Para o Dia da Bandeira

José Horta Manzano

Você sabia?

A bandeira ‒ em termos crus, um pedaço de pano amarrado num cabo ‒ é símbolo forte cuja origem se perde no passado. Desde a antiguidade, vem servindo como representação de um grupo ou de uma comunidade. Pode corresponder a um regimento, uma firma comercial, um território, uma cidade, uma nação.

No topo do mastro, a bandeira indica a vitória ou a predominância do grupo representado. Arriada ou, pior, destruída ou queimada, significa a perda de soberania, a derrocada. Em momentos violentos, tanto em batalha militar quanto em manifestação de rua, assiste-se por vezes ao triste espetáculo de queima da bandeira do adversário. É reminiscência de prática ancestral, embora os atores nem sempre se deem conta do significado do ato.

bandeira-2O que pode até ser compreensível num campo de batalha é desnorteante em manifestações populares. Em recentes passeatas no Brasil, bandos de ignorantes chegaram a queimar a bandeira do próprio país(!), numa atitude descabida. É como se se autodestruíssem e aniquilassem a própria identidade. Felizmente, demonstrações de estupidez desse jaez são raras em nossa terra.

A Europa medieval criou espetáculos festivos de homenagem à bandeira. Duas ou mais comunidades se afrontavam, numa espécie de concurso, onde cada participante agitava e atirava sua bandeira ao ar para recolhê-la antes que caísse ao chão. Há séculos, a Suíça importou essa prática de países meridionais. Os encontros em que a bandeira é personagem central sobrevivem em alguns poucos países. Na Suíça, no entanto, faz parte do folclore nacional. É tradição cultivada com carinho e renovada em momentos especiais a cada ano.

Festa de lançamento de bandeiras clique para ampliar

Festa de lançamento de bandeiras
clique para ampliar

A arte de atirar a bandeira ao ar chama-se «Fahnenschwingen» em alemão, «lancer de drapeau» em francês, «sbandieramento» em italiano. É exercício com regras rígidas. Não se joga de qualquer maneira. Consiste em agitar de um lado para outro uma bandeira de formato padronizado, em seguida lançá-la para cima e apanhá-la pelo cabo antes que caia ao chão. Parece simples, mas exige muito treino e técnica apurada.

O regulamento descreve 90 figuras, das quais cerca de 50 são executadas por ocasião de todo concurso. Frequentemente, os lançadores de bandeira são acompanhados por um conjunto de instrumentos de sopro típicos chamados trompa dos Alpes (Alphorn, cor des Alpes, corno alpino).

Corno dos Alpes clique para ampliar

Corno dos Alpes
clique para ampliar

Nos tempos de antigamente, a trompa alpina ‒ cujo comprimento pode atingir 18 metros ‒ servia para comunicação à distância, num expediente análogo aos sinais de fumaça usado pelos índios de Hollywood. Nestes tempos de telefone celular, deixou de transmitir informações para dedicar-se unicamente a alegrar momentos festivos.

Ao vivo
O youtube traz alguns vídeos de arremesso de bandeira acompanhado por corno alpino. Quem estiver interessado pode dar uma espiada neste aqui (de 1min50) ou neste aqui (de 48 segundos).

O Toblerone adaptado

José Horta Manzano

Você sabia?

Curiosamente, o pai do Toblerone não chegou a ver nascer o filho. Jean Tobler (1830-1905), nascido Johan Jakob Tobler, confeiteiro de profissão, abriu uma chocolataria em Berna, Suíça em 1867. Nos primeiros anos, Herr Tobler preparava seus confeitos com chocolate bruto comprado fora. Lentamente, conforme os negócios foram progredindo, veio a ideia de produzir seu próprio chocolate a partir de cacau importado. A fábrica Tobler foi inaugurada em 1899, fruto da associação entre o confeiteiro, seu filho Theodor e o sobrinho Emil Baumann. Mas o Toblerone ainda não havia sido inventado.

toblerone-6Após a morte do patriarca, os negócios da chocolataria continuaram. Por ocasião de uma viagem ao sul da França em 1908, Theodor Tobler provou o que os franceses chamam nougat, conhecido como torrone na Itália e turrón na Espanha. É um puxa-puxa à base de amêndoa, pasta de amêndoa e mel. Encantado, trouxe uma amostra para o primo experimentar. Foi amor à primeira vista.

Tiveram logo a ideia de acrescentar chocolate à receita pra ver no que dava. O resultado foi além de toda expectativa: de-li-ci-o-so. Veio aí a sacada de mestre. Em vez de apresentar a novidade em formato tradicional, escolheram moldá-la como barra comprida, com perfil alternando altos e baixos, de maneira a não encarecer demasiadamente o produto e a torná-lo mais fácil de partir em pedaços. É o primeiro chocolate em barra de que se tem notícia.

toblerone-5A fama do novo produto cresceu lentamente. A partir dos anos 60, com a fábrica já comandada pela terceira geração, novidades começaram a ser introduzidas. Veio primeiro o Toblerone amargo, em seguida o branco, o recheado, o de formato miniatura. Hoje, há mais de uma dezena de variedades, umas com isto, outras com aquilo.

Ao atingir certa massa crítica, toda empresa tende a ser passada adiante. Raras são as firmas colossais que permanecem sob controle familiar. A Tobler não escapou. Faz alguns anos, foi vendida a uma gigantesca multinacional americana. No entanto, ninguém mexe em time que está ganhando. Embora exportadas em mais de cem países, as barras continuam a ser fabricadas em Berna. Os novos donos compreenderam a importância que o carimbo «Made in Switzerland» acrescenta à imagem do produto.

toblerone-7Estas últimas semanas, o Toblerone voltou às manchetes no Reino Unido. A decisão de abandonar a União Europeia teve, como consequência imediata, forte desvalorização da libra esterlina. Tudo o que é importado ‒ como o chocolate Tobler ‒ ficou mais caro. Para contornar o problema, o fabricante passou a produzir, especialmente para o mercado britânico, um formato modificado. Cada barra contém menos chocolate, mas o preço antigo permanece. Os ingleses não apreciaram a mudança, mas… que fazer?

suisse-27-bern

Brasão de Berna

A origem do nome
Toblerone é resultado da junção do sobrenome Tobler com o final da palavra italiana torrone.

toblerone-4O urso
O símbolo de Berna é o urso, cujo nome em alemão é bär (pronúncia: bér). O logotipo do Toblerone mostra a imagem estilizada do monte Matterhorn (= Cervin ou Cervino). Escondido no claro-escuro do desenho, percebe-se um urso. Além disso, as cinco letras que formam o nome Berne estão incluídas na palavra Toblerone ‒ na ordem correta. Estão lá para lembrar ao consumidor a origem do produto.

O onze de novembro

José Horta Manzano

Você sabia?

Hoje, 11 de novembro, comemora-se o armistício que pôs fim à carnificina que os franceses conhecem como «la Grande Guerre». Falo da Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918 e deixou 9 milhões de mortos e 8 milhões de inválidos. Dá uma média de seis mil mortos por dia ou 250 por hora.

Esses números não levam em conta 8 milhões de cavalos ‒ utilizados então como animais de guerra ‒ dos quais 1 milhão morreu, numa média de setecentos a cada dia.

Passados noventa e oito anos, não sobra mais nenhum dos antigos combatentes. Os últimos sobreviventes já se foram alguns anos atrás, todos com idade em torno dos 110. Acabou-se a guerra, foram-se os combatentes, não sobra quase nenhuma testemunha daquele tempo. Mas o perigo continua.

Obus da guerra 1914-1918 não-explodido

Obus da guerra 1914-1918 não-explodido

Calcula-se que 15 milhões de toneladas de projéteis (bombas, obus, granadas, foguetes, balas) tenham sido lançados durante os quatro anos de conflito. Boa parte dessa munição não explodiu. Fala-se em 15% de material não-deflagrado, parafernália que continua lá, enterrada a alguns metros ou a poucos centímetros da superfície.

No norte da França, na região onde se travaram batalhas importantes, agricultores e operários da construção ainda encontram, a cada ano, mil toneladas de explosivos que deram chabu. O perigo que essa munição representa é considerável. Explosão espontânea por ocasião de incêndio florestal ou de grande calor pode ocorrer. Risco de vazamento tóxico devido à corrosão do material é importante. O lençol freático periga ser contaminado.

Como pode o distinto leitor constatar, perigos permanecem latentes, como recordação sinistra de uma guerra absurda que terminou cem anos atrás. Aliás, toda guerra é absurda.

Quando os netos de nossos netos forem velhinhos, a humanidade ainda estará sob risco de ser vítima da munição que está sendo atirada hoje nalgum dos numerosos campos de batalha do planeta.

Bala perdida mata na hora. Bomba enterrada pode explodir o neto de quem a mandou lançar.

Quando eu morrer, não quero choro nem vela

José Horta Manzano

Você sabia?

Todos já ouviram falar do cemitério parisiense Père-Lachaise, provavelmente o mais famoso do planeta. Turistas vêm do outro lado do mundo só para ver de perto as tumbas que guardam os despojos de gente famosa. É o lugar de repouso eterno mais visitado: três milhões e meio de curiosos acorrem a cada ano.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Também, pudera. Artistas do porte de Georges Bizet e Frédéric Chopin estão lá. Samuel Hahnemann, o inventor da homeopatia e a artista Sarah Bernhardt também. Allan Kardec, Edith Piaf e centenas de celebridades repousam no Père-Lachaise.

Genebra, cidade internacional mas relativamente pequena, não conta com o esplendor parisiense e nunca exerceu a atração planetária da Cidade-Luz. Assim mesmo, tem um cemitério singular: o Cimetière des Rois ‒ Cemitério dos Reis. Com 2,8 hectares, a necrópole suíça é bem mais modesta que sua equivalente francesa, que se espalha por 44 hectares.

O Cimetière des Rois fica no coração da cidade e, a um turista desavisado, pode até parecer um jardim público. Não é qualquer um que tem direito a eleger residência eterna ali. Todo pedido de concessão tem de ser feito ao Conselho Administrativo da cidade. Cada caso é estudado minuciosamente. Novas autorizações são raras.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Unicamente magistrados e personalidades marcantes ‒ nacionais ou estrangeiras ‒ que tiverem dado contribuição significativa à cidade serão admitidas. Essa política restritiva explica que as sepulturas cheguem hoje a pouco mais de trezentas.

Na maior parte delas, repousam celebridades locais, nem sempre conhecidas além-fronteiras. A tumba mais famosa e mais visitada é a de Jean Calvin (João Calvino), teólogo cristão de origem francesa cuja influência sobre a Reforma Protestante em Genebra, no século XVI, foi determinante. Suas ideias marcaram a implantação do protestantismo em outras terras, até no Reino Unido, na Holanda e nos EUA.

Ernest Ansermet, maestro suíço de renome internacional está enterrado lá. Dois argentinos famosos também: o compositor Alberto Ginastera e o escritor Jorge Luís Borges. O psicólogo suíço Jean Piaget é outro cujos restos repousam no cemitério genebrino.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Um único brasileiro faz parte do seleto clube dos que tiveram direito a sepultura no Cimetière des Rois. Trata-se do carioca Sérgio Vieira de Mello, alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, morto em 2003, aos 55 anos de idade, num atentado em Bagdá. Funcionário de carreira da ONU, era pressentido como possível futuro secretário-geral da organização. O destino tomou outra decisão.

Origem do nome
Nenhum rei está enterrado no cemitério de Genebra. A origem do nome é bem mais prosaica: está situado na Rue des Rois ‒ Rua dos Reis.

Controle canino

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Suíça, como nos países do norte da Europa, não há cães errantes. Todo cachorro tem dono. E não é só: todos têm de estar identificados por tatuagem ou chip sub-cutâneo e devidamente registrados na prefeitura, com nome e endereço. Para completar, todo proprietário paga uma taxa anual à prefeitura municipal, pelo direito de possuir um cachorro. É conhecido como imposto-cão, sem trocadilhos.

cachorro-35Embora fosse tão mais cômodo, cães não se resignam a fazer suas necessidades numa caixa de areia, como os gatos. Seria prático para o proprietário, mas não é assim. Cachorro tem de ser levado à rua. Regras existem também para passear com o bicho. Na entrada de cada parque, uma tabuleta indica se a entrada do animal é permitida ou não. Caso seja, a placa informa se ele pode andar solto ou se tem de ser preso pela coleirinha. Pelas ruas, estão espalhados distribuidores de sacos plásticos especiais para coletar cocô. Assim que o cão faz suas necessidades, o dono vem com o saco, apanha os dejetos e leva embora pra descartar no lugar apropriado.

Cada cantão tem liberdade para impor regras e fixar tarifas. Aqui estão alguns exemplos tomados ao acaso:

cachorro-34Cantão de Friburgo
Para ter mais de 2 cães, é necessário obter autorização

Cantão de Berna
Proibição de passear na rua com mais de 3 cães ao mesmo tempo

Cantão de Genebra
Taxa anual para o 1° cão: 50 francos (170 reais)
Para o 2° cão: 70 francos (240 reais)
Para o 3° cão: 100 francos (340 reais)

Todos os cantões
Todo futuro proprietário de cão é obrigado a seguir formação teórica e prática. O diploma lhe dará direito a ser dono de cão. Os cursos ‒ pagos, naturalmente ‒ são dados por monitores credenciados cujo título oficial é ‘educador comportamentalista canino’. O curso teórico deve ser completado antes da aquisição do animal. As aulas práticas devem ser tomadas no ano que se segue à chegada do bichinho.

Para dissuadir pessoas de possuírem mais de um animal, numerosos cantões estudam aumentar o valor da taxa anual, sobretudo a partir do segundo cão. A argumentação prende-se ao fato de que o melhor amigo do homem carrega reminiscências do instinto de malta. Ao avistar o que lhe parece ser uma presa ‒ criança pequena, animal menor ‒ um cão solitário não ousa atacar, ao passo que três ou quatro juntos se podem incentivar mutuamente e assumir comportamento bem mais agressivo.

cachorro-36Por enquanto, possuidores de gatos estão livres de cursos e de taxas. No entanto, em certos cantões já se cogita introduzir imposto (pesado) a ser cobrado dos que possuírem gato não-castrado. A motivação é evitar a proliferação de felinos que, na primavera, sobem às árvores e dizimam filhotes de pássaros.

Interligne 18cPasseando de fom-fom
Permite-se a entrada de cães em transporte público ‒ desde que estejam acompanhados pelo dono, naturalmente. Os bichinhos pagam passagem, como os humanos. Para evitar ter de comprar bilhete a cada vez, pode-se tomar assinatura. O documento, tamanho cartão de crédito, traz a foto do animal.

A companhia nacional de estradas de ferro transporta gratuitamente cães de até 30cm de altura, desde que estejam dentro de bolsa ou de jaula. Nesse caso, viajam de graça, como bagagem. É bom pra cachorro.

Placa de automóvel na Suíça

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça é um dos poucos países onde placa de automóvel não pertence ao veículo mas ao proprietário do veículo. E como é que funciona?

Suponhamos que o cidadão compre seu primeiro carro, novinho em folha, direto da concessionária. A própria loja se encarregará de cumprir as formalidades junto às autoridades. O feliz proprietário já receberá seu carro emplacado e pode sair por aí.

placa-24No dia em que quiser revender o carro, vai entregar os documentos ao comprador mas não a placa. Deve tirá-la do carro e guardá-la. Se tiver intenção de utilizar a placa em outro veículo (novo ou de segunda mão), basta avisar o Departamento de Tráfego, completar a papelada, pagar eventuais taxas e pronto: pode instalar sua placa no novo carro.

Caso tenha aderido à filosofia do ecologicamente correto e tiver desistido de possuir veículo próprio, basta devolver as placas ao Serviço dos Automóveis e não se fala mais nisso. Vai receber reembolso da taxa de circulação e do seguro pro rata temporis.

Se tiver intenção de dar um tempo antes de comprar novo veículo, o melhor será entregá-la ao Departamento de Tráfego para armazenagem. Por módica taxa, ela será conservada por até um ano, à disposição do proprietário a qualquer momento. A vantagem dessa devolução temporária é que, durante o período de armazenagem, o proprietário não terá de pagar taxa de circulação nem seguro. Passado um ano, o direito ao uso da placa prescreverá. Caso o cidadão compre novo veículo no futuro, receberá nova placa.

placa-23Nenhum veículo pode circular sem placa ‒ é o que diz a lei. Então como é que fica no caso do comprador de carro de segunda mão? Se o proprietário antigo retém a placa, o novo dono sai por aí sem placa? Não pode. Pra remediar, a administração já pensou nesse problema. Antes de concluir a transação, o comprador terá de passar pelo Departamento de Tráfego e solicitar uma autorização provisória de circulação. O papel lhe dá direito a deslocar-se ‒ uma vez só ‒ do lugar onde está o veículo até o posto de emplacamento mais próximo. Se for parado no meio do caminho, o documento o protegerá contra toda sanção.

A grande vantagem desse sistema é evitar que, depois de haver vendido um carro, o antigo proprietário continue a receber multas cujo culpado é um novo dono que, distraída ou dolosamente, se «esqueceu» de transferir a posse. No Brasil, isso já aconteceu comigo. Dá uma dor de cabeça dos diabos, porque nem sempre é fácil localizar o novo possuidor.

placa-25Tem mais uma particularidade suíça: a placa intercambiável. Suponhamos que o indivíduo tenha dois veículos que nunca são utilizados ao mesmo tempo. Digamos que usa um deles para o trabalho, durante a semana, reservando o outro para passear no fim de semana. É possível ter uma placa só, intercambiável entre os dois carros.

As condições são duas. Por um lado, os dois automóveis nunca poderão circular ao mesmo tempo. Por outro, aquele que estiver sem placa não pode ser estacionado em via pública ‒ terá de ser guardado em lugar particular, que seja garagem, jardim, terreno ou assemelhado.

A vantagem de ter uma placa só para dois veículos é que uma só taxa de circulação e um só seguro valem para os dois. São 50% de economia.

FGTS ‒ duas visões

José Horta Manzano

Você sabia?

Velhice 2Quando me perguntam sobre o assunto, costumo responder que, igualzinho ao Brasil, a Suíça também conta com um fundo de garantia obrigatório para beneficiar trabalhador assalariado. Aliás, o FGTS brasileiro, que existe desde 1966, é anterior ao suíço, que só foi criado vinte anos mais tarde. Em ambos os países, o objetivo do fundo é amparar o trabalhador, ainda que o conceito de «amparo» não seja o mesmo.

No Brasil, o fundo foi instituído mais para neutralizar um problemão que ameaçava empresas. A estabilidade adquirida por funcionários antigos emperrava a produtividade e aumentava o risco de falência. A instituição do fundo desafogou empregadores e, como efeito colateral, beneficiou trabalhadores.

Na Suíça, país cujos assalariados nunca usufruíram de «estabilidade» no emprego, o fundo foi criado com vista a reforçar o rendimento dos aposentados. Eis por que a poupança obrigatória é alimentada paritariamente, ou seja, o empregador entra com 50% e o funcionário contribui com a outra metade. Tanto no Brasil como na Suíça, o pecúlio fica numa conta individual bloqueada. Cada assalariado tem a sua.

Velhice 5O FGTS brasileiro nasceu com vocação diferente. Visa a criar uma ponte para amparar o assalariado em períodos de desemprego. Frequentemente, a cada mudança de emprego, o funcionário retira seus haveres e esvazia a poupança. Se algo sobrar para a velhice, não será mais que valor residual, coisa pouca. Os anos de velhice não serão beneficiados.

Na Suíça, para garantir um reforço dos rendimentos do aposentado, o pecúlio só poderá ser retirado quando o contribuinte atingir 65 anos de idade. Há pouquíssimas exceções à regra. Uma delas permite que parte do fundo (até 20%) seja utilizada para compra de casa própria. Assim mesmo, com uma condição: caso a casa venha a ser vendida posteriormente, o contribuinte é obrigado a devolver o dinheiro, que será de novo incorporado à poupança obrigatória. Há outros casos em que o fundo pode ser resgatado, mas são casos raros e excepcionais.

Velhice 4Ao chegar à idade da aposentadoria, o assalariado tem duas opções: tanto pode retirar o pecúlio de uma vez como pode deixá-lo intocado. Neste último caso, fará jus a uma renda vitalícia. Pelas regras atuais, receberá benefício anual equivalente a 6.5% do capital acumulado. O pagamento é mensal. Em caso de falecimento do beneficiário, o(a) viúvo(a) continuará recebendo o benefício até o dia de seu último suspiro.

A diferença entre a visão brasileira e a suíça é quase filosófica. No Brasil, a poupança forçada é devolvida ao beneficiário a qualquer momento da vida, ainda que ele esteja em condições de encontrar novo emprego. Na Suíça, deu-se prioridade a amparar aqueles que, por causa da idade, têm chance praticamente nula de encontrar colocação. Quando um cidadão chega à velhice em situação de penúria, quando o valor da aposentadoria é insuficiente para cobrir as necessidades básicas, a sociedade terá de ampará-lo financeiramente. É justamente isso que se procura evitar.

Cada terra com seu uso.

Dia do jejum

José Horta Manzano

Você sabia?

Não tem como escapar: a agricultura, desde sempre, depende dos caprichos do clima. Sol, chuva, frio, calor influem sobre a quantidade e a qualidade da colheita. Nos tempos de antigamente, o homem não tinha como conservar alimentos. Sobreviviam todos com o que se colhia a cada ano.

A escassez de açúcar impossibilitava a conservação de frutas sob forma de doce ou geleia. Sal também era raro, o que tornava problemática a preservação de carnes e peixes. Congelamento? Num tempo em que não havia eletricidade, nem pensar! A desidratação, por exposição ao sol e ao vento, podia ser utilizada. Mas nem todo alimento se presta a ser conservado por secagem.

pruneau-1Assim, habitantes de regiões temperadas, com estações do ano bem definidas, só dispunham de alimentos frescos na metade do ano em que o clima permite. Passado esse período, sobreviviam com os cereais colhidos no outono, principalmente trigo e suas variedades. Missas, rezas e novenas eram dirigidas ao Altíssimo para garantir boa safra. Ao final da colheita, era importante fazer um gesto de agradecimento e de reconhecimento.

Os tempos mudaram. Hoje em dia, o mercadinho da esquina oferece, o ano inteiro, frutas e legumes vindos do outro lado do planeta. Mas certas tradições, geralmente ligadas à religião, permanecem. O dia de ação de graças, comemorado a cada mês de novembro nos EUA (Thanksgiving Day) é um exemplo.

pruneau-2A Suíça, país de agricultura pobre, também já sofreu muito, no passado, com adversidades climáticas. Hoje não é mais assim, mas certas tradições permanecem. Séculos atrás, cada região tinha seu dia, sua hora e seu rito para agradecer aos céus pela colheita. Coisa de duzentos anos pra cá, o dia de ação de graças foi unificado. Ficou combinado que terceiro domingo de setembro(*) seria dedicado ao recolhimento agradecido.

Desde então, a cada ano, a festa ‒ se é que se pode dizer assim ‒ é comemorada, para que ninguém se esqueça de que o bem-estar é resultado de trabalho duro. Para uns, é dia de oração. Outros fazem penitência. O mais comum, principalmente na região em que vivo, é o jejum. Até um século atrás, jejuar significava deixar de almoçar e passar o dia orando na igreja ou no templo. Daí o nome que o dia leva até hoje: Jeûne fédéral ‒ Dia Federal do Jejum.

pruneau-3Com o passar dos anos, o jejum rigoroso foi substituído por um almoço frugal, constituído unicamente de uma torta de ameixa. No Brasil, todos conhecem a ameixa preta, aquela que se compra já seca e que serve para ornar o manjar branco. Pois o pruneau (em francês) ou Zwetsche (em alemão) é uma variedade da mesma fruta, só que em estado natural, utilizada logo após a colheita.

Que seja o único alimento, que substitua o almoço ou que sirva de sobremesa, a torta de ameixa não pode faltar no Dia Suíço do Jejum. Este ano, cai justamente hoje, terceiro domingo de setembro. No Cantão de Vaud, cuja capital é Lausanne, a celebração não se limita ao domingo. A segunda-feira que se segue é dia feriado. Dizem as más línguas que é pra desintoxicar os que, na véspera, se empanturraram de torta de ameixa e café com leite. Há de ser intriga da oposição.

Interligne 18c

(*) Fazendo exceção à regra, o Cantão de Genebra tem seu dia de ação de graças na quinta-feira que segue o primeiro domingo de setembro.

Desalinhados

José Horta Manzano

Você sabia?

No começo dos anos 1960, a Guerra Fria comia solta. O mundo, inquieto, temia que, a qualquer momento, a guerra esquentasse. Já à época, as duas superpotências ‒ EUA e União Soviética ‒ tinham arsenal nuclear capaz de aniquilar a humanidade. Vivia-se em tensão permanente.

Alguns países de importância secundária, na intenção de mostrar-se independentes tanto do bloco americano quanto do soviético, agruparam-se. Com o incentivo do Egito de Nasser, da Iugoslávia de Tito e da Índia de Nehru, dezenas de países médios e pequenos juntaram-se ao Movimento dos Não-Alinhados.

Não é fácil conciliar interesses de países díspares e espalhados pelo planeta. O objetivo do grupo nunca foi muito claro. Por exemplo, Cuba, membro fundador, embora se declarasse “não-alinhado”, estava visceralmente ligado ao bloco comunista, liderado pela União Soviética.

Nasser (Egito), Nehru (Índia) e Tito (Iugoslávia) Mentores do Movimento dos Não-Alinhados, 1961

Nasser (Egito), Nehru (Índia) e Tito (Iugoslávia)
Mentores do Movimento dos Não-Alinhados, 1961

Os países africanos, que acabavam de conquistar independência, entraram quase todos para o Movimento. Como a Cuba dos Castros, a maioria deles estava alinhadíssima com a URSS, ainda que alguns mostrassem simpatia pelo bloco ocidental. Resumindo, grande parte dos membros era constituída de não-alinhados pero no mucho.

Com a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, o Movimento dos Não-Alinhados perdeu a razão de existir. No entanto, por razões que a razão nem sempre explica, não foi dissolvido. Continua, firme e forte, a organizar cúpulas a cada dois, três ou quatro anos. Os interesses dos membros continuam tão divergentes como sempre foram, mas… quem se importa com esse detalhe?

Registre-se que o único país europeu a participar do Movimento é a Bielorrúsia. Quanto aos países ibero-americanos, vários integram o grupo com a notável exceção das três maiores economias: Brasil, México e Argentina. Praticamente todos os africanos são membros. Os grandes deste mundo (EUA, China, Japão, União Europeia, Rússia) não participam da encenação.

Nicolas Maduro by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Nicolas Maduro
by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Que discutem nas reuniões? Que resoluções tomam? Que ideologia seguem? Difícil dizer. Quando se juntam visões de mundo heterogêneas ‒ Timor Leste, Paquistão, Burundi, Equador, Afeganistão, Suriname ‒ entre dezenas de outros ‒ é complicado chegar a alguma espécie de consenso.

Mas a vida segue e o Movimento dos Não-Alinhados sobrevive. A Venezuela, mergulhada no caos político e econômico, está recebendo a reunião de cúpula de 2016 do clube dos não-alinhados.

Que um país que não consegue alimentar o próprio povo acolha autoridades de mais de cem países ‒ sem contar as respectivas comitivas ‒ é decisão singular. O tiranete Nicolás Maduro há de ter esperança de que a festa distraia, por um momento, o ronco das barrigas vazias dos infelizes venezuelanos.

No centro da foto

José Horta Manzano

Você sabia?

O distinto leitor há de ter visto a foto dos participantes do último encontro do G20, realizado na China no fim de semana passado. Essas tradicionais “fotos de família” são a parte visível ‒ embora menos importante ‒ das reuniões. O principal é acertado em conversas bilaterais.

G20 3O presidente Temer aparece na ponta da primeira fila, quase caindo fora da foto. Por quê? Será que essa posição secundária demonstraria pouco caso ou desprezo do mundo para com o presidente e, por extensão, para com o Brasil?

Comparando com a foto da Cúpula de 2010 em Seul, em que o Lula aparece bem no centro, ao lado do anfitrião, a diferença é chocante. Teria o Lula maior importância ou mais prestígio do que Temer? Como é que se determina a posição dos que aparecem na primeira fila?

O protocolo não deixa nada ao acaso. Reza que, no centro, se posicionará o anfitrião. Em seguida, do centro em direção às extremidades, serão instalados os mandatários pela ordem de ancianidade ‒ o tempo passado desde que assumiram o posto. Quanto mais tempo tiverem ocupado o cargo, mais próximo estarão do anfitrião.

G20 4Na foto de 2010, o Lula já estava no fim do segundo mandato, portanto, era presidente havia oito anos, um dos mais antigos do G20. Eis por que aparece ao lado do anfitrião. Reparem que Obama, que tinha ocupado a Casa Branca por apenas cinco anos, aparece mais descentrado.

Na foto de 2016, Temer é o novato, tendo assumido definitivamente o cargo apenas alguns dias antes. Portanto, sua posição no extremo do retrato não é humilhante nem vem de timidez do fotografado. É o protocolo.

Coisas da Suíça

José Horta Manzano

Você sabia?

Todo país tem suas festas tradicionais. A Suíça, que começou a se formar há mais de sete séculos, também tem as suas. Uma delas, cuja importância é acentuada pela raridade, é a Festa Federal de Luta e de Jogos Alpestres. A manifestação, que dura um fim de semana, tem lugar a cada três anos. Cada edição se desenrola numa região diferente. Diferentes versões regionais foram unificadas e codificadas em 1895. De lá pra cá, os jogos são nacionais e se organizam regularmente.

Luta suíça 1A festa, que se realiza num estádio, reúne muita gente e conta com a presença do presidente do país. O ambiente é festivo, quase como numa quermesse, com toneladas de salsicha branca com mostarda sendo consumidas. A salsicha branca grelhada é tão importante quanto era comer pipoca no cinema antigamente.

A festa compõe-se de vários concursos e jogos. Um dos mais importantes é o lançamento da Pedra de Unspunnen, um enorme bloco de granito que pesa exatos 83,5kg. Caso o distinto leitor não seja halterofilista, será difícil imaginar como pode alguém levantar um bloco de mais de oitenta quilos e, ainda por cima, atirá-lo ao longe. Não é pra qualquer um. O recorde oficial foi estabelecido faz 12 anos, em agosto de 2004. Um jovem conseguiu lançar a pedra a 4,11m de distância. Importante: utiliza-se sempre o mesmo bloco de pedra.

Luta suíça 3O ponto alto são as competições de Luta Suíça. Pra quem nunca assistiu, é inusitado. Lembra um pouco o sumô ou o judô, mas tem características próprias. Pra começar, não há restrição de altura nem de peso dos concorrentes. Todos estão na mesma categoria. Portanto, é natural que todos tenham perfil de carregador de piano.

Dois competidores se enfrentam no interior de um círculo forrado com serragem. Cada um veste, por cima da calça, um calção de juta preso à cintura. O objetivo é derrubar o adversário e fazê-lo encostar as costas no chão. Não vale agarrar pela camisa, cada combatente agarra no calção do outro. O enfrentamento dura alguns minutos.

Luta suíça 2Terminada a luta, é praxe que o vencedor limpe a serragem que ficou grudada nas costas do perdedor, num simpático gesto de consideração. Em princípio, ninguém sai de perna quebrada, nem sangrando, nem machucado. Tudo termina com tapinhas nas costas. Às vezes, o perdedor deixa escapar umas lágrimas, coisa surpreendente para gigantes de 120kg. Este ano, pela primeira vez desde 1940, o vencedor tinha mais de 30 anos.

Vale a pena dar uma espiada neste vídeo de 1 minuto e meio com uma visão geral dos festejos trienais. A edição 2016 contou com 80 mil espectadores. Como prêmio, o campeão ganha… um touro. Não parece, mas o animal poderá ser bastante rentável se utilizado como reprodutor. Se for bem cuidado, será valor seguro, não sujeito a flutuações da Bolsa. Coisas da Suíça.

Medalha não tem preço

José Horta Manzano

Você sabia?

Medalha olímpica não tem preço. De fora, a gente não se dá conta do duro que cada medalhista deu pra chegar lá. A cobiçada medalha é coroamento de quatro anos de trabalho, esforço, esperança. O valor é incalculável. Vamos ser claros: é incalculável no campo simbólico. Como se dizia antigamente, não há preço que pague. Numa análise mais chã, contudo, cada medalha tem seu valor intrínseco, sim, senhor. Vamos ver como funciona.

Foto Rio 2016/Alex Ferro

Foto Rio 2016/Alex Ferro

Para começar, saibam os distintos leitores que as medalhas dos Jogos Rio 2016 foram fabricadas pela Casa da Moeda do Brasil. No total, o Comitê Olímpico Internacional encomendou 2.488 peças ‒ 812 de ouro, 812 de prata e 864 de bronze. É sempre bom calcular com folga pra não faltar na última hora.

Todas têm tamanho e peso idêntico. Medem exatos 85 milímetros de diâmetro e pesam meio quilo. São as maiores e mais pesadas jamais encomendadas para Jogos Olímpicos de Verão.

A medalha mais importante, dita “de ouro”, não é de ouro maciço, como se poderia imaginar, mas de prata folheada. Contém 494g de prata e um revestimento de 6g de ouro. Fazendo abstração do valor simbólico, pode-se calcular o valor do metal: dá pouco mais de 560 dólares. As que foram distribuídas nos Jogos de Londres valiam muito mais, porque a cotação do ouro na época estava nas alturas. Hoje em dia, se fosse de ouro maciço, cada medalha de primeiro prêmio valeria em torno de 22 mil dólares.

Foto Rio 2016/Alex Ferro

Foto Rio 2016/Alex Ferro

A de prata é feita, naturalmente, de prata de lei (925). Pela cotação atual do metal, pode ser vendida por cerca de 300 dólares. A medalha de bronze é uma liga de 475g de cobre com 25g de zinco. É bem menos valiosa que as outras. O valor do metal não vai além de 3 dólares. Nas cercanias da Vila Olímpica, tem gente vendendo pacote de salgadinho por esse valor. E tem gente comprando.

Medalhas de ouro maciço foram distribuídas pela última vez em Estocolmo, na longínqua edição de 1912 dos JOs. Se as 812 medalhas encomendadas para Rio 2016 fossem de metal maciço, o COI deveria desembolsar quase 18 milhões de dólares, sem contar a mão de obra.

Diferentemente da Taça Jules Rimet, arrebatada pelo time de futebol do Brasil em 1970 ‒ aquela que acabou sendo roubada e derretida ‒ não vale a pena derreter galardão olímpico. A Taça da Copa era de ouro maciço, enquanto as medalhas valem mais pelo símbolo que pelo metal.

O importante é competir

José Horta Manzano

Você sabia?

O barão Pierre de Coubertin (1863-1937) não foi esportista famoso ‒ era pegadogo, historiador e humanista. Apesar disso, devemos a ele a ressureição dos Jogos Olímpicos, que andavam recobertos pela poeira da História já fazia dois milênios.

Foi pela influência, pelo esforço e pelo empenho do barão que se organizou, em 1896, a primeira Olimpíada dos tempos modernos. Com frequência, atribui-se a Pierre de Coubertin a frase «O importante é participar». Não há consenso no entanto. Há quem jure que a frase original teria sido «O essencial não é ter ganhado, mas ter lutado pra vencer».

JO 2016 4Há ainda quem diga que não é bem assim. O barão jamais disse nada parecido. A frase famosa teria sido pronunciada por obscuro clérigo americano por ocasião dos Jogos de Londres de 1908.

Seja como for, não resta dúvida de que é importante participar, um orgulho para todo atleta. Se, ao final do esforço, cair uma medalha, melhor ainda. Pra coroar, nenhum esportista vai desprezar um prêmio em dinheiro. Comitês olímpicos nacionais já se deram conta de que uma recompensa financeira pode ser estímulo poderoso.

Nem todos os comitês publicam o valor com que presenteiam medalhistas. Há controvérsia nas informações. No entanto, garimpando aqui e ali, dá pra estabelecer uma lista interessante.

A palma vai, sem sombra de dúvida, para Singapura. Naquela cidade-estado, o atleta que conseguir medalha de ouro levará a astronômica soma de 805 mil dólares, mais de 2,5 milhões de reais. Pra ninguém botar defeito.

O Azerbaidjão, que adoraria aumentar o número de medalhistas de ouro, propõe 510 mil dólares ao atleta que trouxer uma de volta a Baku.

JO 2016Os demais países vêm bem atrás. Há os mais generosos, como a Itália (180 mil dólares), o México (160 mil dólares), a Rússia e a Ucrânia (pouco mais de 100 mil dólares). A Espanha dá 94 mil, enquanto a França vem um pouco atrás, com 65 mil dólares para cada campeão. Japão e China têm orçamento mais restrito: 36 mil e 31 mil dólares respectivamente.

Os EUA presenteiam seus campeões com 25 mil dólares. Mais moderada ainda, a Alemanha não vai além de 19,5 mil dólares.

Cada medalhista brasileiro receberá quantia modesta. Serão R$ 35 mil (11 mil dólares) para campeões individuais e R$ 17,5mil para cada participante de esporte coletivo. A quantia está longe de ser exorbitante. Fico imaginando que o prêmio pudesse até ser maior mas, sacumé, rato roeu a roupa da rainha no meio do caminho. Para os atletas brasileiros, resta uma consolação: tanto faz que a medalha seja de ouro, de prata ou de bronze, o prêmio será o mesmo.

Interligne 18c

Nota pitoresca:
Na Suécia, onde se acredita que esportista é profissão como qualquer outra e que ganhar ou perder faz parte do jogo, o comitê nacional não dá prêmio a ninguém. Medalhistas recebem um boneco de pelúcia. De tamanho grande para quem trouxer o ouro, médio para os medalhistas de prata e pequeno para os bronzeados.

O importante é competir.

Sob os olhares do mundo

José Horta Manzano

Você sabia?

A chamada que aparece logo abaixo está correta mas incompleta. «Sob os olhares do mundo» subentende que todos estarão de olho nas festividades de abertura dos JOs ao vivo, simultaneamente, no momento em que as dançarinas rodarem a baiana no Maracanã. Não é bem assim.

O mundo é movido a dinheiro ‒ os acontecimentos atuais da política brasileira estão aí pra comprovar. E quem é que sustenta o Comitê Olimpico Internacional? Ora, os direitos de transmissão. E quem é que paga esses direitos? Ora, quem retransmite.

A rigor, jornais, tevês, rádios e portais são todos iguais. Mas alguns são mais iguais que outros. Pequenos órgãos da mídia, com escassa audiência, pagam menos. Já as poderosas redes de tevê americanas despendem somas impressionantes pelo direito de transmitir as competições. Estamos falando de bilhões de dólares, com B de bola. Pagam mais que os outros, o que lhes dá direito a impor seus interesses.

Chamada do portal da Rádio Jovem Pan, 5 ago 2016

Chamada do portal da Rádio Jovem Pan, 5 ago 2016

A hora nos Estados do leste americano, agora no verão, está atrasada apenas uma hora com relação ao Rio de Janeiro. Portanto, para que jogos, corridas, pulos e outras competições caiam num horário conveniente para o público dos EUA, grande parte deles terá lugar à noite. Convém a quem vive nas Américas, mas atrapalha um pouco quem reside em outros pontos do planeta.

Às 20h de hoje, quando a festa de abertura começar, os cucos suíços e todos os outros relógios da Europa Ocidental já estarão marcando 1h da madrugada de sábado. Na Europa Oriental, serão já 2 horas. Sei de gente que vai tomar um café bem forte pra aguentar assistir ao vivo. Sei de outros que vão preferir acionar a função «replay» sábado de manhã.

Faço parte desses últimos. Desejo uma boa-noite a todos!

Feriados desaparecidos

José Horta Manzano

Você sabia?

Feriado é dia em que assalariado é pago sem precisar trabalhar. A disposição, em princípio, aplica-se a todos. No entanto, por óbvio, certas profissões e funções não podem seguir à risca. Bombeiros, urgentistas, policiais, controladores aéreos, taxistas, cozinheiros, enfermeiros fazem parte das exceções.

Feriados oficiais mudam com o vento e variam com o tempo. Tentar elencar os feriados nacionais brasileiros é pisar terreno pantanoso. Leis, decretos, resoluções e calendários nem sempre estão em sintonia. O emaranhado de dias festivos nacionais, estaduais e municipais tem muito cipó.

Ferias e feriados 2Para confundir de vez, aparece o «ponto facultativo», figura singular, de perfume arcaico. Não é impossível que sua origem seja o «bank holiday» inglês. Nesses dias, o trabalho pode até ser ‘facultativo’, mas não se costuma ver ninguém batendo ponto.

Salvo melhor juizo, os sete feriados nacionais oficiais estão elencados em lei de 2002. São eles: 1° janeiro, 21 abril, 1° maio, 7 setembro, 2 novembro, 15 novembro e 25 dezembro. Fora dessa lista, há os mencionados ‘pontos facultativos’, as festas estaduais e as municipais.

Achei interessante comparar as festas nacionais atuais com as de um século atrás. Em 1916, eram dez dias, três a mais que hoje. Em compensação, não se falava ainda em pontos facultativos.

Carro 15Entre os feriados de 1916, alguns ainda são comemorados. Outros desapareceram. Entre os que sumiram, estão:

24 de fevereiro
Festejava-se a promulgação da Constituição Federal de 1891. Dado que, depois dessa, já tivemos quase meia dúzia, o feriado desapareceu. Não faz sentido mudar a data a cada 15 ou 20 anos.

3 de maio
Comemorava-se a descoberta do Brasil. A escolha do dia 3 de maio devia-se a um erro histórico. O primeiro nome dado às terras avistadas por Pedro Álvares Cabral foi Ilha da Vera Cruz. A liturgia católica consagra o 3 de maio à celebração da verdadeira cruz de Cristo, a Vera Cruz. A carta de Pero Vaz de Caminha, com a data exata, andou extraviada por uns trezentos anos. Na falta de outro indício, adotou-se o 3 de maio para marcar o descobrimento. Hoje se sabe que foi num 22 de abril, mas a informação chegou atrasada: o feriado já tinha caído.

13 de maio
Era a festa da «extincção da escravatura». Já faz tempo que deixou de ser feriado.

Calendario 191614 de julho
Como sabem meus cultos leitores, é o dia da Tomada da Bastilha, festa nacional francesa. A comemoração foi abrasileirada, digamos assim. No Brasil, o 14 de julho passou a comemorar a liberdade e a independência dos povos americanos. De todos os povos americanos, não somente daqueles cuja ideologia do momento empatasse com a nossa. Também esse dia já deixou de ser festa.

12 de outubro
Era o dia do Descobrimento da América. Por coincidência, hoje é um daqueles feriados ‘informais’. Já não faz mais alusão a Cristóvão Colombo, mas a Nossa Senhora Aparecida.

Quais serão os feriados daqui a um século? Quem viver verá.

Ai, meu nome!

José Horta Manzano

Você sabia?

Chamada da Folha, 22 jul° 2016

Chamada da Folha, 22 jul° 2016

Admito que é tarde demais. Mas foi pena ninguém ter avisado ao astro do Barça que Lucca não é nome de gente. É nome de uma belíssima cidade da Toscana (Itália).

Melhor teria feito o neomilionário se tivesse nomeado o filho Luca. Esse, sim, é nome palatável, que aparece na Bíblia e é nome de santo. É muito usado na Itália, na Romênia e, em certa medida, na Alemanha.

Lucca, Toscana, Itália

Lucca, Toscana, Itália

É nome amplamente difundido em numerosas línguas. Veja só:

Indonésio = Lukas
Eslovaco  = Lukáš
Finlandês = Luukas
Húngaro   = Lukács
Japonês   = Rukasu
Armênio   = Ghukas
Francês   = Luc
Polonês   = Łukasz
Russo     = Лука (Luka)
Inglês    = Luke
Tcheco    = Lukáš

Como se vê, o “c” (ou o k) não é dobrado em nenhuma língua. O duplo “c” do nome do menininho, além de parecer esquisito, é de gosto duvidoso.

Amok

José Horta Manzano

Você sabia?

Sabe aquela plantinha à toa, sem graça, que você recebe de presente? Falo daquela que não te agrada, que lhe parece inútil, que chega numa hora em que você não tem vasinho disponível. O que é que você faz? Pois acaba passando adiante. Dá àquela vizinha que adora planta. Em seguida, vira a página e esquece o assunto.

Um dia, muitos anos depois, você percebe que a vizinhança toda exibe, bem na frente da varanda, um vaso enorme, com uma planta linda, viçosa, verdinha, que dá até flor. Observando bem, algo lhe parece familiar. Mas sim! É aquela plantinha à toa que lhe tinham dado um dia e que você tinha desprezado!

Planta 1Como é possível que todo o mundo tenha a mesma? Pergunta daqui, pergunta dali, você descobre que todas são descendentes daquela que um dia foi sua. É que ela pega de galho, vai daí, foi passando de vizinho em vizinho sem você se dar conta.

No finzinho dos anos 1400, o navegador português Bartolomeu Dias dobrou um cabo que marcava a ponta sul do continente africano. Estava se cumprindo a esperança de encontrar caminho marítimo para o Oriente. O primeiro nome ‒ Cabo Tormentoso ‒ foi logo alterado para Cabo da Boa Esperança, dada a boa perspectiva que anunciava.

De fato, a rota se abriu e os lusitanos foram os primeiros a visitar lugares onde nenhum europeu havia jamais botado os pés. Goa, Damão, Malaca, Diu, Baticaloa, Macau são lugares em que os visitantes estabeleceram postos comerciais. Do contacto com os nativos, muito se aprendeu, inclusive palavras e expressões novas.

Cabo da Boa Esperança, África do Sul

Cabo da Boa Esperança, África do Sul

Nas regiões onde predominam línguas do grupo malaio-polinesiano ‒ que vão de Madagascar até o Pacífico, passando por Malásia, Indonésia e Filipinas ‒ os portugueses observaram estranho fenômeno. Durante certas cerimônias, os celebrantes pareciam tomados de loucura furiosa. Queimavam os mortos, matavam os vivos, devoravam crianças, voltavam-se contra si mesmo, rodopiavam sem parar até cair extenuados. A isso chamavam amok. Com o passar dos séculos, o costume felizmente se perdeu, ao menos por aquelas bandas. Mas o nome ficou.

Como plantinha à toa, os portugueses trouxeram a palavra pra casa mas, não vendo utilidade, cederam aos vizinhos e nunca mais pensaram nisso. Acontece que ela pega de galho. Praticamente em desuso entre nós, o termo permaneceu vivo no resto das línguas europeias. Tem-se revelado utilíssimo nestes tempos de repetidas carnificinas.

Estes dias, todos os jornais alemães fazem referência ao Amok ‒ matança em grande escala ‒ que ocorreu num centro comercial de Munique. Russos, poloneses, italianos, franceses, suecos, espanhóis e numerosos outros guardam a grafia original. Os ingleses hesitam entre amok e amuck. Nós temos a escolha entre amoque e amouco. Mas não adianta nem usar: ninguém vai entender. A palavra está em coma, falta ressuscitar. Há uma alternativa muito na moda: reimportar do inglês sem tirar nem pôr. Quem sabe?

Livro 8 AmokO escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) publicou, em 1922, o livro Amok, que relançou o termo em alemão. Discorre sobre o Amokläufer ‒ indivíduo tomado de brusca loucura assassina. O termo é adequado para descrever os atos de alguns dos que temos chamado ‘lobos solitários’.

Para encerrar o assunto, fica a pergunta: por que é que toda essa matança acontece de repente, em repetidas ações sem nexo aparente entre elas? Uma emulação me parece evidente, um efeito de imitação. Já quanto às motivações, é melhor consultar doutor Freud.

Da missa a metade

José Horta Manzano

Você sabia?

Um deputado paranaense propôs, o Congresso votou e o presidente sancionou lei que afeta o Código Nacional de Trânsito. O dispositivo, que entrou em vigor neste 8 jul° 2016, altera a redação de dois artigos do CNT.

Encurtando a história, todo condutor está agora obrigado a «manter acesos os faróis do veículo, utilizando luz baixa, durante a noite e durante o dia nos túneis providos de iluminação pública e nas rodovias». Quem desobedecer se expõe a sanção de 85 reais e quatro pontos. O valor da multa até que é modesto, mas os quatro pontos são doídos.

Carro 13E de onde é que vem essa ideia? Não conheço a origem. Sei que, faz décadas, o uso de farol baixo é obrigatório nos países escandinavos, mas não sei se foram os pioneiros. Por seu lado, conheço a situação na Europa. Por aqui, a obrigatoriedade também existe, mas os especialistas foram mais zelosos no estudo de causas e efeitos. Quem passeia pela Europa e vê que carros costumam trafegar, dia e noite, com farol aceso pode até imaginar que todos usam farol baixo. Não é bem assim.

Estudos demonstraram que, se farol baixo faz que o veículo seja mais visível, é ultravoraz em consumo de energia. Mal regulado, pode até ofuscar, tornando a emenda pior que o soneto. Chegou-se à conclusão de que era mais eficiente instalar pequeninas lâmpadas de LED de baixíssimo consumo. Não servem para iluminar o caminho, mas para fazer que o veículo seja visível. Não perigam estar mal reguladas.

Carro 12A partir de 2011, todos os carros novos postos em circulação na UE são dotados dessas pequeninas lâmpadas LED. Basta ligar o contacto para que se acendam. Essa solução traz três vantagens.

A primeira é que o motorista não precisa se preocupar em lembrar: basta ligar o motor e pronto, as lâmpadas se acendem automaticamente. A segunda vantagem é que o sistema funciona o tempo todo, enquanto o carro estiver de motor ligado, seja dia ou noite, seja dentro de túnel ou fora, seja na cidade ou na estrada. A terceira vantagem ‒ essa é boa para quem conduz ‒ é que ninguém periga ser multado.

Carro 14Os proprietários de carros mais antigos, não dotados de sistema de lampadinhas LED, são fortemente encorajados a ligar o farol baixo o tempo todo. Mas não são obrigados a fazê-lo.

Taí um exemplo da falta que faz uma boa assessoria parlamentar, de olho vivo e aberta ao mundo. A proposta do deputado, que acabou mexendo na regulamentação brasileira, era bem intencionada, mas podia ter sido aperfeiçoada. Parlamentares e assessores ouviram da missa a metade.

Welcome to Hell

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem manda um tweet ou um sms pode-se permitir um errinho aqui, uma inadequação ali. Se faltar um pedaço, o mundo não vai acabar: na mensagem seguinte, completa-se. E a Terra continua a girar.

Há papéis mais solenes. Há casos em que o erro ou a omissão não se podem admitir. Um pronunciamento de figurão da República é definitivo, não tem como voltar atrás, entra para a História. A saudação que dona Dilma fez à mandioca já faz parte do folclore nacional. Daqui a dezenas de anos, depois que nos tivermos ido todos, manuais escolares ainda vão recordar, irônicos, a frase bizarra.

Destino igual há de ter aquele vídeo em que nosso guia explica ‒ diante de plateia admirativa ‒ que a poluição que castiga o Brasil não é culpa dos brasileiros, mas da rotação da Terra. Fosse o planeta retangular ou quadrado, o problema não existiria. Impagável.

Constituição 4Mais séria ainda que declarações de presidentes ignorantes é a lei. Erro ou imprecisão em texto legal pode ter consequências complicadas. Estive passeando pela Constituição brasileira. Logo no comecinho, entre os artigos que traçam o perfil e o caminho do país, está o que define as liberdades fundamentais.

Art. 5º
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

O artigo é longo, mas o essencial está dito nessas primeiras linhas. O arguto leitor há de ter reparado que a coleção de direitos não inclui todos. Estende-se a brasileiros e a estrangeiros residentes no país. Pergunto eu: como ficam os turistas, que não são brasileiros nem estrangeiros residentes? Não têm direito à vida nem à segurança? Más línguas dirão que, ao pôr os pés em território nacional, ninguém tem a vida e a segurança garantidas ‒ nem os de lá nem os de cá. Mas não é hora de brincar.

Welcome to Hell ‒ Bem-vindos ao Inferno

Welcome to Hell ‒ Bem-vindos ao Inferno

O texto constitucional tem falha gritante. Ao tentar ser sucinto e reunir numa só frase disposições desconexas, escorregou. Uma alínea deveria especificar que o direito à vida, à segurança, à igualdade e à liberdade são garantidos a quem se encontrar no território nacional, pouco importando que sejam brasileiros, estrangeiros residentes ou forasteiros de passagem. Outra alínea teria de tratar do direito à propriedade, que pode não se estender automaticamente a não residentes.

Do jeito que está, turistas que se aventurarem a visitar o Brasil não têm direito constitucional à vida nem à liberdade nem à igualdade nem à segurança. Num tempo de Jogos Olímpicos, pega mal pra caramba.

Turkish Airlines

José Horta Manzano

Você sabia?

Saiu estonteante notícia de terrível atentado terrorista no Aeroporto Atatürk, Istambul, Turquia.

Pois fique o distinto leitor sabendo que os camicases de miolo mole não escolheram um aeroporto ao acaso. Istambul tem-se tornado entroncamento (em novilíngua brasileira: hub) importantíssimo no tráfego aéreo.

Aeroporto Atatürk, Istambul

Aeroporto Atatürk, Istambul

A empresa aérea Turkish Airlines, cuja base de operações é justamente o aeroporto de Istambul, é a que maior número de países serve. Parece incrível? Pois é verdade. Seus aviões chegam a 126 países(!). Em segundo lugar, lá atrás, estão empatadas a LuftHansa e a Emirates, com 83 países cada uma.

Excluindo voos nacionais e voos intraeuropeus, a Turkish Airlines é a segunda companhia aérea mundial em número de passageiros transportados. Só a Emirates a supera.

Cada coisa que a gente fica sabendo, não?