Atrás da fachada, nada

José Horta Manzano

Estes dias realizou-se em Hamburgo uma cúpula do G20, com participação dos países mais importantes. Os olhos do mundo inteiro estiveram cravados no acontecimento. Estávamos todos na expectativa de como seria o primeiro encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin. Jornalistas mediram a duração do aperto de mãos entre os dois, estimando até a intensidade e a força muscular. Escrutaram o sorriso compartilhado, beberam as palavras da declaração de cada um. Quanta bobagem…

Foto de família do G20 de Hamburgo, 2017
A posição de cada um depende do tempo durante o qual vêm ocupando o cargo. Reparem que o recém-eleito Macron está na ponta, quase fora da foto.

Esse clube de parceiros díspares não tem a vocação nem a pretensão de influir no destino do planeta. Cada membro tem interesses próprios, que não necessariamente se ajustam aos dos parceiros. Além de mostrarem um PIB elevado, o que é que há em comum entre uma Argentina, uma Turquia, uma Indonésia, uma Austrália? Brasil, Arábia Saudita e Índia também integram a patota. E daí?

Na escola, todos nós já tiramos fotos de turma. Passado algum tempo, a gente revê os retratos e mal se lembra do nome dos colegas. Brics, G7, G8, G20 & congêneres dão ocasião para magníficas fotos de grupo. Todos sorriem, alinhados, perfilados, às vezes acenando, uma beleza. No entanto, ao fim e ao cabo, o que restam são as fotos e um comunicado final suficientemente vago e vazio de significado. Satisfaz a todos mas não resolve o problema de ninguém.

G20 de Hamburgo, 2017
Loja vandalizada

As verdadeiras tratativas entre países não se fazem à luz dos flashes. Grandes decisões são tomadas nos bastidores, independentemente de reuniões que servem apenas para atazanar a vida dos moradores da cidade que as hospeda. Estes dias, Hamburgo está em pé de guerra. Baderneiros profissionais vêm de longe, do estrangeiro, percorrem quilômetros com a única intenção de quebrar vitrinas, saquear, incendiar e semear pânico.

Alguém acredita que Trump e Putin já não tenham estado em contacto, bem antes da cúpula, talvez até antes da eleição presidencial americana? Alguém esperava que, por milagre de Santo Antônio, senhor Trump fosse mudar de ideia e realinhar-se com o compromisso de diminuir a emissão de gases que aumentam o efeito estufa? Alguém supunha que, num gesto de desprendimento, senhor Putin fosse abandonar a Crimeia e cedê-la à Ucrânia?

G20 de Hamburgo, 2017
Fim de festa

Não, senhores. Cimeiras desse tipo são o substitutivo atual do pão e do circo com que se brindavam os habitantes da Roma antiga. Distraem o povo, nada mais. Ainda por cima, custam verdadeira fortuna. Cada país envia alentada comitiva. São centenas, talvez milhares de pessoas que se empenham para que a festa pareça um sucesso. Melhor seria evitar esse desperdício e doar o dinheiro para mitigar o sofrimento de populações que morrem de fome na África e alhures.

O legado dos Jogos Olímpicos

José Horta Manzano

De praxe, a cidade organizadora dos Jogos Olímpicos é designada com antecedência de sete anos. Como todos sabem, a próxima edição já está marcada: terá lugar em Tóquio em 2020. Para o futuro, muitas cidades adorariam abrigar os JOs.

Para a edição seguinte, a de 2024, seis cidades se candidataram. Eram todas pesos-pesados: Toronto, Hamburgo, Roma, Budapeste, Paris e Los Angeles. Três delas, por sinal, já sediaram os Jogos no passado. O Comitê Internacional Olímpico esfregou as mãos ‒ todas as postulantes apresentavam boas garantias de organização impecável. Desta vez, os suores frios causados pelos JOs Rio 2016 não deveriam se repetir.

jo-2024-1Acontece que, por mais que sejam ricas, as candidatas não são bobas. Os problemas de organização e, principalmente, o legado envenenado deixado pelas Olimpíadas no Rio de Janeiro despejaram um balde de água fria e fizeram murchar o entusiasmo de futuros postulantes.

Pouco a pouco, população e autoridades foram se dando conta de que a herança deixada pela organização dos JOs são ruinosas e perigam representar um rastro de dívidas que levarão anos para ser reembolsadas. Uma a uma, começaram a chegar as desistências.

Toronto, a metrópole canadense e Hamburgo, cidade alemã de primeira importância, foram as primeiras a jogar a toalha, já em 2015. O povo da primeira disse «no» e o da segunda ecoou «nein». Veio, em seguida, a vez de Roma. Já sufocantemente endividada, a capital italiana considerou irresponsável destinar bilhões aos «Jogos do cimento armado» e às «catedrais do deserto».

jo-2024-2A quarta desistência já chegou. Trata-se de Budapeste. Uma petição lançada por habitantes da cidade forçou as autoridades a renunciar à gastança. Saiu hoje a notícia oficial: a bela capital húngara não quer mais saber de sediar os Jogos. No páreo, sobraram Paris e Los Angeles. Ambas garantem já dispor das instalações que o evento demanda.

A decisão do Comitê Internacional será anunciada em setembro próximo. Sei não, mas algo me diz que, se Donald Trump continuar presidindo os EUA até lá e, principalmente, se persistir na insuportável política populista de vetar a entrada de visitantes oriundos de determinados países, Los Angeles dificilmente será designada como sede em 2024. Delegações inteiras correriam o risco de não serem autorizadas a pôr os pés no país, um despropósito.

Quanto a nós, estamos amargando o ônus da herança maldita deixada pela Copa e pelas Olimpíadas. O lado bom desse «legado» é a garantia de que estamos livres de acolhê-los pelo próximo século. É um alívio.

Muro antipipi

José Horta Manzano

Você sabia?

Numerosas grandes cidades têm um «bairro quente», aquele distrito onde se concentram diversões noturnas, cabarés, sex shops, casas de prostituição.

Em Paris, o bairro de Pigalle tem representado esse papel durante décadas. Embora, hoje em dia, o encanto esteja um pouco esmaecido, Pigalle permanece, pelo menos no imaginário do turista, o centro parisiense dos prazeres noturnos.

Bairro de Sankt Pauli, Hamburgo, Alemanha

Bairro de Sankt Pauli, Hamburgo, Alemanha

O bairro quente de Amsterdam é De Wallen, o famoso «red light district» ‒ distrito da luz vermelha. Na região, a atração mais típica são as vitrines iluminadas de vermelho por detrás das quais moças, usando lingerie pra lá de erótica, esperam pela chegada de novo cliente. Assim que um candidato toca a campainha, a cortina se fecha e tapa a vista.

Hamburgo, a grande metrópole do norte da Alemanha, tem o conhecido bairro de Sankt Pauli, perto do centro da cidade. No mesmo estilo de seus congêneres holandês e francês, conta com incontáveis clubes, casas de show, “inferninhos” & companhia.

Pipi 1Na Alemanha, toma-se muita cerveja. Como manda a natureza, todo líquido que entra no corpo tem de sair. O resultado de ingurgitar litros de bebida é a necessidade premente e frequente de urinar. Os festeiros, sem paciência para encontrar lugar adequado, satisfazem sua necessidade na rua mesmo. O resultado é uma fedentina dos diabos, que incomoda os moradores.

Para pôr fim ao incômodo, a coletividade bolou sistema engenhoso. Trata-se de uma pintura especial que manda todo líquido de volta a quem o lançou. Quando um incauto faz pipi encostado a um muro revestido com esse material, recebe o líquido de volta nos sapatos e na parte baixa das calças.

Não urinar aqui! Urinamos de volta.

Não mijar aqui!
Mijamos de volta.

O intuito não é surpreender ninguém, mas evitar que sujem o bairro. Tanto é assim, que os muros tratados estão assinalados com placas.

Está aí uma ideia que pode servir para coibir incivilidades de carnavalescos tropicais.