Micsoda megkönnyebbülés!

Péter Magyar

José Horta Manzano

O título em húngaro, uma língua de insondáveis mistérios, impressiona. Traduzido, fica menos assustador: “Que alívio!”.

Vistos do Brasil, acontecimentos europeus parecem distantes, sem relação com nosso universo. No entanto, num mundo em que tudo está cada vez mais engatado, tudo está de certa maneira relacionado.

Os húngaros votaram domingo. Dado que vivem num regime parlamentar, quem governa é o primeiro-ministro, que costuma ser o chefe do partido vencedor das eleições – como na Inglaterra e na Alemanha. Durante quatro legislaturas (16 anos), o populista Viktor Orbán, chefe do partido Fidesz, esteve à frente do governo.

Como costumam fazer os populistas de extrema direita, foi aos poucos impondo leis que estigmatizam minorias como os LGBTs, modificando a Constituição conforme suas conveniências, redesenhando os distritos eleitorais a fim de garantir sua permanência indefinida no poder. Aproximou a Hungria da Rússia, bloqueou toda ajuda à Ucrânia, e ainda, na reta final, recebeu uma ajudazinha de Trump, que, estes dias, despachou seu vice-presidente para levar apoio ao protoditador.

De repente, surgiu um certo Péter Magyar, jovem político de 45 anos, que criou um partido e decidiu desafiar Orbán. No começo, não pareceu encantar, mas em pouco tempo sua popularidade foi crescendo. Muitos húngaros viram nele o “homem da mudança”, aquele que poria o país de volta aos trilhos e acabaria com o já longo reino do Partido Fidesz. Como se sabe, o poder desgasta e os eleitores acabam se cansando de ver sempre a(s) mesma(s) cara(s). (É, de certa forma, o que está ocorrendo neste momento no Brasil.)

Num resultado que poucos ousavam esperar, o desafiante ganhou de lavada. Seu partido deve conquistar 138 dos 199 assentos do Parlamento contra 55 para o Fidesz. “Isso vai lhe garantir uma supermaioria constitucional”, escreve o Le Monde de Paris, “de cerca de 70% dos deputados”.

“A democracia triufou na Hungria”, resume o semanário alemão Die Zeit. “O conservador pró-europeu Péter Magyar destronou o nacionalista Viktor Orbán”, escreveu Le Figaro. Já Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, “esperou não mais que 17 minutos para comemorar a pesada derrota de Orbán”, nota a publicação Politico. Von de Leyen continuou: “A Hungria escolheu a Europa. A Europa sempre escolheu a Hungria. A União sai fortalecida”.

A participação ao voto, num país onde ele não é obrigatório, chegou a 80% dos eleitores, o que nunca havia acontecido desde a queda do comunismo. Budapeste, fiel à sua fama de cidade festeira, dançou e comemorou até o fim da noite. Le Figaro ainda anotou que a eleição “havia se transformado num grande referendo sobre Orbán e sua diplomacia pró-Rússia. Terá de se despedir após 16 anos de poder.”

O líder, que buscava um quinto mandato consecutivo, não demorou a “ligar para Magyar para dar-lhe os parabéns pela vitória. Logo em seguida, discursou para seus apoiadores para reconhecer sua derrota dolorosa”, destaca o espanhol El País. E prossegue: “Um resultado decisivo não apenas para a Hungria, mas também para toda a União Europeia”.

Os grandes desapontados vivem em Moscou e Washington. Chamam-se Vladimir Putin e Donald Trump. É que faz tempo que ambos estão empenhados em chacoalhar o coqueiro da União Europeia pra ver se conseguem desprender alguns cocos. A Hungria estava no bom caminho, próxima de Moscou e, surpreendentemente, apoiada por Washington. Não deu. O coco continua agarrado ao pé.

Quanto ao futuro da Hungria, é bom não soltar fogos antes da hora. Uma coisa são promessas eleitorais, outra coisa é a vida prática, na hora agá. O que a Europa e o mundo civilizado esperam do novo dirigente é:

  • que ponha freio à subida do autoritarismo no país,
  • que suspenda a política anti-imigração e anti-LGBT,
  • que não insista mais na aproximação com Moscou.

Por enquanto, nâo há certeza de que Péter Magyar corresponderá a essas esperanças. Vamos ver.

PS
Já imaginou se a Hungria tivesse acolhido o capitão quando ele tentou pedir asilo na embaixada húngara de Brasília? Era bem capaz de ser extraditado agora. Ficou no passado o tempo em que a gente fugia, desaparecia e ninguém mais encontrava.

Com informações de touteleurope.eu

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