Novos ares na Fifa

José Horta Manzano

Emparelhada com o CIO (Comitê Internacional Olímpico), a Fifa é a mais poderosa organização esportiva do planeta. Sua importância era secundária até os anos 1970. A partir da gestão do brasileiro João Havelange ‒ o único não europeu a ter-lhe ascendido ao topo ‒, a Fifa tornou-se mais e mais potente. E rica.

Sepp Blatter, antigo presidente da Fifa

Sepp Blatter, antigo presidente da Fifa

A popularização da televisão foi determinante no sucesso da entidade. Com os direitos de transmissão, surgiram as firmas patrocinadoras. Coca-Cola foi a primeira, logo seguida por Adidas e outros colossos. Maior número de telespectadores significava maior potencial publicitário. O valor cobrado pelos direitos de transmissão subiram vertiginosamente.

Como se sabe, quanto mais dinheiro houver, tanto maior será o risco de corrupção e rapina. Os assaltantes de nossa Petrobrás deram prova disso. Inexperientes e vorazes, foram tão fundo no mingau que debilitaram a empresa a deixaram em estado pré-falimentar. Mais comedidos, os dirigentes da Fifa lograram agir durante quatro décadas sem abalar a saúde financeira da organização.

Um dia, escancarou-se o que todo o mundo já desconfiava fazia tempo. A corrupção e o compadrio corriam soltos na associação mundial de futebol. Deu no que deu: parte dos cartolas encarcerados, o presidente autodestituído, figurões banidos e os demais atemorizados.

Gianni Infantino, novo presidente da Fifa

Gianni Infantino, novo presidente da Fifa

Uma limpeza tornou-se urgente. Novo presidente foi eleito neste 26 de fevereiro. O escolhido é Gianni Infantino, carequinha simpático de 45 anos. A menos que se trate de louco varrido, é de se supor que não esteja envolvido em tenebrosas transações. O risco de terminar atrás das grades seria demasiado elevado.

Infantino, de quem poucos tinham ouvido falar até hoje, não vem de um passado exclusivamente futebolístico. Filho de imigrantes italianos, nasceu e cresceu na cidadezinha suíça de Brig, no Cantão do Valais. Mais tarde, ao adquirir a cidadania suíça, tornou-se binacional. Poliglota, ganhou duas línguas maternas: o alemão e o italiano. Formou-se em Direito pela Universidade de Friburgo (Suíça). Conhece a língua francesa perfeitamente. Fala ainda inglês, espanhol e árabe. É casado com uma libanesa, com quem tem quatro filhas. Uma figura internacional, como se vê.

Brig ‒ Ulrichen mapa Google

Brig ‒ Ulrichen
mapa Google

Dele, espera-se muito. Para começar, o mais difícil, ou seja, devolver à Fifa a imagem de organização séria e honesta. Vai ser complicado, mas não há outro jeito. Foi escolhido exatamente para essa tarefa. Infantino sabe que seu desempenho estará sendo monitorado por meio mundo. Terá de andar na linha.

Um detalhe curioso o liga a Sepp Blatter, o presidente caído. Ambos nasceram e cresceram no mesmo vale alpino, em lugarejos separados por menos de 40km. Mas não são da mesma família.

Frase do dia — 286

«O fato é que os fundos de pensão são mais um flanco dos já combalidos governos do PT. O relatório final da CPI deve lançar um poderoso slogan para a oposição. Segundo o deputado Efraim Filho, os fundos de pensão escancaram “a face mais cruel dos escândalos petistas, que é roubar do aposentado”.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 26 fev° 2016.

If Trump wins

José Horta Manzano

A ascensão fulgurante de Donald Trump, pré-candidato à presidência dos EUA, está inquietando muita gente. Seu estilo agressivo e arrogante guarda semelhança com o de outros populistas que a história já conheceu. Exatamente como Lula da Silva, o americano especializou-se em acirrar ânimos ao dividir o eleitorado entre os que aprovam e os que rejeitam certas medidas extremadas. É o conhecido método do «nós contra eles», que tantas sequelas nos deixou.

Cape Breton, Nova Escócia, Canadá

Cape Breton, Nova Escócia, Canadá

O pré-candidato surfa na onda perigosa da insegurança que aflige muitos de seus concidadãos. Joga uns contra os outros, estabelece fronteiras entre os bons e os maus, promete paz e felicidade por meio de muros, expulsões e segregações.

O método não é original, muitos já o utilizaram. O problema, no entanto, é agravado pelo peso de seu país na geopolítica. Se más decisões do mandatário do Uzbequistão não ultrapassam as fronteiras do longínquo país, atos e fatos do presidente dos EUA têm eco global e alcance planetário.

Em tom bem-humorado, um radialista canadense da ilha Cape Breton, na província da Nova Escócia, lançou um site despretensioso. Chamou-o cbiftrumpwins.com. O nome embute um atalho para Cape Breton se Trump vencer. O mote é «Não espere que Donald Trump seja eleito para encontrar um outro lugar para morar.»

Cape Breton, Nova Escócia, Canadá

Cape Breton, Nova Escócia, Canadá

O lugar, pelo menos no verão, tem ar paradisíaco com suas vastas extensões verdes, falésias, mar tranquilo, praias desertas e poéticas casinhas de madeira. Exala tranquilidade.

Surpreso, o jornalista constatou inesperado afluxo de mais de 300 mil visitantes numa semana. Embora a ilhota, com seus 10 mil km2, não seja tão minúscula assim, dificilmente suportaria a chegada de milhões de americanos desiludidos com a eleição do bizarro candidato.

Que por isso não seja. Se, por desgraça, o populista chegar lá, outros portos seguros hão de se abrir para acolher os retirantes.

Além da fronteira ‒ 2

José Horta Manzano

Tsunami 2Quando foi deflagrada a Operação Lava a Jato, muitos imaginaram que não passaria de solavanco passageiro, uma marolinha. Presumiu-se que seria respeitada a arraigada tradição nacional de inocentar criminosos de colarinho branco.

Para espanto do cidadão comum ‒ e para «estarrecimento» de figurões, não foi o que aconteceu. Gente graúda começou a ser molestada. Pencas de acusados, alguns de fina estirpe, foram parar no xadrez. Para angústia de muitos, a marolinha converteu-se em tsunami.

O território nacional é vasto. O problema é que, assim como fronteiras não detêm revoada de Aedes aegypti, tampouco barram tsunamis. Vagas ameaçadoras já estão transbordando.

O diário Perú21, um dos mais importantes do país vizinho, traz informação alarmante. O nome do presidente da república andina, Ollanta Humala, é citado nada menos que dez vezes en documentos exumados pela Lava a Jato.

Chamada do jornal Perú21, 24 fev° 2016

Chamada do jornal Perú21, 24 fev° 2016

Seu nome aparece em investigação de irregularidades perpetradas em obras de infraestrutura de bilhões de dólares levadas a cabo no Peru pela brasileira Odebrecht. A suspeita é de que desvios tenham gerado propinas milionárias, distribuídas naquele país.

Embaraçado e inquieto, o presidente convocou, às 11h da noite, o embaixador do Brasil em Lima. A transcrição da conversa não foi publicada, mas tudo indica que señor Humala está à cata de esclarecimentos.

Tsunami 1O braço da PF brasileira, por mais longo que seja, não alcança além-fronteira. Portanto, o «japonês da Federal» não periga algemar o medalhão. Assim mesmo, pode-se apostar que, se as suspeitas forem investigadas como se deve, estará aberta uma caixinha de surpresas.

O Peru pode ser só o começo. Mais está por vir.

Além da fronteira ‒ 1

Cláudio Humberto (*)

Lula caricatura 2Agora mais viajado, o presidente Lula não pagaria o mico outra vez, como na campanha de 1989. Em viagem para ganhar “envergadura internacional”, ele chegou a Lisboa sem agendar encontro com autoridades como Mário Soares, o simpático presidente socialista, que contou a história a um ex-embaixador do Brasil.

Soares estava na Estremadura espanhola, na cidade fronteiriça de Badajoz. Informado da visita de Lula, o solícito Soares telefonou-lhe para as boas-vindas: “Estou cá na fronteira, ó pá!”

“Fronteira com que país?” ‒ perguntou Lula.

Mário Soares desistiu de sacrificar sua agenda para ver Lula. Diz ter ficado chocado com o fato de o candidato a presidente do Brasil ignorar uma lição primária de geografia: Portugal só tem fronteira com a Espanha. E o mar.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Brasil x Bolívia

José Horta Manzano

Enganar-se ao mencionar nome de país acontece aqui e ali. Quando ocorre em âmbito privado, ninguém liga e acaba ficando por isso mesmo. Se o escorregão sobrevem em público, a saia fica mais justa.

Ronald Reagan 1Lembro-me como os brasileiros se sentiram ofendidos quando Ronald Reagan, então presidente americano, caiu na cilada durante um jantar que lhe foi oferecido em Brasília em 1982. A certa altura, o visitante propôs um brinde ao “povo da Bolívia”. Passados mais de trinta anos ‒ e falecidos todos os protagonistas ‒ muita gente ainda se lembra.

Dona Dilma é especialista em artes desse tipo. Troca nome de autoridades, de visitantes, de cidades, de Estados. Não me ocorre que sua tendência à confusão tenha atingido países. Não é tarde demais: ainda há tempo.

Com maior razão, jornais tampouco escapam do perigo. Conceda-se, em desagravo, que notícias são tratadas e trituradas no sufoco. Essa pressa, se não justifica, pelo menos explica a frequência de atentados como o de Reagan.

Chamada do jornal suíço Neue Zürcher Zeitung, 24 fev° 2016 Clique para ampliar

Chamada do jornal suíço Neue Zürcher Zeitung, 24 fev° 2016
Clique para ampliar

O mais recente, que me chamou a atenção hoje de manhã, foi cometido pelo Neue Zürcher Zeitung, de Zurique ‒ jornal suíço de referência ‒ em notícia sobre o referendo convocado por Evo Morales para tentar eternizar-se no poder. Na mesma linha de Reagan, o jornal se enrosca entre Brasil e Bolívia.

Bem, há que relativizar. Pela ótica de um europeu mediano, Brasil e Bolívia não são tão diferentes assim. Diferenciar Paraguai de Uruguai deve ser mais difícil ainda. Mas não podemos atirar a primeira pedra. Qual de nós já não hesitou entre Letônia e Lituânia?

Prêmio Nobel

José Horta Manzano

Hoje parece inacreditável, mas Lula da Silva já foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz. No longínquo ano de 2003, o mundo tinha lançado olhar bondoso sobre o recém-eleito presidente do Brasil. Fora das fronteiras, muitos acreditaram na lisura e nas boas intenções dele e do bando que assumia as rédeas.

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Indicações para o Prêmio Nobel costumam ser dadas por academias e por universidades do mundo todo. O instituto que cuida da escolha dos laureados está aberto a sugestões desde que venham de instituições de alto coturno.

Os nomes sugeridos não costumam ser divulgados. Assim mesmo, em 2003, a insistência de algum jornalista conseguiu arrancar do diretor do Instituto Nobel a informação de que havia 165 candidatos na categoria da Paz. Rumores insistentes davam a vitória de nosso guia como “muito provável”.

Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles

Passada esta dúzia de anos, os medalhões do respeitável instituto devem ajoelhar-se todos os dias, levantar as mãos pro céu e agradecer por terem escapado de saia pra lá de justa. Já imaginaram? Ver um nobelizado encontrar-se, doze anos mais tarde, na mira da Justiça por suspeita de crimes rasteiros ‒ cometidos justamente na época da outorga do prêmio? Ufa, de que sufoco se safaram!

A União Brasileira de Escritores acaba de sugerir oficialmente, para o Nobel de Literatura, o nome de Lygia Fagundes Telles, possivelmente a maior escritora brasileira viva. A veneranda senhora completará 93 anos em abril. A hora é agora.

Torço para que seja escolhida. Faço votos para que a quase catástrofe que teria sido a outorga do prêmio de 2003 ao demiurgo que nos governava não tenha deixado os dirigentes do Instituto Nobel ressabiados.

Marie Curie

Marie Curie

Lembro que cinco de nossos hermanos argentinos já foram agraciados, três dos quais em categoria científica. A pequena Irlanda já viu seis cidadãos subirem ao pódio. Treze cidadãos da diminuta Dinamarca já foram premiados. Índia, China, África do Sul e Rússia ‒ os outros integrantes do Brics ‒ já têm muitas dezenas de cidadãos no quadro de medalhas. O Brasil não tem unzinho.

Gostaria muito que Lygia recebesse a honraria. E sonho com o dia em que conterrâneos nossos começarão a ser brindados em categorias científicas. É capaz de demorar.

Interligne 18h

Para complementar
Marie Curie Skłodowska, cientista franco-polonesa, foi a primeira mulher a receber Prêmio Nobel. E veio para arrasar: ganhou duas vezes e em categorias diferentes! Em 1903, levou o prêmio de Física. Em 1911, arrebatou o de Química. Quem dá mais?

Controle de armas

José Horta Manzano

Você sabia?

Arma 1Nos EUA, a cada nova chacina, volta-se a discutir o controle das armas. Parte dos cidadãos acredita que a disseminação de revólveres, espingardas e fusis é a causa principal das erupções de violência. Já outra parte do povo resiste. Parece que os resistentes são maioria. Reivindicam a liberdade de possuir arma e de portá-la no espaço público.

Por razões que nada têm a ver com as liberdades individuais garantidas pela Constituição americana, tendo a concordar com a «turma da metralha». Em outros termos, não acredito que a criminalidade esteja necessariamente ligada ao número de armas em circulação.

No Brasil mesmo, alguns sintomas nos mostram o caminho. Entrou na moda, ultimamente, assaltar com auxílio de arma branca (faca, punhal, peixeira). Como se pode imaginar, é impossível controlar e limitar a livre circulação de facas: toda cozinha tem. Como se vê, de pouco adianta restringir armas de fogo. Faca também mata.

2016-0221-04 TSRA prova maior é dada pela Suíça. Como sabem meus cultos leitores, todos os cidadãos suíços do sexo masculino cumprem serviço militar obrigatório. Mais que isso, permanecem durante muitos anos como reservistas, sendo periodicamente convocados para treinamento e atualização. Enquanto isso, cada um guarda seu arsenal em casa.

Essa particularidade se alia a uma das paixões nacionais: a prática do tiro ao alvo. Estandes de tiro se encontram por toda parte. Numerosos são os cidadãos que os frequentam uma vez por semana, como quem frequentasse academia de ginástica ou pista de boliche. Vão treinar. Para ir ao treino, cada um leva o revólver ou o fusil que costuma dormir no armário da sala.

Em virtude disso, não é espantoso constatar as estatísticas de posse de armas porem a Suíça em terceiro lugar no mundo. Em primeirão, estão os EUA, com 89 armas por 100 habitantes. Em seguida, vem o Iêmen, com 55. E a Suíça aparece logo depois. De cada 100 habitantes, 46 possuem pelo menos uma arma de fogo.

Suisse 24E nem por isso a taxa de criminalidade do país é mais elevada que em outros lugares, muito pelo contrário. Homicídio é tão raro que, quando acontece, sai no jornal, na tevê e na boca do povo.

Os antigos diziam que o hábito não faz o monge. De fato, a dispersão de armas não cria necessariamente a violência. A quantidade de armas à disposição pode, no limite, potencializar a violência. A criminalidade se assenta em outros alicerces.

Plebiscito ou referendo?

José Horta Manzano

Desta vez, o Planalto tem razão. Quem errou foi a imprensa. Pensam que estou brincando? Pois não estou. Explico.

Quando pipocaram os protestos populares de jun° 2013, dona Dilma propôs uma consulta popular seletiva, algo que a atual Constituição não contempla. O tempo passou, os ânimos se acalmaram e chegou a hora de dar nome aos bois. Afinal, como devia ser chamada a consulta ‒ referendo ou plebiscito?

Especialistas ensinaram. Os mais atentos prestaram atenção e tomaram nota. Até o mui oficial Blog do Planalto aprendeu! A coisa ficou assim:

Plebiscito
É quando se convocam os eleitores a se pronunciar sobre matéria que ainda não foi votada. Assim, o povo é consultado antes que o parlamento legifere.

Referendo
É quando se convocam os eleitores a se pronunciar sobre matéria já aprovada pelo Congresso. Assim, o povo é chamado a aprovar ou rejeitar lei existente.

Mr. Cameron vai submeter a seu povo uma questão sobre a qual o parlamento britânico ainda não se pronunciou. Portanto, trata-se de um plebiscito. Visto que ainda não há lei, não há como referendá-la. Logo, referendo não será.

Nenhum dos três grandes jornais brasileiros fez a lição de casa. Vejam só:

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Estadão

Chamada do Estadão, 20 fev° 2016

Chamada do Estadão, 20 fev° 2016

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Folha de São Paulo

Chamada da Folha de São Paulo, 20 fev° 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 20 fev° 2016

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O Globo

Chamada d'O Globo, 20 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 20 fev° 2016

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Nada mudou

José Horta Manzano

A história da política brasileira registra espantoso fato ocorrido faz mais de meio século. É o caso do senador Arnon de Mello, despachado para o xadrez em 1963. No dia 4 de dezembro daquele ano, no plenário da Câmara Alta, senhor Mello sacou da arma e desferiu três tiros em seu inimigo Silvestre Péricles, também senador.

Bandido 2Em razão da péssima pontaria do pistoleiro, o inimigo não foi atingido. Por desgraça, uma das balas perdidas tirou a vida de José Kairala, suplente de senador, que se apresentava para seu primeiro dia na função.

Os senadores não julgaram conveniente cassar o mandato do colega. Não lhes pareceu que entrar armado na Casa do Povo, atirar e matar um homem fosse motivo suficiente para decretar quebra de decoro parlamentar.

O cangaceiro, acusado de homicídio, foi preso. Poucos meses depois, absolvido pela justiça, voltou ao Senado e reassumiu imediatamente o mandato. Na caradura, cumpriu a missão até o último dia sem ser importunado.

Só para informação: Arnon de Mello, o que atirou num e matou outro, é o pai de Fernando Collor de Mello, o «caçador de marajás» que, trinta anos mais tarde, chegaria à presidência do país. Não caçou marajás nem senadores: foi cassado.

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Senador pelo Mato Grosso do Sul, Delcídio Amaral foi preso em fins de novembro passado. A detenção deixou a República boquiaberta, não tanto por ter atingido pessoa de destaque, mas por estar o senador em pleno exercício do mandato, exatamente como tinha acontecido com senhor Mello meio século antes.

Revolver 2Desta vez, a prisão não ocorreu por crime de sangue, mas por delinquência ligada à corrupção. Assim mesmo ‒ ou talvez por isso mesmo ‒ assombrou a opinião pública. Não obstante, ninguém ousou criticar a medida, nem mesmo a alta cúpula do partido do senador.

No entanto, os fatos mostram que os cinquenta anos decorridos entre a prisão do senador de 1963 e a do senador de 2015 não modificaram as práticas bizarras em vigor no Senado da República. Assim como crime de sangue, tampouco crime de corrupção é motivo suficiente para determinar quebra de decoro. Delcídio Amaral continua dono do mandato.

Senado federal 1Por razões que, no momento em que escrevo, não estão claras, Amaral foi solto após menos de dois meses de cárcere. Uns dizem que teria concluído acordo de delação, outros dizem que não. Pouco importa. O que se constata, de certeza, é que, entre as restrições impostas ao ir e vir do investigado, não está a suspensão do mandato.

Estranha República a nossa. Em países civilizados, por mera suspeita de haver cometido algum «malfeito», qualquer eleito do povo é rejeitado por seus pares que, para eliminar toda suspeita de cumplicidade, o forçam à demissão. Entre nós, a vida segue numa boa.

Daqui a meio século, quem sabe, os eleitores e seus representantes se horrorizarão com a aberração a que estamos assistindo hoje. Quem viver verá.

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Post scriptum:

Chamada d'O Globo, 21 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 21 fev° 2016

Orthographia ‒ 2

José Horta Manzano

Como bem sabem meus cultos leitores, o AO90 ‒ acordo ortográfico assinado 25 anos atrás ‒ entrou em vigor definitivamente, no Brasil, dia 1° jan° 2016. Aqui está a homenagem de G. Passofundo, desenhista gaúcho.

by Geraldo 'Passofundo' Fernandes, desenhista gaúcho

by Geraldo ‘Passofundo’ Fernandes, desenhista gaúcho

Frango oriental

José Horta Manzano

Do Estadão, 19 fev° 2016 Clique para ampliar

Da Folha de São Paulo, 19 fev° 2016
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Povos diferentes têm hábitos culinários diferentes, é natural. Assim mesmo, é um alívio saber que o ensopado não leva raiz de dente nem raiz de cabelo.

O poder do vil metal

José Horta Manzano

Chacinas não fazem parte do quotidiano suíço. Estatísticas mostram que a taxa anual de homicídios voluntários no país não passa de 0,7 por cem mil habitantes. Para efeito de comparação, registre-se que a taxa brasileira é 30 vezes mais elevada, chegando a incríveis 22 assassinatos por cem mil habitantes.

A criminalidade, portanto, não figura entre as maiores preocupações da população da Suíça. Eis por que a matança de quatro pessoas, ocorrida no fim do ano passado no vilarejo de Rupperswil, Cantão de Argóvia, continua nas manchetes nacionais.

Rupperswil, Cantão Argóvia, Suíça

Rupperswil, Cantão de Argóvia, Suíça

Alguns dias antes do Natal, numa casa em chamas, a polícia encontrou quatro mortos. Logo se constatou que o incêndio tinha sido ateado para disfarçar crime maior: todas as vítimas haviam sido mortas a facadas. Eram quatro mulheres: a mãe, duas filhas adolescentes mais uma amiga das jovens.

Sem pistas, a polícia local não tem poupado esforços para elucidar o misterioso crime. Já colheu depoimento de 110 pessoas e já recebeu cerca de 250 testemunhos de outros indivíduos. Dezenas de automobilistas entregaram às autoridades imagens da minicâmera (dashcam) do automóvel. Quarenta policiais trabalham 24h por dia nas investigações. Até peritos suíços e alemães foram chamados para apoiar.

Wanted 1Visto que, decorridos dois meses, o inquérito não saiu da estaca zero, a polícia resolveu sacar o trunfo maior. Promete recompensa de cem mil francos suíços (quatrocentos mil reais!) a quem fornecer indícios que levem à elucidação do enigma. É um patrimônio, minha gente! São boas as chances de desmascarar finalmente o(s) culpado(s) e de entender o que aconteceu.

É o caso de cogitar se não valeria a pena oferecer, com maior frequência, recompensa em dinheiro para elucidar crimes no Brasil. Não precisa chegar a montante astronômico como o de Rupperswil, sejamos modestos! Com bem menos, já é possível destravar línguas. O poder do vil metal é irresistível. Com certeza, ajudaria o Brasil a se afastar da vergonhosa taxa atual de homicídios, digna de país mergulhado em guerra civil.

Mundo globalizado

José Horta Manzano

Este foi operário, líder sindical e, um dia, tornou-se presidente de seu país:

Chamada fa Folha de São Paulo, 18 fev° 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 18 fev° 2016

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Este foi operário, líder sindical e, um dia, tornou-se presidente de seu país:

Chamada de Último Segundo, 8 dez° 2013

Chamada de Último Segundo, 8 dez° 2013

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Qualquer semelhança pode ser… semelhante.

Mal de raiz

José Horta Manzano

Tudo indica que o risco oferecido pelo Brasil a investidores ‒ nacionais ou estrangeiros ‒ se esteja agravando. Importante agência de classificação acaba de rever sua apreciação. Considerando que a situação das finanças nacionais se deterioraram de alguns meses para cá, o instituto rebaixou a nota brasileira a um patamar mais próximo do fundo do poço.

Assalto 9Isso é mau porque importantes capitais ‒ cruciais para um país de baixa poupança interna ‒ tendem a migrar para outras plagas. Toda a mídia nacional captou o perigo. De ontem para hoje, o rebaixo da nota foi a manchete mais saliente em todos os jornais brasileiros.

Na imprensa estrangeira, no entanto, outro fato nacional ocupa espaço maior: o assassinato de turista argentina em Copacabana. Em inglês, francês, alemão, italiano ou espanhol, a notícia deu volta ao mundo.

O fato em si já é alarmante e comovente. Era uma turista estrangeira, pessoa de recursos limitados, cuja grande aspiração era conhecer o Rio. Enfrentou viagem de onze horas de ônibus desde sua recuada província argentina até São Paulo. Mais uma hora de ponte aérea e o antigo desejo se tornou realidade.

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

O sonho, no entanto, virou pesadelo quando energúmenos, no que se supõe fosse tentativa de assalto, trucidaram a moça a facadas. Estava a poucos metros do hotel Copacabana Palace, emblema da acolhida de nível internacional que o Brasil costumava oferecer.

Situação financeira evolui. Basta os analistas enxergarem uma luzinha no fim do túnel para que a nota de avaliação retorne a níveis mais comportados. O mundo das finanças sobe e desce, é gangorra cíclica, nenhum país tem garantia contra sobressaltos.

Assalto 5Já as incivilidades, a violência e a criminalidade não são cíclicas ‒ muito pelo contrário. São permanentes, constantes, progressivas, crescentes. Criam raízes cada dia mais profundas e resistentes sem que ninguém dê grande importância.

Brasileiros se desassossegam com a coincidência de epidemia de zika com os Jogos Olímpicos deste ano. Não é a melhor combinação de fatores, concordo. No entanto, há que lançar visão mais ampla.

Num futuro próximo, vacina terá sido encontrada contra essa doença. E o problema estará resolvido. Bem mais difícil será, desgraçadamente, encontrar vacina contra a criminalidade. É problema mais profundo que não se resolve botando grade e cadeado na frente de casa.

Meu anjo

Anjo 1Myrthes Suplicy Vieira (*)

Conto sempre para as pessoas mais próximas – para as desconhecidas, não, porque não quero passar por louca – que sinto uma forte presença espiritual ao meu lado sempre que tenho de escrever. Na minha cabeça, trata-se de uma figura masculina poderosa, mas cheia de compaixão. Eu o chamo de “meu anjo”.

Não, ele não é um anjo da guarda comum, desses que se esfalfam por aí para salvar seus protegidos de atropelamentos, quedas, incêndios, bala perdida, etc. Ao contrário, ele já me colocou várias vezes no olho de furacões e em muitas saias justas. Não faz isso por maldade, já que é um ser do bem, mas porque gosta de me desafiar. Fica em pé às minhas costas, impávido e solene, esperando para ver se eu consigo contornar sozinha os obstáculos que enfrento no dia a dia e, quando jogo a toalha, entra em ação me acalmando, como se me dissesse “respira fundo e aprende como se faz”.

Anjo 5Ele atua na minha vida como consultor e conselheiro para assuntos linguísticos. Pode ser de ajuda num número incontável de situações, já que é articulado, culto, sábio, poliglota, versátil, dono de saber enciclopédico e está sempre de bom humor.

Ele não fala comigo. Apenas cochicha no meu ouvido as palavras que procuro em desespero quando tenho de redigir algum texto. Sugere termos coloquiais em outros idiomas quando estou às voltas com minhas traduções e quero impressionar. Alerta para as consequências negativas dos meus exageros, mas também me incita a não ter medo de optar por expressões provocativas. Já chegou a me soprar frases inteiras. Muitas vezes o ritmo de seus ditados é tão intenso que eu me sinto mergulhada numa atmosfera de psicografia – ou, melhor dizendo, de “psicodigitação”. Meu único trabalho é tentar copiar com a máxima rapidez possível as palavras que fluem como se estivéssemos conversando.

Anjo 2Não erra nunca. Certa vez, eu estava à beira de um ataque de nervos tentando passar para o inglês um texto muito complexo, fora da minha área de especialidade. Ele então cochichou no meu ouvido uma palavra que eu desconhecia. Aflita e sem tempo para conferir, digitei a palavra e concluí o trabalho. Mais tarde, ao revisar o texto, fui procurar no dicionário a palavra para ter certeza de que ela se encaixava bem na frase. Um arrepio frio percorreu minha coluna de alto a baixo quando constatei que era a palavra precisa, a mais adequada para transmitir com elegância a mensagem que eu queria.

Outra de suas especialidades é inspirar ideias e projetos sempre que minha criatividade está em baixa. Quando meu cérebro se agita para encontrar saídas para situações difíceis com que me deparo, uma lampadazinha se acende magicamente na minha cabeça. Corro para o computador e começo a digitar febrilmente uma série de lembretes – a respeito de autores, livros, conexões com outros temas, etc. – para investigar mais tarde, com calma. Depois, basta acionar um mecanismo de busca qualquer na rede mundial de computadores para encontrar as referências de que preciso ou investigar nos dicionários possíveis significados das palavras que elenquei ou as ilações que precisam ser mais bem compreendidas.

Anjo 4É nesses instantes que meu anjo entra na área de sua máxima ‘expertise’. Coloca no meu caminho uma série de pistas, assim como quem não quer nada. As pistas podem vir sob forma de uma conversa casual com um vizinho ou amigo, uma experiência na natureza, um comportamento inesperado de minhas cachorras, um livro que surge inesperadamente na minha frente, ou até uma reportagem na televisão.

Foi o que aconteceu ontem. Eu tinha ido dormir com uma sensação de impotência e incredulidade frente aos acontecimentos trágicos do dia. Acordei, porém, maravilhada e embalada por um discurso para lá de otimista de meu anjo. Suas palavras eram tão sábias e doces que me pareciam estrofes de um poema. Falava de esperança, incentivava a procurar novos ângulos de visão para atacar velhos problemas, instilava fé na capacidade de adaptação e superação que é típica do humano. Aconselhava a ir além das aparências e descobrir os sentimentos que estão por trás da realidade violenta de nossos dias.

Anjo 3A mensagem que julguei ter recebido e que me encheu de alegria foi, em resumo, a de que é chegado, enfim, o tempo da delicadeza. As reações exacerbadas de tudo e de todos à nossa volta nada mais são do que meros indicativos de que um ciclo se finda. Já não há mais espaço para dicotomias nem para o maniqueísmo. De agora em diante, seremos todos convidados a nos posicionar ao longo de um contínuo que vai do branco ao negro, do masculino ao feminino, da razão à emoção, da certeza à dúvida. Novas nuances de significados se abrirão diante de nossos olhos atônitos. Bem e mal se misturam e se diluem num oceano de possibilidades de aconchego e de tolerância.

Eu, que sempre fui tão catastrofista, mesmo a contragosto me deixo levar por essa delicada cantiga de despertar. Extasiada, ainda sentindo a onda de esperança evolucionária bater forte no meu peito, só consigo torcer para que outros anjos, ao passar por perto, a ouçam também e digam amém.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Escrita automática

José Horta Manzano

Se o distinto leitor imagina que a escrita automática do título é introito de artigo sobre psicografia, devo desenganá-lo. O caso de hoje é mais prosaico.

Falar sem refletir é próprio do ser humano. Ao falar, a gente hesita às vezes, por um instante, em busca de um adjetivo ou de um verbo mais adequado. O mais das vezes, no entanto, as palavras fluem automaticamente. Sai como sai. E é bom que assim seja, senão a comunicação seria difícil.

Avião 3Já a escrita demanda um bocadinho de reflexão. O exercício se complica com a importância do texto. Bilhetinho a ser grudado na geladeira não exige concentração nem volteios, a coisa sai como sai. Pra redação de concurso ou artigo de jornal, a história é outra. Não se deve simplesmente lançar as palavras como nos brotam.

Nem todos se dão conta disso, é uma evidência. Ainda hoje topei com artigo no Estadão ‒ bem escrito, por sinal ‒, que peca por irreflexão. O assunto não é transcendente. Relata-se o bloqueio, por parte do fisco, de bens de conhecido jogador de futebol. Iate e avião confiscados! Ao fechar a matéria, o escriba informa que «a sentença cabe recurso».

Iate 1Escorregou. É usual, em notícia de condenação, explicar que cabe recurso. Com isso, quer-se dizer que a sentença não é definitiva, e que o condenado ainda pode contestar. Em outras palavras, cabe recurso significa que é cabível que o interessado interponha recurso. Trocando em miúdos, é admissível a possibilidade de apelar à autoridade que proferiu a sentença para tentar reformá-la.

Ao declarar que «a sentença cabe recurso», o articulista trocou os pés pelas mãos. O que cabe não é a sentença, mas o recurso. Tivesse dito «a sentença admite recurso» ou «contra a sentença, cabe recurso», teria acertado. Fica para a próxima.