A contradança

José Horta Manzano

Com a redemocratização, começaram a ser feitos levantamentos de opinião pública para aferir a popularidade do presidente. Já temos hoje um estoque de 25 anos de dados, prazo que confere credibilidade a essas pesquisas. Hoje é possível comparar a marca atingida pelos diferentes presidentes em determinadas fases do mandato.

Os números referentes a doutor Bolsonaro, quentinhos do forno, acabam de ser publicados pelo Ibope. Ao dá-los a público, a mídia se encarregou de os confrontar com o escore obtido pelos presidentes anteriores, cuja popularidade foi medida na mesma altura do mandato. O resultado é desastroso.

O histórico de aprovação de governo inclui os presidentes Collor de Mello, FHC, Lula da Silva e Dilma Rousseff ‒ uma boa amostragem. Os resultados referentes a doutor Bolsonaro informam que a pontuação do presidente atual é inferior à de qualquer outro presidente no terceiro mês de mandato. (Do cálculo, estão excluídas as avaliações de presidentes em segundo mandato.)

Nem Collor, nem Dilma ‒ que seriam mais tarde destituídos ‒ sofreram apreciação tão baixa já no terceiro mês. No caso deles, a degradação da opinião pública só se manifestou mais tarde. Se eu estivesse na pele de doutor Bolsonaro, levaria muito a sério esses primeiros resultados. É hora de parar pra pensar, analisar, descobrir onde é que a engrenagem está pegando e tratar de consertar rápido antes que seja tarde.

É verdade que não precisa pensar muito pra encontrar o problema. Ele não decorre das ações do governo, praticamente inexistentes até aqui. Vem, antes, da contradança entre o despreparo e a incapacidade. As ações dos três irrequietos primeiros-filhos tem dominado a crônica de costumes.

Não se passa um dia sem que um deles não protagonize episódio bizarro. Por capricho ou vaidade, já derrubaram até ministro. Já armaram futricas contra gente graúda. Já cutucaram militares. Já se indispuseram com meio mundo. Na louvável intenção de ajudar o pai, ainda vão ser responsáveis por sua perdição. O levantamento do Ibope está aí plantado como presságio: «Depois não digam que não avisei».

A raiva do sultão

José Horta Manzano

Decisão brusca ditada pelo humor ou pelo capricho de uma alta personalidade pode, às vezes, mudar o curso da história e determinar se o futuro da nação será de progresso ou de trevas.

A decisão tomada pelo rei de Portugal ao tempo do Marquês de Pombal de expulsar os jesuítas do Brasil contribuiu para condenar a colônia a cento e cinquenta anos de escuridão. Os jesuítas eram a ordem mais chegada à instrução básica de brancos e índios. Dado que seu banimento não foi seguido de medidas de incentivo à escolarização da população, o país permaneceu mergulhado na ignorância e viu crescer sua população de analfabetos. Isso durou até quando, já no século 20, a escola gratuita e obrigatória começou a se generalizar.

Vou contar-lhes outro caso, escorregão que causou um desastre cujas consequências se sentem até hoje, passados mais de quatro séculos. A virada do século 16 para o 17 assinalou o auge da expansão territorial e cultural dos turcos, que formavam, à época, o império otomano. Constantinopla, a capital, estava situada no cruzamento das rotas terrestres e marítimas que ligavam o Atlântico à Mongólia e à China. Ponto de passagem incontornável, era importante centro de comércio e de difusão da cultura.

Àquela altura, a Europa já contava com diversos observatórios astronômicos. Dois dentre eles, no entanto, sobressaíam. Eram o de Uranienborg (Dinamarca), onde oficiava o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, e o de Constantinopla, cuidado pelo otomano Taqi al-Din. No ano de 1577, um cometa muito luminoso atravessou o céu. Os dois estudiosos puderam observá-lo com atenção ‒ Tycho Brahe em Uranienborg e Taqi al-Din em Constantinopla. Quis o acaso que o cometa surgisse no primeiro dia do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos. Inquieto com o resultado da próxima guerra, o sultão turco quis saber se o cometa prenunciava boas novas ou desgraça.

Taqi al-Din constatou que o astro apontava na direção da Pérsia. Ademais, havia surgido na constelação de Sagitário (símbolo do flecheiro turco) e terminaria na de Aquário (símbolo da paz). A conclusão parecia evidente e o astrônomo não se furtou: predisse que o sultão podia seguir em frente sossegado, que a campanha militar seria coroada de sucesso. Não foi o que aconteceu. A guerra foi um desastre. Furioso, o sultão jogou a culpa no astrônomo e, ato contínuo, mandou que o observatório fosse destruído.

Enquanto isso, no observatório dinamarquês, Tycho Brahe aproveitou a passagem do cometa para adquirir conhecimentos. Registrou, por exemplo, que a cabeleira do corpo celeste se projetava sempre do lado oposto ao Sol. Os estudos de Brahe contribuiriam significativamente para o avanço da ciência na Europa. Já a destruição do observatório otomano travou o desenvolvimento da Turquia no campo científico. Foi preciso esperar pelo século 20 e pela chegada de Kemal Atatürk, herói que modernizou o país, para a Turquia começar timidamente a destravar o caminho do conhecimento. O país havia conhecido quatro séculos de estagnação.

Com informações de Manuel de León, El País.

Pleonasmos: relação em ordem alfabética

Dad Squarisi (*)

A novela é antiga como o rascunho da Bíblia. A prova está na etimologia da palavra. Pleonasmo vem do grego. Lá e cá mantém o significado. É a redundância de termos, a superabundância. Como sobremesa em excesso, enjoa. É o caso de subir pra cima, descer para baixo, entrar pra dentro, sair pra fora. Só se entra pra dentro, só se sai pra fora, só se sobe pra cima, só se desce pra baixo. Entrar, sair, subir e descer são suficientes. Dão o recado. Exemplos de abusos não faltam. São tantos que os apresentamos em ordem alfabética. Como livrar-se do desperdício? É fácil. Basta tirar a palavra que está entre parênteses.

A
Abertura (inaugural)
Abusar (demais)
Acabamento (final)
(Ainda) continua, se mantém
Além…(também)
Almirante (da Marinha)
Alvo (certo)
Amanhecer (o dia)
Assessor direto (não existe indireto)
A seu critério (pessoal)
Avançar (pra frente)
A razão é (porque)

B
Brigadeiro (da Aeronáutica)

C
Cale (a boca). Diga “cale-se”.
Certeza (absoluta)
Colaborar (com uma ajuda)
Comparecer (pessoalmente)
Com (absoluta) correção
Como (por exemplo)
Compartilhar (conosco)
(Completamente) vazio
Comprovadamente (certo)
Consenso (geral)
Continua a (permanecer)
Continua (ainda)
Conviver (junto) com
Criar (novo)

D
(Demasiadamente) excessivo
Descer (pra baixo)
Destaque (excepcional)
De sua (livre) escolha
Detalhes (minuciosos)

Subir pra cima
by Mysticlolly, desenhista francesa

E
Elo (de ligação)
Em duas metades (iguais)
Empréstimo (temporário)
Encarar (de frente)
Entrar (pra dentro)
Epílogo (final)
Erário (público)
Escolha (opcional)
Estrear (novo)
Estrelas (do céu)
Eu (particularmente)
Exceder (em muito)
Experiência (anterior)
Exultar (de alegria)

F
Fato (real)
Frequentar (constantemente)

G
Ganhar (grátis, de graça)
Goteira (do teto)
Gritar (alto)

H
Há … atrás
Habitat (natural)

I
Individualidade (inigualável)

J
Já… mais (já não faz (mais) isso; não faz mais isso)
Jantar de noite
(Juntamente) com

L
Labaredas (de fogo)
Lançar (novo)
Luzes (acesas) — as lâmpadas é que estão acesas ou apagadas

M
Manter (a mesma)
Medidas extremas (de último caso)
Minha opinião (pessoal)
Monopólio (exclusivo)
Multidão (de pessoas)

N
Número (exato)

O
Obra-prima (principal)
(Outra) alternativa

P
País (do mundo)
Panorama (geral, amplo)
Particularmente (do meu ponto de vista)
Passatempo (passageiro)
(Pequenos) detalhes
Planejar (antecipadamente)
Planos (para o futuro)
Pode (possivelmente ocorrer)
Pôr algo em seu (próprio) lugar
Pôr algo em seu (respectivo) lugar
Preconceito (intolerante)
Prevenir (antes que aconteça)
Propriedade (característica)

Descer pra baixo

R
Relações bilaterais (entre dois países)
Repetir (de novo): se for mais de uma vez
Retroceder (pra trás)
Retornar (de novo)

S
Sair (pra fora)
Sentido (significativo)
Seu (próprio)
Sintomas (indicativos)
Sorriso (nos lábios)
Subir (pra cima)
Sugiro (conjecturalmente)
Superavit (positivo)
Surpresa (inesperada)

T
(Terminantemente) proibido
Todos foram unânimes (Todos indica unanimidade. É melhor: todos concordaram. A decisão foi unânime)
(Totalmente) lotado

U
Última versão (definitiva)

V
Vandalismo (criminoso)
Vereador (da cidade)

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Pulo no escuro

José Horta Manzano

Em maio de 1940, quando as tropas da Alemanha nazista desencadearam a ofensiva a Oeste, atacaram ao mesmo tempo a Bélgica, o Luxemburgo, a Holanda e a França. Em três tempos, botaram pra correr o exército francês, considerado até então um dos mais bem treinados e mais bem equipados do planeta. Em menos de um mês, com os adversários de joelhos, os alemães ocuparam os territórios vencidos e marcharam sobre Paris.

No sufoco, os franceses lembraram de Philippe Pétain, general que já havia salvado o país vinte e poucos anos antes, na guerra de 1914-1918. O velho foi chamado de volta à ativa, depositário da confiança da nação. Ele havia de dar jeito na situação. Entregaram-lhe as rédeas do poder e carta branca pra decidir.

Dia 17 de junho, o rádio transmitiu o discurso do general. A decepção foi amarga. É que as palavras do velho militar não foram exatamente as que o país esperava. Com a voz trêmula justificada por seus 84 anos, ele ordenou que o combate cessasse, que se recolhessem as armas, que cada um voltasse pra casa e que todos aceitassem a ocupação do território pelo exército inimigo. Com um sorriso, se possível.

Não se sabe como teria sido se o poder tivesse sido entregue a outro titular. Não é possível saber como teria sido o que não foi. Assim mesmo, fica a dúvida. Se o combate tivesse prosseguido, será que a França teria amargado quatro anos de ocupação militar?

Estive pensando no caso da Venezuela atual. O país vai mal, muito mal. De repente, surge esse señor Guaidó, jovem e bem-apessoado, com silhueta que lembra vagamente Barack Obama. Tirando o entourage de señor Maduro, não soube de nenhuma restrição que se faça ao desafiante. E olhe que já foi reconhecido como presidente legítimo por 50 governos, incluindo Brasil, EUA, França, Alemanha, Reino Unido, Itália. No entanto, pouco ou nada se sabe de señor Guaidó. Não se sabe quais são suas ideias. Não se conhece sua capacidade de articulação. Não se sabe se tem firmeza de mando. Guaidó ao volante é um pulo no escuro.

Suponhamos que, amanhã ou depois, señor Maduro se sinta abandonado pelos generais, embarque num avião para Uagadugu e desapareça. Como é que fica? É aí que o novo dirigente será testado. Mas não se governa sozinho uma nação do tamanho da Venezuela. Terá de formar governo, pensar na reconstrução do país, mandar escrever nova Constituição ‒ uma série de tarefas espinhosas. Estará capacitado? Terá a envergadura necessária? Para o bem do povo hermano, espero que sim. Tomara que a escolha que fizeram os venezuelanos não os decepcione como a escolha de Pétain desapontou os franceses de 1940.

Bando de cagão

José Horta Manzano

Tinha previsto algum escrito mais ameno pra este domingo. Mas certas notícias deixam de olho arregalado e pedem reação imediata. Não dá pra deixar esfriar.

É de conhecimento de todos que doutor Bolsonaro está de viagem pra Washington para visitar Mister Trump. Até aí, nada de extraordinário. Com as facilidades atuais de transporte, encontros entre chefes de Estado se multiplicam, o que só pode ajudar. O problema, desta vez, é que um dos primeiros-filhos viajou um dia antes pra participar de encontro com duas personalidades. Um deles é senhor Olavo de Carvalho, apresentado como seu guru. O outro é nada menos que Steve Bannon, sulfuroso personagem, um dos maiores desafetos de Donald Trump. Mister Bannon é figurinha carimbada da extrema-direita internacional, ligado a personagens racistas e supremacistas como a francesa Marine Le Pen e o holandês Geert Wilders.

Todos sabem que o clã Bolsonaro age e trabalha em uníssono. Na hora do vamos ver, o presidente tende sistematicamente a tomar o partido dos filhos contra todos os que se situarem ao exterior da família. Já aconteceu até com o superministro Moro, humilhado e obrigado a voltar atrás numa decisão que havia tomado, pra satisfazer ao capricho de um dos bolsonarinhos. Portanto, a presença do primeiro-filho na homenagem prestada a Mr. Bannon equivale à presença do próprio presidente.

Aproveitar da visita a Trump pra se encontrar com um de seus declarados inimigos é descortesia, pra dizer o mínimo. É atitude desajeitada, fruto da falta de traquejo social e político que caracteriza o clã que nos dirige. É um passo que nada agrega de bom. Pior que isso, lança uma sombra sobre a visita presidencial. Seria como se um chefe de Estado estrangeiro, em visita a doutor Bolsonaro, decidisse visitar antes Lula da Silva na cadeia. É tapa na cara que pega mal pra caramba.

Nos EUA com Steve Bannon.
A foto é sugestiva. Para o caso de o governo não vingar, a porta de saída já está preparada lá no fundo.

Nem Mr. Trump ‒ que ninguém acusaria de ser moderado ‒ guardou muito tempo Steve Bannon em seu entourage. Por que raios o clã Bolsonaro faz questão de adotar figura que o próprio ídolo deles já descartou? A pergunta complementar é: por que é que fazem isso em público e à luz do dia?

Agora vamos falar do estranho título deste artigo. Não é de mim, é citação naturalmente. Quem me conhece sabe que sou avesso a palavras de calão. Não fazem o estilo da casa. Citei, no título, uma frase elegante proferida pelo guru do clã Bolsonaro. Falo de senhor Olavo de Carvalho, descrito ora como professor, ora como filósofo, escritor ou pensador. Referindo-se à suposta inação de doutor Bolsonaro quando atingido por críticas, ele disse textualmente: «Ele não reage porque aquele bando de milico que o cerca é tudo um bando de cagão, que tem medo da mídia». Que distinção, não é mesmo?

Fico imaginando um linguajar desse jaez na boca de ilustres filósofos que antecederam senhor Carvalho. De Santo Agostinho a Leibniz, de Descartes a Schopenhauer, não dá pra cogitar algum deles tratando uma classe inteira de cidadãos de «bando de cagão». Em público! Isso está mais pra bêbado boca-suja em conversa de botequim depois das dez da noite.

Na entrevista concedida a jornalistas, o guru foi mais longe e deu diagnóstico taxativo. Disse que, a continuar do jeito que vai, esse governo não dura mais que seis meses. Se realmente o governo for pro espaço, senhor Olavo de Carvalho terá dado contribuição consistente para tal desfecho.

Os palpites do presidente

José Horta Manzano

Presidente da República pode até ter opinião sobre tudo, mas não convém torná-la pública sistematicamente. Na escala social da nação, a posição do presidente não é a de cidadão comum. Assim como tem direitos que nós não temos (imunidade judicial, foro privilegiado, segurança pessoal, palácio pra morar, pensão e transportes grátis), tem um dever de reserva que não nos é imposto.

O distinto leitor e eu podemos, se assim o desejarmos, sair por aí dando nossa opinião e palpite sobre qualquer assunto. Se formos elegantes ou politicamente incorretos, tanto faz, desde que não ultrapassemos os limites da ofensa. O presidente não tem a mesma latitude que nós. Suas palavras têm peso maior e alcance mais amplo. Além do que, o bom senso ensina que o que é mais raro é mais precioso. Quanto menos se exprimir, com mais atenção será escutado.

Nosso caro doutor Bolsonaro, embora estique as asas, ainda não conseguiu alçar voo pra alcançar o trono presidencial. Continua se comportando como se ainda estivesse no baixo clero da Câmara. Diga-se, a seu desagravo, que ele não é o primeiro nessa situação. Todos se lembrarão do Lula, que passou oito anos na presidência se conduzindo como se no botequim da esquina estivesse.

Firme na linha do homem que ainda não vestiu a roupa do cargo, doutor Bolsonaro decidiu opinar sobre… placas de automóvel. Imaginem só, com todos os problemas que temos, o presidente perder tempo dando sua visão de estadista sobre aquela chapa de metal que todo carro leva (ou deveria levar).

Os menos jovens se lembrarão de doutor Itamar Franco, que presidiu esta República faz um quarto de século, nos anos de 1993 e 1994. Ele ficou na história por ter solicitado à Volkswagen que ressuscitasse o Fusquinha, modelo que havia saído de linha em 1986. É o tipo de assunto em que presidente que se preza não deveria meter o bedelho. Doutor Bolsonaro está repetindo a dose. O que é que tem placa de automóvel de tão importante pra entrar nas preocupações presidenciais?

Imagino que o fato de a nova placa se chamar «do Mercosul» e ser comum a meia dúzia de países da região incomode a visão estreita do Planalto. Devem estar achando que uma tal abertura nos faça mergulhar direto num perigoso terceiro-mundismo. Cada bobagem… Alguém precisa explicar àquele gente empacada que a introdução do novo modelo de placa é necessária porque as possibilidades de combinação do modelo antigo estão prestes a esgotar-se. Não é difícil entender, pois não?

Será que, se as novas placas copiassem modelo americano, seriam mais bem aceitas?

As pérolas de doutor Araújo

José Horta Manzano

Cronista que tem doutor Ernesto Araújo no Itamaraty nunca está desamparado. Nosso chanceler se encarrega de preencher a paisagem com pérolas diárias. Seu antecessor mais marcante foi doutor Celso Amorim, o chanceler do Lula, um dos principais responsáveis pela marginalização do Brasil que, sob sua batuta, se afastou do circuito dos países cuja voz é respeitada internacionalmente.

Confesso que, quando o chanceler do Lula saiu de cena, senti um misto de alívio e de apreensão. O alívio vinha do fato de não ser possível imaginar pior desempenho à frente do Itamaraty. A apreensão vinha do sentimento de que aquela folclórica criatura fosse insubstituível. Havia o receio de que, depois dele, não haveria mais do que falar.

O desempenho de doutor Araújo tem causado frustração e consolo. Frustração porque ele nos ensinou que, por mais que a atuação de alguém deixe a desejar, seu sucessor pode ser ainda pior. E consolo porque, pelo menos, temos matéria diária a comentar.

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

Segunda-feira desta semana, doutor Araújo discursou para alunos do Instituto Rio Branco. Discorrendo sobre o comércio exterior brasileiro nas últimas décadas, seguiu raciocínio primário e linear. Disse que a opção de integração com a América Latina, a Europa e o Brics foi equivocada. O doutor se esquece de que, na hora de vender seu peixe, o produtor não escolhe cliente, mas vende àqueles que estiverem dispostos a comprar. Se o Brasil vende soja e minério de ferro à China é porque ela compra e paga o preço. Não há aí nem um suspiro de ideologia.

Continuando na mesma linha de comparar o incomparável, o chanceler lembrou que o Brasil foi o país de mais forte crescimento quando seu principal parceiro eram os EUA. E que, desde que passou a vender à China, estagnou. O argumento é falacioso. O comércio exterior é apenas um dos elementos da economia. Se atrelar a economia nacional à dos EUA levasse a progresso fulgurante, o México ‒ cuja economia está visceralmente ligada à do vizinho do norte, que lhe absorve majoritariamente as exportações ‒ seria a economia mais florescente do planeta. A realidade não é bem essa.

Os óculos de doutor Araújo o fazem enxergar ideologia até em transações comerciais. Dependesse dele, é possível que toda exportação para a China e para a Europa fosse barrada. Felizmente o mundo é bem mais vasto do que as lentes do chanceler permitem ver. Por sorte não compete ao ministro das Relações Exteriores determinar quem pode e quem não pode comprar produtos brasileiros. Assim, nossa pauta de exportação continuará a vender a quem estiver interessado em comprar. E a pagar.

Paranoias presidenciais

José Horta Manzano

Estes dias, doutor Bolsonaro botou as manguinhas de fora. Falou muito e… acabou dizendo alguma coisa. O mais impactante foi quando confessou dormir com arma de fogo ao lado da cama, pronto a enfrentar assombração e assaltante. Encafifado com os serviços de segurança palacianos, comporta-se como todos os que se sentem perseguidos.

Todo governante autoritário tem esse traço de personalidade: mania de perseguição. Paranoia, se preferirem. Nosso presidente ainda não teve tempo de imprimir rumo autoritário a sua gestão. Talvez nunca tenha a ocasião de fazê-lo, o que será melhor pra todos. Assim mesmo, o costume do revólver na cabeceira é revelador. Só falta contratar um provador de comida ‒ aquele que experimenta a refeição que lhe será servida, só pra ter certeza de que não está envenenada.

Além desse pronunciamento, doutor Bolsonaro deu outro, profundo e importante para o futuro do país. Referiu-se a embaixadores do Brasil lotados em postos importantes no exterior. Já se sabia que nosso presidente não é grande admirador da diplomacia. Ficamos agora sabendo que, além de não ser admirador, ele pouco entende do ramo. Não parece ter ideia precisa da função dos que representam o Estado brasileiro no exterior.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O presidente declarou não estar satisfeito com a atuação de vários desses profissionais porque não estariam defendendo com eficiência a reputação do chefe de Estado. Ele se queixa da péssima imagem de que goza no exterior e considera que compete aos diplomatas limparem a má fama. O presidente não se dá conta de que o pessoal diplomático tem mais que fazer do que louvar a figura do chefe. Tampouco se dá conta de que é ele próprio o único responsável pela péssima reputação de que goza no exterior. Não se deve atribuir a terceiros a culpa por nossos erros.

O presidente tem a intenção de afastar uma dúzia de embaixadores importantes e botar, no lugar deles, um grupo de profissionais (que ele julga) afinados com o pensamento do governo atual, mais aptos a apagar incêndios ateados pelo próprio chefe.

Melhor faria o presidente se prevenisse em vez de remediar. No lugar de chamar bombeiros, seria mais simples evitar acender o fogaréu. Mas ‒ que fazer? ‒ há gente que ataca os problemas pelo lado errado.

Brexit ‒ 9

José Horta Manzano

Muito britânico há de estar mordendo a língua por ter votado, em 2016, em favor do Brexit. Ou por não se ter dado ao trabalho de ir votar naquela ocasião. Fato é que o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia se apresenta muito mais complicado do que se podia imaginar. A complexidade da situação surpreende a todos, britânicos e demais europeus.

Faz tempo que a data teórica de conclusão da separação está marcada: será dia 29 de março, daqui a poucos dias. O Reino Unido está numa encalacrada, numa situação assaz desconfortável. Todas as saídas parecem ruins. Theresa May, a primeira-ministra britânica, tem aparecido rouca, com sinais de exaustão. No capítulo mais recente desta desgastante novela, o parlamento britânico rejeitou ontem o acordo de saída que ela havia costurado com Bruxelas. Meses de negociações foram por água abaixo.

Nunca se sabe o que pode acontecer de uma hora para a outra, mas o mais provável é assistirmos a um divórcio seco, sem acordo. Se isso ocorrer, desenha-se um cenário que prejudica a todos. Uma fronteira física será instalada entre a República da Irlanda e a britânica Irlanda do Norte. A circulação de pessoas estará entravada. No Reino Unido, o preço dos produtos europeus subirá devido aos impostos de importação. Controles alfandegários, que haviam desaparecido há mais de 40 anos, voltarão a existir ‒ França e Bélgica, os países mais próximos das Ilhas Britânicas, já estão se preparando para ressuscitar os antigos postos aduaneiros.

Resta a opção de convocar os britânicos a votar de novo, com a esperança de que, desta vez, rejeitem o Brexit. Mas é possibilidade remota. Não se pode votar, votar de novo, e continuar votando até que o resultado seja aquele que se espera. Se houvesse um segundo voto e se o resultado fosse diferente do primeiro, sempre haveria cidadãos a exigir um terceiro voto, depois um quarto, um quinto. Até quando?

Não. A besteira foi feita e é irremediável. Com ou sem acordo, o divórcio se fará. Daqui a vinte ou trinta anos, se a União Europeia ainda estiver de pé, quem sabe o Reino Unido poderá pedir nova filiação. Daqui até lá, é cada um no seu canto. Sem choradeira.

Warum einfach? ‒ 2

José Horta Manzano

Conhece a história daquele sujeito que, tendo encontrado a esposa no sofá da sala com o amante, quebrou o sofá? Pois é, coisas assim também ocorrem na vida real.

Em 2008, numa Venezuela que ainda funcionava, señor Hugo Chávez mandava e desmandava. Num Brasil pré-Lava a Jato, muita gente ainda aplaudia o Lula, então aboletado no Planalto. No intuito de tirar os EUA do dia a dia da América do Sul, os dois mandachuvas concretizaram um velho sonho do pessoal da ala situada mais à esquerda: implantaram a Unasul. A organização, irmã-gêmea da OEA (Organização dos Estados Americanos), congrega todos os países independentes da América do Sul continental. Com uma característica significativa: exclui os Estados Unidos.

Mas o mundo gira e, de lá pra cá, muita coisa mudou. Pra começar, não se tem notícia de que algum benefício gerado pela nova organização possa justificar os gastos de seu orçamento. No palco político, Chávez morreu, a Venezuela foi pro buraco, o Lula mudou-se para a cadeia, a argentina Cristina Kirchner está a um passo da penitenciária, o equatoriano Rafael Correia foi apeado do trono. A base ideológica de sustentação da Unasul entrou em colapso.

No Brasil, na sequência da eleição, um dos filhos do presidente ‒ aquele que é deputado federal ‒ deve presidir a Comissão de Relações Exteriores da Câmara. A ambição do jovem é brilhar no campo internacional. Vai fazer tabelinha com doutor Araújo, ministro da área.

Doutor Eduardo Bolsonaro é aquele que passeou nos EUA levando, enfiado na cabeça, um boné com os dizeres «Trump 2020» ‒ coisa fina. Doutor Araújo é aquele que sonha em transformar nosso país em trepadeira parasita, daquelas que grudam no tronco da árvore maior e sobrevivem sugando-lhe gotas de seiva. (A árvore, o distinto leitor entendeu, são os EUA.) Com os dois à frente de nossa diplomacia, estamos bem arranjados.

O primeiro-filho vai valer-se da força que lhe dá a Comissão de Relações Exteriores para bombardear a Unasul. Pelo que tem declarado, vai agir como o sujeito que quebrou o sofá. Está convencido de que a organização criada por Chávez e pelo Lula é um ninho de perigosos esquerdistas. Pra pôr remédio, não lhe passou pela cabeça recalibrar a contratação e redistribuir as tarefas do pessoal. Prefere desmontar a organização, mandar todos embora, fazer tábula rasa. Em seguida, será erguida nova organização, segundo moldes idênticos aos da atual. Só que, desta vez, sem esquerdistas.

Warum einfach wenn es auch kompliziert geht?
Por que fazer simples, se complicado também funciona?
Máxima alemã

The show goes on

José Horta Manzano

Mas é sem parar! Quando a gente pensa que vão nos dar dois dias de folga ‒ catapimba! ‒ lá vêm eles com nova baciada de barbaridades. Sabíamos que, pra ver o lulopetismo longe dos «negócios», ia ser preciso pagar preço elevado. Mas acho que ninguém imaginava que fosse tão alto assim. Repito: se o bando que nos assaltava continuar afastado, qualquer preço terá valido a pena, por elevado que seja. Mas que está saindo pelos olhos da cara, ah, isso está, compadre. Valha-nos São Benedito!

Embora recentes, o golden shower e a balela de que ‘a democracia é presente dos militares’ já entraram para a história. Saíram da atualidade e são página virada. Vamos em frente, que atrás vem gente. Há futricas novas, saidinhas do forno.

Não contente de se ter mostrado rancoroso e ameaçador para com a Folha de São Paulo logo depois de ser eleito, doutor Bolsonaro resolveu, este fim de semana, engalfinhar-se com o Estadão. A história é obscura. Nela entram um misterioso jornalista francês de nome árabe, uma repórter do Estadão, uma conversa em inglês (editada, ao que parece), um site bolsonarista, um portal francês com forte simpatia pela esquerda tradicional. Um doce pra quem desenrolar esse novelo.

O que interessa não é tanto quem disse o quê. Nem quem está dizendo a verdade. Nem quem está fantasiando. O que chateia é essa contínua lavagem de roupa suja em público, ao vivo e em cores. A manchete do Estadão, o jornal mais conceituado do país há quase 150 anos, é clara: «Bolsonaro usa declaração falsa para atacar imprensa». Eloquente, não é?

Não bastasse essa enormidade, o Planalto nos brinda com um suplemento dominical. Depois de colher o beneplácito do presidente, doutor Vélez Rodríguez, ministro da Educação, decidiu exonerar um de seus secretários. De novo, a história é cabeluda. Há desentendimento entre doutor Bolsonaro, um senhor tido como seu guru, o ministro mencionado, o secretário demitido e mais a torcida organizada do entorno presidencial, cada ala puxando o coro conforme seu ídolo.

É natural que, em início de governo, ocorra algum ajuste aqui e ali, com troca de figurinhas. O que não é natural nem decente é que isso tenha lugar sob a luz dos holofotes, que seja apregoado a quem quiser escutar. E quer saber de uma coisa? Nada indica que, para o futuro, diminuam ocorrências desse tipo. Doutor Bolsonaro ‒ que deveria ser o pêndulo da balança, o sábio, aquele que modera os ardores da macacada ‒ é justamente quem mais sopra as brasas pra atiçar labaredas. Se ele não consegue botar a bola no chão, quem conseguirá? Todo grupo herda um pouco do temperamento do chefe. Podemos ir nos conformando: a poluição da comunicação palaciana tende a durar até o fim do quadriênio.

Aceita um passaporte?

José Horta Manzano

Se o distinto leitor faz parte dos ingênuos que acreditavam que passaporte diplomático é expedido unicamente para diplomatas em missão no exterior, perca as ilusões. Entre os detentores de passaporte diplomático ou oficial, diplomatas são pequena minoria. Na realidade, toda a casta do andar de cima tem direito garantido a receber um desses dois documentos. São milhares de pessoas, que não necessariamente viajam a serviço do país.

Entre outros cidadãos, podem solicitar passaporte diplomático ou oficial os que se enquadrem nas seguintes categorias:

  • Presidente, vice-presidente e governadores
  • Senadores e deputados federais
  • Ministros do STF, do TSJ e do TCU
  • Servidores da administração direta em missão oficial
  • Servidores de todas as autarquias federais e estaduais, ainda que não estejam em missão oficial

Se, aos servidores, adicionarmos mulher e filhos, são muitos milhares de privilegiados.

Um mortal comum tem de pagar mais de 250 reais pelo passaporte normal. Já o documento diplomático que, pela importância simbólica, deveria custar mais caro, sai de graça para o titular. Pagamos nós.

Em se tratando de funcionário não diplomático, o passaporte deveria ser válido pelo tempo que durará a missão. Se, por exemplo, um grupo de deputados viaja à China por dez dias, cada parlamentar deveria receber passaporte válido para a China e por dez dias. Na prática, no entanto, não funciona assim. Os documentos são expedidos com validade de 2 ou até 4 anos, independentemente da duração da missão. Ora vejam!

Tirando diplomatas de carreira, que deixam o país com a família e partem para longas missões, os demais não levam necessariamente familiares. Se decidem levar a família a tiracolo para um giro turístico, isso deveria ser problema deles. Mas nossa administração é generosa. Passaportes diplomáticos ou oficiais válidos por anos são concedidos a granel: ao titular, à esposa, aos filhos e a eventuais dependentes.

Ah, que perca as ilusões também quem tinha esperança de que a chegada de novos parlamentares estreantes fosse pôr freio a esses desequilíbios dignos de outras eras. O Globo informa que, só durante o mês de fevereiro, atendendo à solicitação de Suas Excelências, a Câmara Federal concedeu 78 passaportes diplomáticos a parlamentares mais 77 aos respectivos cônjuges e filhos.

Antes da eleição, é fácil pregar a moralização de práticas tortas. Na hora agá, a conversa muda. Nas trevas dos velhos vícios, ainda não se enxerga luz no fim do túnel.

PS
Passaporte oficial e diplomático não trazem grande vantagem ao titular. Em princípio, permitem furar fila, só que esse costume de dar carteirada é desconhecido em terras mais civilizadas. O que esses passaportes especiais fazem, no fundo, é afagar o ego do detentor. O bobão se sente importante como um potentado africano.

Bolsonaro carnavalizado

Álvaro Costa e Silva (*)

O presidente teria feito melhor se, como no samba clássico “Camisa Amarela”, de Ary Barroso, tivesse bebido um copo d’água com bicarbonato. Ou mesmo desaparecido no turbilhão da galeria.

Carnaval e poder não dão rima. Meu amigo Luiz Antonio Simas, o historiador das “coisas miudinhas”, costuma lembrar dois episódios. Em 1892 o marechal Floriano decretou a transferência da folia para junho, argumentando que o verão era propício a epidemias; naquele ano, brincou-se duas vezes. Em 1912 o marechal Hermes da Fonseca mandou adiar a festa para que não coincidisse com o luto pela morte do barão do Rio Branco; foi pomposamente ignorado.

Bolsonaro levou uma lavada nas ruas. O bonecão com suas feições, mil vezes alvejado por latas de cerveja e pedras de gelo, teve de contratar segurança para descer as ladeiras de Olinda. Nos blocos, nunca antes na história deste país se viu tanta gente fantasiada de laranja. Ou bebendo água em mamadeiras com formato de pênis (fiquei sabendo que um acadêmico já está preparando a tese “A Carnavalização das Fake News”). Registre-se ainda o coro “Ei, Bolsonaro, VTNC”, cantado de norte a sul.

Com enredo de crítica social e em homenagem à vereadora Marielle Franco, a Mangueira mostrou que o samba não se rebaixa. Uma alegoria, em especial, desagradou o presidente: o livro aberto com a frase “Ditadura assassina” escrita em caixa alta.

Bastou para que a Terça Gorda, para Bolsonaro, se transformasse num dia de fúria. Esqueceu que agora é o presidente, voltou aos tempos em que se contentava em atuar como deputado do baixo clero e correu destrambelhado para as redes sociais. Para atacar o Carnaval, cometeu o tuíte pornô, desviando de novo a discussão para a pauta de costumes. Milhões de brasileiros ainda caem nessa. Resta saber até quando.

Uma tuitada pode derrubar um governo? Aguarde as próximas lambanças.

(*) Álvaro Costa e Silva (1962-) é jornalista e escritor.

As bananas do presidente

José Horta Manzano

Um ano atrás, tomei conhecimento de um curioso acordo feito com o Equador, que liberava importação de bananas daquele país. Na ocasião, escrevi um artigo. Depois disso, foi passando o tempo e nunca mais voltei ao assunto.

Ontem, escoltado por dois ministros, o presidente deu conferência. Ao vivo, diga-se. Desprezando modas antigas, preferiu dirigir-se ao povo por rede social, que ninguém segura o progresso. Há quem não aprecie pronunciamento presidencial por tuitada ou feicebucada. Quanto a mim, acredito que o meio é pouco importante, desde que tudo o que tiver de ser dito seja dito. Lá pelas tantas, quando a palestra estava roçando o fim, o presidente se encarregou de trazer o tema da importação de banana de volta à pauta. Os guineos de Ecuador(*) voltaram às manchetes.

Ah, esse presidente! Com tantos problemas que temos, importantes e cruciais, lá vem ele com essa história de importação de bananas. Concordo que, num país como o nosso, importar banana seja aberrante. Assim mesmo, não é razoável incluir essa pauta numa conferência presidencial de escassos 20 minutos. A insistência em falar de assuntos relativamente pouco importantes, que não combinam com pronunciamento presidencial, é aborrecida. Seria até possível imaginar que doutor Bolsonaro, cioso de manter em banho-maria a parte mais crédula de seu eleitorado, afeiçoe temas populistas. Se assim for, é mal menor. Mimar eleitores é obrigação de todo eleito. Só que…

Só que receio que a realidade seja outra. Gostaria que assim não fosse, mas a cada dia me convenço de que, se nosso presidente bate sempre nas mesmas teclas, não é porque queira adular eleitores, mas porque são esses os temas que aprecia e que lhe parecem ter importância capital.

O homem é monomaníaco. Já perceberam que, quando o assunto é sexo, o presidente costuma sair fazendo ‘pelo sinal’? Pois não faz isso pra agradar a ala pudica do eleitorado. Faz porque sinceramente abomina falar ‘nessas coisas’. Quanto ao acordo bananeiro, se tivesse sido concluído com os EUA, é provável que doutor Bolsonaro passasse por cima. Mas ai! Do outro lado, está o Equador. É aí que a máquina emperra. Fica no ar um cheiro muito forte de acordo Sul-Sul, algo que lhe é insuportável.

Tirando mentes primitivas, ninguém, em sã consciência, acredita que a economia brasileira possa sobreviver comerciando somente com países pobres. Mas isso não deve levar ao outro extremo, ou seja, a banir todo entendimento com os hermanos que estão por aí. Há que guardar a cabeça fria. Este ano, as compras de banana equatoriana estão somando menos de 40 mil dólares por mês. É volume ridiculamente modesto, que não merece entrar na fala presidencial.

Doutor Bolsonaro precisa urgentemente de assessores honestos e capazes de lhe mostrar a impropriedade de determinados assuntos. Oxalá um dia ele se compenetre de que é o presidente de todos nós.

(*) O nome banana é amplamente difundido, presente em muitas línguas. Vários países de fala castelhana, no entanto, utilizam o vocábulo plátano, como é o caso da Espanha, da Argentina e do Uruguai.

No Equador, na Colômbia e em mais três ou quatro países da América Latina, a banana é conhecida como guineo, redução de plátano guineo. A palavra lembra que as variedades de banana que cultivamos por aqui não são originárias da América. Elas foram trazidas, pelo colonizador português, da África equatorial e da Ásia tropical. Como temos a galinha d’Angola, o Equador tem a banana da Guiné.

Polícia do Pensamento Único

José Horta Manzano

Doutor Moro engoliu um enorme sapo estes dias. Vamos resumir o drama. Embora pouco se divulgue sobre essas instâncias, o Executivo está rodeado de quase 50 diferentes grupos de aconselhamento. São conselhos, comitês ou colegiados compostos por figuras da ‘sociedade civil’, como se costuma dizer. Em princípio, a ideia é boa. Trata-se de esforço, iniciado 80 anos atrás e reforçado nas últimas décadas, de trazer a ‘voz do povo’ pra perto do presidente.

Certos conselhos têm poder regulatório – editam normas com força de lei. Outros são meramente consultivos e se limitam a sugerir o bom caminho. Todos eles são compostos de personalidades livremente nomeadas pelo presidente em pessoa ou por seus ministros. Para redesenhar o colegiado do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, órgão que está sob responsabilidade do Ministério da Justiça, doutor Moro reservou um lugar de suplente a uma senhora de nome desconhecido deste blogueiro e, mui provavelmente, também do distinto leitor. Parece que a nomeada nutre simpatia pelas ideias de esquerda. Sempre alerta, a Polícia do Pensamento Único teve conhecimento disso e saltou sobre a ocasião. O primeiro-filho tratou de açular as redes sociais para amplificarem veemente protesto.

Limitado pela costumeira dificuldade de sopesar e avaliar as consequências de seus atos, doutor Bolsonaro cedeu aos apelos filiais e determinou que a nova integrante fosse ‘desconvidada’. Onde é que já se viu incluir num conselho uma voz dissidente? Conselheiro só é bom se der os conselhos que a gente quer ouvir, ora essa! Num surpreendente acesso de humildade, doutor Moro aquiesceu. A moça foi dispensada antes de assumir. Os bolsonarinhos hão de ter entrado em êxtase com o reforço de poder que o pai lhes garantiu. Já o Brasil não tem motivos pra pavonear.

O país saltou da panela pro fogo – é como minha avó descreveria a situação. Cansados de guerra, os brasileiros decidiram mandar pra casa o lulopetismo e sua coorte de trambiques e rapinas. De fato, estava mais que na hora. No entanto, pra pôr no lugar, quem estava à mão é doutor Bolsonaro, desconhecido do grande público. Se não se pode chegar ao extremo de suspirar que o regime antigo era melhor, há que constatar que o atual tem deixado a desejar. Até o mais fanático adepto do bolsonarismo, se intelectualmente honesto for, concordará. Há muito chiado na linha.

Perguntar não ofende: se todos os integrantes de cada grupo de aconselhamento tiverem visão uniforme, seja qual for o fato, pra que serve o grupo? Se todo debate de ideias é vedado, abrindo alas para o pensamento único, melhor será dissolver todos os conselhos e mandar todo esse pessoal pra casa. Economiza-se no pagamento de jetons.

Mas nem tudo é ruim. Felizmente contamos com doutor Hamilton Mourão, o vice-presidente. O homem tem boa formação, cultura acima da média palaciana e, sobretudo, bom senso. Tendo sido eleito pelo povo em dobradinha com o titular, não é ministro. Não deve explicações a ninguém e é indemissível. Em mostra explícita de equilíbrio, declarou à revista Valor Econômico que, com o sapo engolido por doutor Moro, o Brasil é que sai perdendo. Doutor Mourão tem a (rara) qualidade de falar claro. Dá nome aos bois. Disse que esse tipo de política é nefasto para o Brasil. Você perde todas as vezes em que não se puder sentar ao redor da mesa com interlocutor que professe ideia divergente da sua – foi a essência do que declarou.

Ainda bem que temos pelo menos uma voz discordante em palácio. Nem tudo está perdido.

Intolerância religiosa

José Horta Manzano

Num rabicho de Carnaval, à falta de notícia mais importante, a imprensa dá conta da grita que se levantou na Câmara Federal contra os Gaviões da Fiel. Por meio de seus líderes, a bancada evangélica fez saber sua indignação com o tema escolhido por aquela escola para animar o desfile este ano. A letra, com alusões a Jesus e a Satanás, chocou. Não entendi bem o que foi que incomodou, se as referências feitas a Jesus ou as que foram feitas a Satanás. Quem sabe o que arranhou mesmo o pudor de suas excelências foi a convivência dos dois personagens no mesmo ritmo.

Talvez fosse importante recordar aos parlamentares ofendidos que a base da filosofia de toda igreja é exatamente a dualidade entre o bem o mal. Todas as religiões, seitas e outros movimentos espirituais se propõem a propagar a melhor receita para resolver o embate entre esses dois polos. Os Gaviões não inventaram a pólvora. O bem e o mal convivem na vida nossa de cada dia. Ver seus símbolos assim, confrontados, não deveria ser matéria pra chocar ninguém.

O episódio, que ainda pode dar pano pra mangas e gerar até processo, é comprovação eloquente de que vivemos uma época de diluição de valores. A Polícia de Costumes está nas ruas, tesoura em punho, censurando o que entende e principalmente o que não entende. Hoje em dia, dependendo da pinta do galã, um assobio pode ser enquadrado como assédio sexual. Sons de samba-enredo ecoam até no Congresso Nacional – e geram manifestação de iracundos deputados. É um mundo de ponta-cabeça. Não se conhece mais o valor de cada mercadoria. Banana está sendo comprada por preço de caviar.

Que saudades dos tempos em que Carnaval era apenas Carnaval. Que saudades dos tempos em que se dava a cada fato apenas a importância que tem. Ao acusar os foliões de “intolerância religiosa”, a bancada evangélica não se dá conta do papel ridículo. Estão a inverter conceitos. Os intolerantes são justamente os senhores deputados! Os carnavalescos podem ser tratados de levianos, de irreverentes, até de apóstatas, mas não de intolerantes. As acusações estão invertidas.

Saudades dos tempos em que se podia berrar Alá-la-ô sem que ninguém se sentisse incomodado. Saudades dos tempos em que uma marchinha podia explicar à moça casadoira que se havia enganado de endereço, e que seria melhor bater à porta de Santo Antônio. Saudades dos tempos em que irreverência carnavalesca ficava por isso mesmo, e tudo bem. Será que essa página despreocupada foi virada para sempre? Será que o Brasil ingênuo se transformou numa gigantesca seita?