A Copa que não é copa

Copa Jules Rimet

José Horta Manzano

Você sabia?

A primeira competição mundial de futebol foi sediada pelo Uruguai em 1930. O vencedor, que era justamente o dono da casa, recebeu da Fifa um troféu chamado “Vitória”. Anos mais tarde, estatueta será rebatizada “Copa Jules Rimet” em homenagem ao antigo presidente da Fifa que idealizou a competição.

A copa era obra do escultor francês Abel Lafleur. Media 35 cm de altura, pesava 3,8 kg e era feita de prata de lei folheada a ouro. Tinha um ar austero que combinava com a época de sua criação, os anos que antecederam a Segunda Guerra mundial.

O trato, estipulado por Jules Rimet, era que o vencedor de cada Campeonato Mundial guardasse a taça por quatro anos e em seguida a devolvesse à Fifa para que fosse entregue ao novo vencedor. O primeiro país que ganhasse o campeonato três vezes ficaria definitivamente com o troféu.

Em 1970, o Brasil venceu a competição pela terceira vez e tornou-se dono da taça definitivamente. Quatro anos antes, na Copa de 1966 organizada pela Inglaterra, o troféu tinha sido roubado durante uma exposição. Foi encontrado embrulhado com jornal, num jardim público, debaixo de uma moita. Enquanto isso, a Fifa já tinha providenciado uma cópia. Esse episódio criou grande confusão, de modo que ninguém até hoje sabe ao certo se a taça que o Brasil recebeu em 1970 era a original ou a cópia.

Com o Brasil tendo se tornado dono do troféu, a Fifa abriu concurso para criação de uma estatueta de substituição. O vencedor foi o artista italiano Silvio Gazzaniga. Sua obra é a que aparece a cada quatro anos e é entregue ao país vencedor – e beijada pelos jogadores. A peça principal é de ouro maciço 18 quilates, mede 36,5 cm e pesa 5 kg. A base, de 13 cm de altura, é ornada com duas placas de malaquita.

Copa Fifa

Esse novo troféu, que circula desde 1974, é propriedade da Fifa. Só aparece na cerimônia final do campeonato a fim de ser erguido e beijado. Logo após, quando se apagam as luzes, é recuperado e guardado em lugar seguro. O país vencedor recebe então uma cópia de aparência idêntica, mas feita de prata de lei folheada a ouro. Como diziam os antigos, “o seguro morreu de velho”.

Desde 1974, quando foi apresentado pela primeira vez, o troféu vem recebendo centenas de beijos. Pelo bem da saúde dos beijoqueiros, espera-se que a estatueta seja desinfetada antes de descansar no cofre à espera da próxima Copa do Mundo.

Agora é que vem a curiosidade. A Jules Rimet, criada em 1930 e entregue definitivamente ao Brasil em 1970, era uma verdadeira copa, ou seja, tinha a forma de um copo com borda octogonal que podia até ser enchido de vinho. Com ela, o campeonato fazia jus ao nome de Copa do Mundo (ou simplesmente Copa, para os íntimos).

Mas o troféu atual, que representa um globo terrestre erguido por duas figuras humanas, está longe de ser uma taça. Em princípio, não faz mais sentido chamar o campeonato de Copa, porque o prêmio final não é um copo nem uma copa. O evento podia ser chamado de “Globo do Mundo”, mas acho que o nome não ia pegar.

Velhos hábitos são renitentes. Até hoje somos muitos a chamar de Copa uma Copa que já faz meio século que não tem copa.

Espanhol: Copa del Mundo
Francês:  Coupe du monde
Sueco:    Världscupen
Italiano: Coppa del Mondo
Inglês:   World Cup
Russo:    Кубок мира (Copa do Mundo)
Sérvio:   Светски куп (Copa do Mundo)
Turco:    Dünya Kupası (Copa do Mundo)

Medalha não tem preço

José Horta Manzano

Você sabia?

Medalha olímpica não tem preço. De fora, a gente não se dá conta do duro que cada medalhista deu pra chegar lá. A cobiçada medalha é coroamento de quatro anos de trabalho, esforço, esperança. O valor é incalculável. Vamos ser claros: é incalculável no campo simbólico. Como se dizia antigamente, não há preço que pague. Numa análise mais chã, contudo, cada medalha tem seu valor intrínseco, sim, senhor. Vamos ver como funciona.

Foto Rio 2016/Alex Ferro

Foto Rio 2016/Alex Ferro

Para começar, saibam os distintos leitores que as medalhas dos Jogos Rio 2016 foram fabricadas pela Casa da Moeda do Brasil. No total, o Comitê Olímpico Internacional encomendou 2.488 peças ‒ 812 de ouro, 812 de prata e 864 de bronze. É sempre bom calcular com folga pra não faltar na última hora.

Todas têm tamanho e peso idêntico. Medem exatos 85 milímetros de diâmetro e pesam meio quilo. São as maiores e mais pesadas jamais encomendadas para Jogos Olímpicos de Verão.

A medalha mais importante, dita “de ouro”, não é de ouro maciço, como se poderia imaginar, mas de prata folheada. Contém 494g de prata e um revestimento de 6g de ouro. Fazendo abstração do valor simbólico, pode-se calcular o valor do metal: dá pouco mais de 560 dólares. As que foram distribuídas nos Jogos de Londres valiam muito mais, porque a cotação do ouro na época estava nas alturas. Hoje em dia, se fosse de ouro maciço, cada medalha de primeiro prêmio valeria em torno de 22 mil dólares.

Foto Rio 2016/Alex Ferro

Foto Rio 2016/Alex Ferro

A de prata é feita, naturalmente, de prata de lei (925). Pela cotação atual do metal, pode ser vendida por cerca de 300 dólares. A medalha de bronze é uma liga de 475g de cobre com 25g de zinco. É bem menos valiosa que as outras. O valor do metal não vai além de 3 dólares. Nas cercanias da Vila Olímpica, tem gente vendendo pacote de salgadinho por esse valor. E tem gente comprando.

Medalhas de ouro maciço foram distribuídas pela última vez em Estocolmo, na longínqua edição de 1912 dos JOs. Se as 812 medalhas encomendadas para Rio 2016 fossem de metal maciço, o COI deveria desembolsar quase 18 milhões de dólares, sem contar a mão de obra.

Diferentemente da Taça Jules Rimet, arrebatada pelo time de futebol do Brasil em 1970 ‒ aquela que acabou sendo roubada e derretida ‒ não vale a pena derreter galardão olímpico. A Taça da Copa era de ouro maciço, enquanto as medalhas valem mais pelo símbolo que pelo metal.