aliviar a barra do Hamás, ao defender Maduro e denunciar a oposição, Lula põe-se do lado sombrio da História. Ao dizer “sombrio” refiro-me realmente à falta de luz. Lula prefere seguir o caminho das sombras, cercado de gente ao lado de quem um ser bem informado jamais tomaria uma cervejinha.

Aberto o flanco, Lula se expõe e vira alvo fácil dessa malta cuja violência começa nas palavras e vai sabe-se lá até onde. Vamos partir da hipótese que, em vésperas de eleição, o deputado esteja tentando granjear uns votos a mais. Portanto, ele não havia de estar discursando unicamente para seus fiéis eleitores. Tinha na mira também eleitores de outras correntes políticas. O que ele disse foi dirigido a todos, não somente aos seus. Se disse o que disse, é porque se sentiu convicto de que suas palavras não escandalizariam ninguém.

Tivéssemos nós um presidente “normal”, um homem que mostrasse equilíbrio e escrutínio, um ataque como esse do deputado dificilmente ocorreria. Se ataque houve, é porque o eleitor português, seja de direita, centro ou esquerda, não é bobo: está a par das trapalhadas internacionais de nosso presidente. Tripudiar sobre o Lula parece estar se tornando algo como jogar cocô na Geni, um ato corriqueiro.

Lula que se cuide. A insistir no caminho pantanoso em que está metido, quem vai acabar no brejo é sua reputação.

Assistir no youtube a fala do deputado (2 min).