Va-t-en guerre

José Horta Manzano

Os franceses dizem que alguém é «va-t-en guerre» (vai à guerra) quando essa pessoa é briguenta, daquelas que, quando veem uma confusão, já entram batendo pra só em seguida perguntar o que aconteceu. Entre o diálogo e o enfrentamento, o «va-t-en guerre» sempre dará preferência à solução forte. Hillary Clinton era vista como pertencente a esse grupo de valentões e essa tendência de madame há de ter contribuído para sua derrota nas últimas eleições.

Acabo de ler uma pesquisa feita por Ideia Big Data sob encomenda do Estadão. Buscava-se conhecer a opinião do brasileiro sobre a atitude que nosso país deve assumir diante da crise venezuelana. Foi perguntado aos entrevistados se acreditavam que o Brasil deve intervir militarmente pra depor Nicolás Maduro.

Sem pesquisa, eu teria lascado que nove entre cada dez compatriotas querem ver a pátria longe desse tipo de aventura. Afinal, somos alegres, sorridentes e pacíficos. Ou não? Pois fique sabendo, distinto leitor, que… não! Não é bem assim.

Foram 1300 entrevistados em todo o país. Praticamente metade deles (46%) são de opinião que o Brasil deve, sim, intervir militarmente na Venezuela. É um volume de gente impressionante. Nem doutor Bolsonaro, aquele que anda de braço dado com o lobby dos fabricantes de armas e que bate continência até pra porteiro de hotel, ousou pronunciar-se por esse tipo de solução.

Nessas horas, me divirto a imaginar que vou andando por uma rua cheia de gente. À medida que cruzo os passantes, vou contando: este é a favor, este é contra, este é a favor, este é contra. Metade dos compatriotas! Um pasmo! Estamos longe da imagem do Zé Carioca, o brasileiro esperto, mas gentil e inofensivo.

Sinceramente, não imaginava que o brasileiro fosse tão va-t-en guerre. Acredito que a existência desse espantoso contingente de belicosos possa ser atribuída ao perfeito alheamento da população. Por um lado, dado que o último conflito travado em território nacional foi a Guerra do Paraguai (1864-1870), ninguém faz a menor ideia do que seja viver em país em guerra. Devem ter uma visão romântica e acreditar que tudo se passa como nos videojogos (em português: video games). Por outro lado, desconhecem o fato de as forças armadas venezuelanas estarem superbem equipadas.

Se pensam que uma aventura venezuelana seria como um passeio à beira-mar, enganam-se. Que tal alguns mísseis de fabricação russa explodindo contra metrópoles brasileiras? Será que nossos va-t-en guerre pensaram nisso? Um alienamento desse porte cai bem nos coreanos do norte, gente que sofre lavagem cerebral permanente e vive numa realidade paralela. Mas no Brasil? Quem diria…

Aposta errada

Ruy Castro (*)

As forças que, há um ano, se juntaram para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência devem estar se perguntando hoje se não teria sido melhor ficar com a primeira opção, o cabo Daciolo. Na época, ainda longe da largada, Bolsonaro e Daciolo, cada qual em seu box, pareciam focinho com focinho nas preferências. Ambos preenchiam os requisitos: eram carismáticos, primários e quase medievais.

A ideia era a de que qualquer um deles, se eleito, faria uma simpática figuração no Planalto enquanto o país seria gerido pelos profissionais – os quais, depois de milhares de reuniões-hora em suas instituições, já tinham tudo esquematizado: abertura, reformas, volta da economia. Ao presidente, caberia uma agenda que o manteria ocupado e à distância da única arma perigosa ao seu alcance: a caneta.

Mas, já na campanha, Daciolo começou a assustar os apoiadores. Em vez de prometer salvar o Brasil, fazia de cada 15 segundos na TV uma versão pocket do Sermão da Montanha. Sua voz, amplificada por anos de salmos em quartéis de bombeiros, era “assertiva” demais. E, pela frequência com que dava Glória ao Senhor Jesus, era como se tivesse o WhatsApp do homem e somente a Ele daria satisfações no mandato.

Os apoiadores voltaram-se então para Bolsonaro, com seu jeito de matuto simplório. No poder – pensaram –, enquanto ele brincasse de capitão dando ordens a generais, eles tratariam do país.

Bem, Bolsonaro foi eleito e fez o que eles não esperavam: resolveu usar a caneta. Diz os maiores absurdos, toma decisões irresponsáveis, provoca incêndios que o próprio governo tem de apagar, quer acabar com a educação e o ambiente, tem três filhos dementes e se deixa guiar por um esperto que está vivendo algo nunca sequer sonhado: dirigir o país por controle remoto. Resultado: erraram feio. Daciolo talvez fosse melhor – mesmo com Jesus Cristo como vice.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Brinquedo ressuscitado

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que patinete era feito de madeira. E preferia o gênero masculino: O patinete. E não andava sozinho, era movido a feijão e dependia da batata da perna. E era exclusivamente reservado para crianças de até 8 ou 10 anos. E, no meu caso pelo menos, tinha de ser vermelho. Hoje mudou.

Já faz alguns anos que o antigo brinquedo foi ressuscitado, numa prova de que o mundo dá voltas e os acontecimentos acabam se repetindo. Só que agora, motorizado, o simpático biciclo deixou de ser brinquedo para crianças. Quem sobe em cima agora são marmanjos.

Patinete (que costumava ser usado por crianças) e monociclo (que costumava ser usado por palhaços) proliferam atualmente. Ainda não enquadrados pela regulamentação viária, fazem como os primeiros veículos motorizados que circularam 120 anos atrás: rodam desordenadamente por onde bem entendem. O fenômeno não é só brasileiro mas mundial. Por toda parte, o problema é o mesmo: esses novos meios de transporte individual não se encaixam em nenhuma categoria de veículos. Assim, circulam como bem lhes agrada.

A França em geral e Paris em especial se ressentem do problema. Esses miniveículos mostram-se invadentes. Dezenas de acidentes graves já foram registrados, sempre envolvendo atropelamento de pedestres. As vítimas são em muitos casos pessoas idosas, cujos ouvidos já perderam a acuidade e cujos reflexos não são mais tão alertas.

O Código de Circulação francês está sendo modificado para incluir os novos veículos. Dentro em breve, eles não poderão mais circular na calçada. Terão de utilizar a faixa de bicicleta – se houver. Caso não haja, rodarão na rua. A velocidade está limitada a 25km/h. O transporte de passageiro será rigorosamente proibido, assim como a utilização por condutor com menos de 8 anos de idade. Conduzir em estado de embriaguez também é proibido. Quem for apanhado em infração, receberá multa de 135 euros (600 reais), um montante dissuasivo.

Detalhista e burocrático, o Estado francês já preparou longa lista de podes e não-podes. Uso do capacete, farol dianteiro, farol trazeiro, gestos para indicar mudança de direção, estacionamento estão entre os pontos tratados. Queira ou não, o Brasil terá de seguir o mesmo caminho. Quantos acidentes graves serão necessários pra pôr em marcha a máquina legislativa?

Qual é seu nome?

José Horta Manzano

Todo o mundo sabe que não convém mexer em time que está ganhando. Bolo feito pela receita da vovó sai sempre bom. Então pra que mudar o que está dando certo? Nome de firma, por exemplo, só se muda em dois casos: quando o nome já não bate com a atividade da empresa ou quando o negócio está indo pra trás.

Curiosamente, uma alteração que, no começo, salta aos olhos como jogada esperta pode acabar funcionando mais adiante. Na hora em que o nome é mudado, a esperteza fica muito evidente, quase incômoda. No entanto, passando o tempo, a gente acaba se esquecendo do nome antigo e adotando o novo. Vai para o esquecimento também a carga negativa que pesava sobre o nome antigo.

Tivemos um caso famoso de empresa que procurou nome novo quando o antigo ficou obsoleto. É a Sadia Transportes Aéreos, empresa que começou transportando salsicha e, quando passou a levar também passageiros, achou que não ficava bem uma companhia aérea com nome de frigorífico. O nome foi mudado para Transbrasil, empresa hoje falecida.

Em 2002, a companhia aérea Swissair foi à falência. Sua sucessora, que renasceu das cinzas após boa injeção de dinheiro do contribuinte, teve de encontrar nome novo. Um genial marqueteiro canadense, contratado pela módica soma de três milhões de dólares, bolou o extraordinário nome novo: Swiss. Um achado!

Partidos políticos – não só no Brasil – são fregueses dessa prática. Quando as coisas vão mal e os eleitores minguam, muda-se o nome. Costuma dar certo. Em pouco tempo, a população se esquece da sigla antiga. Vão-se as mágoas para o esquecimento. Já faz vários anos que o antigo PFL, que guardava o peso de ter sido braço do regime militar, se desfez do nome antigo e adotou DEM. Hoje, pouca gente se lembra.

Qual é seu nome?

O maior partido francês de extrema-direita, o Front National (Frente Nacional) suavizou seu ideário nos últimos anos. Deixou um pouco da ferocidade e adotou um discurso mais sorridente, com vistas a arrebanhar mais eleitores. Mudança de nome era indispensável. Tornou-se o Rassemblement National (Agrupamento Nacional). De propósito, muitos ainda insistem em chamá-lo pelo nome antigo. Mas a nova denominação vai se impondo pouco a pouco.

Nesse particular, a mais recente novidade entre nós é a intenção do MDB de adotar nome novo. Se acontecer, será a quarta denominação do partido, que já foi MDB, virou PMDB e voltou a ser MDB. Segundo alguns caciques, a mudança se faz necessária dado que o partido anda muito desgastado. Saiu magrinho das últimas eleições. Perdeu a presidência da Câmara e do Senado e, se bobear, vai acabar mergulhando no magma do baixo clero. Cogita-se que o novo nome pode ser Movimento. Original, não é?

Algum parlamentar, preocupado com nossas misérias humanas de cada dia, bem que podia entrar com projeto de lei permitindo que todo cidadão troque de nome quando quiser. Assim, quando a gente estiver chateado e tomar a decisão de começar vida nova, vai poder entrar no novo ciclo de alma lavada, com pé direito e… com nome novo. Não seria bom?

Tomara que caia

José Horta Manzano

Pouco comentada, uma marcante diferença de comportamento entre europeus e brasileiros é a facilidade com que estes últimos se desvestem em público para mostrar partes íntimas do corpo. Não sei de onde vem essa tendência nacional. Um primeiro pensamento pode ver a origem em nosso clima quente, mas duvido.

Embora a maior parte da Europa tenha clima frio, o verão costuma ser agradável e até escaldante em certas regiões. Multidões procuram o sol à beira d’água e se vestem em traje de banho, como manda o figurino. Mas nossa roupa de praia é sempre mais ousada que a de outros lugares. No Carnaval, nossas afrodescendentes de tez clara (antigamente conhecidas como mulatas) rebolam com menos roupa do que qualquer europeia em qualquer desfile.

1979 – Lula fazendo seu strip-tease

Nossa sem-cerimônia não se restringe às praias ou aos desfiles de Carnaval. Todas as camadas da população agem assim em muitas ocasiões. «Oia aqui, ó» – diz a moça conversando no ônibus com a vizinha de banco. E, sem a menor inibição, levanta a blusa pra mostrar a pinta ou a cicatriz à amiga. A cena, que no Brasil passa batida, é impensável em outras terras.

2019 – Camisa arregaçada, Bolsonaro faz seu show debaixo dos holofontes

Atualmente é de constatar que nem o exercício de altas funções é imunização contra essa falta de freios. Recentemente, dois dos maiores defensores da pudicícia pátria não hesitaram em arregaçar manga e camisa pra mostrar parte do corpo em cadeia nacional. Esse «oia aqui» do andar de cima foi protagonizado pelos doutores Bolsonaro e Weintraub, respectivamente presidente da República e ministro da Educação. É interessante notar que a arregaçada veio de dois ardentes defensores da pureza da alma nacional, sempre prontos a nos proteger contra ideias ou imagens indecorosas.

2019 – Weintraub deixa cair a camisa e mostra o ombro

Não foi espetáculo conjunto – cada um fez o strip-tease no seu canto, por razões pessoais. O atentado cometido na mesma semana pelos dois figurões é atitude inconcebível em qualquer personagem público da Europa. Nas muitas décadas que tenho vivido deste lado do mundo, nunca assisti a nada parecido.

Um dirigente de alto coturno deveria entender que, quando se pronuncia, a plateia, em princípio, não está ali pra conhecer os detalhes do que lhe vai sob a roupa. A meu ver, essa exibição de pelanca é de mau gosto e está fora de contexto. Ou talvez seja rabugice minha, vai saber.

1946 – Rita Hayworth de tomara que caia

Nota para os mais jovens
O ‘tomara que caia’ que aparece no título é reminiscência de moda feminina surgida lá pelos anos 1940. O vestido ‘tomara que caia’ não tinha alça que prendesse o conjunto aos ombros. Se não desabava, era por magia. A todo momento, parecia que a roupa ia cair, daí o apelido. Ousado naquela época, hoje não comove mais ninguém.

‘Insitando’ o ‘recentimento’

Sérgio Rodrigues (*)

Temos um ministro da Educação que escreve “insitar”. O erro de grafia poderia ser um deslize sem maior significado: ortografia, afinal, é só a casca da palavra. É tão possível pensar errado com letrinhas certas quanto pensar certo com letrinhas erradas.

Se nesse caso a grafia torta de “incitar” (verbo que significa estimular, instigar) tem, sim, um significado maior, isso se deve ao fato de a batatada ter sido cometida pelo ministro da Educação de um país tragicamente iletrado.

Mais: um ministro da Educação que, logo após ter negado “insitar” a violência, demonstrou que, além de usar letrinhas erradas, também é desafeto do pensamento certo ao anunciar uma violência inédita: o corte de verbas para “universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia”.

“A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, explicou Abraham Weintraub. Exemplos de evento ridículo, segundo ele: “Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”.

UnB, UFF e UFBA, as três instituições nomeadas pelo ministro da Educassão (atenção, revisores!), estão entre as de melhor desempenho acadêmico do país. E daí? A ala do governo que reza pela cartilha do guru Olavo de Carvalho, à qual pertence Weintraub, tem se especializado em desprezar fatos. Seu motor é puramente ideológico.

As barreiras – inclusive constitucionais – diante dessa máquina de ceifar verbas universitárias são vultosas. No fim das contas, é possível que tudo dê em nada e o episódio fique na história como mais um dos tiroteios de festim com fumaça de gelo seco em que o governo Bolsonaro é pródigo – espetáculos que seriam anódinos se não fizessem perder tempo um país já tão atrasado.

De todo modo, ao expor de forma cândida suas motivações, Weintraub abre a guarda e incita uma reflexão sobre o solo, digamos, emocional em que se fundam essas e outras balbúrdias provocadas por um governo de triste desempenho. A palavra-chave é ressentimento.

Na referência a eventos de sem-terra, evidencia-se o rancor com a inclinação esquerdista que predomina no meio acadêmico – como se a liberdade de pensamento não fosse garantida pela Constituição e como se fosse preciso ser de esquerda para divergir do bolsonarismo.

Isso é óbvio até demais, mas o melhor vem agora. Na denúncia ridícula de delirantes orgias de peladões no campus, fica escancarada a semente rancorosa de todo moralismo: “Malditos depravados – e nem me convidaram!”

O ressentimento, “mágoa que se guarda de uma ofensa ou de um mal que se recebeu” (Houaiss), é forte candidato a síntese do espírito desse tempo esquisito.

Palavra do século 16, o verbo “ressentir” se formou no próprio português, segundo os estudiosos, pela junção re + sentir. O prefixo indica reforço e reiteração: ressentir é sentir muito, continuadamente. Para o ressentido, a ofensa – real ou imaginária – nunca vai embora. Perdão e superação são ideias que ele não consegue conceber. Vingança, ainda que à custa da destruição de tudo à sua volta e até de si mesmo, é seu único horizonte.

“Nada no mundo consome um homem mais depressa do que a paixão do ressentimento”, escreveu Nietzsche em “Ecce Homo”. Em tempo: talvez o ministro goste de saber que, por um breve período no século 18, uma flutuação ortográfica levou a palavra a ser grafada “recentimento”. Fica a dica.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Debatendo com criminosos

José Horta Manzano

Há alguns anos, escrevi o artigo Os amigos de meus amigos. Conta o percurso acidentado de doutor José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal de 2005 a 2011. O bem-apessoado homem político coleciona percalços. A universidade que lhe deu o título de engenheiro foi fechada por falhas na pedagogia e também por ‘malfeitos’ éticos e administrativos. Embora os que lá se formaram não tenham culpa direta disso, enfrentam problemas de legitimidade.

Em provável busca de compensação, doutor Sócrates defendeu tese de mestrado num instituto de Paris. Em 2013, após deixar o cargo de primeiro-ministro, lançou um livro sobre a tortura na democracia, baseado na tese que havia defendido na França. Seu ‘ghost writer’ – o professor universitário que realmente escreveu o livro – confessou ao MP português ter sido remunerado com dezenas de milhares de euros para redigir não só o livro, mas também a tese de José Sócrates. O prefácio do livro é assinado por Lula da Silva. Não é proibido especular que o texto tenha sido redigido pelo mesmo escritor-fantasma que cuidou do livro.

Embora não esteja comprovado, diz-se, à boca pequena, que 98% dos exemplares da primeira edição do livro teriam sido comprados pelo próprio autor, com verbas desviadas de estatais. A manobra teria garantido sucesso editorial e imediata impressão da segunda edição. A história, se não for verdadeira, é bem bolada.

Pouco depois do lançamento do livro, doutor José Sócrates foi preso preventivamente. Não por ter escrito o livro, mas por ser alvo da Operação Marquês, processo complexo ainda em fase de instrução. De lá pra cá, já deixou a cadeia, mas está de tornozeleira, à disposição da Justiça. Sócrates é acusado por 31 crimes e delitos de corrupção e malversações diversas de dinheiro do contribuinte português. Por enquanto, ainda que tudo o acuse, a presunção de inocência impede que se lhe aplique etiqueta de culpado.

Semana passada doutor Sergio Moro, nosso ministro da Justiça, esteve em Portugal. Quando de uma entrevista, respondendo à pergunta de um repórter, citou a Operação Marquês – aquela em que José Sócrates é acusado – como exemplo das dificuldades de avançar da Operação Lava a Jato. Incomodado com a menção da operação em que é visado, o ex-primeiro-ministro tratou Moro de «ativista político disfarçado de juiz». Futriqueiros, os jornalistas correram levar o xingamento ao ministro Moro só pra ver a reação. Moro então perdeu as estribeiras e disse com todas as letras: «Eu não debato com criminosos pela televisão. Então, não vou fazer mais comentários.»

O prefaciador e o escritor, ambos enrolados com a Justiça.
O primeiro, condenado e preso; o segundo, de tornozeleira

Nosso ministro, de costume tão sossegado e comedido, devia estar num mau dia. Escorregou feio. Esquecido de que é ministro da Justiça do Brasil, desceu a lenha no réu de um processo em terra estrangeira e, mais que tudo, tratou Sócrates de «criminoso», passando por cima do fato de ele ainda não ter sido condenado. É imperdoável, principalmente na boca de um ex-juiz. Pegou muito mal. O revide do ex-primeiro-ministro veio rápido. Numa entrevista na televisão, pontificou: «Moro só é ministro por ter metido o Lula na cadeia».

Quem diz o que quer ouve o que não quer. Bem feito!

Castigo

José Horta Manzano

Huancavelica é uma pequena cidade peruana, capital da região de mesmo nome. A vida não é fácil naquelas alturas. A mais de 3.500 metros de altitude, o clima é rigoroso. No mês mais quente do ano, a temperatura máxima raramente chega a 20 graus. Neve e gelo são ocorrências corriqueiras. Terremotos são registrados com espantosa frequência.

Como em toda parte, em Huancavelica também há jovens descabeçados. Numa fria madrugada de outubro passado, Jhonatan Michael(sic) e Michael Jordan(sic), rapazes de pouco mais de 20 anos de idade, tiveram a péssima ideia de assaltar um cidadão que, sentado num banco da praça, telefonava para a namorada. Roubaram-lhe o celular.

Indignado, o cidadão deu queixa, e os ladrões acabaram descobertos e presos. Levados a julgamento, receberam pena de 4 anos em regime fechado. No entanto, magnânima, a juiza ofereceu-lhes uma alternativa pra escapar da cadeia. Se aceitarem, terão de cumprir regras de conduta rigorosas. Não poderão frequentar discotecas nem bares de reputação duvidosa. Terão de retomar estudos universitários. E, cereja em cima do bolo, estão obrigados a ler o livro O Alquimista, de Paulo Coelho. A leitura de outro livro, escrito por autor americano, também faz parte das obrigações impostas. As duas obras deverão ser lidas no prazo de um ano.

Portal RPP, Peru

A mídia peruana está elogiando a bondade da juíza. Não é todos os dias que se assiste a uma conversão de pena tão generosa. Quanto a mim, concordo que cadeia em regime fechado pode não ser a pena adequada a todos os casos. No entanto, não acho que a juíza tenha sido tão bondosa assim. Retomar estudos, evitar lugares duvidosos, cumprir regras de conduta – ainda vá lá. Mas ler Paulo Coelho? Cruzes! É cruel demais! A juíza revelou seu lado sádico.

Se o distinto leitor não leu, recomendo dar uma espiada no texto que publiquei no ano passado sobre o livro O Alquimista. É uma análise, feita por J. Milton Gonçalves, que ressalta os erros gramaticais cometidos por senhor Coelho. É impressionante constatar a que ponto esse senhor trata a língua a bofetões. Imagino – e espero – que a tradução para o espanhol tenha corrigido os escorregões do autor. Sorte de nossos ladrões de celular, que lerão a obra num castelhano castiço e expurgado de pedregulhos.

Proficiência

José Horta Manzano

Vez por outra, topamos com alguma imprecisão de tradução na mídia brasileira. O texto original é mal transcrito, e a gente acaba não entendendo. É compreensível que isso aconteça, tão parco é nosso conhecimento de línguas estrangeiras. É pena, porque essa pobreza cultural acaba por estreitar o horizonte de todos, mas assim são as coisas. A gente imagina que, em outras terras, seja bem diferente. Em geral é – mas nem sempre.

É verdade que, na Holanda e na Dinamarca, são todos praticamente bilíngues. São pequenos países de língua praticamente desconhecida além-fronteira, onde o aprendizado de inglês é incentivado desde a escola elementar. O exemplo dos mais velhos, que praticam essa língua com habilidade, dá ânimo aos pequenos. E o círculo virtuoso se perpetua.

Mas nem todo estrangeiro é holandês ou dinamarquês. Alguns povos, mais recalcitrantes, são conhecidos pela aversão que sentem pelo aprendizado de línguas estrangeiras. Entre eles, destacam-se os franceses. Saudosos, talvez, do tempo em que a língua de Molière pairava acima das demais em prestígio e difusão internacional, resistem a estudar idiomas. Nesse terreno, são duros de molejo.

Acabo de topar com um magnífico exemplo da imperícia francesa com línguas estrangeiras. Le Petit Journal é um portal voltado para expatriados franceses. Gratuito, é financiado pelos anunciantes. Acolhe colaboração de franceses residentes no mundo inteiro. Na sequência da entrevista concedida por Lula da Silva estes dias, publicaram artigo assinado que leva título inquietante: «L’interview de Lula censurée par les médias brésiliens? – A entrevista de Lula censurada pela mídia brasileira?».

Le Petit Journal

No corpo do artigo, a dúvida do título se torna certeza. Afirmam, com todas as letras, que sim, a entrevista de nosso guia foi boicotada pelos outros veículos brasileiros. Incrédulo, tive de ler até o fim pra entender a trapalhada. A confusão baseia-se num tuíte da jornalista da Folha que entrevistou o Lula. Mônica Bergamo tuitou: «A entrevista de Lula (…) foi um ROMBO na censura no Brasil (…)». E a articulista francesa traduziu: «A entrevista de Lula (…) foi alvo da censura brasileira (…)». A autora do texto afirma ainda que a mídia brasileira não tratou do assunto e que a entrevista só foi mencionada em sites alternativos. Pra você ver aonde pode levar a pobreza de conhecimento de línguas.

Em conclusão, a moça leu o tuíte, não entendeu mas achou que devia ser o que não era pra ser mas que achava que era, resolveu seguir adiante assim mesmo, publicou o que não devia, seus leitores ficaram meio sem entender, e… viva São João!

Nesta era de fake news propositais, precisa acrescentar nova categoria: as fake news por imperícia. Assim caminha a humanidade.

Se quiser conferir, clique aqui.

Da cadeia para o mundo

José Horta Manzano

Entre surpreso e incrédulo, o mundo recebeu a notícia de que Lula da Silva tinha dado entrevista à imprensa.

– Entrevista? Como assim? Mas ele não estava preso até outro dia?

– Pois ainda está. Mas o Brasil, sacumé, é um país que às vezes corre fora dos trilhos. Preso pode dar entrevista. Depois do Lula, dá pra imaginar um punhado de grão-condenados fazendo fila pra aparecer diante dos holofotes.

– Vão permitir que outros deem entrevista também?

– Se permitiram a um, não vejo como poderiam negar a outros. Quem se habilitar já pode começar a fazer fila.

Esse diálogo é imaginário. Mas não fantasioso. Fico realmente preocupado ao pensar que Marcola, Eduardo Cunha, Fernandinho Beira-mar e outros meliantes podem exigir o mesmo tratamento. Sempre haverá algum órgão de imprensa interessado em colher a entrevista. Já pensou?

Voltando à entrevista do Lula, foi particularmente edificante o trecho em que ele diz que essepaiz está sendo governado por «um bando de maluco». (Já reparou que Lula da Silva nunca pronuncia o nome dessepaiz? Freud deve poder explicar.) Pessoas sensíveis devem ter se sentido incomodadas com a violência das palavras proferidas por alguém que, afinal, já foi presidente da República. Não é comum. Bom, também não é comum um ex-presidente estar encarcerado por corrupção. Talvez isto explique aquilo.

Pouco comum também foi a resposta do atual presidente. Irritado, doutor Bolsonaro retrucou que mais valia o Brasil estar sendo governado por um bando de loucos do que por um bando de cachaceiros. Touché! Impressionante mesmo é o nível do palavreado dessa gente – tanto os loucos quanto os cachaceiros. Tudo farinha do mesmo saco.

Fiquei curioso em descobrir como a imprensa internacional tinha dado a notícia, em especial como tinham traduzido a expressão ‘bando de maluco’.

Os órgãos de língua francesa foram unânimes: disseram todos que o Brasil era governado por «une bande de fous». É tradução ao pé da letra.

A mídia de língua inglesa foi mais variada. Alguns, como The Guardian, traduziram por «lunatics». Outros, como o Washington Post, preferiram «crazy people». A edição inglesa de France 24 foi mais elaborada. Optou por «gang of madmen» – gangue de gente louca.

Os castelhanos também foram sortidos. TeleSur, a tevê de Maduro, tascou «una banda de locos». O Portal Notimerica foi mais sóbrio: «un puñado de locos». E o argentino Clarín escolheu uma formulação mais coloquial: «una banda de chiflados» – um bando de gente de raciocínio perturbado.

Antes, os cachaceiros. Agora, os loucos. Essepaiz está bem arrumado.

Nada é eterno, doutor!

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 abril 2019.

Para quem se apresentava como o único candidato capaz de acabar com política contaminada por ideologia, doutor Bolsonaro está saindo melhor que a encomenda. Por detrás de cada ato, de cada nomeação, de cada pronunciamento, cochila um laivo doutrinário. As viagens presidenciais ao exterior, por exemplo, têm vindo embaladas pra presente, descritas como importantes para reforçar laços comerciais. Rasgado o invólucro vistoso, aparece o papel pardo de armazém chinfrim a denunciar que a motivação era, na realidade, ideológica.

Uma regra não escrita determina que a primeira viagem de todo presidente nosso seja a Buenos Aires. A razão é simples: ainda que não seja o maior cliente de nossas exportações, a Argentina é nosso mais importante vizinho de parede. Ainda que acontecimentos extraordinários deixem o mundo de ponta-cabeça, nossos hermanos estarão sempre ali, colados, do outro lado da fronteira. Pra viver em harmonia, convém tratar bem a vizinhança. Doutor Bolsonaro preferiu passar por cima dessa lógica trivial. Reservou a primeira saída internacional para uma visita ao Chile. Na volta, a geografia não havia mudado: a Argentina continuava vizinha. Vizinha e de nariz torcido.

Faz uns vinte anos, formou-se nos EUA o Congresso Mundial das Famílias, movimento ultraconservador dirigido contra os homossexuais, contra o divórcio, contra direitos LGBTs, contra o aborto, contra tudo que escape aos rígidos limites do que entendem ser a família tradicional. Desconfio um pouco desses movimentos que são contra. É mais produtivo ser a favor. As armas para lutar em prol de alguma coisa são sempre menos agressivas do que as que se utilizam pra lutar contra. Ser contra tanta coisa ao mesmo tempo só pode ser fonte de mau humor. Nas reuniões desse movimento, sorriso há de ser artigo raro. Vade-retro!

Cruzada medieval

Os congressos mundiais do grupo têm lugar anualmente. Dos três últimos, realizados na Geórgia, na Hungria e na Moldávia, pouco se falou. Este ano, dado que a honra de acolher a edição coube à Itália, o evento cresceu em importância. Quando alguém declara não ter «nada contra homossexuais, cada um que viva a vida que escolheu», fique de pé atrás, distinto leitor. É quase certo que se trata de alguém digno de ostentar carteirinha de sócio do Congresso das Famílias. Usando declaração desse teor como guarda-chuva, Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro da Itália, avalizou o evento com sua presença. Impossibilitado de comparecer, doutor Bolsonaro fez-se representar pela secretária nacional da Família – que prestigiou o congresso com um discurso. Para um presidente que prometia acabar com ideologias, está de bom tamanho.

Faz dez dias, na preparação de nova estrepolia, doutor Bolsonaro mandou um dos filhos em viagem exploratória a países da Europa, selecionados a dedo, que pretende visitar ainda este ano. São a Polônia e a Hungria, destinos que, somados, respondem por 0,4% de nossas exportações. Já se vê que a motivação comercial é pouca pra abalar presidente. À boca pequena, corre explicação mais convincente. O objetivo é inscrever nosso país no bloco ultraconservador cujos contornos já se desenham em forma de «cinturão bíblico» a proteger a Europa contra hipotéticas hordas de incréus. E lá vamos nós comprar mais uma guerra que não é nossa.

Mas a história é cíclica e o destino inexorável de todo bloco é o desmanche. Os de direita e os de esquerda se desfazem. Tanto o temível eixo Berlim/Roma quanto a poderosa URSS desmoronaram bonito. A vertigem do poder costuma cegar e impedir os ungidos de enxergar essa evidência. No entanto, se os filhos ainda não têm maturidade para entender, doutor Bolsonaro já tem idade e experiência pra se convencer de que o importante é melhorar as condições de vida do povo brasileiro, objetivo maior de seu mandato. Blocos, fugazes por natureza, fazem-se e desfazem-se ao sabor da alternância de dirigentes. O que vale hoje pode já não valer amanhã. Penduradas as chuteiras, melhor será ser lembrado por ter construído um Brasil melhor do que por ter sido membro de um grupo que virou pó.

Pasteurização da informação

José Horta Manzano

Terça-feira passada, quando saiu o veredicto do STJ sobre o recurso interposto pela defesa de Lula da Silva, não ocorreu a nenhum jornal brasileiro botar na manchete que o tribunal havia confirmado a condenação do ex-presidente por corrupção. Todos pularam esse “detalhe” e passaram direto ao ajuste da extensão da pena imposta ao condenado. Assim, as manchetes variaram em torno do tema da dita dosimetria. Caciques petistas, por má-fé ou ignorância, chegaram a festejar a decisão como se de vitória se tratasse. Quem não tem cão…

Por que terá acontecido isso? A meu ver, a explicação é uma só. Na cabeça de todos, a confirmação da condenação já eram favas contadas. Sobre esse ponto não havia suspense. Ninguém, em sã consciência, imaginava que o STJ pudesse inocentar o Lula. Condenado estava e condenado continuaria, esse era o entendimento geral. A expectativa estava mesmo em torno da manutenção ou de um ajuste da pena, daí a ênfase dada à adaptação dela.

A imprensa mundial foi contaminada pelo anticlímax. Todos deram a notícia segundo a receita nacional, ou seja, ressaltando que, por unanimidade, o tribunal havia reduzido a duração da pena de prisão de Lula da Silva. A confirmação da sentença sumiu do radar ou ficou em segundo plano.

Gazzetta del Mezzogiorno, Bari (Itália)

Topei com uma única exceção. Trata-se da Gazzetta del Mezzogiorno, pequeno órgão da longínqua cidade de Bari, região da Puglia (ou Apúlia, como preferem os puristas). Para quem olha para o mapa, essa região forma o salto da bota italiana. Sabe-se lá por que prodígio, o jornal deu a manchete: «Alta Corte conferma condanna Lula per corruzione – Corte Superior confirma a condenação de Lula por corrupção». A redução da pena só apareceu no subtítulo.

A dez mil quilômetros de distância, um pequeno jornal provinciano conseguiu escapar da uniformização esparramada pela grande mídia. Parabéns.

Lula da Silva: o que vai sobrar

José Horta Manzano

Por unanimidade, o STJ confirmou a culpa de Lula da Silva. O ex-presidente se transforma assim em condenado em terceira instância. É dureza, meu irmão. São já dois tribunais colegiados a confirmar, por unanimidade, o entendimento da primeira instância. A duração da pena – que atende pelo curioso nome de ‘dosimetria’ – foi reduzida para estabilizar-se ligeiramente abaixo da que tinha sido imposta por doutor Moro. São só sete meses a menos.

É boa notícia essa decisão do STJ? Depende. A resposta não pode ser dada simplesmente com um sim ou um não. O assunto é um pouco mais complexo. Para muitos dos seguidores do Lula, é a grande notícia da temporada, aquela que põe o demiurgo mais próximo de uma afrouxamento da prisão: regime semiaberto ou prisão domiciliar. No outro polo, para muitos dos detratores do ex-presidente, a notícia é decepcionante, exatamente pelas mesmas razões: o Lula fica mais próximo de uma prisão aliviada.

Cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato. Para o Brasil, de qualquer modo, a notícia não é nada boa. Não porque o condenado deva cumprir pena mais longa ou mais curta. Isso, para nós que estamos fora da cadeia, é de pouca importância. O que nos deixa a todos amargurados é o fato de o STJ ter confirmado que Lula da Silva é mesmo corrupto.

É uma mancha que, cada dia mais, vai se entranhando e marcando nossa história. A não ser que improvável reviravolta aconteça no STF e que o processo todo seja anulado por algum vício de forma, percebe-se hoje que o Brasil carregará para sempre a vergonha de ter tido um presidente condenado por ser ladrão. E justamente aquele que, eleito e reeleito, se apresentava como diferente dos demais, homem puro, bem-intencionado, disposto a dar a própria camisa pra vestir o próximo. Dos governantes recentes, foi o que melhor enganou o distinto público.

Daqui a muitos anos, quando a poeira tiver baixado e estivermos todos mortos, nossos trinetos vão considerar que esta é uma página negra de nossa história, um acontecimento que a gente gostaria de poder apagar.

Barriga vazia

José Horta Manzano

O governo francês acaba de descobrir duas verdades. Embora evidentes para os brasileiros, eram fatos desconsiderados, pelo menos até aqui, pelas autoridades de Paris. A primeira verdade revela que, muitas vezes, criança de família pobre chega à escola de manhã de barriga vazia. A segunda, incontestável, diz que a fome é inimiga do bom aprendizado.

Apesar de serem, pela média estatística, mais ricos que os demais, os países do Primeiro Mundo também têm bolsões de pobreza. A rigor, as pessoas de baixa renda estão concentradas em determinados municípios ou bairros afastados e esquecidos pelo poder público. Aluguéis mais abordáveis são a principal razão de essas pessoas viverem nesses lugares. É justamente nessas regiões que alguns aluninhos chegam à escola de barriga roncando.

O ministro francês da Educação anuncia que um café da manhã gratuito deverá ser oferecido aos pequenos da escola elementar. Por enquanto, o experimento se fará a título facultativo. Fica a critério do prefeito de cada município. Os que quiserem tentar a experiência podem solicitar ajuda financeira do governo central.

Para nós, a medida parece tão evidente que nem vale a pena discutir. Na França, no entanto, a polêmica é esporte nacional. Discute-se sobre tudo, e cada um faz questão de dar opinião. Assim que foi anunciada a proposta do governo, surgiram vozes discordantes. Há quem diga que alimentar crianças não é papel da escola. É verdade, mas… fazer o quê? Esperar pra ver como evolui o mundo enquanto barriguinhas roncam?

Há também quem argumente que a medida vai agir como estigma. As crianças que tomarem café na escola estarão passando atestado de pobreza. Os alunos ou vão desfilar na ala dos abastados ou na dos miseráveis. É até capaz de algum pai proibir o filho de tomar café na escola só pra não descobrirem que a família está passando por um aperto. O argumento tem lá seus fundamentos. Caberá à escola inventar um modo de contornar o problema. Talvez instituindo um cardápio tão inventivo que nenhuma criança consiga resistir.

Há ainda outros argumentos contra a medida:

  • «Que cada município use seu dinheiro pra cuidar dos próprios pobres. Por que é que eu tenho de financiar café da manhã com meus impostos?»
  • «Os pais é que deviam ser penalizados por não darem de comer aos próprios filhos.»
  • «Isso é coisa de estrangeiros. Franceses de raiz não deixam os filhos passar fome.»
  • «Crianças que já comeram em casa vão querer acompanhar os outros e vão acabar tomando café pela segunda vez. Isso é incentivo à obesidade.»

O número de opiniões empata com o número de habitantes do país.

A mim, parece uma resolução de bom senso. Podem-se discutir os detalhes, mas o acerto da medida é indiscutível. Vamos ver como evolui a ideia. É bom que venha novo debate nacional, que o país está precisando. Essa insistência dos «Coletes Amarelos» de infernizar a existência já deve estar dando nos nervos da população. É hora de mudar de estação.

A camiseta e o marketing

José Horta Manzano

Na França, um detalhe da Páscoa de doutor Bolsonaro chamou a atenção do distinto público. Foi quando o presidente, que parecia tomado pelo espírito de Dilma Rousseff, saiu por aí dando voltinhas de motocicleta.

by Jean Galvão (1972-), desenhista paulista

Fosse só isso, não teria sido notícia na França, país cujos jornais ainda estão preocupados com o incêndio de Notre-Dame, com os atentados do Ceilão (Sri Lanka), com as depredações dos «Coletes Amarelos». O que chamou a atenção foi o fato de doutor Bolsonaro estar vestido com uma camiseta do PSG (Paris Saint-Germain), o mais importante time de futebol do país.

Nas encenações de marketing moderno, todo detalhe tem importância. Atônitos, os analistas ainda estão tentando decifrar a mensagem que se esconde atrás da camiseta. Seria o número 10 alusão a Neymar? Por que o número está gravado na frente, no estilo do futebol americano? Por que ele não vestiu uma camiseta da Seleção? Se parou para a foto, é porque queria ser visto. Por que razão?

Podem discutir dias e dias, mas acho que não vão encontrar nenhuma explicação lógica. O marketing caseiro dos Bolsonaros costuma ser atabalhoado, sem pé nem cabeça. O que parece nem sempre é. Melhor deixar pra lá. Talvez não haja marketing nenhum e a resposta seja prosaica: o quarto estava escuro e o doutor só apanhou aquela camiseta porque ela estava no topo da pilha.

Observação futebolística
Na França, a força do PSG – Paris St-Germain é tamanha que os bolões esportivos nem perguntam mais quem será o campeão. A resposta é conhecida antes do começo do campeonato. As apostas começam do segundo colocado pra baixo.