Pleonasmos: relação em ordem alfabética

Dad Squarisi (*)

A novela é antiga como o rascunho da Bíblia. A prova está na etimologia da palavra. Pleonasmo vem do grego. Lá e cá mantém o significado. É a redundância de termos, a superabundância. Como sobremesa em excesso, enjoa. É o caso de subir pra cima, descer para baixo, entrar pra dentro, sair pra fora. Só se entra pra dentro, só se sai pra fora, só se sobe pra cima, só se desce pra baixo. Entrar, sair, subir e descer são suficientes. Dão o recado. Exemplos de abusos não faltam. São tantos que os apresentamos em ordem alfabética. Como livrar-se do desperdício? É fácil. Basta tirar a palavra que está entre parênteses.

A
Abertura (inaugural)
Abusar (demais)
Acabamento (final)
(Ainda) continua, se mantém
Além…(também)
Almirante (da Marinha)
Alvo (certo)
Amanhecer (o dia)
Assessor direto (não existe indireto)
A seu critério (pessoal)
Avançar (pra frente)
A razão é (porque)

B
Brigadeiro (da Aeronáutica)

C
Cale (a boca). Diga “cale-se”.
Certeza (absoluta)
Colaborar (com uma ajuda)
Comparecer (pessoalmente)
Com (absoluta) correção
Como (por exemplo)
Compartilhar (conosco)
(Completamente) vazio
Comprovadamente (certo)
Consenso (geral)
Continua a (permanecer)
Continua (ainda)
Conviver (junto) com
Criar (novo)

D
(Demasiadamente) excessivo
Descer (pra baixo)
Destaque (excepcional)
De sua (livre) escolha
Detalhes (minuciosos)

Subir pra cima
by Mysticlolly, desenhista francesa

E
Elo (de ligação)
Em duas metades (iguais)
Empréstimo (temporário)
Encarar (de frente)
Entrar (pra dentro)
Epílogo (final)
Erário (público)
Escolha (opcional)
Estrear (novo)
Estrelas (do céu)
Eu (particularmente)
Exceder (em muito)
Experiência (anterior)
Exultar (de alegria)

F
Fato (real)
Frequentar (constantemente)

G
Ganhar (grátis, de graça)
Goteira (do teto)
Gritar (alto)

H
Há … atrás
Habitat (natural)

I
Individualidade (inigualável)

J
Já… mais (já não faz (mais) isso; não faz mais isso)
Jantar de noite
(Juntamente) com

L
Labaredas (de fogo)
Lançar (novo)
Luzes (acesas) — as lâmpadas é que estão acesas ou apagadas

M
Manter (a mesma)
Medidas extremas (de último caso)
Minha opinião (pessoal)
Monopólio (exclusivo)
Multidão (de pessoas)

N
Número (exato)

O
Obra-prima (principal)
(Outra) alternativa

P
País (do mundo)
Panorama (geral, amplo)
Particularmente (do meu ponto de vista)
Passatempo (passageiro)
(Pequenos) detalhes
Planejar (antecipadamente)
Planos (para o futuro)
Pode (possivelmente ocorrer)
Pôr algo em seu (próprio) lugar
Pôr algo em seu (respectivo) lugar
Preconceito (intolerante)
Prevenir (antes que aconteça)
Propriedade (característica)

Descer pra baixo

R
Relações bilaterais (entre dois países)
Repetir (de novo): se for mais de uma vez
Retroceder (pra trás)
Retornar (de novo)

S
Sair (pra fora)
Sentido (significativo)
Seu (próprio)
Sintomas (indicativos)
Sorriso (nos lábios)
Subir (pra cima)
Sugiro (conjecturalmente)
Superavit (positivo)
Surpresa (inesperada)

T
(Terminantemente) proibido
Todos foram unânimes (Todos indica unanimidade. É melhor: todos concordaram. A decisão foi unânime)
(Totalmente) lotado

U
Última versão (definitiva)

V
Vandalismo (criminoso)
Vereador (da cidade)

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Lágrimas de crocodilo

José Horta Manzano

Letras 1Discurso da presidenta é um perigo. Principalmente se for feito de improviso. E piora quando não há grande coisa a dizer – como costuma acontecer. A boa cidade de João Pessoa teve direito a uma amostra estes dias.

Todos sabem que dona Dilma peleja com a língua portuguesa. A briga é constante. O problema maior da fala da mandatária é a falta de coerência do discurso, que deixa no ar a suspeita de que seu pensamento também seja falho de lógica.

Boulet 1Há um trecho digno de nota. É quando madame declara que: «Esse país também precisa encarar de frente a questão da igualdade racial.» Temos aí três problemas.

Primeiro, o problema da convivência racial – amplificado pelos companheiros, por razões eleitoreiras. Continuar soprando sobre brasas não é a melhor solução.

Segundo, um problema de convivência pronominal. Esse país? Que país? A presidente deve ter-se enganado. Aposto que ela se referia a este país.

Terceiro, um problema pleonástico. Sua Excelência falou em encarar de frente. Como é que é? E a alguém viria a ideia de encarar de costas, presidente? Esse é parente de ver com os olhos e de entrar pra dentro.

Crocodilo 1Há mais. A meu ver, o pior foi a comprovação de que o discurso presidencial é vazio, são palavras ao vento, sem eira nem beira. Vejam como foi.

Numa tentativa de surfar na onda do momento, madame evocou aquele infeliz bebê resgatado sem vida numa praia turca. Afirmou que o menino morreu porque «os países» criaram barreiras para refugiados. Nessa altura, faltou o gesto de grandeza – ninguém pode dar o que não tem.

Dona Dilma ateve-se a acusar «os países», totalmente esquecida de que ela preside um deles. Com a mente colonizada pela influência de seus correligionários, botou a culpa nos outros, como é hábito entre seus companheiros.

Faz mais de quatro anos que dona Dilma preside este país. Digo bem: este. A guerra civil já dura anos na Síria. Que se saiba, nossa mandatária não mexeu uma palha para acolher famílias de refugiados.

Refugiados sírios segundo a contagem da Agência da ONU para refugiados

Refugiados sírios segundo a contagem da Agência da ONU para refugiados

Derramar lágrimas agora e, levianamente, acusar «os países» de negar refúgio a perseguidos soa hipócrita e demagógico.

Terminado o discurso de João Pessoa, como é que fica? Constrói-se uma passarela para acolher famílias sírias? Ou vira-se a página e fica tudo como estava antes?

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PS: Para almas tolerantes que tiverem a pachorra, o site oficial do planalto publicou o discurso da mandatária. Na íntegra.