Minha viagem a Urucânia

Mário Marinho (*)

Meu corpo frágil e pequeno foi sacudido violentamente e quase cai da cama. Ou do que pensava ser a cama. Abri os olhos, sonolento, não consegui entender nada. Estava escuro e minha cama continuava com suas estranhas sacudidas.

Percebi que estava deitado com a cabeça no colo do meu pai. Percebendo que eu estava acordado, meu pai me fez um afago na cabeça e disse para dormir porque estava muito cedo.

Consegui dormir mas, logo, os solavancos, as sacudidas, me acordaram. Com alguma dificuldade consegui sentar-me e as imagens foram se clareando. Eu estava dentro de um carro. Ao meu lado, meu pai.

O carro sacudia muito e em alguns momentos os homens que estavam no carro desceram para empurrá-lo. Percebi que o carro estava atolado num lamaçal.

Além de meu pai, dois outros homens estavam no carro: o motorista e o passageiro a seu lado. Quando o carro balançava muito naquela estrada esburacada, meu pai me abraçava fortemente. Dava segurança e carinho.

Ao fim de um tempo, que não sei precisar quanto, chegamos a uma localidade. O que me chamou a atenção logo de cara, foi a quantidade de pessoas. Uma multidão que eu nunca vira.

Quando descemos do carro perto de uma casa, agarrei a mão do meu pai com força. Tinha medo de me perder no meio de tanta gente. Depois vim a saber que havíamos chegado ao nosso destino: Urucânia.

Vamos ao princípio da aventura. A primeira em minha jovem vida.

Corria o ano de 1949 e eu tinha seis anos de idade. Eu era um menino pequeno para minha idade e tinha um problema crônico de purgação no meu ouvido direito. Já havia passado por um médico especialista e nada de resolver o problema que, além do desconforto de um permanente algodão no ouvido, causava dores.

Foi aí, então, conforme fiquei sabendo bem depois, que meu pai tomou conhecimento dos milagres do padre Antônio Ribeiro Pinto na localidade de Urucânia. O povoado pertencia então ao município de Ponte Nova, hoje a 260 quilômetros de Belo Horizonte. Na época, por falta de estrada direta, essa distância certamente era maior.

Morávamos no bairro Parque Riachuelo, Zona Noroeste de Belo Horizonte, onde meu pai tinha um próspero armazém que se chamava Botafogo. Meu pai, saudoso Paulo Marinho, devia gozar de boa situação financeira, pois alugou o carro para nos levar. Até hoje não faço ideia de quem era o outro homem e se ele ajudou na despesa.

Só sei que acordei dentro daquele sacolejante carro que volta e meia parava para ser empurrado. Os homens chegaram em Urucânia totalmente enlameados.

Depois que eles se lavaram e trocaram de roupa, almoçamos e saímos à praça apinhada de gente em direção à Igreja do padre Antônio Ribeiro Pinto. Com muita dificuldade conseguimos chegar perto do padre que abençoou o meu ouvido e nos deu um litro de água benta que deveria ser colocada em gotas em meu ouvido.

Pouco depois empreendemos a aventura da volta. Acho que fizemos um outro caminho, pois não me lembro de tanto buraco, tanto barro e tantas paradas.

A bem da verdade, meu ouvido não sarou. Conforme fui crescendo, o problema foi diminuindo. Lembro-me, entretanto, que o primeiro inverno que passei em São Paulo, em 1968, tive problemas da velha purgação no ouvido.

Na época não havia planos de saúde. Mas o Estadão e o Jornal da Tarde mantinham uma espécie de convênio com uma clínica chamada Paula Santos: os jornais publicavam anúncios da clínica que atendia aos funcionários.

Contei ao médico meu drama, inclusive contando da água benta.

Ele me disse:

– Aquela água devia ser benta mesmo. Porque, se não fosse, você teria perdido a audição, já que água e qualquer umidade são verdadeiros venenos para quem tem esse problema.

O médico me receitou remédio para combater a inflamação e disse que eu precisava fazer uma timpanoplastia. Que, evidentemente, eu não fiz até hoje.

Urucânia saiu da minha vida. Nunca tive curiosidade de perguntar ao meu pai sobre aquela viagem. Ele também, talvez certo de que eu não me lembrava, nunca tocou no assunto.

Há alguns poucos anos, em conversa na casa de minha irmã Maria Helena, tentei lembrar o nome da cidade. Sabia que era Uru qualquer coisa.

Fui socorrido pelo meu cunhado Ismar Eterovik, casado com a Maria Helena, que conhece todos os 854 municípios de Minas – alguns, presencialmente, outros de ouvir falar.

Quando falei Uru… ele completou:

– É Urucânia, fica perto de Ponte Nova. E agora, com a Ucrânia sendo impiedosamente massacrada pelo ditador Putin, Urucânia e aquela aventura do século passado me vieram à cabeça. A cidade tem hoje, 2022, cerca de 10 mil habitantes. Quantos ela teria há 70 anos passados? Não faço ideia.

O padre Pedro Ribeiro Pinto morreu em 1963. No mesmo ano, Urucânia ganhou a condição de município, desmembrando-se de Ponte Nova e elegeu o seu primeiro prefeito.

Hoje, a data mais importante é o 27 de novembro quando se comemora Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças no Santuário onde estão depositados os restos mortais do Reverendo Padre Antônio Ribeiro Pinto.

Urucânia vem de urucum que, na linguagem indígena, se referia uma planta de cujas sementes eles faziam tinta. Também usado na culinária, na fabricação do colorau que dá cor avermelhada a, por exemplo, o arroz.

Às vezes, tenho vontade de voltar à pequena Urucânia, palco e motivo da minha primeira grande aventura.

Quem sabe?

(*) Mário Marinho é jornalista. O artigo foi publicado no Chumbo Gordo.

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