Do golpismo ao banditismo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Os mais jovens podem não saber, mas presidente golpista não é novidade por estas bandas. Basta folhear um livro de história para descobrir uma penca deles. Aliás, ao fazê-lo, a mais ingênua das criaturas vai entender que nossa república começou precisamente com um golpe.

O que há de novo no pedaço é um presidente que escala do golpismo de ocasião para o banditismo mais deslavado e explícito. Questão de caráter, não de contingências políticas ou ideológicas. Quem não o conhecia em 2018 e o comprou por medo de que o Brasil avançasse para um patamar um pouco menos desigual que o diga. Quem já o conhecia e, mesmo assim, apostou que ele se corrigiria e respeitaria ao menos as instituições republicanas e o decoro do cargo agora está de pires na mão, implorando pela clemência de seus pares para retomar algum grau mínimo de cidadania.

Em 5 de fevereiro de 2019, poucos dias após Bolsonaro completar um mês de governo, escrevi um texto alertando para os tempos sombrios que nos aguardavam sob sua batuta. Nele estavam registrados, além dos óbvios defeitos de caráter do recém-eleito, os projetos macabros que alimentaram a escolha de ministros, assessores, líderes do governo e presidentes de estatais. Prevendo que a explosiva mistura de religiosos fundamentalistas e militares subservientes ocupando cargos técnicos nunca poderia dar certo. Num dos trechos fiz questão de escrever que “por medo dos bandidos, a maioria concordou em pagar a milicianos para cuidar de sua proteção pessoal”. Vidência, visionarismo, mediunidade? Não, simples experiência de vida, atrelada a algum conhecimento de psicologia clínica – ainda que a psicologia, como ciência, não lide com questões de caráter.

Como dizia um espírita famoso e colega de profissão (Gasparetto), só se desilude quem se ilude. Quem passou a vida tentando mudar as crenças e comportamentos de seus pais, companheiros, filhos, amigos ou chefes – e se frustrou redondamente – sabe bem do que estou falando. As pessoas apaixonadas costumam acreditar que o outro possa mudar “por amor” a elas. Ledo engano. Se isso já não vale para as relações pessoais, imagine então o que pode ser esperado nesse ninho de serpentes peçonhentas que é a política brasileira.

O desrespeito às leis e às instituições é marco simbólico de toda a carreira pública de Jair Bolsonaro. Inútil elencar os escabrosos atos tresloucados do ex-capitão, cada um pode localizar algum malfeito mais a seu gosto. Mas ainda vale a pergunta: Como acreditar que um indivíduo incapaz de separar o que é público do que é privado poderia da noite para o dia se transformar em estadista respeitável internacionalmente? Ingenuidade tem limites, ora bolas.

Mais além da obsessão por transgredir, no entanto, está o cinismo covarde, a hipocrisia, a insensibilidade e a desfaçatez premeditada dessa criatura. Essa talvez seja a verdadeira e única novidade na presidência em todos os tempos. Antigamente, os políticos pegos com a boca na botija ainda se davam ao trabalho de fazer pronunciamentos indignados, repletos de linguagem empolada e termos incomuns da norma culta, destinados a convencer os mais crédulos de que eram seres impolutos, exemplos de probidade administrativa e simples vítimas de “perseguição política”. Hoje em dia, se já não bastasse a linguagem chula típica de botequim de beira de estrada e de prostíbulo com que o atual mandatário se dirige à nação, temos de lidar com o contínuo arremesso de responsabilidades à distância e de nos haver com bravatas inconsequentes, mentiras e desmentidos, seguidas por novas mentiras e novos desmentidos.

Não bastasse o golpismo explicitado nas manifestações do 7 de setembro passado e rapidamente minimizado como infeliz resultado do “calor do momento”, o Anticristo tupiniquim agora anuncia destemido a repetição da façanha para este ano. Quer mostrar de forma cabal “de que lado o povo está”. Fiquei pensativa: lembrei do apelo do “não me deixem sozinho” de Fernando Collor, que deu no que deu. Mas, ainda perplexa, me indago: e se as ruas e praças das capitais se encherem com multidões de devotos violentos repetindo a plenos pulmões “eu autorizo”, como reagirão as oposições e o Judiciário? Haverá guerra civil, cancelamento das eleições ou a pressão interna e internacional se encarregará de botar freio no ânimo demolidor do déspota?

Não fosse suficiente a sustentação indisfarçada de alguns militares de alto coturno para a aventura golpista, ele agora decide fechar com chave de ouro sua carreira de banditismo profissional com um inédito crime de lesa-pátria: ir buscar o apoio do presidente dos Estados Unidos para tentar impedir a ascensão de seu adversário. Aparentemente, continua apostando no cansaço e no esgarçamento das forças democráticas. Resta saber se vamos ser capazes de ressuscitar os caras-pintadas, pegar em armas mais uma vez para defender a pátria dos seus algozes ou se Deus, brasileiramente, vai dar um jeitinho de demonstrar que ele não é nem imorrível nem imbrochável.

É, pois, em nome de Marielle, de Bruno Silveira e Dom Phillips, de tantos jornalistas atacados grosseiramente, das crianças e jovens pretos da periferia mortos por violência policial, dos mortos pela pandemia e dos que estão perto de morrer pela fome que eu pergunto: como você vai justificar – não só para terceiros, mas principalmente, para sua própria consciência – sua intenção de votar nele outra vez? Ou vai continuar achando que o tal bicho-papão do “comunismo” é um mal maior a ser enfrentado?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

É fome

Carlos Brickmann (*)

Num país em que cada parlamentar tem até 80 assessores, em que os ministros do Supremo têm funcionários para puxar suas cadeiras, em que o presidente precisa colocar seus gastos no cartão em sigilo para evitar escândalo, em que candidatos usam bilhões públicos para a campanha, há gente que não sabe quando vai comer. Os campeões de gastos brigam entre si. Os famintos que se danem.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O país mal-amado

José Horta Manzano

Deslumbrada com as baboseiras cuspidas por Bolsonaro nos EUA, a grande mídia brasileira sonegou a seus leitores a notícia do ano: o corredor automobilístico Lewis Hamilton foi homenageado pela Câmara Federal brasileira.

O que me alertou foi um artigo publicado na mídia estrangeira. Um projeto de resolução relatado no ano passado pelo deputado federal Jhonatan (sic) de Jesus propunha conceder ao corredor britânico o título de cidadão honorário do Brasil.

Entre os partidos, só o Novo (Amoêdo) orientou seus deputados a rejeitarem a proposta. Sem mais objeções, o projeto acabou sendo aprovado quinta-feira passada. Sir Lewis Carl Davidson Hamilton, que já ostentava o título de cavaleiro da Ordem do Império Britânico, recebeu mais uma honraria para enriquecer sua coleção: é cidadão brasileiro “honoris causa”.

A justificativa para a concessão da cidadania honorária é a “relação emocionalmente forte” que o campeão tem com nosso país. Mas o que derreteu mesmo os deputados foi quando Sir Lewis (agora Senhor Lewis) teve a feliz ideia de desfraldar uma bandeira brasileira ao término do último GP de São Paulo de F1. O gesto trouxe a lembrança de Ayrton Senna, figura que marcou nossa memória coletiva.

Numa primeira análise, a reação dos parlamentares parece anacrônica. Afinal, com tanto problema mais importante no país, outorgar cidadania honorífica a estrangeiros parece falta do que fazer. No entanto, diante da situação atual do país, a atitude dos parlamentares é compreensível.

Estes últimos tempos, nossa bandeira tem sido confiscada por uma gente estranha, saída não se sabe de onde. Refiro-me a esse povo que, embora se enrole nas cores nacionais, dá sustentação a um presidente que corrói o pouco de civilização que tínhamos. Dá tristeza ver um símbolo – que é de nós todos – prisioneiro de gente que não enxerga além do próprio umbigo.

A visão do pavilhão verde-amarelo destemidamente desfraldado por um estrangeiro sem ligação com os violentos devotos do capitão foi como um bálsamo, o primeiro passo para a reapropriação de nosso símbolo maior.

Acredito que, embora nenhum dos parlamentares se dê conta, seja essa a razão inconsciente que levou boa maioria da Câmara a aprovar a acolhida de novo cidadão.

A pátria, machucada pelos maus tratos que vem recebendo dos que a governam, tem premente necessidade de reconhecimento internacional. Não sei se Senhor Lewis levantou a bandeira de caso pensado. Seja como for, acertou em cheio.

O golpista

Ascânio Seleme (*)

Se as pesquisas continuarem mostrando que o crescimento de Lula se consolida, aumentando a possibilidade de vitória já no primeiro turno eleitoral, Jair Bolsonaro vai antecipar sua tentativa de golpe para o dia 7 de setembro. Será uma nova setembrada, como a do ano passado, mas desta vez com mais violência e sem freios.

Não tenha dúvida de que o presidente do Brasil vai incentivar a invasão do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. De maneira mais clara e direta do que em 2021.

Mas desde já é bom que ele fique sabendo que não vai dar certo. Pior. Além de dar errado, vai significar o fim de sua carreira política e muito provavelmente o seu encarceramento.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 11 junho 2022.

Visto do Vietnã

Explosão da fome que atinge 33 milhões de brasileiros
Le Courrier du Vietnam, 10 junho 2022

 

José Horta Manzano


Notícia boa interessa pouca gente. É por isso que às vezes demora a chegar.

Notícia ruim atrai a atenção e chega rápido feito corisco.


Você conhece o Vietnã? Sabe apontar o país num mapa? Não é fácil. Fica lá na Cochinchina. Pensa que é brincadeira minha? Não é. Parte dos contornos do Vietnã atual coincidem com a costa que os navegadores portugueses visitaram 500 anos atrás e chamaram Cochinchina.

A linguagem popular costuma dizer “Conchinchina”, acrescentando um N que não aparece no original. Esse N sobra. É Cochinchina mesmo.

A origem do nome é curiosa. É obra dos navegantes portugueses. Quando aportaram naquelas costas, já fazia anos que tinham aberto um posto de comércio no litoral da Índia, junto à cidade de Cochim (Kochi em inglês). Não se sabe por que razão, chamaram a nova terra também Cochim. Para diferenciar as duas Cochins, esta ficou Cochinchina (= Cochim da China).

Com o declínio do poderio português, a região passou a ser cobiçada por outras potências europeias. A partir da metade do século 19, caiu aos poucos na órbita da França e e acabou tornando-se colônia. Conservou esse estatuto até 1954, quando, depois de 8 anos de guerra sangrenta, os vietnamitas conseguiram expulsar os colonizadores.

Os franceses se foram, mas a língua ficou. Cada vez perdendo mais terreno em relação ao inglês, é verdade, mas resistindo até hoje. Nas escolas do país, o francês ainda é ensinado como segunda língua.

Pois é. Nós não sabemos grande coisa sobre o Vietnã. Mas eles estão informados sobre as mazelas de nosso país, aquelas desgraças que nos incomodam mas que insistimos em negar.

A edição de ontem do Courrier du Vietnam, jornal online vietnamita redigido em francês, traz longo artigo sobre a “explosão de fome que atinge 33 milhões de brasileiros”. Até vietnamita se espanta com nossa assustadora realidade; só brasileiro é que ouve uma barbaridade dessas e continua seu caminho achando que é normal.

Minha gente, é o seguinte: são 15% dos conterrâneos passando fome. É um em cada sete. Da próxima vez que passar por uma rua movimentada, experimente contar. Deixe passar 6 indivíduos. No sétimo, anote: este aqui não tem comida suficiente. Faça esse exerciciozinho durante cinco minutos.

Aí você vai entender a extensão do drama. É de dar vertigem. É muita gente. Gente como nós, mas que sofre as consequências de um pecado original: nascer pobre num país onde a desigualdade social não incomoda ninguém.

Enquanto isso, o capitão passeia de motocicleta ou de jet ski para encanto dos devotos, o Lula dá festa de casamento com banquete para uma multidão de adoradores, parlamentares passam a mão no nosso dinheiro, servido sob forma de orçamento secreto.

Bolsonaro já está em fim de mandato e lega um país mais faminto do que encontrou ao assumir. O Lula e seus aliados estiveram 13 anos no poder e deixaram tudo do jeitinho que tinham encontrado. Os parlamentares estão há décadas se locupletando, indiferentes ao drama maior.

Mas deixe estar. As eleições vêm aí. Sabem como vai ficar depois de novembro? Vai mudar tudo!

1) O capitão vai se aposentar e ficar ruminando vingança, balançando numa rede, em regime de picanha macia.

2) O Lula, cercado de bajuladores, vai voltar a se esbaldar com o luxo e as benesses do poder, que é o que mais lhe interessa no Planalto.

3) Os parlamentares, cujo apetite é insaciável, continuarão arrancando significativos nacos do tesouro público. Afinal, são profissionais.

E o país vai continuar empacado.

Vacina pra quem pode?

José Horta Manzano

O Brasil é realmente um lugar estranho. No mundo civilizado, a epidemia de covid foi encarada em cada país como problema nacional. Como tal, foi enfrentada pelo poder público.

Na Europa, pelas informações que tenho, a vacinação anticovid foi encampada em todos os países pelo governo central. Em todos eles, a compra, a distribuição e a aplicação da vacina foram atribuição exclusiva do sistema público de saúde.

Me surpreende a notícia de que o presidente Bolsonaro deve assinar, nos próximos dias, uma medida provisória liberando a vacinação privada contra a covid.

Ao entregar a vacinação à iniciativa privada, nosso governo está abrindo mão de sua prerrogativa de coordenador da saúde pública. Por que razão faz isso? Que interesses estarão por detrás da decisão governamental? Não ficou claro.

O efeito colateral é a reafirmação da desigualdade entre cidadãos. Quem puder desembolsar R$ 300 para a picada, receberá vacina de primeira linha. Os outros? Que se danem. Todo o mundo tem que morrer mesmo.

O padrão dos loucos varridos

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Mesmo para os padrões que costumam ser usados para avaliar loucos varridos, Bolsonaro exagera na paranoia. Vamos aos antecedentes.

Em 1988, o capitão se candidatou pela primeira vez a um cargo eletivo. Naquele tempo, a urna eletrônica ainda era um sonho com ares de ficção científica. Foi eleito vereador do município do Rio de Janeiro.

Com dois anos de vereança, decidiu alçar voo mais ambicioso. Abandonou o mandato e candidatou-se a deputado federal. Saiu eleito. Deve ter gostado do novo emprego. Profissionalizou-se. De lá pra cá, cumpriu oito mandatos seguidos, sempre representando o Rio na Câmara Federal.

Desde a virada do século, as eleições vêm sendo realizadas com urna eletrônica. Que se saiba, Bolsonaro jamais reclamou nem lançou dúvida sobre a lisura dos pleitos. É sabido que os insatisfeitos costumam chiar; portanto o silêncio do capitão indica que ele estava feliz e satisfeito.

Um dia, decidiu tentar a Presidência da República. A história, todos conhecemos. Foi o candidato mais votado no 1° turno, mas não atingiu os 50% necessários para a vitória. Foi preciso organizar mais um turno. No segundo, os 55% de votos recebidos foram amplamente suficientes pra lhe dar direito a subir a rampa.

Pouco tempo depois da eleição, Bolsonaro botou em circulação um rebuliço estranho e fora de esquadro. Deu início a uma bizarra campanha de descrédito do sistema que o tinha levado ao Planalto.

Choramingou que a eleição tinha sido “fraudada”. Com toda probabilidade, a atitude do capitão é caso único no mundo. Um candidato enxergar fraude na eleição em que saiu vencedor é realmente de dar vertigem.

O mais curioso vem agora. Nas oito vezes em que se elegeu deputado, o capitão nunca se insurgiu contra a lisura do sistema. Já nas eleições presidenciais, denuncia fraude no primeiro turno, mas não no segundo. Como é que pode?

Se o sistema tivesse sido fraudado para impedi-lo de ganhar no primeiro turno, os autores da fraude, vendo que tinha funcionado tão bem, teriam insistido na falsificação. Ou seja, Bolsonaro também teria sido impedido de ganhar no segundo turno.

Esse mistério da desconfiança seletiva, o capitão nunca esclareceu. Nem esclarecerá, visto que o delírio, que decorre da triste patologia que o acomete, só existe na cabeça dele.

Bolsonaro e o jornalista desaparecido

José Horta Manzano

Rapidez de raciocínio não é a qualidade mais notável do capitão. Sua capacidade de percepção global de uma situação também não é lá essas coisas. Assim mesmo, ele ainda consegue nos surpreender.

Ontem, foi questionado sobre o desaparecimento na selva de um jornalista estrangeiro e de um sertanista brasileiro. Soltou a seguinte frase: “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem é uma aventura que não é recomendada que se faça (sic)”.

E o principal veio em seguida:


“Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados”.


Não é comum ouvir um presidente confessar com candura que, no país por ele governado, há regiões sem lei, onde cidadãos perigam “ser executados” assim, sem mais nem menos. Repare que ele não disse “assassinados”, mas “executados”.

Tirando o fato (já conhecido) de ele se exprimir em linguagem de miliciano, é surpreendente o capitão não se dar conta de que sua fala é confissão de fracasso.

De fato, tirando regiões em estado de guerra como a Síria ou o Iêmen, nenhum dirigente diria coisa desse tipo. Nem que fosse verdade.

Fica a desagradável impressão de que o governo não controla parte do território nacional.

Ou, pior ainda: que, tendo recebido informações confidenciais sobre o acontecido, o presidente as está sonegando ao distinto público.

Há ainda uma última (e terrível) hipótese: a de que a ordem de “execução” tenha emanado das mais altas esferas do poder. Mas seria tão absurdo, que prefiro nem falar nisso.

Observação
Não se espera de um presidente da República que emita comentários pessoais sobre o maior ou menor perigo que indivíduos tenham decidido enfrentar.

Neste momento de preocupação nacional, cabe a ele tranquilizar a população e assegurar que está “pessoalmente empenhado” em descobrir rapidamente o paradeiro dos desaparecidos.

Pode até ser blá-blá-blá, mas é o que se espera de um dirigente.

Agressão classuda

José Horta Manzano

O manifestante ousado que decide agredir um figurão lança mão de meios diferentes dependendo das circunstâncias e da parte do mundo em que se encontrar.

Em casos extremos, pode sacar arma de fogo e atirar. Quando o contexto (e o manifestante) são menos violentos, o gesto pode servir apenas para demonstrar descontentamento com o figurão.

Temos visto figuras políticas agredidas com gesto obsceno, tapa na cara, balde de tinta, punhado de farinha, pastelão. Manifestantes de Paris inventaram arma com especial toque francês.

O ex-ministro da Educação, atualmente em campanha para deputado, foi abordado por dois professores quando se encontrava numa feira livre. Os docentes agrediram o ex-ministro com jatos de… creme chantilly.

Ao final do episódio, os agressores esclareceram, com ar ingênuo, que é época de morango e que, por acaso, traziam na sacola uma garrafa sifão de chantilly – acompanhante inseparável da deliciosa frutinha.

A notícia não informa se o creme já veio adoçado.

Os golos

José Horta Manzano

Ontem à noite passavam na televisão um jogo de futebol entre Portugal e a Suíça. Com evidente motivação comercial, os cartolas não param de inventar campeonatos. Toda hora tem um novo. Esse de agora se chama Liga das Nações.

Não acompanho como torcedor de verdade. Dou uma espiadinha quando imagino que vai ser um belo jogo. Só que começou a ficar tarde e desliguei a tevê. Hoje de manhã, curioso pra saber o resultado, fui dar uma olhada na imprensa portuguesa. Nossos amigos lusos estão sorridentes: a seleção (deles) ganhou da Suíça por 4 a 0.

Talvez o distinto leitor já tenha lido textos lusos. Costumo dizer que já vêm com sotaque. Não se passam duas linhas sem a gente tropeçar numa palavra. Com frequência, desconhecemos o significado. Pra descobrir, temos de fazer esforço mental ou apelar pro dicionário.

Acho estimulante. Veja algumas frases que colhi hoje na rubrica esportiva da imprensa lusa.

“Depois de ter estado na origem do primeiro tento, o avançado do Manchester United bisou frente à Suíça.”

Tento. Termo pouco usado no Brasil, é da família de talento. Na Roma antiga, talento era uma moeda. No texto é sinônimo de gol.

Avançado. Nós diríamos centroavante.

Bisar. Não usamos com frequência. Significa fazer algo de novo, repetir. Vem de bis.

“O médio do Betis inaugurou o marcador aos 15 minutos, na recarga a uma defesa incompleta do guarda-redes helvético, na sequência de um livre direto de Ronaldo.”

Médio. É o jogador de meio de campo, que dizemos meio-campo ou meio-campista.

Recarga. Para nós, é o rebote.

Guarda-redes. Não usamos essa simpática expressão, mas ela é autoexplicativa. Quem guarda as redes é o goleiro.

Na sequência de. Raramente usada no Brasil, a expressão é importada diretamente da França. É decalque de “à la suite de”. Nós diríamos “como resultado de”, “em decorrência de”, “dando sequência a” ou expressão similar.

Um livre direto. Esse é mais misterioso. Eu sei o que é porque ainda estava assistindo ao jogo quando aconteceu. Um livre direto é uma cobrança de falta em que há possibilidade de mandar a bola por cima da barreira e fazer o gol diretamente. Ontem, Cristiano Ronaldo executou um livre direto, mas o guarda-redes suíço espalmou. A bola quicou. Na recarga, um jogador da equipa lusa chutou e fez o golo.

“Cristiano Ronaldo aumentou para 117 o seu recorde de golos pela seleção, ao bisar na receção à Suíça (4-0).”

Golo. Como é sabido, os portugueses não dizem gol, mas golo.

Receção. Essa me deu dor de cabeça. Estou acostumado a ler sobre recessão, mas descartei por achar que não é exatamente termo futebolístico. Já ia apanhar o dicionário quando veio o estalo. É uma divergência de grafia. Fosse um jornal brasileiro, não estaria escrito receção, mas… recepção! A Suíça era o time visitante, portanto os portugueses receberam os estrangeiros. Fizeram uma recepção.

Essa grafia anômala resulta do famigerado Acordo Ortográfico de 1990, que determinou que letras não pronunciadas deixariam de ser escritas. No Brasil, pronunciamos o P de recepção, por isso ele continua sendo grafado. Já em Portugal, a pronúncia soa a nossos ouvidos como “rr’-cé-ção”. A regra foi impiedosa: baniu o P.

É mais uma mostra dos problemas criados por uma absurda reforma meia-sola, que só serviu para atrapalhar. Deu canseira a muitos e lucro a uns poucos. Por mim, teria ido pro lixo.

Durante o jogo, o presidente da República Portuguesa não estava grudado na tela da tevê. Nem andando de jet ski, nem fazendo motociata. Encontrava-se na Festa do Livro em Belém, manifestação que ele mesmo criou em 2016 e que reúne anualmente editoras, livreiros e autores para diversas conferências e sessões de autógrafos. É como nossa Flip de Paraty.

O dirigente foi efusivo ao cumprimentar a equipa. Disse que “foram quatro golos, podiam ter sido oito…”. E justificou o entusiasmo: “Termos muitos atletas a competir nos melhores clubes do mundo dá-lhes uma forma espetacular”.

Falou como a gente espera que um presidente decente fale. Nada a ver com o esfarrapado que nos dirige. Pô!

Querides amigues

Vivian Cabrelli Mansano (*)

Vamos conversar com a tia. Não sou homofóbica, transfóbica, gordofóbica. Eu sou professora de Português.

Eu estava ensinando um conceito de Português e fui chamada de desrespeitosa. Ué. Eu estava explicando por que não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos pra ser “neutre”.

Em português, na maioria dos casos, a vogal temática não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. Vou mostrar pra vocês:

O motorista – termina em A e não é feminino.

O poeta – termina em A e não é feminino.

Ação, depressão, impressão, ficção – todos os substantivos abstratos com o final ão são femininos, embora terminem com O.

Boa parte dos adjetivos da língua portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, sem alteração da letra final. Veja: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável.

Colocar um E no final de uma palavra não faz com que ela seja neutra.

A alface – termina em E e é feminino.

O elefante – termina em E e é masculino.

Como o gênero em português é determinado muito mais pelo artigo do que pela vogal temática, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E.

E mesmo que fosse o caso, o Português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro pra combater o “preconceito”.

Meu conselho é: em vez de insistir tanto na história de gênero, entendam de uma vez por todas que gênero não existe, é um conceito construído pela sociedade.


O que existe é sexo.


Entendam, em segundo lugar, que gênero linguístico, gênero literário, gênero musical, são coisas totalmente diferentes de “gênero”. Não faz sentido mudar gênero de palavras. Isso não torna o mundo mais acolhedor nem menos preconceituoso.

E entendam, em terceiro lugar, que vocês bem que podiam tirar o dedo da tela, parar de falar abobrinha e se engajar em algo que realmente fizesse diferença, em vez de arrumar pano pra manga discutindo coisas sem sentido.

(*) Vivian Cabrelli Mansano é professora de Português.

Soneto premonitório

Eduardo Affonso (*)

Que Nostradamus, que nada! Quem profetizou sobre os eventos neste Brasil do ano da graça de 2022 foi Luís Vaz de Camões, o maior poeta vivo da língua portuguesa (morreu em 1580 apenas para os leitores ingratos).

Está tudo lá, no soneto “Amor é um fogo que arde sem se ver”, publicado há 424 anos sob o disfarce de ser apenas mais um poema a respeito da servidão amorosa.

“Fogo que arde sem se ver” é uma metáfora para Simone Tebet – a senadora sul-mato-grossense que não falta ao trabalho (compareceu a 95% das sessões), não rasga dinheiro público (gastou só cerca de 40% da verba de gabinete e da cota parlamentar), nem responde a processo judicial. Teve atuação firme na CPI da Covid e tem baixa rejeição. Pode crescer e aparecer. A menos que o vice seja o Aécio, porque aí incinera tudo.

“Ferida que dói, e não se sente” é referência a Lula. Responsável pelos maiores escândalos de corrupção da nossa História, há quem acredite que “não tem, nesse país, uma viv’alma mais honesta”. Mas sejamos justos: pelo menos uma vez não faltou com a verdade — foi quando disse que no Congresso havia 300 picaretas. Tanto havia que comprou vários deles, assim que teve oportunidade.

“É um andar solitário entre a gente” remete a Ciro Gomes, que não tem conseguido fazer alianças ou agregar apoios. Com seu destempero e incontinência verbal, parece “querer estar preso por vontade” a uma posição de coadjuvante na disputa.

“É um cuidar que ganha em se perder” alude, obviamente, a Luciano Bivar. Político profissional (não necessariamente na melhor acepção dos termos), neutralizou (e rifou) Sergio Moro e agora pode fazer acordos à direita e à esquerda, acima e abaixo, dentro e fora. Terá R$ 770 milhões para ser fragorosamente derrotado (fará campanha “pró-forma”) e eleger uma megabancada de deputados com poder de barganha. Perde e sai ganhando, seja qual for o futuro presidente.

“É servir a quem vence, o vencedor” descreve João Doria. Levou a melhor nas prévias do PSDB – e só nelas. O partido não o quer e parece que os eleitores também não fazem muita questão. Foi importantíssimo na luta contra a Covid-19, mas a vaidade – como cantou Billy Blanco – põe o bobo no alto e retira a escada.

Em “É ter com quem nos mata, lealdade”, Camões conseguiu retratar, à perfeição, a relação dos bolsonaristas com seu mito. O presidente se opôs à vacinação, ao distanciamento social, ao uso de máscaras – e se a Covid-19 não matou mais foi porque prefeitos, governadores e a população fizeram o que precisava ser feito. Bolsonaro conseguiu ser o pior presidente desde 1889 – o que não é pouca coisa, num país que já teve Sarney, Collor e Dilma.

“Tão contrário a si é o mesmo Amor” fala dos eleitores que tentaram se curar da dilmite tomando Bolsonariol e agora acham que dá para combater bolsonarite com uso de Lulalckmin, um genérico transgênico.

Claro que a profecia camoniana pode ter outras interpretações (quanto mais polissêmica uma previsão, maiores as chances de dar certo). Mas é evidente, ora pois, que Camões (pre)via melhor com um olho só do que Nostradamus com dois.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Caldas da Rainha

José Horta Manzano

O Centro Cultural da cidade portuguesa de Caldas da Rainha (que nome simpático!) está expondo neste momento as obras dos participantes de seu concurso anual de ilustração editorial, desenho de humor e caricatura. Os interessados em visitar a exposição têm três meses, até o fim de agosto.

Cerca de 200 ilustradores e desenhistas do mundo inteiro participaram. Os temas mas abordados foram a despedida de Angela Merkel e de Donald Trump, o famigerado vírus da covid e seu “amigo” brasileiro Jair Bolsonaro. (Essa última frase aparece no catálogo da exposição.)

Os vencedores são originários de diferentes países, entre os quais: México, Montenegro, Alemanha, Grécia, Cuba, Espanha, Polônia. Reproduzo abaixo o trabalho dos grandes ganhadores.

 

 

O argentino Matías Tolsá levou o primeiro prêmio com esta caricatura de Angela Merkel.

 

 

O mexicano Victor Solís e o alemão Frank Hoppmann empataram em segundo lugar e condividiram o prêmio.

Este é o trabalho do mexicano.

 

 

E esta é a obra do alemão.

 

 

Não sei se o distinto leitor teve a mesma impressão que eu, mas me pareceu que o caricaturista se inspirou no troféu da Copa 14.

Ou será que essa associação de ideias entre o capitão e uma derrota acachapante é só birra minha?

 

 

 

Sua Majestade

O Globo online, 3 junho 2022

José Horta Manzano

Por mais alto que seja o pedestal em que está instalada, Sua Majestade é mortal como nós outros. A pergunta não deve ser “se“, mas “quando“.

Corrija-se o texto. Após substituição de “se” por “para quando“, ficará nota cem. (Ou nota mil pela inflacionada escala atual.)

O bicho de muitos nomes

José Horta Manzano

A história do peru é interessante. (Estou falando do peru de Natal, não do país vizinho.) O pássaro é endêmico na América do Norte. Aliás, foi o único bicho voador a ser domesticado na América pré-colombiana.

Os primeiros espanhóis levaram consigo, no regresso, casais dessa ave. Era uma época em que os navegantes não tinham certeza sobre a real localização das novas terras. Os primeiros exploradores acreditavam haver chegado às Índias – daí os nativos terem sido chamados de índios.

Chegando à Europa, a ave, que ainda não tinha nome, foi batizada conforme a lógica de cada país; só que nem todos seguiam a mesma lógica.

França
Os franceses foram provavelmente os mais rápidos a lhe dar nome. Certos de que as novas terras correspondiam à Índia, chamaram a ave de “poule d’Inde” (=galinha da Índia). O nome ficou até hoje. A primeira parte da expressão caiu (poule), mas a segunda ficou. O nome do peru hoje se escreve sem apóstrofo: “dinde”.

Espanha
Os espanhóis hão de ter nomeado o peru mais tardiamente, pois parece que já sabiam que as terras descobertas não eram a Índia. Deram ao bicho voador o nome de “pavo”, em contraposição a “pavo real”, que é o pavão, ave já conhecida.

Inglaterra
Quanto aos ingleses, a história é diferente. Décadas antes da descoberta da América, os portugueses haviam trazido da África um galináceo desconhecido na Europa: a galinha d’Angola. Seu comércio se alastrou pelo norte da África até chegar à Turquia.

Quando o peru apareceu, já fazia tempo que os ingleses conheciam as angolinhas “da Turquia”. Ao ver a nova ave, pensaram que fosse uma variedade de galinha turca. Deram-lhe o nome de “Turkey hen” (galinha da Turquia), posteriormente abreviado para o atual “Turkey”.

Alemanha
Os alemães, provavelmente fascinados pela novidade, não se preocuparam tanto com a origem do animal. Encantaram-se com o som que ela emitia, especialmente quando queria chamar os pintinhos. Aos ouvidos germânicos, o som soou como “put, put”.

Até hoje, usam a forma onomatopaica “Pute” – forma que, para nós, soa francamente bizarra. O animal também é conhecido pelo nome “Truthenne” (=galinha “trut”), sendo que “trut” também é onomatopeia do grito do peru.

Os fãs da Índia
Diversos povos europeus se deixaram levar pela influência francesa. Deram ao peru um nome lembrando a suposta origem. Assim, temos: polonês “indyk”, russo “indeika”, turco “hindi”. Todos eles apostaram numa espécie de galinha proveniente da Índia.

Os mais rigorosos
Alguns procuraram ser ainda mais precisos. Não se contentaram em dar como origem a imensa Índia, mas especificaram a suposta região de origem do bicho.

Com variantes gráficas que refletem as convenções de cada língua, o termo “kalkun” vigora na Holanda e na Escandinávia. Atrás dessa estranha palavra, esconde-se uma região imprecisa, que tanto pode ser Calicute como Calcutá.

Para o europeu da época, tratava-se de uma única cidade. Hoje sabemos que são duas, bem diferentes, situadas a 1.500 km uma da outra, ambas na Índia.

Portugal
Quando os primeiros exemplares da ave foram levados a Portugal, as parcas informações de que se dispunha à época não permitiam identificar exatamente a origem. (No fundo, acredito que ninguém, exceto os importadores, estava muito interessado em saber o caminho e o trajeto da mercadoria.)

O galináceo acabou recebendo o nome do lugar de sua suposta origem: o Peru. Há que lembrar que, naqueles tempos recuados, “Peru” era um nome mágico, designando uma imensa e riquíssima região situada nalgum impreciso lugar da América do Sul.

É curioso notar que a imagem de um lugar fabuloso e abarrotado de ouro e prata persiste numa expressão francesa utilizada até hoje. No francês  coloquial, a exclamação “Ce n’est pas le Pérou!” (= Não é o Peru!) é utilizada quando se quer dizer que algo não é extremamente caro ou valioso.

Pra você ver que o nome daquele riquíssimo país marcou a memória coletiva. Pra nós, é nome de ave. Mas, pelo preço que andam cobrando, faz jus à imagem de riqueza que os antigos lhe atribuíam.

Excesso de precipitação

Carlos Brickmann (*)

O presidente Bolsonaro foi visitar as enchentes de Pernambuco e disse a verdade: que os dirigentes políticos são responsáveis pela tragédia provocada pelas chuvas.

Mas logo voltou ao normal: botou boa parte da culpa na população, “que poderia colaborar também, evitando construir suas residências em locais com excesso de precipitação”.

Ah, esses pobres! Insistem em construir em terrenos ruins. Como preferem comer ossos em vez de uma picanha de R$ 2 mil o quilo. Como fazem questão de morar em lugares sem infraestrutura.

Gente malvada, esses pobres: fazem isso de propósito para se fingir de vítimas e constranger as autoridades.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Livre, justa e solidária

South China Morning Post, Hong Kong (China)

José Horta Manzano

Dou uma vista d’olhos na edição online dos principais veículos da mídia internacional. Em todas as línguas, o mundo continua horrorizado com a tragédia de Pernambuco. Os relatos vêm sempre acompanhados de fotos impactantes e da contagem macabra dos mortos.

Dou uma espiada na edição online dos grandes veículos da mídia brasileira. Na manchete e nas chamadas da página principal, nem um pio sobre as enchentes. Nada. Quem quiser ter alguma informação tem de fazer uma busca. No Brasil, o desastre pernambucano parece assunto encerrado.

Fica a impressão de que, para a mídia nacional, nem Recife nem Pernambuco fazem parte do território brasileiro. É como se a tragédia tivesse acontecido no Nepal ou na Mongólia, num lugar longínquo e pouco interessante.

É verdade que, comparados às seiscentas e tantas mil vítimas da covid, a centena de mortos de Pernambuco parece pouca coisa. Mas não se pode raciocinar assim. Embora “todo o mundo tenha que morrer”, como ensinou nosso capitão, cada um que se vai deixa um rastro de tristeza. Um marido, uma esposa, filhos, amigos, uma família desamparada. Quando não é a família inteira que desaparece ao mesmo tempo.

Fica claro que o Brasil já virou a página dessa tragédia. Eu me pergunto o porquê desse desinteresse. Por que razão esses sinistrados saíram do foco das atenções tão rapidamente? Gostaria que a razão não fosse aquela que estou adivinhando, mas acho que é isso mesmo: porque são pobres.

EuroNews – Edição russa

Não há de acontecer, mas me pergunto se, por hipótese, um desastre semelhante atingisse um bairro de gente fina – como a região da Vieira Souto, da Oscar Freire ou outra equivalente – se a indiferença seria a mesma.

Acredito que todos nós temos a resposta. A olhos estrangeiros, a desigualdade que cinge a sociedade brasileira sobe a níveis inimagináveis. Até tragédias recebem tratamento diferenciado, dependendo da posição social dos atingidos.

O Artigo 3° de nossa Constituição enumera os quatro objetivos fundamentais da República. O primeiro deles é “construir uma sociedade livre, justa e solidária”.

Falta muito pra chegarmos lá. Se é que um dia chegaremos.

Monsieur Pap Ndiaye

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 28 maio 2022

O semipresidencialismo imposto pela Constituição francesa criou um país bicéfalo, em que um presidente (chefe do Estado) convive com um primeiro-ministro (chefe do Executivo). Em teoria, o poder de cada um é equivalente, embora distinto. Na prática, o do presidente é muito maior do que “as quatro linhas da Constituição” lhe atribuem – parodiando expressão em voga em nossas altas esferas. Seu poder é diretamente proporcional à força de sua maioria no Parlamento.

Uma vez reeleito o presidente, a tradição manda que a totalidade dos ministros, incluindo o primeiro-ministro, deem demissão do cargo. O presidente nomeia então novo primeiro-ministro, e a maioria dos ministros são substituídos por caras novas. Foi o que aconteceu estes dias. Entre os estreantes, surgiu um nome vindo da sociedade civil, um cidadão que nunca havia ocupado cargo político. Trata-se de Monsieur Pap Ndiaye, novo titular do Ministério da Educação Nacional.

Sua nomeação provocou uma onda de choque que balançou as estruturas do país. Todos ficaram surpresos, muitos protestaram, alguns se indignaram. Percebe-se até uma não disfarçada revolta proveniente das bordas do espectro político. Faz uma semana que analistas políticos não param de discutir a nomeação. Vamos ver por que razão.

Monsieur Ndiaye é um intelectual brilhante. Seu currículo é de dar inveja a muita gente fina. Ele é diplomado em História pela Escola Normal Superior, o nec plus ultra do ensino universitário nacional. É titular de um doutorado obtido na Escola de Estudos Superiores de Ciências Sociais, onde é palestrante especialista em História dos Estados Unidos e em temas ligados às minorias. É diretor do Museu da História da Imigração. Além disso, seu currículo inclui cinco anos de estudos na Universidade da Virgínia (EUA), onde preparou sua tese de História. É ainda autor de meia dúzia de livros, entre os quais “Obama na América Negra”.

Ninguém contesta a bagagem cultural do novo ministro nem sua capacidade a assumir a elevada função. A grita que se alevanta vem de círculos ultraconservadores (mas não só deles). O problema maior é o seguinte: Monsieur Ndiaye é negro. Sua mãe é francesa e branca, enquanto seu pai é senegalês e negro. O novo ministro nasceu em família atípica. Além de resultar de miscigenação pouco habitual no país, seu pai foi o primeiro negro africano diplomado pela Escola Nacional de Engenharia da França, uma façanha. O ministro se autodefine como “um puro produto da meritocracia republicana”.

Já faz quarenta anos, desde o governo Mitterrand, que a França se habituou a conviver com ministros não-brancos. Já houve ministros da Integração e dos Direitos Humanos negros. Madame Taubira, negra originária da Guiana Francesa, foi titular do cobiçadíssimo Ministério da Justiça durante quatro anos. Nenhum desses personagens foi objeto de rejeição explícita. Por que razão a nomeação do novo ministro da Educação enfrenta uma onda de repúdio tão forte?

É que o ultradiplomado ministro possui duas características incompatíveis aos olhos de muita gente: é negro e pensa, o que é imperdoável. Se tivesse sido nomeado somente para dar um verniz de diversidade ao conjunto de ministros e acrescentar um pingo de cor à foto de grupo, ninguém reclamaria. Mas o homem pensa, e todos sabem disso. Um negro que pensa – e que vai cuidar da Educação Nacional – assusta.

Monsieur Ndiaye é conhecido e respeitado nos círculos universitários. Todos conhecem seus trabalhos e seu posicionamento em defesa dos imigrantes e das minorias. Uma vista d’olhos ao título de seus livros dá uma ideia: “Os negros americanos: da escravidão a Black Lives Matter”, “A condição negra: ensaio sobre uma minoria francesa”, “Os negros americanos: a caminho da igualdade”.

Os que o rejeitam provavelmente nunca leram suas obras. Pouco importa. Um negro dotado de ideias próprias aceitar comandar o Ministério da Educação lhes parece de uma petulância insuportável. No Brasil, essa polêmica parece um exagero, coisa de gringo. Mas há que tomar cuidado. A persistir a palavra de ordem do “nós x eles”, instaurada pelo lulopetismo e insuflada pelo bolsonarismo, em pouco tempo estaremos como a França.