Escolha de ministro do STF

José Horta Manzano

Conflitos são desagradáveis, mas têm, às vezes, seu lado bom. Como todos já se deram conta, Executivo e Legislativo andam às turras desde o começo do ano. Hostilidade solta faíscas, mas pode também exalar algum resultado produtivo.

Um exemplo acaba de surgir. É notório que senhor Eduardo Cunha, presidente da Câmara, não é, digamos assim, o melhor amigo de nossa presidente. Pois o medalhão mandou desengavetar um projeto de emenda constitucional que estava bloqueado fazia tempo.

STF 2A PEC 342/09 propõe modificar alguns parâmetros do cargo de ministro do STF. Aprovada, é mais que provável que venha a desagradar profundamente à presidente. Dois são os pontos notáveis cuja alteração é proposta: forma de designação e duração do mandato dos nomeados.

É indisfarçável que o intuito principal é tirar do Executivo o poder de apontar, sozinho, os ministeriáveis. Até aqui, de fato, cabe à presidência da República a prerrogativa de indicar o escolhido. A sabatina pela qual o ungido deve em seguida passar, diante dos parlamentares, costuma ser mera formalidade. Não me ocorre nenhum caso de reprovação. Nem mesmo de postulante que tenha ficado pra segunda época.

O outro ponto crucial diz respeito à duração do mandato que, pela regra atual, é vitalício, tornando o ministro virtualmente inamovível. A muitos, vitaliciedade pode combinar com monarquia, mas destoa no regime republicano. Mais que isso: em princípio, a idade mínima para nomeação é de 35 anos, com demissão compulsória aos 70. Contas feitas, um mandato, pelas regras em vigor, pode durar teoricamente 35 anos, tempo que alguns consideram demasiado longo.

STF

A prerrogativa concedida a um só indivíduo – o presidente da República – de designar membros do colegiado que chefia um outro poder quebra o equilíbrio republicano. Para eliminar o carimbo autocrático, a PEC propõe que, dos onze ministros do STF, cinco sejam indicados pelo presidente da República, dois pela Câmara, dois pelo Senado e dois pelo próprio STF.

O projeto entende também que a vitaliciedade deve ser abolida. Em seu lugar, propõe um mandato de 11 anos. Único, contínuo e não renovável.

Noves fora inimizades e retaliações entre personalidades do andar de cima, a ideia não me parece má. Vai no bom sentido para amenizar o atual desequilíbio entre poderes.

Depois do caos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 mai 2015

Mês passado, neste espaço, sugeri a Dilma Rousseff convocar um plebiscito. Matéria para consulta popular há de sobra, fato que deixaria a presidente à vontade para escolher a que lhe conviesse. O ponto crucial, a não descurar sob hipótese alguma, seria deixar bem claro que sua permanência no cargo estaria vinculada ao resultado da consulta popular. Pisar em ovosApoiada pelos brasileiros, levaria o mandato até o fim, e não se falaria mais nisso – afinal, não se pode chamar eleitores às urnas a cada semana. Se, no entanto, os votantes se atrevessem a rejeitar a proposta, ela renunciaria, pura e simplesmente, ao mandato. Fiel a seu estilo, sairia de cabeça erguida, por decisão pessoal. Ficaria patente que valoriza o nobre sentimento da honra.

Assoberbada de trabalho e sobrecarregada de preocupações, a mandatária não há de ter tido tempo de avaliar a sugestão. Ou talvez, desacostumada a seguir conselhos, tenha decidido manter-se inabalada e inabalável. Cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato.

A vida (não só a da presidente) anda um bocado complicada, convenhamos. A insegurança assusta, incertezas atulham o horizonte. A gente às vezes se sente mergulhado numa autêntica casa de mãe joana, uma espelunca onde todos gritam e ninguém tem razão. Paira no ar a impressão de que conquistas e avanços, que acreditávamos consolidados, andam evaporando num processo inexorável de dissolução.

Dilma ministerio 1Ministro que entra, ministro que sai; mandatária-mor em palpos de aranha e visivelmente isolada; antigos presidentes dando palpites sobre tudo e sobre todos, como se em roda de botequim estivessem; congressistas desacreditados; revelação diária de detalhes novos de roubalheiras antigas. Arre! Tudo contribui para aumentar a desagradável sensação de que o coreto bagunçou de vez. Aos cidadãos comuns que somos, restam o desencanto e, mais que tudo, a certeza de que nos caberá pagar a conta.

Nós, brasileiros, temos tendência a exagerar os aspectos negativos de todo acontecimento. Acentuamos de tal modo a face ruim, que acabamos incapazes de enxergar o lado positivo. Alguns asseguram que essa curiosa peculiaridade está inscrita no tema astral do País. Dizem que assim são as coisas e que é impossível contrariar o carma nacional. Como não sou do ramo, prefiro dar de barato e não comprar essa briga.

OmeletteNão se faz omelete sem partir ovos. Não se constrói o novo sem demolir o antigo. Não se ganha guerra sem travar batalha. O brado da sabedoria popular é incontestável: todo avanço, todo progresso, toda conquista pressupõe a falência da estrutura antiga. Exige mudança. Provoca crise. Abre um túnel que temos de atravessar para chegar à luz do outro lado.

Erramos ao dar exagerada importância à crise, que é passageira. Convém fazer das tripas coração e considerar que o atual momento conturbado é passagem obrigatória que conduz à transformação do modelo exaurido.

Quando se sacode a árvore, os frutos podres se esborracham no chão. É o que está acontecendo. Alguns sinais já sorriem no horizonte. Semana passada, antiga proposta de voto distrital foi aprovada no Senado. Tímido, o projeto restringe a prática a alguns poucos municípios. Mas é passo na boa direção.

Discussão 3«Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar» – sentenciou Nélson Rodrigues. Durante doze anos, afagados pela brisa leve da bonança econômica, estivemos anestesiados. Pouco se nos dava que o comportamento de medalhões fosse tortuoso: tinham todos direito ao apoio negligente e (quase) unânime da nação distraída.

Dissensões pipocam hoje na classe política. A presidente colide com o Senado, que abalroa a Câmara, que esbarra em líderes partidários, que estranham o STF. Não é motivo pra se deixar abater, distinto leitor! Ao contrário, esse cafarnaum é pra lá de salutar. A presença de vulto todo-poderoso na chefia do Executivo, como ocorreu nos últimos anos, empalidece os outros poderes, desequilibra o conjunto e distorce o espírito republicano.

Faixa presidencialA todo presidente com baixa aprovação popular, corresponde um Congresso revigorado. Parlamento fortalecido e voto distrital são notícias auspiciosas. Afinal, se a presidente foi eleita com o voto de metade dos eleitores, o Congresso representa a totalidade dos brasileiros.

Não nos deixemos abater pelas nuvens escuras que encobrem o sol neste momento. Que desabem, que se precipitem e que se dissipem. Bom marinheiro ensina que, depois da tempestade, é garantido: vem bom tempo.

O sal e o salário

José Horta Manzano

Em São Paulo, professores em greve despejaram sacos de sal em frente ao prédio da Secretaria da Educação. O simbolismo, ligado ao pedido de aumento de ordenado, é claro: a palavra salário deriva de sal.

Até aí, poderia até ser engraçado. Parece menos agressivo do que o vandalismo cometido semana passada. Naquela ocasião, tentaram arrebentar, com um aríete, a porta do venerando prédio de 1894, obra do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – o mesmo que concebeu o Theatro Mvnicipal.

Manif 16Foi menos violento, sem dúvida, mas nem por isso mais civilizado. Na ânsia de defender seus interesses, manifestantes pouco estão se lixando para eventuais vítimas colaterais de seus atos.

Terminada a passeata, vão pra casa descansar. É aí que entra em cena a figura humilde do limpador de rua que, nesse dia, terá trabalho extra. Sem aumento de salário, por mais que haja sal a varrer.

Tem mais. Os tempos são de penúria hídrica, nome eufemístico para o que se costumava chamar seca. Em tempos de seca braba, até água de reúso entrou em pauta. As toneladas de sal derramadas na cidade entrarão pelos bueiros, passarão pela canalização de esgoto e, fatalmente, se somarão aos outros agentes poluentes para piorar a qualidade da água de rios e reservatórios. É tiro no pé, atitude imbecil.

Secretaria da Educação, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Secretaria da Educação, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Professor é figura importante. A criança tende a ver nele uma referência. Todos nós guardamos lembrança dos mestres que nos guiaram os primeiros passos fora do ambiente caseiro. A gente costuma guardar memória mais viva daquele (ou daquela) que nos ensinou as primeiras letras do que dos muitos que vieram mais tarde.

Professor que participa de depredação de bem público – ou mesmo aquele que apenas aplaude passivamente – está traindo a função que deveria exercer na sociedade. Toda a categoria docente deveria pensar duas vezes antes de se associar a manifestações em que reina a incivilidade. Pega mal pra caramba.

Falam de nós – 7

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Não é qualquer informação que merece um infográfico. Esse tipo de trabalho complementar à notícia escrita é geralmente dedicado a acontecimentos nacionais bem conhecidos.

O portal francês France24 mantém reverenciado canal internacional de tevê de informação 24h por dia. Edita também um site internet. Dedicou, neste 29 de abril, um infográfico ao escândalo da Petrobrás.

Não fosse o desconforto e a vergonha que sentimos com o episódio, aparecer nas manchetes globais seria até motivo de orgulho. Infelizmente, nesse caso, a gente pagaria pra não figurar lá.

Sob o título Les dessous d’un scandale fou – o lado oculto de um escândalo louco –, o infográfico se esforça para resumir, em nove quadros, a complexa história da maior roubalheira já descoberta no Brasil. Traduz o nome da operação como lavage de voiture – lavagem de automóvel. Vale o esforço, mas não tenho certeza de que um leitor não iniciado entenda grande coisa.

Rato 3Os quadros embolam um caudal de informações: nome de gente, nome de cidade, marca de automóvel, nome de empresa. Chegam até aos infelizes roedores que um irresponsável decidiu, outro dia, soltar no Congresso.

Se alguém tiver curiosidade de dar uma espiada, clique aqui.

O maior erro

Cláudio Humberto (*)

Trombar com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha foi, para Lula, o maior erro político de Dilma, cometido por influência de Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Lula acha que Dilma errou ao hostilizar Barack Obama, no caso da espionagem, e a Indonésia, pela execução do traficante Marco Archer. Segundo Lula, Dilma deveria ter feito a visita de Estado a Washington, que ela cancelou, e respeitado as leis internas da Indonésia.

Ao criticar Dilma, Lula esquece um detalhe: a culpa é dele, por dar cartaz ao aspone Marco Aurélio Top-Top, que define a política externa.

(*) Cláudio Humberto, jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Osso duro de roer

Wilma Schiesari-Legris (*)

Percy é o nome do cocker spaniel da minha norinha Cate. Seu pelo é anelado e rebelde, da cor do mel, e contém o mesmo néctar que cora seus olhos. Inevitavelmente, o olhar do Percy é tão humano que, se ele não fosse cachorro pelo focinho e pela cauda, seria gente pelo olhar. Tem um olhar que pede amor, secretamente em silêncio, e sabe como proceder.

Cachorro 20Cate conhece Percy com perfeição e vice-versa. Ela ensinou-lhe a fala dos homens e o afago dos deuses. Quando ela se senta, ele se prostra aos pés da dona e espera aquele gesto tantas vezes repetido que começa pelo olhar: levemente caídos, olhos nos olhos, os seus e os dela!

Depois dessa atenção direta e sem divergência, a mão humana e feminina passa entre as orelhas de Percy, rodeia-lhe a face, sobe outra vez para o alto da cabecinha e se prolonga no dorso do animal, que prefere então sentar-se.

Não se trata de repetição mecânica de afagos e carinhos, mas de uma linguagem altamente pontuada de frases de amor de ambos os lados, declarações tantas vezes repetidas no silêncio mútuo que se instala entre ambos, mesmo quando todos nós falamos e gesticulamos juntos em família.

Percy está atento a tudo o que ocorre em seu redor, mas principalmente concentrado nos passeios manuais que se realizam ao sabor do seu corpo canino. Silencioso e receptivo, leva consigo o lugar do amante que por vezes é do meu filho. Mas Percy chegou primeiro e meu filho Olivier conhece o seu lugar, mesmo na classificação amorosa e conivente que existe entre os três.

Cachorro 19Cate e Olivier vivem em Londres e Percy vive em Guildford, terra onde Lewis Carroll escreveu Alice, lugar arranjado com arte e harmonia, a 50 minutos de Londres, onde a cidade ainda não deglutiu completamente a natureza. É um cão farmer no sentido nobre do termo: um gentle dog!

Para aquecer o corpo sempre em busca de calor, normalmente Percy senta-se perto da lareira acesa quando Cate não se encontra em casa. Quando ela retorna, são outros quinhentos! Ele se instalará onde ela o fizer, sentinela de sua dona, no país das maravilhas. Não se moverá a nenhum momento, sentindo o pelo a deslizar na carícia das mãos que o afagam. A respiração continuará normal entre ela e ele e Olivier os observará, sem sequer rosnar um pouquinho…

Cachorro 21Muito asseado e cheiroso, Percy jamais escalará os sofás e os leitos e sequer dirigir-se-á para o interior dos quartos. Montará a guarda, se for preciso, diante da porta fechada da ama, defenderá sua dona de qualquer tentativa de ataque, esperará que ela se desperte antes de precisar partir, dividirá com ela o breakfast e, se for preciso, tomará com ela o chá das 5, molhando, com ajuda da patinha, o cake no nobre líquido!

E seu coraçãozinho de cão diminuirá de tamanho para aguentar a frequência acelerada que provavelmente estraçalharia seu peito quando Cate se levantar para partir com o Olivier. Uma lágrima triste de cachorro vai escorrer na sua carinha desnorteada e ele vai colar a orelha por cima para disfarçar a emoção.

Despedir-se-ão todos e ele ficará com a mãe de Cate, em busca de um espelho que possa atravessar. – Socorro! Estou atrasado! – e, discretamente, sem poder colocar o curto rabo entre as pernas, engolirá um Lexotan para poder dormir.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Edita o blogue IeccMemorias.wordpress.com.

O mais puro bom senso

Fernão Lara Mesquita (*)

Interligne vertical 11bDepois da violação dos emails pessoais do presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, por hackers russos;

depois da invasão e roubo de dados – a partir da Coreia do Norte – da database da Sony Pictures;

depois da invasão sucessiva dos sistemas de computadores do Pentágono, do Departamento de Estado e da Casa Branca, apesar de 6.200 especialistas do Silicon Valley estarem trabalhando para a National Security Agency (NSA), o Department of Homeland Security, a CIA, o FBI e o Pentágono exclusivamente para evitar tais violações;

a máquina de votar brasileira desponta no panorama universal como o único sistema informatizado cuja segurança jamais foi violada.

Urna 2Os eleitores brasileiros podem, portanto, dormir tranquilos. Podem seguir dispensando qualquer prova física do que realmente depositaram na urna para entregar os destinos do país, da segurança da pátria e das riquezas nacionais aos bem-intencionados grupos politicos que concorrem a cada quatro anos. Podem seguir confiando exclusivamente na supervisão desse processo por uma empresa de softwares venezuelana.

Faz todo sentido. É do mais puro bom senso

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.

Quem diria

José Horta Manzano

Panelaço 1O próprio de um partido que nasceu com vocação para defender os trabalhadores é exatamente advogar em favor de seus tutelados, os que trabalham. E qual é a data mais emblemática de exaltação da classe laboriosa? O primeiro de maio, cáspite! De Moscou a Pequim, de Paris a Buenos Aires, a Festa do Trabalho é dia dedicado a mostrar conquistas e a expor anseios.

Desde os tempos de Getúlio Vargas, dirigentes brasileiros valeram-se da data para marcar presença e para mostrar quão identificados estavam com a causa dos que vivem do trabalho – a maioria dos cidadãos em suma. Não é ocasião que se perca.

Vaia 1Pois este ano, nossa presidente não ousará se mostrar diante de microfones de rádio nem à frente de câmeras de tevê. Desprezada e desprestigiada, foge de vaias, apupos e panelaços. Manda dizer que não está.

C’est tout un symbole! – diriam os franceses. É sintomático. É sinal dos tempos. É a comprovação de quanto o Partido dos Trabalhadores se apartou daqueles que eram a razão de sua existência. Como é que pode?

Agrupamentos políticos, quando sentem risco de degeneração, tomam iniciativas para reerguer-se. Mudam de nome, mandam dirigentes para o ostracismo, reconhecem erros, prometem fazer melhor, alteram programas, exibem humildade, mostram que se estão transformando.

Panelaço 2O partido ao qual (ainda) é afiliada nossa presidente é altivo e arrogante demais. Obstina-se a negar a evidência. Garante que nunca se desviou do caminho virtuoso. Recusa-se a encarar a realidade. Saúda membros condenados à cadeia como se heróis fossem. Persiste nos erros que o levaram à perdição e que perigam levá-lo à extinção.

É difícil de entender. Pensando melhor… talvez não seja tão difícil assim. Falta-lhes discernimento. Naquele clube, a limitação da capacidade mental não é exceção: é regra. As poucas ideias «brilhantes» têm vindo de marqueteiros, aqueles mercenários apolíticos que apenas emprestam seu talento contra pagamento. Infelizmente, tais «sacadas geniais» não passam de slogans vazios, sem amanhã, com prazo de validade limitado.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

A cada dia que passa, fica mais claro que o partido, em sua forma atual, não é viável. Se, na primeira Festa do Trabalho deste novo mandato, nossa dirigente já se sente obrigada a esconder-se atrás de um biombo para não sofrer panelaço, como enfrentará a mesma data no ano que vem? E no seguinte? E no outro? Não será fácil para ninguém. Nem pra ela, nem pra nós.

Museu do Lula

José Horta Manzano

Em 12 abril 2012, saía a decisão de mandar construir um museu de 10 mil metros quadrados bem no centro de São Bernardo, na coroa industrial de São Paulo. As obras, orçadas em 18 milhões, seriam financiadas com dinheiro do povo – cofres federais e municipais se cotizariam. O edifício estava previsto para ser entregue em um ano.

No oficial, tencionava-se recriar e homenagear o ambiente borbulhante dos anos 70 e 80, com greves e enfrentamentos, quando o Lula já mostrava dotes de hábil «agitador de massas», como se dizia na época. No paralelo, o intuito não declarado da obra era erguer um monumento à glória e à vaidade de nosso antigo e folclórico presidente. Aliás, desde aquele momento, o deselegante bloco de concreto já ganhou o apelido de Museu do Lula.

Se alguma intenção velhaca já estivesse germinando – penso em malfeitos programados – ninguém desconfiou. Ninguém tampouco se escandalizou com o desperdício de fundos públicos. Afinal, o montante era considerável e poderia ter sido mais bem empregado num hospital, numa escola ou numa creche.

Mas há que se reposicionar no contexto da época. Tenhamos em mente que o Brasil ainda não se tinha dado conta da sinuca em que os governos «populares» o haviam metido. Fosse hoje…

Pausa para deixar passar o tempo.

Interligne 18c

O Globo deste 26 abril 2015 volta ao assunto. Não deu outra. Constata-se que, passados três anos, o arcabouço da obra continua plantado ali, como elefante branco. Com o prazo de entrega estourado há mais de dois anos, suspeitas de irregularidades pesam sobre o empreendimento.

Foto O Globo - Michel Filho

Foto O Globo – Michel Filho

Mato e entulho se acumulam em frente à sede da prefeitura. O funcionário de um posto de gasolina situado próximo à obra revela que há tempos ninguém aparece por ali.

Fica no ar a impressão de que os fundos públicos destinados ao Museu do Lula tenham seguido o mesmo caminho tortuoso trilhado por dinheiro da Petrobrás.

Quantos empreendimentos serão ainda acrescentados à lista de obras suspeitas?

Prisão para todos

José Horta Manzano

by Arnaldo Angeli F°, desenhista paulista

by Arnaldo Angeli F°, desenhista paulista

Na nossa cultura ibero-americana, cadeia é lugar de pobre. Doutores e gente de boa estirpe costumam passar longe desse tipo de constrangimento. Costumavam – é melhor dizer. Antes do mensalão, contavam-se nos dedos os abastados que tinham passado uma temporada no xadrez. Precisavam, como mínimo, ter cometido crime de sangue. De uns tempos pra cá, a coisa mudou drasticamente.

Atualmente, prender gente fina tornou-se banal. Não se passa um dia sem que algum figurão vá em cana. Com algemas, de preferência. Vão para a cadeia tanto «heróis do povo brasileiro» quanto oportunistas chinfrins cujo único (e pequeno) deslize é ter-se aproveitado de uma distração da viúva para meter a mão no dinheiro público.

À vista da calamidade que vem assolando (e assombrando) altas esferas & agregados, antiga questão voltou à ordem do dia: os brasileiros são todos iguais perante a lei ou alguns seriam mais iguais que outros? Em miúdos: gente fina e ralé são obrigados a condividir o mesmo tipo de cela, nas mesmas condições?

Há quem ache que sim. Já outros consideram inaceitável a perspectiva de misturar bandidos de paletó e gravata com malfeitores de chinelo de dedo.

Em rigor, os princípios de isonomia e de igualdade prescritos pela Constituição devem primar sobre interesses de classe e de corporações. Se, quando livres, somos todos iguais, quando presos também deveríamos sê-lo.

by Arnaldo Angeli Filho desenhista paulista

by Arnaldo Angeli Filho
desenhista paulista

Há um braço de ferro em andamento entre o governo federal e o Ministério Público sobre o assunto. O MP questiona a constitucionalidade do artigo do Código de Processo Penal que regulamenta a matéria. Acredita ser inconstitucional reservar cela especial para certos cidadãos – os diplomados por escola dita «superior». Alarmado, o governo defende seus interesses por intermédio da Advocacia-Geral da União. Preconiza que o privilégio seja mantido.

Os jogadores ainda estão em campo, o que deixa em suspenso o resultado.

by Antônio Carlos de Paula Jr. (Junião), desenhista paulista

by Antônio Carlos de Paula Jr. (Junião), desenhista paulista

Quanto a mim, tendo a concordar com o Ministério Público. Muitas ações têm sido tomadas estes últimos anos para aplainar diferenças sociais. Está mais que na hora de extinguir esse privilégio que concede condições de encarceramento diferentes, dependendo do diploma que o condenado possa ter obtido. Se tal discriminação ficava bem um século atrás, o prazo de validade já venceu faz tempo.

As prisões são ruins? Que se melhorem as condições carcerárias. É por aí que se tem de começar.

Pensando bem, a abolição de privilégios reservados a figurões encarcerados é a melhor garantia de que, dentro de pouco tempo, os estabelecimentos penitenciários de nosso País vão melhorar – e muito!

Penúltimo capítulo

José Horta Manzano

Segredo 7Não saiu nem sairá em nenhum jornal. Jamais teremos acesso ao que realmente aconteceu. Mas basta refletir desapaixonadamente para chegar à conclusão de que… aí tem coisa.

Estou falando do mais recente capítulo da (já longa) novela cujo protagonista é Signor Pizzolato. Depois de passar quase um ano em masmorras italianas, o condenado no mensalão está prestes a provar as delícias que o sistema prisional brasileiro reserva para gente bem relacionada.

Ao dar-se conta de que o barco abria água, o esperto cidadão escapou para a Itália, na certeza de que estaria definitivamente a salvo. Pensando bem, talvez a possibilidade de o fugitivo não voltar a pôr os pés em território nacional fosse interessante para outros envolvidos naquele escândalo de roubalheira. Gente ressentida é um perigo: pode até dar com a língua nos dentes.

O confronto com o caso Cesare Battisti tornou-se inevitável. O indulto concedido ao criminoso italiano pelo Lula – num dos atos covardes e constrangedores de seu reinado ruinoso – voltou à tona. Para vergonha de todos nós, voltava à ribalta a desonrosa façanha de nosso aprendiz de tiranete.

Segredo 8Acostumados a ver interesses da nação brasileira desprezados em benefício de interesses particulares de governantes, muitos imaginaram que países civilizados rezassem pela mesma cartilha. Parecia evidente que, em represália contra a indecifrável decisão de nosso guia, a Itália negaria a extradição de Signor Pizzolato. Não foi o que aconteceu.

A Itália «não teve coragem» de dizer não ao Brasil, declarou o advogado do extraditando. Ora, que bobagem. Isso não passa de desculpa de defensor desapontado. A Itália deu uma lição ao Brasil ao mostrar que cada caso é um caso e que atos de retaliação nem sempre combinam com a imagem que países civilizados procuram projetar.

Segredo 5Mas tem mais. A maior lição que o Brasil deve reter é que interesses do governo não devem ser confundidos com interesses do Estado. Governos passam, o Estado permanece. Os interesses do governo são ligados ao bom desempenho eleitoral, à popularidade, à tentativa de agradar. Os interesses do Estado são de longo prazo e vão bem além do espaço de um mandato.

No episódio Pizzolato, o Estado italiano enxergou o que nossos míopes governantes não conseguiram discernir no caso Battisti: um Estado não tem sentimentos – tem interesses. Os ingênuos figurões do Planalto não perceberam que Battisti podia ter sido usado como objeto de escambo com a República Italiana.

Art° 26 da Constituição da República Italiana Suficientemente vaga, deixa aberta a porta para a extradição de nacionais.

Art° 26 da Constituição da República Italiana
Suficientemente vago, deixa aberta a porta para a extradição de nacionais

Tratava-se de excelente ocasião de dizer aos italianos: “Ah, vocês querem o homem? Pois seja. Extraditaremos, mas, em troca, gostaríamos que…” E, nessa hora, recitam-se as condições. Analisa-se em que o Estado italiano pode ser útil ao Estado brasileiro e põem-se as exigências sobre a mesa. É hora de discutir, de negociar, de resolver velhas pendengas.

Escrita 4Broncos, despreparados e presos a uma visão de mundo de adolescente dos anos 60, nossos medalhões não se deram conta de que é assim que o mundo funciona. Ao acolher Battisti, deram vexame. De quebra, o Estado brasileiro não levou vantagem nenhuma.

Como eu disse logo na entrada deste artigo, as tratativas não saíram nem sairão em nenhum jornal. Mas tudo indica que negociações devem ter ocorrido. Não se sabe quais terão sido as concessões, mas alguma vantagem estratégica ou comercial Roma há de ter conseguido. Senão, como explicar o raríssimo fato de extraditarem um de seus cidadãos?

Serendipidade

José Horta Manzano

Você sabia?

Horace Walpole

Horace Walpole

Horace Walpole (1717-1797), filho de primeiro-ministro britânico, herdou o título de Conde de Orford. Dedicou-se à política e à literatura. A depender unicamente de seus escritos, o nome do conde dormiria hoje nas prateleiras empoeiradas do esquecimento. Contudo, Walpole garantiu lugar na história por ter forjado um neologismo em uso até nossos dias.

No fim da Idade Média, tradicional conto de fadas persa tinha sido transcrito em italiano e publicado em Veneza em 1557. Como convinha à época, o nome do livro era longo: Peregrinaggio di tre giovani figliuoli del re di Serendippo. Contava a história da peregrinação de três jovens filhos do rei do Ceilão (dito hoje Sri Lanka). O nome da ilha, em persa, é Serendip, donde a tradução italiana Serendippo.

Ceilão - plantação de chá

Ceilão – plantação de chá

A obra foi vertida para o francês e, a partir daí, para o inglês. Walpole travou conhecimento com a versão inglesa da obra. Inspirado pelas aventuras extraordinárias dos três príncipes, o conde teve a boa ideia de cunhar nova palavra para exprimir a faculdade (ou a sorte) de fazer descobertas por acidente ou por argúcia derivada do acaso. A palavra escolhida foi serendipity, em clara alusão ao nome do reino de Ceilão.

A língua inglesa, descomplexada e despreocupada com hipotéticas invasões estrangeiras, acolheu a palavra sem discussão. Nem todas as línguas, no entanto, têm o coração de mãe do inglês. Alhures, novidades nem sempre são bem-vindas.

O italiano adotou serendipità. O francês oficial resiste até hoje, embora um ou outro dicionário registre sérendipité. A Real Academia Española virou as costas e fez ouvidos de mercador persa. Em algum raro vocabulário castelhano, já encontrei a forma serendipia (dí).

Ilha de Ceilão mapa holandês do séc. XVII

Ilha de Ceilão
mapa holandês do séc. XVII

E em nossa língua, com é que ficou? O Volp – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, respeitado por cultores da língua como se bíblia fosse, ignora a palavra. Levando em conta o fato de ela ter sido criada 250 anos atrás, é permitido imaginar que nunca venha a ser acolhida no seio do venerando manual. Houaiss e outros ignoram o termo. Já o voluminoso (e excelente) Aulete digital o reconhece. Sensato, o luso Priberam vai pelo mesmo caminho.

Ceilão – conceituada variedade de chá

Ceilão – conceituada variedade de chá

Puristas consideram sacrilégio utilizar palavra não sacramentada pelo mui oficial Volp. Data venia, permito-me discordar. O registro no vocabulário da Academia confere, sim, estatuto oficial e valida a existência da palavra. Já o contrário não é necessariamente verdadeiro. A ausência de um termo no elenco não é confirmação de que não exista ou de que seu uso seja condenável.

Ao distinto leitor que se estiver preparando para uma dissertação em concurso oficial, aconselho seguir à risca o vocabulário oficial. Para não perder pontos, mais vale obedecer a quem tem a caneta vermelha nas mãos.

Quanto aos que, como eu, já não têm contas a prestar nesse campo, é permitido lançar mão de neologismos. Principalmente quando resumem, numa só palavra, conceito cuja explicação demandaria duas linhas. Serendipidade, pois.

Interligne 18b

PS: Volto ao assunto em breve.

Classificado

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Anúncio 3Procura-se um interlocutor com urgência.

A pessoa que estou procurando deve ser capaz de responder de pronto e de forma articulada a qualquer questionamento que lhe seja feito, em relação aos mais diversos temas de interesse, desde os mais propriamente filosóficos e existenciais até os científicos especializados, passando por aqueles mais adstritos à vida cotidiana, englobando seus aspectos sociais, econômicos e políticos, nacionais e internacionais.

Anúncio 4A capacidade de demonstrar empatia, de argumentar olhos nos olhos e de adotar uma postura serena diante de temas delicados ou explosivamente polêmicos será considerada um ‘plus’. Dar-se-á preferência ainda aos candidatos que se mostrem confortáveis em agregar a suas respostas um tom de provocação, ironia fina e perspicácia.

Os interessados deverão deixar seu curriculum na portaria. Não serão aceitas candidaturas por meios eletrônicos. A seleção será feita com base no exame das credenciais e em eventuais cartas de recomendação. Não haverá contato pessoal nem entrevista em nenhuma hipótese antes do final do processo e a resposta será enviada por correio.

Paga-se bem.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.