Pior que aqui

José Horta Manzano

Todos nós, os não-devotos, nos escandalizamos com a conduta que Jair Bolsonaro imprimiu a seu governo nos piores momentos da crise sanitária. Temos a impressão de que a maldade do capitão é impossível de ser superada. Desgraçadamente, como diz o outro, nada é tão ruim que não possa ser piorado. Há quem esteja fazendo pior que nosso presidente.

O distinto leitor há de se lembrar com horror da crise de oxigênio em Manaus, quando doentes morriam sufocados enquanto nosso presidente sonegava oxigênio, entregava cloroquina e aparecia nas redes arremedando a asfixia dos moribundos. Pois saiba que a ditadura militar da Birmânia (país que em inglês se chama hoje Myanmar) está superando a crueldade do capitão.

A Birmânia é daqueles países que nunca (ou quase nunca) souberam o que significa democracia. Em 2011, saíram de meio século de ditadura militar. Chegou a normalização, com eleições, como convém a todo país civilizado. Mas durou pouco. Dez anos mais tarde, em fevereiro deste ano, veio novo golpe militar. Seguiu-se novo mergulho nas trevas.

A variante Delta do covid-19 está se alastrando firme e fazendo estrago por lá. Como resposta, o governo ditatorial acaba de proibir a venda de balões de oxigênio às clínicas privadas, assim como a cidadãos comuns. A pena para quem desobedecer é a prisão imediata. Enquanto isso, soldados estão encarregados de confiscar todos os cilindros que encontrarem, visto que a posse deles se tornou “ilegal”. O oxigênio recolhido vai servir para acudir militares e seus familiares doentes de covid.

Apesar de estarem habituados a sobreviver sob ditadura militar, os birmaneses nunca haviam visto uma legislação que evidenciasse tanto a diferença entre a casta dos militares e o resto do povo. Os fardados e seus familiares têm todos os direitos, enquanto o povão é abandonado à própria sorte. Já faz meses que os cidadãos comuns saem em passeata para mostrar insatisfação, mas o regime continua firme e forte. Afinal, são os militares que têm os tanques e as armas.

Outro dia, populares faziam fila em frente a uma fábrica de oxigênio na capital do país. Sob o pretexto de que se tratava de comércio ilegal, chefes militares deram ordem de atirar contra o povão. Com balas de verdade! Ainda não se tem notícia do número de mortos.

É pena que os devotos do capitão não tenham acesso a esse tipo de notícia. Falo dos fanáticos renitentes, aqueles que vivem dentro de uma bolha e que concordam com tudo o que seu mestre diz e faz. Se soubessem que estão sendo usados como massa de manobra e que um dia, no futuro, poderiam até ser metralhados numa fila “ilegal” qualquer, dariam um passo atrás. Mas… a Birmânia é tão longe, não é?

Mal-afamado

José Horta Manzano

Por acaso, caí num canal YouTube indiano (em inglês) que analisa diariamente os acontecimentos do planeta. Cada notícia é descrita em vídeos curtos de 2 a 4 minutos. Imagino que o canal seja popular na Índia, tendo em vista que caminha para um milhão de assinantes.

Naturalmente, tanto a crise de soluços que acometeu o capitão quanto a internação foram objeto de um filminho. Benfeito e legendado, ele explica a atualidade brasileira a um público exótico, que eu imaginava distante e pouco interessado.

Acho que vou ter de rever meus conceitos sobre o interesse que o Brasil desperta do outro lado do mundo. Em 24 horas, o filme já foi visionado por quase 17 mil pessoas e suscitou 90 comentários. Fico imaginando se, Deus o livre, Narendra Modi (o primeiro-ministro indiano) tivesse uma crise de soluços e fosse hospitalizado, qual seria a repercussão no Brasil. Me pergunto se um vídeo em português sobre o caso teria alguma audiência.

Mas o que mais me surpreendeu foram os comentários. Você pensava que, naquelas lonjuras, ninguém estivesse a par do que acontece nesta Pindorama? Engano seu. Nosso capitão não somente é conhecido, como é bem pouco apreciado.

Surpreenda-se e divirta-se com este apanhado de comentários sobre os infortúnios de Bolsonaro.

Hrshv Harey
Ele foi alcançado pelos próprios pecados.

Krapto
Pra que hospitalizá-lo? Ele não é homem forte o suficiente pra superar uns “soluçozinhos”, como ele mesmo diria?

Wam Teng
Ele tinha de evitar essa comida apimentada, brother. Veja como está mexendo com o intestino dele, brother.

Sandeep Singh
Ele era anti-Índia, até que precisou de nossa vacina.

The Reckon
Mais um líder desastroso.

Axioo
Isso é o que acontece quando você é da extrema-direita e destrói a floresta amazônica em vez de protegê-la para o bem do planeta.

Lurking Arachnid
Satan vai levá-lo.

Sahil Balani
Impeachment nele!

Vivek Tamma
Esses soluços vêm da corrupção, acredito.
(Este comentarista está atualizado! Deve estar acompanhando a CPI.)

Gozo The Clown
Soluços fake! Ele está é apavorado!

Raymundo Rebueno
O carma se exprime em diferentes maneiras.

Vikram M
Dez dias de soluços? É certeza que ele está virando jacaré.

Formação insuficiente

José Horta Manzano

Dia 14 de julho, o Painel (coluna de Folha de São Paulo) relatou que:

“Documentos enviados à CPI da Covid mostram que, em setembro de 2020, a consultoria jurídica do Ministério da Saúde foi solicitada a se manifestar sobre o consórcio Covax Facility e disse que o fato de a documentação estar em inglês dificultou a análise porque os servidores não tinham “conhecimento suficiente de tal língua estrangeira a ponto de emitir manifestação conclusiva.”

Para completar a cativante informação, é bom lembrar que o Brasil ainda esperou seis meses para aderir ao consórcio. Só o fez em março de 2021.

Há aí dois graves problemas. O primeiro, nós todos sabemos, é Bolsonaro na Presidência. Que os técnicos do Ministério da Saúde sejam ilustrados ou iletrados não faz diferença nenhuma quando quem dá a palavra final é um psicopata mal-intencionado. Ainda que o pessoal da Saúde fosse bamba em inglês e tivesse conseguido ler a papelada, a adesão ao Consórcio Covax teria sido de qualquer modo barrada pelo capitão.

O outro problema, que salta aos olhos neste caso, é o baixo nível de instrução da população. Como é possível que a equipe técnica da consultoria jurídica de um ministério da República seja formada por indivíduos monoglotas, deficientes em inglês, a lingua franca internacional? Admito que o nível da Instrução Pública nacional deixe a desejar, mas recuso-me a acreditar que não existam, disponíveis no mercado, candidatos de nível adequado. Se eles existem mas não foram contratados, o problema tem nome conhecido: chama-se nepotismo, aquela prática nefasta que leva a escolher funcionários, não pelo grau de conhecimento, mas pelo grau de parentesco. De sangue ou de bolso.

O caso desses documentos que ninguém conseguiu decifrar vai expondo as profundas falhas na Educação Nacional, falhas estas que resultam em distorções no topo da pirâmide. Lula e Bolsonaro são exemplos sintomáticos. Um eleitorado pouco instruído e ingênuo se enamorou pelo ex-metalúrgico, o que nos levou ao desastre de 13 anos de petismo no poder – uma tragédia. Depois disso, tão desgostoso estava o eleitorado, que acabou elegendo o capitão – outra tragédia.

A Instrução Pública, do jeito que tem sido maltratada pelo atormentado governo atual, não vai subir de nível tão cedo. Ainda vamos assistir a muitas rateadas no andar de cima. Episódios como esse da documentação que ninguém conseguia ler não são apenas cômicos. Custam vidas.

Impeachment – atualização

José Horta Manzano

Como se sabe, qualquer cidadão da República pode solicitar a destituição do presidente. Não precisa ser parlamentar nem doutor. Basta seguir direitinho o manual e dar entrada da papelada na Câmara Federal. Em seguida, o desfecho vai depender da boa vontade do presidente da Casa e – principalmente – do clamor das ruas, medido pelos passeatômetros e panelaçômetros do país.

Em fevereiro, publiquei um artigo sobre pedidos de impeachment. Eu comparava o número de requerimentos recebidos pela Câmara Federal durante o mandato de cada um dos presidentes, de Collor até Bolsonaro. Passados 5 meses, a situação evoluiu bastante.

Como diz o outro, nada é tão ruim que não possa ser piorado. Pois o capitão continua descendo a ladeira. Veja só:

Itamar foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 183 dias

FHC foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 108 dias

Lula foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 79 dias

Collor foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 42 dias

Dilma foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 30 dias

Temer foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 26 dias

e agora, senhoras e senhores, o campeão estourado:

Bolsonaro, que, em fevereiro, estava na marca de um pedido a cada 11 dias, melhorou bem o record. Acaba de atingir a média de um pedido de impeachment a cada 7 dias!

Ele segue firme no esforço pra chegar a um pedido por dia!

Como diz Dona Cultura
Todo mal tem sua cura
Água mole em pedra dura

Tanto bate até que fura

Tranquilos, cidadãos! Não falta muito. Qualquer hora, nos livramos do homem.

Canário na mina de carvão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Recentemente um amigo me encaminhou um texto filosófico altamente complexo e me pediu que analisasse sua utilidade para jovens que talvez não dispusessem de todas as referências utilizadas para a argumentação filosófica. Fez questão de alertar que estava me usando como “um canário numa mina de carvão” para saber se ele poderia ser entendido e absorvido por seus alunos.

Pesquisei na internet o significado dessa expressão idiomática da língua inglesa e adorei a analogia. Ela faz referência ao hábito de mineiros de levarem consigo um canário dentro de uma gaiola ao entrarem pela primeira vez num túnel de mina de carvão para verificar se há gases tóxicos dentro dela, como o monóxido de carbono. Dado seu pequeno porte, se houver, o canário morrerá em instantes e servirá de alerta para que os trabalhadores abandonem a mina a tempo.

Senti, sem falsa modéstia, que a metáfora me caía como uma luva. Acredito mesmo que essa foi a missão que me impus desde que me conheço por gente: identificar pessoas, ambientes e relacionamentos tóxicos. Não tenho dom para o auto sacrifício, mas sempre me senti portadora da capacidade de antecipar eventos futuros, especialmente os mais funestos. Desde criança, experimento ondas de choque e vibrações energéticas ao entrar num ambiente ou fazer contato com novas pessoas. É algo intuitivo, que não tem necessariamente a ver com o olhar, tom de voz, gestos, ou postura corporal de quem está diante de mim, nem com a estética, cheiro, modernidade ou organização do ambiente em que penetro. Talvez tenha sido por essa característica que me senti atraída desde muito pequena pelos cachorros, que são mestres na arte de ler a energia dos que estão à sua volta e são extremamente hábeis em antecipar eventos – como “adivinhar” a chegada de seus donos.

Astrólogos de todos os matizes concordam em afirmar que os nativos do signo de Peixes funcionam como uma espécie de mata-borrão, absorvendo prontamente as energias que estão disseminadas no ambiente. É como se, para eles, o ar, de tão denso e pesado, pudesse ser apalpado ou cortado em fatias. Não sei se para minha alegria ou pesar, além de nativa de Peixes, sou catastrofista crônica assumida. Cheiro o ar continuamente em busca de evidências de futuros problemas, transtornos, tragédias, crises e ameaças.

Costumo dizer que nasci com um sistema de alerta embutido na minha alma, que praticamente nunca falha: graças a ele, aprendi a diferenciar as pessoas que representam alguma forma de perigo para mim e as que são benfazejas almas gêmeas, contatos prováveis de vidas anteriores. Claro que essa capacidade me serve de importante guia nas relações pessoais e profissionais mas, ao mesmo tempo, é inegável fonte de angústia permanente.

Além da ansiedade para confirmar ou desmentir o que minha intuição indica e que contamina todas as atividades e planos do meu dia a dia, vale lembrar que é bastante difícil encontrar pessoas que disponham desse mesmo radar de navegação na vida. Assim, não é nada incomum que minhas previsões pessimistas causem desconforto e irritação em terceiros e me preguem um rótulo de prepotência, como se eu me apresentasse sempre como uma sensitiva “iluminada” que menospreza a falta de inteligência ou de sensibilidade dos demais.

Quando Bolsonaro se apresentou como candidato à presidência, minha imensa repulsa a suas crenças pessoais e a seu comportamento político ditatorial, irracional, desrespeitoso e obscurantista me induziu a escrever uma série de artigos antecipando a tragédia que se avizinhava caso ele fosse de fato eleito. Imediatamente após a eleição, produzi outro tanto de textos denunciando suas primeiras iniciativas macabras, bem como a desastrada escolha de seus ministros. Um dos textos que mais causaram furor entre conhecidos e desconhecidos foi o que levou o título de “Torço para que não dê certo”.

Reproduzo abaixo a introdução: “Não vou dizer ‘bem feito’, ‘bem que eu avisei’, nem ‘só você não percebeu que ia dar com os burros n’água’ para nenhum amigo meu, real ou virtual, que tenha achado que valia a pena eleger a geringonça que nos desgoverna hoje… Minha recusa em aderir ao bolsonarismo também tinha pouco de racional. Era e continua sendo uma questão instintiva, um alerta recebido pelos meus sensores de que a tragédia da volta dos anos de chumbo nos esperava logo adiante” [maio de 2019].

Na ocasião, recebi mais de 70 comentários irados que me acusavam de estar torcendo contra o Brasil e me convidando a ir experimentar as “delícias” dos países comunistas no que se refere à liberdade de expressão. No limite do ódio ao pensamento divergente, uma amiga próxima dos tempos de escola sugeria sem meias palavras que eu caísse e quebrasse o pescoço, sendo apoiada por mais 3 ou 4 pessoas das minhas relações. Hoje, assistindo ao derretimento do apoio dado ao inominável “capetão”, me pergunto o que diriam essas mesmas pessoas quanto às chances de o país voltar aos trilhos da prosperidade e da conciliação dos espíritos sob o comando de mais um tirânico salvador da pátria.

E é também quanto à eleição presidencial de 2022 que meus instintos de canário em mina de carvão alertam: estamos prestes a aprofundar ainda mais o buraco em que nos metemos caso o eleitor médio continue descartando a seu bel prazer candidatos moderados/menos conhecidos no primeiro turno só para forçar uma escolha praticamente impossível de ser feita no segundo turno entre dois extremos igualmente indesejáveis. A tese segundo a qual basta votar no “menos ruim” ou no único com condições de peitar e derrotar o atual presidente é, além de irracional, prova inconteste de falta de consciência política e de amadurecimento da cidadania. Votar em quem deve sair – herança maldita dos reality-shows – e não naquele que apresenta um plano factível para recuperar a dignidade da governança federal é receita mais que certa de desastre.

A ansiada “terceira via” não vai surgir do nada, como por milagre. Ela precisa ser pacientemente construída apontando nomes com os quais cada um mais se identifica, examinando desde já o curriculum dos candidatos disponíveis, analisando em profundidade a viabilidade (política e econômica) de suas propostas, identificando a compatibilidade entre as próprias crenças e valores políticos com os do candidato e, acima de tudo, lembrando que a república brasileira está alicerçada em três poderes que devem atuar com autonomia mas harmonicamente. Acreditar que só o Executivo pode dar todas as respostas de que precisamos, ignorando as pressões e obstruções do legislativo e do judiciário, é outra ilusão perigosa que pode nos matar asfixiados logo após o pleito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Elefantes, ursos e leões

by Sibylle Heusser (1974-), artista suíça

José Horta Manzano

Vestígio do Império Romano, a presença de animais no circo ainda perdura em muitos países ao redor do planeta. Dois milênios atrás, a graça do espetáculo era a entrega de cristãos às feras. Desde que a maioria da população adotou o cristianismo, a brincadeira perdeu a graça. O sofrimento hoje é infligido diretamente às feras, sem intermediários. E são os cristãos que se divertem.

No circo, os animais selvagens são obrigados a levar vida reclusa, a morar em cubículos enjaulados, a comer o que lhes dão (se lhes dão) e a desempenhar movimentos que vão contra sua natureza. É uma rotina de sofrimento que não condiz com os princípios deste terceiro milênio de civilização.

Na Europa, uma trintena de países já legislaram para acabar com esse anacronismo. Entre outros, Inglaterra, Holanda, Croácia, Bélgica, Itália, Sérvia e França proíbem ou restringem fortemente a presença de animais selvagens em circos. Nas Américas, diversos países pequenos já baniram esses espetáculos. Entre eles estão: Panamá, Peru, Honduras, Guatemala, Costa Rica, Bolívia e Paraguai.

No Brasil, a meu conhecimento, nada foi feito. Nosso processo civilizatório avança a passo lento. Estamos a meio caminho entre a Antiguidade Romana e a modernidade. Se ainda engatinhamos em matéria de direitos humanos, na questão de direitos dos animais estamos em plena Idade Média. Há de chegar também – quanto mais cedo melhor – o dia em que devolveremos essas feras à floresta, que é o ambiente de onde nunca deviam ter saído.

Mas antes disso temos urgência mais premente. Faz dois anos e meio, armou-se em Brasília um circo de horrores. No picadeiro, agita-se um bando de criaturas ferozes. São todas súditas voluntárias de um capitão-tratador. Exibem dentes pontiagudos, mas ideias truncadas. Vivem enjauladas dentro da própria mente apertada.

Temos de lutar pela liberação dessas pobres criaturas. A porta das jaulas tem de ser aberta para elas escaparem e retornarem à insignificância de onde nunca deviam ter saído. E que levem junto o capitão tratador. Visto o nível de selvageria de todos eles, encontrarão perfeito refúgio na floresta virgem. Se ainda tiver sobrado alguma depois que a boiada passou, naturalmente.

Reeleição?

José Horta Manzano

“Bolsonaro não irá para o segundo turno porque os bolsonaristas, ao verem que o eleitor circunstancial de 2018 nem sonha em repetir o seu voto em 2022, vão aplicar a teoria dos jogos e debandar para o candidato que se mostrar mais viável, do meio para o final do primeiro turno. Com isso, Bolsonaro vai minguar. Não se elege nem para síndico e terá a votação mais inexpressiva da história moderna para um candidato à reeleição na América Latina.”

A forte afirmação é de alguém que entende do riscado. As palavras são de Marcos Carvalho, principal marqueteiro da campanha de Bolsonaro em 2018, que, como tantos outros colaboradores de primeira hora, caiu em desgraça logo depois da eleição, escorraçado por um dos bolsonarinhos – aquele destrambelhado que é vereador.

Quem tiver curiosidade de ler o artigo da Revista Piauí na integralidade, aproveite, que hoje está em promoção. Em acesso livre aqui.

Um pouco d’arte ― 143

Sobrado com muxarabiê – Rua da Imperatriz (hoje XV de Novembro)
Na São Paulo do século 19, imaginada pelo artista paulista José Wasth Rodrigues (1891-1957)

 

O muxarabiê mencionado na imagem é palavra de origem árabe, que entrou em nossa língua através do francês. Designa um tipo de treliça que fechava algumas sacadas de antigamente. Por um lado, protegia contra o sol; por outro, permitia ver sem ser visto. Desaparecido o objeto, a palavra também se aposentou.

Velhacos, nossos e alheios

Ruy Castro (*)

Todos os dias, políticos, governantes e empresários são flagrados em alguma sujeira e tachados de irresponsáveis, corruptos, venais ou coisa pior. Um ou outro, isoladamente, pode chamar seu acusador a se explicar, mas nenhuma dessas categorias tem audácia ou esprit de corps suficiente para reagir em bloco contra a imprecação. Quando, digamos, Jair Bolsonaro e seus filhos são chamados de assaltantes dos cofres públicos pela prática da rachadinha, os políticos não se juntam para emitir uma nota ameaçando a democracia. Aliás, nem os próprios aliados deles os defendem – não são suicidas.

Mas, se um general de escrivaninha é declarado suspeito de algum malfeito e isso é confirmado por uma série de testemunhas, o azedume corre os quartéis. Se essas suspeitas atingem também alguns coronéis e tenentes-coronéis de suas relações, os militares espumam, falam em desrespeito às instituições e insinuam que vão mandar lubrificar o canhão.

E por que, ao contrário das outras categorias, fazem isso? Porque eles têm o lubrificante – e o canhão. Os militares se julgam diferentes de nós, os paisanos. E são mesmo. A farda lhes dá imunidades e privilégios com que nem sonhamos. Eles têm, por exemplo, seus próprios e generosos planos de carreira, saúde e previdência e até a capacidade de se administrar leniente Justiça. Sua autossuficiência só não é total porque dependem de nós, os paisanos, para sustentá-los com nossos impostos.

Por se verem tão acima de si mesmos, os militares não deveriam rebaixar-se a privar com determinados políticos, negociantes, contrabandistas, atravessadores, reverendos, cabos da polícia e outros espécimes típicos do governo Bolsonaro, muito menos em negócios envolvendo milhões de dólares e vidas.

Se privam, deixam de ser diferentes e arriscam-se a serem tratados por nós com a mesma sem-cerimônia com que nos referimos aos nossos velhacos.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

A Coreia e a vacina

by Stéphane ‘Kadran’ Maignan, desenhista francês

José Horta Manzano

Assim que a pandemia de covid começou a se alastrar, Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte, tomou decisão drástica: mandou fechar as fronteiras. Fechar as fronteiras é redundância de expressão, que o país já vive trancado feito cofre-forte.

A linha de demarcação entre as Coreias do Norte e do Sul é uma das zonas mais vigiadas do planeta, permanentemente fechada e impermeável. Quanto às demais fronteiras, somente uma ponte comunica o país com a Rússia e outra, com a China. O resto dos limites está em regiões montanhosas e pouco habitadas.

Em cumprimento da ordem, as fronteiras foram fechadas. E nada mais passou: nem vírus, nem gente, nem mercadorias. Desde que a vacina ficou pronta, a Rússia ofereceu o imunizante, em diferentes ocasiões, à Coreia do Norte. A oferta foi sempre recusada. (Essa recusa faz lembrar a atitude de nosso capitão, pois não?) Paranoico como todo autocrata, o coreano Kim (que morre de medo de ser envenenado) não quis nem ouvir falar.

Só que tem um problema. A Coreia do Norte está longe de ser autossuficiente em alimentos. Não sobrevive sem os víveres que compra no exterior, principalmente na vizinha China. Sem serem repostos, por causa do fechamento das fronteiras, os estoques estão minguando e a penúria alimentar ameaça se instalar.

Descomplexado, o ditador já mandou alertar a população que vá se preparando, porque tempos difíceis vêm aí. Na verdade, tudo indica que o país está prestes a atravessar um estado de fome igual ao dos anos 1990. Naquele período terrível, calcula-se que até 3,5 milhões de coreanos tenham morrido de fome. Isso equivale a 15% da população do país à época. É como se, de repente, a desnutrição levasse 30 milhões de brasileiros.

Os russos continuam insistindo na oferta de vacinas, mas o governo norte-coreano não quer saber. Prefere deixar morrer uma parte da população, mas recusa-se a dar o braço a torcer e a confessar que precisa de ajuda estrangeira.

A visão que o ditador Kim tem do próprio povo é semelhante à de nosso capitão. Para ambos, o povo é uma simples variável de ajuste. Se morrerem alguns milhões, não faz diferença para eles. Ambos rejeitam a imunização da população. As razões de cada um podem ser diferentes, mas o resultado é o mesmo.

No Brasil, temos sorte de nosso regime “aproveitadorial” não ter (ainda) virado ditatorial. Os aproveitadores de sempre continuam aproveitando para sugar impunemente o fruto do trabalho de todos. O caso norte-coreano deveria nos servir de exemplo do que pode acontecer a um povo entregue nas mãos de um psicopata.

Em casa

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

A Eurocopa – o equivalente europeu da Copa América – está chegando ao fim. A final, programada para domingo no Estádio de Wembley (Londres), será entre Itália e Inglaterra.

Os ingleses, que não chegam à partida final de um torneio importante desde 1966, estão animadíssimos, com sede de vencer. Desde que se classificaram para o último jogo, a palavra de ordem em Londres é: “Football is coming home”. Na lata, os italianos replicam: “Football is coming Rome”.

O Brasil não inventou a cretinice

Martha Batalha (*)

A cretinice é antiga, e contemporânea. Enquanto o Brasil é impedido de tirar do poder uma quadrilha de milicianos devido a um congresso e a juízes comprados, Steve Bannon, estrategista político que ajudou Trump a vencer as eleições, criou uma escola de formação de líderes populistas.

Cinco mil pessoas de todo o mundo se inscreveram para participar. Cinco mil cretinos, dos quais setenta e dois foram escolhidos para aprenderem os fundamentos dos governos populistas e se tornarem líderes de extrema direita em seus países.

O nome do curso é Escola de Gladiadores. O nome do órgão que coordena o curso é Instituto para a Dignidade Humana. Existe algo mais cretino do que sugerir que a dignidade do mundo será alcançada através do empenho de gladiadores? Imagino alguns ensinamentos, como convencer eleitores de que as notícias são mentira e que as mentiras são notícia. Ou gritar “Comunista!” para qualquer pessoa que questione o que é dito.

(*) Martha Batalha é jornalista e escritora. O texto foi extraído de artigo publicado n’O Globo em 7 jul° 2021.

Passatempo

José Horta Manzano

Faz 35 anos, tive um colega de trabalho chamado Joel, quase um menino na época. Depois disso, nos perdemos de vista. Já há de estar um senhor, quem sabe até avô. Remexendo em meus guardados, encontrei um enigma que ele tinha me dado para publicar no jornalzinho interno da firma. A solução não é fácil, mas também não é extremamente difícil. Basta um pouco de paciência e atenção.

Achei que valia a pena ressuscitar o papel que dormiu tanto tempo numa gaveta, e passar adiante aos distintos leitores – ‘compartilhar’, como se diz hoje.

O problema se apresenta sob forma de uma cartinha escrita ao tempo em que telefone era precário e celular não havia. Ocultos por entre as palavras do enigmático recado, estão os nomes de 11 estados e 13 capitais de estados brasileiros. Aos curiosos, deixo a tarefa de descobrir.

Quem encontrar tudo direitinho ganha uma passagem rodoviária Boa Vista – Caracas, ida simples. O bilhete está vencido, mas o que importa é participar.

Dou a solução amanhã e desejo a todos um bom exercício de decifração.

Observação
Duas palavras contêm um errinho. Mas deixei assim pra não desmanchar o esconderijo de dois nomes ocultos. Por seu lado, uma das capitais aparece duas vezes – não é erro, é abundância.

Brasília, 25 de abril de 1984

Amigo Iasias,

Respondo-lhe num recado simples, pois estarei com você no domingo, respirando a doce aragem da fazenda. Aqui em casa, todos brigam para acompanhar-me, parecendo a Torre de Babel em pleno século XX. Só vendo para crer.

O Vitor ia comigo, mas nesta semana, tal como na outra, terá provas na escola. Sob pressão, Paulo concordou em ficar em companhia dos irmãos e da mãe. Ele foi até a praia, onde sua mulher, Vilma, ceiou. Eu me aborreci ferozmente com todos esses acontecimentos e agora felizmente encontrei o consolo que me conforta, lezado que estava em minha tranquilidade. Pensei até em exasperar-me, mas bah!, ia ser inútil.

Das encomendas que você fez, mando-lhe somente resina e o inseticida para caju. Segue tudo sob a guarda do portador desta, que é João, pessoa contratada para a limpeza da lagoa seca. O restante levarei comigo.

Chegarei sábado à noite e pousarei na pensão Luisiânia, seguindo no domingo cedo para a fazenda.

É pensamento meu acampar aí bastante tempo (até a festa do Divino Espírito Santo), andar por toda a fazenda, para na volta fazer um balanço completo das atividades realizadas.

Compre-me um par de rubis para fazer brincos, para a mana usar no seu casamento. Como presente ao cunhado, ofereci festa de despedida de solteiro.

Um abraço do sócio e amigo,

Salvador Amin Assunção

Mesmo expediente

José Horta Manzano

A Teoria da Ferradura é atribuída ao filósofo francês Jean-Pierre Faye (1925-). Essa interessante análise do tabuleiro político sustenta a hipótese de que a extrema-direita e a extrema-esquerda não são as duas extremidades de um espectro político linear e contínuo, mas se aproximam e se assemelham. É como se formassem as duas extremidades de uma ferradura – daí o nome da teoria.

Por essa tese, extrema-direita e extrema-esquerda estão mais próximas uma da outra do que ambas estão do centro. A ideia é atraente e parece ser a razão pela qual líderes extremistas têm, com frequência, atitudes paradoxalmente semelhantes. Não será sem razão que a sabedoria popular costuma dizer que “os extremos se encontram”.

No tempo em que ainda era um obscuro candidato à Presidência desconhecido do eleitorado, Bolsonaro já denunciava o resultado das urnas. Durante a campanha, persistiu. E mesmo depois de eleito, numa impressionante demonstração de fixação mental, contestou os resultados da própria eleição que ele havia vencido! Estonteante.

De olho nas próximas eleições, para as quais as sondagens não lhe são favoráveis, o capitão parece já estar preparando terreno para futuras reclamações. Não perde ocasião de denunciar a vulnerabilidade das urnas, segundo ele, à mercê do primeiro pirata que se dispuser a violá-las.

Em 27 de setembro de 1994, o Lula estava em sua segunda campanha presidencial. Já na reta final, as pesquisas eleitorais não lhe eram favoráveis e punham FHC à frente. Entrevistado pela CBN, Lula lançou seu ataque preventivo. Exatamente como o capitão faria 25 anos mais tarde, denunciou fraude futura. Desdenhou: “desviar dois ou três milhões de votos neste país é mais fácil que tirar pirulito de criança”. Em seguida, deu uma aula magna da arte de bem fraudar uma eleição. Utilizou uma tática que, anos depois, seria captada pelo capitão.

Analisamos aqui o comportamento de dois homens políticos situados nos extremos do espectro – um à direita, outro à esquerda. Apesar dessa distância, a reação dos dois, quando um fracasso eleitoral se aproxima, é idêntica. A explicação está no fato de todo líder extremista ser um autocrata no fundo da alma. Convencido de haver sido designado pelos deuses, ele não concebe perder uma eleição. Dado que é “imbatível” e “imorrível”, se perder, só pode ter sido por culpa alheia, nunca por falta de votos.

A crença no super-homem ungido pelo Altíssimo é comum aos extremos do espectro político. Na ponta da ferradura, esquerda e direita se encontram e mostram que não passam de duas faces de uma mesma moeda, embebidas de autoritarismo, de truculência, de arrogância. Tudo isso temperado com fortes doses de ignorância, ingrediente indispensável e amplamente utilizado na política nacional.

Hipocrisia da grossa

José Horta Manzano

No jogo do bicho, o veado leva o número 24. Na primeira metade do século 20, quando não havia as numerosas modalidades de loteria que há hoje, o jogo do bicho era parte integrante da rotina de todos os cidadãos. Homens e mulheres, velhos e jovens, ricos e pobres, todos faziam sua ‘fezinha’ (de , não de fezes). Mesmo proibido – ou talvez exatamente por isso –, o jogo sempre foi apreciado.

Com o passar do tempo, a rotina da “fezinha” perdeu um pouco de força, mas a síndrome do número 24 continua firme e forte. Na linguagem popular do Brasil, não sei por que razão, o homem homossexual é chamado de veado. A partir daí, surgiu uma amálgama: homossexual = veado = 24. Essa tríade está ancorada na cabeça de todos.

Para um adolescente, faixa etária em que a personalidade ainda não está suficientemente firme pra resistir a certas pressões, ser designado pelo número 24 – na lista de chamada na escola, por exemplo – pode ser um peso difícil de carregar. Chacotas, zombarias, brincadeiras de mau gosto são um tormento quotidiano.

Pra evitar aborrecimentos, o brasileiro costuma fugir desse número. Não sei se, nas escolas do Brasil, a lista de chamada ainda atribui um número a cada aluno. Também não sei se o 24 é pulado. O que sei é que, certamente na preocupação de evitar constrangimento para os selecionados, a CBF não dá a camisa 24 a nenhum jogador.

Outro dia, um grupo LGBT que se sentiu ofendido com a ausência do 24 nas camisas da Seleção, entrou com ação judicial requerendo que a CBF informasse a razão do sumiço. Quando li a notícia, me pareceu zombaria. Como é que é? Não sabem por que razão nenhum jogador de futebol quer saber de camisa com esse número? Só pode ser brincadeira.

Não, não era brincadeira. E a demanda subiu até o Supremo que, parece inacreditável, acolheu o pedido. E deu 48 horas à CBF para explicar a razão de o número ser sistematicamente pulado. A explicação veio, num exercício de malabarismo em corda bamba, complicado de escrever, de ler e de entender.

Continuo sem atinar com os motivos que levaram o tal grupo de defesa dos interesses LGBT a proceder como o fizeram. Não percebi direito onde está a ofensa à causa da diversidade sexual. Me parece mesmo é falta do que fazer, com pinceladas de hipocrisia pesada. Da próxima vez, devem aproveitar o embalo e questionar a mais alta corte americana sobre a inexistência de 13° andar em numerosos edifícios americanos. Se defendem o direito à existência de todos os números aqui, deveriam fazê-lo ali também. Ou não?

Pra quem perdeu um capítulo, está aqui:

A demanda do grupo LGBT que acusou a CBF de homofobia (!)

O contorcionismo verbal da CBF para explicar sem dizer a verdade.

Tuíte – 21

José Horta Manzano
O Google não mente?

Pesquisas no Google valem o que valem. Não há garantia alguma de resultado acurado. Assim mesmo, ainda que não se possa jurar por elas, sempre dão uma indicação geral.

Acabo de fazer uma experiência caseira. Associei o termo “corrupto” ao nome dos presidentes do Brasil dos últimos 25 anos e chequei no Google quantas menções aparecem. O resultado foi um tanto surpreendente. Eu não teria apostado que aparecessem nesta ordem:

 

Dilma corrupta     :    280’000 menções

FHC corrupto       :    622’000 menções

Temer corrupto     :  1’460’000 menções

Lula corrupto      :  1’880’000 menções

Bolsonaro corrupto : 12’000’000 menções

Interessante, não é? O mais mencionado, vencedor por ampla margem, é justamente o capitão.

O nome de Bolsonaro associado à palavra “corrupto” aparece 6 vezes mais que o nome do Lula nas mesmas condições. E olhe que Lula e Temer passaram pela casa prisão, fato que aumenta a probabilidade de serem vistos como corruptos.

Bolsonaro (ainda) não passou pela Papuda. Talvez um dia. O mundo dá voltas.