José Horta Manzano
Total de ucranianos refugiados no exterior
desde o início da invasão russa:
4.176.401
Lista atualizada em 2 abril 2022
Fonte: Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados
Não se fazem mais guerras como antigamente.
As guerras de antigamente eram sinônimo de morticínio em grande escala. Só a Segunda Guerra (1939-1945) deixou um rastro de desolação estimado entre 70 milhões e 80 milhões de mortos, barbaridade difícil de imaginar.
Estas últimas décadas, vem se aperfeiçoando a técnica de guerra à distância, em que um indivíduo fica comodamente acomodado numa poltrona em frente a um monitor e, de lá, aciona um míssil para um “ataque cirúrgico” a ser desfechado a milhares de quilômetros de distância, visando a atingir unicamente determinado objetivo, sem deixar vítimas colaterais. A falácia é evidente, visto que todo bombardeio, por mais “cirúrgico” que seja, deixa vítimas.
Não se pode negar que as guerras modernas causam menos mortes civis e militares do que os horrores do passado. Mas não se pode esquecer tampouco um dado importante: conflitos de antigamente tinham vencedor e perdedor. A distinção era nítida entre quem ganhou e quem perdeu a guerra. Rendição ou capitulação eram o final esperado de todo conflito.
Hoje a distinção ficou bem mais difícil. Nesse arranca-rabo entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, sabe-se desde já que não haverá vencedor. A guerra só pode ser encerrada por meio de acordo. Pra não perder a face, as duas partes vão cantar vitória, mas todo o mundo sabe que ambas terão perdido. Uma Ucrânia semidestruída vai demandar anos de trabalho duro pra ser reconstruída – mas vai poder contar com ajuda do mundo civilizado.
Quanto à Rússia, vai continuar se estrangulando aos poucos. Além de ter angariado a antipatia do mundo, suas exportações de petróleo e gás tendem a minguar. Uma Europa assustada, que se deu conta de sua dependência energética para com a Rússia, está mexendo os pauzinhos para acelerar o passo em direção a energias renováveis.
Três anos depois da morte de Stalin, a União Soviética denunciou seus crimes e deu início ao grande movimento de destalinização, que funcionou para cancelar o antigo ditador, como se diria hoje. Não seria espantoso se, num futuro bastante próximo, os crimes de Putin fossem denunciados e a Rússia virasse a página e cancelasse o antigo ditador. O único caminho que a Rússia tem para se eximir de culpa é jogá-la inteirinha no ditador atual.
E passar algum tempo tranquila até que novo aventureiro se apodere do Kremlin.
José Horta Manzano
A história dos países é marcada por uma sucessão de deslealdades, golpes e revoluções. Não há outro meio de empurrar (ou emperrar…) a história de um povo. Se nunca tivessem ocorrido desvios da ordem estabelecida, ainda estaríamos nos cobrindo de peles e desenhando bichos na parede de acolhedoras cavernas úmidas. Talvez até estivéssemos engolindo comida crua, por não termos domado o fogo.
Todos os Estados carregam um histórico de cambalhotas. A meu conhecimento, nenhum escapou, nem menos nosso Brasil, apesar de ser visto como nação pacífica. Grandes passos da humanidade foram resultado de grandes golpes contra a ordem então vigente.
A Revolução Francesa, golpe pesado e magistral no sistema em vigor, foi um marco no processo civilizatório da humanidade. A Revolução de Outubro de 1917, que instaurou o regime comunista na Rússia, pautou a vida do planeta durante 70 anos.
Vamos agora ser cínicos (mas realistas). A partir de que momento um golpe contra a lei vigente se torna legal? Ou, em outra abordagem: Qual é o nome da lavanderia que aceita roupas manchadas de ilegalidade e, depois de lavar e passar, devolve as peças imaculadas, com virgindade refeita, prontas pra serem cultuadas?
A resposta é realista (mas cínica). Legal é a revolução que deu certo. Revolução que deu certo é o ponto inicial de nova etapa de uma civilização. Golpe que teve sucesso é marco de novo ordenamento de uma sociedade. Grandes fases de nossa história tiveram início como um ataque contra a ordem então vigente.
O 14 de Julho da Revolução Francesa é comemorado até hoje, enquanto que todas as datas da Revolução Russa desapareceram do calendário oficial daquele país. É a prova evidente do sucesso da primeira e do fracasso da segunda.
O Brasil-colônia tornou-se independente da metrópole em virtude de um golpe familiar, uma obscura deslealdade de filho pra pai, um golpe palaciano que reafirmou nosso sistema clânico de governança, já então em vigor. Tendo dado certo, o Dia da Independência é lembrado e festejado até hoje.
O Império do Brasil virou República em virtude de um golpe militar, uma desleal revolução de palácio. Tendo dado certo, também o Dia da República é lembrado e festejado até hoje.
A Revolução de 3 de Outubro de 1930 marcou o fim da República Velha e instaurou a ditadura de Getúlio Vargas. O novo regime durou 15 anos. Com a redemocratização do país, o movimento que levou Vargas ao poder perdeu o qualificativo de “revolução” e passou a ser chamado de “golpe”. É natural, visto que não se eternizou. Com o fim do regime, o 3 de Outubro deixou de ser comemorado e caiu no esquecimento.
A Revolução de 31 de Março de 1964 marcou o fim do período democrático que tinha tido início com a queda de Vargas, e instaurou nova ditadura – militar, desta feita. Durou 21 anos. Com a queda da ordem militar e a redemocratização do país, o 31 de Março deixou de ser comemorado. Pela ordem natural das coisas, seu destino deveria ser o esquecimento, que é o fim de todas as mudanças que não perduram. O que se costumava chamar de “revolução” passou a ser conhecido como “golpe”.
Curiosamente, no entanto, o finado regime continua sendo cultuado por uma franja estreita de sebastianistas barulhentos que parecem ter fixação num passado que muitos deles nem vivenciaram. Esse culto tem sido potencializado desde que a Presidência foi assumida por Bolsonaro, ele mesmo saudosista doentio.
Ainda esta semana, o general Braga Netto, ministro da Defesa, declarou que a ditadura imposta pelo regime militar “fortaleceu a democracia”(sic) e foi um “marco histórico da evolução da política brasileira”(sic sic).
Soou tão fora de esquadro quanto a declaração de Putin de que a invasão da Ucrânia visa a “desnazificar” o país. Coisa de manicômio.
Um ou outro político de segunda grandeza resmungou. E a imprensa, distraída e ainda fascinada com o estapeio do Oscar, publicou o resmungo como nota de pé de página.
E assim vamos banalizando o absurdo.

Fluxo de refugiados que deixam a Ucrânia
Crédito Infográfico: Alto-Comissariado da ONU para Refugiados
José Horta Manzano
Na terça-feira 29 de março, a contagem oficial dos ucranianos que deixaram o país em busca de refúgio no exterior atingiu a marca simbólica e impressionante de 4 milhões. Pela contagem do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados, exatamente 4.019.287 pessoas tinham atravessado a fronteira.
A imensa maioria de solicitantes de asilo é constituída de mulheres, crianças e anciãos. De fato, todos os homens com idade entre 18 e 60 anos foram convocados pelo Ministério da Defesa. Não podem partir. Têm de ficar para defender a pátria agredida.
Embora todas as mulheres tenham permissão para ir-se, muitas delas preferiram ficar para ajudar como podem. Enfermeiras, parteiras, médicas e outras terapeutas estão nesse caso. Mas outras, ainda que não estejam familiarizadas com funções médicas nem paramédicas, contribuem na logística, na preparação de refeições para os combatentes, na confecção de peças de camuflagem e em outras atividades que não exijam extraordinária força física.
Mais da metade dos ucranianos que buscam refúgio no estrangeiro se dirigiram à Polônia. Exatamente 2.336.800 pessoas entraram no país, segundo o governo polonês. Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, entre as fronteiras da Ucrânia com países ocidentais, a polonesa é a mais extensa. Em segundo lugar, a Polônia sofre com falta crônica de mão de obra, provocada pela emigração de muitíssimos poloneses que partiram em busca de trabalho mais bem remunerado em outros países da Europa.
Os países europeus – incluindo a Suíça, que não é membro da União Europeia – decidiram, em conjunto, conceder gratuidade de transporte a todo titular de passaporte ucraniano. Os requerentes de asilo podem viajar de ônibus ou de trem sem pagar. Quando passa o controlador, basta exibir o passaporte. É medida simbólica, simpática e extremamente útil. Muitos deles deixaram tudo pra trás e não têm mais que a roupa do corpo.
Faz muito tempo que a Europa não assistia a uma onda de solidariedade tão intensa. A última vez tinha sido em 1956, quando a Rússia (sempre ela!), que se chamava então União Soviética, mandou suas tropas à Hungria para esmagar no nascedouro um levante popular contra o autoritarismo do regime comunista, vassalo de Moscou. Os refugiados húngaros de então se espalharam por toda a Europa ocidental. Mas dois grandes fatores fazem a grande diferença entre os civis que fugiram da Hungria em 1956 e os ucranianos de hoje.
O primeiro é uma simples questão de volume; os húngaros eram “apenas” 200 mil, ao passo que os ucranianos já passam de 4 milhões – 20 vezes mais. Em seguida, o que talvez seja a diferença mais importante. Os húngaros deixaram o país natal em família (homens, mulheres, crianças e até anciãos), ou seja, saíram para não mais voltar. Já os refugiados ucranianos são praticamente só mulheres e crianças; as famílias estão separadas. Todos têm em mente a ideia fixa de reunir a família e retomar a vida de antes.
Assim, prevê-se que a maioria dos ucranianos expatriados retornará ao país natal assim que as coisas se acalmarem e que o ogro russo tiver voltado a hibernar nas neves da Sibéria. Até despertar de novo.
Carlos Brickmann (*)
O governador da Bahia, Rui Costa, do PT, concedeu ao governador da Bahia, Rui Costa, do PT, a Medalha do Mérito da Casa Militar do Governador.
A condecoração foi criada pelo governador Rui Costa, do PT, em 15 de setembro de 2020. Mas o governador da Bahia, Rui Costa, do PT, não foi o único agraciado com a comenda criada por ele mesmo: ele também as entregou a companheiros de PT baiano e a auxiliares de seu governo.
Entre os premiados pelo governador petista, estão o cacique maior do PT baiano, senador Jaques Wagner; o candidato do PT ao Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues Souza; um oficial da Polícia Nacional da Colômbia, tenente-coronel John Alexander Becerra Zabala, e auxiliares diretos do governador.
Note que nenhum baiano que não seja do PT mereceu a condecoração.
Estranhou a presença de um oficial estrangeiro entre os condecorados? Eu também: até agora jamais imaginaria que houvesse petistas na Colômbia.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.
Nós dizemos cidades-irmãs, enquanto os lusos preferem cidades gêmeas ou cidades geminadas. Mas a ideia é a mesma. A diferença aparece porque, no Brasil, traduzimos do inglês “sister cities”, ao passo que os portugueses se basearam no francês “villes jumelées”.
Embora haja menção de que algumas cidades, já na Idade Média, tenham concluído pacto de defesa mútua, o conceito só se difundiu a partir de meados do século 20.
De fato, a Segunda Guerra tinha deixado, entre outras desgraças, ressentimentos profundos. Num esforço para aplainar esses sentimentos negativos entre povos vizinhos, diferentes estratagemas foram bolados.
A partir dos anos 1960, assim que a tecnologia de tevê permitiu transmissões internacionais ao vivo, foram organizadas competições entre cidades de diferentes países. Eram brincadeiras ao estilo pastelão, com jogos realizados diante público entusiasta, cada um torcendo por sua cidade. O programa Intervilles, da televisão francesa, ficou 50 anos em cartaz.
Outra ideia posta em prática a partir dos anos 1970 foi a difusão do conceito de cidades-irmãs. Longe do propósito medieval de proteção mútua, a moderna geminação de cidades é um meio de aproximar cidades, geralmente de diferentes países. Acordos de trocas culturais, de promoção turística, de aprendizado de línguas, por exemplo, estão entre os objetivos desses acordos.
Existe até um site especializado no assunto – uma espécie de Tinder de cidades, vilas e vilarejos que buscam um par. O site, financiado pela União Europeia, está disponível em 20 línguas.
Hoje existem centenas de cidades-irmãs ao redor do globo. É comum ver um “casamento” entre cidades de importância equivalente (São Paulo + Milão). Há também cidades irmanadas por terem nome igual ou semelhante (Osasco/SP + Osasco/Itália). Outras se sentem próximas por causa de origem comum. É o caso de Pomerode (SC), colonizada por imigrantes da região da Pomerânia (Alemanha); a cidade catarinense firmou acordo de geminação com a cidade de Torgelow, que fica na Pomerânia.
A China, que não perde ocasião para parecer menos distante, menos exótica e mais amada, tem concluído pactos de geminação com muitas cidades do planeta todo. Só no Brasil, a lista de cidades-irmãs que juntam uma chinesa com uma brasileira já se aproxima de 50 “casamentos”.
No Brasil, no concurso “Quem tem mais irmãs?”, o Rio de Janeiro ganha de lavada. Já firmou 56 parcerias internacionais, sem contar as nacionais. O placar de Brasília é bem mais modesto; tem acordos com uma dezena de parceiras. Mas uma peculiaridade é comum tanto à atual capital (Brasília) quanto à antiga (Rio de Janeiro): ambas são cidades-irmãs de Kiev, capital da Ucrânia.(*)
Curiosamente, o Rio e Brasília não somente são irmanadas por terem ambas sido capitais do Brasil; dado que têm uma irmã em comum (Kiev), são irmãs duas vezes.
Neste momento, a Ucrânia está passando um mau bocado. Estava quietinha no seu canto, quando se viu invadida por um inimigo poderoso, que foi entrando sem pedir licença. Não se pode dizer que a Rússia tenha comportamento cavalheiro. Ataca escolas, destrói hospitais, derruba prédios de apartamentos. Está utilizando a Ucrânia até como campo de teste de mísseis de última geração.
Nessa briga de gente grante, o Brasil não tem força bélica nem peso econômico capazes de fazer cócegas no agressor. Apesar de nosso estúpido presidente ter declarado, às vésperas da invasão, sua “solidariedade à Rússia”(sic), o povo brasileiro está assistindo com horror ao suplício que Putin vem infligindo à população do país invadido. Solidariedade, hein? Xô!
Quando se assina acordo de geminação, não é para ter mais um diploma pra pendurar na parede da prefeitura. É nas horas ruins que se conhecem os verdadeiros amigos. Assim que as coisas se acalmarem, seria ótima ideia as autoridades municipais do Rio e de Brasília entrarem em contacto com a prefeitura de Kiev. Se não souberem o que dizer, que pelo menos ofereçam seus préstimos. Devastada, a infeliz Ucrânia precisa de tudo. Toda colaboração será bem-vinda.
Quando isso tudo terminar, vai sobrar um país a ser recontruído. Kiev é uma cidade-irmã à qual o Rio e Brasília têm de estender a mão.

(*) Kiev é transliteração (transposição para caracteres latinos) do nome da cidade tal como é escrito em russo. Os ucranianos ficam felizes quando veem o nome de sua capital transposto da forma ucraniana, que dá Kyiv. Só que, no Brasil, a forma Kiev já está demais cristalizada. Mudar agora fica complicado. Então, vamos de Kiev mesmo.
José Horta Manzano
É curioso constatar a que ponto o peso de cada acontecimento depende do ponto do planeta onde se situe o observador.
Nesta semana que assinala o início da primavera, olho pela janela e vejo a vegetação começar a dar sinal de vida. Saio à rua e assisto, em cada esquina, ao milagre do renascimento que retorna todos os anos. Os galhos das árvores, secos e nus de novembro até agora, soltam folhas novas, pequeninas, de um verde infantil.
Abro os jornais. A imprensa da Europa segue o mesmo roteiro das últimas 4 semanas: fala da invasão da Ucrânia – ou “Guerra de Putin”, como possivelmente virá a ser lembrada nos livros de história.
Na França, dado que o primeiro turno das eleições presidenciais está marcado para daqui a menos de duas semanas, o noticiário político devia estar ocupando todo o espaço midiático, com informações, análises e comentários. No entanto, o drama ucraniano supera as paixões partidárias. São as notícias do front que ocupam as manchetes.
Lembro as palavras que Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, pronunciou ao discursar perante o Congresso no dia seguinte ao do ataque japonês ao Havaí: “… a date which will live in infamy” (… uma data que ficará marcada pela infâmia).
Na memória dos europeus, o 24 de fevereiro de 2022 também ficou marcado para sempre. Foi tão impactante, que conseguiu a façanha de mandar para escanteio até a interminável pandemia – que ainda dá sinais de sobreviver nos acréscimos, pra continuar na metáfora futebolística.
Tivesse o ditador russo invadido o Turcomenistão ou a Quirguízia, não teria levantado oposição tão forte. Protestos protocolares, uma ou outra sançãozinha, e mais nada. O mundo teria continuado a girar. Mas não: o infeliz resolveu invadir um país europeu. Terrível engano.
Em matéria de guerra de conquista, a invasão da Ucrânia foi o maior erro tático cometido por um chefe de guerra desde que um certo Adolf Hitler decretou a Operação Barbarossa – a invasão da União Soviética, 81 anos atrás.
Apesar das declarações de vitória que cada uma das partes beligerantes possa vir a fazer, esta guerra não terá vencedor. Perderão todos. Uma vez cessadas as hostilidades, a Ucrânia receberá ajuda maciça para sua reconstrução. Vai levar alguns anos, mas o país vai ficar melhor do que era antes. Quanto à Rússia, sofrerá embargo, má-vontade e antipatia durante décadas.
As consequências negativas serão duradouras. Enquanto isso, quais são as manchetes na imprensa do Brasil? O tapa desferido no palco de entrega do prêmio Oscar ainda ressoa. Bolsonaro foi internado com “desconforto” digestivo (por “desconforto”, entenda-se “dores fortíssimas”; sem isso, dificilmente o homem teria sido internado). O ministro da Educação foi demitido por motivo de corrupção, deixando no ar a pergunta “cui bono?” – quem deu as diretivas ao ministro-pastor?
Notícias da guerra? Sim, há. Mas relegadas a segundo plano. A Operação Barbarossa, desencadeada num tempo sem internet e sem tevê, recebeu cobertura bem mais importante. Na imprensa, as informações cobriam a primeira página inteirinha. Os tempos mudaram.
Naquele ano de 1941, James Stewart (melhor ator) e Ginger Rogers (melhor atriz) tinham vencido o Oscar. Ainda não era costume astros e estrelas se estapearem no palco.
José Horta Manzano
Zürich Versicherungs-Gesellschaft (ou Zurich Insurance Group, ou simplesmente Zurich) é a maior seguradora suíça. Como seu nome não deixa mentir, a empresa foi fundada na cidade de Zurique. Isso ocorreu exatamente 150 anos atrás.
Suas primeiras atividades se resumiam a assegurar o transporte de mercadorias que, desembarcando no porto holandês de Rotterdam, subiam o Rio Reno em balsas até a cidade de Basileia, importante porto fluvial suíço. De lá, seguiam caminho por estrada de ferro. Século e meio depois, boa parte das mercadorias importadas no país continua fazendo o mesmo percurso.
Com o tempo, a Zurich cresceu e engordou até tornar-se a maior empresa de seguros do país e uma das grandes do mundo. Suas atividades corriam tranquilas até que, no mês passado, Vladímir Putin teve a trágica ideia de invadir a Ucrânia – nação inofensiva, cuja maior uruca é ser vizinha da Rússia.
Não se sabe até hoje exatamente por que razão, as forças invasoras resolveram pintar – mal e porcamente, diga-se – um Z em seus caminhões e tanques de guerra. Dizem que é para distingui-los dos tanques do adversário. A história parece mal contada, visto que bandeiras e uniformes existem exatamente com essa finalidade: distinguir as tropas de cada campo. O Z é perfeitamente supérfluo.
O problema é que, em poucas semanas, um Z maiúsculo passou a ser identificado como apoio aos russos e à invasão. Aliás, como contei aqui alguns dias atrás, pelo menos um atleta russo já foi punido por ter mandado bordar essa letra no uniforme que vestiu num campeonato qualquer.
Como é fácil imaginar, em 150 anos de história, o logo da empresa de seguros suíça evoluiu, acompanhando a evolução das artes gráficas. Nos anos 1980, quando a Rússia ainda era conhecida como União Soviética e Putin não passava de obscuro burocrata dos serviços secretos, a Zurich Seguros modernizou sua identidade visual e adotou o Z como logomarca.
A guerra de Putin veio estragar tudo. Visto que o Z dos tanques russos tornou-se, num tempo relâmpago, mais conhecido que o da seguradora, os dirigentes da empresa acharam mais prudente eliminar a letra do visual nas redes sociais. Vai ficar assim por enquanto, até que as coisas se acalmem. Se se acalmarem.
Não ficou claro se as perdas ocasionadas pela mudança forçada do logo estavam no seguro.
José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 26 março 2022
Talvez você já tenha assistido a algum filme ambientado nos anos 1940, numa França ocupada pelas tropas nazistas. Era um tempo sem internet, sem redes sociais, sem telefone celular. Até telefone fixo era raro. A circulação da informação era controlada. Nenhuma notícia corria antes de passar pela censura dos ocupantes.
O único meio de receber informação verdadeira e não deformada pela propaganda nazista era escutar emissoras estrangeiras pelo rádio. Jornais e estações de rádio francesas, submetidas ao controle alemão, não traziam informação confiável. Eis por que o invasor proibia terminantemente escutar estações estrangeiras, principalmente a BBC de Londres, que transmitia em ondas curtas – e em francês.
No escurinho do porão, escondido atrás de trastes velhos, lá estava ele, a única porta de saída daquele mundo sombrio: o rádio de ondas curtas. Em volume baixo, luzes apagadas, a família se reunia pra escutar a BBC transmitindo o noticiário especialmente destinado à população francesa.
As quatro primeiras notas da 5ª sinfonia de Beethoven serviam de vinheta do “jornal falado”, que era como se dizia à época. Com fundo de ruídos típicos de ondas curtas, lá vinha a voz do “speaker”: Ici Londres! – Aqui Londres!
Em roda, fazia-se silêncio respeitoso. Era hora das notícias verdadeiras. Todo cuidado era pouco para não deixar nenhum vizinho perceber o que estava acontecendo. Uma denúncia, mesmo anônima, podia levar todos para a cadeia ou direto para um campo de concentração, que o crime era grave.
O povo russo, nestes dias de lavagem cerebral, doutrinamento, censura da mídia e crescente restrição de acesso à internet, está na situação dos franceses de 1940. As grandes estações internacionais de tevê que transmitiam em russo (da Inglaterra, da Alemanha, da França, por exemplo) foram banidas do panorama audiovisual. Com a mídia nacional contaminada pela mão pesada do Kremlin, o que é que sobrou?
Pois pasmem! A BBC reativou suas transmissões de rádio em ondas curtas, em língua russa, especialmente dirigidas ao desinformado povo de Putin. Não sei se ainda serão muitos a possuírem um velho radiozinho de pilha (ou “raidinho de pia”, como se diz na fala popular da minha terra).
Não sei se o distinto leitor ainda guardou – no porão, na garagem ou no fundo do gavetão de bugiganga – um rádio velho. Que seja de pilha ou não, o importante é que pegue ondas curtas. Convém verificar. Sabe por quê?
O “causo” é o seguinte. Nesta altura do campeonato, tudo indica que o próximo presidente do Brasil será um dos dois candidatos que polarizam as pesquisas: Bolsonaro (de novo!) ou Lula (de novo!). Noves fora a cristalização do atraso que os dois representam, resta o fato de ambos terem como meta o controle da informação.
Bolsonaro se orgulha de ter cancelado a assinatura de todos os jornais de seus palácios e ministérios. Faz três anos que tenta estrangular a imprensa, pisoteando todos com exceção daqueles que lhe joguem flores. Reeleito, há de se sentir forte e periga tentar seguir o exemplo de Putin e de Maduro: calar a mídia e controlar a internet para eternizar-se no poder.
Lula nunca escondeu sua intenção de aplicar censura à informação, objetivo ao qual ele dá o poético nome de “controle social da mídia”. Nesta época de pré-campanha, voltou ao assunto em mais de uma ocasião. Não desistiu nem dá mostras de que desistirá. Eleito, há de se sentir forte e periga tentar seguir o exemplo de Putin e de Maduro: calar a mídia e controlar a internet para eternizar-se no poder.
Portanto, se eu fosse o distinto, pensaria em deixar o raidinho desde já desempoeirado, consertado e pronto para o que der e vier. Talvez seja melhor não comentar com ninguém. Em tempo de censura, as paredes têm ouvidos.
Meu conselho está parecendo desvario sem sentido, verdade? Pois tenha em mente que, poucas semanas atrás, o mundo inteiro achava que a invasão de um país europeu soberano por tropas de uma potência nuclear era pesadelo de épocas passadas, sem chance de voltar a ocorrer. Estavam todos enganados.
José Horta Manzano
Mais de uma vez falamos no assunto, mas não custa repetir. Tem gente que faltou à aula. Não tem importância, que não vão perder o ano. Basta enfrentar o exame de segunda época. (Será que ainda existe exame de segunda época?)
Que é naturalização? Olhe, se você não tiver a resposta na ponta da língua, não se perturbe: nem o Dicionário Houaiss sabe o que é. Um espanto. Segundo o ‘pai dos burros’ mais famoso do Brasil, naturalização é “o ato pelo qual um indivíduo se torna legalmente cidadão de um país em que não nasceu, perdendo sua nacionalidade de origem”.
A definição comporta dois erros.
São muito poucos os países que concedem automaticamente a nacionalidade a quem nasce lá. Não basta nascer na Alemanha para ser alemão; nem na Espanha, nem na Rússia, nem no Japão. Quem nasce na Eslovênia tampouco é esloveno. O mesmo vale para a Grécia, a Argélia, Israel e a imensa maioria dos países.
As exceções são, principalmente, os países do continente americano, que concedem a cidadania automaticamente a todos os que nascerem no território. É o que se chama lei do solo, conhecida em juridiquês como jus soli. A definição do Houaiss toma por favas contadas que a lei do solo vigora por toda parte, ou seja, que basta nascer num país para adquirir a nacionalidade local. Enganam-se.
Muitos países aceitam a dupla cidadania. Italianos e suíços, por exemplo, podem adquirir outra cidadania sem risco de perderem a nacionalidade originária. No Brasil, como de costume, a lei não é clara, dando margem a interpretação. Tem-se firmado jurisprudência em favor do entendimento que a aquisição de uma segunda nacionalidade não acarreta automaticamente a perda da cidadania brasileira. Portanto, o Houaiss erra de novo ao afirmar que o naturalizado perde sua nacionalidade de origem. Se a afirmação vale para alguns países, está longe de valer para todos.
Vamos simplificar a definição? Naturalização é a aquisição de nacionalidade diferente da originária. Não precisa nem acrescentar “legalmente”; nenhum país admite naturalização por meios ilegais. Só faltava.
Os dois futebolistas da foto – Jorginho Frello e Emerson Palmieri – não são “brasileiros naturalizados italianos”, como afirma o jornal. Desde que nosso país se tornou campeão mundial em exportação de futebolistas, já deviam ter parado de afirmar esse tipo de bobagem.
A Itália, como todos os países do planeta, reconhece a lei do sangue, a jus sanguinis. É a lei do “filho de peixe, peixinho é”. Historicamente, vem do tempo em que cada ser humano pertencia a uma tribo, pouco importando o lugar de nascimento. Esse entendimento é o mais difundido até nossos dias.

Em azul forte, os países que aplicam “jus soli” de modo incondicional. Todos os nascidos no território têm direito automático à nacionalidade.
Filho de islandês é islandês; filho de brasileiro é brasileiro; filho de chinês é chinês – pouco importando o lugar em que esses peixinhos tenham nascido. Em viagem à Mongólia, um casal de brasileiros tem um filho. Ele não terá a nacionalidade mongólica. Será brasileiro.
Os antepassados dos jogadores da foto deixaram a Itália uns 100 anos atrás e se estabeleceram no Brasil. Os filhos, nascidos em nossa terra, receberam a cidadania brasileira automaticamente. Em paralelo, desde que os pais não tenham se naturalizado brasileiros, os filhos herdaram a cidadania italiana dos pais. Essa nacionalidade foi transmitida de geração em geração. Os dois futebolistas, portanto, já nasceram com duas nacionalidades: a italiana pela lei do sangue e a brasileira pela lei do solo.
Na infância, não tinham documentos italianos. Pouco importa. A inexistência de um documento a provar a cidadania italiana não invalida o direito a ela. A prova disso é que deve haver em nossos grotões muito brasileiro sem documento; apesar disso, são tão brasileiros quanto os que têm identidade no bolso e guardam na gaveta CPF, carteira de trabalho e passaporte.
Numa certa altura, Jorginho e Emerson deram os passos necessários para obter documentos de identidade europeus. Mas não foi uma naturalização. Simplesmente receberam documentos que atestam a nacionalidade que sempre tiveram.
Ainda tenho esperança que os jornalistas, um dia, entendam. Não parece tão difícil, parece? Se não entenderem, não há problema: explico de novo. Sou paciente.
Meu corpo frágil e pequeno foi sacudido violentamente e quase cai da cama. Ou do que pensava ser a cama. Abri os olhos, sonolento, não consegui entender nada. Estava escuro e minha cama continuava com suas estranhas sacudidas.
Percebi que estava deitado com a cabeça no colo do meu pai. Percebendo que eu estava acordado, meu pai me fez um afago na cabeça e disse para dormir porque estava muito cedo.
Consegui dormir mas, logo, os solavancos, as sacudidas, me acordaram. Com alguma dificuldade consegui sentar-me e as imagens foram se clareando. Eu estava dentro de um carro. Ao meu lado, meu pai.
O carro sacudia muito e em alguns momentos os homens que estavam no carro desceram para empurrá-lo. Percebi que o carro estava atolado num lamaçal.
Além de meu pai, dois outros homens estavam no carro: o motorista e o passageiro a seu lado. Quando o carro balançava muito naquela estrada esburacada, meu pai me abraçava fortemente. Dava segurança e carinho.
Ao fim de um tempo, que não sei precisar quanto, chegamos a uma localidade. O que me chamou a atenção logo de cara, foi a quantidade de pessoas. Uma multidão que eu nunca vira.
Quando descemos do carro perto de uma casa, agarrei a mão do meu pai com força. Tinha medo de me perder no meio de tanta gente. Depois vim a saber que havíamos chegado ao nosso destino: Urucânia.
Vamos ao princípio da aventura. A primeira em minha jovem vida.
Corria o ano de 1949 e eu tinha seis anos de idade. Eu era um menino pequeno para minha idade e tinha um problema crônico de purgação no meu ouvido direito. Já havia passado por um médico especialista e nada de resolver o problema que, além do desconforto de um permanente algodão no ouvido, causava dores.
Foi aí, então, conforme fiquei sabendo bem depois, que meu pai tomou conhecimento dos milagres do padre Antônio Ribeiro Pinto na localidade de Urucânia. O povoado pertencia então ao município de Ponte Nova, hoje a 260 quilômetros de Belo Horizonte. Na época, por falta de estrada direta, essa distância certamente era maior.
Morávamos no bairro Parque Riachuelo, Zona Noroeste de Belo Horizonte, onde meu pai tinha um próspero armazém que se chamava Botafogo. Meu pai, saudoso Paulo Marinho, devia gozar de boa situação financeira, pois alugou o carro para nos levar. Até hoje não faço ideia de quem era o outro homem e se ele ajudou na despesa.
Só sei que acordei dentro daquele sacolejante carro que volta e meia parava para ser empurrado. Os homens chegaram em Urucânia totalmente enlameados.
Depois que eles se lavaram e trocaram de roupa, almoçamos e saímos à praça apinhada de gente em direção à Igreja do padre Antônio Ribeiro Pinto. Com muita dificuldade conseguimos chegar perto do padre que abençoou o meu ouvido e nos deu um litro de água benta que deveria ser colocada em gotas em meu ouvido.
Pouco depois empreendemos a aventura da volta. Acho que fizemos um outro caminho, pois não me lembro de tanto buraco, tanto barro e tantas paradas.
A bem da verdade, meu ouvido não sarou. Conforme fui crescendo, o problema foi diminuindo. Lembro-me, entretanto, que o primeiro inverno que passei em São Paulo, em 1968, tive problemas da velha purgação no ouvido.
Na época não havia planos de saúde. Mas o Estadão e o Jornal da Tarde mantinham uma espécie de convênio com uma clínica chamada Paula Santos: os jornais publicavam anúncios da clínica que atendia aos funcionários.
Contei ao médico meu drama, inclusive contando da água benta.
Ele me disse:
– Aquela água devia ser benta mesmo. Porque, se não fosse, você teria perdido a audição, já que água e qualquer umidade são verdadeiros venenos para quem tem esse problema.
O médico me receitou remédio para combater a inflamação e disse que eu precisava fazer uma timpanoplastia. Que, evidentemente, eu não fiz até hoje.
Urucânia saiu da minha vida. Nunca tive curiosidade de perguntar ao meu pai sobre aquela viagem. Ele também, talvez certo de que eu não me lembrava, nunca tocou no assunto.
Há alguns poucos anos, em conversa na casa de minha irmã Maria Helena, tentei lembrar o nome da cidade. Sabia que era Uru qualquer coisa.
Fui socorrido pelo meu cunhado Ismar Eterovik, casado com a Maria Helena, que conhece todos os 854 municípios de Minas – alguns, presencialmente, outros de ouvir falar.
Quando falei Uru… ele completou:
– É Urucânia, fica perto de Ponte Nova. E agora, com a Ucrânia sendo impiedosamente massacrada pelo ditador Putin, Urucânia e aquela aventura do século passado me vieram à cabeça. A cidade tem hoje, 2022, cerca de 10 mil habitantes. Quantos ela teria há 70 anos passados? Não faço ideia.
O padre Pedro Ribeiro Pinto morreu em 1963. No mesmo ano, Urucânia ganhou a condição de município, desmembrando-se de Ponte Nova e elegeu o seu primeiro prefeito.
Hoje, a data mais importante é o 27 de novembro quando se comemora Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças no Santuário onde estão depositados os restos mortais do Reverendo Padre Antônio Ribeiro Pinto.
Urucânia vem de urucum que, na linguagem indígena, se referia uma planta de cujas sementes eles faziam tinta. Também usado na culinária, na fabricação do colorau que dá cor avermelhada a, por exemplo, o arroz.
Às vezes, tenho vontade de voltar à pequena Urucânia, palco e motivo da minha primeira grande aventura.
Quem sabe?
(*) Mário Marinho é jornalista. O artigo foi publicado no Chumbo Gordo.
Até um mês atrás, a popularidade de Volodímir Zelenski, presidente da Ucrânia, andava baixa. Ele seguia o destino reservado a todos os políticos de quem os eleitores esperam milagres. Dado que, em tempos normais, milagres não costumam ocorrer, a população que conta com eles acaba se sentindo frustrada.
Acontece que a invasão das tropas russas virou o país de ponta-cabeça, e a situação mudou drasticamente. Calcula-se que, até agora, 10 milhões de cidadãos tiveram de fugir abandonando casa e bens. Isso representa 23% da população do país. Proporcionalmente, é como se 49 milhões de brasileiros tivessem sido obrigados a fugir, sem destino certo, só para salvar a pele. Uma calamidade!
O Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados informa que, até ontem 23 de fevereiro, 3,7 milhões de ucranianos – um contingente constituído basicamente de mulheres, crianças e anciãos – foram mais longe: atravessaram a fronteira e deixaram o país natal em busca de refúgio no estrangeiro, principalmente na Polônia.
Zelenski, o presidente em quem ninguém botava muita fé até outro dia(1), tem mostrado ser excelente chefe de guerra. Encarna o herói tal como é definido nos dicionários: aquele ser carismático que, em circunstâncias adversas, se destaca como figura protetora que mostra o caminho a seguir.
Seu passado de ator tem sido precioso na adversidade. O trabalho de anos diante das câmeras deu-lhe segurança na hora de falar ao público. Por meio de internet, zoom e telão, tem sido o convidado de honra de numerosos parlamentos ao redor do globo.
Sempre ovacionado de pé por parlamentares, já discursou ao vivo, por meio de telão, no Parlamento da União Europeia, no Congresso Americano, no Bundestag (Parlamento Alemão). Já se exprimiu também nos seguintes parlamentos: Canadá, Itália, Japão, Israel, Reino Unido. Ontem foi a vez da França, onde foi ouvido por deputados e senadores reunidos em sessão extraordinária. Recebeu a habitual standing ovation.
Zelenski sabe encontrar as palavras certas para tocar o fundo da alma dos que o escutam. Nos EUA, lembrou os ataques a Pearl Harbour e às torres gêmeas; na Europa, mencionou as invasões da Segunda Guerra; na França, comparou as ruínas da cidade-mártir de Mariúpol à destruição da francesa Verdun, na Primeira Guerra.
Diferentemente de seu xará russo, que pensa muito em si e pouco no próprio povo, Volodímir Zelenski tem demonstrado pouco apego à própria vida e grande amor pelo povo que o elegeu. Sabe perfeitamente que, a todo momento, um míssil russo pode destruir o palácio do governo, que ele transformou em seu quartel-general. Transpira coragem, enquanto Putin, seu agressor, vive cercado por um batalhão de seguranças e não come nada que não tenha sido antes experimentado por um dos provadores oficiais.
A Ucrânia, a Europa e o mundo inteiro torcem para que esse pesadelo termine logo. Esta é uma guerra que só deixará perdedores. Perde a Ucrânia, um país destruído. Perde a Rússia, um país condenado a passar as próximas décadas à margem da civilização. Perde o mundo, que vê ressurgir o pavor do urso soviético, que todos imaginavam morto e enterrado.
Zelenski não discursou para os parlamentares brasileiros. Desconheço a razão. Talvez, ocupados com escândalos paroquiais, tenham esquecido de convidá-lo. Ou talvez nosso Congresso não disponha de telão – deve ser isso.
Em outubro de 1977, em pleno regime militar – só os muito antigos se lembrarão – nosso Congresso recebeu a visita da lindíssima atriz holandesa Sylvia Kristel. Ela tinha sido a estrela do filme Emmanuelle. A exibição do filme tinha sido proibida no Brasil, por ele ter sido considerado ousado demais. A censura só viria a liberá-lo 3 anos mais tarde.
Jornais da época relatam a tietagem de que a moça foi objeto por parte de assanhados parlamentares. (A palavra tietagem ainda não existia; dizia-se paparicação.) Sylvia Kristel conversou com deputados e senadores, todos encantados e admirativos. Foi recebida até pelos presidentes do Senado e da Câmara, respectivamente Petronio Portella e Marco Maciel(2).
Não se deve tirar nenhuma conclusão apressada. Seria injusto afirmar que nossos parlamentares se encantam mais com a visita de uma beldade estrangeira do que com um drama que sacode a Europa e que trará, é certeza, repercussões (negativas) para a economia nacional e para o dia a dia de nossa população.
Vai ver que só não convidaram Zelenski para discursar por videoconferência por não disporem do número de telefone dele.

(1) Muitos não botavam fé em Zelenski, é verdade. Mas eu não soube de nenhum chefe de Estado que tenha cometido a imprudência de zombar dele, logo nos primeiros dias da invasão, como fez nosso capitão Bolsonaro, quando fez pouco e tentou rebaixar o colega ucraniano chamando-o de “comediante”. Com direito a muxoxo.
(2) Marco Maciel, que foi vice-presidente do Brasil ao longo dos dois mandatos de FHC, faleceu no ano passado. Ele e um certo Olavo de Carvalho foram as únicas personalidades falecidas durante o governo Bolsonaro que tiveram direito a um decreto de luto oficial. (Coincidentemente, ambos faleceram de covid, doença que o capitão diz que não existiu.) Diga-se, em desagravo à memória de Maciel, que ele dificilmente terá cruzado algum dia com o outro homenageado. Não frequentavam a mesma paróquia.
José Horta Manzano
Na linguagem da bandidagem mafiosa italiana, o pizzo – italianização do original siciliano “pizzu” – é uma forma de extorsão praticada por organizações criminosas. É a “taxa de proteção” cobrada de pequenos comerciantes e até de empresas de porte médio, que não têm outro remédio se não pagar.
Não se tem certeza sobre a origem do termo. É aceito por todos que se trata de forma dialetal siciliana. Dado que, no falar daquela ilha, “pizzu” é o bico de pequenas aves, acreditam alguns que o ato mafioso lembre as bicadinhas que passarinho dá quando se alimenta. Já outros são de opinião que “pizzu” seja uma forma abreviada de “capizzu” (cabeceira da cama), transmitindo a imagem de que os que se resignam e pagam o pedágio podem descansar tranquilos.
E ai de quem não pagar! Uma manhã, ao chegar para abrir a loja, o recalcitrante pode ter a terrível surpresa de encontrar seu comércio incendiado. Os que forem se queixar às autoridades correm até risco de vida.
Nesta altura, quero fazer uma correção. Mais de uma vez, devo ter qualificado o Brasil como terra de bandidos. Eu não estava fundamentalmente errado, mas a definição estava imprecisa.
Estes dias, quando as manchetes trazem a notícia das práticas vigentes no Ministério da Educação (da Educação!), sou obrigado a desembaçar minha definição. Não vivemos numa terra de bandidos, mas numa terra de mafiosos.
Nos tempos do mensalão e do petrolão, a dinheirama extorquida vinha de grandes empresários, principalmente do ramo de construção. No final, quem acabava sendo lesado era o povo, naturalmente, mas a conta chegava de modo indireto, em suaves prestações.
As notícias dessa nova forma de “pedágio” mostram que a bandidagem se alastra e contamina nosso quotidiano. A curriola que dá sustentação ao governo federal não mais se limita a extorquir milhões de grandes empresários. Seus tentáculos já estão coagindo prefeitos a pagar o “pizzo”.
Falta muito pouco para chegarem ao cidadão comum. Em breve, estaremos todos alimentando diretamente a máfia que se instalou nas entranhas da República e que vem sendo acariciada – e incentivada – pelos mais altos escalões que nos presidem.
Em matéria de corrupção generalizada, estamos correndo a passos largos para transformar nosso país numa grande Venezuela ou numa Rússia tropical.
Dorrit Harazim (*)
Até 25 dias atrás, excetuando os diretamente interessados, brasileiros podiam confundir Carcóvia, na Ucrânia, com Cracóvia, na Polônia — ambas majestosas segundas maiores cidades de seus países. Não mais.
Também foi preciso desempoeirar às pressas nosso mapa-múndi escolar e aprender, com esta primeira guerra “live” da humanidade, a chamar Carcóvia de Kharkiv, versão anglicizada do nome original da cidade. Tudo em vão. Quando a guerra acabar não haverá mais a Kharkiv/Carcóvia de antes. Restarão apenas pirâmides de escombros e uma abissal dor coletiva, misturada a um oceano de luto individual.
Serão inúmeros os horrores e as memórias a reparar por toda a nação invadida. Da eviscerada Mariúpol, no sul do país, à europeia Lviv, no oeste, ficarão as marcas da desumanidade. A Ucrânia inteira, ou o que dela restar, precisará juntar seus cacos como sociedade.
(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 20 mar 2022.
As bombas de Putin trouxeram ao noticiário o nome de Lviv, importante cidade da Ucrânia. Para alívio de seus assustados habitantes, Lviv não foi sitiada, nem invadida, tampouco bombardeada. Até o momento em que escrevo.
A cidade foi fundada numa dessas esquinas estratégicas da Europa medieval, no que era então o Reino da Galícia-Volínia. Foi durante o reinado de Daniel I, em meados do século 13.
Nestes oito séculos, a cidade mudou de mãos numerosas vezes, pertenceu a reinos, principados, impérios e repúblicas. Teve grande número de “donos”. A impressionante lista vai aqui abaixo.
Principado da Galícia-Volínia (1256-1349)
Reino da Polônia (1349-1569)
República das Duas Nações (Polônia e Lituânia) (1569-1772)
Reino da Galícia e Lodoméria (1772-1804)
Império Austríaco (1804-1867)
Império Austro-Húngaro (1867-1918)
República Popular da Ucrânia Ocidental (1918)
Polônia (1918-1939)
União Soviética (1939-1941)
Alemanha nazista (1941-1944)
União Soviética (1944-1991)
Ucrânia (1991 até o presente)
Essa concentração de heranças tão diversas fez de Lviv uma cidade que destoa, em arquitetura, das demais cidades ucranianas. Enquanto as outras, em maior ou menor escala, guardam fortes traços da era soviética, Lviv ostenta um charme tranquilo, indefinível, com toques germânicos, bálticos e até nórdicos.
Outra marca do cosmopolitismo da cidade é sua coleção de nomes. O rei fundador deu-lhe o nome do filho Lev – que significa Leão nas línguas eslavas. Diferentes línguas traduziram, bem ou mal, o nome original. Ou simplesmente o adaptaram a sua fonética.
Os franceses hesitaram entre Léopol, Léoville e Lionville. Acabaram ficando com Lviv mesmo. Em italiano e em espanhol, o nome é Leopoli/Leópolis(*). Lituanos e letões preferem Lvovas/Lviva. Os alemães deram-lhe o nome de Lemberg. Os judeus, que chegaram a ser numerosos por lá antes dos massacres da Segunda Guerra, utilizavam o mesmo nome Lemberg, embora escrito com caracteres hebraicos. Em russo, o nome é Львов (pr: Lhvôf). Os poloneses utilizam praticamente o mesmo nome, mas escrevem em caracteres latinos: Lwów. Os ucranianos, que são os donos atuais, escrevem Львів (pr: Lhvif). Entre nós, visto que a cidade era muito pouco conhecida até outro dia, tem sido adotada a transliteração do ucraniano = Lviv.
O centro histórico da cidade está inscrito na lista do patrimônio arquitetural da Unesco. Ao sabor de guerras e ocupações, sua demografia sofreu mudanças drásticas. Em 1931, a população se subdividia em 50% de poloneses, 32% de judeus e 16% de ucranianos – cada grupo falando sua língua. Na virada do século, por volta do ano 2000, os judeus haviam praticamente desaparecido, assim como os poloneses. Por seu lado a porcentagem de ucranianos havia saltado de 16% para 88% e persistia um contingente de russos de 9%, num resquício da era soviética.
Atirar bombas sobre populações civis, como vêm fazendo as tropas de Putin em outros centros urbanos da Ucrânia, é crime contra a Humanidade. Bombardear Lviv agravaria o nível da ação celerada, acrescentando mais um crime à extensa lista de selvajaria: a destruição de patrimônio da Humanidade.

(*) Temos, no estado do Paraná, um município de nome Leópolis. Logo que fiquei sabendo, imaginei que fosse região de colonização polonesa ou ucraniana. Engano. A origem é mais prosaica. Trata-se simplesmente de homenagem ao proprietário da gleba na qual o povoado foi fundado. Ele se chamava Léo, donde o nome de Leópolis. Portanto, nada a ver com Lviv.
Dia 16 de fevereiro, faz mais de um mês, o governo federal suíço fez um aviso importante: a partir da zero hora do dia seguinte, o uso de máscara anticovid deixava de ser obrigatório no país inteiro. A liberação incluía todos os lugares públicos fechados: supermercados, lojas, centros comerciais, igrejas, teatros, cinemas, bibliotecas, universidades. O uso da máscara continuava obrigatório apenas no transporte público e em hospitais, clínicas e casas de repouso para idosos.
Pois acredite: a partir do dia 17 de fevereiro, todos tiraram a máscara. Excetuando um gato pingado aqui, outro ali, todos acreditaram nas autoridades. Foi como se o Conselho Federal (o Executivo colegiado) tivesse o poder de expulsar os vírus para fora das fronteiras e decretar o fim da pandemia. Com hora e dia marcados.
Passado mais de um mês, este blogueiro, que é prudente, não põe os pés nem no elevador sem ostentar aquela mascarinha esverdeada, modelito básico made in China, incômodo, mas precioso. Às vezes sinto que me olham como se eu fosse um E.T. que acaba de desembarcar de um disco voador.

Um mês depois da Suíça, o governo paulista aliviou – ou “flexibilizou”, que é a palavra oficial – as regras de uso de máscara em ambiente fechado, em todo o território do estado. Em “shoppings”, faculdades, escritórios e estabelecimentos comerciais, pode-se de novo mostrar o sorriso. E qual foi a reação popular? Lançaram “hurras!” de alegria e alívio?
No primeiro dia, repórteres de campo fizeram contagem da população e repararam que os passantes se distribuíam entre os que, adotando imediatamente a liberação, saíram sem máscara (30%) e os mais prudentes, que preferem esperar pra ver o que vai dar (70%).
Como a situação evoluiu, não sei. Mas no início, apenas 3 de cada 10 paulistas acataram imediatamente as diretivas oficiais. Houve até gente que confiou ao repórter que, no transporte coletivo, pretendia continuar usando máscara “pelo resto da vida”. É grave, doutor?

Meu diagnóstico não tem a pretensão de estabelecer nenhuma verdade estatística, mas mostra uma tendência. Uma linha demarcatória pode ser traçada entre a reação de cada um dos povos mencionados.
Os suíços
1) Botam fé (até demais) nas autoridades. Acreditam no que ouvem, não se rebelam e seguem as ordens.
2) Têm consciência de que os eleitos realmente representam o povo e que a voz das autoridades é, no fundo, a voz da população.
Os brasileiros
1) Em princípio, desconfiam das próprias autoridades. Têm dificuldade em acreditar em diretivas oficiais e em segui-las. Não acreditando no que ouvem, costumam rebelar-se. Dependendo da época, essa revolta já se exprimiu pelas armas, pelas revoluções, pelas marchas, pelos protestos, pelos panelaços; hoje, a rebeldia marca presença nos comentários, raivosos ou não, lançados em redes sociais.
2) Têm consciência de que os eleitos constituem uma classe à parte e que vivem desligados do povo que os elegeu. Sabem que os valores que movem as autoridades não representam necessariamente os valores dos eleitores.

A Suíça é formada por 26 cantões, cada um com sua própria Constituição, suas regras fiscais, seu sistema escolar. Uns cantões são de maioria católica, outros têm mais protestantes, outros são “mistos”. Há cantões predominantemente urbanos, enquanto outros são rurais. Uns são ricos, ao passo que outros são bem menos abastados.
Se esse complexo quebra-cabeça – com populações que não se entendem nem frequentam a mesma igreja – conseguiu, há séculos, encontrar uma fórmula de convivência harmoniosa, por que continuamos nós, no Brasil, a cavar fossos entre “nós e eles” e a alimentar campanhas de ódio contra os que não pensam como nós?
Quando a gente não consegue fazer um mingau que preste, convém pedir a receita ao vizinho.
José Horta Manzano
Em 1492, Cristóvão Colombo tomou posse, em nome da Coroa Espanhola, de terras recém-descobertas. Embora ninguém, naquela altura, se desse conta, ele acabava de desembarcar num imenso e desconhecido continente, que receberia mais tarde o nome de América.
Os Estados Unidos, apesar de serem herdeiros das colônias inglesas e não das espanholas, sempre aceitaram Colombo como descobridor oficial do continente. Columbus Day é o nome do 12 de outubro, data do descobrimento. Pelo menos vinte cidades americanas, grandes e pequenas, levam o nome de Columbus, em homenagem ao descobridor.
Em 1898, os EUA e a Espanha entraram em guerra. O conflito não foi longo mas devastador para a Espanha, que perdeu, para os EUA, as colônias que lhe restavam: Cuba, Porto Rico, Filipinas, Guam e pequenos arquipélagos no Oceano Pacífico.
Apesar de os dois países estarem em estado de beligerância, não consta que nenhuma localidade americana tenha cogitado “cancelar” o nome de Columbus, o descobridor que trabalhara a serviço da Espanha. O 12 de Outubro também não foi afetado: continuou sendo lembrado como Columbus Day, status que mantém até hoje.

Em 24 de fevereiro último, o exército russo invadiu a Ucrânia suscitando um clamor planetário de indignação. Reações têm sido fortes. Sanções financeiras e comerciais estão chovendo sobre a Rússia. Mas tem de haver limite para tudo.
Como já denunciei alguns dias atrás, a anulação de palestra sobre Dostoiévski, o maior escritor russo, como fez uma universidade italiana, é claro exagero. Não ajuda a Ucrânia. Não é símbolo de repulsa, mas de ignorância.
Yuri’s Night
O site Futurism dá notícia de uma nota (ora deletada) lançada por uma fundação sem fins lucrativos. Devia ser uma noitada dedicada a recoltar fundos. O tema era “Yuri’s Night” – em homenagem a Yuri Gagarin, primeiro humano a dar algumas voltas em torno da Terra, dentro de uma cápsula que orbitava além da atmosfera. O chato é que Gagarin, que faleceu 54 anos atrás, era de nacionalidade russa. Em curiosa forma de protestar contra a agressão da Rússia contra a Ucrânia, a homenagem ao astronauta foi cancelada, e a noitada passou a chamar-se “Uma celebração do Espaço: Descubra o que vem depois”.
Reptile Database
O site Reptile Database centraliza dados científicos sobre todas as espécies de répteis conhecidas na face da Terra. Esta semana, passou inacreditável informação ao conjunto de seus assinantes, que costumam ser cientistas, pesquisadores e estudantes. Fez saber que estava removendo da plataforma, com efeito imediato, mais de mil artigos assinados por cientistas russos, pouco importando que tivessem sido escritos muitos anos antes. Com a manobra, castigou não somente cientistas russos (que podem até ser oponentes a Putin). “Cancelou” cientistas de outras nacionalidades, cujo único pecado era ter coassinado um artigo com um colega russo. De tabela, vedou a cientistas do mundo inteiro acesso à conceituada base de dados.
Repito que, por mais simbólicas e humanitárias que possam parecer, essas medidas são um hino à ignorância, além de serem inócuas e inúteis. Putin não costuma acessar base de dados de herpetologia.
Carlos Brickmann (*)
Repetindo o texto, para quem acha que já viu tudo: o ministro da Justiça, Anderson Torres, concedeu a Medalha do Mérito Indigenista a Bolsonaro. É falso que a medalha homenageie o General Custer, americano que em 25 de junho de 1876 atacou os índios comandados pelos caciques Touro Sentado e Cavalo Louco, em Little Bighorn, sendo morto e levando todos os seus soldados à morte.
Já a frase de Bolsonaro sobre lutas entre militares e índios é verdadeira, e foi dita em abril de 1998, em discurso na Câmara dos Deputados:
“A cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país”.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.
Tem certas coisas que, não fosse estarem preto no branco, a gente não acreditava. Um tuíte soltado pelo general Villas-Boas, faz alguns dias, entra nessa categoria. Percebido pela mídia como desimportante, mereceu pouca divulgação.
Eduardo Dias da Costa Villas-Boas é general estrelado. Já ocupou por 4 anos o posto de comandante do Exército Brasileiro, que não é coisa pouca. Um cargo dessa magnitude não está ao alcance de qualquer um. O escolhido há de ter qualidades essenciais: sólida formação, visão estratégica, profundos conhecimentos de geopolítica, aptidão para o comando, ascendência natural sobre os comandados.
Só que… ninguém é perfeito. Nosso general, hoje septuagenário, continua chegado a uma polemicazinha. Por ocasião da campanha de Bolsonaro, em 2018, soltou um tuíte que foi entendido como tentativa de pressão sobre a Justiça que estava para decidir sobre a possibilidade de o Lula se candidatar à Presidência. Como por acaso, a mensagem, redigida em termos sibilinos, foi publicada na véspera do julgamento.
Faz uns dez dias, ele reincidiu. Com a invasão da Ucrânia pelas tropas de Putin tomando o noticiário, o tuíte do general passou despercebido. Melhor assim. Tivesse sido postado por um adolescente, ninguém se encresparia. Vindo da pluma de general estrelado, denotou o lado moleque e infantil do autor.
A mensagem veio com o seguinte título: “O que espera Macron na Amazônia”. Em seguida, um vídeo dramático com imagens de militares brasileiros em treinamento na selva. Como pano de fundo, uma paródia de Bella Ciao, canção identificada com os partigiani italianos – tropas não-regulares formadas por patriotas civis que combatiam o inimigo nazi-fascista na Segunda Guerra Mundial.
Meus leitores hão de se lembrar que, no começo do mandato, Bolsonaro acreditava que um presidente da República pode tudo. Foi quando se indispôs com meio mundo. Mostrou desleixo no combate às queimadas na floresta brasileira. O G7 se alarmou. Em reação, Macron lançou vaga ameaça ao dizer que a “internacionalização” da Amazônia (seja lá o que isso possa significar) estava em debate.
À época, o general Villas-Boas há de ter sentido cheiro de guerra no ar. Agora, que o ogro argentino está domado, um inimigo externo estava sendo procurado. De bandeja, Macron lhe ofereceu o temor que andava fazendo falta a nosso imaginário militar.
Com a finura que o caracteriza, Bolsonaro chegou à baixeza de insultar o presidente da França, ressaltando a feiúra da primeira-dama daquele país. Coisa de cortiço. Mas o general anotou no caderninho e guardou para uso futuro.
Sentindo que a proximidade das eleições presidenciais francesas oferecia um momento ideal para dar uma estocada em Emmanuel Macron, o general soltou o tuíte que descrevi acima. Deu furo n’água.
Primeiro
Por mais general que seja, sua voz é inaudível. Se seu tuíte praticamente passou em branco dentro das fronteiras, lá fora, então, foi olimpicamente ignorado. Publicar esse tipo de artimanha numa época em que o mundo está eletrizado pela invasão da Ucrânia? Francamente… Alguns anos atrás, podia ser que a voz de Villas-Boas ecoasse lá fora; porém, desde que se instalou a era Bolsonaro, nossas picuinhas internas perderam a pouca importância que possam ter tido um dia.
Segundo
A “internacionalização” da Amazônia é inexequível. O general precisa se dar conta de que o Brasil só detém 60% da floresta amazônica. Os 40% restantes se espalham por 7 países estrangeiros. Entre eles, a própria França! A Guiana Francesa, parte integrante do território da República Francesa, tem 90% de seu território recoberto pela selva amazônica. Acha possível um governo decidir “internacionalizar” parte do território nacional? E ainda ter de convencer 8 países amazônicos a seguir o mesmo caminho? E se acertar com os 27 sócios da União Europeia? Convenhamos, general…
Terceiro
Em vez de atirar no pianista, melhor faria o general se se debruçasse sobre a raiz do problema. O planeta está alarmado com a sobrevivência da humanidade. Fontes de energia renováveis e conservação do patrimônio florestal fazem parte da solução. Em vez de fazer ameaças ridículas de combater uma potência nuclear com estilingue, seria mais útil estudar o problema e tentar entender que o maior valor da Amazônia brasileira é seu patrimônio florestal e sua biodiversidade. Nióbio, grafeno, ouro e cloroquina não fazem parte do butim cobiçado por um consórcio de grandes potências.
Quarto
Se alguma(s) potência(s) decidisse(m) se apoderar da Amazônia brasileira, é inútil imaginar embates corpo a corpo na umidade equatorial. Há meios mais modernos e mais eficazes de fazer dobrar um país. O general deveria saber. Falando nisso, a quantas anda nossa proteção contra piratagem informática que poderia, por exemplo, interferir em nossas hidroelétricas e bloquear o país? Ou parasitar os sistemas de comunicação militar?
Para terminar, quero deixar claro que respeito a carreira do insigne militar. Se chegou aonde chegou, méritos há de ter. Nossas diferenças se limitam a uma questão de princípios. Quanto a mim, coloco a dignidade do profissional e do cargo acima da arena em que se debatem espíritos adolescentes e imaturos.
Seu tuíte veio fora de hora e fora de esquadro, general.
José Horta Manzano
CNews é um dos braços de um conglomerado francês de mídia fortemente orientado politicamente à extrema-direita. Volta e meia, seu canal de tevê de informação contínua é processado por parcialidade e tendenciosidade. É o equivalente francês do grupo americano Fox News, o favorito de Trump e dos ultradireitistas americanos.
Monsieur Eric Zemmour, atualmente candidato às eleições presidenciais francesas do mês que vem, foi comentarista desse canal por muitos anos. Abandonou as funções poucas semanas atrás para poder se candidatar. Zemmour promete que, se for eleito, expulsará todos os estrangeiros (a começar pelos árabes de confissão maometana), tirará a França da União Europeia e passará cadeado nas fronteiras. Se pudesse, recuperaria até as antigas colônias.
É importante notar que foi justamente esse canal que publicou a manchete que reproduzo acima. Em princípio, Bolsonaro – assim como Trump, Orbán, Putin e outros da mesma laia – formam um seleto grupo de “líderes” admirados por CNews.
Se os redatores do grupo se escandalizaram com a notícia vinda de Brasília, é sinal de que a indignação com a desfaçatez do capitão é considerada excessiva até para os padrões dos ultras da direita francesa. Percebe-se que até os da extrema-direita estão começando a se dar conta de que Bolsonaro se comporta como pária.
O título diz:
Indignações depois de Jair Bolsonaro ter mandado que lhe concedessem uma medalha do ‘mérito indigenista’. (as aspas estão no original)
E o subtítulo continua:
Durante seu mandato, Jair Bolsonaro tem sido muito criticado por sua ação contra o desmatamento e a espoliação das terras indígenas.
O restante do texto segue na mesma linha.
O escárnio bolsonárico é tão asqueroso, que escandaliza até a mídia vinculada à extrema-direita. Em resumo, qualquer vivente medianamente informado, seja de esquerda, seja de direita, não consegue deixar de se indignar com a insolência do chucro que ora ocupa a Presidência.