O mérito de Marina

José Horta Manzano

Paleta 1De onde vivo, estou longe de ter visão integral do que ocorre no Brasil. Embora dê pra ter uma ideia consistente, sempre ficam faltando algumas peças pra completar o quebra-cabeça.

Tenho acompanhado a evolução da campanha eleitoral com notável lacuna: não assisti a nenhum debate televisivo. Portanto, algum ponto pode ter-me escapado.

Pelo que tenho lido, dona Marina ― que possivelmente será a próxima chefe do Estado brasileiro ― não tem utilizado suas origens raciais como trunfo eleitoral. Se as utilizou, não fiquei sabendo. Espero que não o tenha feito.

Muitas enormidades têm sido ditas e cometidas estes últimos tempos em torno da diversidade étnica de nosso povo. Onde antes todos enxergavam uma paleta onde o dégradé ia do mais retinto ao mais alvo, a tese oficial nos incita hoje a encaixar cada brasileiro numa categoria: ou é negro ou não é. Assim, sem nuance. Das duas, uma.

Para mim, isso é bobagem pura. Todos sabem que o preconceito não está ligado à cor da pele, mas ao dinheiro que cada um tem no bolso. Pobre, desdentado e mal vestido será tratado como pobre, desdentado e mal vestido ― pouco importando que seja preto, branco, azul ou violeta.

Um país cujo escritor maior foi o mulato Joaquim Maria Machado de Assis não tem o direito de instigar diferenças raciais. Uma terra cujo músico lírico maior foi o mulato Antônio Carlos Gomes não deve se envergonhar da miscigenação.

Marina Silva 1O mundo se espanta até hoje com o fato de um mulato ter sido eleito presidente dos EUA. Enquanto isso, negros, mulatos, orientais, árabes, escandinavos, mediterrâneos ocupam em nossa terra, há décadas, cargos de governador, prefeito, ministro, deputado, vereador, juiz. E isso nunca estarreceu ninguém.

Temos agora a forte probabilidade de ser presididos por uma mulher que se autodefine como negra. É autodefinição, não vale a pena discutir. Se bem que, observando bem os traços de dona Marina, é lícito pressentir que o leque de suas origens étnicas seja muito mais aberto. Ela não se encaixa nas duas categorias obrigatórias. Pode muito bem ser produto do cruzamento das três principais raças que compõem a nação brasileira: o ameríndio, o africano negro e o europeu.

Mas faz ela muito bem em não dar peso às proprias origens étnicas. Que tudo seja feito para evitar que o Brasil resvale um dia para o voto étnico ou comunitário. Não vale a pena atirar mais lenha à fogueira. Que a política do «nós ou eles» do atual governo se possa em breve transformar em política do «nós todos».

O Garcia

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 set° 2014

Sapato 1Antes de começar, lanço uma advertência daquelas que aparecem em começo de filme: «Toda e qualquer referência que possa evocar alguma pessoa viva ou falecida terá sido mera coincidência.» Isso posto, vou-lhes contar como se anunciava, tempos atrás, uma liquidação de mercadoria ― prática hoje extinta e suplantada por «sale», que é expediente mais moderno.

Faz meio século, ferramentas de marketing eram primitivas. Venda especial se anunciava no grito. Seu Garcia, comerciante de calçados que cheguei a conhecer, fazia frequentes liquidações. Provavelmente já tinha intuído certas manhas de mercado hoje evidentes. Quando decidia vender artigos a preço de banana, punha-se à porta da loja, batia palmas e apregoava: «Entre, minha gente! Deu a louca no Garcia!».

Clap clapFaz alguns dias, tomei conhecimento de um anteprojeto de lei que me fez lembrar o velho calçadista. A notícia, espantosa, apareceu no mui oficial site do Ministério da Justiça. O longo texto de 52 páginas, concebido por comissão de sábios nomeada pelo próprio ministério, será submetido em breve ao Congresso Nacional.

Em 114 artigos, o «Anteprojeto de Lei de Migrações e Promoção dos Direitos dos Migrantes no Brasil» desconstrói, logo no prólogo, o conceito de «estrangeiro», considerado pejorativo em nossa cultura. A ousada afirmação carece de sentido num país onde tudo o que vem de fora é visto como superior.

Em vez de estrangeiro, elege-se a palavra «migrante» como sucedâneo. São migrantes os que vão, os que vêm, os que se deslocam e até os que se supõe queiram deslocar-se. O clube das expressões politicamente incorretas ganha mais um membro: estrangeiro entra para o índex.

O ambicioso esboço de lei é abrangente. Faz varredura completa da área de imigração, emigração, aquisição e perda da nacionalidade, reagrupamento familiar, acolhida humanitária, outorga de asilo, concessão de visto. Sem sombra de dúvida, o calhamaço merece que o Congresso o examine com desvelo.

Sapataria 1De saída, um ponto salta à vista e causa espanto. O Artigo 1° define como apátrida todo aquele que não for considerado por nenhum Estado como seu nacional. Até aí, nada demais, que é definição universalmente aceita. O inacreditável vem agora. No Artigo 25, o anteprojeto concede nada menos que… a nacionalidade brasileira a todo apátrida que a solicitar. Assim, bondade pura, sem condições e sem contrapartida. Não há registro de que ideia tão arrojada tenha jamais ocorrido a algum legislador.

Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, por sinal citado no introito do texto, é impossível avaliar o número de apátridas no globo. Cálculos vagos dão algo em torno de 12 milhões de pessoas, mais do que a população do Rio Grande do Sul. Pode ser bem mais que isso.

Suponha agora o distinto leitor que nossos congressistas, num descuido, chancelem essa lei. A notícia há de correr mundo mais rápido que rastilho. Assim que o Brasil propuser, de mão beijada, a cidadania a todo apátrida que a solicitar, filas de dobrar quarteirão se formarão à porta de nossas representações diplomáticas. Garantido.

Sapataria 2E todos farão jus ao mimo ― é de lei. Embolsado o precioso passaporte, cada um dos novos brasileiros terá direito, naturalmente, a ser repatriado à custa da princesa. Chegados ao Brasil, os antigos estrangeiros ― com o perdão da palavra imprópria ― já serão brasileiros de direito pleno. Terão, assim, direito a fixar residência onde bem entenderem, a pleitear todas as bolsas, a votar e a ser eleitos. Não precisa muito esforço de imaginação para prever que sólidos bolsões de «migrantes» se formarão em determinadas regiões, grupos dentro dos quais língua e costumes originários se manterão. O anteprojeto favorece o surgimento de uma constelação de pequenas nações dentro do território nacional.

Longe de mim fazer, de princípio, oposição à imigração. Afinal, os antepassados da maioria de nós chegaram um dia de algum canto do planeta. Mas todo movimento de população tem de ser enquadrado. Grandes contingentes de forasteiros aportados de supetão tendem a se aglutinar. Não se aculturam da noite para o dia. Não passam a falar nossa língua nem a comer arroz com feijão no dia seguinte.

O interesse superior da nação brasileira não combina com um regime de portas escancaradas e boca-livre a quem chegar. O passaporte brasileiro é um bem precioso demais para ser oferecido por atacado. Não é mercadoria e não se encaixa em lógicas do tipo «Entre, minha gente! Deu a louca no Garcia!».

Lógica cartesiana

Myrthes Suplicy Vieira (*)

PrimaveraVocê não vê? É tudo uma questão semântica criada pela mídia capitalista conservadora para defender seus interesses míopes e para desqualificá-los. Eles não assaltaram bancos. Fizeram, isso sim, expropriações. Eles não sequestraram nem assassinaram pessoas inocentes. O que fizeram precisa ser chamado mais corretamente de justiçamentos. Eles não corromperam nem foram corrompidos com o propósito torpe de alcançarem benefícios pessoais. O que buscavam era apenas sensibilizar alguns oposicionistas mais renitentes a abrir mão de sua resistência e aderir à base de apoio do governo. Você sabe, esse pessoal já estava acostumado mesmo a comercializar suas crenças políticas. Se eles tiveram de lançar mão de táticas do velho regime, acredite, foi mesmo a contragosto. Em toda sociedade, alguém tem de ocupar o posto de lixeiro, não é mesmo?

Lembre-se que, no passado, eles ofereceram a vida em sacrifício para salvar a pátria do peso esmagador dos coturnos. Se bem que a defesa da pátria, último reduto dos tolos, não fosse exatamente sua meta. Não, seu objetivo era muito maior, queriam que passássemos a fazer parte da grande comunidade do proletariado internacional.

Alvorada 1Por causa disso, foram perseguidos, torturados, exilados e “desaparecidos” aos milhares. Em troca, seus esforços nunca foram reconhecidos por aqueles por quem lutaram. Mesmo assim, eles levantaram a cabeça e foram à luta novamente. Perceberam que, para se alçarem ao poder, precisavam mais uma vez lançar mão das estratégias típicas do capitalismo corrompido. Engoliram muitos de seus princípios e valores, é verdade. Tiveram de fazer alianças espúrias, cortar na própria carne ― mas, no final, valeu a pena.

Seus feitos foram espantosos para tão pouco tempo de governo. Introduziram múltiplas reformas na tentativa de diminuir as desigualdades, deram voz aos que nunca a tiveram. Se algumas de suas ações aquiriram contornos populistas, foi só porque o eco de suas mensagens precisava chegar até os historicamente excluídos. Democratizaram o consumo. Não titubearam em oferecer apoio aos líderes de outros países emergentes que se viam às voltas com a incompreensão de seus povos ou com o boicote dos países imperialistas, mesmo em face de muitas críticas e indignação de alguns poucos.

Primavera 2Agora, quando querem cobrar seu quinhão de gozo, são vaiados em público, xingados, malditos. Por que tanta intolerância, tanta ingratidão? Por que a voz das ruas se faz ouvir novamente exigindo mudanças? Eu pergunto: mudar para onde e para quê? Será que você não percebe que esse tipo de manifestação é decorrente exatamente da abertura das portas da participação popular que eles propiciaram? Reflita comigo: se você se propusesse a fazer friamente comparações, não diria que sua vida está melhor? Que você tem menos medo de ser retaliado ao expressar suas opiniões?

Ora, meu amigo, reações como essas são sintoma de alienação política, de falta de compreensão dos rumos históricos. Você se apega a seu mundinho de interesses particulares e não enxerga a grandeza do sonho coletivo, a inexorável grande marcha pela fraternidade universal.

Como é mesmo aquela música do Renato Russo?… “Você diz que seus pais não o entendem, mas você não entende seus pais”. Pois é, você diz que eles não entendem o que você quer mas é você que não entende o que eles querem!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Democracia x oligarquia

José Horta Manzano

Initiative 1Já lhes contei, neste espaço, alguns aspectos do que os suíços chamam democracia direta. Na Confederação Helvética ― nome oficial do país ―, qualquer cidadão tem o direito de lançar o que no Brasil se chama PEC (Projeto de Emenda Constitucional). É direito inalienável, para usar expressão da moda. Na prática, a coisa se complica um pouco porque regras rigorosas têm de ser seguidas, sob pena de invalidar o processo.

Dado que um simples cidadão dificilmente disporia dos meios imprescindíveis para levar adiante o empreendimento, o mais das vezes as diligências ficam a cargo de um coletivo de cidadãos ou de um partido político.

A base do sistema é a iniciativa popular. Um grupo de pessoas ― ou um partido ― faz saber às autoridades que deseja que o povo seja consultado sobre a instauração de nova lei ou sobre a modificação de texto existente. A proposição é então analisada por juristas constitucionalistas e, caso não entre em colisão com a Constituição do país, a colheita de assinaturas será autorizada.

A partir desse momento, será concedido ao grupo organizador um certo número de meses para angariar um determinado número de assinaturas. Ao final, uma cerimônia é geralmente organizada. Ocorre em Berna, em frente ao Palácio Federal. Caixas de papelão contendo as folhas com nome, endereço e assinatura dos apoiadores são entregues a quem de direito. Essa papelada vai ser checada minuciosamente por especialistas. Se as exigências tiverem sido cumpridas (quantidade de assinaturas válidas coletadas dentro do prazo determinado), um voto popular terá de ser organizado.

Initiative 2O povo ― na Suíça chamado de «o soberano» ― votará. Se o resultado do voto popular for favorável, o projeto de emenda será oficializado. Entrará para a Constituição, seja como modificação de artigo existente ou como novo artigo. É processo demorado. Entre o registro da ideia junto às autoridades até a promulgação da nova lei, há que contar dois ou três anos.

No Brasil, após a imposição do Decreto n° 8243, o assunto da participação popular esporádica entrou na pauta das reflexões políticas. O modelo injungido aos brasileiros pelo ucasse presidencial está a léguas de distância da visão que se tem, na Suíça, de democracia direta. Na Confederação Helvética, todos os cidadãos são convidados a dar sua opinião através do voto.

Já o decreto de dona Dilma ― considerado anticonstitucional por muitos ― delega decisões importantes a um punhado de grandes eleitores capitaneados por uma pessoa só: o secretário-geral da presidência da República, homem «de confiança» do chefe do Executivo.

Αυτή δεν είναι η άμεση δημοκρατία. Αυτό είναι άμεση ολιγαρχία.
Isso não é democracia direta. É oligarquia direta.

Zé Maria na telinha

Demétrio Magnoli (*)

Ele tinha 41 em 1998; fará 57, alguns dias antes do primeiro turno. Na telinha, de eleição em eleição, a quarta numa sequência só interrompida em 2006, nós o vemos envelhecer contando a mesma piada. Zé Maria não tem um programa de governo: ele nos propõe a revolução proletária. Seu PSTU distingue-se de incontáveis outros partidos, sopas de letrinhas da maravilhosa abóboda política brasileira, pois rejeita o escambo do tempo de tevê por cargos comissionados em algum escalão da administração pública. Por outro lado, como seus congêneres, o PSTU vive da extração compulsória de dinheiro dos cidadãos que o ignoram. Só no ano passado, o Fundo Partidário repassou-lhe R$ 772.404,41. Desconfio que Zé Maria será um ardoroso revolucionário até o fim de seus dias.

DiscursoNão há nada de especialmente errado com o PEN, o PTN, o PROS, o SD, o PSDC, o PTC, o PHS et caterva. Seus dirigentes não fingem pretender seduzir-nos com a utopia de um mundo livre de todo o mal. Eles descobriram que nosso sistema partidário propicia um negócio lucrativo –e, de modo mais ou menos explícito, exibem-se como hábeis negociantes. O PSTU, não: em nome da História (assim com maiúscula), Zé Maria convida-nos a uma luta épica: o assalto ao Céu. A sua revolução será a da maioria, quando finalmente entendermos que ele marcha na companhia da Razão (maiúscula obrigatória). O problema é que, de fato, graças ao Fundo Partidário, ele não precisa que alguém concorde com ele. No Brasil, a Revolução (maiúscula!) tornou-se um bom negócio.

Zé Maria tem o direito de retrucar que faz o que todos fazem, sofisma celebrizado pelo PT desde o “mensalão”. Preferirá, porém, se separar dos demais, alegando que explora as “contradições da democracia burguesa” para instalar a “democracia proletária”. A racionalização do interesse próprio não muda a substância do problema: o uso do Fundo Partidário isenta o PSTU do imperativo político de persuadir as pessoas de que tem alguma razão (no caso, com minúscula). Zé Maria não precisa de militantes, apoiadores ou simpatizantes: ele já tem o seu dinheiro e o meu. No Brasil, a Revolução converteu-se em álibi e pretexto.

Eleição 1Prevejo uma nota ensandecida do PSTU apontando-me como agente da CIA, da Santa Sé, do Mossad e da Mídia Burguesa. Como não os convencerei a desistir da ideia argumentando com a deselegância de maldizer um contribuinte financeiro, tento algo melhor: o problema não está neles, mas na nossa “democracia burguesa”. Ainda que nos poupem das intragáveis letras maiúsculas, os grandes partidos também financiam suas (mais modestas) utopias pelo assalto legalizado ao bolso do público. Por que singularizar no sempiterno Zé Maria uma acusação que se aplica, com igual justiça, a Dilma, Aécio e Marina?

Urna 2Na democracia sem adjetivos, partidos são entes privados; na nossa pobre democracia varguista, partidos são entes estatais. Por aqui, o seu dinheiro (e o meu) sustenta candidaturas que personificam o oposto do que quero. O PT ameaça, pelo financiamento público de campanha, ampliar ainda mais a transferência compulsória de recursos dos cidadãos para a elite política organizada em partidos. Imagine, pelo contrário, a célere transformação da paisagem partidária que decorreria da desestatização dos partidos, compelidos por esse ato a buscar dinheiro exclusivamente entre os indivíduos (isto é, as pessoas físicas) que os apoiam. Infelizmente, contudo, mesmo na oposição, ninguém –nem a Marina sonhática da “nova política”!– sugere tal iniciativa. No Brasil, o Partido dos Políticos estende-se de Zé Maria até o Pastor Everaldo.

O Zé Maria que envelhece na telinha, sempre igual a si mesmo, não é indício das “contradições da democracia burguesa”, mas o certificado da perversa coerência de um sistema que corrompe a política. Não se amofine, Zé, o problema está em nós.

(*) Demétrio Magnoli é geógrafo. Mantém coluna em diversos jornais.

Economia brasileira, enfim com crescimento cubano

Percival Puggina (*)

Na edição desta última quinta-feira, o Estadão traz artigo do economista Roberto Macedo analisando os dados de um recentíssimo relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). O robusto documento de 216 páginas traz a classificação dos países segundo o crescimento do PIB 2014 estimado pela Comissão.

Trinta e três países compõem a região. Estimando o crescimento do PIB brasileiro no corrente ano em 1,4% ― expectativa otimista que sequer o Banco Central corrobora ―, o Brasil fica em 27º lugar, empatado com Cuba.

Se adotarmos a expectativa mais realista, aquela com a qual os analistas do mercado vêm operando, o Brasil ficaria em 30º, à frente apenas dos parceiros petistas Argentina e Venezuela. E logo acima de Barbados, pequena ilha caribenha de 280 mil habitantes, fragmento do Reino Unido.

Lembra o autor do referido artigo que nosso governo tem afastado das próprias costas a responsabilidade por esse desastre, atribuindo o infortúnio a um rescaldo da crise internacional de 2008.

Ora, comento eu, como pode o mesmo governo, que cacarejou como seus os ovos dos bons índices de 2007, 2008 e 2010, remeter a algum sujeito oculto no mercado mundial os ônus das contas do malfazejo período Dilma? E, principalmente, por que outros 29 países da região crescem mais que o Brasil?

Ao que me consta, todos produzem, consomem, compram e vendem no mesmo planeta que nós, embora nosso governo pareça viver no mundo da Lua.

(*) Percival Puggina é arquiteto, empresário, escritor e colunista do jornal Zero Hora.
Edita o blogue puggina.org.

Sem visto

José Horta Manzano

Você sabia?

Depois de anos de limbo jurídico, o Brasil e a Suíça assinaram acordo para formalizar a prática corrente de isentar de obrigação de visto os cidadãos do outro país. O que já se fazia de facto passou a ter sustentação de jure. Agora, é de lei.

Tendo em vista as boas relações que Brasil e Suíça mantêm há décadas, os dois países firmaram acordo de isenção de visto. Todo cidadão de um dos países pode fazer visita turística de até 90 dias ao outro sem ter de pedir autorização especial. Basta ter passaporte válido. Na prática, essa formalização não muda nada. Apenas cimenta o que já era feito informalmente.

Foto: Latina-press

Foto: Latina-press

A obtenção de autorização de trabalho continua problemática. Em princípio, somente profissionais altamente qualificados costumam ser admitidos ― assim mesmo, depois de o eventual empregador provar não ter encontrado, no mercado local, funcionário de qualificação equivalente. É pra lá de complicado, feito pra desencorajar o mais paciente dos beneditinos.

De carona, o novo acordo concede mais ampla liberdade de movimento aos titulares de passaporte diplomático. Taí notícia pra alegrar a ex-primeira-família!

Toda reclamação ou eventual sugestão deve ser endereçada ao Departamento Federal de Justiça e Polícia, Quellenweg 6, 3003 Berna, Suíça.

A haste e o pau

José Horta Manzano

Um brusco acidente de avião levou a vida de sete pessoas. Entre os desafortunados, estava um candidato ao posto de presidente de nossa República, cadeira que vai vagar dia 1° de janeiro do ano que vem.

Jornais, rádios, tevês, redes sociais, taxistas, porteiros, estudantes, manicures, ambulantes, aposentados só falam nisso. Como foi? O que é que vai ser agora? Como fica? Será que foi atentado? Cui bono ― quem é que ganha com isso?

Vamos deixar a cada um a liberdade de interpretar e de vaticinar como bem lhe parecer. De qualquer maneira, a Terra continuará a girar e, passada a comoção, as coisas vão acabar se ajeitando. Vamos aproveitar este espaço para uma observação linguística.

Bandeira a meio pauEm sinal de luto, o Planalto determinou que, nos edifícios oficiais, a bandeira brasileira fosse hasteada a meio pau. A meio pau ou a meio mastro? Valem ambas. Curioso é observar a transformação do falar. Em Portugal, a expressão mais usada é a meia haste. Por aquelas bandas, essa é a forma que predomina na hora de designar bandeira hasteada em sinal de luto.

Em terras brasileiras, faz dois séculos que a forma portuguesa perde terreno para sua equivalente nacional. Já faz cinquenta anos que a meia haste lusa praticamente desapareceu de nosso falar, sobrepujada pelo meio pau. Interessante é notar que, a partir dos anos 2000, uma terceira expressão ― a meio mastro, decalque do francês à mi-mât ― começou a dar mostra de vigor.

Nos últimos quinze anos, o mastro vem ganhando terreno entre nós. De cada três locutores, um prefere o mastro ao pau. Quem garante? Como muitos de meus distintos leitores devem saber, já faz alguns anos que o jornal O Estado de São Paulo permite acesso a seu precioso acervo. Pode-se lá consultar a totalidade das edições, de 1875 até os dias de hoje.

A tabelinha que ponho a seguir analisa as 1200 vezes em que as três expressões foram usadas desde o primeiro número do jornal. É interessante notar a porcentagem de ocorrência de cada uma delas em relação ao total da década.

Década   Meio pau   Meio mastro   Meia haste
1870        80%         —            20%
1880        87%         —            13%
1890        95%         —             5%
1900        89%         —            11%
1910        81%         —            19%
1920        86%         5%            9%
1930        90%         3%            7%
1940        75%        25%            —
1950        96%         2%            2%
1960        90%        10%
1970        92%         7%            1%
1980        96%         4%            —
1990        87%        13%            —
2000        92%         8%            —

2010        63%        38%            —

A meia haste sumiu. E o meio pau vem perdendo força em favor do meio mastro. Será sinal destes tempos politicamente corretos? Só Deus sabe.

Frase do dia — 168

«Sem mau humor, sem descrença, sem divisões, sem “eles”. O Brasil de todos nós. Agregador, assim era Eduardo Campos, um político de quem se podia discordar, mas uma pessoa de quem era absolutamente impossível não gostar.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 14 ago 2014.

Pra sua sardinha

José Horta Manzano

Os jornais brasileiros deram: «Brasileiro agraciado com o “Nobel” de matemática».

Os jornais franceses deram: «Francês agraciado com o “Nobel” de matemática».

Nunca tinha ouvido falar desse prêmio. Fui procurar e fiquei sabendo que existe desde 1936. Acredito que não sejam muitos os que já haviam tido notícia dessa distinção. Antes tarde que nunca.

De início, imaginei que o brasileiro e o francês fossem pessoas diferentes. Não são: o homem é o mesmo. Um carioca de nascimento, com pinta de galã de filme de faroeste, imagem bem distante da que a gente tem do matemático raquítico, encurvado, pele emaciada, guarda-pó e óculos de fundo de garrafa.

Artur Ávila Foto: S. Ruat, Photothèque CNRS

Artur Ávila
Foto: S. Ruat, Photothèque CNRS

Artur Ávila, o jovem que acaba de receber a cobiçada láurea, nasceu, cresceu e se formou no Brasil. Faz, porém, treze anos que reside e trabalha na França, onde dirige um departamento no prestigioso CNRS (Centro nacional de pesquisa científica).

Imagino que, bem acolhido por seu país adotivo, o moço se tenha naturalizado ― sem perder a cidadania originária. Good for him, melhor pra ele!

Além do prêmio, aliás bem modesto se comparado ao polpudo provento que um Nobel oferece, Artur recebeu congratulações de dois chefes de Estado: Dona Dilma Rousseff e Monsieur François Hollande mandaram-lhe saudações afetuosas. Não é pra qualquer um.

Cada um puxa a brasa pra sua sardinha.

Ecos na mídia francesa:
TF1 (principal canal da tevê francesa)
France info (rádio pública francesa)
Jornal Le Point
Jornal Le Figaro
Jornal Le Monde
Site do CNRS (Centro nacional de pesquisa científica)

Tripla filiação

José Horta Manzano

No Brasil, a organização da família não mudou muito desde Tomé de Souza. Sempre existiu o oficial e o paralelo. Homens com famílias duplas, crianças cujo pai biológico não era exatamente aquele que estava inscrito na certidão de nascimento, bebês adotados em segredo e registrados com o sobrenome dos pais adotivos ― são casos relativamente comuns.

O que mudou, de meio século para cá, foi o olhar lançado pela sociedade a situações que, embora frequentes, fogem aos cânones. A evolução condenou antigos tabus à obsolescência. Para agravar, a popularização da internet tem contribuído para a disseminação da informação. Hoje em dia, não se trancam mais segredos de família em baú.

Certidão batismoA Folha de São Paulo de domingo 10 de agosto aponta efeito colateral da queda de antigos tabus sociais. Informa que os últimos dois anos trazem registro de pelo menos duas dezenas de processos judiciais visando a acrescentar ao registro de nascimento o nome de um terceiro genitor. Será o nome do padrasto, do pai biológico, da madrasta. Em princípio, as solicitações têm contado com o beneplácito da Justiça.

Na Espanha e, em geral, nas antigas colônias, a tradição manda que todo cidadão tenha dois sobrenomes: o do pai e o da mãe, nessa ordem. Para a descendência, o patronímico paterno prima sobre o materno. A regra costuma ser seguida.

Em países como Itália, França, Alemanha, Suíça, nunca houve dúvida: criança leva o sobrenome do pai. Até alguns anos atrás, o registro de nascimento indicava nada mais que o(s) prenome(s) do recém-nascido. O sobrenome nem precisava ser mencionado: era necessariamente o do pai. Os reclamos de igualdade dos sexos têm interferido nesses costumes. Hoje em dia, já é possível dar à criança, além do sobrenome do pai, o da mãe.

Na Rússia, até hoje, a criança recebe um prenome, seguido do prenome do pai, seguido do sobrenome paterno. Por exemplo, o nome completo de Putin é Vladímir Vladímirovitch Pútin, onde Vladímir é o prenome e Vladímirovitch indica que o pai se chamava Vladímir. Pútin é o sobrenome paterno.

Certidão nascimento russaDiferentemente do que ocorre em outros lugares do mundo, em Portugal ― e, por consequência, no Brasil e em antigas colônias lusas ― a atribuição do nome de família não é submetida a regras rigorosas. Há quem carregue o(s) sobrenome(s) do pai ou os da mãe ou uma mistura dos dois. Pode-se omitir parte dos nomes de família. Pode-se até atribuir sobrenome que não seja do pai nem da mãe ― é o caso de João da Silva Sobrinho. Isso faz que irmãos não tenham necessariamente o mesmo nome de família ― fato inconcebível alhures.

Está na hora de se regulamentarem os novos usos no Brasil ― falo da tripla menção de genitores. Novos costumes reclamam normatização. Vazios jurídicos criam insegurança desnecessária e sobrecarregam a Justiça com a avaliação caso por caso.

Visão d’África

«Au Brésil, j’ai vu beaucoup de blancs et de métis, mais peu de noirs»

«No Brasil, vi muitos brancos e mestiços, mas poucos negros»

Jean-Pierre EssoFoi o comentário de Jean-Pierre Esso, jornalista camaronense que passou um mês no Brasil cobrindo a Copa do Mundo, ao demonstrar que, por olhos africanos, o mestiço não costuma ser visto como negro.

Comprovou que a tese da “gota de sangue”, copiada do modelo americano por nosso atual governo federal, não vigora em terras d’África. Por aquelas bandas, a “gota de sangue” funciona, antes, no sentido inverso. 

Frase do dia — 166

«O Brasil é prejudicado por dois grandes déficits estruturais: o de capital físico e o de capital humano.»

Mauro Borges, Ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior, citado em editorial do Estadão de 8 ago 2014.

O ministro matou a charada. Um país com capital humano e físico estruturalmente diminuído não tem chance de se desenvolver. Por sair da boca de ministro de um governo em fim de mandato, a constatação de fracasso tem gosto particularmente amargo.

Ser grandão tem suas vantagens

José Horta Manzano

Dizem que o Brasil não é para principiantes. É verdade, mas não é o único país nessa categoria. Outros lugares do planeta também são bastante complicados. Quando se espatifou, a URSS deixou despojos. São terreno minado.

Durante os 70 anos que durou a União Soviética, as quinze repúblicas que a constituíam eram pouco mais que mera formalidade. Com o esfacelamento do império, fronteiras internas tornaram-se fronteiras internacionais. Isso trouxe tensões.

Localizado no Casaquistão, o centro russo de lançamento espacial de Baikonur se encontrou, da noite para o dia, em território estrangeiro. Mas o Casaquistão, país pobre e encravado no centro da Ásia, é totalmente dependente da Rússia. Um acordo entre Moscou e Astana foi logo encontrado.

Povoada por esmagadora maioria de russofalantes, a Crimeia tinha sido atribuída em 1954, por razões burocráticas, à Ucrânia. Na época, a cessão territorial se resumira a simples canetada. Boa parte da frota de guerra russa está baseada ali, mas, enquanto faziam todos parte da URSS, isso não incomodava ninguém.

O esfacelamento do império russo fez que a marinha de guerra se encontrasse ancorada em país estrangeiro. Um problemão. Os ucranianos do oeste, em maioria de língua materna ucraniana, adorariam unir-se à União Europeia e desligar-se definitivamente da tutela de Moscou. Já os ucranianos do leste, russofalantes, ficariam felizes se pudessem reintegrar a pátria mãe e tornar-se independentes de Kiev.

A Crimeia era importante demais para Moscou. Quando as ambições de Kiev começaram a se tornar muito nítidas, os russos organizaram um plebiscito e, em três tempos, se apossaram da península. Com toda a frota, naturalmente. E não se fala mais nisso. Já no leste russofalante da Ucrânia, a briga é mais complexa. O território é vasto. E a maioria de origem russa não é tão esmagadora quanto na Crimeia ― boa parte da população é constituída de ucranianos.

Crédito: Cosmovisions.com

Crédito: Cosmovisions.com

O resultado é o que vemos atualmente. Tanques de guerra, bandeiras arriadas e substituídas por outras, guerrilha urbana, ataque a avião civil. As democracias tradicionais (Europa, América do Norte, antigas colônias britânicas) impuseram sanções comerciais à Rússia. Dizem que é para castigá-la por estar fornecendo armas aos rebeldes ucranianos. Em represália, Moscou anunciou que está estudando proibir o sobrevoo de seu território a aviões matriculados em países que estiverem aplicando as sanções. Parece bobagem, mas, se a ameaça for levada a efeito, vai causar um senhor problema.

Praticamente todos os aviões que saem da Europa em direção ao Extremo Oriente sobrevoam território russo. Muitos dos voos que seguem da América do Norte à China ou ao Extremo Oriente utilizam rota que corta caminho pelo espaço aéreo russo.

Não acredito que Moscou ponha em prática essa proibição. Se o fizer, vai criar um enorme quebra-cabeça para viajantes, companhias aéreas, aeroportos, controladores de voo, horários, conexões. Toda a logística terá de ser revista. Vai ser um pandemônio.

Com seu território superlativo, equivalente ao dobro da superfície do Brasil, a Rússia demonstra que ser grandão tem suas vantagens, sim, senhor.

Parou

José Horta Manzano

Revista Exame 1O último número da revista Exame traz estampada na capa, em letras garrafais sobre chamativo fundo vermelho, a palavra PAROU.

O subtítulo informa que o diagnóstico se refere à economia brasileira, que parou de crescer.

Vale a pergunta: o que é que o Planalto está esperando para exigir a demissão do grafista responsável pela afronta?

Rapidinha 28

José Horta Manzano

EuromercosulDar a mão a quem precisa
Jornais do mundo inteiro noticiaram que o Brasil apoia a Argentina, enredada no segundo calote em menos de 15 anos.

Vale a pergunta:
«Apoiar», neste caso, quer dizer o quê? O Brasil vai pagar a dívida do país hermano? Ou a retumbante declaração é apenas retórica?

Interligne 28aReforma política
O jornal indiano Business Standard e a agência de notícias chinesa Xinhua ― assim como toda a mídia do planeta ― repercutiram as palavras de dona Dilma, segundo a qual o Brasil precisa de reforma política e de modernização.

Vale a pergunta:
O que é que a presidente está esperando para propor as reformas que preconiza? Ela e seu partido estão no poder há doze anos e dispõem de um Congresso servil. É de crer que dormiram até agora e que acabam de acordar.

Interligne 28aEuromercosulMercosul
O site americano Bloomberg, especializado em finança, acompanha a evolução da paridade entre as 16 principais moedas. Constatou que, entre elas, a brasileira foi a que mais sofreu com o calote argentino. Perdeu 0,8% em um dia, acumulando 2,2% de declínio mensal, o mais acentuado desde novembro do ano passado.

Vale a pergunta:
Faz sentido continuar participando de uma sociedade que nos mais emperra do que favorece nosso comércio exterior? O Brasil já tem, por si só, problemas suficientes. Não precisamos adotar problema alheio.

Interligne 28aSalve-se quem puder
O jornal argelino Liberté constata que a iniciativa do Equador de chamar de volta, para consultas, seu embaixador em Israel fez escola. O Brasil, o Chile e o Peru seguiram o exemplo. Por mais que queira, a Bolívia não pode acompanhar o movimento por estar já de relações cortadas com Israel.

Vale a pergunta:
Alguém reparou que, tirando o Brasil, nenhum dos protestatários faz parte do Mercosul? Para que serve uma associação regional que entrava o comércio e baralha a diplomacia?

Anão? Ah, não!

José Horta Manzano

Anao 1Sem paz
No conflito entre israelenses e palestinos, a paz é o que menos parece interessar. A nenhuma das partes calharia bem. Ambos os lados dependem crucialmente da ajuda internacional, que vem dos EUA para Israel e da União Europeia para a Palestina. Se a conflagração sumir do radar, a atenção internacional se voltará para outros pontos e as doações perigam minguar. Convém alimentar o conflito.

Interligne 18c

Resoluções ONU
Dezenas de resoluções já foram votadas na ONU, tanto na Comissão de Direitos Humanos quanto em plenário. Têm sido falatório estéril, de efeito nulo. O Brasil, membro fundador da organização, deveria saber disso. Quando dois insistem em brigar, não há força que se possa interpor.

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O voto de 23 de julho
Nesta enésima votação, os 47 países que compõem a Comissão de Direitos Humanos da ONU votaram da seguinte maneira:

A favor (29):
África do Sul, Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Brasil, Casaquistão, Chile, China, Congo, Costa Rica, Costa do Marfim, Cuba, Emirados Árabes, Etiópia, Filipinas, Índia, Indonésia, Kuwait, Maldivas, Marrocos, México, Namíbia, Paquistão, Peru, Quênia, Rússia, Serra Leoa, Venezuela e Vietnam.

Contra (1):
EUA.

Abstenções (17):
Alemanha, Áustria, Benin, Botsuana, Burkina Faso, Coreia do Sul, Estônia, França, Gabão, Irlanda, Itália, Japão, Macedônia, Montenegro, Reino Unido, República Tcheca, Romênia.

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A escolha brasileira
O mais prudente teria sido abster-se de votar ― foi o que fizeram países mais lúcidos. Sabem que, de qualquer maneira, não vai servir para nada. Diplomacia é arte sutil que não se exerce à luz do sol em mesas com 47 participantes, luzes, câmera e ação. O Brasil decidiu acompanhar a maioria. Até aí, nada de extraordinário. De qualquer maneira, o resultado prático da gesticulação será igual a zero.

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Anao 1O exibicionismo equatoriano
O Equador, que nem parte da Comissão é, chamou seu embaixador em Israel para consultas. Isso, em linguagem diplomática, é demonstração de forte desagrado, degrau que precede o rompimento de relações.

Como vinha do Equador, o gesto não rendeu nem noticia de rodapé em site de segunda classe.

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A imprudência brasileira
O Planalto resolveu seguir o exemplo do pequeno Equador. Chamou de volta seu embaixador em Israel. Foi mais longe: convocou o embaixador israelense em Brasília para expressar-lhe, de viva voz, o profundo descontentamento do Planalto.

É interessante notar o ensurdecedor silêncio brasileiro diante de outras barbaridades tais como prisioneiros políticos em Cuba, lapidação de mulheres iranianas, abate de avião de linha na fronteira russo-ucraniana.

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O descontrole israelense
Tivesse o Brasil se contentado em votar a favor da resolução, o assunto estaria encerrado. No entanto, o fato de ter seguido o exemplo do pequenino Equador, teve o poder de irritar o governo de Israel.

Num espantoso descontrole, o porta-voz do governo de Jerusalém cometeu a arrogância de atribuir ao Brasil o epíteto de «political dwarf» ― anão político. Cá entre nós, e que ninguém nos ouça: o que o homem disse não é mentira. Sabemos todos que a grande diplomacia brasileira começou e terminou com o Barão do Rio Branco.

O problema é que o porta-voz israelense feriu um princípio universal: eu posso falar mal da minha família, mas você, não. Em outras palavras: certas verdades, embora conhecidas por todos, não devem ser ditas em voz alta. Uma fala tem de ser politicamente correta.

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Anao 1As consequências
Com suas palavras, o governo israelense despertou a ira do povo brasileiro inteiro. Nada como um inimigo comum para federar as forças de uma nação.

A empáfia das autoridades israelenses periga surtir efeito contrário ao que eles imaginavam. Pode até reforçar o apoio do povo brasileiro à posição do Itamaraty e do Planalto. Estamos a menos de três meses de eleições gerais. Um povo, quando se sente agredido, tende a renovar sua confiança naqueles que mostram disposição para defendê-lo.

Em resumo: o diferendo com Israel é uma bênção para a campanha de dona Dilma. Bem explorado, o sucedido pode render-lhe a simpatia e a adesão de muitos indecisos.

O banco do Brics

José Ronaldo Saad (*)

A propósito da recente criação do banco CRA, banco do Brics, faço um comentário.

Por mero cálculo aritmético, verifica-se que o rateio do investimento dos cinco países se baseou na média de três índices: população, PIB, renda per capita. O aporte de cada um foi (em bilhões de dólares): China: 41, Índia: 18, Brasil: 18, Rússia: 18, África do Sul: 5.

A criação de nosso banco de desenvolvimento não está longe. by Paresh Nath, desenhista indiano

A criação de nosso banco de desenvolvimento não está longe.
by Paresh Nath, desenhista indiano

Ocorre que o terceiro índice (renda per capita) teria de ser descartado por dissimular uma falácia. Como ele é a relação entre PIB e população ― já devidamente computados nos dois primeiros critérios ― sua consideração é redundância equivalente ao notório expediente de “dar com uma mão para tirar com a outra”.

Ou seja, neste último indicador a população entra como denominador de uma fração, diminuindo sensivelmente o correto aporte dos países mais populosos ― a China e a Índia ―, justamente os gigantescos países asiáticos que mais precisam da infraestrutura para a qual o fundo foi específicamente criado. Hermanos vizinhos!

A média legítima seria obtida se se levassem em conta unicamente população e PIB. O rateio deveria ficar assim (em bilhões de dólares): China: 52.4, Índia: 26.3, Brasil: 10.3, Rússia: 9.0, África do Sul: 2.0.

Chegamos a um acordo para um mundo multipolar. by Paresh Nath, desenhista indiano

Chegamos a um acordo para um mundo multipolar.
by Paresh Nath, desenhista indiano

Como ficou, a China e a Índia deixaram de aportar 11,4 e 8,3 bilhões (22% e 32% de vantagem). Brasil, Rússia e África do Sul, investiram a maior 8, 9 e 3 bilhões respectivamente, chegando a 75%, 100% e 150% de desvantagem.

Não é à toa que os indianos são os maiores matemáticos do planeta. E adivinhem quem será o primeiro presidente?

Mais uma copa perdida?

in Tribuna da Imprensa, 16 jul° 2014.

A insensatez

José Horta Manzano

As palavras têm peso. Quanto mais elevada for a posição de quem as exprime, maior será o impacto do que disser. Nem todos os dirigentes se dão conta disso.

Muito tempo atrás, o mundo era dividido entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos. O Brasil se situava entre estes últimos. Um dia, já faz uns 40 anos, chegou-se à conclusão de que a expressão subdesenvolvido era pesada e infamante. Foi substituída por em desenvolvimento. Na prática, nada mudou: nosso país continuou na mesma categoria.

Mais recentemente, firmou-se a convicção de que uma meia dúzia de países subdesenvolvidos ― oops, em desenvolvimento ― pesavam mais que os outros. Foi-lhes atribuído outro epíteto. Passaram à categoria de potências emergentes. Entre os promovidos, ainda que fosse pela macicez de sua população, figura o Brasil.

Interligne 18c

Um avião de linha caiu ontem na Ucrânia. Despencou justamente numa zona conflagrada, nos confins do país, a poucos quilômetros da fronteira com a Rússia. Segundo especialistas, é forte a probabilidade de que o aparelho ― que explodiu em voo ― tenha sido vítima de míssil terra-ar.

Cada um tem seu palpite sobre o que possa ter ocorrido: erro, distração, ataque proposital. Uns acham que o exército ucraniano possa ter disparado o foguete mortífero. Outros garantem que isso só pode ser obra dos insurgentes ucranianos pró-russos. Ainda há quem veja o dedo de Moscou por detrás do desastre.

Dificilmente saberemos nós, meros mortais, o que realmente aconteceu. Ainda que se descubra ― ou já se saiba ― como foi, é pouquíssimo provável que a verdade seja um dia revelada à larga.

Os grandes deste mundo já se pronunciaram sobre o acidente. Barack Obama, François Hollande, Angela Merkel & companhia se limitaram, como manda o figurino, a declarações de pesar e a condolências dirigidas à família das vítimas.

Nossa presidente não se esquivou. Afirmou que o governo brasileiro não deverá se manifestar sobre a queda do avião. Manifestar-se para dizer que não vai se manifestar já é, em sim, incongruente. É como aquele sujeito que bate à sua porta para dizer que hoje não vai poder vir. Mas dona Dilma foi mais longe.

Dilma Rousseff & Vladimir Putin

Dilma Rousseff & Vladimir Putin

Esquecendo-se de que a expressão «potência emergente» inclui a ideia de «potência», soltou palavras pra lá de desconcertantes. Além de manifestar-se para dizer que não ia se manifestar, acrescentou que, segundo órgãos da imprensa, «o avião derrubado estava na rota da volta do presidente Putin. Hora e percurso coincidiam. O míssil seria, então, dirigido ao avião presidencial».

É raro que um chefe de Estado se arrisque tanto em situação tão incerta. Incapaz de liberar-se de seu complexo de vira-lata, a chefe do Brasil-potência não se deu conta de que sua fala é analisada com atenção em chancelarias estrangeiras e jogou pesado. Insinuou que inimigos do senhor Putin estariam por detrás do atentado. Naquela região, de inimigos, o senhor Putin tem um só: o governo constituído da Ucrânia, eleito há poucos meses.

A ousadia de quem soprou essa extravagante mensagem a nossa incauta presidente nos põe numa saia pra lá de apertada. A chefe do Estado brasileiro ― voz oficial da nação! ― acusa, por meio de um circunlóquio, que Kiev tentou assassinar o presidente da Rússia.

Essa desajuizada declaração é um desastre diplomático. Demonstra mais uma vez, se ainda fosse necessário, que a cúpula instalada do Planalto não leva jeito para dirigir nosso País.

Mais dia, menos dia, russos, ucranianos pró-russos e ucranianos antirrussos vão acabar se entendendo. A conflagração vai logo ser coisa do passado, que não interessa a ninguém que se eternize. Feitas as pazes entre os beligerantes, sobrarão três grandes vítimas do evento.

A primeira, naturalmente, são os que viajavam dentro do aparelho derrubado. Vítimas inocentes que ― e é isso que nos consola ― devem ter expirado na hora, sem tempo de se dar conta do que acontecia.

A segunda vítima deverá ser a companhia aérea malaia. Tendo em conta que um de seus aviões já desapareceu misteriosamente quatro meses atrás, este novo golpe periga ser fatal para a empresa.

A terceira vítima, por obra e graça de nossos preclaros dirigentes, será a relação entre o Brasil e a Ucrânia. E tudo por causa de palavras levianas pronunciadas ― sem a menor necessidade ― por nossa presidente. Quanta insensatez!