Língua complicada

José Horta Manzano

Você sabia?

Por razões históricas, a representação gráfica dos diferentes falares humanos não é uniforme. Há línguas que se valem de ideogramas, como o chinês. O japonês usa um sistema complexo, com silabário e ideogramas. (Silabário é um sistema de escrita com um sinal gráfico para cada sílaba.)

A maioria das línguas escritas utilizam um alfabeto. Há dezenas deles. Em alguns casos, o alfabeto reflete os sons e as nuances da língua para a qual foi especialmente criado. Não é nosso caso.

Nossa língua herdou um alfabeto concebido para outra língua. Os escribas medievais foram obrigados a inventar letras, sinais e combinações para representar sons que não existiam no latim e para os quais não havia letras específicas.

Essa é a razão pela qual nossa escrita nem sempre bate com a fala. Escrevemos de um jeito e lemos de outro. A mesma letra pode ter mais de um som. Ao contrário, um único som pode ser representado de maneiras diferentes.

No português atual, uma única letra pode indicar até cinco(!) pronúncias diferentes. A letra ‘x’ é o exemplo maior. Soará como ‘ch’ em enxurrada, como ‘z’ em exame, como ‘s’ em excluir, como ‘ks’ em fixo. E será muda em excelente.

Por outro lado, o som ‘ch’ pode ser representado de três diferentes maneiras. Em acho, é indicado por ‘ch’. Em eixo, por ‘x’. E em este (na pronúncia carioca e nordestina), é representado por ‘s’.

Embora nem sempre nos demos conta, há numerosos casos de sons múltiplos representados por uma única letra. Cada um dos dois ‘aa’ de cama indica um som diferente. O ‘e’ de chover não se pronuncia como o ‘e’ de mulher. O mesmo se dá com o ‘o’ de moça e o ‘o’ de roça.

Tem mais. O primeiro e o segundo ‘d’ de dedinho não soam da mesma maneira. O mesmo vale para os dois ‘d’ de cidade e para os dois ‘t’ de tomate. O ‘u’ de muito é nasal, enquanto o de cuido não é.

Não nos atrapalha ver a nasalização de vogais assinalada pela letra que vem a seguir ― geralmente um ‘m’ ou um ‘n’. Assim, o ‘a’ de cano, o ‘e’ de então, o ‘u’ de mundo têm som nasal.

Por razões alheias à gramática, não nos importa que a pronúncia de certas letras seja contrariada. Ao ler a palavra Mercosul, por exemplo, ninguém respeita o que está escrito (Mercozul); dizemos todos Mercossul. Fica criada mais uma função para o ‘s’ intervocálico.

Que fazer? A cavalo dado, não se olha o dente. O alfabeto que temos nos foi legado. Temos de usá-lo como é.

Escrita khmer

Escrita khmer

A língua khmer, da família das austro-asiáticas, é falada por 13 milhões de indivíduos distribuídos entre Camboja, Vietnam e Tailândia. Sua particularidade é ter o alfabeto mais sortido do planeta: são 72 letras. Entre elas, 32 vogais. Dá três vezes nosso abecedário! Em compensação, parece que a gramática é bastante simples. Uff! Melhor assim.

Só para apimentar: acaba de me ocorrer que a língua francesa tem por volta de quarenta maneiras de escrever o singelo som ‘o’. O, ot, od, hau, au, eau, ho, aux, aud são algumas delas. Há mais algumas dezenas.

Pensando bem, não podemos reclamar. Até que tivemos sorte.

Publicado originalmente em 20 jul° 2014.

Fugir para a Arábia?

José Horta Manzano

Todo o mundo já sabe, mas não custa repetir para que fique bem claro: o maior pavor do capitão é a cadeia. Por certo, essa não é a preocupação maior nem do distinto leitor nem deste escriba. Mas o capitão arrasta um passado complicado. Ele deve conhecer os motivos pra tanto medo.

Em diversas ocasiões, ele já bradou que ninguém jamais o tiraria do palácio e que nunca iria preso. A contradição da primeira parte de sua profecia já está aí: vai sair do palácio sim, senhor. Falta a segunda parte. Minha avó dizia: “Quem não deve, não teme”. Por que será que ele teme – e treme?

As especulações correm soltas sobre uma eventual fuga de Bolsonaro para o exterior. Não será simples. Se decidir seguir esse caminho em busca de asilo, terá de escolher um país com o qual o Brasil não mantém tratado de extradição.

Uma fuga para um país governado por dirigente autoritário de extrema-direita pode ser uma opção. A Hungria ou a Polônia, por exemplo. Mas… e se o governo de lá mudar de cor política amanhã e anular o asilo, como é que fica? Bora fugir de novo de mala e cuia?

Reinos, sultanatos e emirados do Oriente Médio são outra opção. Por lá, o risco de mudança de regime é quase inexistente. Mas… não deve ser fácil ter de passar o resto da vida numa bolha de ar condicionado, com samambaias artificiais, rodeado de deserto por todos os lados, com temperatura externa próxima de 50 graus. Tem quem aguente: Juan Carlos, que foi rei da Espanha, envolveu-se há dois anos num escândalo de corrupção e refugiou-se no emirado de Abu Dabi. Está lá até hoje.

O site Metrópoles informa que os filhos n°01 e n°03 do presidente estiveram na embaixada da Itália em Brasília terça-feira passada para tentar apressar o processo de reconhecimento da cidadania italiana para o clã. Entrevistado, o filho mais velho disse que deram início ao processo em 2019. Não explicou a razão da súbita pressa em ver o fim do túnel.

É permitido especular que, longe de cogitar uma aposentadoria na gelada Hungria ou no escaldante Oriente Médio, Bolsonaro esteja de olho na obtenção do passaporte italiano para dar o fora daqui. Num primeiro momento, até que parece boa ideia, mas o porto não é tão seguro como ele está imaginando.

Aconteceu não faz dez anos. Nos tempos em que a Lava a Jato comia feio, um senhor chamado Henrique Pizzolato, diretor de marketing do Banco do Brasil, encontrava-se em situação semelhante à do capitão hoje: era alvo da justiça brasileira e possuía dupla nacionalidade – italiana e brasileira. Às vésperas de ser preso, fugiu para a Itália.

Despistou a PF, saiu em direção à Argentina e de lá tomou avião para a Itália. Imaginou-se para sempre a salvo. Estava enganado. Quando souberam de seu paradeiro, as autoridades judiciárias de Brasília requereram sua extradição. Pizzolato tinha confundido a lei brasileira com a lei italiana. Imaginou que, como o Brasil, a Itália não extraditasse seus nacionais. Não é bem assim que funciona.

A lei italiana não impede a extradição de cidadãos do país. Com base no Acordo de Extradição firmado entre a Itália e o Brasil em 1989, cada caso será estudado individualmente. O fujão permaneceu dois anos na Península enquanto a batalha judicial corria solta. Num primeiro momento, sua extradição foi negada pela justiça italiana. O Brasil entrou com recurso, o caso foi para Roma, e a Corte de Apelação finalmente concedeu a extradição. Com o rabo entre as pernas, Pizzolato foi trazido pela PF a Brasília. De jatinho. Do aeroporto, foi direto para a Papuda purgar sua pena.

Se você, distinto leitor, for íntimo do clã do (ainda) presidente, procure fazer chegar este recado à família: “Lembrem-se do Pizzolato!”.

Se fugir já é uma vergonha, imagine só o que deve ser fugir, ser apanhado e trazido de volta pela PF. Vexame supremo! O capitão não vai querer arriscar. Ou vai?

Na ilustração, o avião que trouxe Henrique Pizzolato de volta para o Brasil.

Pregando botões

José Horta Manzano

Você sabia?

Você provavelmente já reparou que, nas camisas masculinas, os botões são pregados do lado direito, enquanto nas blusas femininas ficam do lado esquerdo. Se não tinha notado, preste atenção. É regra universal, que reúne ocidente e oriente, norte e sul.

Faz décadas que especialistas e curiosos se debruçam na busca das origens desse curioso costume. Qual a razão dessa diferença? E por que botão de homem fica à direita e não à esquerda – e vice-versa?

Ninguém sabe ao certo. Mas há numerosas teorias, algumas arrancadas a fórceps. Aqui estão algumas delas.

Napoleão
Napoleão Bonaparte, imperador da França, deixou-se retratar naquela conhecida pose, com a mão direita enfiada debaixo da camisa entreaberta. Dizem uns que ele sofria de úlcera, daí aquele gesto de quem tenta proteger a região dolorida. Dizem outros que, naquela época, o gesto era considerado marca de dignidade. Ao ficar sabendo que mulheres zombavam de sua postura, deu ordem para que todas as roupas femininas passassem a levar botões pregados do outro lado, assim as mulheres não poderiam mais imitar-lhe a pose. Esta explicação é bastante fantasiosa.

Feminismo
A diferença na localização dos botões seria consequência de uma onda de feminismo surgida no século 19, que havia de desembocar nas suffragettes do início do século 20, aquelas senhoras que gastavam sola de sapato ao protestar em Londres e Nova York exigindo o direito de votar. Os botões pregados à esquerda seriam uma marca de independência, de diferença entre os sexos. Esta explicação também parece ser de difícil comprovação.

Armas
Até uns 200 anos atrás, era comum os homens portarem arma. (O costume caiu em obsolescência, mas chegamos a ter um presidente que tentou ressuscitá-lo.) Dado que a maioria dos humanos usa preferencialmente a mão direita para segurar a espada, os botões da camisa masculina eram pregados do lado direito, o que facilitaria desabotoar a camisa com a mão esquerda. Confesso que não entendi bem o que tem a ver a espada com a camisa desabotoada. Mas fica aqui registrada uma das hipóteses – que não parece ser a mais plausível.

Amamentação
Uma outra teoria especula que, dado que a maioria das mulheres é destra, elas tendem a segurar a criança com o braço esquerdo na hora de amamentar. Os botões pregados à esquerda serão abertos com maior facilidade pela mão direita, que está livre. Esta teoria até que não parece irreal.

Equitação
Até o século 19, na hora de andar a cavalo, a mulher montava à amazona, com as duas pernas do lado direito do animal. Acredita-se que, cavalgando numa posição em que o vento chegava pelo lado esquerdo, os botões pregados à esquerda preservassem a saúde feminina ao proteger-lhe o busto de toda friagem.

Classe alta
De todas, esta hipótese parece a mais credível. Nos tempos de antigamente, a indumentária das mulheres ricas era sofisticada a ponto de a patroa precisar da ajuda de uma serviçal para vestir-se. Dado que a maioria das criadas era destra, o fato de pregar os botões à esquerda facilita o vestir e o despir. A teoria até que parece aceitável, só que tem um nó. O que vale para as ricaças daquela época vale também para os ricaços. Também eles costumavam ter um lacaio para ajudá-los a se vestir. Nesse caso, como é que fica? Só contratavam serviçais canhotos?

No fundo, talvez não cheguemos nunca a conhecer a origem dessa curiosa regra que, nos dias de hoje, bate de frente com a almejada igualdade de sexos. (Ou de gêneros, como convém dizer agora.)

Bibliografia:
Slate 
New York Post

The Sun

Today
 
Marquise

ScoopWhoop

 

Virando a página

by Luciano “Kayser” Vargas (1970-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

No Brasil, ainda se ouve o eco das reclamações dos que ficaram desagradados com o resultado da eleição. Ainda tem gente imitando o guru Roberto Jefferson e jogando paus e pedras na polícia. E até dando tiros de revólver contra a força pública. A razão é que esses inconformados pressentem que dificilmente poderão contar de novo com um extremista na Presidência. O pesadelo (chamado de “sonho” por bandidos, garimpeiros selvagens, madeireiros ilegais, grileiros, milicianos e ingênuos) acabou.

Esse estropício que está de saída do Planalto conseguiu chegar lá em 2018 porque ninguém tinha a medida do que poderia ser um indivíduo nazi-fascista sentado no trono. Ninguém tinha nunca convivido com um. Agora todos sabem. É por isso que, pelas próximas décadas, é de duvidar que outro espécime da mesma laia seja eleito. Nem ele, nem uma imitação.

No Brasil, ainda pipoca aqui e ali uma notícia de rodapé sobre aqueles agrupamentos de gente embandeirada zanzando de um lado pro outro como se estivessem todos em estado de transe coletiva, a chorar o messias naufragado. Já no estrangeiro, Bolsonaro e seus devotos são página virada. O Brasil agora é mencionado em relação à COP27 e, cada vez mais, em relação à Copa.

O canal de informação contínua France Info se alegra de ver o Brasil de retorno à COP27(*) e lamenta que a China de Xi Jinping esteja ausente.

France Info

O sueco Nyheter 24 também se enche de esperança ao mencionar a presença de Lula na Conferência Climática. Diz textualmente:

“A recente vitória de Luiz Inácio “Lula” da Silva nas eleições presidenciais brasileiras é vista como um possível ponto de inflexão na luta pelo cumprimento das metas climáticas globais. Com o negacionista climático Jair Bolsonaro no poder, as florestas tropicais vitais da Amazônia foram desmatadas a um ritmo acelerado – o que Lula diz querer parar.”

Nyheter 24

O inglês The Guardian anuncia que o Brasil, a Indonésia e o Congo estão em tratativas para formar uma aliança estratégica para a conservação da floresta úmida. O novo clube, que reúne mais de 50% da floresta equatorial, já recebeu o apelido de “OPEP das Florestas Tropicais”, em alusão à Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

The Guardian

A edição alemã do site esportivo GOAL escolheu outro tema. Publica artigo sobre o fervor com que a Seleção canta o hino nacional. Lembra que, na Copa de 2014, o público presente no estádio continuava a cantar a cappella quando os 90 segundos regulamentares permitidos pela Fifa para cada hino se esgotavam e o acompanhamento musical silenciava.

Para completar, o artigo conta a história de nosso hino e traz a versão alemã da letra – com todos os versos. E inclui ainda um vídeo de um jogo de 2014 com o estádio inteiro cantando de pé. Era uma época em que vestir-se de amarelo significava apenas ser um cidadão direito, não de extrema-direita.

Goal (deutsche Ausgabe)

(*) COP = Conference of the Parties (Conferência das Partes). Na verdade, o nome em inglês é Climate Change Conference (Conferência de Mudanças Climáticas). No entanto, a sequência CCC foi abandonada visto que, na língua inglesa, a sigla já tinha mil e uma utilidades.

Na política dos EUA dos anos 1930:
Civilian Conservation Corps

Nos negócios:
Cash Conversion Cycle

Nos aplicativos de mensagem:
Coricidin Cough and Cold

Na escola:
Community Classroom Collaborative

Na administração californiana:
California Conservation Corps

Na área de saúde:
Clinical Competency Committee

Na temática LGBT:
Classic Closet Case

Vai passar a faixa?

José Horta Manzano

Está fervendo a especulação sobre como será a cerimônia de 1° de janeiro 2023. Afinal, Bolsonaro vai passar a faixa ao sucessor? Passa ou não passa?

Do capitão, pode-se esperar tudo, inclusive o pior. Portanto, é bom ir com calma nas expectativas. Faltam quase dois meses para o dia da transmissão de poder – uma eternidade, quando se trata de personalidade instável.

Sabe-se que o espantalho maior do (ainda) presidente é a prisão. No momento em que descer a rampa, voltará a ser um cidadão comum, sujeito a chuvas e trovoadas como qualquer um de nós. Só que ele carrega uma baciada de processos, e nós não. E ele sabe que tem um armário cheio de esqueletos.

Para o 1° de janeiro, há a solução de deixar o país, encarregar o vice de entregar a faixa a Lula, e só voltar alguns dias depois. Parece simples, mas há um perigo.

Os mais antigos talvez se lembrem do que aconteceu em 1998 com o general Pinochet, que tinha sido ditador do Chile. Aos 83 anos, já retirado da vida política, ele estava de passagem em Londres para tratamento de saúde. Para sua surpresa, foi um dia despertado no hospital pela polícia inglesa. Recebeu voz de prisão.

É que um persistente juiz espanhol tinha pedido ao governo inglês que concedesse extradição do ex-ditador para ser julgado na Espanha. O velho Pinochet passou 503 dias em prisão domiciliar, até que o governo britânico o liberou por motivos humanitários depois de ele sofrer um AVC e ficar meio gagá.

Com o caminhão de acusações que carrega, seria temerário Bolsonaro se aventurar no exterior depois de ter perdido a imunidade presidencial. Ao redor do planeta, muitos juízes estão à espera desse momento para mandar prendê-lo e despachá-lo ao Tribunal Penal Internacional.

Resta a opção de engolir o orgulho e passar a faixa ao sucessor. Seria a melhor solução. Todos vão apreciar, tanto o público interno quanto o internacional. O Brasil transmitirá uma imagem de democracia normal e amadurecida em que ex-presidentes não saem pela porta dos fundos.

Já o futuro do capitão, em matéria internacional, parece delicado. Fosse ele, eu evitaria pôr os pés fora do território nacional, seja qual for a razão, seja qual for o destino. Lá fora, pode até surgir um juiz zeloso que peça sua prisão preventiva. Nunca se sabe.

Os avatares e o hino

Eduardo Affonso (*)

Segundo sua lógica peculiar, os avatares amarelos e embandeirados estão lutando por democracia enquanto clamam por um golpe contra o Estado Democrático.

Cantam o hino nacional como se fosse uma canção do Carlinhos Brown, sem dar bola para a letra.

  • Se iluminam com “o sol da liberdade, em raios fúlgidos“, ao mesmo tempo que “autorizam” uma ditadura.
  • Exaltam “o penhor dessa igualdade”, querendo impor sua vontade à maioria.
  • Falam “de amor e de esperança” e dá-lhe violência para bloquear estradas e tentar disseminar o caos.
  • Passam por “nossos bosques têm mais vida” como se nada tivessem a ver com desmatamento, garimpo ilegal, desmonte do Inpe.
  • Não se vexam de entoar “se ergues da justiça a clava forte” enquanto erguem a clava forte contra a Justiça.
  • E pulam a “paz no futuro” para focar numa suposta “glória no passado”.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. O presente texto é parte de artigo de 5 nov° 2022.

Liberdade de expressão: até onde?

Assembleia Nacional francesa

José Horta Manzano

Dois dias atrás registrou-se um incidente grave na Assembleia Nacional da França (que corresponde a nossa Câmara Federal). Ao microfone, um deputado pedia esclarecimentos ao governo sobre um navio pertencente a uma ong, que vagava pelo Mediterrâneo em busca de um porto europeu que acolhesse os migrantes que ele trazia a bordo.

De repente, ouve-se o grito de um deputado vindo do outro lado do anfiteatro. Muito erodida foneticamente, a língua francesa propicia o aparecimento de homófonos, palavras que soam igual mas têm significados diferentes. A frase que se ouviu foi:

   Qu’ils retournent en Afrique!
= Que eles voltem para a África!

Acontece que Monsieur Bilongo, o deputado que denunciava o descaso para com o navio, é preto de cor. Francês, nascido na França, legitimamente eleito pelo povo, mas… preto. Tendo em mente esse importante detalhe, boa parte dos parlamentares interpretou a frase como:

   Qu’il retourne en Afrique!
= Que ele volte para a África!

As duas frases se pronunciam exatamente da mesma maneira. Só o contexto faz a diferença. Dado que a frase era solta, sem contexto, a dúvida ficou. Nesta segunda opção, o contestador estaria se dirigindo pessoalmente ao discursante, criando assim um contexto de ofensa racial.

O escândalo se instalou entre os parlamentares. A revolta foi grande, todos se levantaram e falavam alto ao mesmo tempo. A presidente da câmara foi obrigada a encerrar a sessão. O caso ficou de ser levado ao comitê disciplinar, que decidirá o tipo de sanção a adotar.

Os apoiadores do partido do deputado ofensor (de extrema-direita) são os únicos que não viram nada de mais no comportamento dele. Os outros – de esquerda, centro e direita – se dividem entre os que acreditam que a frase foi dita no plural e os que juram que ela foi pronunciada no singular, numa ofensa direta ao discursante negro.

Seja como for, singular ou plural, não é frase que se pronuncie na Assembleia Nacional. O comitê da Câmara não tem poder para cassar o mandato do deputado, mas pode condená-lo a uma suspensão temporária com perda de salário.

Esse acontecimento deixa no ar uma dúvida interessante. Em 2023, diversos estreantes se instalarão Congresso Nacional, em Brasília. Boa parte deles professa ideologia sabidamente de extrema-direita, com valores de exclusão de diferentes grupos, seja por razões étnicas, sexuais, religiosas, territoriais & afins.

No Brasil, não temos problemas imigratórios que possam gerar xenofobia. Mais dia, menos dia, um dos noviços vai derrapar e ofender pesadamente alguma minoria, seguindo a cartilha do capitão. Como vão então reagir seus pares? Vão denunciar e adotar uma sanção? Ou simplesmente vão deixar pra lá, incitando outros parlamentares a se pronunciarem com virulência cada vez maior?

Observação
Escutei meia dúzia de vezes o vídeo do episódio. Minha conclusão é ainda pior. Não distingo o “que” inicial. O que ouço é:

“Retourne en Afrique!”

É frase no imperativo, sem homofonia possível. Se assim for, significa:

Volta pra África!

Só faltou acrescentar “seu vagabundo”.

Naturalmente meus velhos ouvidos podem me enganar.

Breaking news
A Comissão de Ética da Assembleia Nacional Francesa impôs ao autor da interpelação racista a pena mais rigorosa de seu arsenal: interdição de presença durante as próximas 15 sessões do parlamento. Além disso, o salário do deputado será cortado pela metade durante dois meses. Pra coroar, a penalidade será ficará registrada para sempre nos anais da República.

Trata-se de sanção raríssima. Nos últimos 65 anos, é a segunda vez que um parlamentar recebe penalidade tão pesada. No futuro, todos vão pensar duas vezes antes de soltar ofensas.

As viúvas de Bolsonaro

José Horta Manzano

 


Visão de mundo das carpideiras do mito defunto


 

Entre os dois turnos da eleição, Bolsonaro já havia deixado clara sua visão do povo brasileiro. Foi quando insinuou que o Nordeste era povoado por analfabetos e ignorantes, razão pela qual votam no Lula.

Traduzindo o pensamento transcendente de Seu Mestre, deduz-se que os brasileiros não são todos iguais. Por um lado, há os que votaram no “mito”, cidadãos letrados e inteligentes cujo voto deveria valer mais que o dos outros. Por outro, há os que preferiram Lula, cidadãos de segunda classe cujo voto teria de ser impedido a qualquer custo.

A declaração do presidente deu sinal verde para as blitzes efetuadas no Nordeste pela PRF no dia do segundo turno. O objetivo era impedir que cidadãos de segunda classe se aproximassem da urna eletrônica. Pode até ser que milhares de eleitores tenham sido mandados de volta pra casa naquele dia, talvez se descubra um dia.

Outra consequência da senha lançada por Seu Mestre afetou o bom funcionamento do país inteiro. Foram os bloqueios que devotos do capitão montaram nas estradas, enquanto outros discípulos decidiram organizar manifestações de protesto defronte a quartéis do Exército. Todos fantasiados de verde-amarelo como manda o figurino.

De memória de eleitor, ninguém nunca viu, desde a redemocratização, hordas de carpideiras chorarem a má sorte do candidato perdedor e organizarem manifestações de indignação em que o Exército é chamado pra dar um jeito. De tão fora de esquadro, a coisa roça o grotesco.

Atribua-se ao capitão a culpa dessa baderna que perturba a vida da sociedade inteira. Foi ele quem fez seus seguidores acreditarem que estavam um degrau acima dos eleitores do candidato adversário. É essa a lógica que embasa a indignação dos protestatários, que devem pensar: “Como assim? O voto dos cidadãos de segunda classe não pode sobrepujar o nosso!”. Daí o sentimento de ódio e revolta.

Se faz urgente um trabalho de retropedalada. É preciso mostrar a esses indignados que, diferentemente do que parecem acreditar, a escravidão não foi reinstaurada no país. Não há dois níveis de cidadania. Todos os conterrâneos têm direitos e deveres iguais. O voto do bonitão vale tanto quanto o do esfarrapado.

Vai ser muito difícil mudar essa visão distorcida. Essa gente vai continuar esperando um próximo messias que venha salvá-los.

Foi um rio que passou em nossa vida

José Horta Manzano

Discursos de Bolsonaro nunca foram sublimes. Do mato (queimado) não sai coelho mesmo. O pronunciamento de 1° de novembro talvez tenha sido o melhor de toda a carreira dele. Pronunciado no Dia de Todos os Santos, o discurso fez jus às bênçãos de toda a santidade celeste.

Depois da fala, muita gente passou 24 horas avaliando se, afinal, ele tinha ou não concedido a derrota. “Veja bem” – argumentaram uns – “me parece que esta passagem aqui é reconhecimento implícito disto ou daquilo”. “Pois eu já acho que aquela frase ali parece indicar que ele aceitou a derrota” – retrucaram outros.

Argumentar é bom, alimenta o espírito. Mas, no caso do capitão, me parece perda de tempo. Não vamos esquecer o principal: o resultado da eleição não depende da aceitação por parte do candidato derrotado. Que o lanterninha reconheça ou deixe de reconhecer que perdeu é irrelevante.

As normas de civilidade e cortesia recomendam que o perdedor reconheça publicamente a derrota e deseje boa sorte ao vencedor. Mas isso é apenas norma de civilidade, conceito que Bolsonaro desconhece. Ninguém pode dar o que não tem.

Eu disse que esse talvez tenha sido o melhor discurso da carreira do capitão. E explico por quê.

  • Ele não soltou palavrão. Nem unzinho. Vê-se que o pronunciamento veio abençoado por anjos e arcanjos.
  • O discurso foi breve – um afago na sensibilidade do distinto público.
  • Curiosamente, ele não apontou nenhum culpado pela derrota. É estranho para quem sempre se isentou de toda responsabilidade lançando sistematicamente a culpa em terceiros.
  • Contrariando seus hábitos, ele não atacou nenhuma instituição da República. Nem mesmo o STF, seu alvo preferido. Não lançou flechada sequer em direção ao ministro Alexandre de Morais, seu bicho-papão.
  • A defesa de seu legado coube em dez palavras. Não houve menção às vacinas, às armas, à Amazônia e suas árvores que não queimam, aos chineses malvados, à esposa de Monsieur Macron, à Venezuela, à mídia golpista, à Globolixo, ao “meu” Exército. Tampouco falou da cloroquina.

A grande vitória do Brasil decente (e a grande derrota de um presidente indecente) ficou patente no fato de ele não ter atacado as urnas eletrônicas. Não fez sequer menção à sala secreta, às teclas coladas, aos ataques de piratas informáticos, aos mesários que votam em lugar de eleitores ausentes.

Custou, mas veio o primeiro discurso pacificado de Bolsonaro. Tirando rápida menção aos “métodos da esquerda”, afirmação um tanto deslocada, ninguém foi ofendido, nem atacado, nem humilhado, nem provocado, nem escarnecido. Tivessem todos os seus discursos sido nesse mesmo tom, mui provavelmente ele teria sido reeleito.

Dentro de pouco tempo, os bloqueios rodoviários promovidos por desocupados enrolados em bandeiras vão se encerrar. A transição, conduzida por um Lula conciliador e um Alckmin experiente, vai se desenvolver em ambiente cordial.

A partir de agora, o grande objetivo do capitão é conseguir algum tipo de salvo-conduto para si e para a família, uma espécie de habeas corpus preventivo, que lhes permita escapar à cadeia. Dos processos, não fugirão; mas vão tentar escapar do camburão e da Papuda.

Se vão conseguir, ninguém sabe. Pode até ser que a Justiça deixe o capitão sair ileso, que é pra evitar transformá-lo num herói injustiçado – mas cacifado para voltar com mais força no futuro.

Quem viver, verá.

Finados

José Horta Manzano

Estamos numa era de profundas mudanças climáticas. Ainda que, por ignorância ou má-fé, um punhado de negacionistas do clima deem as costas, a realidade é essa, gostemos ou não.

Mas o planeta Terra, que sobrevive há 4,5 bilhões de anos, teve tempo de aprender a se adaptar a mudanças. Já enfrentou alteração na velocidade de rotação, já assistiu à inversão dos polos magnéticos, já aguentou choque de meteoros gigantescos – e continua a girar firme e forte. Não é o aumento ou a diminuição de temperatura na superfície que vai fazer o planeta parar de rodar.

Flexível, a Terra se adapta a condições novas. Tanto quanto possível, ela mantém constante a média global de temperatura e de precipitações. Se certas regiões esquentam, outras esfriam. Se a seca castiga vastos territórios, outros são inundados por chuvas diluvianas.

Na Europa ocidental, 2022 está sendo o ano mais quente e mais seco que jamais se viu desde que começaram os registros meteorológicos, 170 anos atrás. Tivemos uma onda de calor extremo em junho, outra em julho e mais uma em agosto. Após um setembro próximo da norma, outubro foi anômalo, com temperaturas muito acima do normal. O verão foi tão seco que obrigou as autoridades a imporem restrições no uso da água; com os pastos secos, o gado teve de ser alimentado com ração.

Em casa, nos tempos de antigamente, tínhamos uma expressão familiar para dizer que o tempo estava ensolarado e muito quente: “faz um sol de cemitério”. Era uma referência ao Dia de Finados, data em que se costuma visitar o túmulo de familiares que já se foram. Em novembro faz calor. Cemitérios têm lápides de mármore ou granito que funcionam como acumuladores térmicos. Sol + chão de cimento + alamedas margeadas de granito = calor insuportável.

Pois parece que isso está acabando. Este ano, pelo menos, furou. Faz meses que os estados meridionais do Brasil estão atravessando um período anormalmente frio. Não me lembro de ter conhecido um 2 de novembro com temperaturas como as que estão na ilustração que tirei hoje do Climatempo. Máxima de 15°C? Em novembro? Numa terra tropical? É de impressionar. Genebra está hoje um pouco mais quente que São Paulo. Pode?

Os humanos deveriam tomar de exemplo a sabedoria da natureza. O equilíbrio deveria ser o objetivo de todos. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como se diz.

No Brasil, vamos esperar que o conturbado período político que se encerra tenha sido ponto fora da curva. E que a moderação renasça em nosso país.

Nenhum governo, nenhum regime, nenhum período será jamais perfeito. Não há meio de contentar a todos. Mas que, pelo menos, o país volte à trilha da normalidade, do equilíbrio e do bom senso.

Imitar o lado bom da natureza não faz mal a ninguém.

Simpatia

José Horta Manzano

Este blogueiro cresceu num tempo em que quase não havia vacinas. Doenças infantis infecciosas, toda criança acabava pegando. Tive as quatro mais corriqueiras: catapora, coqueluche, caxumba e sarampo. Quando uma das crianças caía doente com sarampo e ficava de molho na cama, minha mãe pendurava no quarto uma cortina vermelha. Dizia que era simpatia, que ajudava a resolver o problema e ficar bom logo.

Outro dia, no supermercado, vi uma banca de cuecas em oferta, daquelas promoções em que o freguês tem de levar um pacotinho de meia dúzia. No pacote, as cores já vêm misturadas e não há meio de escolher: ou leva tudo ou desiste da compra.

Levei um pacote. No meio das cuecas, havia uma vermelha, de um vermelhão Chapeuzinho Vermelho. Mesmo sendo peça que se usa debaixo da roupa e que ninguém vê, deixei no fundo da gaveta. A cor me pareceu espantada demais.

Anteontem, domingo de eleição, foi dia importante. Era a derradeira oportunidade de se livrar do capitão, desalojá-lo do palácio e devolvê-lo ao submundo de onde veio. As pesquisas anunciavam um escrutínio apertadíssimo.

Para varrer Bolsonaro, só havia um meio: votar no Lula. Não era uma perspectiva empolgante. Mas raciocinei como muita gente. Pensei: “Coragem! Dos males, o menor. É só apertar um trezezinho aí, que o dedinho não vai cair”.

Antes de pegar a estrada para Genebra, na hora de me vestir, lembrei da cueca vermelha. Lembrei também da simpatia da minha mãe. Pensei: “Por que não tentar repetir a simpatia? Se funciona pra curar doença, quem sabe não funciona também pra curar um país doente?”. Vesti a peça vermelha.

No local de votação, vi grupos espalhafatosos com gente de amarelo e alguns até enrolados em bandeira. Vi também grupos mais discretos, em que todos (ou quase) tinham pelo menos um detalhe vermelho na indumentária. Não sei se ostentavam o detalhe por paixão lulista; no meu caso, não havia nem um grãozinho de paixão. Era por “simpatia” – pode também chamar de magia branca.

Pelo fuso horário daqui, já era comecinho da madrugada quando saiu a notícia oficial: o capitão estava derrotado. Na hora de estourar o champanhe(*), lembrei da cueca e me dei conta de que a simpatia tinha funcionado.

Tive então a certeza de que, não fosse ela, ainda teríamos de aguentar palavrões e ameaças por quatro anos. Talvez, num futuro próximo, o capitão ainda tivesse a macabra ideia de proibir as vacinas infantis, condenando os pequerruchos ao sarampo e à catapora.

Se foi mal com ele, melhor será sem ele.

(*) É força de expressão.

#naovaitergolpe – 2

José Horta Manzano

Se alguém espera que parlamentares bolsonaristas recém-eleitos se abalem pra “salvar” o capitão ou pra apoiar um golpe de Estado, pode tirar o cavalinho da chuva. Isso não periga acontecer. Por quê?

A razão é simples. Eles todos, que eram desconhecidos até anteontem, subiram agarrados no elevador bolsonarista. Surfaram a onda e assim foram eleitos. Agora, que estão lá, não querem nem ouvir falar de golpe. Nem por brincadeira.

A primeira consequência de todo golpe que se preza é o fechamento do Congresso. Parlamentares são todos postos de molho por tempo indefinido. Em seguida, vêm as cassações de mandato. “Quem garante que o meu não será cassado?” – é o que se pergunta o deputado ajuizado.

Melhor deixar como está. Deputados estão com cargo, salário, jetons, apartamento funcional, mordomias e principalmente imunidade parlamentar garantidos por quatro anos. No caso dos senadores, são oito anos. Quem vai fomentar golpe e arriscar perder tudo isso? Ninguém é besta.

Parlamentares bolsonaristas estão agindo rápido para reconhecer a derrota de Seu Mestre. Entre os primeiros, estão: Sergio Moro, Carla Zambelli, Zé Trovão, Ricardo Salles, Tereza Cristina, Arthur Lira, Nikolas Ferreira, Damares Alves. Esta última, apesar de residir no DF, pediu que um apartamento funcional seja posto a sua disposição.

Quem é que trocaria essa moleza por um temerário golpe só pra “salvar” um desequilibrado?

Interpol

José Horta Manzano

No momento em que escrevo, faz 13 horas que Bolsonaro foi oficialmente declarado derrotado nas urnas. Desde então, ele não se manifestou publicamente.

Cada hora de silêncio do capitão é uma bênção para a nação. Por um lado, poupa nossos ouvidos cansados de ouvir palavrões, xingamentos e ameaças. Por outro, afasta o receio de que o cafajeste tentasse virar o jogo soltando brucutus contra cidadãos inocentes.

A atitude do presidente derrotado é a de um homem amargurado, roído pelo rancor, temeroso de seu futuro sombrio. Ele mostra haver entendido que sua estrada chegou ao fim e que não há mais nada a fazer. Sua página está virada.

Os cobrinhos que possa ter amealhado e encafuado nalgum paraíso fiscal são de pouca valia. O melhor agora é catar seus trapos e se mudar para uma gruta. Mas atenção: que seja em território nacional! Se ele puser um pé fora do país, em breve vai ter de se explicar com a Interpol.

Carta ao vencedor

José Horta Manzano

O último páreo corre amanhã. Depois de quatro intermináveis semanas, chegou a hora do vamos ver. Com a respiração suspensa, o Brasil palpita à espera do resultado. Hoje, véspera do Dia D, não temos ainda o placar final, mas tudo indica que deve ser apertado. Não serão muitos pontos de porcentagem a separar o vencedor do derrotado.

Oito anos atrás, escrevi, neste mesmo espaço, carta aberta à presidente Dilma Rousseff, que acabava de ser reeleita. Desta vez, achei interessante dar um salto no escuro. Escrevo minha cartinha ao novo presidente antes mesmo de conhecer seu nome. Vamos lá.


Senhor Presidente,

Antes de mais nada, deixo aqui minhas felicitações pela vitória. A meu juízo, foi o pleito mais emocionante desde a eleição de Tancredo Neves – que foi indireta mas carregada de suspense e simbolismo.

Meus parabéns vão a vosmicê, mas também ao perdedor. O fato de terem chegado à final embalados por dezenas de milhões de votos há de ser lisonjeira para ambos. Quando se pensa que, quatro anos atrás, um dos finalistas de hoje era um apagado parlamentar do baixo clero enquanto o outro estava fora do jogo político por motivo de prisão, a caminhada de ambos foi excepcional.

Vosmicê, senhor Presidente, vai encontrar um país partido em dois. É lugar comum dizer que é hora de unir, não de separar – só que, desta vez, o sulco é profundo. É urgente agir antes que o fosso vire um cânion intransponível. Já faz vinte anos que o sulco começou a ser cavado; os últimos quatro anos só fizeram alargá-lo. Esses rachas podem comprometer até nossa integridade territorial. Não se brinca com essas coisas.

Não é hora de procurar culpados, é hora de agir. A continuar como está, a combinação de divergências religiosas com desnível sócio-econômico periga armar uma bomba-relógio desregulada que vai explodir a qualquer momento. Não tenho certeza de que isso seja boa notícia para o governo, seja quem for o presidente. Convulsão social nem sempre segue o itinerário que se gostaria. Em geral, costuma se voltar contra o poder.

Num país de desigualdades sócio-econômicas abissais como o Brasil, programas de redistribuição de renda não são meros truques eleitoreiros – são necessidade absoluta para a sobrevivência de dezenas de milhões de conterrâneos. Seja qual for sua orientação ideológica, senhor Presidente, é indispensável dar prosseguimento a eles. O que pode (e deve) ser acrescentado é uma porta de saída, um objetivo, um incentivo, uma meta. Todo beneficiário tem de sentir que, em troca do auxílio, deve algo ao poder público. Pouco importa o valor da contrapartida, o que interessa é incutir a ideia de troca: “recebo, mas tenho que dar”.

O Brasil é grande, mas está longe de ser uma ilha autossuficiente pairando acima das querelas do mundo. Estamos inseridos na economia global, seja qual for o credo de nosso governante. Atitudes sectárias e clivantes do tipo “ênfase nas relações Sul-Sul” ou “reforço de laços com governantes de direita” são contraproducentes. Nosso país tem de se abrir ao mundo. Seu destino é muito mais amplo do que o encruamento em que se encontra.

Como repetia o General De Gaulle, nações não têm amigos, têm interesses. O presidente do Brasil, dado o imenso poder que lhe confere a Constituição, tem de se compenetrar desse fato. Não o fazendo, nossas trocas comerciais vão se ressentir e nossa imagem no cenário internacional vai continuar desbotando.

Daqui a meio século, senhor Presidente, não estaremos mais aqui, nem vosmicê nem eu. Cidadão desimportante, me contentarei com uma lápide de pedra barata. Já vosmicê estará nos livros de história. Sua memória poderá ser exaltada ou pisoteada, dependendo de seus atos e palavras nos próximos quatro anos. Quando, no futuro, se referirem a vosmicê, será melhor que digam “aquele que fez o Brasil decolar” ou “aquele que fez o país empacar de vez”?

Receba meus votos de sucesso.

Cristofascismo

Fascio Littorio: emblema do fascismo

José Horta Manzano

Em longo artigo, o italiano Corriere della Sera digital discorre sobre a campanha presidencial brasileira deste ano. Sobrevoa as acusações de canibalismo, satanismo e pedofilia. Lembra a sombra de um possível golpe de Estado, a ser dado unicamente em caso de vitória da esquerda.

Menciona ainda: a Venezuela e a Nicarágua, o “pintou um clima”, Janja da Silva, Michelle Bolsonaro, o ditador paraguaio Stroessner, Silas Malafaia, Fernando Collor, confisco de aposentadorias, Neymar, Copa do Mundo, fechamento de igrejas, aborto, satanás, dom Odilo Scherer, o “perigo comunista”. E outros nomes e fatos que nós todos conhecemos.

Fechando o cerco, relata a inacreditável história de tráfico de crianças, que Damares Alves “ouviu na rua” e denunciou à Justiça. Acrescenta a apropriação que “cantanti gospel” (=cantores evangélicos) fizeram da historinha horripilante. E conclui discorrendo sobre o cristofascismo. (Esse conceito fica por conta do Corriere della Sera, não é tema de campanha no Brasil.)

Fascismo cristão ou cristofascismo é expressão cunhada por uma teóloga alemã nos anos 1970. Descreve o ponto de contacto entre o fascismo e o cristianismo, contacto induzido pelas teorias de extrema-direita. O cristofascismo pode ser entendido como uma ampla muleta que dá uma fachada de dignidade cristã aos princípios atrozes e violentos que formam a ossatura da ideologia fascista.

É exatamente o que desabrochou na nação brasileira quando se instalou o governo do capitão. E que continua plantando raízes em nossa sociedade. É um movimento pérfido e insidioso, dado que se instila como veneno na mente de honestos cidadãos que se enxergam como cristãos verdadeiros, ao mesmo tempo que toleram – e até praticam sem se dar conta – comportamentos extremistas.

É desse mal corrosivo que temos de nos desvencilhar domingo agora, enquanto é tempo.

Anauê, cidadãos!(*)

(*) Anauê era a saudação adotada pelos adeptos do integralismo, corrente de pensamento de matriz fascista que chegou a ter certa força no Brasil dos anos 1930.