Briga

José Horta Manzano

A animosidade entre cidadãos, por razões político-ideológicas, é herança nociva da passagem do lulopetismo pelo topo do poder. Talvez seja o mal maior causado ao país por aquele bando de gananciosos. Diferentemente de uma crise econômica, que tem conserto, a cicatriz deixada por quinze anos de ‘nós x eles’ vai demorar pra desaparecer – se é que desaparecerá um dia.

A insistência nesse discurso excludente deu origem a disputas que se infiltraram no seio de famílias. Até hoje, tem pai que não fala com filho. Amizades se desfizeram. Vizinhos viram a cara um pro outro. Essa herança, sim, pode ser qualificada de maldita. Não pesou no bolso dos brasileiros: atingiu-lhes a alma. O ambiente belicoso deu margem a muita briga.

Briga é palavra interessante. Etimologistas atribuem-lhe origem celta. Fora de dúvida, é pré-romana, utilizada há milênios. Está presente em numerosas línguas europeias. O significado não é idêntico em todas elas, mas sempre gira em torno da noção de litigar, combater, disputar, incomodar, quebrar, despedaçar.

É parente do alemão brechen (quebrar), do sueco bråka (lutar), do inglês break (quebrar). Em francês, briguer é disputar (uma promoção, por exemplo). O mesmo significado tem o italiano brigare. O espanhol bregar tem o mesmo sentido de nosso conhecido brigar. É interessante notar que a raiz aparece até em serbo-croata (брига = briga), que significa preocupação, distúrbio.

Há controvérsia, mas muitos acham que os celtas diziam brig ou briga para designar uma cidade fortificada. Assim, Coimbra, cujo nome originário era Conímbriga, faz parte da família. Há uma cidadezinha na Suíça chamada Brig. Devia ser fortificada desde tempos antiquíssimos porque está situada em lugar estratégico. Fica ao pé da estrada de montanha que conduz ao Colo do Sempione(*), a rota mais utilizada para atravessar os Alpes antes que perfurassem túneis.

Não por razões de ideologia do governo, mas devido ao Brexit, que rachou o país em dois, praticamente todos os britânicos perderam algum amigo de dois anos pra cá. São as brigas que estouram nos pubs depois de algumas canecas de cerveja.

Mas há uma diferença fundamental entre britânicos e brasileiros. Em Londres, os campos do ‘nós’ e do ‘eles’ estão perfeitamente delineados. Os cidadãos pró-Brexit estão de um lado e os anti-Brexit, do outro. Já no Brasil, o ‘nós x eles’ foi criação artificial, de geometria variável. A linha demarcatória entre os dois campos é nebulosa, podendo se modificar e variar dependendo da conveniência de quem discursa.

(*) Colo, palavra pouco utilizada em nossa língua, indica a parte mais baixa entre dois picos de uma cadeia de montanhas. É passagem propícia para a construção de estrada. Tem significado próximo de garganta, desfiladeiro.

Post publicado simultaneamente nos blogues Brasil de Longe e Língua de Casa.

Novos ares na Fifa

José Horta Manzano

Emparelhada com o CIO (Comitê Internacional Olímpico), a Fifa é a mais poderosa organização esportiva do planeta. Sua importância era secundária até os anos 1970. A partir da gestão do brasileiro João Havelange ‒ o único não europeu a ter-lhe ascendido ao topo ‒, a Fifa tornou-se mais e mais potente. E rica.

Sepp Blatter, antigo presidente da Fifa

Sepp Blatter, antigo presidente da Fifa

A popularização da televisão foi determinante no sucesso da entidade. Com os direitos de transmissão, surgiram as firmas patrocinadoras. Coca-Cola foi a primeira, logo seguida por Adidas e outros colossos. Maior número de telespectadores significava maior potencial publicitário. O valor cobrado pelos direitos de transmissão subiram vertiginosamente.

Como se sabe, quanto mais dinheiro houver, tanto maior será o risco de corrupção e rapina. Os assaltantes de nossa Petrobrás deram prova disso. Inexperientes e vorazes, foram tão fundo no mingau que debilitaram a empresa a deixaram em estado pré-falimentar. Mais comedidos, os dirigentes da Fifa lograram agir durante quatro décadas sem abalar a saúde financeira da organização.

Um dia, escancarou-se o que todo o mundo já desconfiava fazia tempo. A corrupção e o compadrio corriam soltos na associação mundial de futebol. Deu no que deu: parte dos cartolas encarcerados, o presidente autodestituído, figurões banidos e os demais atemorizados.

Gianni Infantino, novo presidente da Fifa

Gianni Infantino, novo presidente da Fifa

Uma limpeza tornou-se urgente. Novo presidente foi eleito neste 26 de fevereiro. O escolhido é Gianni Infantino, carequinha simpático de 45 anos. A menos que se trate de louco varrido, é de se supor que não esteja envolvido em tenebrosas transações. O risco de terminar atrás das grades seria demasiado elevado.

Infantino, de quem poucos tinham ouvido falar até hoje, não vem de um passado exclusivamente futebolístico. Filho de imigrantes italianos, nasceu e cresceu na cidadezinha suíça de Brig, no Cantão do Valais. Mais tarde, ao adquirir a cidadania suíça, tornou-se binacional. Poliglota, ganhou duas línguas maternas: o alemão e o italiano. Formou-se em Direito pela Universidade de Friburgo (Suíça). Conhece a língua francesa perfeitamente. Fala ainda inglês, espanhol e árabe. É casado com uma libanesa, com quem tem quatro filhas. Uma figura internacional, como se vê.

Brig ‒ Ulrichen mapa Google

Brig ‒ Ulrichen
mapa Google

Dele, espera-se muito. Para começar, o mais difícil, ou seja, devolver à Fifa a imagem de organização séria e honesta. Vai ser complicado, mas não há outro jeito. Foi escolhido exatamente para essa tarefa. Infantino sabe que seu desempenho estará sendo monitorado por meio mundo. Terá de andar na linha.

Um detalhe curioso o liga a Sepp Blatter, o presidente caído. Ambos nasceram e cresceram no mesmo vale alpino, em lugarejos separados por menos de 40km. Mas não são da mesma família.