Belarus

José Horta Manzano

Como se sabe, a cultura nacional não desdenha uma regrazinha. Que seja cumprida ou não, é o de menos. O que conta é que esteja lá, gravada na pedra, pra ajudar (ou atrapalhar) a vida de muita gente. O chato é que, de regrazinha em regrazinha, arma-se um cipoal amazônico. Sabia que, até para grafar nome de países, há maneira oficial? Pois é. Nessa matéria, quem dá o tom é o Itamaraty.

Com a explosão da União Soviética, entre 1990 e 1991, surgiu uma quinzena de países dos quais pouco se falava antes. Em maioria, são países discretos, daqueles que a gente teria dificuldade em apontar no mapa. São lugares onde a gente tem a impressão de que nada acontece. Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão estão entre eles. Só muito de vez em quando, uma das 15 antigas repúblicas soviéticas sai do esquecimento e vem à tona trazida por algum acontecimento excepcional.

Nos anos 90, assim que o Estado brasileiro reconheceu esses novos países, foi preciso fixar nome oficial para cada um em nossa língua. O caso de Belarus é curioso. Décadas atrás, o país era conhecido como Bielo-Rússia ou Rússia-Branca. De fato, a primeira acepção da palavra russa Белый (Biély) é branco.

O Itamaraty optou por acompanhar a preferência dos nativos, abandonando a antiga denominação. Oficializou-se Belarus(1). Mas o gato que se esconde costuma deixar o rabo de fora. O próprio Itamaraty não chama os nativos de belarussos, como se poderia esperar; o gentílico oficial é bielorrusso – assim, com dois erres –, numa alusão explícita ao nome de décadas atrás.

Alexander Lukachenko
by Güngör Özme (1938-), desenhista turco

Na antiga URSS, imensa região com centenas de línguas e dialetos, a língua-teto, aquela que servia para as trocas do dia a dia, era o russo, que se escreve com caracteres cirílicos. Toda adaptação daqueles nomes para nossa língua será, portanto, uma transliteração, isto é, uma adaptação do som original utilizando nossos caracteres latinos. Uma transliteração será sempre fonética: as letras são utilizadas com o valor que têm em nossa língua. (Essa é a teoria; como veremos, na prática, ela pode variar.)

Estes dias, Belarus está no noticiário. Considerado a última ditadura da Europa, o país anda sacudido por manifestações de uma juventude que tem sede de normalização democrática; estão cansados de sofrer com tanta truculência e corrupção. O nome do ditador, pouco conhecido no Brasil até duas semanas atrás, tornou-se familiar: Lukachenko.

Naturalmente, o Itamaraty não fixou normas para transliteração de nome de gente. Não é sua função. Talvez por causa disso, a quase totalidade da mídia atirou-se de cabeça nos despachos que vêm das agências noticiosas internacionais. Copiou ipsis litteris a transliteração inglesa do original Лукашенко: Lukashenko, com esse sh que não faz parte de nossas convenções. O sh é um dígrafo utilizado nos países de fala inglesa para representar o som ch. Na nossa língua, embora possa parecer familiar, não tem vez.

Resumindo, o nome do ditador de Belarus deve ser escrito Lukachenko (2). (Aproveitem enquanto o homem ainda está no poder – depois, será tarde.)

No duro, no duro, deveríamos escrever Lucachenco. Mas não vamos ser mais católicos que o papa: com um k aqui, outro ali, fica bem mais chique. Fica mais russo. Ou bielorrusso, como queira.

(1) O Itamaraty não recomenda artigo antes do nome do país. Não é, portanto, nem o, nem a Belarus, mas simplesmente Belarus.

(2) Em russo, esse o final é pronunciado a. Digo isso só pra registro. Afinal, ninguém é obrigado a conhecer essas minúcias.

Cada cabeça, uma sentença ― 4

José Horta Manzano

Como numerosos países, a Irlanda oferece, a seus nacionais que tencionem viajar ao estrangeiro, informações práticas sobre usos e costumes de diversos destinos. O site do ministério irlandês de assuntos exteriores exibe longa lista com duas centenas de países e regiões. A extensa relação inclui até lugares pouco frequentados como as Ilhas Salomão, o Turcomenistão, a Coreia do Norte.

Por curiosidade, andei consultando algumas fichas. Fiquei agradavelmente surpreso: são extensas, bastante acuradas e atualizadas. Para o Brasil, por exemplo, entre as dezenas de perigos óbvios, chegam a alertar para o risco do golpe conhecido como Boa-noite, Cinderela. Para a eventualidade de o turista ser assaltado, dão as mesmas recomendações que a polícia: não resista; mais vale entregar o ouro aos bandidos do que perder a vida.

Em verde, os países mais seguros

Em verde, os países mais seguros

Naturalmente, as dicas estão na rede, accessíveis a todos. A equipe do departamento de informações da Televisão Suíça andou folheando as advertências. Levaram um susto daqueles de cair da cadeira. Contrariando o que parecia óbvio, a Suíça não aparece entre os mais seguros. A equipe ficou despeitada.

A triste constatação foi parar na manchete do site de informações da rádio-televisão pública. Para mostrar o choque e para acentuar o desagrado, o título da matéria foi: «Segundo a Irlanda, a Suíça é mais perigosa que o Brasil».

Cada um enxerga o mundo com os próprios óculos. Ficou patente que as autoridades irlandesas mostram maior preocupação com o risco de atentados e de tumultos sociais do que com a criminalidade nossa de todos os dias.

Pais perigoso 1Em função do risco, os países estão classificados em cinco categorias. Na primeira, entram os menos perigosos, aqueles que requerem nada mais que cuidados básicos. Entre outros, estão lá os EUA, a Suécia, a Nova Zelândia, a Alemanha e… o Brasil.

Pais perigoso 2Na segunda categoria, estão as regiões que requerem cuidado redobrado. Estão lá a China, a Rússia, Angola, a Turquia e… a Suíça(!).

Pais perigoso 3No terceiro degrau, situam-se os destinos que exigem extrema atenção. Nesse nível, estão a Venezuela, a Argélia, a Nigéria e… a França(!).

Pais perigoso 4O quarto nível compreende os países que só devem ser visitados em caso de necessidade absoluta. O Sudão, o Paquistão, o Congo estão entre eles.

Finalmente, na quinta categoria, estão os países que não devem ser visitados em hipótese alguma. Como é compreensível, lá estão a Líbia, a Síria, o Iraque, o Afeganistão.

Ânimo, minha gente. No olhar simpático e indulgente dos irlandeses, o Primeiro Mundo é aqui!