Ganhadores, perdedores

José Horta Manzano

Donald Trump deve estar tiririca com Benjamin Netanyahou, o sanguinário primeiro-ministro de Israel. Tendo já visitado Trump seis vezes só neste segundo mandato, o israelense teve tempo suficiente para convencer o vaidoso americano de que tinha bolado um plano infalível para erradicar os aiatolás do Irã e lá instalar um regime pró-americano.

O projeto consistia em esperar que a alta cúpula estivesse toda reunida – aiatolá supremo e as mais altas autoridades. Nesse instante, de surpresa, o palácio onde se reuniam seria reduzido a pó, não deixando a mínima chance a nenhum dos participantes. Eliminados os chefes, acreditava o israelense, o regime ruiria, permitindo que o povo se sublevasse e exigisse a instalação de novo regime. Desta vez, pró-ocidental e filoamericano.

Já salivando de antegozo, Trump comprou a quimera. Parecia, de fato, jogada garantida. Só que nem sempre os planos seguem o roteiro. Às vezes, descarrilam. O palácio em que deliberavam os donos da ditadura foi, de fato, bombardeado e transformado em pó. O regime ficou acéfalo. Só que… não caiu. Qual imortal Hidra de Lerna, duas cabeças novas crescem imediatamente no lugar de cada cabeça decepada.

Além disso, o Irã tinha guardado no bolso uma capacidade de reação agressiva que não tinha sido usada até hoje. Seus mísseis mostraram pontaria bem superior à daqueles que tinham sido lançados sobre Israel quando da guerra de Gaza. Apareceram ainda seus temíveis drones de ataque, feitos de lata barata, mas terrivelmente eficazes. Americanos e israelenses levaram um susto grande. Apesar da vanglória de Trump, todo o poderio do maior exército do mundo foi incapaz de deter a ousadia iraniana.

O objetivo maior da guerra, que era, para os EUA, de pôr a mão sobre as reservas de gás e petróleo do Irã por intermédio de um novo regime amigo, ao estilo venezuelano, foi por água abaixo. Apoderar-se do estoque iraniano de urânio enriquecido foi outro objetivo que gorou – o material nuclear continua bem guardado nas montanhas persas. Para os agressores, o EUA e Israel, pode-se dizer que o esforço de guerra deu chabu. Os fogos não eram Caramuru.

Agora vamos conhecer os ganhadores e os perdedores.

Estados Unidos – Perderam tudo sem ganhar nada.
Perderam bilhões de dólares em dois ou três meses de deslocamento de porta-aviões, submarinos, navios de guerra, milhares de soldados, mísseis lançados, aviões de caça, drones, bombas. Sabe quanto custa um dia de deslocamento da armada americana? Eu também não sei, mas a conta deve passar dos bilhões por dia, se não for por hora.

Além disso, visto que todos os eleitores americanos não têm necessariamente o cérebro entupido ou fanatizado, o capital eleitoral de Trump deve estar hoje mais baixo do que estava antes da guerra. A infeliz aventura iraniana pode vir a custar-lhe as eleições de meio de mandato.

Quem sabe até a ducha fria acaba tirando da cabeça de Trump essa ideia de jogar bomba em país alheio. Pelo menos por enquanto.

Israel – Perdeu tudo sem ganhar nada
Para Israel o Irã representa um perigo existencial, visto que os aiatolás nunca esconderam seu desejo de eliminar o estado judeu. Logo, era Israel o maior interessado em derrubar o regime hostil da antiga Pérsia. Conforme vimos acima, não conseguiram. De quebra, Trump vai, durante algum tempo, guardar ressentimento contra seu colega Netanyahu por seu convite para uma guerra sem pé nem cabeça, sem plano e sem objetivo.

Irâ – Perdeu bastante, mas também ganhou
O Irã apanhou muito, perdeu a cúpula do regime, perdeu praticamente toda a sua aviação militar e sua marinha de guerra – é sempre mais fácil esconder urânio que aviões ou navios. Perderam pontes, edifícios, milhares de cidadãos incluindo crianças.

Por seu lado, o Irã ganhou respeito. Objeto de chacota até outro dia, o país deixou de ser olhado com desdém. Não fosse a opressão e a crueldade com que o regime trata seus cidadãos, o Irã passaria para o lado dos países de bem, simpáticos mas maltratados pelo Ocidente, como Cuba e Venezuela.

No frigir dos ovos, o próximo que tiver ideia de se meter com o Irã vai pensar duas vezes.

Drone a preço de banana

Drones “a preço de banana”

José Horta Manzano

A prepotência e a ignorância são defeitos feios. Quando se dão as mãos e se juntam numa só pessoa, e se esse indivíduo for um líder poderoso, saia da frente: esse sujeito tem tudo para se tornar perigoso. Se tiver gênio violento, então, é pior. O distinto leitor e a graciosa leitora já sabem de quem estou a falar; é isso, do impagável Donald Trump, presidente dos outrora reverenciados Estados Unidos.

Sabemos a marca de excelência deixada por líderes como Churchill, De Gaulle e Mandela, que eram gente “do bem”. Sabemos também a repulsa deixada por ditadores como Stalin (o russo), Hitler (o alemão) e Idi Amin Dada (o ugandense), gente “do mal” que mandava e desmandava em regime ditatorial. Já na história dos grandes países democráticos, não se tem notícia de um chefe de Estado (e de governo) que tenha agido como Trump.

De fato, a personalidade do líder americano reúne violência, prepotência e ignorância, uma receita explosiva. A esse coquetel de qualidades adversas, se poderia acrescentar a teimosia.

Quando ele assumiu o poder clamando que acabaria com as guerras do planeta, pensava sobretudo em acabar com a invasão da Ucrânia pelas tropas russas. Não tendo tido o cuidado de analisar os antecedentes da guerra, imaginou poder passar por cima do país agredido e convencer Putin a retirar suas tropas. Tentou, convidou o russo a um encontro no Alaska, apregoou que estava tudo encaminhado. Mas não estava. O conflito contiua matando gente, e Trump largou o osso.

Faz um mês hoje, deu início a nova guerra, desta vez no Irã. O objetivo declarado era derrubar o regime, liberar o povo de um jugo violento e desumano, e suspender por completo o programa atômico do país. Imaginou que, decapitando o governo, o resto cairia por si só. Se tinha dado certo na Venezuela, por que não daria no Irã? Só que não deu. Por detrás da fachada, Trump descobriu uma organização do Estado calcada na estratégia militar: caído um soldado, surge imediatamente outro para substituí-lo. E assim por diante. Diferentemente do que Trump imaginou, nunca há vácuo de poder.

O extermínio dos cabeças do regime não alterou em nada a determinação dos que vinham atrás. Pior: uma agressão estrangeira é a melhor maneira de aglutinar o apoio popular. A massa de habitantes que hoje apoia o governo central há de ser bem maior que antes do começo da guerra. A ignorância de Trump e sua teimosia em tomar decisões pessoais sem consultar ninguém levaram um baque pesado desta vez. Ninguém sabe como ele vai conseguir sair desse atoleiro.

Invasão terrestre? Nem pensar! O Irã tem quase 100 milhões de habitantes espalhados por um território maior que o estado do Amazonas, todo constituído de vales espremidos entre altas montanhas, árido, quente. Daqui a um mês, temperaturas diurnas de 40°C ou 45°C já vão começar a ser registradas – e isso vai até outubro. Quem é que vai invadir a pé um território assim? Em cada curva da estrada, uma saraivada de metralhadora pode descer lá do topo. Impensável.

E agora, Mr. Trump? É verdade que ele sempre inventa lendas de vitória e de conquista, dirigidas a seu público. E seu público engole todas, como se verdade bíblica fossem. O resultado final, seja qual for a continuação do conflito, será positivo para o Irã e negativo para os EUA.

O Irã, país até outro dia olhado com certo desdém por causa dos aiatolás e de sua repressão sobre a população, subiu no conceito universal. Ironicamente, nem precisaram de bomba atômica para enfiar o agressor mais poderoso do mundo numa sinuca de bico. O país mostrou ser bom de briga. Não é amanhã que algum outro potentado ousará tomá-lo pela força. Como efeito colateral, encomendas de drones “a preço de banana” vão chover assim que a guerra acabar.

Quanto aos Estados Unidos, esta guerra vai-lhes ficar na História como um segundo Vietnã. Bem mais curto, menos sangrento, mas sempre estigmatizante. Uma guerra que não terá dado certo.

A democracia resiste

by Marcos “Quinho” de Souza Ravelli (1969-), desenhista mineiro

 

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 28 janeiro 2023

Há sinais de recuperação da democracia ao redor do globo. Embora tímidos, acanhados e quase imperceptíveis, apontam para o lado positivo. Vamos a alguns deles.

A China, entre os países importantes, é o que tem o regime mais controlado e hermético, apesar de ser mais autoritário que comunista. Na comparação, a vida na Rússia – país onde até o vocabulário do cidadão é escrutado pra vigiar que nunca associe o nome ‘Ucrânia’ à palavra ‘guerra’ – parece solta e jovial.

Pois foi essa China que nos deu, no fim do ano passado, inesperada mostra de que o rigor das regras sociais pode ser afrouxado pela pressão popular. Quase três anos de confinamento estrito, por motivo de covid, estavam fazendo mal à economia e, sobretudo, à população. Parece que a transmissão dos jogos da Copa do Mundo deu origem à ira popular. A visão de estádios cheios de gente sorridente e sem máscara foi a gota d’água. Manifestações de indignação se alevantaram nas metrópoles chinesas, com coro de “Fora, Xi Jinping!” – afronta insuportável. Poucos dias bastaram para o rigoroso regime de “covid zero” ser abolido.

No Irã, faz meses que a população manifesta seu desagrado com o rigor da ditadura dos aiatolás. O triste destino de uma jovem que morreu enquanto detida pela polícia da moralidade pelo motivo de não usar direito o véu obrigatório foi o estopim da revolta popular. Dia após dia, a obstinada e corajosa juventude iraniana manifesta nas ruas sua insatisfação com o regime. A dura repressão já deixou centenas de cadáveres, mas a ira da população tem se mostrado à altura da mão pesada do governo. Em mais de quarenta anos de regime teocrático, é a primeira vez que o povo se queixa com tal intensidade. Pode bem ser o primeiro passo para a queda da ditadura.

Nos EUA, o campo antidemocrático liderado por Donald Trump sofreu profundo revés nas eleições de “mid-term”. Quando todos já se resignavam de assistir a uma arrasadora onda de eleitos trumpistas, o eleitorado democrata deu um sobressalto e limitou as perdas. A volta do bilionário à Presidência ficou um pouco mais problemática.

Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni vem se saindo melhor que o figurino. Ao assumir a chefia do governo, abjurou Mussolini e o fascismo, regime pelo qual havia demonstrado simpatia no passado. Juntou-se aos demais países da Otan e deu seu apoio ao envio de armas para que os ucranianos defendam seu território contra o invasor russo. Em uma palavra, a Signora Meloni civilizou-se. Fez desaparecer o lado assustador da extrema-direita. Caminha na boa direção.

No Brasil, as últimas semanas de 2022 e as primeiras deste ano foram turbulentas. Jair Bolsonaro, quando presidente, passou anos prevenindo o distinto público de que, se não fosse reeleito, se insurgiria contra o resultado das eleições. Numa preparação do que estaria por vir, chegou a avisar, ao corpo diplomático lotado em Brasília, a vulnerabilidade de nossas urnas eletrônicas.

Quando as eleições chegaram e o capitão foi derrotado, forte apreensão tomou conta da população não fanatizada. E agora? Será que o perdedor nos condenará a regredir a uma era de botas na calçada e brucutus no asfalto?

Em outros tempos, talvez a pólvora tivesse assumido o protagonismo e o país tivesse de novo mergulhado nas trevas. Numa mostra de que o horizonte nacional já está desanuviado de aventuras desse tipo, Bolsonaro emburrou, enclausurou-se no palácio e lá ficou dois meses – calado para o público externo, mas certamente ativíssimo na preparação do sonhado golpe.

O resto, todo o mundo sabe. Bolsonaro fugiu, e o 8 de janeiro viu o “Exército da Loucura” em ação. Quebraram vidros, mas não quebraram a lealdade de uma maioria de fardados responsáveis. Derrubaram peças de arte, mas não derrubaram a Lei Maior. Subiram no alto de palácios, mas não atingiram o topo do poder. O Brasil balançou mas não cedeu.

Agora, o espetáculo que nos proporcionam um ex-presidente homiziado no exterior, invasores rastaqueras na cadeia e financiadores acuados traz uma lufada de ar puro a nossa nação. É a prova de que, na hora agá, nossa democracia não se rompeu.

Tuíte – 1

José Horta Manzano

Semana que vem, começa o Ramadã, o mês sagrado dos maometanos. Depois disso, logo chegará o tempo das peregrinações, quando milhares viajarão até Meca, o que significa uma multidão de fiéis. A covid-19 vai nadar de braçada. Autoridades religiosas ficaram na dúvida entre deixar viajar ou mandar assistir por vídeo. No Irã, o aiatolá Khomeini, guia supremo e manda-chuva do país xiita, ordenou que todos fiquem em casa. Nada de viajar. Até ele entendeu que coronavírus não é gripezinha.

O Irã e o míssil

José Horta Manzano

Nos tempos atuais, o Irã é um dos países mais vigiados do planeta. Qualquer bombinha de São João que estoure será ouvida, analisada, registrada, perscrutada, estudada. E a informação ainda será arquivada para uso futuro.

Milhares de satélites circulam em volta do planeta. Muitos deles são dedicados à espionagem. Quantos? Impossível saber; normalmente os Estados não costumam deixar filtrar informação sobre os próprios espiões. Seguramente algumas dúzias desses aparelhinhos estão continuamente espionando países como a antiga Pérsia – que, desde 1935, convém chamar Irã.

Como é possível que o alto comando dos aiatolás tenha imaginado sustentar por muito tempo a versão de que o avião ucraniano tinha se espatifado por problemas mecânicos? Antes que o míssil iraniano(*) atingisse o aparelho, já devia estar nos radares de satélites bisbilhoteiros. É evidente. A tentativa de botar nos outros a culpa pelo erro imperdoável era manquitola, esfarrapada. Não enganou ninguém.

A teocracia explicada:
“Vocês votam, Deus decide.”
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

É assustador constatar que, naquele país, míssil capaz de derrubar avião pode ser lançado com tal leviandade. Quer dizer que basta apertar um botão pra mandar pro paraíso duas centenas de nossos semelhantes? Não há filtros de contenção de doidos nessa fieira de comando militar?

Quando se veem absurdos desse calibre, compreende-se a apreensão com que o mundo civilizado cuida de impedir o Irã de fabricar bomba atômica. Imagine por um momento que, no lugar do míssil convencional, estivesse um artefato nuclear. Sente a catástrofe?

Numa região constantemente em ebulição, quando se tem pela frente uma corrente de decisões tão frouxa e pouco confiável, ter bomba atômica é tremenda ameaça. Proibir aquele país de fabricar artefatos nucleares não é birra; está em jogo a segurança do planeta.

(*) Circula a notícia de que o aparelho não foi atingido por um, mas por dois mísseis. Nada muda; a conclusão é a mesma: deixar bomba na mão dessa gente é temerário.

Sem vinho, nada de almoço

José Horta Manzano

A tolerância ‒ que alguns, equivocadamente, confundem com preconceito ‒ é um dos pilares do processo civilizatório. Tolerar a diferença alheia não quer dizer aderir a ela.

Significa esforçar-se por conviver com ela. Exigir que todos ajam e se comportem como nos agrada é dar mostra de intolerância no mais alto grau. É atitude que polui o relacionamento entre as gentes. Guerras deflagradas por motivos de intolerância religiosa já mataram milhões.

Itália: estátuas ocultadas

Itália: estátuas ocultadas

O Irã, país que até o mês passado estava banido do mundo civilizado, passou por uma lavagem a jato ‒ sem trocadilhos. De supetão, os pecados foram perdoados e o país se viu reintegrado no convívio planetário. Uma ressureição instantânea.

No entanto, não convém acreditar em milagres. Nada se transforma de golpe. Assim como o grão de milho, depois de virar pipoca, guarda alma de cereal, os dirigentes da república islâmica não perderam o inconfundível viés autoritário, despótico até.

Hassan Rohani, líder religioso, é o sucessor de Ahmadinedjad na presidência do Irã. Na esteira da anulação das sanções econômicas que pesavam sobre seu país, visitou Itália e França, esta semana, para reatar relações comerciais.

Dando prova de que tolerância é conceito desconhecido na alta cúpula de Teerã, o medalhão exigiu que, nas refeições, o cardápio fosse halal(*) e que bebidas alcoólicas não fossem postas à mesa.

França & Irã: reunião de trabalho

França & Irã: reunião de trabalho

A Itália dobrou-se à imposição dos visitantes. O tradicional copo de vinho foi substituído por água. Mais que isso, esculturas do Capitólio romano mostrando corpos desnudados foram ocultadas.

Já na França, menos disposta a vergar-se, o banquete programado foi simplesmente cancelado. Sem vinho, nada de refeição. O cerimonial francês julgou a exigência inadmissível. A delegação iraniana almoçou separada dos demais.

François Hollande 8A meu ver, a decisão de Paris foi acertada. Note-se, aliás, que as normas ocidentais de etiqueta impõem que homens se apresentem em reuniões e à mesa com a cabeça descoberta. Assim como o turbante do visitante foi tolerado, cabia ao dignitário aceitar que os franceses acompanhassem a refeição com a bebida à qual estão acostumados. Cada um se serviria de vinho ou de água, conforme lhe apetecesse.

É um toma lá dá cá necessário. A tolerância ensina que cada um deve dar um passo em direção ao outro. Embora tenha progredido, a cúpula iraniana mostra que ainda não chegou lá.

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(*) Diz-se refeição halal daquela em que as carnes provêm de animais abatidos segundo as normas da charia, o conjunto de preceitos maometanos.