As passeatas de antigamente

José Horta Manzano

Houve uma época, não faz tanto tempo assim, em que opinião política se manifestava no grito. Na rua, de preferência. Havia quem chamasse de passeata; alguns diziam desfile; outros preferiam protesto. Faixa, megafone, cartaz, palavras de ordem eram de rigor. Por fim, o mais importante de tudo: a cor da indumentária. Aquela maré humana, principalmente fotografada do alto, não teria o mesmo encanto se não estivessem todos uniformizados. Boné, camiseta e bermuda respeitavam o código.

Manifestações assim sempre houve. Foi um lulopetismo desmascarado por mensalões e petrolões que cuidou de dar relevo a elas. Quando a seita já caminhava para o fim, multidões de aluguel vestiram o vermelho das bandeiras progressistas enquanto uma maré de gente se apresentou de verde-amarelo. Era o bom senso nacional despachando os vermelhinhos pra fora da pista.

A roda gira. Desfiles, passeatas e protestos andam meio fora de moda. Palavras de ordem (palavrões?) não saem mais de megafones, mas brotam de redes associais. Mas palavras não têm cor. Onde foi parar a alegre paleta dos velhos dias?

Ela hoje está à porta do palácio presidencial, contida num cercadinho destinado a amestrados prontos a aplaudir o que Seu Mestre disser. Os vermelhinhos sumiram, e os figurantes se vestem de verde-amarelo. É manifestação unívoca, sem contestação possível, senão… «Cala a boca!».

Tudo estaria na santa paz, só que Seu Mestre só diz besteiras. As enormidades presidenciais vêm em modo mesa de pizzaria quando proferidas ao vivo, e em modo balcão de boteco quando são ditas em ambiente restrito. Quem quiser mostrar desagrado e não estiver disposto a escrever palavrão nas redes teria caminho certo: organizar contramanifestação. Só que vai enfrentar um problema espinhoso. A turma do ódio é que trocou o vermelho pelo verde-amarelo. Portanto, que cor o cidadão equilibrado deve vestir?

Está explicado o porquê do silêncio das ruas. Por um lado, a ala do bom senso não se anima a soltar palavrão pela internet. Por outro, dado que o verde-amarelo foi parar em mãos indevidas, gente fina está hesitando em manifestar nas ruas. Tá complicado, parceiro.

Théâtre de l’absurde

José Horta Manzano

O mui sério e prestigioso Le Monde, de Paris, dedicou o editorial de ontem a um retrato das barbaridades que se cometem no Planalto nestes tempos de pandemia, coisas do arco-da-velha, de deixar qualquer europeu de cabelo em pé. Aqui vai um fragmento.

«Les heures sombres que traverse le Brésil rappellent celles de la dictature militaire, quand le pays était soumis à la peur et à l’arbitraire. Avec une différence de taille: alors que les généraux revendiquaient la défense d’une démocratie attaquée, selon eux, par le communisme, le Brésil de Bolsonaro habite un monde parallèle, un théâtre de l’absurde où les faits et la réalité n’existent plus. Dans cet univers sous tension, nourri de calomnies, d’incohérences et de provocations mortifères, l’opinion se polarise sur une nuée d’idées simples mais fausses.

A force de tricher avec les faits, les gouvernants populistes finissent par croire à leurs propres mensonges. On le voit ailleurs dans le monde. Mais ici, dans ce pays sorti voici à peine vingt-cinq ans de la dictature, où la démocratie reste fragile, voire dysfonctionnelle, le fait de politiser ainsi une crise sanitaire à outrance est totalement irresponsable.»

Le Monde, 18 maio 2020 – Editorial

«As horas sombrias que o Brasil atravessa lembram as da ditadura militar, quando o país estava subjugado pelo medo e pelo arbítrio. Com uma notável diferença: enquanto os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, segundo eles, pelo comunismo, o Brasil de Bolsonaro habita num mundo paralelo, num teatro do absurdo onde os fatos e a realidade deixam de existir. Nesse universo tenso, alimentado por calúnias, incoerências e provocações funestas, a opinião se polariza sobre um amontoado de ideias simples mas falsas.

De tanto trapacear com os fatos, governos populistas acabam acreditando nas próprias mentiras. Vê-se isso no mundo todo. Mas aqui, num país que se livrou da ditadura há apenas vinte e cinco anos, onde a democracia continua frágil – se não disfuncional –, o fato de politizar em exagero uma crise sanitária é totalmente irresponsável.»

Abrindo fronteiras?

José Horta Manzano

O decréscimo de virulência da covid-19 permite a países europeus programar a reabertura de fronteiras. Por definição, fronteira é uma linha arbitrária fixada para separar dois Estados. Para fechá-la, basta a decisão de um deles: se a estrada estiver barrada por vontade de um dos lados, ninguém passa. Já para abrir, precisa que ambos os países estejam de acordo. Dito assim, parece fácil de entender. Na prática, pode ser um pouco mais complicado.

No fim de semana que passou, um curioso desentendido se estabeleceu entre a Suíça e a Itália, vizinhos de parede. Há que saber que a linha que separa os dois países, com 740km de extensão, é a mais longa fronteira externa das 6 com que conta a Itália, e também a mais longa das 5 com que conta a Suíça. Ela é cortada por uma dezena de estradas de ferro e várias dezenas de estradas de rodagem – sem mencionar os incontáveis caminhos, trilhas e passagens a pé.

A fronteira está fechada há dois meses. É compreensível: cada país já estava sobrecarregado com a pandemia no próprio território e não desejava importar mais doença. Passado o pico do contágio, vai chegando a hora de reabrir as passagens. Faz alguns dias, a Suíça anunciou que, em 15 de junho, liberaria a fronteira com a Alemanha, a França e a Áustria; a Itália, país mais gravemente infectado, ficou pra mais tarde.

Fronteira entre Chiasso (Suíça) e Como (Itália)

No entanto, este fim de semana, o governo de Roma subitamente informou que todas as fronteiras da Itália serão reabertas dia 3 de junho. Desapercebidos de que toda fronteira tem necessariamente dois lados, não consultaram os vizinhos. Ofendido, o governo suíço já avisou que mantém o que havia decidido: nenhuma abertura antes de 15 de junho.

Armou-se uma situação curiosa. O governo suíço não se opõe ao desejo de quem quiser sair do país em direção à Itália, já que a fronteira está aberta do lado de lá. Logo, sair pode, o que não pode é voltar. Portanto, a partir de 3 de junho, quem quiser cruzar a fronteira no sentido Suíça-Itália pode fazê-lo livremente. No entanto, quem quiser voltar vai encontrar portão fechado até segunda ordem.

Taí o que se chama viagem sem volta. Atenção, turista incauto, quem avisa, amigo é!

Cloroquina – 2

José Horta Manzano

Primeiro
A cloroquina (vendida sob o nome comercial Plaquinol) estava, até outro dia, em venda livre nas farmácias do país, sem obrigação de apresentar receita médica. Continua disponível, embora seja obrigatório apresentar receita.

Segundo
Todo médico está livre de escolher o melhor tratamento para o paciente, desde que aja debaixo do Juramento de Hipócrates e nos limites das leis do país.

Considerando que as duas premissas estejam corretas, tenho dificuldade em entender o objeto do decreto que doutor Bolsonaro queria (ainda quer?) assinar «liberando o uso da cloroquina» para tratamento da covid-19. (Assinou?)

Vendida para tratamento da malária, a cloroquina já está liberada há séculos. Já faz tempo que todos os médicos estão livres de utilizá-la. De todo modo, não cabe ao presidente dar orientação terapêutica à profissão; seria aberrante. Portanto, a grita do medalhão é metafórica e inócua. Não passa de esperneio.

Comunicar Bolsonaro?

José Horta Manzano

Manchete do Estadão, 16 maio 2020

Com muita frequência, vê-se o verbo comunicar empregado como transitivo direto. Na acepção de ‘dar informação a alguém’, não funciona assim. Quem escreveu a chamada estava pensando no verbo informar – e copiou-lhe a regência. Enganou-se.

Quem comunica, comunica algo a alguém. Esse alguém é objeto indireto, introduzido pela preposição a. Portanto: «… comunica a Bolsonaro … ».

Pra substituir o cerimonioso comunicar, por que não usar simplesmente informar ou avisar? São verbos de todos os dias, fáceis de usar e de entender, e dão o recado certinho. Ficaria assim: «Celso de Mello manda oficial de justiça avisar Bolsonaro…» ou «Celso de Mello manda oficial de justiça informar Bolsonaro…». Pronto: simples e sem erro.

Generosa, a língua põe ainda outros verbos à disposição: notificar, cientificar, prevenir. Dado que todos eles pedem objeto direto, a frase ficaria como aparece no jornal. Há ainda o verbo participar, só que ele, como comunicar, pede objeto indireto.

Vizinhos de parede

José Horta Manzano

Os franceses, cujo território faz fronteira com o Amapá, acompanham com preocupação a progressão da covid-19 em território amapaense.

Saint-Georges de l’Oyapock

É que a localidade francesa de Saint Georges, situada bem em frente à brasileira Oiapoque (AP), do outro lado do rio, é um foco de infecção. Dos poucos casos confirmados da doença em toda a Guiana francesa, 90% são provenientes do vilarejo fronteiriço, povoado por apenas 2500 almas.

Por que confinar?

José Horta Manzano

Se o confinamento foi imposto na maioria dos países da Europa, não foi pra castigar ninguém, mas pra preservar o sistema nacional de saúde. E funcionou. Quanto mais cedo foi instaurado, menor foi a taxa de mortalidade. Na maioria dos países, visto que a curva de contágio entortou pra baixo, o desconfinamento gradual já começou.

No início da pandemia, o governo do Reino Unido foi reticente, o que significou um baita escorregão para o país, que virou um caso à parte. Boris Johnson chegou a debochar do perigo ao dizer que continuava, sim, apertando a mão de muita gente. Deu no que deu. O figurão apanhou a covid-19, deu entrada no hospital, foi tratado na UTI, quase empacotou – parece até que foi castigo. Quando, finalmente, instauraram o confinamento, o contágio já corria solto. Como resultado, a epidemia foi lá mais grave do que na maioria dos vizinhos.

O Brasil vive uma situação peculiar. O sistema nacional integrado de saúde (SUS) convive com um sistema paralelo de asseguradoras privadas (convênios), que asseguram, grosso modo, os mesmos riscos. O resultado é sui-generis: boa parte dos brasileiros são sobreassegurados (=overassured, surassurés). Sustentam, do próprio bolso, dois sistemas concorrentes. Pra quem olha do exterior, parece um despropósito, um desperdício. Afinal, apesar de pagar dois sistemas, o cidadão só recorre a um deles de cada vez. Desse modo, terá pago o outro por nada. A meu conhecimento, nenhum país rico procede assim. No entanto, pensando bem, se ninguém reclama, é porque devem estar satisfeitos.

Seja como for, que se considere o SUS ou as seguradoras privadas, no frigir dos ovos, a capacidade de atendimento hospitalar será sempre o resultado da soma dos dois sistemas. Portanto, o princípio que compeliu outros países a decretarem confinamento da população vale também para o Brasil. O objetivo é preservar o(s) sistema(s) de saúde. É afligente que doutor Bolsonaro não tenha entendido isso.

Os exames do presidente

José Horta Manzano

A divulgação dos exames que o presidente fez para detectar coronavírus desconforta os brasileiros aflitos. Responde a dúvidas, mas leva a reflexões.

Era verdade
Já em março, este blogueiro tinha levantado a hipótese de que doutor Bolsonaro pudesse ter sido infectado pelo vírus e que, após ingerir comprimidos de Plaquinol (=cloroquina), estivesse atribuindo sua cura a essa molécula. O esperneio destas últimas semanas confirma amplamente a hipótese, se não da cloroquina, pelo menos da contaminação. Tivessem os testes de março dado resultado negativo, teriam sido publicados imediatamente. E com orgulho de “atleta” invulnerável. Não vieram a público então, o que nos permite duvidar da veracidade dos que acabam de sair. Quem é que já não viu atestado falso assinado por médico de verdade? Quando é para o presidente, então, deve ter fila pra assinar.

Numeração
Uma semana atrás, escrevi um artigo sobre a estranha propensão presidencial de numerar as pessoas de seu entorno. Considerando que seus quatro filhos homens já ocupam as primeiras posições (01, 02, 03 e 04), eu estava curioso de saber que número o doutor teria reservado para si. Seria talvez 00? Não era. O teste do coronavírus (que ele jura ter dado negativo) revela que o capitão, como bom chefe de clã, põe os filhos à frente. Um dos laudos foi feito sob o “codinome” 05. Brasil acima de tudo e a famiglia acima de todos! –, que ninguém é trouxa.

O Estadão não hesitou: mandou brasa.

Sinônimos?
Palavras parecidas nem sempre são perfeitamente sinônimas. Há várias maneiras de designar um nome inventado. Pode ser pseudônimo, apelido, alcunha, apodo, nick – sem contar variedades eruditas como heterônimo, epíteto, cognome, alônimo, criptônimo ou o assustador onomatópose. Há ainda o curioso codinome, cunhado a partir do inglês code + name = nome de código. Cada falante escolhe as palavras que prefere, mas é bom tomar cuidado com codinome. Nos anos 1970, esse termo estava muito em voga pra designar terroristas. De doutora Dilma, afirma-se ter usado diferentes codinomes, entre eles Wanda e Iolanda. Se puder evitar, evite. A menos que esteja se referindo a organização criminosa. (Há quem jure haver uma, instalada no Planalto.)

Estabilidade monetária

José Horta Manzano

A confiança inspirada por um país se mede pela estabilidade de seus atributos e de suas instituições. Quanto menos mudanças de regime houver, quanto menor for a inflação, quanto menos conflitos internos e externos surgirem, mais estável e confiável será a nação. A estabilidade monetária é termômetro significativo.

Poucos são os países cuja moeda tem história mais que centenária. O Reino Unido conta com a moeda mais antiga ainda em circulação. A história da libra esterlina se perde na névoa do passado. A última modificação importante ocorreu em 1971. Naquele ano, para desagrado de muitos ingleses, a subdivisão da libra, que já durava um milênio, foi alterada. Da divisão em 20 shillings de 12 pence cada um, a libra passou a ser declinada na cartilha decimal. Notas e moedas emitidas anteriormente foram pouco a pouco retiradas do circuito. Como resultado, nenhuma moeda anterior a 1971 continua em circulação.

Moeda suíça de 20 centavos ‒ anverso (ou coroa)

O Brasil, desde a independência, sobreviveu a nada menos que doze reformas monetárias, sete das quais entre 1986 e 1994. A cada vez, notas e moedas foram tiradas de circulação e substituídas. O período que vivemos desde 1994 é excepcional em nossa movimentada história monetária.

Nesse particular, a história das moedas suíças ocupa lugar singular. O franco suíço foi criado em 1850. A última modificação das moedas, que se restringiu à aparência, ocorreu nos anos 1870. De lá pra cá, embora a liga metálica se tenha modificado ‒ principalmente devido à penúria de certos metais durante as grandes guerras ‒, o aspecto delas permanece idêntico. Na aparência, nada distingue moedas do século 19, 20 ou 21.

O distinto leitor há de se espantar, mas garanto-lhe que, na Suíça, ainda circulam moedinhas cunhadas no século 19. Têm aparência idêntica às atuais e absoluta validade legal. Por terem sido muito manuseadas, algumas aparecem visivelmente gastas, meio lisas. No entanto, outras, talvez por terem dormido por décadas nalgum cofrinho ou nalguma gaveta, têm o mesmo aspecto das atuais.

Moedas suíças ‒ verso (ou cara)
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Como sou curioso e gosto de antiguidades, costumo verificar a data de cunhagem das moedas, principalmente as de 10 e as de 20 centavos. Somente as que têm mais de 40, 45 anos me interessam. Com o tempo, fui juntando uma pequena coleção. As moedas que ilustram este artigo fazem parte dela. Nenhuma foi comprada em loja de numismática. Foram todas recebidas por mim como troco em lojas e supermercados.

É um bocado emocionante ter nas mãos uma moedinha feita 130 anos atrás e imaginar sua história. Por quantas mãos terá passado? Quem terão sido os possuidores? Que mercadorias terão sido pagas com ela? Terão sido perdidas, encontradas? Ah, se as moedas falassem…

Nota
Ainda hoje, procurando bem, encontram-se moedas da primeira metade do século 20. Dos anos 1800, está cada dia mais raro.

Publicado originalmente em 4 jul° 2017.

As muletas de cada um

José Horta Manzano

Tem muita gente que, pra falar, precisa de muleta. Isso não é exclusividade nossa; em outras terras ocorre fenômeno idêntico. Não sei se já foi feita alguma estatística sobre o assunto, mas acredito que “né?” seja a mais usada. Um “né?” aqui, outro ali, todos costumamos usar. Mas tem gente que não consegue terminar uma frase sem acrescentar a muletinha. Fica a impressão de que o sujeito não tem certeza de ter sido entendido, daí o “né?”.

Outros dizem “entendeu?”, muleta tamanho família, de três sílabas. Muito comum em certas regiões do país é terminar frases com “uai”, muletinha graciosa que sempre me fez lembrar um porquê inglês “why?”.

Os dois presidentes mais marcantes deste século no Brasil também pontuam suas frases, cada um a seu modo. Lula da Silva não soltava duas frases sem terminar com um “sabe?”. Já doutor Bolsonaro mostra nítida preferência pelo “talquei?”. Embora a expressão preferida de cada um deles varie (sabe x talquei), a informação é a mesma: tanto o antigo quanto o atual chefe do Executivo deixam transparecer insegurança.

Quem solta um “sabe?” está pedindo confirmação do interlocutor. O mesmo vale para quem diz “talquei?”. Ambas as muletinhas são perguntas. Quem pergunta, implicitamente espera resposta, de preferência simpática. Quem tem certeza do que está afirmando, simplesmente afirma, sem acrescentar perguntinha no final.

É interessante como a gente acaba descobrindo traços da personalidade alheia. No fundo, somos todos como o gato que se esconde mas deixa o rabo de fora.

Não nos representa

José Horta Manzano

Não gosto nem desgosto de Regina Duarte. Pra mim, como dizia minha avó, a moça não fede nem cheira. Lembro vagamente de alguma cena de tevê em que ela aparecia, trinta anos atrás. Mais nada.

Fiquei surpreso quando soube que ela tinha aceitado o cargo de Secretária da Cultura. Me pareceu decisão arriscada visto o contexto. Por um lado, concordava em ser sucessora daquele destrambelhado aprendiz de nazista; por outro, ia trabalhar sob as ordens de doutor Bolsonaro, que é outro perturbado. Imaginei que daí não saísse nada de bom. Parece que não está saindo mesmo.

É de hoje a notícia de um coletivo de mais de 500 artistas que acaba de lançar manifesto contra a secretária da Cultura. Em 150 palavras veementes, o grupo repudia o comportamento da moça quando de recente entrevista a uma emissora de televisão. Parece que ela andou pondo as manguinhas de fora. O manifesto termina com a frase choque: «Ela não nos representa».

Faço coro com os artistas que se declaram contrários a todas as mazelas do governo atual. No entanto, o protesto deles sofre de um mal de nascença: a secretária da Cultura, assim como todos os seus colegas ministros e secretários, não estão lá para representar ninguém.

Em nosso sistema político, os representantes do povo são os parlamentares, que são eleitos exatamente para essa função. Ministros e secretários são auxiliares pessoais e diretos do presidente da República, que tem o direito de os escolher e de os demitir ad nutum(*).

Portanto, não faz sentido apontar o dedo para a secretária e dizer que ela «não nos representa». A moça não está lá pra representar ninguém. A função dela é pôr em prática a política de seu chefe, o presidente. É a este senhor que toda reclamação tem de ser dirigida.

(*) Ad nutum é expressão latina. A tradução literal é ‘com aceno de cabeça’. Vem daí nosso verbo anuir (=consentir, autorizar). Usa-se essa locução adverbial para indicar uma decisão instantânea, fruto de poder absoluto e discricionário.

No caso presente, ad nutum informa que o mandato de ministros e secretários é revogável a qualquer momento, bastando para isso um simbólico “aceno de cabeça” do presidente.

Teu nome não nega

José Horta Manzano

Faz um mês, o Correio Braziliense publicou artigo meu intitulado Bolsonaro: um nome predestinado. Nele eu conto que, do ponto de vista etimológico, o sobrenome de nosso presidente pertence ao universo das armas e da guerra. A palavra ‘bolzón’ dá nome a dois artefatos bélicos medievais: indica tanto um aríete (peça usada pra arrombar portal de cidade fortificada), quanto uma atiradeira de flechas (que chamamos arbaleta ou bestilha).

Um dos editoriais do Estadão deste sábado traz outra informação interessante. Revela que um grupelho de brucutus apoiadores de doutor Bolsonaro, que age sob a etiqueta de ‘300 do Brasil’, está acampado nos arredores da Praça dos Três Poderes com a ideia de invadir Congresso e STF. Um dos chefes da ameaça de assalto às instituições da República chama-se Marcelo Stachin, expoente da campanha de formação do futuro partido do presidente – Aliança pelo Brasil.

O moço também tem sobrenome de origem italiana que combina bem com o entorno em que navega. Stachin (pronuncie Staquín) é palavra do dialeto piemontês (Turim). Em italiano padrão diz-se birro ou sbirro – termos usados quase sempre com valor depreciativo. Stachin designa o agente policial cruel ou também o capanga de um governo despótico. Em nossa língua, a forma esbirro, de mesmo significado, está aportuguezada e dicionarizada há muito tempo.

O rapaz carrega sobrenome feito sob medida.

O guia

José Horta Manzano

Neste 8 de maio, a Europa celebra o 75° aniversário da rendição da Alemanha, que marcou o fim da Segunda Guerra em terras europeias. Para ver o término definitivo do conflito, seria preciso esperar a capitulação(*) do Japão, que só ocorreria quatro meses mais tarde.

Estes dias, visto que a epidemia de covid-19 arrefece, rádios e tevês voltam a transmitir programação habitual. Entre outras emissões, mostram filmes, relatos e debates sobre as semanas que antecederam o fim da guerra.

Ainda que hoje seja difícil acreditar, o regime nazista fanatizou toda a população da Alemanha. O mais fanático de todos era o Führer (=Guia) Adolf Hitler. Convencido de ser Deus na Terra, estava certo de que, sem ele, o povo alemão não sobreviveria. Para manter-se no comando supremo, estava disposto a sacrificar o povo – como de fato fez. A destruição do país só foi suspensa quando não havia praticamente mais nada a destruir.

Apesar de sentir um calafrio, não pude me impedir de comparar a situação da Alemanha de 1945 com a do Brasil de 2020 – resguardadas as devidas proporções, naturalmente. São momentos em que o povo se encontra sob o jugo de um tirano de poucas letras, fanático, autoritário e surdo a todo chamamento da razão. Ambos os ‘guias’, tanto o alemão quanto o brasileiro, sacrificariam o próprio povo em defesa de seus interesses pessoais.

Para sorte nossa, a comparação pára por aqui. A Alemanha, descuidada, havia conferido todos os poderes a seu guia; quando se deu conta de que caminhavam para o desastre, era tarde demais. O Brasil, para nosso alívio, tem instituições que condividem o poder com o ‘guia’; em outras palavras : temos rédeas pra domar os ardores do potro chucro.

(*) Costuma-se usar as palavras capitulação e rendição como sinônimas. No duro, não são sinônimas perfeitas.

Capitulação é rendição condicional. O exército que perdeu entrega as armas amparado por um acerto feito previamente com o vencedor. Esses acordos costumam ter cláusulas – capítulos –, daí o verbo capitular. Foi o que aconteceu entre os EUA e o Japão em 1945.

Rendição incondicional é a expressão que se usa quando não há acordo. O perdedor simplesmente entrega as armas porque já não tem força suficiente para impor condições. Foi o que aconteceu em 1945 entre a Alemanha e as potências vencedoras.

Confinamento light

José Horta Manzano

A Suíça é um país federal. Cada cantão tem ciúmes da própria autonomia, visto que ela lhe concede ampla liberdade em muitos aspectos da vida administrativa. Tanto o Estado central quanto os cantões costumam respeitar essa independência; cada parte evita se meter nos assuntos da outra.

No final de fevereiro, quando a ameaça do coronavírus ribombou, ficou claro que teriam de ser tomadas medidas urgentes para limitar a propagação da epidemia. Uma dúvida surgiu: deixar que cada cantão cuidasse de sua jurisdição ou centralizar as decisões? A primeira opção poderia resultar numa desordem geral, cada cantão optando por diretivas diferentes. Já a segunda parecia mais estruturada, mas feria a sacrossanta autonomia regional. Como fazer?

Numa decisão fora dos padrões, o governo federal optou por centralizar a orientação. Ainda que de nariz torcido, os cantões acompanharam. O governo, confiante no espírito disciplinado do povo, achou desnecessário decretar confinamento rigoroso como o de países vizinhos (França e Itália).

Dia 16 de março, comércio e escolas fecharam. Empresas de serviço que recebem público também tiveram de parar de trabalhar. Continuaram funcionando os comércios essenciais: supermercados, farmácias, lojas de comida para animais de companhia.

As empresas que podiam instauraram o teletrabalho. As demais – construção civil, por exemplo – tiveram de parar porque não havia meios de respeitar a distanciação social. Os transportes públicos continuaram funcionando, ainda que em ritmo reduzido. As ruas esvaziaram, pois ninguém tinha para onde ir. Deu para ouvir passarinhos cantando, coisa comum nesta época do ano, mas difícil de perceber nas cidades maiores.

Trompa alpina (Alphorn), instrumento nacional suíço

Nos primeiros dias, um movimento de pânico se instalou. Como se o país se preparasse a entrar em guerra, o povo tomou de assalto os supermercados e acabou com determinados artigos. Ovos, farinha, fermento, papel higiênico e papel toalha sumiram. As gôndolas de enlatados ficaram com espaços vazios. Parece que o pessoal tinha mais medo de morrer de fome do que de contrair a doença.

Semana passada, começou o desconfinamento. Vai por etapas. Cabeleireiros e terapeutas já podem trabalhar, paramentados com luva e máscara, e munidos de álcool em gel. Semana que vem, escolas começam a receber a criançada e o comércio abre. Festivais, manifestações esportivas e outros ajuntamentos vão ter de esperar mais um pouquinho. Para esses casos, ainda não há previsão de autorização.

Tanto o governo federal quanto as administrações cantonais foram generosas para com os que ficaram sem emprego. Os pequenos empresários que perderam faturamento também não foram esquecidos. Medidas pontuais foram adotadas para paliar o problema de cada um.

Ninguém sabe até quando a população vai continuar com medo de contágio. Imagino que, por um bom tempo, a vida será diferente do que era antes. O mundo só voltará ao que costumava ser no dia em que encontrarem uma vacina contra esse mal. Antes disso, uma inocente tossidinha será capaz de esvaziar um ônibus inteiro.

Dabelou seven

José Horta Manzano

Nos anos 1960, surgiram os filmes de James Bond. O intérprete que apareceu nas primeiras fitas e deu vida ao personagem foi o escocês Sean Connery, galã de 1,90m que contracenou com beldades esculturais. O contexto da Guerra Fria era pano de fundo propício para histórias de espionagem. O agente secreto 007 – dabelou seven, na pronúncia original – bisbilhotava o mundo a serviço de Sua Majestade, a rainha da Inglaterra.

Lembro-me de uma cena bizarra de uma daquelas películas. O nome do filme agora me escapa; pode bem ser Thunderball (1965), aquele que, no Brasil, recebeu o longo e desgracioso título de 007 Contra a Chantagem Atômica.

A certa altura, reúnem-se os integrantes de uma organização criminosa. Serão entre 15 e 20 em volta de uma espécie de mesa baixa. Do chefe, não se vê o rosto, só se percebe que ele afaga obsessivamente um gato persa branco sentado no seu colo. O mandachuva não chama os integrantes da pequena assembleia pelo nome, mas por número. São todos numerados: o 05, o 03, o 09 e assim por diante. Presume-se que o dono do gato seja o 01. A cena acaba trágicamente, com dois participantes sendo precipitados, com cadeira e tudo, para dentro de minicrateras abertas repentinamente.

Eram histórias de ação, empolgantes, emocionantes, mas… não passavam de historietas de cinema. Não era pra levar a sério. Eu, por exemplo, não levei. Só me ficou uma informação: em facções e organizações criminosas, é praxe os participantes serem numerados.

Acredito que nosso presidente, adolescente à época, tenha se entusiasmado demais da conta com essa história de numerar gente. Deixou-se impregnar de tal maneira que guardou o curioso costume até hoje. De fato, não se refere aos filhos pelo nome, mas por número. Não está claro o porquê de ele se sentir à vontade numa família numerada. Gosto pela matemática? Identificação com a secta do filme de James Bond? Fica o mistério no ar.

Observação
Segunda-feira passada, naquela conversa amena em que, com elegância, mandou jornalistas calarem a boca, nosso presidente deixou claro que a numeração das pessoas não se restringe ao clã. Referindo-se às mudanças na chefia da PF do Rio, revelou que havia convidado um determinado senhor “para ser o zero dois”.

Resta saber qual é o número que o doutor reservou para si. Visto que, na famiglia, a numeração está toda tomada, sobrou o 00 (= o dabelou). Cai bem para o doutor. Os anos vazios de sua gestão cobrarão a conta. A história, que é cruel, guardará desta presidência de intrigas uma lembrança próxima do zero. Zero à esquerda.

O presidente e o golpe

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 maio 2020.

Uma bela tarde de 2010, Lula da Silva subiu ao palanque de Dilma Rousseff, então candidata à Presidência. Deitaram ambos copioso falatório. Com palavras agressivas, criticaram a imprensa, a oposição, os jornalistas. Ridicularizaram os opositores e desclassificaram os que não pensavam como eles. A intenção não era expor propostas de governo – desse assunto pouco ou nada se falou. O propósito maior era demolir tudo e todos que estivessem do outro lado da imaginária linha do nós x eles.

Lá pelas tantas, Lula ousou: «Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública!». Um atrevimento. Era a confirmação explícita dos eflúvios absolutistas embutidos na ideologia lulopetista. Àquela época, a repercussão da palavra presidencial era modesta. Internet não tinha o alcance nem o vigor de hoje. Além disso, dois mandatos tinham deixado claro que não se podia levar a sério as bravatas do chefe. Por causa disso, a história de ‘nós somos a opinião pública’ morreu ali, sem direito a debates nem análises. A frase teve o destino inglório que deveriam ter todas as falas inconsequentes: foi para a lata do lixo.

Ironicamente, o socorro do Brasil acabou vindo da absoluta inépcia da presidenta. A doutora tanto forçou, que a corda arrebentou. Com isso, seu mandato foi para o beleléu. Com o impeachment, conseguimos estancar a escalada do besteirol presidencial e da rapina orquestrada.

Nas eleições de 2018, o contragolpe tinha de vir. E veio violento. Já durante a campanha, Jair Bolsonaro lançou sinais anunciadores de como seria sua presidência, mas ninguém ligou. O cenário já se podia até entrever quando o candidato soltou um tuíte estranho: “Nosso partido é o povo!”. Estava anunciada a inclinação populista da gestão que estava por vir, espécie de lulopetismo de sinais trocados. Na época, ninguém calculou qual seria a extensão do drama.

Foto: Uol/Folha

O que tinha de acontecer, aconteceu. O candidato esquisito, incapaz de expor o próprio programa, foi eleito. Não há milagre: candidato esquisito tende a exercer governo esquisito. Seu programa, de tão vago, não se consegue até hoje decifrar; más línguas dizem que a única diretiva é manter o poder a todo custo. No intuito de preencher os vazios e desviar a atenção do que interessa, o Planalto nos inunda de ruídos periféricos, slogans, falatório e palavras de ordem. Essa colcha de retalhos traz mensagens desconexas e discordantes. O que hoje é, amanhã poderá deixar de ser. O que se diz agora pode acabar desmentido logo mais.

Embevecido com a atenção que prestam a seu palavrório, o presidente se sente livre e cria asas. Diz o que lhe passa pela cabeça. Lança palavras ao ventilador. A cada rodada, o tom sobe e as palavras ganham força e vigor. A plateia acompanha. Uns se sentem indignados; outros, nauseados; alguns ainda, encantados. Analistas tentam encontrar sentido onde não há lógica. Põem-se a refletir sobre o significado profundo; buscam entrever mensagem criptada; tentam ponderar o que não tem nexo. É inútil. Um único recado é claro e inequívoco: doutor Bolsonaro não enjeitaria iniciar, aos 65 anos, carreira de ditador; afora isso, não há que remexer mais fundo. O zigue-zague presidencial é uma não tática.

Sabemos todos que o desejo do doutor não se realizará. Primeiro, porque nossas instituições funcionam; em seguida, porque uma reforma súbita e radical do regime não interessa às elites que realmente detêm o poder. Não estamos mais em 1964. A ameaça vermelha, então real, hoje só sobrevive na imaginação de mentes anacrônicas. Golpe e refundação do regime é ruim para todos. Nos negócios, trava o bom andamento; nas Forças Armadas, embaralha promoções; nas exportações, gera boicote; na vida do cidadão comum, instala ambiente de desconfiança. Em resumo, atrapalha muito mais do que ajuda. Portanto, pra serenar ânimos e garantir sossego, o melhor favor que a mídia séria pode fazer ao país é baixar a bola e dar à fanfarronice presidencial a importância que ela merece, ou seja: nenhuma.