Comprimento e largura

Carlos Brickmann (*)

Biblioteca 2História sem fim
Os casos vão longe. Numa reportagem de Turismo, fala-se num hotel-biblioteca para hóspedes que apreciam leitura. Esses hóspedes – e leitores – são submetidos logo na entrada da matéria a uma legenda, “Amantes de livros nunca vai para a cama sozinhos”. Sozinha, no singular, abandonada, só mesmo a concordância.

Mas continua: informa que no hotel há um ‘lounge’ chamado “Refúgio do Escritor”, que “à noite serve drinques com nomes ligados à literatura”.

Notável: o ‘lounge’ , que em português significa algo como sala de estar, é tão inteligente e prestativo que até serve drinques. Que maravilha!

E o leitor que aprecia livros, que gosta de leitura, que é que achará desse texto?

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Vício de origem
Lembra daquele documento que vazou da Secom, Secretaria de Comunicação do Governo Federal, e derrubou o ministro Thomas Traumann? No documento, defendia-se a interferência partidária no noticiário da Agência Brasil. Pois é. Em 3 de abril, às 11h46, matéria publicada pela Agência Brasil sob o título “Primeiro-ministro de Israel diz que Irã tem como único objetivo a bomba atômica”, era assinada pela Agência Lula.

Errinho bobo, nada além disso. O correto seria “Agência Lusa”. Mas imagine-se o que andava pela cabeça do redator para cometer esse errinho bobo.

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Estudante 2Estudar é preciso
O grande Percival de Souza, já na época um dos maiores repórteres policiais do país, chegou à conclusão de que não poderia aperfeiçoar suas matérias sem aperfeiçoar-se em Direito. Entrou na faculdade e se formou. Em suas matérias, o juiz não “pede”, determina. Mandado é mandado, e mandato é mandato. A polícia prende, mas cumprindo ordens do juiz, que é quem expede o mandado. Incomum: ainda outro dia, um jornal de tevê de uma grande rede informava que a Polícia Federal estava “expedindo mandados de prisão”. Nesse turbilhão de operações, o que sai de informação incorreta é uma festa.

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Retalhos
● De um grande portal noticioso, ligado a grande grupo jornalístico:
“40% das policiais mulheres do país já sofreram assédio”
Se a frase fala das policiais, não fica claro que são mulheres?

Avião 7● De um importante portal noticioso, sobre chegada ao Brasil de novo modelo de jato de passageiros:
“O aparelho tem 64 metros de largura por 67 de comprimento”.
Ou seja, é praticamente quadrado. O primeiro avião do mundo com formato de caixote. (1)

● De importante coluna informativa de um grande jornal impresso:
“A ‘operação padrão’ dos agentes fiscais de rendas do Estado de São Paulo (…) provocou queda de 14% no número de autos de infração e de multas no primeiro trimestre. Foram 3.367 autuações por dívidas com impostos, ante 2.891 no mesmo período do ano passado”.
Este colunista é do tempo em que 3.367 era número maior que 2.891.

 

Rir 5Frases
● Da internauta Ludmila Rodrigues:
Acredito que a preguiça pode ser uma coisa boa. Se não fosse ela, eu estaria lá na cozinha quebrando a dieta.

● Do jornalista Sandro Vaia, sobre a rala manifestação da CUT em São Paulo no dia 7 de abril:
Hoje na Paulista, um transeunte distraído perguntou: o que é isso, jogo da Lusa?

● Do jornalista Luiz Weis, citando texto do ensaísta Charles Simic publicado em 1993 na revista americana The New Republic:
A atitude da mídia diante da complexidade dos assuntos é a mesma da Inglaterra vitoriana diante da sexualidade: uma coisa da qual as pessoas precisam ser protegidas.

● Do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, sobre as dificuldades do governo para aprovar o ajuste fiscal:
Responsabilidade fiscal é igual a sapato branco. Só é bonito no pé dos outros

Tres patetas 1● Do jornalista Palmério Dória:
Pepe Vargas está credenciado a compor um quadro como o quarto dos Três Patetas.

● Do jornalista Cláudio Humberto
O projeto nem foi aprovado, mas Dilma fez questão de ser a primeira a aderir à nova proposta de terceirização. Terceirizou a economia para o ministro Joaquim Levy e a política para o vice, Michel Temer.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais. O texto aqui reproduzido é fragmento da coluna.

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(1) Nota deste blogueiro
O jornalista citado por Brickmann atirou no que viu e acertou no que não viu. A distância que vai da ponta da asa de um avião à ponta da asa oposta não se diz «largura», mas envergadura. O mesmo vale para pássaros, que, por sinal, também têm asas.

Três sustos

José Horta Manzano

Você sabia?

Troglodita 3Primeiro susto
Se alguém, na França, lhe propuser visitar uma maison troglodyte – casa troglodita, não deve o distinto leitor se assustar. Não imagine que o cicerone vá conduzi-lo a lugar não recomendável a pessoas de boa família.

A língua francesa de hoje reserva o adjetivo troglodita para construções – em geral habitáveis, mas não necessariamente – que têm a particularidade de serem escavadas no flanco de parede rochosa. É o que, na Espanha, chamam cuevas.

Troglodita 2Troglodita 1Ideal para os sem-teto medievais, abrigos desse tipo vêm sendo aproveitados para acolher turistas em busca de alojamento fora do corriqueiro. Quando bem ajeitadas, as casas trogloditas pode exibir charme incomum.

Na Idade Média, até castelos trogloditas foram construídos. Em vales estreitos, o aproveitamento da parede rochosa fazia ganhar espaço. Os fundos do imóvel já estavam prontos, só faltava a frente. Duro mesmo devia ser a escavação no muque.

Interligne 18gSegundo susto
Ainda na França, se um conhecido se apresentar como personne ordinaire – pessoa ordinária, não tome isso como confissão de criminoso. No francês atual, ordinário é o contrário de extraordinário. Aplica-se a tudo o que é comum, corriqueiro, usual. Seu amigo está simplesmente afirmando que é pessoa comum, sem atributos especiais.

Croissant 1Se você entrar numa boulangerie e pedir um croissant, virá a pergunta obrigatória: beurre ou ordinaire? – de manteiga ou comum? Encomende o que lhe apetecer. No entanto, gordura por gordura, mais vale ficar com o de manteiga. Já que vai engordar, que seja com mais gosto.

Interligne 18gLeão 1Terceiro susto
Le lion est le roi des animaux significa o leão é o rei dos animais. Muitos e muitos anos atrás, no tempo em que a escola brasileira dava aulas de francês, esse era um dos provérbios mais apreciados por estudantes engraçadinhos. (Falando nisso, acabo de cometer pleonasmo: todo estudante é engraçadinho por natureza.)

Como a pronúncia soa «leliôn é lerruá dezanimô», a gente costumava dizer que o leão ia urrar, desanimou. Brincadeira de criança antiga. Já faz tempo que deve ter perdido a graça.

A sizuda «Pátria Educadora», coisa séria pra valer, não tolera mais esse tipo de troça. A partir de agora, a escola se compromete a ensinar, e o aluno, a aprender.

Confeitura

José Horta Manzano

Confiture 5No Hemisfério Norte, onde vive a maior parte da humanidade, a primavera está chegando timidamente. Folhas brotam, flores se abrem, a paisagem fica cada dia mais colorida. E os frutos começam a dar o ar da graça.

Os primeiros são os morangos, já presentes em quitandas e supermercados desde o mês de março. Depois virão cerejas, melões, pêssegos, abricós, ameixas, peras, maçãs, uvas e, pra fechar o ano, laranjas.

Confiture 2Hoje em dia, nem tem mais graça: o mercadinho da esquina oferece, o ano todo, frutas fora de estação. Em pleno dezembro, há cerejas do Chile. Em maio, uvas da Índia ou da África do Sul. Mangas do Brasil e abacaxis da Costa do Marfim encontram-se o ano todo. Fazem companhia às bananas onipresentes, todas iguaizinhas, da mesma cor, sem pintinhas e… cá entre nós: sem gosto. Pior: com gosto de remédio.

Abrindo parênteses, acho um despropósito comprar frutas fora de época, daquelas que atravessaram meio planeta de avião, gastando querosene e poluindo. Mas há quem não pense assim. Cada cabeça, uma sentença. Fechem-se os parênteses.

Confiture 1Se a tecnologia e a logística atuais põem praticamente todas as frutas à nossa disposição o tempo todo, nem sempre foi assim. Tempo de morango era março-abril, ponto e basta. Fora daí, necas de pitibiriba. E fruta não se pode guardar, que logo apodrece. Como faziam os antigos?

Não sei quem terá tido a ideia de cozinhá-las no açúcar. Foi um achado! Cozidas e guardadas num recipiente bem fechado, podem durar anos. Sem geladeira, sem sal, sem aditivo.

Confiture 6Praticamente todos os europeus mantêm a tradição de conservar frutas em açúcar. Franceses, ingleses e alemães costumam consumir essas doces «memórias de verão» no café da manhã, em pleno inverno. E no resto do ano também, uai. Espanhóis e portugueses também apreciam, mas com menor intensidade.

Confiture 4No Brasil, não são componente indispensável do café da manhã. Café, leite, pão, manteiga, sim. Geleia – que é como chamamos – é optativo. Há mesas em que está sempre presente. E há gente que jamais comprou um pote.

Os franceses dizem «confiture». Espanhóis preferem «mermelada». Ingleses reservam «marmalade» para cítricos; para outras frutas, usam «jam». Já os italianos dizem «marmellata» em todos os casos. Alemães hesitam entre «Konfitüre» e «Marmelade».

O vocabulário da Academia Brasileira de Letras registra a forma peculiar confeitura. Na vida real, nunca ouvi ninguém utilizar esse termo. O nome usual é geleia ou, mais raramente, doce. Confesso desconhecer o uso lusitano. Se algum distinto leitor me puder iluminar, fico sensibilizado.

Confiture 3Toda mulher europeia – e muito homem também – costuma fazer geleia em casa, conforme vão aparecendo as frutas da estação. Faz-se o doce, despeja-se num pote de vidro, fecha-se hermeticamente, põe-se uma etiqueta e pronto: vai para o fundo do armário. Em geral, a quantidade de potes é superior à que se consumirá até o ano seguinte. Que fazer pra não acumular doce antigo?

Pois nesta época em que frutas frescas reaparecem, é comum as pessoas serem acometidas de súbita generosidade. Por um sim, por um não, todos se dão de presente potes de geleia do ano anterior. É pra esvaziar prateleira e abrir espaço pra novas conservas. Semana passada, recebi presente assim de duas pessoas.

Interligne 18hPS:
Nossa expressão «ser apanhado com a boca na botija», usada quando alguém é surpreendido ao agir de maneira indevida, tem equivalente em francês. É «se faire prendre les doigts dans le pot de confiture» – ser apanhado com os dedos no vidro de geleia. Pra você ver o valor que se dá a esse tesouro armazenado no fundo do guarda-comida.

Novo hino

José Horta Manzano

Você sabia?

A história do hino nacional suíço é tão movimentada como a história do país. Imagine só: até 1961, a melodia era a mesma do hino britânico. Não cheguei a assistir pessoalmente, mas imagino que a execução dos hinos antes de encontros esportivos internacionais havia de ser um momento histriônico.

Num jogo entre Suíça e Reino Unido, bastava tocar o hino uma vez só. Os britânicos cantariam «God save the Queen» enquanto os helvetos entoariam «Rufst du, mein Vaterland» (ou «Ô monts indépendants», conforme a língua do freguês).

Suisse 16Quando o hino suíço começou a se difundir pelo país, em meados do século XIX, o fato de dois países usarem a mesma melodia não tinha tanta importância. Aliás, a melodia do hino britânico ‒ cujo autor não se conhece com certeza ‒ foi ou ainda é utilizada em numerosos outros cânticos nacionais, oficiais ou reais.(*)

Em 1961, o governo federal abandonou o hino antigo e adotou um canto provisório. Foi promovido ao estatuto de Cântico Suíço e está em vigor até hoje. A adoção de uma música definitiva foi adiada. Agora, meio século depois, a hora chegou.

Em 2014, foi lançado um concurso para a escolha de novo hino. As condições, bastante restritivas, exigem que a nova melodia lembre a antiga. Além disso, a letra tem de ser calcada na mensagem contida no preâmbulo da Constituição do país. Não sobra muita margem para inventar moda.

Das 208 composições inscritas, as seis finalistas acabam de ser publicadas na rede. Todos os residentes no país estão convidados a visitar o site oficial e votar em sua preferida. Das seis, sairão as três finalistas. Todos votarão de novo, e a grande vencedora será anunciada em 12 set°, considerado dia aniversário da fundação da Suíça moderna.

Suisse 17Caso o distinto leitor tenha curiosidade em conhecer as seis classificadas, pode clicar aqui. Dado que o país tem quatro línguas nacionais, cada hino conta com quatro versões: alemã, francesa, italiana e romanche. Para mudar de língua, clique na janelinha que aparece no canto superior direito da página.

O planeta está morrendo de impaciência de conhecer o vencedor. Vai ser difícil esperar até setembro.

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(*) A melodia do «God save the Queen» foi (ou ainda é) adotada em outros países:

Alemanha ‒ hino do império até 1918
Liechtenstein ‒ hino nacional até hoje
Noruega ‒ hino real até hoje
Rússia ‒ hino nacional até 1833
Suécia ‒ hino nacional em vigor no século XIX
Suíça ‒ hino nacional até 1961

Tresnoitados

José Horta Manzano

Relogio CFF

Hoje, que é domingo, ainda não está dando pra perceber, mas amanhã é que todos vão sentir na pele. Ou na pálpebra. Sentir o quê? A mudança de hora, ora! Todos os países europeus ‒ com exceção da Rússia e de dois ou três vizinhos ‒ entraram na hora de verão este fim de semana.

Como no resto do mundo, a justificativa para impor esse desagradável ritual bianual é poupar energia. Muitos contestam argumentando que os inconvenientes pesam mais que a diminuta economia. É discussão sem fim, que vem dando pano pra mangas e não vai se extinguir tão já.

A primeira experiência concreta de instaurar hora de verão teve lugar na Alemanha, em 1916, em plena guerra mundial. A ideia, considerada genial, foi adotada pelo Reino Unido e pela França naquele mesmo ano.

De lá pra cá, a adoção da mudança de hora foi esporádica. De quando em quando, um país decidia instaurá-la, enquanto vizinhos não tocavam no relógio. Nos tempos em que as comunicações internacionais em tempo real eram reduzidas, a discrepância não incomodava muito.

Mas os tempos mudaram, e a uniformização da prática foi-se fazendo necessária. A partir do início dos anos 80, um após o outro, todos os países europeus foram-se alinhando à rotina.

Relógio solar

Relógio solar

Nos primeiros anos, o Reino Unido, embora adotasse a hora de verão, não mexia em seus relógios ao mesmo tempo que os demais países europeus. A mudança entrava em vigor com defasagem de algumas semanas com relação aos vizinhos. Maldosos, os franceses aproveitavam para repetir que «os ingleses não conseguem mesmo fazer nada como os outros».

Essa excepcionalidade terminou em 1998. Naquele ano, a União Europeia normatizou a prática. Ficou combinado que a hora de verão passasse a vigorar da 1h (GMT) do último domingo de março até às 2h (GMT) do último domingo de outubro.

Relógio moleAgricultores e criadores de gado detestam a medida. Argumentam que vacas, que não usam relógio, devem ser ordenhadas sempre à mesma hora. É grita inútil. A norma que estabelece a dança das horas periga continuar ad vitam aeternam.

Anotemos pois: a partir deste 29 de março, Brasília está distante quatro horas de Lisboa, Dublin e Londres. E cinco horas dos outros países da Europa ocidental.

Falando nas agulhadas que ingleses e franceses adoram aplicar-se mutuamente, ocorre-me que nossa expressão sair de fininho se traduz assim:

Interligne vertical 13em inglês: «take a French leave» (sair à francesa)

em francês: «filer à l’anglaise» (escapar à inglesa).

Mal-educados são sempre os outros, nunca nós mesmos. Interessante, não?

Vamos terminar parodiando o fecho com que Millôr Fernandes costumava encerrar suas historietas: pano rapidíssimo.

O grande título

Carlos Brickmann (*)

Que semana maravilhosa! Temos manchetes de tipos variadíssimos e pouco usuais. Uma delas permite até a metaleitura. Embora não trate do assunto, demonstra claramente que:

Interligne vertical 11a) o ensino primário pode se chamar fundamental, pode se chamar primário, mas não pode ser chamado de ensino;

b) os meios de comunicação estão recrutando profissionais com um quarto cheio de diplomas internacionais, mas esqueceram de pedir que os candidatos à vaga preencham pessoalmente uma ficha de pedido de emprego.

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Comecemos com este, de um dos maiores portais noticiosos do país, ligado a um dos maiores grupos noticiosos do país:
“Investigação da PF Lava Jato aponta propina trêz vezes maior do que no mensalão”
O destino, piedoso, permitiu que profissionais como Emir Macedo Nogueira, Eduardo Martins, Napoleão Mendes de Almeida fossem poupados de ler essa frase.

Rir 2Outra manchete notável consegue, sem ser humorística, despertar o riso. E, simultaneamente, fazer com que retomemos contato com os textos sagrados. “Ministros entregam a Renan pacote anticorrupção”
Agora só lhes falta entregar a Herodes o plano nacional de cuidados com a infância.

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Um título sugestivo também permite a leitura no subtexto. Traz a informação e, instigante, permite que busquem as causas do evento:
“Haddad volta a dar aulas na USP após 12 anos”
Demorou. Deve ter ido para a universidade de bicicleta, no meio da buraqueira mal pintada a que chama de ciclovia.

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E o grande título, capaz de provocar uma pergunta de difícil resposta:
“Morena, Angélica diz que perdeu virgindade aos 17”
E loira, com que idade terá acontecido?

 

Rir 1CURTINHAS

● Da tuiteira Bea M. Moura:
“Herrar uma vez é lulice. Herrar duas veis é dilmais.”

● Do jornalista Sandro Vaia:
“A entrevista de Cardozo e Rosseto prova que o fracasso também sobe à cabeça.”

● Do presidente do Congresso, senador Renan Calheiros:
“O Aloízio Mercadante tem resposta para tudo e solução para nada.”

● Do jornalista Leão Serva:
“Petrobrás vai privatizar propriedades da empresa. Mas tucanaram a privatização: agora se chama ‘desinvestimento’.”

● Do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, PMDB, sobre o PT:
“Eles fazem tudo aquilo que pensavam que nós fazíamos.”

Rir 5● Do jornalista Ricardo Noblat:
“A presidenta já avisou que é a pessoa mais humilda da galáxia!”

● De uma faixa na manifestação de 15 de março, erguida (supõe-se) por um palmeirense:
“Fora Dilma, Alckmin e Valdívia.”

● Da jornalista Maria Helena Amaral:
“Pedro Barusco foi o melhor investimento da Petrobrás nos últimos cinco anos. Roubou US$97 milhões a R$ 1,70 e devolveu a R$ 3,10.”

● Do deputado comunista Roberto Freire, presidente nacional do PPS:
“Nada mais patético do que petistas que participaram conosco do impeachment de Collor falarem de terceiro turno e golpismo.”

● Do jornalista James Akel, comentando o baixo ibope do programa de TV apresentado por Marina Mantega:
“A filha é tão boa apresentadora quanto o pai era ministro.”

● Do jornalista Jarbas de Barros Domingues:
“Quando um homem consegue finalmente entender as mulheres, já está velho demais para se interessar por elas.”

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(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

Senhora idosa

Dad Squarisi (*)

Corrupção 2Metáforas têm superpoder. São capazes de ir além do que dizem. Quando o pão pão, queijo queijo perde o viço e o dom de surpreender, a gente apela para o sentido figurado. Oba! Desvencilha-se das amarras e avança em significados. Foi o que fez a presidente Dilma Rousseff.

Ao dizer que a corrupção é “senhora idosa”, não saiu do óbvio. Não saiu do óbvio também quando afirmou que é anterior ao governo do PT. Até as pedras sabem que veio na caravana de Pedro Álvares Cabral. Está registrada lá, na carta de Pero Vaz de Caminha.

De óbvio em óbvio, a metáfora conduz a outro. Idosos morrem. (Jovens também.) A morte faz parte do ciclo da vida. Quem contraria a lei natural colhe resultado certo — o fracasso. Mas muitos insistem. Desde que o mundo é mundo, há relatos de atrevimentos. A mitologia está repleta de exemplos. Um deles: o de Sibila.

Vovó 1A profetisa se tornou porta-voz de Apolo. O mais belo deus do Olimpo apaixonou-se por ela. Caidinho de amor, prometeu satisfazer todos os desejos da amada. Ela pediu loooonga vida. Talvez a eternidade. Ele a atendeu. A moça foi ficando velhinha, velhinha — pequena e ressequida.

Alguém a pôs numa gaiola e a pendurou no templo de Apolo. Sibila ficou ali ano após ano, década após década, século após século. Visitantes pensavam que se tratasse de uma cigarra. Quando descobriam que era uma pessoa, perguntavam o que ela mais queria. A resposta: “Quero morrer”.

Gaiola 1A voz de Sibila ecoa de norte a sul do Brasil. A multidão que vestiu as ruas de verde-amarelo deixou recado claro — deixem a corrupção morrer. Cartazes, alto-falantes e bordões recusavam a prática embolorada que se agigantou com desenvoltura ímpar. Sem escrúpulos, jogou nas cordas até a Petrobrás, a mais simbólica empresa brasileira.

Velha como a senhora idosa foi a resposta do Planalto. Ao olhar pra trás, o discurso ressequido lavou as mãos. (Assim era, assim será.) Deixou de mirar o novo que tomou as ruas. São pessoas conectadas que exigem mudanças. Estavam lá como sociedade organizada que se recusa a pagar a supervitamina que mantém vivo cadáver sem sintonia com o contemporâneo.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Quem não se comunica se estrumbica

José Horta Manzano

Comunico à Casa o comunicado que recebi do chefe da Casa Civil comunicando a demissão do ministro da Educação.”

Comunicação comunicada pelo deputado Cunha, que comunicou o comunicado que lhe havia sido comunicado pela Casa Civil. A obra-prima de oratória foi comunicada por todos os jornais.

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Tirando o cômico da cena, vamos aos fatos. O episódio escancara novo e flagrante exemplo de que a “Pátria Educadora” não passa de bordão vazio.

O cargo de ministro da Educação contém a palavra educação. Admite-se que, mortal, o titular da pasta carregue defeitos – como todos nós. Uma falha, no entanto, é inconcebível: que ele demonstre falta de educação. É o coxo zombando do perneta.

Faroeste 1Mais uma vez, fica patente que o Planalto tenta iludir a nação à custa de slogans. Esse da “Pátria Educadora” é apenas mais um, mera frase de efeito, inventada pra inglês ver.

Na hora do vamos ver, no momento crucial de escolher um ministro para a pasta estrategicamente mais importante da República – aquela que vai traçar o caminho das gerações futuras – quem é o agraciado? Um indivíduo tosco e mal-educado. Um indivíduo ao qual um papel secundário num filme de faroeste, ao lado de John Wayne, assentaria como luva. Já para encabeçar o Ministério da Educação, não serve.

Orthographia ‒ 1

José Horta Manzano

“Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.”

Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935), escritor, poeta, crítico e polemista português.

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Fernando Pessoa aferrou-se, a vida toda, à grafia etimológica (ou pseudoetimológica) pela qual se havia alfabetizado. Recusou dobrar-se à nova regra – dita “simplificada” – instituída pela Reforma Ortográfica portuguesa de 1911.

Fernando Pessoa 1

Para constar, note-se que essa reforma de 1911 foi temperada, cozida e gratinada exclusivamente em Portugal. O Brasil só foi avisado uma vez que o acepipe já estava à mesa, disposto em terrinas fumegantes, pronto a ser servido. Naturalmente, a reforma foi ignorada deste lado do Atlântico. Mas veja só!

Não é de hoje que constantes e inconsistentes imposições de novas regras têm acentuado o sentimento de insegurança linguística que nos fere a todos. Essas frequentes alterações podem até satisfazer o ego (e o bolso) de um punhado de confrades, mas constrangem o cidadão comum. Seja ele brasileiro, luso, angolano ou timorense.

Se as línguas que nos cercam conseguem manter o vigor sem reformas ortográficas, por que razão precisamos nós remendar a nossa tão seguidamente? Que nos preocupemos em consertar o que estiver avariado, pois não? Nosso caminho é outro: nenhuma reforma ortográfica será capaz de salvar nosso falar da degradação.

Orthographia 1

O inglês é língua oficial de jure ou de facto de 79 países ou entidades territoriais. A língua francesa é oficial em 48 países ou entidades. Quanto ao espanhol, 22 países o têm como língua oficial. A despeito dessa disseminação – ou talvez por causa dela – nenhum dos falantes dessas línguas vive engessado num normativismo sufocante como vivemos nós.

Para dar um basta a essa esbórnia, uns bons Fernandos Pessoas andam fazendo muita falta.

Com casca e tudo

José Horta Manzano

Você sabia?

Livraria Lello & Irmão, Porto

Livraria Lello & Irmão, Porto

O sítio onde hoje se ergue a cidade do Porto – maior metrópole portuguesa depois de Lisboa – está entre as zonas de povoamento mais antigo da Península Ibérica.

Bem antes da chegada das primeiras legiões romanas, um povoado já lá estava, implantado bem à beira do Rio Douro. Durante séculos foi conhecido como Cale, mais tarde como Portus Cale. É geralmente aceito que o nome da aldeia se tenha transmitido ao país inteiro.

De fato, a evolução de Portus Cale a Portugal é difícil de contestar. Já quanto ao significado primitivo de Cale, não há consenso. Alguns vêem um descendente do latim calidus (=quente). Dado que não há registros escritos da época, não será fácil dar resposta definitiva.

Porto 1A língua portuguesa é avessa à letra L. Em inúmeros casos em que línguas irmãs apresentam um L simples, o português puramente o suprimiu. Exemplos? Aqui vão:

Italiano     Espanhol     Francês     Português
colare       colar        couler      coar
filo         hilo         fil         fio
tela         tela         toile       teia
volare       volar        voler       voar

Livraria Lello & Irmão, Porto

Livraria Lello & Irmão, Porto

Os artigos definidos seguiram o mesmo caminho. O L que aparece nas línguas hermanas desapareceu na nossa. Le, el, il transformaram-se em o. É um charme, não há dúvida, mas essa queda do L nos causou problemas. Um dia falarei sobre isso. Por hoje, vamos continuar nossa visita a Portugal.

A cidade do Porto é uma das raras que, em nossa língua, são sempre precedidas do artigo. As outras são: o Rio de Janeiro, o Recife, o Crato, o Cairo. Não me ocorre mais nenhuma. Vai daí, mapas antigos costumavam anotar O Porto, como se escrevessem O Rio de Janeiro ou O Recife.

Vuelo de Ginebra a Oporto

Vuelo de Ginebra a Oporto

Ignorando que aquele «o» não fazia parte do nome da cidade, espanhóis e ingleses engoliram o produto sem desembalar. Consumiram a mercadoria do jeito que veio.

Pelas bandas de Londres e de Madri, o nome da segunda cidade de Portugal é Oporto, sim, senhor.

Curiosamente, os ingleses, maiores consumidores do vinho do Porto, não aglutinaram o artigo ao nome da bebida. Acertadamente, dizem Port Wine. É de crer que o consumo do néctar produzido nas encostas ensolaradas do Douro esclarece as ideias.(*)

(*) A consumir com moderação.

Joões que choram, joões que riem

José Horta Manzano

Campo de colza na Europa

Campo de colza na Europa

O azar de uns…
A insatisfação de caminhoneiros anda fazendo a infelicidade de muitos no Brasil. Nos anos 1960, a rodovia primeiro suplantou, depois dizimou toda atividade ferroviária. Desde então, a economia do País tornou-se dependente do caminhão. Qualquer perturbação no movimento de carga pesada tem reflexo imediato dos montes roraimenses às coxilhas gaúchas.

… faz a felicidade de outros
Mas a balança tem dois pratos. Se um baixa, o outro, necessariamente, tem de subir. O Brasil, grande fornecedor de soja, não é o único produtor de alimento animal. Outras partes do mundo cultivam outras comidas pra bicho.

Nos países de clima fresco, uma planta anual resultante de antiquíssimo cruzamento entre repolho e nabo está entre as três principais fontes de óleo vegetal de regiões temperadas: é a colza. O girassol e a oliveira completam o trio das estrelas oleaginosas.

Campo de colza em andares

Campo de colza em andares (terraços)

Um campo de colza é esteticamente muito bonito. Lá pelo mês de abril-maio, suas flores amarelas enfeitam a paisagem. Da colza, planta polivalente, extrai-se óleo comestível, etanol e alimento animal.

A canola, termo familiar ao brasileiro, é uma variedade de colza desenvolvida no Canadá.

Os dez maiores produtores mundiais são os seguintes:

Interligne vertical 16 3Kb1°) Canadá
2°) China
3°) Índia
4°) França
5°) Alemanha
6°) Austrália
7°) Reino Unido
8°) Polônia
9°) Ucrânia
10°) Estados Unidos

Flor de colza

Flor de colza

Exatamente como a soja, a colza também é cotada nas bolsas de matérias-primas. Com o tráfego bloqueado e a soja fermentando na carroceria de caminhões brasileiros, o que é que aconteceu? Um doce pra quem adivinhar.

É claro: a cotação da colza subiu. A balança começa a pender pro outro lado. É a lei da gangorra.

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(*) A palavra colza é contribuição dada ao mundo pela língua holandesa. O original é koolzaad (= semente de repolho).

O joio, o trigo & outras considerações

Carlos Brickmann (*)

O joio é um vegetal parecidíssimo com o trigo, que nasce nos mesmos lugares. Só que, em vez de benéfico, é daninho. Quem planta trigo precisa separar o joio, para não estragar a colheita. Quem faz jornalismo, também – embora um intelectual e político americano, Adlai Stevenson, duas vezes candidato à Presidência (e duas vezes derrotado), costumasse dizer que a função de um editor é separar o joio do trigo, e publicar o joio.

Hem?
Quando Winston Churchill tinha sete anos, seu professor de Latim quis ensinar-lhe a declinação de “mensa” – mesa. Parou no vocativo, quando Churchill quis saber o que aquilo significava. O professor explicou: “É a forma que você deve usar quando falar com uma mesa”. O garoto garantiu ao professor que jamais conversaria com uma mesa. O professor se ofendeu e suspendeu-o. E Churchill, numa frase que deve ser lembrada, disse que nunca mais se interessaria por grego, latim ou outras línguas: queria aprender inglês. Queria ser o melhor em sua própria língua.

Sir Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Pois é. Nos nossos meios de comunicação, o profissional que fale várias línguas é valorizado (o que é ótimo). Mas parece que houve um certo esquecimento: é ótimo falar alemão, chinês, inglês, francês e espanhol, desde que o conhecimento do português também seja obrigatório. E não está sendo: em grandes jornais, que já prezaram a qualidade do texto, diz-se que o carro “o pertencia”, coisas do tipo. Um cavalheiro se apresenta como “acessor parlamentar e acessor (…)” da Prefeitura de uma grande cidade (ou talvez “sidade”).

O recorde, entretanto, vem numa grande matéria sobre a morte de uma grande artista, Tomie Ohtake. Dizia-se que a Tomie era acompanhada por um “secto”. Deu trabalho, mas enfim foi possível chegar a uma conclusão: o que deveria estar escrito, provavelmente, era “séquito”.

O pai do primo do avô
Um antigo (e excelente) livro, Introdução ao Jornalismo, de Frazer Bond, que o notável Woile Guimarães mandou este foca estudar, já ensinava há mais de 50 anos que parentesco só é notícia se tiver algo a ver com os acontecimentos. Em “Filho do ministro vende facilidades”, o parentesco provavelmente tem a ver com os fatos. Mas em “Filho do ministro é preso em roda de crack” é provável que o parentesco nada tenha a ver com o evento. O responsável que responda sozinho por seus atos, poupando o parente.

O livro já ensinava isso há mais de 50 anos. Mas quem disse que todos aprenderam? Frases apanhadas em jornais, a esmo, nos últimos dias:

Interligne vertical 11a1 – Parentes de filha de (…) brigam em hotel e polícia aparta
2 – Primo de (…) foi preso em flagrante na Operação Lava Jato
3 – Filho de (…) beija moreno em camarote na Bahia

Nos três casos, o parentesco não tem nada a ver com os fatos. Entra apenas para atrair o leitor incauto. Num deles, o terceiro, se o rapaz beija o moreno ou o loiro num camarote de Carnaval o problema é dele. No caso, nem há o que noticiar, a não ser a busca de um factóide sensacionalista.

Legenda publicada num caderno especializado em automobilismo:
“Audi R8 teria sido destruído por mulher enfurecida após descobrir que, supostamente, havia sido traída pelo marido”.
Não deixa de ser uma novidade: a descoberta de uma suposição.

Da internauta Rita Xavier:
“Ninguém pode dizer que o ditador da Guiné Equatorial não investe em escola.”

O grande título
Uma bela colheita esta semana. Há manchetes para todos os gostos:

Interligne vertical 11bdas enigmáticas:
“Tamires corta alface em silêncio”

às de duplo sentido:
“De olho no folião, ambulantes inflacionam pau de selfie em SP”

uma frase notável da presidente Dilma, que mais uma vez diz exatamente o contrário do que pretendia:
“Nunca deixamos de esconder que era 4,5%”

uma manchete notável:
“Mutirão propõe salvar Sistema Cantareira com cultivo e produção de água”
Quanto mais se vive, mais se aprende: quem é que sabia que a água pode ser cultivada?

e o grande título:
“Metrô de NY tem bactérias nojentas, mas ninguém morreria por lambê-lo”
Quem será o depravado que quer lamber o Metrô de Nova York?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

O avental inglês

José Horta Manzano

Você sabia?

Nappe 1Houve tempos em que o homem comia com as mãos, sentado no chão. Não devia ser confortável nem prático. Se um pedaço da comida escapasse da mão, imaginem: rolava direto pra poeira. Disgusting…

Assim que suas faculdades lhe permitiram, a humanidade tratou de fabricar um suporte que separasse o alimento do chão. Degrau por degrau, a ideia evoluiu até que surgiu a mesa. O objeto nos é hoje tão familiar que fica difícil imaginar que um dia possa não ter existido.

Mas ninguém segura o progresso. Na Idade Média, famílias abastadas sentiram necessidade de acrescentar uma camada entre a mesa e a comida. A toalha foi a solução. Sua maciez dava um quê de sofisticação.

No entanto, ainda que aumentasse o conforto, a toalha se sujava muito rapidamente. Depois de uma refeição, já guardava marcas de gordura. O problema tinha de ser resolvido.

Nappe 3A grande ideia – em vigor até hoje – foi acrescentar uma segunda peça de tecido por sobre a toalha a fim de protegê-la. Essa peça, de dimensões mais modestas e de qualidade inferior, era mais fácil de lavar.

Foi na França que a novidade apareceu. A toalha de mesa era (e ainda é) chamada nappe. Dizem que o termo, de origem fenícia, já tinha sido usado pelos romanos com a forma mappa. Temos um resquício em nossa língua: é o guardanapo, palavra que descende da mesma raíz.

Nappe 2A peça de tecido de proteção da toalha foi vista como toalhinha. Onde nós usamos inho e zinho para indicar diminutivo, a língua francesa prefere os finais ette ou on. A toalhinha passou a ser conhecida como un napperon, forma diminutiva de nappe.

Faz mil anos, quando a cultura francesa encharcou as ilhas britânicas, a toalha e a toalhinha foram junto. Espertos, os ingleses encontraram nova utilidade para a toalhinha. Perceberam que, se protegia a toalha, também era excelente para proteger a roupa de quem servia à mesa. E adotaram o costume de amarrar uma toalhinha à cintura.

Avental 1

Apron

Que nome dar à novidade? Ouviam os castelães dizerem «un napperon», que soa «anaprôn». Acharam de bom-tom usar o mesmo nome. Pouco familiarizados com a gramática francesa, adaptaram a novidade à fonética inglesa.

Conservaram o artigo indefinido «an», mas não se deram conta de que napperon também começava com n. É por isso que dizem «an apron». Sem o artigo, é simplesmente «apron», palavra em uso até os dias atuais.

O objeto perdeu uma letra, mas fique o distinto leitor tranquilo: avental inglês protege tão bem quanto o nosso.

Da cabeça para a mão

José Horta Manzano

Você sabia?

Meus distintos e cultos leitores hão de conhecer a estranha palavra inglesa handkerchief, que corresponde a nosso lenço. Assim, de cara, o termo nem parece inglês. Leva mais jeito de ser alemão ou holandês. A palavra tem origem divertida. Vem por caminho surpreendente.

Idade Media 1Na Alta Idade Média europeia, todos andavam de cabeça coberta. Fosse de dia ou de noite, dentro ou fora de casa, cobrir a cabeça fazia parte do ritual. Mal comparando, corresponde ao telefone que (quase) todos levam hoje no bolso. Indispensável.

A palavra latina caput, que reaparece no italiano capo e no português cabeça, é chef em francês. Para designar aquilo que cobre a cabeça, os franceses da Idade Média diziam couvre-chef – literalmente cobre-cabeça. Servia para chapéu, touca, boné, pano, o que fosse.

Quando o exército do francês Guilherme, o Conquistador, venceu os ingleses na Batalha de Hastings (1066), suas tropas ocuparam e dominaram a Grã-Bretanha. Considerados mais refinados, os costumes dos invasores passaram a ser imitados pelos autóctones. Foi assim que uma enxurrada de palavras latinas entraram no léxico inglês: por intermédio do francês falado na região da Normandie. Entre as palavras adotadas, aparecia couvre-chef.

by Louis Le Nain (1593-1648), pintor francês

by Louis Le Nain (1593-1648), pintor francês

Os camponeses britânicos não conheciam a peça que hoje conhecemos como lenço. Quando necessário, faziam como faz todo jogador de futebol: assoavam o nariz nos dedos, chacoalhavam a mão com elegância e enxugavam algum eventual perdigoto na roupa. Uma finura.

Os invasores normandos, que tinham passado a constituir a casta dominante, carregavam um pedaço de pano que fazia as vezes de lenço. Era um notável avanço no asseio nasal. Admirativos, os ingleses mais endinheirados logo aderiram à moda. Naturalmente, a objeto novo, dá-se nome novo. Como chamá-lo?

Tomaram a referência que lhes era mais familiar. O trapo lembrava um pano de cobrir cabeça. A diferença era que não ia em cima da cachola, mas na mão. Sem problema. Passou a ser designado como cobre-cabeça de mão, ou seja, hand couvre-chef.

O povão, incapaz de pronunciar couvre-chef, popularizou a forma handkerchief, que usamos ainda hoje.

A Copa e as Olimpíadas

José Horta Manzano

Não se deve ter os olhos maiores que o estômago. Não convém botar no prato quantidade maior do que se vai comer. Quem assim fizer, periga dar vexame e decepcionar comensais.

JO 2020 3O Campeonato Mundial de Futebol (hoje chamado Copa do Mundo) e os Jogos Olímpicos de Verão (também ditos Olimpíadas) são os encontros esportivos mais importantes do mundo. Concorridos, frequentados, badalados e comentados, são preparados com esmero por atletas e pelo país-sede.

Ambos os eventos se realizam a cada quatro anos. Não por acaso se alternam, com dois anos de intervalo, como se um não quisesse pisar o pé do outro. O Brasil conseguiu que lhe fosse atribuída a organização dos dois megaeventos, assim seguidinho, um em 2014 e o outro em 2016.

Há quem acredite que foi por coincidência. Não é meu caso. Embora não seja de conhecimento público, tudo fica registrado nalgum lugar. Tenho certeza de que, um dia, as «gestões» responsáveis pela atribuição dos dois certames ao Brasil serão reveladas à luz do sol.

O governo brasileiro apostava todas as fichas na Copa 2014. Acostumados a navegar em mar de fantasia, tinham certeza de que – com a colaboração ativa do Todo-poderoso – o Brasil levaria a taça. Deu no que deu: panes de som nos estádios, obras inacabadas, metrôs e trens-bala inexistentes, vaias à presidente, retumbante fiasco esportivo. A olhos estrangeiros, a imagem de nosso País perdeu um bocado de seu brilho.

Crédito: Shizuo Kambayashi

Crédito: Shizuo Kambayashi

Tudo isso entornou água fria na expectativa que os Jogos Olímpicos despertavam. A pouco mais de um ano do evento que reunirá a nata do esporte mundial, pouco se fala neles. Nossa presidente já deve estar considerando se vale a pena participar da abertura oficial e correr o risco de levar mais uma vaia planetária.

Mas que fazer? Combinado está. O Brasil e, em especial, o Rio de Janeiro têm de se aplicar. Falta muito pouco tempo e ainda há muito que fazer. Falando em falta de tempo, o Japão, que hospedará em 2020 a edição seguinte das Olimpíadas, já arregaçou as mangas.

JO 2020 4Como também acontece no Brasil, fluência em línguas estrangeiras não é o ponto forte dos japoneses. Que não seja por isso, que há remédio pra tudo. O governo japonês já tomou as medidas que julga necessárias para preencher essa lacuna. Especial atenção está sendo dedicada à formação de policiais, bombeiros, garçons e guias fluentes em inglês.

Seminários de formação de guias bilíngues estão sendo organizados. O objetivo das autoridades de Tóquio para 2020 é dispor de 35 mil colaboradores bilíngues para dar apoio aos turistas e mostrar-lhes o espírito acolhedor dos japoneses.

Alguém sabe quantos guias bilíngues foram formados para os JOs do Rio? Procurei, mas não encontrei a resposta. Talvez algum distinto leitor possa me iluminar.

Lata d’água

José Horta Manzano

Copo d'água 2No Rio de Janeiro, na noite de 19 para 20 jan° 2009, faleceu o compositor paraense Joaquim Antônio Candeias Júnior, também conhecido como Jota Júnior. Tinha 85 anos.

O artista havia atingido seu apogeu nos anos 1950, quando suas obras foram gravadas por dezenas de cantores – dos bons. Francisco Alves, Jair Rodrigues, Marlene, as Irmãs Batista, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Nélson Gonçalves, Ângela Maria estavam entre os que se valeram de composições de Jota Júnior.

Sassaricando, Confete, Sapato de pobre (é tamanco), Garota de Saint-Tropez, Lata d’água (na cabeça) são algumas de suas centenas de composições. É justamente esta última que me inspira uma reflexão.

Lata d'água 1Nos tempos em que a personagem de Jota Júnior subia o morro levando sua reserva de água, todos dizíamos «lata d‘água». Ninguém ousaria o esquisito «lata de água». Simplesmente porque a expressão «lata d‘água» subentendia que a lata já estava cheia. «Lata de água» descrevia apenas o recipiente, sem informar se estava cheio ou não.

O mesmo se pode dizer de outra mazela carioca: a «falta d‘água», que já atormentava a população em tempos bem mais chuvosos que os atuais.

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Quem tinha sede costumava pedir um «copo d‘água», jamais um «copo de água» nem – horror dos horrores! – um «copo com água».

Enchentes e racionamentos permanecem, mas a língua mudou. A «lata d‘água», a «falta d‘água», o «copo d‘água» têm perdido terreno. Fiz uma pesquisazinha caseira no site do jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Considerando essas três locuções, contei o número de vezes em que aparecem na forma contraída (d’) e na forma extensa (de). É curioso notar que a forma extensa vem ganhando de goleada sobre a contraída.

Vejam o quadro com a porcentagem de ocorrência de cada forma:

Interligne vertical 14Falta d’água   27%
Falta de água  73%

Copo d’água    16%
Copo de água   84%

Lata d’água     9%
Lata de água   92%

Faz sentido. Se morro e clima mudaram e os anseios de cada um também, por que a fala permaneceria estática? Que venha muita chuva e que nos deixe «debaixo de água»!

Advertência importante:
A amostragem que serviu de recheio para este artigo não tem valor científico. Eventuais reclamações devem ser endereçadas a Google Corporation, Mountain View (CA), EUA.

Interligne 37a

Clique aqui quem quiser recordar Marlene e sua Lata d’água, lembrança nostálgica de uma época em que, no morro, ninguém arriscava servir de ponto final para bala perdida.

A internet é inocente

Dad Squarisi (*)

Internet 1Mais de meio milhão de zeros no Enem? A notícia surpreendeu. Não pela nota mas pela quantidade de reprovados. Explicações caíram do céu e saltaram do inferno. Entre elas, a falta de familiaridade com o tema, a fuga do tema, a incompreensão do tema. Muitos responsabilizaram a internet pela calamidade. A rede teria o poder de deseducar. Quem escrevia deixou de escrever. Será?

Jornais, revistas, sites, blogues estão ao alcance de um toque. Ninguém precisa ir à banca comprar a informação. Cartas viraram lembranças de tempos idos e vividos. Deram vez a mensagens eletrônicas que vão e vêm em segundos. O Google relegou ao esquecimento enciclopédias que até há pouco enchiam as estantes de orgulho.

Internet 2Em bom português: mudamos o suporte, mas continuamos a ler e a escrever. Em vez de papel, a tela. Culpar o suporte pelo fracasso da moçada é baratear o problema. O buraco é mais embaixo. Lê mal e escreve mal quem nunca aprendeu a ler bem e a escrever bem. O retrato exibido pelo Enem é obra da escola. Não entender o tema constitui problema de leitura. Não conseguir desenvolvê-lo, de escrita.

Crédito: Jesús Díaz, Gizmodo.com

Crédito: Jesús Díaz, Gizmodo.com

Criança é curiosa. Adora aprender. Estimula-se com desafios. Enfrenta embates. Mas… cadê? Encontra salas de aula do século 19, professores sem compromisso, material didático modernoso que, sem foco e não raras vezes com erros grosseiros, confunde em vez de ensinar. Com internet ou sem internet, o resultado não muda. Sem o domínio das habilidades de leitura e escrita – fruto de estudo, disciplina e treino – esperar nota azul nesse cenário é ignorância, má-fé ou ingenuidade.

Somos poliglotas na nossa língua. “Não falamos português”, ensinou Saramago. “Falamos línguas em português.” A mãe de todas elas – a norma culta – abre o caminho da liberdade. Com trânsito nas possibilidades do idioma, torna-se possível escolher. Gírias, regionalismos, estrangeirismos, abreviaturas, internetês & cia. ilimitada têm vez no universo da comunicação. Usá-los no contexto correto pressupõe conhecimento – o saber que a escola sonega aos brasileiros.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.