Brasil x Bolívia

José Horta Manzano

Enganar-se ao mencionar nome de país acontece aqui e ali. Quando ocorre em âmbito privado, ninguém liga e acaba ficando por isso mesmo. Se o escorregão sobrevem em público, a saia fica mais justa.

Ronald Reagan 1Lembro-me como os brasileiros se sentiram ofendidos quando Ronald Reagan, então presidente americano, caiu na cilada durante um jantar que lhe foi oferecido em Brasília em 1982. A certa altura, o visitante propôs um brinde ao “povo da Bolívia”. Passados mais de trinta anos ‒ e falecidos todos os protagonistas ‒ muita gente ainda se lembra.

Dona Dilma é especialista em artes desse tipo. Troca nome de autoridades, de visitantes, de cidades, de Estados. Não me ocorre que sua tendência à confusão tenha atingido países. Não é tarde demais: ainda há tempo.

Com maior razão, jornais tampouco escapam do perigo. Conceda-se, em desagravo, que notícias são tratadas e trituradas no sufoco. Essa pressa, se não justifica, pelo menos explica a frequência de atentados como o de Reagan.

Chamada do jornal suíço Neue Zürcher Zeitung, 24 fev° 2016 Clique para ampliar

Chamada do jornal suíço Neue Zürcher Zeitung, 24 fev° 2016
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O mais recente, que me chamou a atenção hoje de manhã, foi cometido pelo Neue Zürcher Zeitung, de Zurique ‒ jornal suíço de referência ‒ em notícia sobre o referendo convocado por Evo Morales para tentar eternizar-se no poder. Na mesma linha de Reagan, o jornal se enrosca entre Brasil e Bolívia.

Bem, há que relativizar. Pela ótica de um europeu mediano, Brasil e Bolívia não são tão diferentes assim. Diferenciar Paraguai de Uruguai deve ser mais difícil ainda. Mas não podemos atirar a primeira pedra. Qual de nós já não hesitou entre Letônia e Lituânia?

O putsch

José Horta Manzano

Comemora-se, neste 15 nov° 2014, a dita «Proclamação da República», ocorrida faz 25 lustros. A meu ver, não há diferença entre o putsch militar de 1889 e o de 1964. Foram ambos golpes inconstitucionais e como tal devem ser considerados.

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A importância deste 15 nov° está um bocado ofuscada pela assombrosa prisão de gente graúda – falo dos elementos envolvidos no assalto à Petrobrás. Como dizia o outro, roubo de bilhões não pode ser obra de um ou dois: tem de ser feito coletivo, com dezenas de salafrários acumpliciados. Agora, a coisa está começando a fazer sentido.

Voltando à vaca fria
Nós, brasileiros, aprendemos na escola que a república se opõe à monarquia. Dizendo melhor: que o regime republicano é a alternativa ao regime monárquico. Não é assim tão simples.

Bandeira Brasil 1República é o regime em que uma população se governa a si mesma, por meio de representantes livremente eleitos. Na república, não existe a figura do chefe «por direito divino», por hereditariedade, nem por força das armas. O sistema republicano se opõe, na verdade, a regimes ditatoriais ou paraditatoriais, nos quais a escolha dos representantes é negada, desvirtuada, usurpada ou fraudada.

A história oficial do Brasil ensina que, «proclamada» a república em 1889, a família imperial foi despachada para o exterior e que, de lá pra cá, o País vive dias republicanos felizes e ininterruptos. Não é bem assim.

Nosso regime republicano já foi interrompido em numerosas ocasiões. Golpes puseram a legalidade entre parênteses por períodos mais ou menos longos. Alguns duraram dois ou três dias, enquanto outros se instalaram por décadas.

A ditadura de Vargas (1930-1934) e (1937-1945) marcou o período mais longo, desde o banimento de Dom Pedro II, durante o qual o Brasil foi dominado por um mesmo homem. Já a ditadura instalada a partir de 1964 foi mais longa, mas os militares permitiram rodízio no topo do Executivo.

Bandeira do Império do Brazil

Bandeira do Império do Brazil

Leis e decretos costumam ajuntar, à data de promulgação, uma menção indicando a contagem de tempo a partir de 1889. Os documentos garantem que estamos hoje entrando no 126° ano da República. Estaremos mesmo? Não concordo.

Sem ser demasiado rigorista, estamos em nossa Terceira República. A primeira começou com a saída do imperador e a entrada de Deodoro. A segunda, em 1945, com o apeamento de Getúlio. E a atual, a Terceira República, teve início no momento em que João Baptista Figueiredo deixou o Planalto – pela porta dos fundos, dizem – largando as rédeas do País nas mãos de José Sarney.

Melhor, mesmo, seria evitar a contagem de anos desde o golpe que aboliu nossa monarquia constitucional. É assunto demasiado complexo, daqueles que não reúnem consenso.

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O Neue Zürcher Zeitung , jornal suíço de referência – assim como são o francês Le Monde, o americano The New York Times e o brasileiro Estadão –, publicou extenso e interessante artigo sobre a mudança de regime pela qual o Brasil passou 125 anos atrás. Dá, aos bois, nomes verdadeiros. Trata a transição de golpe e de putsch. Como, de fato, foi. Quem se sentir à vontade em alemão pode dar uma espiada clicando aqui.